Na
altura em que escrevo este artigo, os portugueses estão em pleno
síndroma de abstinência, ou seja, socorrendo-me da Wikipédia,
manifesta-se o "conjunto de modificações orgânicas que se dão em razão
da suspensão brusca do consumo de droga geradora de dependência física e
psíquica", que se "caracteriza em geral por alucinações e crises
convulsivas".
Entre as drogas que geram síndroma de abstinência
conta-se o álcool, a heroína, o ópio, a morfina, etc. Eu acrescento o
futebol. Não os jogos nos campos, onde vinte e duas pessoas disputam uma
bola que querem meter numa baliza adversária, porque esse é o menor dos
aspectos. Aconteceu quatro ou cinco vezes, no último mês, ocupando a
quem os vê a todos mais ou menos entre dez e quinze horas distribuídas
por um mês. Essas horas podem ser intensas, dramáticas ou cómicas,
interessantes ou um tédio, mas não são suficientes para serem tão
brutalmente opressivas como as muitas centenas de horas concentradas
nesse mesmo mês, em que por todo o lado, na televisão em primeiro lugar,
na rádio, nos jornais, nas conversas de café e salão, nos cartazes de
rua, nos ajuntamentos inebriantes e inebriados, se gerou uma forma de
histeria colectiva, tão euforizante como o ecstasy.
Eu já
não me surpreendo com quase nada, mas seria motivo para surpresa, ver
que dizer isto - de tão evidente que se trata de um excesso - provoca
uma reacção de fúria contra os "intelectuais antifutebol", que atinge o
seu paroxismo nos "intelectuais pró-futebol", cada vez mais e mais
agressivos em defender o seu menino de ouro. Claro que os "intelectuais
antifutebol" se contam pelos dedos de uma mão só, são fios de voz na
gritaria colectiva, capitaneados por mim, que, como se sabe, esmago o
país todas as vezes que abro a boca ou escrevo uma linha, provocando uma
irritação sublime, próxima da acusação de traição à pátria, e a vontade
de me expulsar para qualquer Ilha do Diabo.
Como de costume
também, são aprendizes de intelectuais os que mais gritam contra os
traidores, que não "sentem como os verdadeiros portugueses", e nos
blogues, a forma dominante actual do pensamento débil, isso é muito
comum. O que vale a pena dizer é que se "assumam", pintem a cara, vão lá
urrar diante de um ecrã gigante, e beber umas cervejas, porque estão
mais dentro do seu papel. Com aquele masoquismo que caracteriza os
verdadeiros intelectuais, ei-los a defenderem que é normal passar-se um
mês sem outro "público" no "espaço público" que não sejam adolescentes
aos molhos a saltar e umas senhoras do género das que vão para as portas
dos tribunais a exigir a pena de morte para um qualquer putativo
criminoso, a gritar pelo Ronaldo. E normal é milhares de comentadores a
explicarem os feitos do treinador, cujos defeitos enunciavam há um mês,
da equipa "esforçada" que nunca desiste, e que há um mês descreviam como
um grupo de mediocridades dirigidas por estrelas que se estavam a
"marimbar" para a equipa pátria e que só se preocupavam pelo Real
Madrid. Também aqui o poder tem muita força e o homem ganhou e os outros
jogaram bem, logo os elogios passaram a norma com tanta veemência como
as críticas do passado. Pelos mesmos.
Claro que tudo isto é muito
interessante para um antropólogo, ou um sociólogo, ou um psicólogo de
massas, ou mesmo um observador de Sirius qualquer que cá venha, e que
podem acrescentar mais uns exemplos a um catálogo que inclui ingleses,
brasileiros, argentinos e gente que mata pelo futebol, entra em guerra
pelo futebol, bate na mulher e nos filhos por causa do futebol, mas está
tudo bem. Não somos só nós, escreve-se, não somos os piores,
escreve-se, o que é verdade, mas a mim cuidam-me mais os nossos e não os
deles.
Os argumentos intelectuais são mais do que conhecidos, a
começar pela glorificação do excesso como comportamento genuíno e
verdadeiro, num mundo em que prevalece a hipocrisia e o disfarce, as
conveniências e as obediências. A histeria colectiva aparece assim como
uma necessidade catártica, que de vez em quando permite uma libertação
de um quotidiano infeliz. Está bem, mas é pouco, é poucochinho.
Outra
linha de escrita dos intelectuais pró-futebol é a linguagem orgástica,
para defender que o futebol é uma espécie de orgasmo colectivo
democrático e popular, bom para os sentidos, mesmo que bruto e fugaz. É
matéria romanesca, já está escrita e descrita, mas é pouco, é
poucochinho. O povo como criança grande ou adolescente petrificado,
sonhador e generoso, capaz de todos os sacrifícios, e que precisa de
exercitar a alma de vez em quando, também não é novidade. Mas esta
glorificação intelectualizada do escapismo tem muitos adeptos.
Em
Junho, a pátria podia ter batido a Alemanha de Merkel - não bateu -, e
depois regressar triste e arrebanhada às repartições, às filas de
trânsito, à transumância algarvia dos que ainda podem ir, e a outras
formas de cinzentismo de que os intelectuais não gostam porque não são o
Kafka. Também sabemos isso. Eu não sei é se estes intelectuais pró-bola
percebem o desprezo que têm pelo "povo", cujas exibições de grunhice
eles apresentam como genuínas manifestações do ser português, pelo menos
no futebol onde somos "grandes", enquanto somos pequenos em tudo o
resto. Não, eu gosto demasiado do meu povo para achar que "este" é o meu
povo, ou que este é o seu estado mais "natural" e genuíno.
Mas
este é apenas o intróito porque o meu ponto é outro: é de que estamos
perante uma construção que tem muito de artificialismo, que é gerada
essencialmente por uma droga sintética, na qual se movimentam muitos
interesses, dos media em crise, desesperados por audiências e publicidade, por equipas de Mad Men
à portuguesa, e pelas empresas de cervejas que procuram um público cada
vez mais novo, que beba até ao estado de estupor, mesmo que depois
falem gravemente dos malefícios do álcool.
Significa isso que o
perverso capitalismo é que gera a histeria futebolística para ganhar uns
milhões de euros? Seria simples se fosse assim, embora também o seja.
Há outras coisas que também aumentam este efeito, que funciona em
círculo vicioso. As raízes estão cá fora, mas o adubo, os esteróides, a
estufa, tudo o resto está lá dentro, dos media em particular. Até os pesticidas contra as ervas daninhas.
O
problema é que este é um fenómeno que se está a agravar de ano para
ano. Eu podia ter pegado num artigo antigo e reproduzi-lo outra vez,
porque o que se passa não é novo. Mas o que é novo é que cresce cada vez
mais, com uma dimensão abafante sobre tudo o resto, numa suspensão
colectiva do espaço público a favor do futebol. Os intelectuais pró-bola
alimentam consciente ou inconscientemente o dualismo poder-oposição,
transportando-o para o terreno do futebol "nacional", ou seja da
selecção de "todos nós", criticando o dissenso e valorizando o
"consenso", e acham que a chamada de atenção para o monotematismo
obsessivo destes dias se destina a "preferir" que as pessoas falassem da
austeridade, ou das medidas governamentais, ou da Europa.
Também,
mas longe de ser só isso. Também, porque neste mês de rasoira
futebolística os portugueses que trabalham perderam um número
significativo de direitos sociais, viram as leis laborais ser invertidas
a favor do patronato, e assistiram a uma crise europeia em que
caminhamos para a submissão completa, em que Portugal passa a uma
colónia de papel passado. É normal que eu considere bizarro tanto
patriotismo de pacotilha induzido pela histeria mediática ocupar o lugar
de um sobressalto inexistente com a proposta para que passemos, sem
disfarces, a colónia. Quais oitocentos anos de história, qual glória nos
relvados, qual quê! Tretas. Eu, pelo menos, ainda estranho, nem ainda
se me entranhou.
E por isso continuarei a considerar anormal,
excessivo e socialmente anómalo que se queira ter um país desenvolvido, e
ter a RTP1, a SIC, a TVI, a RTP Informação, a SICN, a TVI24 e muitos
mais canais a passarem todos ao mesmo tempo e durante o dia todo apenas
futebol, entrevistas a populares sobre futebol, comentários sobre
futebol, entradas e saídas de camionetes da equipa, adeptos polacos ou
ucranianos (da equipa portuguesa, claro), pequenos-almoços ou balneários, fans e magotes, tudo
ao mesmo, numa linguagem rasteira, imediatista, com logomaquias de horas
sobre nada e coisa nenhuma, seguidas de momentos de histeria ou
depressão colectiva televisionada em directo.
Tudo isto está bem
longe de ser gostar de futebol, "vibrar" pela equipa, ver os jogos,
entusiasmar-se ou desgostar-se. Está muito para além disso. Isto é
lavagem ao cérebro, e está cada vez pior.
The advantage of riches seems to be in the skin or not much deeper. I
wake up in morning & think, Well, I need not go to Boston or New
York: I need not purse my mouth in expectation of any great man to
descend into the parlor. I need not consult any worse man’s or odd man’s
humor; I am no man’s man. I am quite free to go to my work, the work
which is my joy to do. This makes a state of perfect preparation for the
work. If I wake up in another man’s house or in a hotel or place of
constraint, when I have come to do a forced work, come not with ideal
freedom but with external compulsion of some sort, then I feel an
irritability as much in the skin is in the soul, that pesters &
hinders me. If I were master of Millions I should not feel such vexation
but should control the circumstances & inasmuch as I am master of
hundreds or thousands, I do. And such & no other seems the advantage
of riches. If a man have more soul, more will, less skin, he can do without riches.
O PCP anunciou uma moção de censura e caiu-lhe meio mundo em cima. Olha o atrevimento! Ainda por cima porque a “moção não serve para nada”, porque existe uma maioria parlamentar sólida. Tudo isto está a ser dito por partidos que, todos eles, sem excepção, apresentaram moções de censura que se sabia também “não servirem para nada”. (Aliás só uma "serviu" para alguma coisa, dando a primeira maioria absoluta de sempre a Cavaco Silva.) Mas, mesmo assim, fizeram-no, por razões aliás pouco diferentes das do PCP: significa um acto de afirmação política, um momento suplementar de atenção dos media, e um confronto identitário. O PS a seu tempo também o vai fazer nesta legislatura, e também não vai “servir para nada”.
Claro que todas as moções deste tipo têm uma parte estratégica e outra táctica. A parte estratégica do PCP corresponde a um aspecto fundamental da acção do partido, a sua função tribunícia, o reverso da “responsabilidade de partido de governo” que anima o PS. Tacticamente o PCP tem outros objectivos, a começar por criar dificuldades ao PS, que está preso numa oposição retórica e numa colaboração de facto. A moção de censura tem um papel em dificultar a vida ao PS, ampliado pelas divergências internas que se lhe conhecem. De passagem, ultrapassa o BE, preso em dificuldades e divisões, mas duvido que o BE que tenha estado muito presente na decisão do PCP. O PS sem dúvida, o BE, só de passagem.
O PCP vive da conjugação entre uma acção tribunícia, com os seus efeitos de propaganda, identidade e afirmação, e o seu papel na protecção da sua “clientela” eleitoral, nos sindicatos e nas autarquias. Por e para isso usa a moção como instrumento. Convém não esquecer nunca aquilo que muitos comentadores esquecem quando referem o PCP: ele não está a falar para todos nós, ele não pretende que a sua “mensagem” nos chegue, porque conhece os seus limites. Ele está a falar para um dos poucos grupos políticos com uma forte identidade não apenas de pertença mais ou menos clubística, mas social. Enquanto os partidos como o PS e o PSD são partidos em que a representação social é difusa e transversal, no PCP sabe-se muito bem quem são os “seus” e o que é que eles precisam do PCP. O PCP nesta fase de defesa, mais do que de ataque, pisa só o solo que melhor conhece.
The authority of government, even such as I am willing to submit to — for
I will cheerfully obey those who know and can do better than I, and in
many things even those who neither know nor can do so well — is still an
impure one: to be strictly just, it must have the sanction and consent
of the governed. It can have no pure right over my person and property
but what I concede to it. The progress from an absolute to a limited monarchy,
from a limited monarchy to a democracy, is a progress toward a true respect
for the individual. Even the Chinese philosopher
was wise enough to regard the individual as the basis of the empire. Is
a democracy, such as we know it, the last improvement possible in government?
Is it not possible to take a step further towards recognizing and organizing
the rights of man? There will never be a really free and enlightened State
until the State comes to recognize the individual as a higher and independent
power, from which all its own power and authority are derived, and treats
him accordingly. I please myself with imagining a State at least which
can afford to be just to all men, and to treat the individual with respect
as a neighbor; which even would not think it inconsistent with its own
repose if a few were to live aloof from it, not meddling with it, nor embraced
by it, who fulfilled all the duties of neighbors and fellow-men. A State
which bore this kind of fruit, and suffered it to drop off as fast as it
ripened, would prepare the way for a still more perfect and glorious State,
which also I have imagined, but not yet anywhere seen.