O PS mostrou num processo atrapalhado e pastoso, como pode fazer bastante mal a um país que infelizmente já tem candidatos bastantes a exercerem essa maldade. Não digo que o PS fez tanto mal ao país como a governação, porque diferencio com clareza o que é do domínio do poder do que são as malfeitorias da oposição, sempre mais inócuas do que o que pode fazer quem detém o poder executivo.
Mas o PS bem nos podia ter poupado a esta exibição completamente assente numa lógica mediática por fora, embora a realidade da divisão entre os socialistas e a lógica aparelhística sejam a realidade por dentro. É que com esta exibição, a que o nome de medíocre é elogioso, mostra uma das razões pelas quais este governo sobrevive com uma frágil, insegura, débil, comprometida, hesitante, oposição e deixa para os extremos e a rua, a resposta da raiva.
António Costa quis e a meio deixou de querer, e isso é mortífero para quem quer e não deixou de querer. E o seu maior pecado é deixar-nos sozinhos com Seguro um dos melhores exemplos do redondismo nacional, num país com muitos candidatos à função e em que para se estar no pódio é preciso mesmo muito redondismo. Como todos os “jotas” Seguro actua em função de meia dúzia de ideias sobre a política, em particular aquilo que passa por ser “liderança”, e pelo que os jornais dizem dele. Se dizem que “negoceia”, ele estremece na afronta à sua “liderança”, e vem dar um “murro na mesa”, se dizem que ele é “fraco”, ele vem falar de alto e num discurso cheios de “eus”, “eu avisei”, como há muito disse”, “”eu propus, o governo não quis ouvir e agora faz”, por aí adiante, manifesta uma vanglória vazia que ninguém reconhece, nem sequer ouve.
Ao fim de uma semana de encenação, Seguro e Costa produziram uma nova variante da “redação da vaca”, do género “a vaca é muito boa, porque dá leite”, etc., que pela sua vacuidade política, insisto política, não merece muitos comentários. Mas voltarei a ele, ao “documento de Coimbra”, com aquele masoquismo essencial que o comentário às vezes tem. Fico-me agora com o revelador incidente do título redondista, “Portugal primeiro”, o mesmo que Passos Coelho usou e que deve existir em múltiplas variantes em centenas de moções das “jotas” de ambos os partidos e depois, quando eles crescem em idade e funções, é transplantado para moções de distritais e federações. Como é que podia ser diferente se eles, Passos, Relvas e Seguro, são iguais, a sua literacia política é idêntica, a sua carreira semelhante que nem a papel químico?
Portugal tem uma maldição qualquer em cima.
Cada Papa é um Papa e se há lugar onde a diferença individual, a personalidade, o carácter, as ideias, as agendas, a religiosidade, o pensamento sobre a Igreja, a sensibilidade, se revela bem é no papado. Vejam-se só alguns dos Papas do século XX e XXI: Pio XII, Paulo VI, João XXXIII, João Paulo II, e Bento XVI, para perceber que, mesmo pesando as circunstâncias de tempos muito diferentes, cada um trouxe uma marca de individualidade à Igreja Católica Apostólica Romana. É natural que assim seja porque o processo de selecção, se deixarmos de parte o papel difícil de identificar do Espírito Santo, é um dos mais complexos, rigorosos e competitivos do mundo. Só lá chega quem quer ou quem o colégio eleitoral dos cardeais quer, e tal parlamento junta um grupo de pessoas que já leu tudo, já viveu muito e, acima de tudo, já viu de tudo.
E, mesmo um agnóstico, desconfiado com a realpolitik vaticana, mediamente sabedor que entre si os bispos e os cardeais são capazes de se detestar com bastante vigor (veja-se o modo conflitual como correu o Concílio Vaticano II, com ataques, defesas, conspirações, sindicatos de voto, etc.), é capaz de admitir que a fé, um sentimento ao mesmo tempo simples e complicado, conta nestes momentos em que é suposto também falarem com Deus.
Dito isto, voltemos ao modo como dois Papas que colaboraram intimamente e se conheciam muito bem entre si, defrontaram de forma diferente a “lei da vida”. Tenho para mim que a decrepitude e doença intencionalmente reveladas até ao fim por João Paulo II não é diferente na sua intenção e mensagem da abdicação por “falta de força vital” de Bento XVI, mas complementar. Cada um quis dizer uma coisa diferente, porque há na vida a necessidade de dizer e “testemunhar” coisas diferentes. Ambos escolheram aliás fazê-lo na modernidade, seja lá o que isso for.
João Paulo II quis mostrar o sofrimento que a doença e a velhice trazem até à última gota, num mundo em que há cada vez mais velhos que com ele se podiam identificar na dor. Num mundo em que o culto da juventude é um elemento do hedonismo contemporâneo, João Paulo II falou da tragédia íntima dos velhos pelo seu próprio exemplo, e a propaganda pelo exemplo é a melhor propaganda como sabiam muito bem os anarquistas.
Bento XVI fala noutra direcção, mas também com idêntica universalidade, valorizando a vitalidade e a capacidade intelectual que são necessárias para o exercício de uma função tão delicada e árdua como é o papado. Ele não se reformou porque chegou ao limite de idade, ele chegou a um limite de idade íntimo por julgamento próprio, e quis mostrar, também pelo exemplo, que não há drama nenhum para a Igreja em não ser Papa vitalício, se o detentor da Cadeira de Pedro, não se sentir capaz de a servir como certamente desejava. É um gesto que é também um sinal para a hierarquia da Igreja.
Nós podemos entender prosaicamente o gesto de cada um, mas de certeza que, quer João Paulo II, quer Bento XVI não o entendem assim, mas trazem a essa decisão, que decisão própria se trata, o peso da sua religiosidade e da sua fé. Ambos fizeram, com as suas atitudes, bem à instituição à frente de que estão, até pela diferença e com a diferença.