No fundo, como em todas as coisas importantes, a simplicidade corta mais a direito. E, no fundo, é simples. O PS tem um meio de conseguir ao mesmo tempo consolidar-se como partido de alternativa, dar sentido à sua oposição, e participar de forma efectiva no debate público sobre a "reforma do estado" (cuja existência é um dos mitos circulantes, mas vamos conceder...). É simples: diz, preto no branco, quais as medidas apresentadas por Passos Coelho e Gaspar, que ele revoga no primeiro dia em que chegar ao poder. Ou não.
Depois pode, ou não, apresentar alternativas. Mas não precisa necessariamente de o fazer dentro do quadro envenenado em que as "alternativas" são apenas modos distintos de fazer a mesma coisa. Dizer o que recusará sem ambiguidades é mais útil para abrir o debate para outro campo, do que aceitar discutir nos termos desejados pelo governo. Mas, duvido que o faça, porque, como para o governo, também para o PS o material tem sempre razão.
A única pessoa que vi
defender o discurso do Presidente da República do ponto de vista
estratégico (para o PSD e CDS, a questão é táctica) foi Joaquim Aguiar,
ele próprio um conselheiro de vários presidentes. Segundo ele, e espero
ter percebido o que nem sempre é fácil, o discurso de Cavaco Silva foi o
único apropriado, o único que exibia compreensão e "contemporaneidade"
(não foi esta a palavra, mas era este o sentido, o de adequação com os
tempos) contrastando com todos os outros, que eram arcaicos. A ideia é
que vivemos num tempo DD, Depois da Dívida, e o discurso do Presidente
era o único que o compreendia, enquanto todos os outros, assim como as
críticas ao discurso presidencial, eram AD, Antes da Dívida, um tempo
que tinha acabado de vez. O Presidente percebia que o tempo AD tinha
acabado, e os outros não, estavam presos num passado que nunca mais
voltaria, logo, era ele que estava certo e não os seus críticos.
Cada um escolhe o Antes de Cristo ou o Depois de Cristo, ou, se quiser ser politicamente correcto, Common Era (CE)/Before the Common Era
(BCE), ou o calendário muçulmano, ou qualquer outro, mas alguns
economistas-políticos têm vindo a insistir neste AD/DD, mesmo que não
lhe dêem este nome, como o corte fundamental do tempo de hoje. Para
eles, há um mundo antes de 2008 e outro depois. Por detrás desta ruptura
da continuidade do tempo, estão uma tese e uma ideologia. Mas, para
eles, o que está a acontecer é tão natural como a gravidade puxar as
coisas para baixo.
Penso que o que entusiasmou Joaquim Aguiar no
discurso de Cavaco Silva foi a afirmação presidencial de que nada no
processo político democrático, nem eleições, nem programas, nem opções
livres, de partidos e pessoas, poderia pôr em causa a
"sustentabilidade", que é outro nome para a prossecução ad infinitum da política da troika,
através dos instrumentos combinados do Pacto Orçamental, da legislação
sobre o enquadramento orçamental, do poder de veto de Bruxelas e do
facto de "não haver ninguém para nos emprestar dinheiro".
É este o
mundo DD, e só os ingénuos, os ignorantes e os antiquados pensam que se
pode escapar. Para os mais exaltados videntes do DD e os seus
imitadores nos blogues, a milícia a preto e branco destas ideias,
considera-se que o Estado de Direito, a Constituição, a democracia, são
tudo coisas muito bonitas no papel, mas a "realidade" no mundo DD
considera-as irrelevantes ou subordinadas à dura Dívida. Ou seja, com
eleições ou sem elas, a política é a mesma, sejam quais forem os
partidos e os políticos eleitos. E, apesar de o PS ter votado todos
estes instrumentos de congelamento da política da troika, o
Presidente suspeita, como Joaquim Aguiar, que Seguro não é propriamente o
seu melhor e mais eficaz executor. Podia ser Vitorino ou Amado, seriam
mais fiáveis, mas Seguro há-de ter sempre um pé dentro e outro fora, por
isso, em "tempos de emergência", não serve. Por isso, não "adianta"
fazer eleições que Seguro pode ganhar. É só tempo perdido.
Numa
coisa estou de acordo com Aguiar, esta é uma questão crucial da vida das
democracias ocidentais, tanto mais importante quanto uma parte
importante da elite política europeia se rendeu a este pensamento e aos
interesses que nele estão representados. Em particular, ela é a melhor
expressão política de uma realidade que emergiu exactamente no tempo da
ruptura AD/DD, a entrada plena do sector financeiro na co-governação das
democracias. Como é o caso português, o Governo Passos Coelho
co-governa o país com uma parte da banca, a começar pelo BES e a acabar
nos "credores" supostamente representados pela troika. Não é de agora. A questão das PPP e dos swap
mostra como as decisões político-económicas se tinham de há muito
tornado reféns da banca, mas o grau de co-governação nunca tinha sido
tão próximo, intenso e decisivo. Esta é uma novidade do tempo DD, um dos
frutos da crise "tóxica" de 2008.
Existe, porém, um problema que
os economistas da escola do DD não conseguem ultrapassar: a sua
incapacidade de perceber que estão a falar em economias em democracia,
insisto economias-em-democracia, e, por isso, considerações sobre a
dinâmica da sociedade (e o empobrecimento é hoje o principal mecanismo
dinâmico), opiniões comuns, representação simbólica e real da justiça
social, e opções de voto, são cruciais. Podem entender o que quiserem,
mas sem eleitores para suportarem essas políticas, sem aliados fora do
círculo fechado dos "sempre os mesmos", ou fora das partidocracias
clientelares, as convulsões serão a regra social e eleitoral. É por isso
que eles consideram, como todos os bons burocratas, que é uma maçada
terem que aturar políticos e eleições, que só perturbam a lógica tão
científica das decisões burocráticas. A democracia é, de facto, uma
perturbação, um ruído, uma ineficácia gastadora, um ónus para a
"sustentabilidade."
Eu sei que eles pensam que não há
"economias-em-democracia", mas apenas economias, ou, como lhes chamam, a
"realidade", mas não é verdade, nem em ditadura, quanto mais em
democracia. Convencidos do mito cientista de que estão a "ajustar" o
mundo à "realidade", baterão (como estão a bater) com a cabeça na
realidade sem aspas. Claro que depois a culpa é do "povo", que é mau, é
do Sul, demasiado católico e pouco protestante, que "não quer
trabalhar", tem direitos a mais e "vícios históricos", etc. Estes mitos e
lugares-comuns já se conhecem há muito, e os historiadores conhecem-nos
ainda melhor. Deve ser por isso que saber História é tido como um
desperdício para estes economistas.
Apetece dizer-lhes, como
Clinton a Bush, "é a sociedade, estúpido!", ou "é a democracia,
estúpido!", quando se pensa a "sustentabilidade" apenas em termos de
abstracção económica. Era por isso que, desde o início do memorando,
aquilo que hoje se chama "consenso" (na verdade, compromissos e
negociações), assim como uma consideração dos efeitos sociais pensada em
termos de grupos sociais e do seu papel no conjunto da sociedade, eram
tão importantes desde o primeiro dia, tanto como o controlo do défice.
Esta ideia de "fases", primeiro actua-se "de emergência" contra o
défice, estragando o que era bom e o que era mau, depois manifesta-se
grande surpresa pelos efeitos e pela ineficácia da "emergência", e, por
fim, desespero para os remediar, é uma receita para o desastre oriunda
em má economia, mau conhecimento do país e fraca compreensão do que é a
democracia. Vai-nos custar tantos milhares de milhões como as dívidas de
Sócrates.
Não admira, por isso, que o resultado do discurso de
Cavaco Silva tenha sido exactamente o contrário do pretendido: resultou
no agravar da crise política, destruindo a função presidencial que, nos
dias de hoje, era mais útil, a de moderador acima dos partidos,
radicalizando a luta partidária e atirando-a para a nudez pura e dura do
confronto. A prazo, com muito esforço, o Presidente talvez possa
minimizar os efeitos do seu discurso, mas nunca mais poderá recuperar o
papel que, sem se perceber muito bem porquê, deitou fora quando era mais
necessário.
Na verdade, o Presidente foi muito para além de um
apoio táctico a um Governo de que não gosta particularmente. Repetiu
também um discurso sobre a Europa que é sempre contraditório - pede-se à
Europa que faça aquilo que por cá se diz que não se deve fazer -, mas
isso não é novidade. Porém, o resto do discurso é estratégico, sobre a
política, a democracia, as eleições a "inevitabilidade" da política da troika, a valorização dos "resultados" económicos em contraste com a mera enunciação dos efeitos sociais.
É
por isso que um discurso como o do Presidente, em que elenca os efeitos
negativos e valoriza os resultados "positivos", mostra a incapacidade
deste discurso "economês" em perceber que os efeitos negativos não são
apenas "enunciáveis", como uma espécie de danos colaterais que se
lamentam, mas se pensam inevitáveis. Bem pelo contrário, é por causa
deles que o "programa" vai falhar. São esses efeitos que vão tirar o ar à
política que os ignora porque, enquanto se viver em democracia, as
políticas vão a votos. O "programa" vai falhar, o "programa" é
insustentável, porque desprezou e despreza os factores sociais, em
detrimento de abstracções económicas, e pensou o país numa mecânica
rudimentar de causa - efeito que é tão científico como o flogisto.
Chamem Lavoisier como consultor para a presidência, que faz falta.
A novidade é a grande
cenoura do jornalismo. No sistema dos media, é muito fácil sugerir
mudanças, mesmo que elas não existam ou sejam muito mais ténues do que o
efeito obtido com esse anúncio. Os media vivem da novidade, "cansam-se"
muito facilmente de uma descrição que tenha tendência para se repetir.
Pelo contrário, precipitam-se com enorme gula e superficialidade para
tudo o que pareça ser diferente, valorizando excessivamente aquilo que
interpretam como sinais de mudança. A continuidade interessa-lhes pouco,
pelo que não é muito difícil encenar mudanças, ou conduzi-los para um
discurso desejado ou pura e simplesmente levá-los a racionalizar como
mudanças aquilo que pode ser caótico e contraditório.
Por todo o
lado, existem hoje declarações, comentários, análises acentuando que o
governo mudou de "estratégia", ou porque foi a isso obrigado, ou porque o
desejou, ou porque desde sempre estava prevista uma governação de dois
actos e entrou-se agora nesse segundo acto. A mensagem que a
superficialidade mediática "passa" bem é a de que "agora" o Governo quer
voltar-se para a economia, está disposto a mudar de atitude em relação à
concertação social, e está "dialogante". Estes são os sinais de mudança
e, no plano político, ela tem para o poder político uma dupla vantagem:
apresenta o Governo como tendo "compreendido" a importância do
crescimento, passando para o PS o ónus da intolerância e rigidez de quem
"não quer os consensos" neste tempo de "emergência nacional". Não há
nenhum sinal sólido nem de que o Governo tenha mudado qualquer política
de fundo, nem que "dialogue" genuinamente, mas todos os sinais
coreográficos de que possa haver essa mudança são hipervalorizados.
Embora
a remodelação não tenha sido muito entusiasmante, bastou a presença de
um novo ministro numa conferência de imprensa atabalhoada e sem
conteúdo, a recitar um mantra sobre o "consenso", para que houvesse quem
dissesse "aqui está uma lufada de ar fresco". Basta o Governo - que já
negociou com a troika quase tudo de essencial e não o quer
revelar por receio das consequências, e, em complemento, porque não o
tem estudado em detalhe - afirmar que nada pode dizer em público porque
tem que negociar com o PS ou com a concertação social, para se aceitar
que há uma "nova atitude" e um novo adiamento. Na verdade, os adiamentos
sucessivos da informação devida aos portugueses sobre os novos planos
de austeridade, previstos para Fevereiro de 2013, adiados com o pretexto
de que não podiam ser revelados antes da avaliação da troika,
depois de novo adiados sem razão, e, por fim, acrescentados das novas
medidas resultantes das inconstitucionalidades do Orçamento, foram mais
uma vez anunciados para o Conselho de Ministros desta semana e depois de
novo adiados para a apresentação do Orçamento Rectificativo em Maio. O
que era possível saber-se em Outubro de 2012 foi adiado para Fevereiro
de 2013, adiado de novo para inícios de Abril de 2013 e, por fim (?),
para Maio de 2013. O que é que se passa? A "lufada de ar fresco" não nos
explica isto.
Depois há a mudança para a "prioridade" do
crescimento. Na verdade, esta dicotomia austeridade-crescimento, ou
défice-economia, ou finanças-economia, é mais um remake do que
uma novidade, mas, pelos vistos, pega sempre. Quer Marcelo, através da
sua "narrativa", quer Marques Mendes, como representante de um lado do
Governo hostil a Gaspar, popularizaram a dicotomia, mas têm o problema
de ter que estar sempre a anunciá-la como acontecendo "amanhã", ou já
ter acontecido na última semana, mas depois desaparecendo sem traço.
Se
andarmos para trás, já houve várias tentativas de usar estas dicotomias
para sugerir que o Governo iria ter um novo curso. Já tivemos quinze
dias de acesa esperança na "industrialização", mais um anúncio sobre a
mudança de parte do porto de Lisboa para a margem sul, e muitos mais
anúncios avulsos para depois de 2015... Todos surgiram depois de
falhanços consideráveis do primeiro elemento da dicotomia: ou
austeridade que não acaba e exige novas medidas, ou défice que não se
atinge, ou crise económica muito mais funda do que a prevista. E lá dá o
Governo sinais de atenção à economia, pela acção esforçada do ministro
da dita, ou por umas declarações ambíguas de outros governantes.
Na
verdade, esta dicotomia, mais do que correspondendo a uma qualquer
realidade, funciona para enquadrar rivalidades internas no Governo. No
interior da máquina política do Governo, em que rivalizam os ministros
da Economia e das Finanças, ou os do CDS e os do PSD, os primeiros
considerados "mais amigos" da economia, em detrimento dos segundos
(personificados por Gaspar, Borges e Passos Coelho), houve sempre a
tendência para sobrepor o conflito político de poder e influência entre
pessoas e partidos do lado "bom" (economia, crescimento) versus o lado "mau" (impostos, austeridade). Mas a dicotomia esgota-se nisso.
E,
no entanto, a terra move-se. Mudou muito a governação? Mudou mesmo
muito, mas não no sentido em que têm sido descritas as pressupostas
mudanças. Mudou por necessidade, mudou por fracasso, mudou por
impotência, mudou por medo das consequências, mudou por dificuldades
acrescidas de prosseguir num determinado rumo, mudou porque foi obrigado
a mudar. Mas não mudou porque desejasse, e isso faz uma enorme
diferença.
Enquanto quem manda no Governo, Passos e Gaspar, com o
apoio de Borges, pôde fazer aquilo para que vinha com a "força anímica"
toda, o Governo passou como um bulldozer pela economia que
existia, estragando tudo o que podia com a convicção de que dos
escombros dessa "má" economia (e das "más", "piegas" e preguiçosas
pessoas que ela alimentava), sairia um Portugal alemão de dot.coms, tecnologias de ponta e empreendedores descomplexados, com salários baixos e disciplina social.
O
Governo sabia o que queria e nunca quis ouvir ninguém no seu
milenarismo profético, que estragou, essa é a palavra certa, tudo o que
lhe passou à frente, sem obter nenhum resultado sustentável, por
utopismo ideológico, engenharia política e muita, mesmo muita,
ignorância sobre o seu país e as pessoas que nele vivem. Alienou tudo e
todos, inclusive o mais valioso património que um Governo pode ter em
períodos de crise, que é a disponibilidade para o sacrifício. E não
conseguiu nada, nem cumprir o défice, nem reconstruir uma nova economia,
nem separar "empreendedores" dos "piegas", alienando tudo e todos,
menos os interesses que sempre protegeu. Os resultados nas exportações
foram frágeis, os resultados na balança comercial devem-se à recessão,
os cortes na despesa foram caóticos e insustentáveis. É verdade que
mostrou uma sanha especial em empobrecer os portugueses e desequilibrar
as relações laborais de forma claramente punitiva para os trabalhadores.
Alienou o PS, que tratou abaixo de cão, desprezou a concertação social,
esse cóio de "direitos" inaceitáveis, governou ilegalmente contra a
Constituição, apresentou aos portugueses a face de um Governo
estrangeiro. Estragou por convicção tudo o que pôde estragar, e agora
está num beco sem saída, tentando em desespero de causa e sem convicção
remendar o que estragou para não lhe sofrer as consequências.
Essa
é que é a mudança, mas é em direcção ao esbracejar e ao caos, mais do
que para uma outra política. Não é para a economia, é para a
sobrevivência, não é para razão, mas para o medo. É para um mundo
fantasmático de restos do passado, bodes expiatórios, desculpas
europeias e contínuo dolo e engano para os homens comuns. Vamos ter
metade dos dias o discurso do crescimento, de preferência antes da saída
dos semanários e dos comentários do fim-de-semana e, na outra metade, o
discurso da austeridade. Mas a única política que prossegue é a que vai
de novo atingir centenas de milhares de funcionários públicos e
pensionistas, milhares de reformados, milhões de portugueses que
precisam de serviços públicos de saúde e educação, de uma segurança
social estável, e muitos milhares de pequenas e médias empresas que são
as primeiras a sentir os cortes nas despesas do Estado, num já muito
frágil mercado interno.
Eu nem sequer peço que nos contem
mentiras novas, porque isso eles sabem fazer. Preferia que estivessem
calados até ao som da queda do pedestal e da damnatio memoriae.
A remodelação também tem muito que se lhe diga. Começaram agora a crescer o número de ministros e secretários de estado, sem que se perceba muito bem porquê. Na verdade, parecem ser mais criados pela necessidade de retirar competências ao ministro da Economia, ou de criar um “ministério do consenso”, para ter uma nova face a apresentar à oposição débil, ou seja, o PS. Mas as saídas estão longe se serem explicadas. Demitiram-se ou foram demitidos? Foi por causa dos contratos swap? Mas se é assim, não saíram todos, alguns ficaram. Estavam menos protegidos? E por que razão é que alguns dos responsáveis pelas PPPs continuam no governo? E por que razão, o governo deixou passar dois anos sem mexer uma palha? E agora que diz que mexe é, como nas PPPs, com anúncios de intenções que pouco alteram. Nalguns casos, os fabulosos resultados do governo não chegam aos 10% dos montantes em litigio. Muito fogo de vista e pouca substância. Se… não houvesse já uma tão grande habituação aos venenos, isto teria consequências.
O facto de este ministro começar de repente a falar assim, sem limites, nem fronteiras, insinuando, ameaçando, os seus colegas de governo, neste caso Passos Coelho e Gaspar, é apenas mais um acto do episódio sistemático de fugas de informação com origem no Conselho de Ministros, associadas ao espectáculo público deplorável de reuniões de muitas horas de dia e de noite, sem resultados anunciáveis, mesmo quando a marcação de conferências de imprensa indiciava que se esperavam conclusões. Marques Mendes, que é o porta-voz do sector anti-Gaspar do Conselho de Ministros, o Expresso, e agora até Marcelo, já detalharam com pormenores o que aconteceu. Sabemos quem está contra quem, os momentos em que A ou B se empinaram com o seu colega C ou D, sabemos que o Primeiro-ministro é no meio disto tudo mais espectador do que parte, o que significa quebra de autoridade, porque se a tivesse isto não se passava e à primeira fuga alguém vinha para a rua. Os conflitos envolvem os dois partidos da coligação e sobrepõe-se a uma aliança anti-Gaspar, que também torna muito difícil a sua permanência no governo. Se… não houvesse já uma tão grande habituação aos venenos, isto teria consequências.
Ou seja, tudo normal no processo de mitridatismo: o ministro acha que pode falar com esta nonchalance do afastamento de um governo de que faz parte de um seu Secretário de Estado que combatia os lóbis, algo com que ele concorda, mas permaneceu impávido perante a sua demissão forçada, e aceitou que a proposta mais dura do seu Secretário de Estado fosse substituída por uma do novo Secretário de Estado, muito mais modesta, mais aceitável pelos lóbis. Diz tudo isto, ao mesmo tempo que manda avisos públicos aos seus colegas de governação para não criarem obstáculos às suas políticas de “fomento” e, a propósito do abaixamento do IRC, previne que ele se vai dar aconteça o que acontecer. As Finanças registam e continuam na mesma. Se… não houvesse já uma tão grande habituação aos venenos, isto teria consequências.
A definição técnica para mitridatismo é “imunidade ao uso das substâncias tóxicas, adquirida graças à ingestão de doses progressivamente crescentes de determinado veneno” e hoje Portugal já está num adiantado estado dessa imunidade. Ou seja: já engolimos todos os venenos sem efeito nenhum. Querem melhor exemplo? As duas últimas semanas: houve um ministro que veio contar numa entrevista que um seu “colaborador”, mais tarde noutra entrevista identificado como o seu Secretário de Estado da Energia, foi afastado devido à actuação dos lóbis da energia, ou seja, da EDP. Estes comemoraram com champanhe, presumo do melhor, o seu afastamento. Mais tarde, o Secretário de Estado afastado com champanhe veio contar que sempre contou com a solidariedade do seu ministro, mas mal o relatório confidencial tinha chegado à mesa de Passos Coelho, uma hora depois estava na EDP. O relatório continha medidas gravosas de taxação da própria EDP. E disse, sem dúvidas, que o segundo interveniente no seu afastamento foi o Ministro das Finanças, ou alguém por ele, que queria obter mais uns milhões na privatização aos chineses. Se… não houvesse já uma tão grande habituação aos venenos, isto teria consequências.
Já não é a primeira vez que refiro este processo que tão bem caracteriza a nossa vida pública. Numa das lendas da antiguidade clássica Mitridates, Rei do Ponto, - o mesmo que deu nome a uma ópera de Mozart – tinha passado a vida a tomar venenos em dose crescente para criar imunidade no seu corpo e assim escapar à legião de envenenadores que pelos vistos andava pelo Ponto, um pequeno reino helenístico nas costas do Mar Negro. Quando derrotado em batalha queria matar-se, não havia veneno que resultasse e teve que pedir que o passassem pelo fio de uma espada. Coisas.