ABRUPTO

22.11.09

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UMA BUROCRACIA POLÍTICA DE PRIMEIRA
.......................................................................escolhe
...................................................................................UMA BUROCRACIA POLÍTICA DE SEGUNDA


Terminadas as últimas aflições com o Tratado de Lisboa, pressionados os irlandeses a votar "sim" sob pena das maiores desgraças lhes acontecerem num momento difícil em que estavam, isolado Vlaclav Klaus, começou a corrida para se moldarem as instituições da União Europeia ao novo Tratado. Afastado também o risco de um referendo britânico, em que o "não" era garantido, a máquina burocrática da Europa conheceu uma pequena aceleração. Escolho as palavras com cuidado, "máquina burocrática" para designar o que é hoje essencialmente a União Europeia, conduzida sem fulgor pelos actuais governantes europeus, e "pequena aceleração" porque já se percebeu que pouca coisa vai mudar nos tempos mais próximos, porque não só há muita inércia, como não há muita vontade para sair da inércia. Não estamos em tempos de grandes decisões, porque ou custam dinheiro, que ninguém está disposto a pagar, ou implicam deslocações de poder que ninguém tem força para garantir, mesmo entre o directório que de facto dirige a Europa.

Como se percebeu, Portugal chegou ao ponto zero da sua capacidade de influência europeia, e nem sequer se ouviu alguém emitir uma opinião, quanto mais um interesse, nem que fosse sobre o perfil dos novos cargos. Não valia a pena, e nem sequer vale a pena fingir que vale a pena. A União Europeia está muito longe e a nossa debilidade é tão grande que não contamos para nada. Podiam ter saído nas escolhas o Xá da Pérsia no exílio, ou um candidato do Official Monster Raving Loony Party, que ninguém perceberia a diferença com Catherine Ashton e Herman Van Rompuy.

Poucas coisas revelam mais a situação actual da Europa do que estas escolhas para os dois cargos que era suposto resolverem os impasses de direcção e de representação que a União Europeu conhece, e, por isso, tudo se passou perante a indiferença geral. À partida, a própria definição dos cargos pelo Tratado de Lisboa já reflecte um crescendo burocrático. O cargo de presidente da União representa uma fonte de conflitos institucionais com o presidente da Comissão, e sempre que um se impuser, enfraquece o outro. Tudo indica que a mera existência do cargo aponte para um downgrading do papel de presidente da Comissão, que até agora era a "cabeça" da União. Agora é a "outra" cabeça, a do chapéu mais antigo e gasto, que empalidecerá com o novo chapéu, durante algum tempo.

Quanto ao novo "ministro" dos Negócios Estrangeiros, a segunda variante do "número de telefone que Kissinger dizia que não tinha", dificilmente conhecerá muito mais sucesso do que a primeira variante, o "senhor PESC", Javier Solana. O problema da existência ou melhor, da inexistência, de uma política externa europeia é estrutural e não é resolvido acrescentando títulos cada vez mais pomposos a uma ausência de condições e de vontade política de ter uma política comum que seja mais do que a do mínimo denominador: Londres, Berlim, Paris farão o que entenderem e só usarão, insisto, usarão, a nova "ministra" quando tal for útil para a sua própria política externa, quando tal corresponder a uma vontade comum. Como é óbvio, para Lisboa, ou Haia, ou Praga, ou Vilnius, ou Varsóvia, resta um papel de subordinarem as sua políticas externas aos ditames europeus, por regra. As excepções, como por exemplo o adiamento do reconhecimento do Kosovo, serão isso mesmo, as excepções que confirmam a regra.

Mas Catherine Ashton, ela própria uma burocrata, contará com uma nova burocracia especializada, o Serviço Europeu para a Acção Externa, ou seja, uma diplomacia própria da União dependente de Bruxelas. Diga-se de passagem que isso será mais um prego no caixão da existência de uma diplomacia portuguesa própria, porque não será difícil de imaginar como é atractivo a governos pressionados pelo deficit fechar embaixadas ou não as abrir e entregar a representação de Portugal a embaixadores da União. Já há muito sítios onde tal acontece, mas ainda sem o grau de institucionalização que este novo serviço externo permitirá.

A escolha de Herman Van Rompuy e Catherine Ashton não deveria surpreender ninguém que acompanhe a União nos últimos anos. Já de há muito tempo que os chefes de governo aceitam apenas como perfil dos cargos liderantes da União personalidades desconhecidas, baças, que em nenhuma circunstância têm força e autoridade política próprias para empalidecerem a sua igualmente frágil liderança política. Na verdade, trata-se da escolha por governantes menores de governantes que eles acham ainda mais menores, das escolhas por uma burocracia de primeira de uma burocracia de segunda, que não lhes faz sombra e que não aspira a ser autónoma.

Estes dois nomes podem vir a ser a maior surpresa do mundo se forem aquilo que não foram até à sua escolha. Pode-se dar-lhes esse benefício de dúvida, mas um primeiro-ministro belga, do plat pays, que não é verdadeiramente um pays, e uma baronesa trabalhista, uma espécie típica da política britânica, que faz parte da House of Lords, sem eleição, e que não tem qualquer experiência de política externa, pareceriam escolhas absurdas se não fosse este critério de escolher pelo cinzento.

A biografia de Van Rompuy é típica dos políticos belgas e não é por acaso que se lhe atribui a quase exclusiva qualidade de negociador, de "homem de diálogo". Como me explicavam os taxistas belgas- sim porque os taxistas não são muito diferentes de terra em terra -, de cada vez que se passava por um buraco na rua ou por um andaime, esta obra era dos "socialistas", esta dos "democratas-cristãos", esta dos valões esta dos flamengos, esta dos "socialistas valões", aquela dos "nacionalistas flamengos", e por aí adiante. Mover-se neste xadrez é o modo como se sobe na política belga e, se se entender que a União é assim, e nós somos os "socialistas valões" e os italianos os "nacionalistas flamengos", então precisamos de um político belga para negociar as obras públicas. Mas a Bélgica é o que é, le plat pays, e aqui o "plat" não é só geográfico.

Os dois serão certamente bem-vindos pela burocracia de Bruxelas, que reconhece os seus e os promove. Mas só com muita imaginação é que se pode considerar que as escolhas são "ambiciosas", e que representam uma nova era europeia que de há muito nos é anunciada para depois de um novo Tratado feito para os desígnios do directório europeu. Vamos ver.

(Versão do Público de 21 de Novembro de 2009.)

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)



Entardecer no Porto. (José Carlos Santos)



Mar. (ana)



Mar matinal. (RM)

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EARLY MORNING BLOGS

1681 - Provérbio

No
Nunca dejes camino por vereda
camino viejo por camino nuevo.

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COISAS DA SÁBADO: IMPEDIR A VIOLAÇÃO DO SEGREDO DE JUSTIÇA

A violação do segredo de justiça é condenável, sem hesitações. Todos sabemos como essa violação se presta para todas as manipulações possíveis da opinião pública e não há nenhum processo, envolvendo políticos, que não seja violado. O CDS, o PSD, o PS, têm todos razões de queixa. Mas deixemo-nos de hipocrisias, não é possível atacar a violação do segredo de justiça apenas na sua fonte judicial, porque ou se penaliza os jornalistas e o jornal por essa violação ou qualquer protesto é vão. Porém ninguém parece estar disposto a dar esse passo por muito que rasgue as vestes contra a violação do segredo de justiça.

Se esse passo fosse dado, seria muito mais eficaz a protecção do segredo, porque tornaria matéria de grande ponderação fazer o jogo do violador apenas para subir nas vendas. Um jornalista e o jornal pensariam com muito cuidado se haveria justificação séria para o fazer e essa preocupação, mesmo que induzida pelo receio das consequências, seria bem-vinda e tornaria o jornalismo mais responsável. Mesmo assim, se eu fosse jornalista ou responsável por um jornal, haveria ocasiões em que não hesitaria em violar o segredo de justiça, pagando todas as consequências, caso o interesse público e a relevância dos factos a revelar fosse suficientemente importante e impedisse um mal maior, como seja a denegação da justiça, ou a indevida protecção dos poderosos, ou a corrupção da justiça.

Seria então sempre uma excepção com gravidade, que só poderia colocar a opinião pública ao lado do jornal, se houvesse a convicção absoluta de que o jornal está a revelar algo que é muito importante saber-se e que o faz não só em nome do interesse público, mas porque o jornal tem a percepção, falível como todas, que se podem estar a cometer injustiças ou que está em curso uma qualquer forma de denegação da justiça. Num mundo em que nada é perfeito, e numa actividade em que nada é linear, nenhum jornalista de uma democracia deixaria de o fazer, aceitando ele e o seu jornal que o seu acto tem consequências. É por razões como esta que jornalistas vão para a cadeia para, por exemplo, proteger uma fonte. Também aí podem estar a violar uma lei.

Bem sei que os costumes actuais são, para usar um plebeísmo, “à balda”. Bem sei que a Internet oferece condições de anonimato para divulgar o que não é legal fazê-lo nas páginas de um jornal. Bem sei também, que é uma opção difícil de, depois de haver revelações na Internet, fazer de conta que existem só em linha e não nos media, caso eles interessem ao público. Mas interessar ao público não é a mesma coisa do que terem interesse público. Um reforço da responsabilidade, seja por auto-regulação, o que seria preferível, seja por receio de consequências legais, seria sempre bem-vindo. Mas, no “admirável mundo novo” em que estamos entrados, duvido que se vá por aí.

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21.11.09


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Porto Santo. (Carlos Oliveira)



Palácio do Freixo, Porto. (Fernando Correia de Oliveira)

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COISAS DA SÁBADO: É TÃO SIMPLES COMO ISTO…







…se Manuela Ferreira Leite não estivesse à frente do PSD e na Assembleia da República, a exigência de esclarecimento ao Primeiro-ministro sobre o seu envolvimento nos estilhaços do caso Face Oculta, nunca seria questionada como foi. Às vezes depende mesmo das pessoas, às vezes só depende das pessoas. Como se percebe nos protestos do PS (e não só) que perguntam, “quando é que ela se vai embora”. Percebe-se muito bem que queiram que “ela” se vá embora.

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EARLY MORNING BLOGS

1680 - I see, said the blind man,
As he put down his hammer and saw

There is some charm in that old music
He'd fall for when the night wind released it:
Pleasant to be away; the stones fall back;
The hill of gloom in place over the roar
Of the kitchens but with remembrance like a bright patch
Of red in a bunch of laundry. But will the car
Ever pull away and spunky at all times he'd
Got the mission between the ladder
And the slices of bread someone had squirted astrology over
Until it took the form of a man, obtuse, out of pocket
Perhaps, probably standing there.

Can't you see how we need these far-from-restful pauses?
And in the wind neighbors and such agree
It's a hard thing, a milestone of sorts in some way?
So that the curtains contribute what charm they can
To the spectacle: an overflowing cesspool
Among the memoirs of court life, the candy, cigarettes,
And what else. What kind is it, is there more than one
Kind, are people forever going to be at the edge
Of things, even the nice ones, and when it happens
Will we all be alone together? The armor
Of these thoughts laughs at itself
Yet the distances are always growing
With everything between, in between
The tall hedges that seem to know what life is:
An offering that stands to one side. And we dream.

(John Ashbery)

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20.11.09


PERGUNTAS DO



Pergunta feita há dias: então não é que se vai verificar que afinal houve (há) mesmo "asfixia democrática"?

Resposta dada todos os dias: houve. Claro que houve. Como alguns disseram e outros negaram.

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COISAS DA SÁBADO: CONVENIÊNCIAS



Quando convém usam-se os argumentos da forma; quando convém usam-se os argumentos da substância. Com Sócrates usam-se os argumentos da forma, com Preto os argumentos da substância. Em ambos os casos fala-se com base em escutas telefónicas passadas à comunicação social. Ou de onde é que se pensa que veio a história da “mala”? Numa mesma discussão arrepelam-se os cabelos contra as "monstruosidades" que estão a fazer a Sócrates, ao arrepio do estado de direito, para a seguir, na maior das calmas, tratar Manuel Godinho como corrupto condenado. Já vi algumas discussões de “má língua” , por exemplo na SICN, assim. Respeitinho com Sócrates, chacota com os “corruptos” de baixo. O estado de direito e a democracia é só para os "nossos" importantes, os que tem direito ao "alegadas", porque para Godinho, como para o "Bibi", não há nenhum pejo em classificá-los como culpados, mesmo que nenhum deles o seja ainda em Tribunal. À volta dos "alegados" crimes dos segundos, seja a corrupção, seja a pedofilia, fala-se à vontade dos fracos. Mas dobra-se a língua de reverência, com os fortes.

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19.11.09


PONTO / CONTRAPONTO - 6


Aqui.

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EARLY MORNING BLOGS

1679

"No place affords a more striking conviction of the vanity of human hopes than a public library; for who can see the wall crowded on every side by mighty volumes, the works of laborious meditations and accurate inquiry, now scarcely known but by the catalogue..."

(Samuel Johnson)

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17.11.09


EARLY MORNING BLOGS

1678

The world is grown so bad,
that wrens make prey where eagles dare not perch.
Since every Jack became a gentleman,
There's many a gentle person made a Jack.”

(William Shakespeare, Richard III, acto I,III)

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16.11.09

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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EARLY MORNING BLOGS

1677 - Portrait of the Artist as a Prematurely Old Man

It is common knowledge to every schoolboy and even every Bachelor of Arts,
That all sin is divided into two parts.
One kind of sin is called a sin of commission, and that is very important,
And it is what you are doing when you are doing something you ortant,
And the other kind of sin is just the opposite and is called a sin of omission
and is equally bad in the eyes of all right-thinking people, from
Billy Sunday to Buddha,
And it consists of not having done something you shuddha.
I might as well give you my opinion of these two kinds of sin as long as,
in a way, against each other we are pitting them,
And that is, don’t bother your head about the sins of commission because
however sinful, they must at least be fun or else you wouldn’t be
committing them.
It is the sin of omission, the second kind of sin,
That lays eggs under your skin.
The way you really get painfully bitten
Is by the insurance you haven’t taken out and the checks you haven’t added up
the stubs of and the appointments you haven’t kept and the bills you
haven’t paid and the letters you haven’t written.
Also, about sins of omission there is one particularly painful lack of beauty,
Namely, it isn’t as though it had been a riotous red-letter day or night every
time you neglected to do your duty;
You didn’t get a wicked forbidden thrill
Every time you let a policy lapse or forget to pay a bill;
You didn’t slap the lads in the tavern on the back and loudly cry Whee,
Let’s all fail to write just one more letter before we go home, and this round
of unwritten letters is on me.
No, you never get any fun
Out of things you haven’t done,
But they are the things that I do not like to be amid,
Because the suitable things you didn’t do give you a lot more trouble than the
unsuitable things you did.
The moral is that it is probably better not to sin at all, but if some kind of
sin you must be pursuing,
Well, remember to do it by doing rather than by not doing.

(Ogden Nash)

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15.11.09

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UM PROBLEMA DE CONFIANÇA

Compreendo muito bem que haja meus amigos no PS que se interroguem sobre as razões pelas quais "ataco" tantas vezes José Sócrates e que entendam esse ataque como uma questão de animosidade pessoal. Divirjo profundamente das suas políticas, que penso fazem mal ao país, e coloco-o numa espécie de top ten daqueles políticos do PS, do PSD e do CDS que entendo terem, pela sua acção política e governativa, provocado mais danos ao Bem Público, como foi o tandem Guterres-Pina Moura. Mas não são as discordâncias políticas, nem sequer é o julgamento sobre o Governo, que inclui ministros que respeito, que explicam a minha atitude.
O problema com Sócrates é outro: é um problema de desconfiança política profunda. Acrescentei o adjectivo "política" porque o terreno dessa desconfiança é o da própria acção política, não o da pessoa, embora reconheça que é impossível separar de todo os dois níveis, porque a desconfiança implica também com uma questão de carácter. Mas gostaria que, no que eu digo e no que eu faço, a desconfiança ficasse no político e fosse a partir do político que inquinasse o julgamento do carácter e não ao contrário. Não penso que os políticos tenham que ser julgados pelo carácter, o que é sempre uma atitude propícia a um moralismo que acaba por ser arrogante, mas o carácter também importa e em determinadas circunstâncias importa mais. É o caso de José Sócrates.
Essa desconfiança não me surgiu com o aparecimento da personagem na cena pública, cuja acção como secretário de Estado na co-incineração apoiei, nem na sua vitória de 2005. Pelo contrário. Foi encontrando terreno propício quando me foram sendo cada vez mais nítidos o papel da encenação e da pose na sua acção e a crescente disparidade entre os resultados e a propaganda. Mas também não foi por isso. Sócrates era um político típico da sua geração e da sua formação e nisso não era muito diferente de muitos políticos oriundos do interior dos partidos, das "jotas" em particular", feitos pela promiscuidade entre as "fontes" e os jornais, com "biografias do nada", especializados nas técnicas interiores das carreiras partidárias, construindo "imagens" e obcecados pelo "protagonismo". Portugal e a Europa estão cheios deste tipo de políticos, que se entendem bem entre si e movem-se com habilidade pelo actual panorama mediático, as televisões em particular. Nesse estilo, Sócrates era aliás do melhor, porque não se chega onde ele chegou sem qualidades, muito trabalho, determinação e - e isto é uma questão-chave - sem um grupo. No aparelho sobe-se sempre em grupo, e o de Sócrates anda à sua volta em tudo o que é complicação passada e presente. Mas, mesmo assim, nada disto chegava para me mover contra Sócrates com a intransigência que, reconheço, tenho.
O clic, chamemos-lhe assim, foi, de facto, a primeira "história", a do curso e a do diploma. Nada daquilo seria muito relevante, se fosse apenas uma certa ligeireza associada à pose, e um curso mais ou menos artificial, que não foi apenas o dele, mas o de muitos da sua geração que apareceram "formados" em escolas privadas pouco exigentes e facilitadoras. Confrontado com o facto de usar um título académico que não possuía, Sócrates podia ter acabado com a questão num instante, dizendo que partilhava a reivindicação dos seus colegas de considerar que o seu curso era de "engenheiro", ou admitindo que não fora muito rigoroso. Toda a gente passaria em frente e não haveria danos.
Mas ele insistiu que estava tudo bem, e não só que estava bem como tudo era exemplar. E esta atitude, acompanhada por algo que acompanha sempre Sócrates, que é uma enorme e agressiva pressão sobre todos os que não lhe são subservientes - e como são poucos nota-se mais -, levou-me a olhar com outros olhos para o que aparecia e para documentos particularmente bizarros como o currículo emendado existente na Assembleia. Fiquei convicto de que ele era capaz de fazer muita coisa que não devia, por seu próprio interesse, e como se trata de um homem poderoso, isso preocupa-me.
A partir daí não há pedra em que não se dê um pontapé, casinhas, processos na área do ambiente quando ele foi secretário de Estado ou ministro, Freeport, negócios ligados ao controlo da comunicação social, Face Oculta, em que Sócrates não apareça. Pode-se dizer que isso é perseguição, como há quem no PS diga. Mas não é, o problema é que Sócrates aparece sempre lá, perto ou longe, com mais ou menos responsabilidades, e aparece porque está lá. Ele, a família, os seus amigos do PS, as pessoas que escolheu, as áreas onde governou e governa. E, quando ele aparece, nada nunca se esclarece cabalmente. Nem na justiça (e isso é uma arma de dois bicos, porque também o prejudica), nem na parte da política que exige transparência. Por isso, a minha desconfiança original não tem conhecido a não ser um crescendo, porque encontra um padrão e não "casos". E penso, posso estar enganado, mas penso, que essa desconfiança é puramente racional.

O que está a acontecer com o seu envolvimento no caso Face Oculta, e isto para usar o termo exacto "envolvimento" e não "culpa", é mais uma pedra em que, quando se lhe dá um pontapé, aparece Sócrates. Ou dito de outra maneira, cada cavadela sua minhoca, numa terra que, pelos vistos, é fértil nas ditas porque algum adubo há-de ter. Esclareço já que sou contra a violação do segredo de justiça, e, como não sou jornalista, desejo apenas que os jornalistas sejam especialmente criteriosos e restritivos na utilização de documentação oriunda da violação desse segredo. Ou seja, que sejam muito rigorosos no julgamento do interesse público daquilo que publicam e dos direitos conflituais que colocam em causa. Não digo isto apenas agora, já o disse na questão da Casa Pia, talvez o único caso em que houve momentos de "justicialismo" na investigação criminal.

Mas, uma vez publicada a informação, admitindo que ela é verdadeira, não se pode evitar que nos pronunciemos sobre o "escândalo público" que ela suscita, nem sobre os factos que ela revela. E isto é válido tanto para José Sócrates, em que há uma verdadeira barragem, quase chantagem, para que não se discuta o conteúdo do que vem a público, como para António Preto, em que parece que ninguém repara sequer que o que se esteve a discutir nestes últimos anos foram escutas publicadas em violação do segredo de justiça, em que aparecia a história da "mala". Não pode haver filhos e enteados, com critérios diferentes.

E o que se sabe, sem ter sido desmentido, sendo até confirmado da habitual forma retorcida pelo primeiro-ministro, é que José Sócrates mentiu ao Parlamento sobre o seu conhecimento e eventual papel na tentativa de compra pela PT de parte da TVI. Esta não é uma matéria secundária, mas releva das relações institucionais entre órgãos de soberania. E quando digo que ele próprio já confirmou de forma retorcida, foi por o ver começar a fazer uma distinção, demasiado útil, entre conhecer e ter sido "oficialmente informado", que se percebe ir ser a escapadela que vai usar. E é isso que me faz desconfiar e muito, porque o que José Sócrates disse ao Parlamento e aos jornalistas nessa ocasião foi que "não estou sequer informado disso" quando se tratava de saber que grau de envolvimento tinha ele próprio e o Governo no processo. E neste caso, saber a verdade é crucial porque envolve algo de que este Governo tem sempre negado: a interferência a partir do poder na comunicação social. Pelos vistos, o que veio já a público explica que quem temia a chamada "asfixia democrática" tinha até mais razão do que imaginava.



É por isso que desconfio de Sócrates. Vale o que vale, mas para o meu julgamento vale muito. E as razões pelas quais desconfio fazem-me considerar que existe perigosidade na sua actuação para a democracia e para Portugal.

(Versão do Público de 14 de Novembro de 2009.)

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EARLY MORNING BLOGS

1676 - Pastoral

Mote

Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?

Voltas

É o vau mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
E d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?

(Francisco Rodrigues Lobo)

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14.11.09


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (106):
É QUANDO É A DOER QUE SE PERCEBE MELHOR...


A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

... o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias pela voz dos seus responsáveis. Veja-se o tom. Marcelino (director) no Diário de Notícias:
Já não bastava mais uma polémica com o primeiro-ministro. (...) Além do mais, no terreno, os administradores da justiça estão notoriamente empenhados em devassar, de novo, os processos que deveriam defender e investigar de forma recta e sem mácula.

É preciso que o País se habitue a investigar e castigar os poderosos, sim senhor, mas é absolutamente imprescindível que o faça num quadro europeu, de Estado de direito, em que toda a gente seja considerada séria até ao momento em que, de facto, deixa de o ser.

Não é isso que acontece e ontem foi um dia curioso neste sentido. No preciso momento em que José Sócrates viu a respeitada e insuspeita polícia inglesa arquivar o processo Freeport (que produziu por cá as consequências de todos conhecidas), abriu- -se já uma nova frente a partir de escutas entre o primeiro-ministro e o seu amigo Armando Vara.

Não sabemos de que factos falamos. Não sabemos se as conversas são criminalmente relevantes. Não sabemos, sequer, da respectiva legalidade. Mas a realidade está à vista de todos: crescem as notícias, florescem os comentários, impõe-se uma comunicação doentia em que não faltam sequer os poucos escrúpulos de grupos de jornalistas ávidos de acertar contas com o passado.

2 A guerrilha, mais uma vez, está instalada e a culpa, sendo de muitos, é sobretudo de dois homens que eu acuso de serem os principais responsáveis pela actual crise que afecta a sociedade portuguesa: José Sócrates e Cavaco Silva.

É à sombra de ambos que os exércitos se acantonam e combatem, na justiça e na comunicação social.

Sob a passividade de São Bento e Belém, escorre a intriga na política.

São os seus operacionais que movidos pelo ódio (já não só político) estão a conspurcar a vida pública nacional.

(...)
A intervenção de Manuela Ferreira Leite no Parlamento, esta semana, é ilustrativa do que atrás disse. A presidente do PSD farejou uma última oportunidade e voltou à campanha, sem qualquer pudor. Não foi politicamente séria, mas teve eficácia popular. (...)
Paulo Ferreira (subdirector) no Jornal de Notícias:
Uma das consequências deste emaranhado está à vista: temos hoje um primeiro-ministro sobre o qual recaem suspeitas de enorme gravidade e andamos há semanas a assistir a um lamentável jogo do empurra entre duas das principais figuras do Estado: o procurador-geral da República e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça. É por isso que José Sócrates tem razão, quando diz que "isto está a passar das marcas". Eu diria mais: isto é verdadeiramente insustentável. Não se trata de reclamar que os "tempos" da Justiça se verguem aos "tempos" da política. Trata-se de reclamar que os principais agentes da Justiça não permitam, como permitiram, que o novelo cresça como cresceu. É que não é apenas a imagem do primeiro-ministro que está aqui em causa. É a imagem do país.

Este caldo permite, como é óbvio, aproveitamentos políticos que têm o condão de fazer alastrar a mancha. A intervenção feita sobre o caso por Manuela Ferreira Leite, ou a suprema hipocrisia usada por Pacheco Pereira na análise do mesmo, são bons exemplos disso. A líder do PSD chegou a exigir, no Parlamento, ao primeiro-ministro que se pronunciasse sobre as escutas! Uma de duas: ou Ferreira Leite conhece o conteúdo das escutas, o que é muito grave; ou não conhece e perdeu uma boa oportunidade para estar calada.

A confusão justifica uma pergunta: deve José Sócrates fazer uma declaração formal ao país sobre a matéria, como reclama a líder social-democrata? É duvidoso. Se o fizer, isso pode ser entendido como um sinal de fraqueza. Se não o fizer, arrisca-se a ser queimado em lume brando.

No ponto a que chegámos talvez seja melhor esperar pelas conclusões do processo. (...) A menos que nos dê um especial gozo viver no país do consta que o primeiro-ministro..

Duas características comuns nos jornais pertencentes ao grupo que é referido nas conversas entre Sócrates e Vara como tendo que ser ajudado (como é que eu soube? Vem nos jornais.): os alvos (magistrados, Manuela Ferreira Leite, eu); e o completo silêncio sobre a possibilidade de haver interferência do poder político na comunicação social, matéria que, em condições de liberdade e de independência do poder, seria a principal preocupação editorial dos jornalistas. Pelos vistos, tornou-se tão secundária que nem vale a pena falar.

ANEXO:


O problema é que o que pensam os responsáveis dos dois jornais da Global Notícias condiciona o tratamento informativo, como se vê pelas capas. Um jornal que considera que a matéria mais importante do dia de ontem neste processo é a abertura de "inquéritos à violação do segredo de justiça", diz tudo sobre as suas prioridades.

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COISAS DA SÁBADO:
NÃO ERAM APENAS OS COMUNISTAS QUE ACEITAVAM O MURO DE BERLIM...



O Muro de Berlim é um símbolo de uma divisão que só existia porque havia força bruta, tanques e mísseis, polícias, KGB e STASI, para a manter: os alemães foram divididos não porque o desejassem, uns à esquerda para o Leste, uns à direita para o Oeste, mas sim porque o Exército Vermelho conquistou Berlim em 1945 e lá ficou até depois de 1989. Puro e simples: o exemplo orwelliano da República Democrática Alemã, que não era nem República, nem Democrática, nem Alemã, a “república de Pankow” como lhe chamavam os sinistros “propagandistas da guerra”, belicistas que não aceitavam a inevitabilidade do Muro.

Mas o Muro de Berlim é também o símbolo da acomodação ocidental, principalmente europeia, principalmente socialista, principalmente conservadora, que achava que a realidade da divisão era incontestável e tinha que se viver com isso. Foi preciso um Presidente americano, o actor burro da série B, um electricista polaco católico e anti comunista e provavelmente agente da CIA, e um Papa reaccionário, “mariano”, também ele polaco e anti comunista à antiga, para deitarem abaixo a coisa. Depois foi preciso um rotundo reaccionário alemão, a “couve”, para forçar a “reunificação”, contra tudo e contra todos, inclusive contra os brilhantes democratas do SPD, como Willy Brandt, autor da “Ost Politik” que caiu com o Muro.

Tudo isto aconteceu apesar de e contra uma intelligentsia europeia, muito bem representada em Portugal, que queria um outro socialismo que não o do PCP, mas tremia só de pensar em ser chamada de anti comunista. Ser antifascista era um cartão de glória e ser anti comunista era sempre ser-se “primário”, inaceitável em quem queria ter pruridos intelectuais e não passar por agente da CIA. Isto, meus amigos, em finais da década de oitenta, muito depois do PREC. Vejam lá, os que tem idade para isso, quantos alguma vez mostraram alguma repulsa activa pelo mundo comunista, algum apoio aos “dissidentes” soviéticos, alguma forma de combate político à URSS e ao sistema comunista mundial? Depois do 25 de Abril, um punhado de gente, Mário Soares, honra lhe seja feita, Sá Carneiro que colaborou com os maoístas em realizações contra o “social-imperialismo”, alguns sindicalistas que sabiam o que era a violência do controlo dos comunistas nas fábricas, e alguns maoístas, ou ex-maoístas que se caracterizavam por não ter qualquer temor reverencial com o PCP e os soviéticos.

Eu sei que agora toda a gente esteve contra o Muro, numa daquelas reconstruções da memória em que a comunicação social é fértil. Mas não é verdade.

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EARLY MORNING BLOGS

1675 - Lucinda Matlock

I went to the dances at Chandlerville,
And played snap-out at Winchester.
One time we changed partners,
Driving home in the midnight of middle June,
And then I found Davis.
We were married and lived together for seventy years,
Enjoying, working, raising the twelve children,
Eight of whom we lost
Ere I had reached the age of sixty.
I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick,
I made the garden, and for holiday
Rambled over the fields where sang the larks,
And by Spoon River gathering many a shell,
And many a flower and medicinal weed—
Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys.
At ninety-six I had lived enough, that is all,
And passed to a sweet repose.
What is this I hear of sorrow and weariness,
Anger, discontent and drooping hopes?
Degenerate sons and daughters,
Life is too strong for you—
It takes life to love Life.

(Edgar Lee Masters)

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© José Pacheco Pereira
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