Não podendo estar presente nesta iniciativa, apoio o seu objectivo de contribuir para combater a “inevitabilidade” do empobrecimento em que nos querem colocar, matando a política e as suas escolhas, sem as quais não há democracia. Gostaria no entanto de, por seu intermédio, expressar com mais detalhe a minha posição.
A ideia de que para alguém do PSD, para um social-democrata, lhe caem os parentes na lama por estar aqui, só tem sentido para quem esqueceu, contrariando o que sempre explicitamente, insisto, explicitamente, Sá Carneiro disse: que os sociais democratas em Portugal não são a “direita”. E esqueceu também o que ele sempre repetiu: de que acima do partido e das suas circunstancias, está Portugal.
Não. Os parentes caem na lama é por outras coisas, é por outras companhias, é por outras cumplicidades, é por se renegar o sentido programático, constitutivo de um partido que tem a dignidade humana, o valor do trabalho e a justiça social inscritos na sua génese, a partir de fontes como a doutrina social da Igreja, a tradição reformista da social-democracia europeia e o liberalismo político de homens como Herculano e Garrett. Os que o esquecem, esses é que são as más companhias que arrastam os parentes para a lama da vergonha e da injustiça.
Não me preocupam muito as classificações de direita ou de esquerda, nem sequer os problemas internos de “unidade” que a esquerda possa ter. Não é por isso que apoio esta iniciativa. O acantonamento de grupos, facções ou partidos, debaixo desta ou daquela velha bandeira, não contribui por si só para nos ajudar a sair desta situação. Há gente num e noutro espectro político, preocupada com as mesmas coisas, indignada pelas mesmas injustiças, incomodada pelas desigualdades de sacrifícios, com a mesma cidadania activa e o mesmo sentido de decência que é o que mais falta nos dias de hoje.
A política, a política em nome da cidadania, do bom governo, e da melhoria social, é que é decisiva. O que está a acontecer em Portugal é a conjugação da herança de uma governação desleixada e aventureira, arrogante e despesista, que nos conduziu às portas da bancarrota, com a exploração dos efeitos dessa política para implementar um programa de engenharia cultural, social e política, que faz dos portugueses ratos de laboratório de meia dúzia de ideias feitas que passam por ser ideologia. Tudo isto associado a um desprezo por Portugal e pelos portugueses de carne e osso, que existem e que não encaixam nos paradigmas de “modernidade” lampeira, feita de muita ignorância e incompetência a que acresce um sentimento de impunidade feito de carreiras políticas intra-partidárias, conhecendo todos os favores, trocas, submissões, conspirações e intrigas de que se faz uma carreira profissionalizada num partido político em que tudo se combina e em que tudo assenta no poder interno e no controlo do aparelho partidário.
Durante dois anos, o actual governo usou a oportunidade do memorando para ajustar contas com o passado, como se, desde que acabou o ouro do Brasil, a pátria estivesse à espera dos seus novos salvadores que, em nome do "ajustamento" do défice e da dívida, iriam punir os portugueses pelos seus maus hábitos de terem direitos, salários, empregos, pensões e, acima de tudo, de terem melhorado a sua condição de vida nos últimos anos, à custa do seu trabalho e do seu esforço. O "ajustamento" é apenas o empobrecimento, feito na desigualdade, atingindo somente "os de baixo", poupando a elite político-financeira, atirando milhares para o desemprego entendido como um dano colateral não só inevitável como bem vindo para corrigir o mercado de trabalho, "flexibilizar” a mão de obra, baixar os salários. Para um social-democrata poucas coisas mais ofensivas existem do que esta desvalorização da dignidade do trabalho, tratado como uma culpa e um custo não como uma condição, um direito e um valor.
Vieram para punir os portugueses por aquilo que consideram ser o mau hábito de viver "acima das suas posses", numa arrogância política que agravou consideravelmente a crise que tinham herdado e que deu cabo da vida de centenas de milhares de pessoas, que estão, em 2013, muitas a meio da sua vida, outras no fim, outras no princípio, sem presente e sem futuro.
Para o conseguir desenvolveram um discurso de divisão dos portugueses que é um verdadeiro discurso de guerra civil, inaceitável em democracia, cujos efeitos de envenenamento das relações entre os portugueses permanecerão muito para além desta fátua experiência governativa. Numa altura em que o empobrecimento favorece a inveja e o isolamento social, em que muitos portugueses tem vergonha da vida que estão a ter, em que a perda de sentido colectivo e patriótico leva ao salve-se quem puder, em que se colocam novos contra velhos, empregados contra desempregados, trabalhadores do sector privado contra os funcionários públicos, contribuintes da segurança social contra os reformados e pensionistas, pobres contra remediados, .permitir esta divisão é um crime contra Portugal como comunidade, para a nossa Pátria. Este discurso deixará marcas profundas e estragos que demorarão muito tempo a recompor.
O sentido que dou à minha participação neste encontro é o de apelar à recusa completa de qualquer complacência com este discurso de guerra civil, agindo sem sectarismos, sem tibiezas e sem meias tintas, para que não se rompa a solidariedade com os portugueses que sofrem, que estão a perder quase tudo, para que a democracia, tão fragilizada pela nossa perda de soberania e pela ruptura entre governantes e governados, não corra riscos maiores.
Precisamos de ajudar a restaurar na vida pública, um sentido de decência que nos una e mobilize. Na verdade, não é preciso ir muito longe na escolha de termos, nem complicar os programas, nem intenções. Os portugueses sabem muito bem o que isso significa. A decência basta.
O MATERIAL TEM SEMPRE RAZÃO (17): CORTINAS DE FUMO
A razão principal pela qual tem havido sucessivas revisões dos valores do défice aceites pela troika é que o governo não tem conseguido cumprir as metas que negociou já após o memorando inicial. Não foi porque não tentasse, - tentou tudo, - não foi porque quisesse abrir uma janela para o "crescimento", como a propaganda insinua. Foi porque não o conseguiu, pelo irrealismo da sua política, que teve como efeito destruir a economia que havia, para depois "surpreender-se" pelo desemprego e a recessão, e os seus custos orçamentais. As sucessivas "explicações" dadas para a sistemática revisão da meta do défice, todas têm em comum esconder este dado essencial do falhanço próprio, transformando em mérito o que foi um erro, e impedir que se façam muitas perguntas incómodas sobre o presente e o futuro, ante e pós-troika.
Numa altura em que várias campanhas estão em curso, foram já publicadas no EPHEMERA cerca de 50 pastas relativas às eleições autárquicas de 2013, uma infíma parte dos milhares de candidaturas de partidos e independentes, a centenas de concelhos e milhares de freguesias. Nas eleições de 2009, o EPHEMERA publicou materiais de mais de dois terços dos concelhos e um número significativo de freguesias, a maior cobertura jamais feita na Rede e fora dela de umas eleições deste tipo, muito difícil dada a dispersão geográfica e a diversidade de candidatos, partidos e campanhas independentes. Foi um esforço colectivo em que participaram cerca de 100 amigos do EPHEMERA de todo o país, assim como muitos candidatos e responsáveis de campanhas. Esse trabalho foi complementado por várias viagens para recolha de material numa fase mais avançada das campanhas. Muitos materiais de 2009 estão ainda por publicar, assim como muitos outros de campanhas anteriores existentes em arquivo. Vou tentar garantir a publicação de maior número desses materiais anteriores, mas RENOVO DESDE JÁ O APELO A TODOS OS AMIGOS E COLABORADORES PARA SE COMEÇAR A RECOLHA DAS ELEIÇÕES DE 2013.
NOTA: dada a natureza do ARQUIVO / BIBLIOTECA o objectivo principal é a recolha física dos materiais de campanha (panfletos, cartazes, objectos de campanha, T-shirts, autocolantes, etc.), e não apenas a reprodução dos materiais online disponíveis na Rede. É óbvio que a existência de digitalizações facilita a colocação dos materiais no EPHEMERA poupando trabalho, mas a recolha física é fundamental para permitir a exposição ou investigação a partir da integralidade do espécime. Existe um projecto de uma grande exposição de muitos destes materiais cobrindo a actividade política em Portugal desde o 25 de Abril, em conjunto com uma universidade, e várias cedências de materiais tem sido feitas para pequenas exposições ou para reprodução em livro. Por isso a materialidade física é importante e nesse sentido não só é possível fazer entregas pessoais, programadas para qualquer parte do país, quer envios pelo correio para José Pacheco Pereira / EPHEMERA, Rua Brito Camacho, 1, 2040-158 Vila da Marmeleira, Rio Maior.
"Entre o conhecimento do bem e do mal há uma grande
diferença: o mal conhece-se quando se tem e o bem quando se teve; o
mal, quando se padece, o bem, quando se perde."
Muitas das semanas em que
escrevo para o PÚBLICO tenho o dilema habitual de quem tem de escolher o
assunto sobre o qual deve escrever e não aquele sobre o qual gostaria
de escrever. Às vezes juntam-se os dois, o dever e o gosto, mas com a
vida pública estagnada nas profundezas, mas agitada à superfície, o
dever torna-se tão repetitivo e sombrio, que o gosto brilha ainda mais
no escuro lá longe. Seja, faz parte dos tempos.
Na verdade, se
escrevesse sobre o que me apetecia, escreveria sobre arquitectura romana
como amador curioso, sobre a extrema-esquerda ou o PCP como
historiador, ou sobre papéis antigos e em risco como caçador-recolector.
Arquitectura romana? Sim, nos meus tempos de iPad, tenho seguido as
aulas de Yale da professora Diana Kleiner sobre arquitectura romana e
aprendido muito. Mandei vir o livro clássico sobre arquitectura imperial
romana, o Ward-Perkins, e como estes cursos são a sério - 25 aulas de
uma hora - aprende-se muito. De Roma à Atenas romana, de Ostia a Leptis
Magna na Líbia, de Petra na Jordânia a Balbeek no mortífero Vale de
Bekaa entre o Líbano e a Síria, a análise que Kleiner faz dos edifícios
de todo o tipo, templos, armazéns, casas, palácios, lojas, túmulos,
teatros, deu-me uma dimensão muito diferente do império romano muito
para além dos textos que lera e da história. Agora tenho de ver com
outros olhos muitos dos edifícios que vi mal e ir ver alguns que nos
guias aparecem apenas como curiosidades. Excelente, nunca é tarde para
aprender e o mundo seria muito mais aborrecido se não fosse assim.
Para além disso, faço nestes dias o meu book tour
do livro sobre a imprensa da extrema-esquerda, e escrevo o próximo
volume da biografia de Cunhal. Poderia, com facilidade e gosto, escrever
sobre tudo isto, explicar a dificuldade que cada volume de Cunhal
oferece, sempre diferentes entre si. Fazer uma "estória" da história.
Antes de 1960, rareavam os depoimentos e os documentos é que permitiam a
narração. Havia os manuscritos de Pato, com notas que permitiam
reconstruir o interior das reuniões do topo do PCP, perante o silêncio
dos participantes que ainda eram vivos. Agora, para os anos 60, há
muitos depoimentos e testemunhos, mas há menos documentos acessíveis do
núcleo duro do poder partidário. A PIDE não apreendeu nenhum grande
arquivo central do PCP depois das prisões de 1961 e o PCP passou a
mandar para fora de Portugal os papéis, que depois do 25 de Abril trouxe
e fechou. E, como se sabe, a memória é perigosa sem os papéis.
Poderia também escrever no PÚBLICO de como é interessante traçar a génese do Rumo à Vitória,
a principal obra teórica de Cunhal, como o autor a preparou em Moscovo,
com que apoio e com que fontes, e, como, por detrás da "linguagem de
pau", aparece um Cunhal muito mais nacionalista do que se pensa, e um
homem que dedicava mais atenção aos campos do que às fábricas. Ou, de
como Cunhal, contrariamente ao que diziam os esquerdistas, se preocupou
(e tentou) desencadear acções armadas praticamente desde que fugiu da
cadeia e a contraciclo da URSS de Khrustchov.
E há aquilo que,
depreciativamente, alguns classificam do meu lado de coleccionador, lado
para que durmo melhor, sendo que durmo bastante bem para todos os
lados. E, aí, gostaria de falar daquilo que os bibliófilos compulsivos
também fazem, da recolha semanal, do prazer de salvar um núcleo de
documentos originais sobre a campanha eleitoral de Delgado, ou sobre a
história do movimento estudantil nos anos 60, ou jornais do século XIX,
uma espécie ameaçada, ou de como, num álbum de fotos do Carnaval na
região oeste, nos anos 10 e 20 do século passado, me apareceu uma
fotografia original do 5 de Outubro, ou de como num caderno de notas
está uma muito interessante história de Salazar seminarista que nenhum
dos seus biógrafos conhece.
Ou seja, não faltam temas para
escrever a gosto. Mas há os temas a desgosto, há "outra" semana, mais
cruel e dura e conforme com os tempos. Na rua, as pessoas que me falam, e
são cada vez mais, transmitem desespero, medo e muita raiva. Querem ter
"voz", porque não a tem.
Uma completa desmotivação, uma forma
elegante de referir uma invisível greve de zelo, atravessa o Estado e a
sociedade, resultado da perda de tónus social que vem do empobrecimento.
Funcionários públicos aviltados que quereriam fazer greve, mas sabem
que vão ser as "chefias" a decidir quem vai para o Sistema de
Requalificação da Administração Pública, nome orwelliano para o
despedimento.
Há quem perceba que, pela primeira vez, não tem
dinheiro para pagar impostos e percebe que a partir de agora a vida vai
ser um calvário do "outro lado da Lua". Há quem, reformado e idoso,
receba uma carta ameaçadora de um senhorio pedindo cinco, dez vezes
mais, com ameaça de o pôr na rua da sua habitação de há 30 anos. Isto já
depois de ter actualizado a renda. Há quem, como toda a correnteza de
pequenas lojas comerciais da Baixa de Lisboa, restaurantes, cafés,
alfarrabistas, clubes centenários, vá para a rua nos próximos meses,
porque os senhorios decidiram "fazer obras". O mais dramático disto tudo
é que a lei está tão mal feita que vai acabar de certeza por ser
corrigida e muitos aspectos mais gravosos serão suspensos, mas deixando
para trás um rastro de sofrimento e insegurança escusada.
À minha
volta, no centro de Lisboa, vai fechar dentro de dias uma mercearia que
aguentou várias décadas de "proximidade", ou seja, de fiado e
vizinhança. Várias lojas de uma urbanização trendy, que foi prevista para restaurantes da moda, lojas de roupa fina, galerias de arte, agências de viagem e de real estate,
já desapareceram há muito. Uma muito activa e numerosa família
paquistanesa vai ocupando com os seus negócios, malas e géneros,
quinquilharia e pequenos serviços, as lojas preparadas para serem gourmet
e venderem apartamentos de luxo. Ironia das ironias foi a rápida
mudança de uma agência imobiliária para pequena mercearia com um jovem
que mal fala português vendendo aquilo que as lojas de conveniência
indianas e árabes vendem: refrigerantes, bolachas, latas de conserva,
fruta e, num armário fechado, umas versões bizarras de whisky e vodka de marcas desconhecidas.
Por
mim até está bem, dá-me mais jeito. Porém, a maioria das lojas
permanece fechada, e, para além desta pequena Islamabad, desaparecerem
as lojas de informática, as tabacarias, e há agora umas lojas
brasileiras oferecendo depilação integral, umas pedras para colocar nas
costas e uma loja de unhas e cabelos fulvos, também brasileira. Não vão
durar muito.
Os meus interlocutores e amigos das outras classes
mais de cima, chamemos-lhe assim, também não sabem para onde se virar.
Alguns, patrões e trabalhadores em uníssono, contam-me como são ao mesmo
tempo dramáticas e ridículas as reuniões da concertação social, onde,
com a política demagógica de "acabar" com as chefias, se entregou as
assessorias e consultadorias a uns jovens das jotas cuja incompetência é
"épica" para tratar de questões sérias.
A inutilidade de todo o
esforço das pessoas, a quem milhares de milhões já foram retirados não
se sabe para quê e com que resultados, leva a tudo que pareça autodefesa
face ao poder. Muita gente tira o dinheiro dos bancos para o colocar no
colchão, e, como se sabe, nos balcões mais populares, encenam-se mil e
uma estratégias para dificultar tal retirada como se o dinheiro fosse do
banco e um crime retirá-lo. Irá, a seu tempo, aparecer nas
estatísticas. Gente pequena que tinha pequenas poupanças que sabe
estarem agora inseguras. Para eles ser abaixo dos 100.000 euros ou acima
é irrelevante: os bancos deixaram de ser fiáveis e o Governo parece ser
capaz de tudo "para ir buscar dinheiro".
Podia continuar sem
limite, olhando à esquerda, direita, centro, para cima e para baixo.
Compreendam que, neste contexto, eu quero pouco saber das habilidades de
Portas, ou das sistemáticas fugas de informação destinadas a nos
enganar, ou de um governo que parece estar nas vascas da agonia,
mexendo-se sem nexo, mas com muito ruído, ou de uma agenda
comunicacional que aceita sem reservas a linguagem, os temas e os
limites do poder. E as distracções.
Voltando a Roma, haverá um tempo em que a damnatio memoria apagará estas faces patéticas e fugazes. Só que depois de muitos estragos e depois de muito tempo. E custa.
Basta ler com atenção o bizarro “comunicado” que foi publicitado depois da reunião para perceber que ela não correu nada bem nem para o Presidente, nem para o governo. A decisão de convocar o Conselho de Estado com uma agenda fechada, remetida para um futuro “pós troika” cujas características estão longe de poderem ser conhecidas é tão evidentemente escapista que, no actual contexto político, o que aconteceu não pode ser aquilo que o comunicado descreve.
Esta forma de convocar a reunião é o corolário do desejo presidencial de que nada mude no quadro governativo no próximo ano, de que não haja eleições antecipadas nem agora, nem no fim do “programa”. Trata-se de um puro desejo, que assume ares de irrealismo, visto que não passou uma semana desde que o Presidente veio de uma crise política muito séria e está a assistir a um agravamento da desagregação da coligação e do governo com episódios cada vez mais próximos no tempo. Suspira de alívio num dia, para logo se sobressaltar no dia seguinte.
A situação do governo é parecida com aqueles vulcões que antecedem a erupção com tremores de terra cada vez mais frequentes e sucessivos até explodirem de todo. O Presidente, embora avisado pelos vulcanologistas que o Pico de Dante está para explodir, não quer que evacuemos a cidadezinha para não assustra os turistas. Sabe-se como é nos filmes catástrofes.
O COMUNICADO EM “PASSOS COELHÊS”
O comunicado do Conselho é um ecrã, que tapará a realidade da reunião até muita gente que lá esteve começar a conta-la. É provável que à data em que lerem este artigo já se saiba quase tudo.
Mas fica uma perplexidade e uma preocupação. Veja-se o título da ordem de trabalhos: “Perspectivas da economia portuguesa no pós-troika, no quadro de uma União Económica e Monetária efectiva e aprofundada”.
Veja-se o comunicado a informar-nos que o “Conselho debruçou-se sobre os desafios que se colocam ao processo de ajustamento português no contexto das reformas em curso na União Europeia e tendo em vista o período pós-troika”. E mais se “debruçou”, interessante escolha de verbo, como numa varanda, sobre “a perspectiva do reforço da coordenação das políticas económicas e da criação de um instrumento financeiro de solidariedade destinado a apoiar as reformas estruturais dos Estados-Membros, visando o aumento da competitividade e o crescimento sustentável".
E por fim este truísmo que é, ao mesmo tempo, tudo e nada: “o Conselho de Estado entende que o programa de aprofundamento da União Económica e Monetária deve criar condições para que a União Europeia e os Estados-Membros enfrentem, com êxito, o flagelo do desemprego que os atinge e reconquistem a confiança dos cidadãos, devendo ser assegurado um adequado equilíbrio entre disciplina financeira, solidariedade e estímulo à actividade económica".
Porque é que isto me preocupa? É que isto é “passos coelhês”, a linguagem enrolada e pesada, obscura e tecnocrática, habitual no Primeiro-ministro quando não quer dizer nada ou quando as palavras saem entarameladas ou por incompetência ou por dolo. Por favor, se não se quer dizer o que aconteceu, faça-se um comunicado de duas linhas: o Conselho discutiu vários temas da actualidade nacional e europeia, tendo os conselheiros exprimido a sua opinião ao Presidente da República.”
Chegava e era escrito em português comum. E era mais verdadeiro.