ABRUPTO

20.10.12


ESPÍRITO DO TEMPO:  HOJE
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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A VINGANÇA CONTRA A FUNÇÃO PÚBLICA


Uma das mais injustas fórmulas, sabiamente explorada por este Governo, é a que "substituiu" as medidas mais gravosas de austeridade por "cortes na despesa pública". Treta. Substituiu algumas medidas de austeridade genérica por outras de austeridade dirigida. Para quem? Surpresa! Para os funcionários públicos. Fê-lo, como faz tudo, de forma pontual e aos arranques e recuos, conforme o medo de Portas, do PSD, da rua e da opinião pública.

De há um ano para cá que uma das linhas de continuidade da actuação deste Governo tem sido uma hostilidade profunda dirigida contra os trabalhadores da função pública, que encontra mais uma vez expressão nas medidas do actual orçamento. Começou por ser hostilidade, patente logo no dia seguinte ao primeiro anúncio dos cortes dos subsídios de Natal e de férias, faz agora um ano, quando Passos Coelho incitou claramente ao confronto entre trabalhadores privados contra os "privilegiados" da função pública. Depois da decisão do Tribunal Constitucional, a atitude do Governo, a começar pelo primeiro-ministro, passou de hostilidade à vingança, como se todos os meios, "custasse o que custasse", fossem usados para evitar que os trabalhadores da função pública "escapassem" aos cortes. Os próprios juízes foram enxovalhados com a acusação entre dentes de que tinham decidido em causa própria, para proteger os seus subsídios, exactamente porque eram... funcionários públicos. As mesmas insinuações foram dirigidas ao Presidente, ele próprio também funcionário público, como professor e funcionário do Banco de Portugal.

A palavra "equidade" tornou-se quase um insulto e as medidas governamentais são cada vez mais punição e vingança. "Cortar as despesas do Estado", esse "enorme esforço" que o Governo tem andado a fazer nos últimos dias, assim revelado mais uma vez como impreparadas e inconsistentes são as medidas que anuncia, não significa outra coisa que não seja passar cada vez mais o peso do défice para os trabalhadores da função pública. Procede-se, aliás, com dolo, quebrando todos os contratos feitos já por este Governo, despedindo na função pública dezenas de milhares de trabalhadores contratados, e estipulando medidas muito mais gravosas do que as que conhece quem tem emprego no sector privado. Como se verá, muitas são ilegais e transformam o Estado no mais selvagem e prepotente dos patrões, roçando algumas medidas o puro cinismo, como seja a atribuição das condições de reforma aos trabalhadores não na base da situação existente quando a pediram, mas quando a administração lhes entende responder: basta a administração atrasar burocraticamente os processos quanto tempo for preciso, para que os trabalhadores recebam apenas o que o Estado quer e não aquilo a que tem direito à data do seu pedido. Isto no privado, tão adulado por alguns próceres governamentais, seria um crime.

O par que controla o poder político em Portugal - e saliento que não digo o poder tout court - não é constituído por funcionários públicos, nem a maioria dos governantes teve essa carreira. Há excepções, como é o caso dos professores, como Crato, mas Passos Coelho, Miguel Relvas, Aguiar Branco, Miguel Macedo, Paula Teixeira da Cruz, o núcleo duro partidário do PSD, tem carreiras de dois tipos: ou na advocacia, ou num "privado" muito especial, aquele que vive da dependência do Estado e das decisões políticas seja a nível central, seja a nível autárquico.

Os casos de Passos e Relvas são típicos, porque uma parte fundamental da sua carreira é feita dentro dos partidos, nas "jotas", passam pelos cargos mais ligados ao controlo político "distributivo" no Governo (Relvas) e são empregados por terceiros em empresas em que as redes de ligação com o poder político são fundamentais para aceder aos "negócios". Uma frase esquecida de Ilídio Pinho quando dizia que ter acesso ao poder político valia um milhão de contos traduz bem a utilidade dos políticos para os seus patrões privados. As contas ainda eram em escudos, mas toda a gente percebeu de que é que ele falava.

Essas áreas incluem a formação, no tempo áureo dos fundos, e depois nos sectores como o ambiente, energias renováveis, resíduos e construção, tudo áreas que conheceram grande expansão com dinheiros públicos nos últimos anos. O caso da Tecnoforma, envolvendo Passos e Relvas, é típico de uma espécie de empresas "jota", em que pessoas com carreiras políticas interdependentes entre si se organizam para aproveitar as oportunidades que o acesso ao poder político cria. Este tipo de processos é transversal aos dois partidos, PS e PSD, e acentuou-se nos momentos em que o dinheiro fácil, com os fundos comunitários e com um Estado gastador, permitiram todo o tipo de "negócios". Uns são gigantescos, como as PPP, e outros medíocres, como o das empresas de "formação", mas são da mesma natureza e têm o mesmo perfil de protagonistas.

Não é por acaso que o "privado" que encontramos nos curricula governamentais, como estes de que falamos, é sempre do mesmo tipo. Não encontramos nunca nenhum genuíno empresário que já estivesse "feito" antes de ir para o Governo. Embora não haja nenhuma área empresarial que não dependa de decisões estatais com alto grau de discricionariedade, um dos piores sinais do nosso atraso, o "privado" que chega ao Governo não tem ninguém do sector agro-pecuário, nenhum empresário industrial, nenhum da panificação, nenhum proprietário de restaurante, nem sequer nenhum verdadeiro pequeno empreiteiro, que tantos os há hoje na miséria. Não há razão nenhuma para estes empresários não terem a mesma vontade de intervenção política do que os juvenis político-gestores, mas por muito amor ao privado da retórica ideológica, a verdade é que estas pessoas não sobrevivem nos partidos, porque são demasiado independentes do jogo permanente de carreiras que, das "jotas" ao topo, marca hoje os partidos.

Por isso, nunca temos no topo do poder partidário e governamental outro tipo de privado que não seja o fortemente dependente do poder e das redes de conhecimentos pessoais, assentes na interdependência e na confiança. É por isso que não adianta dizer que tudo se passou de Barroso a Sócrates, umas vezes com o PS e outras com o PSD, como se isso atestasse a lisura dos processos, porque a única coisa que muda é o peso relativo dos partidos no bolo, mas estão sempre os dois representados e os mecanismos eficazes são sempre de "bloco central".

O caso da função pública em Portugal não é muito diferente do que acontece noutros países, em que a regra é que não haja condições de inteira equivalência entre o privado e o público. Em parte, porque a qualificação média no público é superior ao privado, logo os salários tendem a ser mais altos. Depois, porque nos países com burocracias independentes, como no caso inglês, a mais direitos correspondem mais deveres. E em Portugal, em períodos de expansão, houve idêntico trade off: os salários da função pública permaneciam muito baixos, como contrapartida às garantias de emprego. Depois, houve um período de esbanjamento e facilitismo por responsabilidade clientelar do poder político, que dá hoje o flanco da função pública ao ressentimento social.

Tem a função pública pessoas a mais? Tem certamente e, acima de tudo, mal distribuídas, mas a racionalização desses recursos para poupar despesas não foi feita nem está a ser feita. Despedir e cortar direitos é mais fácil do que saber "gerir", como diz Teodora Cardoso, que não é conhecida por ser meiga quanto à consolidação orçamental.

É a função pública politizada e, nos últimos anos, partidarizada? É e muito, mas não é isso que estas medidas combatem. Pelo contrário, o Estado vai ficar ainda mais dependente do poder político, mesmo nas áreas que tinham alguma autonomia como as forças armadas. A politização da função pública em Portugal não começou com a democracia. O Estado Novo salazarista e caetanista institucionalizou essa relação, obrigando os funcionários públicos a assinar uma declaração "anticomunista", e punindo com a expulsão todos os oposicionistas, desde a Ditadura Militar até ao caetanismo na Capela do Rato. A cunha política e o patrocinato eram uma regra generalizada e a União Nacional funcionava como uma enorme máquina de distribuir favores e prebendas através de lugares, de contínuos a directores-gerais.

Depois do 25 de Abril, este processo democratizou-se e os partidos tomaram conta do Estado, um processo acentuado nos últimos vinte anos. Não tenho dúvidas em afirmar que este é um dos problemas mais graves da nossa democracia, mas nenhuma destas medidas diminui esse poder, bem pelo contrário. Veja-se como decorreu o processo de privatizações, como são feitas as nomeações de "sempre os mesmos", como a acesso ao poder político permanece sempre nos mesmos círculos, da banca aos grandes escritórios de advogados, da consultadoria económica à intermediação, para perceber que, em períodos de crise, pelo menos os de cima continuam na mesma a mandar e a ganhar.

Numa altura de crise económica, é natural que muitos desempregados olhem com algum ressabiamento para os funcionários públicos que lhes parecem privilegiados, e nalguns casos são-no. Mas alimentar este tipo de atitudes como o Governo faz é muito perigoso para a democracia, porque um Estado estragado e ineficaz é pasto livre para haver ainda mais partidocracia. Também por isso, a noção de Estado e de serviço público, fundamental num Estado democrático, assente em burocracias de mérito, deveria ser preservada se houvesse "sentido de Estado", o que não há.

(Versão do Público de 13 de Outubro de 2012.)

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19.10.12

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A DITADURA DAS FINANÇAS 


 O estado pode muito, mas não pode tudo. 

O estado fiscal é, em democracia, a zona do estado em que a relação de poderes e direitos entre o cidadão e o estado é mais desigual. Por isso, o estado fiscal, que desde Sócrates viu crescer todo o tipo de prepotências e violação de direitos na relação entre o contribuinte e o fisco, aproxima-se de práticas totalitárias. Por exemplo, o princípio do ónus da prova não existe no fisco: todos têm que provar que não são culpados, porque o fisco os considera à partida culpados. Um vasto conjunto de práticas iníquas e desiguais está estabelecido em regulamentos, disposições, decretos, decisões. Um elevado grau de discricionariedade existe nas decisões fiscais, o que leva a que o fisco sirva para perseguir inimigos políticos, como já se viu, vê e verá. A má fé do estado está embrenhada no fisco como granito. Não é preciso ir mais longe do que a legislação do IMI, a sua actualização arbitrária, a desigualdade em que está o cidadão ao defender-se de decisões que podem ser grosseiramente erradas, datas erradas, áreas erradas, localizações erradas, critérios errados, e que se forem corrigidas, o que muitas vezes nunca acontece, só o são depois de uma litigância absurda e cara, inacessível a muitos portugueses, pagando sempre tudo à cabeça, sem qualquer obrigação do estado em indemnizar pelos seus erros. Quem diz o IMI, diz todos os outros impostos. 

(Continua.)

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16.10.12


O PIOR DE TUDO É A SUA INUTILIDADE


Daqui a seis meses, mais dia menos dia, ou até antes, ver-se-á que tudo está, nem sequer na mesma, mas pior. E foram mais seis meses de sacrifícios sem sentido para milhões de portugueses, o Sísifo empurrando a pedra eternamente, como punição infernal  "por viver acima das suas posses". Nessa altura, ou antes, o governo cai, os governantes voltam ao "privado" de onde nunca saíram, uns por cima como mandantes, outros por baixo como empregados, o sistema político sofre de uma "italianização" nas urnas, se o caminho for de eleições, e cada peça do corpo institucional, Presidente, partidos, Tribunal, ficará a contorcer-se  para o seu lado, sem nexo. E este não é o pior cenário. Há pior. O problema é que todos sabem disto e ninguém faz nada.

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15.10.12


  HOJE DE NOVO 

EM DIRECTO

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EARLY MORNING BLOGS   

2263

Como o pássaro no seu vaguear, como a andorinha no seu voar, assim a maldição sem causa não encontra pouso. 


(Provérbios, 26,2)

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14.10.12


ESPÍRITO DO TEMPO:  HOJE
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EXTRACTO DO MEU ARTIGO DO PÚBLICO: A VINGANÇA SOBRE A FUNÇÃO PÚBLICA

Os casos de Passos e Relvas são típicos, porque uma parte fundamental da sua carreira é feita dentro dos partidos, nas "jotas", passam pelos cargos mais ligados ao controlo político "distributivo" no Governo (Relvas) e são empregados por terceiros em empresas em que as redes de ligação com o poder político são fundamentais para aceder aos "negócios". Uma frase esquecida de Ilídio Pinho quando dizia que ter acesso ao poder político valia um milhão de contos traduz bem a utilidade dos políticos para os seus patrões privados. As contas ainda eram em escudos, mas toda a gente percebeu de que é que ele falava.

Essas áreas incluem a formação, no tempo áureo dos fundos, e depois nos sectores como o ambiente, energias renováveis, resíduos e construção, tudo áreas que conheceram grande expansão com dinheiros públicos nos últimos anos. O caso da Tecnoforma, envolvendo Passos e Relvas, é típico de uma espécie de empresas "jota", em que pessoas com carreiras políticas interdependentes entre si se organizam para aproveitar as oportunidades que o acesso ao poder político cria. Este tipo de processos é transversal aos dois partidos, PS e PSD, e acentuou-se nos momentos em que o dinheiro fácil, com os fundos comunitários e com um Estado gastador, permitiram todo o tipo de "negócios". Uns são gigantescos, como as PPP, e outros medíocres, como o das empresas de "formação", mas são da mesma natureza e têm o mesmo perfil de protagonistas.

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PONTO / CONTRAPONTO: ASNEIRA

Asneira minha no Ponto Contraponto de hoje:  falando das Heróicas de Lopes Graça, tratei de identificar mal a "Firmeza" cantada nas cerimónias do 5 de Outubro, como o "Acordai", cantado junto da Assembleia, pela mesma cantora lírica Ana Maria Pinto, no mesmo dia. No filme utilizado não se ouve bem a cantora, e não se altera a substância do que disse, mas foi uma confusão entre um filme e outro, e não deixa de ser asneira. As minhas desculpas.

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Por várias razões, entre as quais se conta uma diferente proximidade social, cultural, etária, profissional, os órgãos de comunicação social tratam de forma muito diferente as manifestações da CGTP e as dos movimentos como o 15O, os grupos "culturais", "indignados", "precários", etc. Isso foi evidente ontem, com um relato muito mais hostil à Marcha contra o Desemprego, permanentemente procurando medi-la em números, compara-la, fazendo perguntas que têm implícito factores de repulsão no movimento sindical, que nunca seriam (nem foram) colocadas à manifestação da  "cultura". Não há aí também factores de repulsão? Não há aí comparações a fazer entre ontem e o 15 de Setembro? E depois o mundo da "cultura" parece mais conhecido e próximo do que aquele de "outra gente", vinda da margem sul, do Alentejo, de fábricas, sim dessa coisa exótica que são as fábricas. Mais ainda: dessa coisa exótica para os jornalistas que é o mundo do trabalho industrial, em que é suposto saber a diferença entre um torno e uma fresa.

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SEMPRE QUE ABRE A CAÇA AOS COMENTADORES… 


 … os políticos do poder estão na curva acentuada do seu declínio. Quem a abre está nas últimas, já só quer vingança e bodes expiatórios. Num governo que no topo não foi feito nem pelos livros, nem pela escola, nem pela experiência de trabalho, seja de carpinteiro, seja de médico, seja lá do que for, o “saber” veio do Facebook e dos blogues, do pensamento débil que circula na Rede. Por isso, não surpreende que seja também nos blogues que já se vê como os propagandistas estão acossados e muitos a fugir do barco pelas cordas do costume. O ressabiamento cresce, a raiva transparece, os ajustes de contas já começaram. Afinal durou pouco, a “revolução” da “libertação da economia” contra os “piegas”.

 A culpa do populismo do encolher dos ministérios, é dos comentadores. A culpa de se escolherem maus ministros é dos comentadores. A culpa de se fazerem propostas eleitorais demagógicas, que depois se esquecem na primeira volta, é dos comentadores. A culpa de se passar do “conhecemos muito bem a situação do país” para a “surpresa com o buraco colossal”, é dos comentadores. A culpa de atirar trabalhadores do sector privado contra os do sector público, é dos comentadores. A culpa de se fazer legislação anticonstitucional, é dos comentadores. A culpa de “o programa da troika ser o nosso programa” e depois de o nosso objectivo passar a ser “correr com a troika” é dos comentadores. A culpa das peripécias do curso de Miguel Relvas é dos comentadores. A culpa dos conluios nas secretas é dos comentadores. A culpa de chamar “piegas”, “cigarras”, preguiçosos, etc. aos portugueses é dos comentadores. A culpa da TSU, é dos comentadores. A culpa do falhanço do défice “custe o que custar” é dos comentadores. A culpa da sublevação dos empresários contra a TSU, é dos comentadores. A culpa da quebra “colossal” das sondagens é dos comentadores. A culpa de haver portugueses que “vivem acima das suas posses”, a comprar Jaguares e malas Louis Vuitton, é dos comentadores. A culpa de tanta mediocridade é dos comentadores.

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O RELÓGIO 


Há um relógio invisível na maioria dos portugueses que conta: quanto tempo vai demorar até que deixem de pagar os seus impostos, porque pura e simplesmente não têm dinheiro para os pagar. Uma parte dos seus impostos é retirada com o salário, aí não podem fazer nada a não ser deixar de pagar outras dívidas. O efeito do peso dos impostos vai parar às contas da luz, gás, água, internet, telefone, prestação da casa ou do carro, tudo. Outra parte vem em vagas, que cada vez mais são antecipadas. O IRS de 2011 foi antecipado, os pagamentos por conta também. Depois virá o IMI, com subidas absurdas, cujo incumprimento está também garantido e para o afirmar não preciso de nenhuma folha de Excel. Quantos portugueses estão já hoje a deixar de pagar o IRS entre Setembro e Outubro de 2012? Muitos certamente. E depois não me venham com “surpresas” de que as receitas estão abaixo do previsto. Previsto por quem? Só se for pelo demónio, o Grande Enganador, que pelos vistos vai a Conselho de Ministros.

 O caminho que se segue é o de uma queda ainda mais súbita em todos os incumprimentos: a seguir a falhar o pagamento vêm as execuções fiscais, muito rápidas nestes dias de exigências de pagamento ao estado tão rápidas quanto são lentos os pagamentos do que o estado deve. O fisco funciona a alta velocidade num sentido, cobrar receitas, executar dívidas, e a lento e pastoso no outro, devolver o que recebeu a mais, pagar o que deve. Para muitos cidadãos o incumprimento fiscal torna-os em não-cidadãos: deixam de poder fazer muitos actos da sua vida “porque não têm os impostos em dia”. Nem individualmente, nem como família, nem nos milhares de pequenas e médias empresas. E cresce a economia paralela, com o empurrar de centenas de milhares de portugueses para a evasão fiscal consentida, desejada e quase saudada como resposta ao “enorme” esbulho fiscal. 

É uma via dolorosa que rebenta com uma vida e pode rebentar com um governo e até com a governabilidade do país. Olhem para o relógio.

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Até há algum tempo, e sempre que as situações o permitiam, a resposta a um pedido de orçamento era dada sob a forma de uma pergunta: «Com factura ou sem factura?».
Já repararam que, ultimamente, a pergunta nem sequer é feita?
(
Carlos Medina Ribeiro )
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A propósito do seu post "O Relógio" e da  adenda de um leitor, um aspecto que julgo fundamental:
 
Houve nos últimos tempos uma inversão radical da percepção corrente, no plano da moral individual, da dita Economia Paralela. Até há uns ano, praticá-la, ou ser pontualmente cúmplice dela, era sentido como uma espécie de "facadinha" clandestina, de fuga episódica  ao que de um modo difuso se considerava  certo, o contributo pessoal para o bem colectivo por via do Estado. Neste momento, assumindo-se o Estado como sobretudo agente oficial das "entidades estrangeiras"  que  confiscam  a maioria dos portugueses, participar na economia paralela  é sentido como acto de luta clandestina ao saque, um gesto de solidariedade entre espoliados,  quase um imperativo patriótico de resistência colectiva.
 
 
(Mário J. Heleno)

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EARLY MORNING BLOGS   

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Parturient montes, nascetur ridiculus mus.

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