O problema é que desde a última “crise Portas” o carácter disfuncional do governo acentuou-se. Já era mau, agora é pior porque se institucionalizou a diarquia reinante, sem que Portas tenha os verdadeiros poderes para que tem os seus múltiplos chapéus e Passos Coelho mande alguma coisa, entre o alheamento e a indiferença, a esperar que o seu Vice tropece nos seus chapéus como aconteceu na última semana. Será que o Presidente ainda não entendeu que não tem governo, tem um ajuntamento de conveniência em que os egos, as vinganças, as rasteiras, o salvar a sua própria pele são a regra e a motivação de todos os dias? Antes o cancro do governo era Relvas, hoje é Portas, mas em ambos os casos a primeira responsabilidade é de Passos Coelho e Cavaco Silva. E visto a voo de pássaro tudo parece desconjuntado, como efectivamente é. Pobre país, o nosso.
O GOVERNO (?) A VOO DE PÁSSARO (3): GOVERNAR POR “DESENHOS”
Pode ser aliás que não haja nada para saber, é tudo por arroubos, “desenhos”, tentativa e erro, anúncios cirúrgicos por Marques Mendes, recados ao Expresso nos fins de semana para a primeira página. O objectivo é criar “impressões”, e depois, quando as “impressões” caiem dias depois, sem sustentação, o seu efeito útil já existiu. Exemplos: “as privatizações foram as mais transparentes de sempre”, o “governo aumentou as reformas”, “não é necessário mais planos de austeridade”, “agora é que se vai exigir à EDP que participe no esforço nacional”, “o governo negociou os contratos swap de modo a evitar que se pagassem milhões”, PPPs idem, a “economia já deu a volta”, etc., etc. Tudo isto embrulhado em números reais, números imaginados, números previstos, comparação entre o que se previa e que vai acontecer, comparação entre o futuro virtual e a realidade nunca enunciada, tudo o que é mentira é “lapso”, tudo o que é grave é “declaração infeliz”, nada tem consequências. Claro, e a culpa é dos portugueses “piegas”, dos sindicatos comunistas, dos traidores do PSD, dos “socráticos” no PS e do Tribunal Constitucional
O GOVERNO (?) A VOO DE PÁSSARO (2): O HOMEM DOS MÚLTIPLOS CHAPÉUS
E que faz o maior portador de chapéus da política portuguesa, o Vice-primeiro Ministro, responsável pela “coordenação económica”, pelas relações com a troika, etc,. etc? Faz de Primeiro-ministro. Anuncia as boas decisões. Oculta as más decisões, exercendo aquilo a que hoje se chama “comunicação politica”. Passeia com a Ministra das Finanças pelo mundo para chegar de mãos vazias. Faz umas frases tipo soundbite para que a sua reprodução pela comunicação social distraia do conteúdo. Distribui umas pseudo-teses cómodas e simples, para circularem em vez de análises. Um exemplo: “desta vez houve negociação política”. Ai houve? Onde, com quem, com que resultados? Ou seja, há dois governos, um de papel, presidido por Passos Coelho; outro de lata brilhante presidido por Paulo Portas.
Vamos imaginar-nos longe, em cima, não precisa de ser em Sírius, mas na célebre altura do voo de pássaro, e observar aquilo que em Portugal passa por ser governo, é chamado governo, à falta de outra palavra qualquer.
Temos um Primeiro-Ministro? Tenho muitas dúvidas que o nome corresponda à função. Passos Coelho só aparece na função de quinze em quinze dias na Assembleia da República, mas podia ser mais um deputado do PSD, que não faria muita diferença. Na Europa, sabemos que entra mudo e sai calado nas reuniões, talvez porque se sinta pouco à vontade junto dos outros Primeiros-ministros. Percebo bem que sim. Cá dentro que função é que tem? Relações com a troika? Não, é com Paulo Portas. Concertação social? Não, é com Paulo Portas. Condução da política económica? Não, é com Paulo Portas. Condução política? Não, é com Portas e Maduro, cada um para seu lado. Finanças? Não, é com Portas e Maria Luís, não se sabendo se é cada um para o seu lado. Relações com o Presidente da República? Sim, mas como o Presidente está sempre a sugerir que não sabe ou não é informado, como devia, também não me parece que haja muito a esperar. Coordena o Conselho de Ministros? Duvido que se possa chamar “coordenação”, visto que o papel do Conselho é escasso, os ministros actuam isoladamente, e é o ministro Marques Guedes que faz muito desse trabalho.
Que faz pois o Primeiro-ministro? Telefona a muita gente? Sim telefona, comenta as notícias. Escolhe os “recados” a dar? Sim, alguns. Passa o dia com o seu assessor de imprensa, com a obsessão pela comunicação social que tem a sua geração de políticos? Sim. Que ouve alguns interesses, ouve. Que veta algumas escolhas, veta. Que faz outras, faz. Mas quando se quer saber quem decide o quê, aparece um pântano de vazios, fugas, irresponsabilidades, foi ele e não fui eu. Como é que surgem decisões como a do corte nas pensões de sobrevivência? Não se sabe muito bem. Que vem das negociações com a troika, vem. Que passa por Maria Luís e Passos Coelho, passa, que se passeia de Harley-Davidson diante de Mota Soares passeia-se, que chega a Portas por “desenhar”, seja o que for que isso signifique, chega. Mas isto é pouco. Como é pouco o que se sabe sobre a governação, ou a não-governação. Tudo está envolto em enganos, passa-culpas , avanços e recuos, e impunidades várias. No centro, como o vazio no meio da roda, está Passos Coelho.
B) O QUE SE CHAMA GOVERNAÇÃO É UM PERMANENTE EXERCÍCIO DE ENGANO E MÁ FÉ:
C) PORTAS DIZ TUDO O QUE FOR PRECISO PARA SE JUSTIFICAR.
Declarações de Portas (segundo o Público) para justificar as contradições entre o que está a acontecer e a Conferência de Imprensa que deu com a Ministra das Finanças:
O vice-primeiro-ministro Paulo Portas alegou nesta segunda-feira que
os cortes nas pensões de sobrevivência não estavam desenhados na passada
quinta-feiraquando, juntamente com a ministra das Finanças, apresentou
os resultados das 8.ª e 9.ª avaliações da troika e anunciou algumas medidas do Orçamento do Estado para 2014. “Na quinta-feira o desenho
da medida não estava terminado”, disse Portas."
Ou seja, há várias hipóteses, o Primeiro-Ministro não informa o Vice-Primeiro-Ministro, e deixa-o ir para uma conferência de imprensa sem saber o que se passa (possível, mas pouco provável porque Portas esteve nas conversas com a troika e a medida foi certamente discutida); o Ministro da Solidariedade Social não sabia de nada ou não informou o seu líder partidário (altamente improvável), Portas mentiu por omissão para não estragar o tom geral da conferência (altamente provável). Explicação que vai ser dada, ao estilo da "nova cultura política" de Maduro: uma coisa é a decisão (que já fora tomada) outra o "desenho", que ainda não fora feito. O "desenho" imaginem.
PS - O resto das "explicações" de Portas para dizer que não passou a "linha vermelha" ainda é pior, é pura desonestidade:
“Não há qualquer relação entre os recursos
[cortes] na sobrevivência e o corte da TSU das pensões”, destacou Paulo
Portas, explicitando três diferenças: A TSU das pensões equivalia a um
corte de 436 milhões de euros, enquanto os recursos das pensões de
sobrevivência são de 100 milhões; a TSU das pensões era aplicável a
pensões a partir dos 400 euros, enquanto os cortes agora divulgados só
incidem quando há duas pensões e quando é superado um determinado valor,
ainda não especificado. Por fim, há uma diferença entre cortes
transversais, implícitos na TSU e as condições de recurso das pensões de
sobrevivência."
Ou seja, eu disse-vos que não iam morrer de broncopneumonia, mas vão morrer de pneumonia intersticial aguda. Vejam lá como eu sou vosso amigo. "Não há qualquer relação".
Não há é paciência para este continuo engano. Esta gente não é séria.
O NAVIO FANTASMA (39): TUDO COMO DANTES, QUARTEL-GENERAL EM ABRANTES
O que fez Rui Machete foi um acto, não foi uma declaração irreflectida, ou uma "declaração menos feliz". Se apenas fossem palavras, mesmo assim seriam graves, mas foi mais do que isso, foi um acto de diplomacia à revelia da lei e da ordem democrática, praticado pelo responsável máximo das nossas relações externas que fala, por isso mesmo, em nome de Portugal.
Não me admira muito, dado que o anterior Ministro também classificava (e classifica) o seu próprio país de protectorado, sem que haja qualquer abalo nas hostes habitualmente cheias de vento patriótico. Isto está tudo num estado tão rasteiro e perigoso, que nem é a continuidade das peripécias, umas sobre as outras, mentiras nos curricula, "incorrecções factuais", mentiras ao parlamento, fugas sistemáticas de informação do governo para comentadores amigos, ocultação de dados, que já é o mais grave. O mais grave é a completa impunidade com que tudo se faz, e o modo como tudo continua na mesma, tudo como dantes quartel-general em Abrantes. Criticado Machete sem muitas ambiguidades pelo Presidente da República no 5 de Outubro, basta que o primeiro-ministro "desvalorize" - o que ele está sempre a fazer e deve ser o timbre da "nova cultura política" do Ministro Maduro - para que tudo volte ao "normal". Isto é que é muito preocupante, a impunidade dos de cima, que podem fazer o que quiserem sem consequências.