Vivemos nos últimos dias um momento de apogeu de uma
arte muito portuguesa, cujo exercício se tem aprimorado nos tempos mais
recentes: o futebol político. Nesta semana, o Governo meteu um clamoroso
golo nas balizas da oposição com o "regresso aos mercados". Nas semanas
anteriores, a oposição meteu outros tantos golos, quanto lhes
permitiram a gloriosa táctica das regras de Chatham House em
conferências de propaganda pagas por nós, ou o relatório "muito bem
feito" do FMI, e outras confusões avulsas. Portas parece que meteu um
golo a Relvas na RTP e Relvas para se vingar atirou seiscentas bolas
contra os trabalhadores da RTP. Gaspar também já tinha metido um golo a
Portas, pelo que este registou num caderninho mental a necessidade de
ajustar as contas numa próxima ocasião. Passos Coelho, esse, vê a bola
passar. E por aí adiante.
Vários locais são o território ideal
para este futebol político: o Parlamento, os blogues e os jornais, No
Parlamento, o dualismo Governo/partidos de Governo versus
partidos da oposição domina todo o debate. Ele é pela sua natureza
posicional em vez de ser racional, depende não do que se pensa, mas do
lugar onde se está. Defende-se com unhas, dentes e palavras os "nossos",
e atacam-se os "outros". Alguns deputados mais truculentos fizeram e
fazem a sua carreira dessa aptidão especial de fidelidade canina ao seu
lado, sem memória, sem razão e quase sempre sem vergonha. Os
regionalistas tornam-se centralistas, os nortistas descobrem-se
sulistas, os liberais em defensores acesos de um Estado burocrático e
colectivista, os do "partido dos contribuintes" passam a adeptos do
partido dos impostos, os da lavoura passam para a indústria, o que
servia há um ano já não serve um ano depois. Não são argumentos que se
contrapõem mas factos-assassinos: o facto A destinado a esmagar o facto
B, as "trapalhadas" actuais de Passos defrontam a "bancarrota" de há um
ano de Sócrates, e vice-versa.
Cada um diz ao outro: também tu já
fizeste isto, pelo que não tens o direito a falar. Pouco importa o
tempo, ou as circunstâncias: o debate parlamentar é a-histórico pela sua
natureza, é uma retórica dualista e grosseira, confrontacional, sem
contexto, nem pano de fundo. Na verdade, tudo o que se diz em resposta
podia ser dito sem se ouvir a pergunta. O deputado A pode falar em urdu,
porque o deputado B que lhe responde fala em gaélico e pouco importa
que as línguas não comuniquem entre si, porque cada um está a falar para
a sua claque, que só se reconhece na língua do seu clube, na cor da sua
camisola, no hastear da sua bandeira. Ou então está a falar para o seu
chefe, ou a sua secção ou a sua federação, para que mais tarde venha a
ser recompensado com a manutenção na lista de deputados, o objectivo
corrente da maioria dos deputados: ficar onde se está.
O
Parlamento está cada vez mais parecido com os blogues e vice-versa. Não é
de estranhar porque cada vez comunicam mais no estilo, nos temas, na
maneira clubística de ter lado, bandeira, camisola, e, mesmo nas últimas
eleições, na proveniência e autoria. A política na Internet, blogues,
redes sociais, Facebook e twitter em particular, tem todos os elementos
desse simplismo reducionista essencial que serve às mil maravilhas como
extenso campo ao futebol político. O modo tribal como os blogues
funcionam, o ideal que é poder comunicar sem ter nada para dizer em 140
caracteres, com a sua especial adaptação à má-língua e intriga, a
confraternização adolescente e o intimismo artificial das páginas de
Facebook, tudo isto atrai as almas simples do futebol político. Cada vez
mais as "jotas" se formam ali, deixando para trás estudos sérios e
livros, tudo coisas muito intelectuais, complicadas, inúteis, talvez
piegas.
Os blogues da situação que antes eram da oposição,
desfalcados dos muitos assessores que deram ao actual poder, animam-se
de repente quando há um golo do Governo. Esta semana ressuscitaram dos
quase mortos muitos dos seus autores, que voltaram eufóricos à escrita.
Pelo contrário, o ar enfiado dos blogues da oposição contrasta com
semanas e semanas de euforia com as asneiras da equipa do Governo. A
vida nem sempre é fácil, e com Seguro é ainda mais difícil. Estas formas
pouco subtis de felicidade grupal animam a auto-estima das claques que
nas páginas de comentários se insultam umas às outras. É um mundo
mentalmente pobre, mas muito animado.
A comunicação social
funciona em contínuo com este futebol político, parlamentar, partidário e
da rede, sendo aliás não só parte do jogo, como o terreno ideal do
jogo. A maneira como os jogadores Cavaco, Seguro, Passos, Relvas, Portas
e Gaspar estão sempre a ser descritos como se "arrasando" uns aos
outros, ganhando ou perdendo, tendo as setas para baixo ou para cima nas
secções de rating dos jornais, não é mais do que a tradução
desta visão lúdica da política. Os títulos seguem a mesma linha de
simplicidade espectacular. De facto não é xadrez, é futebol.
O que
se passa com esta descrição da política como um jogo de futebol é que
impregna o espaço público de "explicações" simples, fáceis e
reducionistas, que não explicam nada e pelo contrário têm o efeito de
ocultar tudo o que é importante e valorizar tudo o que é irrelevante. Se
associarmos a esta mecânica a incapacidade de manter o foco da atenção
no que é importante, em detrimento do que lhes parece ser "novidade",
mesmo que trivial, o resultado é um permanente discurso errático, sem
memória, poder analítico, saber, ou seja, sem informação. O que é que
sabemos sobre as privatizações, as negociações (ou a ausência delas) na
Europa ou com a troika, que acordos e compromissos existem com a
banca, que fazem de facto Relvas em Angola e no Brasil, Passos Coelho em
S. Bento, Portas no CDS, e Gaspar na burocracia financeira do BCE e do
FMI? De tudo o que é importante sabemos muito pouco, a não ser as fugas
de informação orientadas, de Marques Mendes à primeira página do Expresso.
Se há paciente que sofre de distúrbio de Défice de Atenção com
Hiperactividade é a comunicação social, com as honrosas excepções que
brilham no escuro.
Há um pequeno problema no futebol político: se
olhassem para as bancadas apercebiam-se de duas coisas. Uma, a de que
ninguém os está a ver; a outra, de quem os está a ver prepara-se para
saltar para o campo e linchar as equipas. Isto assim não vai longe.
Which yet joined not scent to hue,
Crown the pale year weak and new;
When the night is left behind
In the deep east, dun and blind,
And the blue noon is over us,
And the multitudinous
Billows murmur at our feet,
Where the earth and ocean meet,
And all things seem only one
In the universal sun
... sairá finalmente, sólido das suas 600 páginas. Depois haverá notícias mais detalhadas. Entretanto, e respondendo a muitas perguntas e solicitações, o volume quarto da biografia de Álvaro Cunhal ainda deverá ser publicado em 2013, o ano do centenário. Cobrirá o período de 1960-8, ficando um quinto volume para os anos de 1968-74. Depois Cunhal sobe à Chaimite, no dia 30 de Abril de 1974, com um soldado e um marinheiro ao lado, e termina para já a saga. No entretanto, entre as Armas de Papel e o Cunhal - IV, haverá um pequeno volume de textos sobre os anos da "crise", talvez para Junho.
ENTÃO, GOVERNANTES, NÃO É DE DIZER QUALQUER COISINHA
Após um estranho e longo silencio, em que o que aparecia relativo às malfeitorias bancárias se resumia ao BPN, BPP e em menor grau ao BCP, a imprensa começa timidamente a falar dos banqueiros de topo, aqueles que fazem e desfazem governos e que estão sempre ao lado do poder, de Salazar a Passos Coelho, passando pelos socialistas. Não me refiro ao que é ilegal, porque disso deve cuidar a justiça, mas dos "esquecimentos" que levam milhões lá para fora sem serem declarados ao fisco, para depois a memória melhorar, ou ser melhorada e o dinheiro regressar cá dentro com um pequeno imposto para pagar de bónus.
Mas há um silêncio muito esquisito, se não fosse verdadeiramente pouco esquisito, no modo como as coisas estão: estando o governo envolvido numa luta épica para que os portugueses paguem impostos, nunca condenou estes "esquecimentos"? Insisto, condenar do ponto de vista da moral cívica, já que a lei é suposto ter outro andamento e outras consequências. É verdade que mesmo com a lei em curso, o governo às vezes fala à vontade, como a nossa ministra da justiça fez recentemente, dizendo que "a partir de agora deixou de haver impunidade". Mas era para o PS de Paris e não para a banca. Aqui é só silêncios e gentilezas. Para a banca faltosa, não há mesmo nenhuma palavrinha zangada, vindo do mesmo ministro e primeiro-ministro e dos vários secretários de estado que incham o peito contra as cabeleireiras, os mecânicos de automóveis, e os donos de café e restaurantes? Aí sim, há palavras duras e mostras de robusta firmeza.
Não deviam os governantes dizer alguma coisa? Dever, deviam. Dizer, não dizem.