| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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10.4.10
APRENDENDO COM O PADRE ANTÓNIO VIEIRA: Haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. ![]() Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos, haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura, que se armem contra eles todas as criaturas?! Grande desgraça! Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados. (url)
COISAS DA SÁBADO: MAIS SOBRE AS CASINHAS DESENHADAS PELO ENGENHEIRO
O que o Público trouxe mais uma vez a público é uma história tão estandardizada, tão “by the book” que, para qualquer conhecedor das autarquias, é de uma transparência como a de uma garrafa de bom vodka. Todos os inspectores da IGAT, conhecem-nas de cor, todos os procuradores as repetem nos estudos de casos. Tudo “by the book”: o técnico de uma autarquia que assina projectos na autarquia do lado, os “favores aos amigos” evidentemente grátis e sem traço nos impostos (as contas bancárias é outra coisa), o assinar de cruz todas as marquises, garagens, acrescentos, aumentos, etc., que o cliente, que é o único que paga, deseja, sem respeito por qualquer regra de construção. E depois há mais: o técnico menor de uma autarquia de província com uma ambição maior já com resultados em termos de ascensão política e que negligencia as suas funções e que é repreendido. Na verdade, ele está a sair de um tipo de vida para outra. Está a subir e a esquecer.O comunicado de José Sócrates contra o Público, que nada esclarece, dá a entender que terão sido “pecadilhos de juventude” e, com a ironia da arrogância amoral, sugere ao jornal que investigue a sua vida enquanto andava de fralda. É verdade, aqui o técnico ainda estava na Liga Menor e podia ter crescido bem depois e ninguém lhe levaria muito a mal os “pecadilhos” . O problema é que Sócrates está agora na Liga Maior. (url) (url)
COISAS DA SÁBADO: O PROBLEMA DOS INQUÉRITOS NA ASSEMBLEIA
Parece que o PS, por uma questão de leverage, quer fazer um inquérito na Assembleia para funcionar como “arma de arremesso” como agora se diz, contra o inquérito ao negócio da PT-TVI e às responsabilidades do Primeiro-ministro nessa operação. O motivo é mau, é politiquice da mais vulgar, mas a ideia de que nenhum destes assuntos “quentes” da vida política deva ficar fora da Assembleia, é boa. O problema não é haver muitos inquéritos a correr ao mesmo tempo, é que a Assembleia não está preparada nem organizada para o fazer. Mas se há caminho para uma Assembleia moderna e politicamente eficaz que possa pelo menos moderar o sentimento de inutilidade do parlamento é desloca-la da produção legislativa como centro, para o escrutínio permanente da governação. Para isso é preciso fazer tudo aquilo que toda a gente sabe que é preciso fazer, a começar pela redução da centralidade do Plenário em relação às comissões e dentro delas encontrar formas mais maleáveis de organizar comissões de inquérito ou audições ajuramentadas, sem a grande complicação e pompa regimental que hoje se exige. É suposto não faltarem deputados para muito mais trabalho especializado como o de inquéritos deste tipo, mas isso implica também mudanças que impliquem o reforço da responsabilidade individual e a alteração do caminho para a partidarização cada vez maior da Assembleia. A partidarização torna as maiorias políticas em detentoras da verdade parlamentar, e tem que ser ultrapassada por um reforço da independência dos deputados face a directrizes de condução partidária dos inquéritos.O caminho para uma Assembleia assente no escrutínio pode ser complicado e suscitar muitas incompreensões, mas é aquele que melhor valor acrescentado pode dar a um parlamento útil para a democracia. (url) “It is natural for man to indulge in the illusions of hope. We are apt to shut our eyes against a painful truth, and listen to the song of that siren till she transforms us into beasts... For my part, whatever anguish of spirit it may cost, I am willing to know the whole truth, to know the worst, and to provide for it.” (Patrick Henry ) (url) 9.4.10
(url) ÍNDICE DO SITUACIONISMO ![]() A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração. E, nalguns casos, de respiração assistida. Em breve, uma nova série de situacionismos e de situacionistas adaptada aos tempos novos pós-setembristas. Agora com um novo acrescento, o dos "oferecidos". (url) COISAS DA SÁBADO: SUBMARINOS, PORTUCALE, FACE OCULTA, FREEPORT E O QUE MAIS HAVERÁ E SE SABERÁ (OU NÃO) ![]() O que se vai sabendo sobre as compras de material militar ocorridas durante o governo Barroso – Portas, em sequência do de Guterres e prosseguindo no de Sócrates, mas com epicentro no primeiro, é de total gravidade. É mais grave do que o processo Face Oculta, Freeport, Portucale e do que der a “Operação Furacão”, com quem tem os pontos de contacto de histórias de corrupção. É verdade que não há para aí um “medidor de gravidade” e que sempre se pode dizer que tanto é mau umas ofertas de jarras em cristal da Atlantis como as centenas de milhões que circulariam entre escritórios de advogados da “alta” e os offshores. É e não é. O caso dos submarinos, pelo que já se sabe, é o mais grave caso porque envolve não só um caso de eventual corrupção no âmago do estado e dentro dele em duas áreas particularmente sensíveis, as forças armadas e os agentes políticos, e, fora dele, a primeira linha dos interesses económicos associados ao coração da vida política: grandes contractos, intermediação, financiamento, aconselhamento jurídico e técnico. E as quantias envolvidas são enormes e o prejuízo público gigantesco. Ou seja, se há grande corrupção em Portugal, está aqui tudo Mas não só. Mesmo que não se prove a corrupção, nos vários processos em curso em Portugal e na Alemanha, há pelo menos grossa negligência e grossa incúria, a exigir total esclarecimento. O que se passou com as contrapartidas, que se percebeu desde o primeiro minuto serem fantasiosas e incumpriveis, revela que, por muito legítimas que tenham sido as compras, caso não se prove a corrupção, pelo menos foram feitas com um enorme desperdício de dinheiros públicos, porque o que se comprou foi-o a preços muito acima do normal, num mercado tão competitivo como é o do armamento . O que aconteceu é que, sem as contrapartidas, cujo cumprimento não chega a 30% do acordado, os valores das compras ficam exorbitantes. E por último, o que se verifica é que para uma grande empresa de armamento alemã, Portugal não é diferente de Angola: só lá se vai com “luvas” Por tudo isto, exige-se todo o esclarecimento, a todos os níveis, económico, judicial e político. (url) (url) (url) 7.4.10
EARLY MORNING BLOGS
![]() 1775 - I Could Give All To Time To Time it never seems that he is brave To set himself against the peaks of snow To lay them level with the running wave, Nor is he overjoyed when they lie low, But only grave, contemplative and grave. What now is inland shall be ocean isle, Then eddies playing round a sunken reef Like the curl at the corner of a smile; And I could share Time's lack of joy or grief At such a planetary change of style. I could give all to Time except - except What I myself have held. But why declare The things forbidden that while the Customs slept I have crossed to Safety with? For I am There, And what I would not part with I have kept. (Robert Frost) (url) 6.4.10
(url) 5.4.10
Se for pessimista posso dizer que tenho em casa várias bibliotecas mortas. Se quiser ser optimista, várias bibliotecas que salvei de morrer, algumas in extremis. Explico-me: no ofício de bibliófilo, de amador de livros, encontro-me muitas vezes com restos de bibliotecas, ou nalguns casos com bibliotecas inteiras, que recolho a casa, com as dificuldades que os livros transportam. Livros são matéria difícil e cara de manter: ocupam muito espaço, são muito pesados, ganham pó e humidade, bolores e uma fauna sinistra de insectos que já leram muito mais do que os humanos. Leram aliás de uma forma mais holística, comendo livros, jornais e revistas. Eu que sou gandhiano e vagamente budista em relação a todas as formas de vida - nunca se sabe que inimigos meus, ignorantes presumidos em vida, reincarnaram em caruncho ou "peixinhos de prata" por castigo divino - transformo-me num Átila diante desses bichos. Não me refiro aqui a livros avulsos, porque livros avulsos mesmo que sejam muitos não fazem uma biblioteca. Refiro-me a bibliotecas verdadeiras, colecções privadas de livros que não são meros ajuntamentos, ou fachada para dar entrevistas e receber alguém num escritório. Uma regra, com fundamento na minha experiência, diz-me que a partir de mil livros a biblioteca não contém só livros mas a identidade do seu "autor". São estas bibliotecas que me interessam, muitas vezes mais do que os livros em si, mesmo quando não contém raridades bibliográficas. Bibliotecas que são parte de uma vida, livros que foram escolhidos por uma razão qualquer, que foram lidos pelo menos em parte, e que serviam mais de espelho do seu dono do que de fachada de estantes. E são essas bibliotecas que, na morte, são tão trágicas como é a morte de alguém. Já as vi nas estantes, mas o que é mais comum é que quando ainda aí permanecem é porque já foram ou vão ser vendidas a algum alfarrabista ou esperam um leiloeiro. Na verdade, é esse o destino das bibliotecas com mais preciosidades, e que são vistas pelos herdeiros como um valor essencial da herança. Também aqui se compreende visto que nem toda a gente gosta de livros, nem tem as condições materiais para os manter. E não seriam capazes de lhes dar continuidade, como colecções valiosas que exigem muito. Nesse caso, e se a venda for bem feita, o catálogo é o último momento da integridade da biblioteca e, num certo sentido, fica aí a sombra da identidade do seu possuidor. E os livros alimentam outras bibliotecas e outras colecções. É aquilo que se pode chamar de morte digna, se é que há morte que seja digna. Mas, mesmo bibliotecas preciosas morrem mal por ignorância e cupidez, de gente que quer despachar tudo rapidamente, e que quando se chega à biblioteca já hordas de herdeiros passaram tudo a pente fino para levar das encadernações mais vistosas aos lustres e naperons. Lustres e naperons, porque bibliotecas são coisa cada vez mais de gente antiga, porque nos apartamentos de Telheiras não há espaço para livros que se vejam, nem a "vida moderna" permite ocupar tanta parede. Só o "plasma" dá para uma estante inteira, ou melhor, não dá porque tira. Para além disso há normalmente um membro do casal, ou algum membro das formas actuais de uniões monogâmicas sucessivas - esta é uma história que já ouvi dezenas de vezes -, que conduz uma guerra surda ou sonora contra o "espaço" que ocupam os livros. E uma parte vai para a arrecadação, a mais antiga normalmente, a que foi comprada há mais tempo, e então revistas e jornais são periodicamente purgados da "vida moderna". Não estou a condenar ninguém, a "vida moderna" não dá mesmo para ter livros que se vejam em casa. De passagem e com declaração de interesse: não deitem nada fora, eu vou à mais complicada arrecadação de terraço ou de garagem, buscar papéis para lhes dar outra vida. Não há garantias de eternidade, mas se depender do humano esforço, eu faço com gosto. Tomem este artigo como uma página de publicidade, verdade seja que não lucrativa. É para o "colectivo", como diz o PCP. Neste cemitério dos livros, eu gosto de bibliotecas "comuns" feitas por gente comum que gosta de livros. Bibliotecas de autodidacta na província, feitas quase sempre por gente muito especial, verdadeiros excêntricos, muitas vezes solitários, com interesses muito especiais, obsessivos, que marcam as bibliotecas com a sua vida. Tenho uma de um homem com poucos estudos académicos, soldado da GNR, depois da Polícia de Viação e Trânsito, poliglota, missionário evangélico, que vivia sozinho, e que o único membro da família sobrante vendeu a peso a poucos dias da morte, como se fosse uma vingança qualquer para a excentricidade que se pode perceber do "autor" da biblioteca. Tenho a de Francisco Ferreira, o "Chico da CUF", o que sobrou do seu longo e acidentado périplo pelo exílio na URSS, com os seus clássicos russos em russo, Tolstoi, Tchekov, Lermontov, Turgueniev, mas também os dicionários que usava e os seus cadernos de autodidacta de exercícios de matemática. Tenho outra, mais pequena, mais de revistas, papéis, programas, partituras, desenhos, do que de livros, feita por um actor secundário de revistas do Parque Mayer, já há muito morto, e que foi mantida como memória pela viúva. Outra foi-me oferecida no final de um programa de rádio, um daqueles estandardizados em que se fala das "músicas da vida" na Antena 2, por um filho de um velho professor de liceu de Germânicas que me disse para a ir buscar porque as músicas que passei eram também do agrado do seu pai que tinha morrido. E lá trouxe uma pequena biblioteca cheia de Shakespeare, dos clássicos ingleses, de Goethe, de estudos de literatura alemã e inglesa feita nos anos quarenta e cinquenta. E lá veio também uma daquelas coisas que são marcas imediatas da identidade política, muitas vezes discreta, do seu autor: uma colecção do Diabo. Essas marcas são sempre as mesmas, o Diabo ou o Sol Nascente, as primeiras edições de Redol, de Ferreira de Castro, os livros da Biblioteca Cosmos. Não tendo condições para manter os livros separados, eles dissolvem-se na biblioteca mais geral, mas digitalizo a capa dos livros numa pasta electrónica separada. Como não tenho tempo para fazer fichas, é assim que os organizo. Mas uma parte fica sempre separada: os papéis que vêm juntos, fora e dentro dos livros, as dedicatórias, os ex-líbris, e tudo que possa servir para lhes manter a identidade. E assim não morrem de todo. (Versão do Público de 3 de Abril de 2010.) (url) ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE
(url) (url) 4.4.10
ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE
(url) (url) Or the true feelings of those slaves who say they would not be free. The following shows their feelings when they are free. Old master always said,
Jack will never leave me: He has a noble head, He will not deceive me. I will treat him every day Kindly and clever, Then he will not run away— No, master, never! One night I heard him say, He was going to Cleveland, A thought struck me right away, That this was a free land. I thought if I too could go, The dearest ties I’d sever. And never would come back no more— Never! no, never! The next morn at early dawn, I heard old master knocking: He says, “Jack, we must be gone— Put on your shoes and stockings.” Quickly I bounded out, And got my clothes together, And told my wife I’d not come back No, Lizzie, never! Soon we were on the way, Toward the Forest City; There to leave my wife a slave, I thought it was a pity. I heard mistress slightly say, We’ll all keep together, Or Jack will go to Canada, No, says master, never! Jack, says he, be wide awake, And let nobody tease you; And don’t go too near the lake— The cold winds will freeze you! Do you think I would run away, And leave a man so clever, And seek a home in Canada? “No, master, never!” We stopped at the Weddell House, The thought then came o’er me, That now’s the time to go across, As many have gone before me. I went down to the steamboat wharf Got on the Jacob Astor, And cried aloud as she shoved off, Farewell, old master. The next day, in Malden town, Who should I see but master, He says, Jack, you must go home, You’ll starve and freeze to death sir. Says I, you are a nice old man; Very kind and clever; But think I’ll wear my chains again? “No, master, never!” (Joshua McCarter Simpson) (url)
© José Pacheco Pereira
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