Catálogos das primeiras exposições de Ângelo dos anos sessenta.
Ângelo de Sousa era o mais diferente de todos, percebia-se à primeira e confirmava-se à segunda. Os todos são "Os Quatro Vintes", os quatro antigos alunos e então já professores na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP). Quatro vintes eram as suas notas escolares e um maço de tabaco então popular, mau e barato a que tinham acrescentado um número. Conheci-os bem a todos, Jorge Pinheiro, Armando Alves, José Rodrigues e Ângelo de Sousa e convivi com muita proximidade com os dois últimos. Escrevi sobre eles nas páginas literárias que ainda havia nos jornais, em particular no Jornal de Notícias (o título deste artigo é idêntico a um que escrevi em 1968), assisti (e participei) em muitas peripécias das suas vidas e tenho muitas dezenas de desenhos, ilustrações, gravuras, fotografias e alguns quadros, que me foram então oferecidos e que mantenho com muita estima e gosto. Ângelo está aí representado, desde um raríssimo nu figurativo de juventude, até uma das suas pinturas abstractas em acrílico.
Jorge Pinheiro foi-me sempre mais alheio, e Armando Alves acompanhei melhor a sua obra gráfica, do que o seu trabalho de pintor. Por seu lado, o Zé Rodrigues era (é) um daqueles casos absolutamente espontâneos de uma mão que não parava de desenhar e sempre admirei mais a sua obra como desenhador do que como escultor, embora reconheça que era motivado, como aliás o próprio Ângelo, por uma contínua pulsão experimental, que não conhecia descanso. Essa contínua experimentação, com materiais, formas, estilos, dá uma grande desigualdade à sua obra escultórica, que muitas vezes parecia, peça a peça, difícil de identificar como sendo do mesmo autor. Mas a mão trabalhava sempre, e muitos desses desenhos feitos por todo o lado, tenho-os aqui em caixas. O Zé Rodrigues escrevia com uma caneta de tinta-da-china, com lápis, com esferográfica, e se preciso fosse com o dedo, que mergulhava no café, em tudo o que estava à mão, um canto de um jornal, um programa ou um catálogo, toalhas de mesa e guardanapos de papel, uns atrás dos outros. Fazia modelos de esculturas, cenas, retratos, bonecos, desenhos satíricos (bispos e padres na boa tradição anticlerical portuguesa, dotados de poderosos membros) e desenhos eróticos. Desenhava tudo que estava à volta, ao mesmo tempo que conversava, discutia, contava ou ouvia histórias. O nosso habitual companheiro de muitas destas conversas era Eugénio de Andrade, que escreveu textos para os catálogos dos "Quatro Vintes", em particular para o Zé Rodrigues e o Ângelo.
Ângelo também andava pela mesma geografia dos cafés portuenses nos anos sessenta, mas era muito mais reservado e foi para Inglaterra durante algum tempo, o que o afastou do meio. Era também o mais "intelectual" do grupo, estudava psicologia, história da pintura, filosofia das formas, fotografia, matérias mais arcanas do que era comum. Os seus livros, muitos dos quais em inglês, traduziam essa procura intelectual, muito para além da curiosidade. Porque Ângelo lia e estudava, prática pouco comum nos artistas plásticos. O seu feito mais reservado, muitas vezes alheio e mordaz, e que gerava perplexidade em quem o não conhecia, contrastava com o carácter expansivo, lúbrico e terra a terra do Zé Rodrigues. A sua pintura, desenhos, escultura e objectos eram mais pensados e menos espontâneos, mais trabalhados, mesmo na sua final simplicidade.
Nesses anos do final da década de sessenta, Ângelo estava pouco a pouco a abandonar uma pintura que tinha ainda muitas referências figurativas, para uma maior abstracção e um maior experimentalismo, mas havia nele uma alegria e luminosidade ímpar nos seus companheiros. Armando Alves, que era alentejano, pintava o sol queimado da sua terra, mas as cores de Ângelo eram muito diferentes, artificiais, construídas, únicas, como as de Rothko. E, insisto, de uma alegria equilibrada, se é que isto se pode dizer da alegria. E havia quem fosse à Casa de Chá da Boa Nova, obra de Siza cheia de histórias no seu interior, para ver alguns dos seus quadros que lá se encontravam, para se pacificar. Embora a dita Casa de Chá fosse o mais bizarro sítio para alguém se pacificar, principalmente à noite.
Guardo uma fotografia que ele me tirou junto de uma das suas peças metálicas, quando Ângelo começou a fazer experiências numa sua primeira exposição de esculturas na Galeria Alvarez. Este caminho, muito de pittura e cosa mentale, como dizia Leonardo, não agradou a quem estava habituado a uma pintura que, mesmo na sua especial manipulação da superfície de cor acrílica, sobre um desenho minimalista, era também decorativa. Podia colocar-se no lugar de honra de uma sala burguesa, onde não cabiam aquelas lagartas de aço recortado, então sem nenhuma cor que não o brilho do latão, que não tinham postura, nem ficavam quietas na sua procura do ponto de gravidade e que enferrujavam. Mas Ângelo estava já noutra, que hoje, juntando-se tudo, se percebe que era a mesma.
Perdi então algum contacto com o trabalho de Ângelo, no meio da turbulência política dos anos setenta, e só o retomei mais recentemente, nas suas últimas grandes exposições de pintura e objectos. Mas, conversando com ele a propósito de um ouvido que ele lá tinha dissecado obsessivamente, como os cubistas faziam à procura da geometria essencial das coisas, lá estava o Ângelo de sempre, na procura das formas mais elementares, a que dava as suas cores de sempre, luminosas e francas. E o mesmo Ângelo, ensimesmado na fala, disse-me: "Passa lá pelo atelier, para te dar umas coisas", ele que era tão avaro da sua obra. Disse-lhe que sim, claro. Mas a morte chegou primeiro.
Não faz mal, ele estará certamente a dar às nuvens uma outra geometria, menos nebulosa, diríamos assim, e a desenhar caderno sobre caderno, forma sobre forma, cor sobre cor, a fotografar e a catalogar o mundo. Magro, careca, óculos e barba, ligeiramente estranho, como se estivesse dependurado em si próprio no interior do casaco, como eu o conheci sempre.
Tudo indica que, qualquer que seja o resultado eleitoral, caminhamos para uma “grande coligação” mais ou menos forçada. É verdade que o “chefe” da coligação pode ser Sócrates ou Passos Coelho, o que não é a mesma coisa. Mas, seja como for, vejo com muita ironia os excitados internautas que nos blogues queriam ruptura e “eleições já” em nome de Sá Carneiro, Churchill ou algum morto célebre por ter feito alguma coisa que não fez bem assim, a terem que engolir um resultado tão escrito nas estrelas e tão desconforme com os seus anseios revolucionários. Oh senhores! Lenine pode explicar-vos que se há coisa para que as eleições não servem é para fazer revoluções, muito menos quando não há dinheiro para nada. No entanto, não haver dinheiro para nada, isso sim é mais revolucionário do que parece…
COISAS DA SÁBADO: NAS MALEITAS DO PAÍS HÁ DOIS LADOS
Uma das banalidades que se dizem sempre com redobrar de língua e ênfase puro, à Louçã, é que o “povo” nunca é criticável em democracia. Os políticos são os “bandidos” que se conhecem, o povo está sempre na madrugada “lustral”, puro e perfeito. È verdade que muitos políticos parecem apostados em fazer exactamente aquilo que lhes merece os insultos da praxe. Poucas vezes como agora, se assiste a uma corrida para o abismo em que todos colaboram como se fosse a mais normal das atitudes. Poucas vezes como agora, é mais patente que a lógica que move os principais responsáveis políticos no poder e na oposição deriva apenas de tropismos de conservação ou aproximação ao poder, sem qualquer consideração pela situação do país.
Verdade. Mas há outro lado que convém lembrar: Sócrates só lá está porque os portugueses votaram nele e muitos dos mais vocais dos seus críticos actuais caracterizavam-se por odiar mais Ferreira Leite do que Sócrates há um ano e meio. Só passou ano e meio, só passou ano e meio, só passou ano e meio. E Sócrates foi votado pelo mesmo sistema de ilusões a que ele deu corpo em política através da mentira sistemática. Ele mentia e os seus eleitores queriam ouvir aquelas mentiras porque lhes eram confortáveis. E votaram pelo conforto da mentira em 2009, ano em que uma interessante polémica sobre a “verdade” deve hoje queimar a boca de muita gente.
Mas há mais: não é líquido que aquilo que fez muita gente abjurar de Sócrates não seja também uma ilusão: que, deitando Sócrates abaixo, se impedirá muita austeridade. Que papel tem a ilusão de que as coisas serão melhores, como por milagre, removendo o “mau”? Ou que, pelo menos, serão adiadas medidas duras, dentro da velha máxima que enquanto o pau vai e vem folgam as costas? É que o outro lado da nossa desgraça é que não existe uma verdadeira força endógena para a mudança que suporte os melhores, que dê suporte eleitoral ao que é difícil mas necessário. Depois não vale a pena andarmos-nos a queixar dos maus políticos. São aqueles que escolhemos.
The lost self changes, Turning toward the sea, A sea-shape turning around, -- An old man with his feet before the fire, In robes of green, in garments of adieu. A man faced with his own immensity Wakes all the waves, all their loose wandering fire. The murmur of the absolute, the why Of being born falls on his naked ears. His spirit moves like monumental wind That gentles on a sunny blue plateau. He is the end of things, the final man.
All finite things reveal infinitude: The mountain with its singular bright shade Like the blue shine on freshly frozen snow, The after-light upon ice-burdened pines; Odor of basswood on a mountain-slope, A scent beloved of bees; Silence of water above a sunken tree : The pure serene of memory in one man, -- A ripple widening from a single stone Winding around the waters of the world.
Está mal e vai ficar pior, embora cada dia nos pareça que não pode ficar pior. Pode, pode.Existem escondidos, não se sabe onde, ou sabe-se demais, recursos de uma capacidade infinita de mostrar que abaixo do grau zero, há muitos mais graus abaixo de zero. Cada circulo do Inferno aqui tem dez sub círculos, por sua vez divididos noutros dez. No nosso Inferno, Dante nunca chegaria ao fim da sua viagem e passava a habitante permanente mesmo que merecesse o Paraíso. É por isso que Deus nunca vem cá e Nossa Senhora arrependeu-se em 1917.