O alvo do Presidente da República devia ter sido a unidade do governo e da coligação, duas coisas distintas e em ambas em crise. Nada impedia o Presidente de dizer alguma coisa do género: "é importante que os partidos do governo evitem dar sinais de divisão", ou "é preciso que o governo apareça junto dos portugueses como unido", ou mil e uma frases prudentes, cuidadosas, inatacáveis, e todas muito mais certeiras quanto ao risco de crise política a curto prazo do que as demandas do PS. Não o fez e atirou ao lado, para o mais fraco e o menos perigoso para levar à queda do governo. Agora está completamente comprometido com um governo que não tem unidade entre os partidos da coligação, em que há ministros em rota de colisão uns contra os outros, e em que considerações eleitorais e de "imagem" própria, dos partidos e das pessoas, começam a pesar cada vez mais.
Os adiamentos sucessivos do anúncio de medidas de austeridade, que é o dia-a-dia do "trabalho" governamental (e não o "fomento industrial", típico vocabulário salazarista como se pretende dar a entender) têm a ver com tudo isto. Ah! e também há o medo do Primeiro de Maio, depois de medo do 25 de Abril.
Para Passos Coelho os desejos da troika são ordens. A troika não lhe diz para mudar a política por causa do PS, diz-lhe que é obrigação dele “envolver” o PS na política exigida pela troika, que é algo de muito diferente. A troika precisa de renovar o compromisso pós-memorando com o PS, não só porque este pode vir a governar a curto prazo, mas também porque os compromissos do PS são vitais para o cumprimento do programa já, limitando o isolamento do governo, levando a UGT a abandonar quaisquer veleidades de ir “representar os trabalhadores”, permitindo dar uma face “nacional” à política de resgate. A troika olha para além de Passos Coelho facilmente, já o faz menos em relação a Gaspar, e teme uma crise política que traria complicações ao seu poder, aqui e na Europa. É que a troika também sabe que às vezes as crises políticas aumentam o poder de negociação de uma das partes, contrariamente ao que se diz por aí, e essa parte não é necessariamente a da troika. Os aspectos políticos sobrepor-se-iam de imediato à tecnocracia e, também contrariamente ao que se diz, as nações da UE tem mais poder a nível político do que se deixarem envolver em receitas pseudo-técnicas. É preciso é exerce-lo, como a Irlanda, a Espanha, mesmo a Grécia e Chipre, tem feito, e Portugal não.
Voltemos ao “consenso”. Para já o uso da palavra “consenso” é um erro e um engano, o que se deveria estar a dizer é “negociação” se fosse a sério. O “consenso” é um resultado máximo de um processo que ainda nem sequer começou, ou no que começou foi interrompido. Pode inclusive haver “resultados” sem haver consenso que implica um acordo pleno, quase natural entre as partes. Ao se falar apenas do “consenso” atribui-se-lhe um valor quase mágico, como se não fosse preciso nada para lá chegar a não ser existir e sentar-se numa mesa.
Se o primeiro-ministro viesse dizer (fazer é outra coisa) que quer negociar com o PS, determinadas áreas da governação, ou seja co-governar, isso implicaria todo um tipo de atitudes que o governo nunca teve e também não está a ter. Por exemplo, apresentar ao PS propostas de medidas, as “boas” e as “más” e não só as “más”, antes de fazer compromissos com a troika. Isso não existe, nem Gaspar deixava, porque isso implicava perder o seu poder. O que acontece é que o governo compromete-se com a troika e depois quer o “consenso” do PS para encontrar formas de implementar as políticas já definidas, sem as contestar no contéudo. Elas são sempre apresentadas como inevitáveis, ou seja indiscutíveis, para o PS fica apenas ter um papel (e nem esse tem tido) de dizer se se corta nos professores ou nos enfermeiros, se se despede na função pública ou se aumenta as taxas moderadoras. Este tipo de “consenso” teria sido possível há dois anos, hoje é impossível.
Vir acenar com a “viragem” para a “economia”, - e uso as palavras entre aspas porque as uso no seu envenenado curso corrente, - também é poeira para os olhos. O governo pode vir a anunciar algumas medidas de efeito escasso e futuro na economia, mas aquilo a que dedica o grosso dos seus esforços é em aprofundar a austeridade com pacotes de cortes uns atrás dos outros, para tentar encobrir os falhanços das medidas anteriores, com um efeito recessivo sempre muito mais vasto, como aliás admite o Banco de Portugal. O que estraga é sempre muito mais profundo do que pretende ajudar a salvar.
É por isso que não há nem negociação, nem “consenso”. Ninguém o deseja, nem o governo, nem o PS. Passos Coelho precisa de colocar Seguro numa mesa consigo e tirar muitas imagens de televisão. Seguro vai lá e sai a dizer que está tudo na mesma, até porque era tão bom que as eleições fossem já. Esta é que é a realidade e não as onze incantações do “consenso”.
Um novo ministro falou onze vezes em “consenso” numa conferência de imprensa para anunciar coisa nenhuma, e o arrebatamento do engano foi conseguido. Aliás não é muito difícil. Logo a seguir vieram as “histórias” sopradas: que o novo ministro estava a mudar tudo, objectivos, linguagem, intenções, uma “lufada de ar fresco”. Basta parar para pensar para se perceber que tudo isto é pura e simplesmente inverosímil. Um novo ministro, ainda por cima sem experiência qualquer de governo, entra no Conselho de Ministros sempre com prudência. Se é inteligente, vai aliás mais para ouvir e perceber do que para “entrar a matar”, começando a “mandar”.
Sim, porque aquilo que é descrito como o impacto da sua presença e intervenção é o de quem “manda”. Ora, a não ser em circunstâncias muito especiais, que em nada correspondem nem ao perfil do ministro, nem à atitude do primeiro-ministro de o pôr como homem forte do governo, essa atitude de “mando” geraria enorme controvérsia no Conselho de Ministros. Aqueles homens, por muito obedientes e agarrados ao lugar que estejam, - o que também não é verdade para alguns, - não iriam permitir que o parvenu fosse ali “revolucionar” a reunião, e implicitamente dizer-lhes que estão a fazer um mau trabalho. Por tudo isto, o papel do novo ministro não pôde nunca ter sido este.
Pode ter aconselhado ao Primeiro-ministro algumas atitudes e comportamentos, mas também nada que não seja o óbvio, e o esperável. Sendo esse conselho “fruta da época”, também não adiantaria muito. Entre a troika a dizer a Passos Coelho, no tom vago, abstrato e “estrangeiro” com que essas coisas podem ser ditas, que é preciso garantir o envolvimento do PS, e as opiniões de um ministro, mesmo salvífico, o Primeiro-ministro o que quer saber é do que a troika lhe diz. Portanto, quando ele lá chegou, já o “consenso” era a nova palavra de ordem.
E aqui é que entra o novo ministro, para dar uma face “política” engolida com gosto pela comunicação social que vive na superfície das coisas. Na verdade, não há problemas para os ministros aceitarem que o novo ministro “dê a cara”, que só ele pode dar visto que não tem passado de litígios parlamentares com o PS, e pode mais facilmente passar por “novidade”. Isso eles não só permitem como estimulam, até porque sabem que estas coisas não duram muito. Velhas raposas muitos deles, se há coisa que eles sabem fazer é este jogo de dança com a comunicação social. Eles sabem, como já escrevi noutro sítio, que a “novidade é a cenoura da comunicação social” e por isso só um ministro a recitar onze vezes a palavra “consenso” podia exercer esse efeito.
Mas e o “consenso”?
Quanto menos se pode ou se quer falar do presente, vai-se ao útil baú das citações. Nas comemorações do 25 de Abril na Assembleia chovem citações por todo o lado: Shakespeare, Habermas, Kant, Saramago, Sophia, Arendt, e muitos mais. A Wikipedia reina. Quanto mais se cita, menos se diz.
Entrar num governo, seja como governante ou assessor, uns dias depois de insultar os seus responsáveis políticos com nomes feios, de pedir a sua demissão, de os mandar ir para outro lado, de proferir aquelas frases taxativas e sem nuances que só se podem escrever quando se está disposto a tirar daí consequências, ou seja, a perder alguma coisa por as dizer, é-me de todo incompreensível. Faz-me vergonha pelos outros, pelo débil carácter que revelam, mesmo que esse estilo seja o pão nosso da cada dia nos blogues, agora percebendo-se que não são muito para levar a sério. Basta o aceno de um lugar, de uma carreira, de uma importância, de um panache e lá vai a vergonha toda, a honra e o carácter pelo caminho.
Uma procura no Abrupto em "Francisco Almeida Leite", hoje escolhido para Secretário de Estado, revela o seu papel enquanto jornalista do Diário de Notícias na ascensão e propaganda de Passos Coelho. Nunca este título foi mais preciso: de facto, o material tem sempre razão.