Uma das coisas de que se deve fugir a sete pés é a tendência dos governantes para tomarem medidas grátis ou baratas quando não há dinheiro para fazer qualquer outra coisa. É infelizmente uma prática habitual nos ministérios mais apertados pelas restrições financeiras e destinam-se a mostrar que o Ministro existe mesmo, e não é um fantasma que vagueia pelas salas. Há assim duas políticas: as reais, que são os cortes, e a fictícia que são as medidas grátis e baratas. Em áreas como a cultura, a educação e a justiça, está-se cada vez mais neste terreno perigoso do fictício.
Infelizmente os resultados desta prática são conhecidos: ou se estraga o que está a funcionar bem em nome de qualquer melhoria utópica, ou acaba por se gastar muito mais dinheiro com aquilo que aparentemente se apresentava como sendo grátis ou a “custo zero” como agora se diz. Nem que seja pela instabilidade legislativa, as coisas ficam piores. E depois ficam piores porque estas medidas tendem a ser desgarradas e não coerentes e sem mudar o edifício, enfraquecem-no. De um modo geral reforça-se o intervencionismo do estado, e diminui-se a liberdade das pessoas e da economia.
Há excepções, mas esta é a regra.
The mass of men serve the state thus, not as men mainly, but as machines,
with their bodies. They are the standing army, and the militia, jailers,
constables, posse comitatus,
etc. In most cases there is no free exercise whatever of the judgment or
of the moral sense; but they put themselves on a level with wood and earth
and stones; and wooden men can perhaps be manufactured that will serve
the purpose as well. Such command no more respect than men of straw or
a lump of dirt. They have the same sort of worth only as horses and dogs.
Yet such as these even are commonly esteemed good citizens. Others, as
most legislators, politicians, lawyers, ministers, and office-holders,
serve the state chiefly with their heads; and, as they rarely make any
moral distinctions, they are as likely to serve the devil, without intending
it, as God. A very few, as heroes, patriots, martyrs, reformers in the
great sense, and men, serve the state with their consciences also,
and so necessarily resist it for the most part; and
they are commonly treated as enemies by it.
É sempre no ano seguinte. Em 2008, este era o ano de todas as dificuldades, no ano seguinte ia melhorar. Em 2009, estávamos no pico da crise, no ano seguinte ia-se partir para outra. Em 2010, tinham que ser tomadas as medidas mais duras, a partir do ano seguinte começavam-se a ver os efeitos positivos. Em 2011, era o “pior dos anos”, depois no ano seguinte começava a “recuperação”. Em 2012, atravessamos o “momento mais difícil”, mas no ano seguinte começamos a “crescer”. Tenho poucas dúvidas sobre o que nos vai ser dito em 2013.
Não admira que as pessoas odeiem o presente. É que começam a perceber que o futuro é igual ao presente, por muito que os enganem sobre ele. Estão presas no presente, como se de um pântano se tratasse. Ninguém é feliz dentro de um pântano. E pensam, no meio da atmosfera miasmática, das sanguessugas e das cobras, e do lodo, “falem-me de tudo menos do ano seguinte”. O “ano seguinte” é sempre este.
Há cem anos, que não é assim um tempo muito distante - estamos a falar, grosso modo,
dos tempos da Primeira Guerra, cujos últimos combatentes morreram na
última década - os livros da biblioteca familiar estavam numa casa
grande no Porto, perdidos que foram os palácios e vendidas que estavam a
ser as grandes quintas do Douro. Nada de especial. Depois, algumas
décadas depois, a biblioteca estava em casas cada vez mais pequenas, o
que dava a sensação de que tinha aumentado. Os livros eram mais, mas não
muitos mais, enquanto o espaço era cada vez menos.
Depois houve
uma fase de divisão, não tanto porque o núcleo central da biblioteca
fosse alguma vez dividido, escapando por milagre a heranças e a
herdeiros, mas porque uma biblioteca tem o efeito de gerar bibliófilos
ou, pelo menos, tem uma probabilidade considerável de criar um respeito
pelos livros que tendem a deixá-la mais ou menos intacta. Nada é
perfeito, não funciona sempre, mas acontece e não é por acaso.
Nesta
fase de divisão, ou mais propriamente de mitose, para usar uma imagem
da biologia, uma nova biblioteca começa a formar-se paralela à primeira,
num dos ramos da família, ou, como foi o caso, de pais para filhos. A
geração anterior mantém a biblioteca original e a nova começa também a
coleccionar livros. Depois, a morte torna de novo a unificar os livros
numa casa comum, aumentando significativamente a biblioteca. Recordo-me
de, após a morte súbita do meu avô, ir com o meu pai ao seu atelier
- era um boémio contumaz e um desenhador de mérito -, e ver a um canto
uma espécie de pirâmide que ia até ao tecto, e a sala tinha um grande
pé-direito, feita de livros empilhados, todos comprados para além da
biblioteca familiar. Juntaram-se aos que já havia, agravando o efeito
dos livros como grandes devoradores do espaço e a tendência para
ocuparem tudo o que está vazio. Se há horror ao vácuo, é nas
bibliotecas. O espaço é o seu maior desejo, quase tanto como de ter mais
livros, e o espaço é o seu mais caro investimento.
Um dos
efeitos desse devorar contínuo do espaço é que à medida que as casas iam
ficando mais pequenas, passavam para os arrumos os objectos que
decoravam a biblioteca, e é isso de que vos vou falar, mais do que dos
livros. Também porque se percebe até que ponto, e mais uma vez, como o
"passado é um país estrangeiro".
Agora que a morte mais uma vez
"unificou" a biblioteca, tive ocasião de encontrar nesses arrumos
exactamente alguns dos objectos que, quando havia mais espaço, decoravam
a sala ou as salas onde estavam os livros. Refiro-me a quadros,
esculturas e objectos de decoração relacionados com os livros e os seus
autores, e que estão a ser literalmente desenterrados do limbo a que as
casas mais pequenas da cidade os condenavam. As casas e talvez o gosto,
embora não esteja certo deste último factor, foram afastando estes
objectos da sua relação original com os livros.
Um desses
objectos é uma grande gravura de Victor Hugo, reproduzindo uma sua
imagem célebre feita pelo conde Stanislaw. Vê-se um homem idoso,
modestamente vestido, numa pose reclinada, que parece mais de cansaço do
que de pensamento, ligeiramente despenteado e com um olhar ao mesmo
tempo triste e penetrante. Esta é uma postura muito comum de Hugo,
reproduzida em muitas imagens, gravuras e quadros, quase um trademark, como a imagem do velho Tolstoi com as suas barbas brancas e o seu fato de mujique.
Estava
cheia de pó, tinha o vidro partido, mas a gravura está intacta. Pela
sua dimensão, tinha que estar numa parede grande, com um papel de
relevo, mostrando a enorme admiração que as gerações da segunda metade
do século XIX tinham pelo escritor. Em Portugal era a mesma coisa,
porque era numa casa portuguesa que o quadro estava exposto. Duvido que
hoje alguém tivesse um quadro de um escritor contemporâneo - Hugo morreu
em 1885, por isso é provável que estivesse vivo quando a sua imagem já
ornamentava a biblioteca -, na sua casa. Não vejo que um Philip Roth, um
Coetzee, um García Márquez, um Borges pudessem estar no mesmo lugar, e
mesmo para os "grandes" deste século, Joyce, Mann, Eliot, seria bem
pouco provável que ocupassem o lugar da admiração "burguesa" que
explicava o Victor Hugo no espaço íntimo de uma casa oitocentista. Mas o
autor de Os Miseráveis vai agora voltar a uma parede, limpo e restaurado, até um dia.
Depois
há bustos vários, portugueses na sua maioria, que ornamentavam as
estantes. Há um Herculano, anterior às comemorações do centenário em
1910, que produziram muitos bustos populares para as casas de
republicanos, expostos ao lado da República de barrete frígio. Herculano
mais que merece voltar a um novo lugar de honra, até pela imagem que
sempre me fascinou de o imaginar a organizar o comboio de carros de bois
a transportar os velhos livros dos mosteiros de Coimbra para o Porto.
Alexandre Herculano, escritor e bibliotecário, amador de livros e papéis
antigos, erudito, como poucos portugueses são ou foram, merece tutelar
alguma velha estante de livros antigos.
Bem perto estará Castilho
cego, outro busto comum nas bibliotecas oitocentistas, e outro autor a
cuja enorme popularidade na época sucedeu um ocaso quase total. Castilho
estava já presente na biblioteca por um edital publicitário
encaixilhado do seu Curso de Língua Latina de 1851, que ele publicitava
na terceira pessoa dizendo que o professor, ele mesmo, "tinha uma
impagável assiduidade e paciência" e "portentosa eficácia". Devo enviar
uma cópia ao Nuno Crato.
Castilho, não sendo um desconhecido e o
seu nome e a sua cegueira conhecidas mesmo num público menos literato,
em grande parte como pedagogo, devem-se contar pelos dedos das mãos, ou,
vá lá, acrescento os pés, as pessoas que lêem hoje Castilho fora da
academia. Eu sou um bom exemplo, porque, para além da Felicidade pela Agricultura,
cujo título me atraiu, das polémicas, lidas do lado anti-Castilho, de
algumas traduções dos autores clássicos, e de um outro poema numa
antologia, nada mais. E ele escreveu bastante mais.
Por fim,
escolhendo entre vários, há um prato de parede de bronze, na realidade
um relevo, com uma representação de Molière. Este recordo-me de o ter
visto sempre exposto, o que me surpreendia, porque apesar de a
biblioteca ter uma grande colecção de livros franceses do século XVIII, e
alguns do século XVII, não havia praticamente nada de Molière. O prato
chegou à parede não por escolha literária, mas pelo bronze em si, com a
efígie do autor com a sua enorme cabeleira, rodeado pelas musas Tália e
Terpsícore.
Hugo, Herculano, Castilho e Molière são boas
companhias para os livros. Podiam ser outros, mas o gosto antigo que os
escolheu - porque todas estas coisas tiveram algum dia que ser compradas
e é provável que algumas não fossem baratas - já acabou. Hugo e Molière
são autores escolares e por isso de leitura obrigatória em França.
Alguns livros de Hugo entraram profundamente no imaginário popular e por
isso ele permanece em França um autor vivo. O mesmo acontece com
Molière, cujas peças continuam a ser populares e periodicamente
representadas. Alguns dos seus tipos também se tornaram populares e do
misantropo aos "maridos confundidos", aos "cornudos" em geral, Molière
está longe de ser apenas um autor escolar. Mas em Portugal só no Liceu
Francês.
Em Portugal, Herculano e Castilho estão lá nos seus
bustos, nos seus nomes de instituições, nos seus nomes de ruas e pouco
mais. Herculano, um pouco melhor do que Castilho, mas também quase
varrido, até nas escolas, pelos textos jornalísticos e sobre o Facebook,
com que se pretende "atrair" os jovens para a literatura sem ser por
textos com valor literário e artístico. Tempos. Por isso, nesta antiga
biblioteca que me coube por sorte e por família, sem a qual seria outro,
o anacronismo tem o seu papel. Nas paredes, nas estantes e nas
leituras.
“Our country is the best country in the world. We are swimming in prosperity and our President is the best president in the world. We have larger apples and better cotton and faster and more beautiful machines. This makes us the greatest country in the world. Unemployment is a myth. Dissatisfaction is a fable. In preparatory school America is beautiful. It is the gem of the ocean and it is too bad. It is bad because people believe it all. Because they become indifferent. Because they marry and reproduce and vote and they know nothing.”
A pergunta tem todo o sentido. Durante anos foi-nos dito que a Constituição portuguesa defendia os “direitos adquiridos”, impedia o livre despedimento dos trabalhadores, protegia o trabalho, impedia os despedimentos na função pública, o corte de salários, etc., etc. Este era aliás um dos grandes argumentos contra o “sistema” que a Constituição protegia. Alberto João Jardim fez a parte mais lúcida da sua acção politica denunciando esse “sistema”.
Mas agora afinal verifica-se que tudo isto é possível com a “Constituição que temos”, como pejorativamente se dizia. Das três uma, ou a Constituição mudou sem nós sabermos, ou não era o que as sumidades do direito constitucional diziam que era, ou então não vale nada, existir ou não é a mesma coisa.