ABRUPTO

30.1.13


EM FINS DE FEVEREIRO, INÍCIO DE MARÇO...

... sairá finalmente, sólido das suas 600 páginas. Depois haverá notícias mais detalhadas. Entretanto, e respondendo a muitas perguntas e solicitações, o volume quarto da biografia de Álvaro Cunhal ainda deverá ser publicado em 2013, o ano do centenário. Cobrirá o período de 1960-8, ficando um quinto volume para os anos de 1968-74. Depois Cunhal sobe à Chaimite, no dia 30 de Abril de 1974, com um soldado e um marinheiro ao lado, e termina para já a saga. No entretanto, entre as Armas de Papel e o Cunhal - IV, haverá um pequeno volume de textos sobre os anos da "crise", talvez para Junho.


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28.1.13


EARLY  MORNING BLOGS  

 
2295
σὺν Ἀθηνᾷ καὶ χεῖρα κίνει
 
Com Atena ao lado, move as tuas mãos.
 
 

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27.1.13



ENTÃO, GOVERNANTES, NÃO É DE DIZER QUALQUER COISINHA

 Após um estranho e longo silencio, em que o que aparecia relativo às malfeitorias bancárias se resumia ao BPN, BPP e em menor grau ao BCP, a imprensa começa timidamente a falar dos banqueiros de topo, aqueles que fazem e desfazem governos e que estão sempre ao lado do poder, de Salazar a Passos Coelho, passando pelos socialistas. Não me refiro ao que é ilegal, porque disso deve cuidar a justiça, mas dos "esquecimentos" que levam milhões lá para fora sem serem declarados ao fisco, para depois a memória melhorar, ou ser melhorada e o dinheiro regressar cá dentro com um pequeno imposto para pagar de bónus. 

Mas há um silêncio muito esquisito, se não fosse verdadeiramente pouco esquisito, no modo como as coisas estão: estando o governo envolvido numa luta épica para que os portugueses paguem impostos, nunca condenou estes "esquecimentos"? Insisto, condenar do ponto de vista da moral cívica, já que a lei é suposto ter outro andamento e outras consequências. É verdade que mesmo com a lei em curso, o governo às vezes fala à vontade, como a nossa ministra da justiça fez recentemente, dizendo que "a partir de agora deixou de haver impunidade". Mas era para o PS de Paris e não para a banca. Aqui é só silêncios e gentilezas. Para a banca faltosa, não há mesmo nenhuma palavrinha zangada, vindo do mesmo ministro e primeiro-ministro e dos vários secretários de estado que incham o peito contra as cabeleireiras, os mecânicos de automóveis, e os donos de café e restaurantes? Aí sim, há palavras duras e mostras de robusta firmeza. 

Não deviam os governantes dizer alguma coisa? Dever, deviam. Dizer, não dizem.

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HÁ MUITO QUE ESCREVI..

... que não iria haver privatização nenhuma da RTP. Sem surpresas.

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23.1.13




(Escrito em 14 de Janeiro de 2013, publicado a 17. E estava já no discurso para 2013, escrito ainda em 2012:  "Vamos fazer duas ou três emissões com sucesso em 2013, pequenas, a vários prazos, prudentes, e depois os alemães vão colocar-nos a mão por baixo e defender-nos dos mercados, porque com esse sucesso, já podemos ser apoiados pelo BCE. Foi o que nos prometeram, para podermos apresentar a saída da troika como um grande trunfo político." Há alturas em que não custa nada prever.)

“REGRESSAR AOS MERCADOS EM 2013”

 Vamos admitir que Portugal “regressa aos mercados” em 2013, cumprindo aquilo que já é o único objectivo da política governamental que os seus responsáveis pensam que é realisticamente atingível antes de eleições. O défice, a dívida, a recessão ou um crescimento larvar resultado apenas de que não se pode estar sempre a descer, o desemprego, a crise social em todo o seu esplendor, as falências, o aumento da pobreza, tudo isto parece estar para continuar e durar muito para além do actual ciclo eleitoral. Mas, com o abaixamento dos juros nos mercados, que favorecem Portugal, a Irlanda e mesmo a Grécia, pode ser possível fazer algumas pequenas emissões com sucesso para dar pretexto a que a mão protectora do BCE se estenda sobre Portugal. O que conta é a mão do BCE e não o sucesso das emissões, mas será sempre dito o contrário. É mau? Não é, é bom, mais vale isso do que nada. Mas vale muito menos do que o governo quer dar a entender. É verdadeiramente “voltar aos mercados”? Não é, porque sem o aval do BCE seria impossível. É sustentável? Não é de todo, mas o governo pensa apenas até 2015, porque o “que se lixem as eleições” foi dito em ingsoc e doublespeak, a linguagem orwelliana em que uma coisa significa exactamente o seu contrário 

É MAU? NÃO, É BOM, MAS…


Vamos de novo voltar à admissão principal de que Portugal “regressa aos mercados”. Significa isso que a troika se vai embora de vez? Errado, a troika fica cá mesmo sem cá estar. O Pacto Orçamental garante a continuidade da política da troika. “Bruxelas”, essa entidade mítica, passa a ter um direito de veto sobre os orçamentos, colocando o parlamento português sob tutela permanente naquela que foi a sua mais importante prerrogativa numa nação que era soberana. Os fundos comunitários já virão com a condição da obediência. E, depois, a mão benfazeja do BCE, e dos alemães que o controlam, só se estenderá se a política da troika se mantiver, e, em caso contrário, é que Portugal será mesmo “atirado” aos mercados, ou seja dura uma semana até pedir novo resgate. É verdade que a benevolência com Portugal se deve em grande parte ao facto de que para os decisores que contam nesta matéria, a começar por Angela Merkel, os actuais governantes tem-se esforçado em fazer o que lhes é pedido. Por isso Passos e Gaspar têm razão quando afirmam que Portugal, em particular a sua encarnação em Vítor Gaspar, tem aumentado a sua “credibilidade” junto dos mercados, porque estes sabem que enquanto a Alemanha e o BCE protegem Portugal, as emissões portuguesas, principalmente nos prazos mais curtos, são um bom investimento. 

PRESUMINDO QUE NÃO HÁ MILAGRES 


Mas, como Nossa Senhora, presume-se, não aparecerá em Wall Street, e muito menos em S. Bento, não há milagres que evitam que, mesmo com todas as protecções especiais, a “ida aos mercados”, se se der, seja artificial e acima de tudo muito frágil. Como, a continuar-se a mesma política da troika directamente na Grécia e em Portugal, e indirectamente na Espanha e na Itália, as crises são inevitáveis, quer no plano político, quer social, quer económico, como é que ficamos se de novo se der uma subida de juros em resposta a um agravamento da situação em qualquer país europeu? Ora esse agravamento é inevitável a prazo curto e a volatilidade dos mercados grande. Como é que faremos depois? Vamos de novo pedir o regresso da troika mais uma centena de milhar de milhões de euros de um novo resgate? Eu bem sei que para os responsáveis por esta política se isto acontecer depois de 2015, não é “culpa” deles, que fizeram sair nominalmente a troika de cá, mas de quem estiver no poder na altura. Mas a sua lavagem de mãos é como a de Sócrates em Paris: deixaram o menino no colo dos outros e foram-se à vida. 

 LÁ TEMOS QUE VOLTAR A UMA FRASE FEITA QUE TEM O INCONVENIENTE DE SER VERDADEIRA 


O que mais me espanta quando isto se discute e se saúda gloriosamente este “regresso” protegido e imperfeito aos mercados, é que quem lhe deita os foguetes antecipadamente tem mais que obrigação de saber que, no fundo, se trata apenas de ir pedir mais dinheiro, endividar-nos mais, e que é na aplicação desse dinheiro que está a chave. Ou seja, e cá vem a terrível frase feita, é a fragilidade estrutural da nossa economia, da nossa sociedade e da nossa política, que conta e isso não se resolve pedindo mais dinheiro, seja à troika seja aos mercados, mas sabendo como o aplicar bem, para depois o poder pagar. Superar estas fragilidades é que é a chave de qualquer regresso aos mercados que seja sustentável e sem crescimento não há nada para ninguém que seja sustentável. Sustentável, a palavra que mais entusiasma qualquer tecnocrata, mas com a qual eles têm uma mera relação platónica. 

ENTRA EM CENA A “IDEOLOGIA” 


Aqui as águas dividem-se e entra em cena o conjunto de ideias superficiais que passa por ser ideologia. A crença, porque não é mais do que uma crença, de que colocadas as pedras no sítio certo, défice quase zero, dívida a ser paga, salários em baixo e mão-de-obra barata, estado apenas para os muito pobres e vagamente regulador para tudo o resto, sociedade competitiva porque empobrecida, separação de águas entre os “preguiçosos” e os “empreendedores”, austeridade mais autoridade, se entra num boom económico imparável que resolverá tudo e mostrará a validade das receitas da troika. Há quem acredite nisso, alguns yuppies já fora de época que são muito activos nas redes sociais, e cujo pensamento cabe em 140 caracteres, mas há acima de tudo quem precise disto, quem tenha interesse nisto, mesmo que não acredite muito no seu desfecho. Se posso pagar muito menos em salários e despedir quem quiser, não me importo de ser neo-liberal durante meia semana e na outra, quando quero aceder a alguns dinheiros comunitários, sou keynesiano se for preciso. Mas enquanto os primeiros andam já à procura de inimigos externos, o “povo habituado a ser protegido” é o primeiro candidato e as “corporações”, o segundo; os pragmáticos esforçam-se por aproveitar o que podem, porque sabem aquela verdade que toda esta ilusão pretende esconder: isto não vai durar muito. Ou, dito de outra maneira mais precisa: se continuar a haver democracia isto não vai durar muito. E aproveitam enquanto podem, até porque o “Monte Branco” e as Caimões não estão assim tão longe.

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22.1.13


EARLY  NIGHT BLOGS  


 


2294 - Crocodile

How doth the little crocodile 
     Improve his shining tail, 
And pour the waters of the Nile 
     On every golden scale! 
  
How cheerfully he seems to grin, 
     How neatly spreads his claws, 
And welcomes little fishes in, 
     With gently smiling jaws!
 
(Lewis Carroll)

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13.1.13


RETRATOS DA CRISE



(Sandra Bernardo)

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A DERIVA ANTIDEMOCRÁTICA A FAVOR DE UM GOVERNO "SEM ENTRAVES"


A democracia é feita de duas componentes fundamentais: o primado da soberania popular, expressa essencialmente por uma escolha pelo voto, e o primado da lei num Estado de direito. Não é apenas a escolha pelo voto que caracteriza a democracia, porque senão viveríamos numa tirania, associada a uma demagogia populista. Foi assim que Hitler chegou ao poder, com eleições, mas violando o primado da lei e do direito, e este é o modelo latino-americano de ditaduras populistas como as de Péron a Chávez.

Na prática, as coisas são mais complicadas, mas por muito complicadas que sejam, convém não esquecer o simples, que é também o essencial: é o voto mais a lei e não é só o voto, nem só a lei. Ora, poucas vezes se tem assistido a uma tão grande ascensão de posições antidemocráticas como nos últimos tempos, o que mostra como a "crise" - uma palavra muito ambígua, mas que serve como descrição de um tempo e um modo - tem uma forte componente antidemocrática, que provoca uma séria corrupção dos fundamentos da democracia.

Há dois movimentos não inteiramente distintos na motivação e no modus operandi, que estão hoje a corroer os fundamentos da democracia em Portugal. Um, grosso modo, pode considerar-se que vem "de baixo" da insatisfação popular, da radicalização de sectores sociais como a classe média, do populismo nas ruas e nas redes sociais e que representa uma pressão a favor da "democracia directa". Os "indignados" a fazerem assembleias populares com cem pessoas, convencidos que representam o povo, são a face ridícula de um movimento mais profundo contra os partidos, os políticos, o Parlamento, o Governo, a presidência, a representação. Não é que eles não mereçam muitos dos epítetos menos amáveis que lhes são dirigidos, mas a "democracia directa" não é pura e simplesmente uma democracia, mas uma tirania demagógica.
 
Outro movimento antidemocrático, bem mais perigoso a curto prazo visto que tem mais capacidade de subverter as instituições, vem "de cima", da elite do poder, do governo e do establishment politico-económico que o controla e lhe define a orientação. O modo como a questão da constitucionalidade do Orçamento do Estado (OE), do papel do Presidente da República e do Tribunal Constitucional está a ser tratada constitui uma deriva perigosa contra a democracia. A sua face visível inclui recentes declarações de Eduardo Catroga sobre a Constituição como "entrave à governação", ou de Ferraz da Costa no mesmo sentido, ou de uma série de empresários e banqueiros politizados que aparecem na vanguarda de defesa do Governo, no mesmo sentido de considerar que o Governo devia ter a liberdade de tomar as medidas que entender "para salvar o país", mesmo que elas fossem ilegais à luz do Estado de direito encimado pela Constituição. 

Há muita indiferença democrática nessa deriva, mas há também uma vontade de que uma governação em nome de interesses, ideologias e elites possa ser feita sem qualquer peia legal, sem "entraves", ou seja, de forma ilegal e antidemocrática. Há hoje por isso uma pulsão fortemente antidemocrática por parte de grupos, partidos, políticos, personalidades públicas, e depois amplificada pela tropa menor dos propagandistas e bloguistas, de cujo alcance nem eles próprios se apercebem, porque há também muita ignorância atrevida à mistura. Claro que há também muita necessidade de bodes expiatórios e consciência de fracasso, ressentimento e radicalismo.

Não me surpreende que seja assim, visto que os elementos antidemocráticos inscritos numa democracia que nunca verdadeiramente se emancipou dos longos quarenta e oito anos de autoritarismo são muito fortes na vida pública portuguesa. Eles surgem na coligação entre mais velhos que tem poder económico, já viram muito e compraram gente de mais, sabem muito bem o que querem e são indiferentes à democracia, e jovens muito ignorantes, amorais, subservientes aos velhos por complexo e interesse, e que sem o manto da protecção partidária não seriam nada de nada, como aliás nunca foram. Neste caldo de cultura e interesses, as ideias sobre a política, a gravitas de estado, a hipervalorização do "consenso", a hostilidade ao debate, o medo à competição e ao escrutínio, o receio do "outro", são a norma que funciona a favor de um universo fechado, assente nos poderes fácticos e na sua delegação, e que não quer ter nenhum limite nem aos seus interesses, nem às suas carreiras.

Nos últimos dias, esta deriva antidemocrátiva veio ao de cima reagindo à decisão do Presidente da República de enviar as normas do Orçamento para verificação sucessiva da constitucionalidade, e pelo receio de que o Tribunal Constitucional lhe dê razão. Estamos a falar de uma Constituição que de há muito critico, inclusive em muitas das regras que hoje estão na base do debate público a propósito do Orçamento. Há muito tempo que tenho um ponto de vista muito negativo sobre a manta de retalhos do texto, desde o absurdo preâmbulo a muito de programático e declarativo que está na Constituição. E, como se tem visto nos últimos tempos, muita dessa ganga não tem protegido de forma eficaz muitos daqueles "direitos adquiridos" que se consideravam garantidos pela Constituição. Por isso, mesmo como está, a Constituição tem permitido a esmagadora maioria das medidas da governação, pelo que só muito dificilmente pode ser considerada um obstáculo à política corrente. Tem também permitido a transformação de Portugal numa região europeia subordinada a um directório estrangeiro. 

Mas não é isso que está em causa, não é o conteúdo da Constituição, nem o direito de a criticar, mas sim os procedimentos que na Constituição são o fundamento do nosso sistema democrático, que vão desde os mecanismos do sistema eleitoral, aos poderes de Governo, Assembleia, Presidente e tribunais. Não pode a Constituição servir para se afirmar a legitimidade do Governo, porque tal é conveniente, e, quando coloca em causa eventuais medidas ilegais do OE, ser uma "entrave" inaceitável à governação e sua bondade. Até porque se as coisas são assim, não é culpa nem do Presidente, nem do Tribunal Constitucional, nem da Constituição, mas sim do modo como os actuais dirigentes do PSD, antes e depois de chegarem ao Governo, trataram da questão constitucional, primeiro minimizando-a e depois violando-a.
 
Este Governo, na arrogância dos seus primeiros tempos, não deu a mínima importância em falar com o PS para fazer uma revisão constitucional, no início da aplicação do memorando, quando tal era plausível. Depois, foi-se emaranhando num labirinto de arranques e recuos, como a discussão a propósito da "regra de ouro" e do Pacto Orçamental, cada vez com a sua posição mais fragilizada pelo desastre da política governativa. O PS foi crescendo, e tornando rígida a sua posição, Até que o patético apelo à "refundação" do Estado, que era na sua origem um apelo a uma revisão constitucional in extremis, revelou um Governo acossado perante um PS em que Passos Coelho conseguiu o milagre de colocar o seu alter-ego António José Seguro a crescer nas sondagens. Para quem não acredita em milagres, este move de deslumbramento o mais agnóstico dos seres.

Hoje, temos um OE que pode estar ferido de inconstitucionalidades graves, em medidas que são vitais para a sua execução e põem em causa a continuidade do Governo. A culpa não é do Presidente em mandá-las para verificação, como é seu dever, nem do Tribunal Constitucional, se as considerar inconstitucionais, como é sua obrigação, nem da Constituição que o Governo deve respeitar para poder ser considerado legal e legítimo. Se o Tribunal considerar que aspectos do OE são inconstitucionais, a culpa é em primeiro e ultimo lugar do Governo, que insistiu, contra muitas opiniões qualificadas, em fazer um OE com dúvidas fundadas de ilegalidade. 

Porquê? Porque não sabe fazer de outra maneira, e precisa de não ter qualquer "entrave" para nos taxar? Ou porque, consciente ou inconscientemente, está cada vez mais a caminhar para um abismo que pensa confortável, visto que pode cair apontando o dedo a todos porque queria "salvar o país da bancarrota" e "não o deixaram"? As duas hipóteses são provavelmente verdadeiras e complementares e os motivos mesquinhos, mas ambas são demasiado perigosas para a nossa democracia. Elas alimentam a crise e a sua componente de deriva antidemocrática. Como se vê.

(Versão do Público de 5 de Janeiro de 2013.)

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE 
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM) 

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EARLY  MORNING BLOGS  
 
2293 - Three Poems after Yannis Ritsos
 
REVERSALS

There are graves under the houses and houses
under the graves and linking the three

a broad stone staircase where the dead
go up and the living go down. They pass one another

wordlessly which might mean they don’t know, or else
they’re pretending not to know. You can smell

the orange grove on the hill; you can hear
children bowling barrel hoops down the street.

Two women gossip as they fill their jug at the spring.
Their secrets cloud the water.

Later they walk back through an avenue
of   cypresses, carrying the jug like a bastard child.


TRAPPED

In the house across the street, in a room
directly opposite his, was a long mirror. When he looked

out of   his window, he would see himself   in the room
like a thief caught in a trap. He threw a stone.

His neighbor ran in to the sound of   breaking glass,
then came to the window and shouted across:

“Thank God for that: whenever I looked in my mirror
there you were, doing something shifty behind my back.”

The first man turned away. The long mirror in his room
brought him face to face with his neighbor, knife in hand.


THE ACCUSED

Just as he locked the door, as he pocketed the key,
as he glanced over his shoulder, they arrested him.
They tortured him until they tired of   it.
                                                                         “Look,” they said,
“the key is your key, the house is your house,
we accept that now; but why did you put the key
in your pocket as if to hide it from us?”

They let him go, but his name is still on a list.
 
(David Harsent )
 


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12.1.13


ALTERNATIVAS 


 O pior discurso situacionista é o que está sempre a perguntar, quando se critica a governação, pelas alternativas. “Não apresentou alternativas” é a frase mágica que funciona como afirmação (a política do governo é a única possível), como negação (não há alternativas à política do governo) e como acusação (quem fala sem enunciar alternativas, que o poder reconheça como tal, não tem direito a falar). Nenhuma destas coisas é verdadeira, não só porque há alternativas, umas boas e outras más, mas nem por isso deixam de ser alternativas; como muita gente apresentou alternativas, mas foram e são recusadas de imediato, como a crítica, quando fundada, é ela mesmo um exercício que abre espaço a alternativas. 

ALTERNATIVAS E ESPAÇO POLÍTICO 


O principal problema das alternativas é haver espaço para existirem, espaço objectivo, espaço materializável, espaço realista, e o facto de o governo estar sempre a criar um esgotamento deste espaço, a diminui-lo, a inquina-lo, não é argumento a não ser contra o governo. Sem ser uma alternativa viável, como se vê pelos resultados, a acção do governo é destruidora das alternativas possíveis. É aliás mais eficaz em destruir essas alternativas, do que em se afirmar como possibilidade, e é por isso que aceitar acriticamente, como faz muita comunicação social, o discurso da “ausência de alternativas” é a forma mais acabada de situacionismo nos dias de hoje. Uma coisa é verdadeira: o facto de se governar de determinado modo diminui muito o campo das alternativas. Não é que não haja, ou não tenha havido alternativas, é que há também uma contínua destruição de alternativas, quer pelo governo, quer, em menor grau, pela oposição. Passos Coelho, Gaspar, Álvaro Santos Pereira, e António José Seguro têm vindo de forma consistente a diminuir o campo das alternativas ao afunilarem as possibilidades de acção. Um exemplo típico é a continuada destruição do próprio espaço político do governo, através do sistemático ignorar e maltratar da concertação social, um dos poucos campos de alargamento existentes, logo de legitimação, da acção política vinda do governo. O mesmo pode ser dito da contínua e sistemática política de ignorância do PS por parte do PSD e do CDS governamentais, que de há muito destruiu qualquer possibilidade de entendimentos alargados. 

 DESTRUIR AS ALTERNATIVAS


Outro factor de destruição de alternativas está na elaboração de legislação avulsa, mal feita, incompetente e muitas vezes ao lado dos problemas, quer para defender interesses, quer pura e simplesmente por ignorância. “Parece” que se defronta um problema, mas este fica na mesma ou pior. A maneira como o governo actuou com as fundações é um exemplo típico: vilipendiou a própria ideia de fundação, que continua a ser uma maneira válida da sociedade civil assumir funções em complemento do estado por genuína doação ao serviço do país de bens privados; deixou escapar aquilo que imediatamente devia acabar, as fundações criadas pelo estado destinadas a fazer desorçamentação; e deixou na mesma muitos dos abusos do estatuto de fundação que existiam e continuam a existir. O resultado é que tudo continua na mesma, mas é hoje mais difícil fazer uma política séria e alternativa de reforma das fundações. Parece que foi feita e não foi. 

NÃO FOI POR FALTA DE AVISOS 


O mesmo se pode repetir em muita outra legislação feita à pressa para a troika ver e que criou caos e confusão, nalguns casos gerou monstros, e “queimou” por algum tempo a possibilidade de reformas efectivas em áreas vitais para a modernização do estado e da economia. O mais grave é que muita gente que sabia do que falava avisou o governo, mas, com enorme jactância, foram ignorados, mesmo quando depois se bateu com a cabeça numa parede. Não foi por não serem avisados, foi porque desprezaram os avisos, mesmo quando depois se lamentam dos efeitos. A meia hora suplementar é um típico exemplo, a TSU outro, o agravamento “enorme” dos impostos outro, o IVA da restauração, outro, o aumento do desemprego, outro. Um caso mais que flagrante é a política europeia, onde o grande destruidor de alternativas é o próprio governo. Em todos estes casos, a acção do governo seca o terreno como uma floresta de eucaliptos, e depois vem dizer que o deserto mostra que… nada lá cresce. O problema é que as alternativas são sensíveis ao tempo – há coisas que se podiam fazer diferente em 2011, outras que já não se podem fazer agora, outras ainda que agora continuam a poder-se fazer, mas com muitos mais custos e menor margem da manobra. 

OS GRANDES DESTRUIDORES DE ALTERNATIVAS 


O grande destruidor das alternativas é o governo, mas o grande destruidor da alternativa ao governo é o PS de Seguro. Mas essa história fica para outra altura, porque remete para o terreno onde menos de facto há alternativas: a erosão por parte dos aparelhos partidários das elites governativas capazes de unir capacidade politica e eleitoral, saber e patriotismo. E hoje, o PS e o PSD, não produzem tal espécie. Aqui sim, há um grave problema de alternativa.

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ESPÍRITO DO TEMPO


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EARLY  MORNING BLOGS  
 
2293

Altissima quaeque flumina minimo sono labi.


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11.1.13



MARQUES JÚNIOR 

Marques Júnior era uma espécie rara de pessoas a que chamamos “homens bons”. Não há muitos e nem todos os que existem podem exercer a sua “bondade” no plano cívico. À sua volta criam uma forma rara de bem-estar, uma dissipação do conflito, uma acalmia que não é apatia, porque tem direcção e sentido. Eu sei disso, porque não pertenço á espécie e por isso percebo-os de imediato pela diferença. Não penso que o mundo deva ser apenas construído por esta “bondade”, não acredito nisso pura e simplesmente, mas que ela faz falta, faz. Poucos dias antes de Marques Júnior falecer falei com ele e, durante 2012, pude partilhar as suas preocupações e as suas mágoas com a nossa tragédia nacional, o PS, o modo como os nossos serviços de informações estavam a ser destruídos pela cupidez de poder e pela ignorância. E talvez, por eu próprio não ter a sua espécie de “bondade” custou-me particularmente o exercício de hipocrisia feito na hora da sua morte por alguns que exactamente mais o magoaram e preocuparam nos últimos tempos da sua vida.

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7.1.13


ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE 
 
Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM) 

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6.1.13


EARLY  MORNING BLOGS  
 
2292


Res firma mitescere nesci.

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5.1.13


OS CONVIDADOS DA MESA DE NATAL DOS PORTUGUESES
 
 
O discurso do "economês", que é hoje uma parte importante do discurso do poder, é uma espécie de marxismo pobre e rudimentar, que acredita a seu modo que a "infraestrutura" condiciona a "superestrutura", ou seja, que é a "economia" que determina a "política". Marx ainda falava da "acção recíproca" e, quando teve que defrontar a questão da arte e da literatura, ainda abriu caminho a uma autonomia complexa da "superestrutura", mas isso é muito complicado para mentes simples educadas por manuais escolares que estavam igualmente impregnados deste marxismo vulgar. Depois, com as modas mediáticas e os blogues, este marxismo vulgar virou uma vulgata liberal com muita facilidade. 


Vai tudo com muitas aspas, porque a "economia" é aqui sinónimo de meia dúzia de ideias simples sobre as empresas, mais preconceitos do que ideias, e a "política" é uma gestão técnica condicionada pela "economia" que gere rendimentos, subsídios, impostos, gastos e poupanças, e cujo valor é "libertar" a "economia" das suas baias na Constituição, nas leis, nos sindicatos, nos "direitos adquiridos", nas "ideias antiquadas", no "Portugal do passado" que precisa de ser desmantelado por um "projecto de futuro" com ajuda de muita "coragem" autoproclamada e do memorando salvífico da troika. Parece um programa de uma "jota", e é um programa de uma "jota": ideias feitas, retórica grandiloquente, palavras cheias de "projecto geracional", de "Portugal de futuro", de "amanhãs que cantam" em versão reaccionária. A isto soma-se alguma presunção adâmica e um milenarismo profético - "estamos a mudar Portugal" - que, se tudo não estivesse já tão gasto e mole, mataria de ridículo quem o enunciasse.


Não se pode pois esperar destas pessoas que saiam do conforto das suas abstracções escolares e juvenis, para o mundo que não cabe num qualquer "trabalho de casa". É por isso que o marxismo vulgar, que, sem saberem, lhes molda o pensamento, os faz falar da crise e da pobreza de forma meramente "infraestrutural": pobreza é fome, é não ter casa, é dormir na rua, é tudo aquilo que exige assistência. A pobreza para eles é apenas grande escassez material e remete para um universo assistencialista, com imagens de sopa dos pobres modernizadas, de IPSS que dão pão, roupa e cobertores, da benemerência severa e moralizadora do Estado apenas para os "mais pobres e necessitados". Tudo o resto é perdulário.


Saliente-se que esta forma de ver a pobreza não é muito diferente da que aparece nas reportagens televisivas, porque o universo de experiência e mentalidade de muitos políticos não difere do dos jornalistas. Andaram 30 anos sem ver um pobre, e agora que se fala deles procuram-no com a força do estereótipo. Um pobre, acham eles, é pouco mais do que um mendigo que não pede, mas que se pode perceber pelo modo, tom, face, roupa, que é pobre. Depois há todo um conjunto de reportagens sobre a "pobreza envergonhada", mas elas são casuísticas e por definição feitas com quem não "se envergonha" da sua pobreza. Na pobreza procuram o espectáculo mediático, nada mais.


Estes pobres do estereótipo aliam a sua pobreza a serem humildes e amochados: não protestam, agradecem. Os pobres que aparecem no imaginário discursivo dos políticos e de jornalistas nunca são os pobres perigosos, não vivem em Setúbal, nem no Cerco do Porto, porque nesses a condição de perigosos oculta a de pobres e estão incluídos numa categoria particular, a dos que não querem trabalhar, ou que são subsídio-dependentes, ou drogados e traficantes, mais as suas famílias, ou que são grupos criminosos oriundo de minorias de que não se pode falar, como os ciganos ou os negros dos subúrbios. Não é que não haja alguma verdade nestas caraterizações, mas elas são mais um ecrã de ocultação do que um conhecimento da realidade.


O marxismo vulgar e rudimentar desta visão da pobreza encontra-se na sua descrição assente apenas nos sinais de miséria evidente, acantonando a pobreza em segmentos da população que de há muito vivem na miséria, por causas anteriores à crise actual. Estes pobres, muitos e demais, mas mesmo assim poucos no balanço geral dos dias de hoje, são usados para ocultar os que estão a empobrecer, os "novos pobres", quer porque só agora é que são pobres, ou porque são pobres de maneira diferente. Uma imagem excessiva da pobreza, dos que nada têm, serve para evitar falar do empobrecimento, dos que, para o poder, têm apenas "problemas" a que "sobreviverão". O Governo cuida dos primeiros, os outros que "aguentem".
Ora, é o empobrecimento que caracteriza os tempos de hoje, é o empobrecimento o principal efeito social da crise, e, para o perceber, não serve a visão dos que já estão na miséria, até porque não é entre eles que a crise faz mais estragos. É que os que já estavam na pobreza e na miséria não são os mais atingidos pela crise, mas os que tinham dela escapada nas últimas décadas. O Governo e o discurso do poder usa os muito pobres e alguma protecção que têm tido face à crise como sinal de justiça social, ao mesmo tempo que ignora, fecha os olhos, não faz nada, e fustiga com o moralismo do "viver acima das suas posses" os que estão a empobrecer. Fá-lo de uma maneira perversa, colocando muito abaixo a fasquia dos que para o discurso governamental são "quase ricos", ou seja, um alvo de "ajustamento". 


O desdém pela "classe média" vem deste moralismo punitivo sobre os portugueses que melhoraram a sua condição desde o 25 de Abril, fossem operários ou filhos de operários, camponeses ou filhos de camponeses, comerciantes ou filhos de comerciantes, funcionários ou filhos de funcionários. Muitos fizeram uns cursos que não valem nada para serem doutores, mas pela primeira vez na esmagadora maioria das famílias portugueses havia estudantes universitários, muitos foram à República Dominicana ou a Cuba em programas de férias baratas, fazer patetices a crédito, muitos compraram sofás e plasmas e vários telemóveis, mas, tiremos o folclore, o kitsch do gosto, e o que fica é uma real melhoria da vida de muitos portugueses. 


O ataque à classe média é um remake do ódio à "burguesia", quer na versão esquerdista, quer na visão direitista, a que tinha, por exemplo, O Independente, que adorava a "velha riqueza" e escarnecia dos que tinham "peúgas brancas", ou, como Macário Correia, tinham pais pobres e isso "via-se". Como sempre acontece, os melhores intérpretes desta sanha são eles próprios típicos membros e representantes dos grupos que escarnecem, falsos senhoritos com pretensões monárquicas, pequeno-burgueses que acham que, como falam o telefone com Ricardo Salgado, estão noutro escalão social, gente que gostava mesmo de ir a Marbella, mas hoje faz de conta que nunca fez nada disso. Os caminhos do Senhor são de facto tortuosos.
A mensagem do "Pedro e da Laura" no Facebook, um casal que resolveu falar-nos no Natal com uma proximidade forçada que incomoda, é um exemplo típico deste marxismo vulgar da "infraestrutura". A pobreza é não ter "na Consoada os pratos que se habituaram", em vez de não ter emprego; é "não poderem dar aos filhos um simples presente", em vez de estarem deprimidos por terem que em Janeiro despedir os seus empregados amigos de sempre; é "não conseguiram ter a família toda à mesa", em vez de terem vergonha por não poderem pagar o que devem. 


A todos eles o "Pedro e a Laura" aconselham que não tenham "pesar", por estarem falidos, ou desempregados, ou endividados, ou terem perdido a casa, ou não terem dinheiro para a renda, ou terem que dizer ao filho que não há dinheiro para continuar a estudar, ou que já não podem mais ajudar os pais reformados, ou por estarem tão zangados com a vida que todos à volta pagam um preço elevado em violência verbal e não só. O "Pedro e a Laura" pedem-lhes para terem "orgulho" na sua nova condição de pobres sem futuro e destino, porque, ao tirarem os filhos da escola, ao perderem o emprego, ao caírem na condição de párias sociais, porque não podem pagar ao fisco, ao perderem todos os seus bens, estão a garantir "que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor". 


Não, "Pedro e Laura", na mesa de Natal de muitos portugueses o que preocupa não é a falta de rabanadas, nem brinquedos, nem pessoas, mas sim o facto de lá estar sentado o medo, a indignidade, a vergonha e o desespero, coisas que não vêm em estatística nenhuma. E isso não garante futuro nenhum que valha a pena viver, nem aos pais, nem aos filhos, nem aos netos.

(Versão do Público de 29 de Dezembro de 2012.)

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EARLY  MORNING BLOGS  
 

2291 - Pantoum Of The Great Depression


Our lives avoided tragedy
Simply by going on and on,
Without end and with little apparent meaning.
Oh, there were storms and small catastrophes.

Simply by going on and on
We managed. No need for the heroic.
Oh, there were storms and small catastrophes.
I don't remember all the particulars.

We managed. No need for the heroic.
There were the usual celebrations, the usual sorrows.
I don't remember all the particulars.
Across the fence, the neighbors were our chorus.

There were the usual celebrations, the usual sorrows
Thank god no one said anything in verse.
The neighbors were our only chorus,
And if we suffered we kept quiet about it.

At no time did anyone say anything in verse.
It was the ordinary pities and fears consumed us,
And if we suffered we kept quiet about it.
No audience would ever know our story.

It was the ordinary pities and fears consumed us.
We gathered on porches; the moon rose; we were poor.
What audience would ever know our story?
Beyond our windows shone the actual world.

We gathered on porches; the moon rose; we were poor.
And time went by, drawn by slow horses.
Somewhere beyond our windows shone the actual world.
The Great Depression had entered our souls like fog.

And time went by, drawn by slow horses.
We did not ourselves know what the end was.
The Great Depression had entered our souls like fog.
We had our flaws, perhaps a few private virtues.

But we did not ourselves know what the end was.
People like us simply go on.
We had our flaws, perhaps a few private virtues,
But it is by blind chance only that we escape tragedy.

And there is no plot in that; it is devoid of people.

(Donald Justice)

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4.1.13


O ANO DE 2013 VISTO PELO PENSAMENTO POSITIVO 


 O ano de 2013 vai ser o ano da viragem que dará razão ao Governo e às folhas de Excel. No fundo, sabemos todos que a Microsoft não teria um software tão famoso, se ele não funcionasse. Ao lado do Excel, as previsões da oposição são feitas com as cartas do Tarot e vendo os programas da Maya. 

Dizem que as coisas estão muito mal, mas não estão tão mal como isso. Vejam os manifestantes do 15 de Setembro. São contra o governo? Não, foram contra a TSU, um “erro de comunicação” identificado pelo professor Marcelo e rapidamente corrigido. Para além disso, os mesmos manifestantes são contra as greves e contra os funcionários públicos. Estão os pobres urbanos a favor da revolução? Enganam-se, já os viram a falar contra a greve dos transportes quando as televisões os procuram nas estações? Por eles, acabava o direito á greve já amanhã, juntando-se a Ferraz da Costa numa diatribe sobre o excesso de indisciplina nas empresas públicas e a libertinagem permitida pela Constituição. O Salazar é que os punha na ordem. 

Estão os jovens indignados? Estão, estão, contra aqueles que por tornarem “rígido” o “mercado do emprego”, ocupam os empregos enquanto eles são “precários”. Vejam lá se eles vão às manifestações da CGTP? Não vão, porque eles leem blogues, e sabem que os sindicalistas querem continuar a ser “sanguessugas” dos nossos impostos, a ganhar sem trabalhar. Para além disso, os jovens sabem muito bem que o estado não vai garantir-lhes as reformas no futuro e, por isso, para que é que têm que estar a pagar hoje as reformas milionárias acima dos 1300 euros? Os velhos que se cuidem, porque estão a prejudicar os mais novos, como disse o senhor Primeiro-ministro aos jovens da JSD, cheios de confiança nos seus “projectos de futuro” e de carreira. No fundo, sabem que são os “seus” que estão no poder. 

Há gente zangada nos restaurantes, nos professores, nos trabalhadores das diversões, nos polícias, nos médicos, nas forças armadas? Não se iludam, são apenas grupos corporativos que estão a perder os privilégios que tinham e a ter que pagar impostos que nunca pagaram. Aliás, são os poderosos que mais estão contra este governo. É o lóbi dos restaurantes que não quer passar facturas, todos representantes de um sector sem interesse para a economia exportadora que queremos construir. Militares? Isso são os restos do PREC e um anacronismo que é preciso corrigir. Já acabamos com o Serviço Militar Obrigatório, agora para que é que são precisas as forças armadas a não ser como uma polícia “pesada” anti-motim? São como os juízes do Tribunal Constitucional, um grupo que julga em causa própria, para defender as suas chorudas reformas, mesmo que para isso tenha que matar a economia. Aliás os verdadeiros inimigos do governo são gente sem valor que se habituou toda a vida a viver do estado e que está apenas a defender a sua reforma atacando vilmente este corajoso governo. Não é Bagão Félix? 

 Falam contra os bancos e acusam o governo de lhes dar tudo o que pode? Esquerdismo à Louçã, porque a saúde do sistema financeiro é fundamental para a nossa economia e os bancos fazem a sua parte. Há quem coloque o dinheiro no estrangeiro e em offshores? É apenas a natural expressão do receio que tiveram com a bancarrota de Sócrates, a quem apoiaram apenas por engano. No fundo estão a comportar-se racionalmente como deve fazer o grande capital. E a verdade é que, à medida que os seus nomes aparecem no “Monte Branco”, portam-se como devem e pagam os seus impostos. Não é muito, mas eles percebem bem como este governo está ao serviço dos “interesses da economia”, que são também os seus. Tudo gente patriótica. 

Só uns intriguistas é que podem dizer que o governo não cumpre contractos com os trabalhadores, ao mesmo tempo que é mole com os offshores e respeitador dos contratos blindados das PPPs. É verdade que muitos dos seus autores, - da blindagem,- estão no governo ou trabalham para o governo nas grandes firmas de advogados e consultadoria, mas isso é porque são competentes e confiáveis. Foram-no antes e são-no hoje. O que é que queriam, que o governo os colocasse á margem, com tudo o que eles sabem e podem? Intrigas e inveja. 

2013 vai ser o ano do pensamento positivo, vai mostrar que o optimismo é a melhor atitude a ter na vida. Há crise, sim senhor, mas nós aguentamos. Os portugueses no meio de grandes dificuldades em ajustar-se vão cortar no supérfluo, deixar de comer bifes, lavar só metade dos dentes, e ir ao hospital quando já estão de maca. No fim, vamos chegar vivos. Vamos aguentar. Vamos continuara a dar mostras de civismo e das qualidades de paciência que tornaram o “bom povo português” um exemplo que a Europa segue com carinho e inveja. Na Europa, também tudo está mudar. O país e Vítor Gaspar tem um prestígio incalculável, que é o melhor asset para Portugal. Ele é a Merkel, o Schauble, o Draghi, o Trichet a debitarem elogios e a aprenderem muito connosco. Não cumprir o défice deixou de ser muito importante. Vamos fazer duas ou três emissões com sucesso em 2013, pequenas, a vários prazos, prudentes, e depois os alemães vão colocar-nos a mão por baixo e defender-nos dos mercados, porque com esse sucesso, já podemos ser apoiados pelo BCE. Foi o que nos prometeram, para podermos apresentar a saída da troika como um grande trunfo político. Esperemos que resulte. O resto não interessa, mesmo que isto não seja bem voltar aos mercados, mas só a cabeça negra da oposição dirá isso. E não me venham com tretas sobre a sustentabilidade, porque sustentáveis só temos que ser até ao “que se lixem as eleições”. Depois a culpa passa outra vez para o PS. 

Com a saída da troika o governo pode aparecer aos olhos dos eleitores como tendo cumprido o memorando “que outros assinaram”, e, retomado a “soberania” nacional, que “outros perderam”. É verdade que continuamos a ser obrigados a fazer a mesma política mesmo sem a troika, mas deixam-nos uma pequena folga para haver eleições sem ser em estado de calamidade. A troika zela pelos seus e o Pacto Orçamental está lá sempre para por na ordem as tentações keynesianas. Para além disso, como disse Passos Coelho, os números vão ser ter baixos que alguma vez têm que subir.

Vamos continuar a confiar nos dois partidos corajosos que nos vão retirar da bancarrota para onde nos atirou o Sócrates. Vejam a inteligência de Portas, a teimosia convicção de Passos Coelho, a tenacidade de Relvas contra a campanha miserável que lhe fazem, o saber profundo de Vítor Gaspar, a lealdade daqueles deputados que, contra ventos e marés, votam tudo o que é preciso, a fidelidade quase canina dos propagandistas, bloguistas amigos, também assessores, também a trabalhar com os gabinetes nas agências de comunicação e imagem, um serviço muito importante para não haver “falhas de comunicação”. E se as há, é porque não contratam os serviços que deviam, os especialistas nessa arte de “persuasão” que as almas danadas da oposição chamam de manipulação. 

 Eles sim são homens de princípios. E se estão surpreendidos pelo “canino” na fidelidade, é porque desprezam o melhor amigo do homem, ali, a dar a dar, e que ladra e morde quando é preciso. Fazem-nos muita falta neste tempo de crise, em que, aparentemente solitários, os homens que nos governam, têm consigo a maioria silenciosa dos melhores portugueses e os seus cães. Pensamento positivo, que o pior já passou.

 MAS, HÁ UM PEQUENO PROBLEMA…

É que não acredito numa linha do que está escrito antes.

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EARLY  MORNING BLOGS  
 
2290


Nothing is more destructive of respect for the government and the law of the land than passing laws which cannot be enforced. 

(Albert Einstein)

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2.1.13


(NOT SO) EARLY  MORNING BLOGS  
 
2289 -Mnemosyne
It 's autumn in the country I remember.

How warm a wind blew here about the ways!
And shadows on the hillside lay to slumber
During the long sun-sweetened summer-days.

It's cold abroad the country I remember.

The swallows veering skimmed the golden grain
At midday with a wing aslant and limber;
And yellow cattle browsed upon the plain.

It 's empty down the country I remember.

I had a sister lovely in my sight:
Her hair was dark, her eyes were very sombre;
We sang together in the woods at night.

It 's lonely in the country I remember.

The babble of our children fills my ears,
And on our hearth I stare the perished ember
To flames that show all starry thro' my tears.

It 's dark about the country I remember.

There are the mountains where I lived. The path
Is slushed with cattle-tracks and fallen timber,
The stumps are twisted by the tempests' wrath.

But that I knew these places are my own,
I 'd ask how came such wretchedness to cumber
The earth, and I to people it alone.

It rains across the country I remember.




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1.1.13


AQUI EM 2008



(Repin)

.Semper Idem.

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EARLY  MORNING BLOGS   

 
2288 - The Years Awakening

How do you know that the pilgrim track
Along the belting zodiac
Swept by the sun in his seeming rounds
Is traced by now to the Fishes’ bounds
And into the Ram, when weeks of cloud
Have wrapt the sky in a clammy shroud,
And never as yet a tinct of spring
Has shown in the Earth’s apparelling;
O vespering bird, how do you know,
How do you know?

How do you know, deep underground,
Hid in your bed from sight and sound,
Without a turn in temperature,
With weather life can scarce endure,
That light has won a fraction’s strength,
And day put on some moments’ length,
Whereof in merest rote will come,
Weeks hence, mild airs that do not numb;
O crocus root, how do you know,
How do you know?

(Thomas Hardy)

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© José Pacheco Pereira
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