ABRUPTO

23.3.13



DESMORALIZAÇÃO, APATIA, REVOLTA 

A desmoralização do governo é evidente. Autismo, teimosia, perda de noção da realidade, confusão, contradições, alternância entre medo e ar de rufia, acções sem nexo, repetição sem sentido de slogans e intenções em que já ninguém acredita, nem emissor, nem receptores, ataques de pânico, tudo. Se houvesse psiquiatras para governos, este estava mesmo precisado de uma série vasta de sessões. 

A apatia cresce e o governo acha que é paciência. Não é, é uma mistura de exaustão, defensismo até ao limite da inacção, medo, e acima de tudo impotência. Nada disto é bom conselheiro. E revolta, que a há bastante. Infelizmente em Portugal não há tradição de desobediência civil, o passo mais civilizado para a expressão dessa revolta, pelo que se vai a caminho do menos civilizado, o conflito puro e duro, as mil e uma vias pelas quais todas as violências fluem.

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VEM AÍ MAIS UM 

Sempre que o governo falha os seus objectivos, há mais um pacote de austeridade.

Cada vez que há um novo pacote de austeridade, o governo falha os seus objectivos.

 Enquanto não sairmos deste círculo vicioso, daqui não saímos.

No fundo, é simples.

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EARLY MORNING BLOGS  
2307

A menos pensamiento, pensamiento más tiránico y absorbente. 

(Miguel de Unamuno)

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17.3.13


O PRESIDENTE COMO ALVO 
Com a habilidade táctica que as caracteriza, a oposição mais radical e a oposição mais mole, atiram-se à troika, à senhora Merkel, aos alemães e ao Presidente da República… O governo apreciará certamente esta escolha de alvos.

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SUSTENTABILIDADE 
É uma palavra daquelas que o bando do “economês”, que vai muito para além dos economistas, gestores, jornalistas económicos para a retórica empresarial de “sucesso”, quase sempre em relação directa com o insucesso, gostam de usar. Sabe-lhes bem na língua, mesmo que signifique muito pouco e transporte mais ambiguidade do que certeza. Aliás o mesmo acontece com muitas outras palavras do jargão actual do “economês” que, transpostas para um conteúdo programático para além de um conteúdo descritivo de variáveis económicas, dão torto. 

Vejamos alguns dos sucessos proclamados do “ajustamento”: abaixamento do nível de vida das famílias, destruição das “más” empresas, baixa de salários, redução dos custos do estado em salários e pensões, equilibro da balança comercial, redução drástica do consumo, corte do investimento público. Muito bem. No entanto, muitas destas medidas foram apresentadas como temporárias e a prazo curto, extinguindo-se com ao fim do “programa” do memorando, umas vezes até 2012 (incumprido), outras para 2013 (incumprido) e agora prometidas para 2014, ou 2015. 

A fórmula dos novos cortes, a da “refundação do estado”, é suposto ser de outra natureza, trazendo cortes permanentes destinados a dar “sustentabilidade ao país”. Cá está palavrinha mágica. Eu que não me deixo encantar facilmente por estas palavrinhas, faço algumas perguntas. 

Será que já perceberam que a manutenção em permanência do actual status quo, não representa a manutenção de status, mas um declive que se acentua ano a ano para a pobreza? Ou seja, não resulta na queda para num nível “ajustado” de pobreza, mas sim na aceleração de um processo de empobrecimento, que é hoje o único elemento dinâmico da sociedade portuguesa? E que uma sociedade a empobrecer rapidamente, dia a dia, mês a mês, ano a ano, não é uma sociedade estável mas conflitual e que as consequências desses conflitos são imprevisíveis? E que os que estão a empobrecer votam pelo menos de quatro em quatro anos, e não me parece que vão dar o seu voto aos que os querem empobrecer “permanentemente”, mas irão atrás de quem lhes propuser qualquer coisa desde que não seja ao seu presente?

Ou seja, resumindo e concluindo, em democracia esta política não é sustentável. Insustentável. Ponto.

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O HÍBRIDO

Já se percebeu que, a cada avaliação da troika, a troika se avalia a si mesma em primeiro lugar, e que o compromisso da troika com o “programa” português é profundo. Há várias razões para isso e o ter do outro lado o aluno subserviente que faz tudo o que o professor manda (que não é a mesma coisa do que o bom aluno), é sem dúvida uma delas. Mestre e discípulo partilhavam ambos o mesmo entusiasmo profético e milenar sobre as virtualidades da sua engenharia política, coisa que não acontecia na Grécia e na Irlanda. Por isso, aqui, nenhum zelo seria excesso de zelo, bem pelo contrário, o discípulo queria sempre ir mais longe do que o mestre. O resultado está à vista. Troika e governo envolveram-se num projecto de experimentalismo económico-financeiro comum que, se falhar, falha para ambos. Ora nem o governo, que sempre vai a eleições, nem os altos funcionários da troika, que não vão a eleições e dependem dos seus chefes, querem ter um insucesso no seu currículo. E no entanto, o seu “programa” comum já falhou, o seu “exercício” (como gosta de dizer Vítor Gaspar) não deu os resultados pretendidos. Trata-se agora de fazer outra coisa de diferente, numa parte correção e noutra disfarce. 

Ou seja, como o “programa” já falhou nas suas virtualidades proclamadas, vai-se agora produzir um híbrido. Mas, como se sabe, os híbridos não se reproduzem como the real thing. No entanto, serve a ambos, troika e governo, e ajuda a ambos a tentar limitar os desastres a que o seu experimentalismo levou o país. De passagem, é melhor para os portugueses do que nada, mas como é feito a contragosto e sem convicção, nunca será feito como devia e acaba por acrescentar mais destroços aos que já existem por todo o lado. Vejam a patética encenação das mesmas medidas que vilipendiaram (e bem) no governo Sócrates, desde um TGV para as mercadorias, de Sines não se sabe bem onde, até à deslocação de parte do Porto de Lisboa para a margem sul, tudo obras de necessidade urgentíssima. A ideia é sempre a mesma: grandes obras públicas, salvam a construção civil, e aguentam algum emprego. 

O problema é que antes de voltarem ao “socratismo”, mataram tudo à sua volta, empresas, emprego, e oportunidades, queimaram o tecido económico existente sem o substituir por coisa nenhuma. O “exercício” entendia-se como sendo de “destruição criativa” (imagino Schumpeter às voltas no túmulo), e falhou. Logo, agora querem injectar num quase morto uma injecção de adrenalina. O que vai acontecer é que, como o coração não bate, vão espetar a seringa em qualquer sítio do corpo e o resultado serão movimentos convulsivos. Como os da rã de Luigi Galvani. E isso é se não a espetarem na carteira de alguns zombies mais espertos que fazem bem o papel de vivos e têm um gigantesco alvo na sua conta bancária.

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© José Pacheco Pereira
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