ABRUPTO

15.10.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OS HOMENS QUE PASSAVAM O INVERNO NA SUA QUINTA (3)

Primeira; segunda parte.


John Adams , o primeiro Vice-Presidente dos EUA e seu segundo Presidente, foi também o primeiro a sentir o síndroma da Vice-Presidência, o que significa que esse sentimento vem com a função. Enquanto Vice-Presidente, lugar ainda indefinido nas suas funções, como aliás todos os outros na jovem república, Adams sentia-se inútil, afastado do centro do poder político, ignorado nas decisões fundamentais, maltratado ao ponto de nem sequer o seu salário ter sido, durante algum tempo, definido. Não sabia como tratar Washington quando o recebia no Senado a que presidia, se por "Sua Majestade" se por "Sua Excelência" ou qualquer outra fórmula. A questão também não era irrelevante e havia quem chamasse a Washington "Sua Majestade", e, no conflito já latente entre "republicanos" e "federalistas", os poderes do Presidente e do seu executivo eram polémicos. Hamilton, o grande construtor da máquina do executivo, era atacado (entre outros por Jefferson) exactamente porque defendia a criação de fortes instituições de governo federal, um banco central por exemplo, que conheciam grande resistência dos estados. As sementes de um conflito de legitimidades que esteve na base da guerra civil americana começaram aqui, com muitos dos argumentos de Jefferson a serem retomados pelos Confederados.

Adams, que parece não marcar nada de glorioso como especialmente seu, no meio de tantos homens excepcionais, acaba por se verificar, à distância do tempo, ter sido fundamental na sua época. Grande diplomata, foi o homem chave na gestão do complicado  triângulo EUA - França - Inglaterra, que não era apenas uma questão de política externa, mas sim de política interna. Hamilton era tido como pró-inglês, Jefferson pró-francês, e com eles muitos dos seus apoiantes, num contexto de um país que iniciou a sua diplomacia com um tratado de defesa mútua com a França, ainda assinado com Luís XVI, e que acabou praticamente em guerra com Napoleão. Quanto aos ingleses, trataram sempre mal a colónia rebelde, atacando navios americanos e prendendo e executando  todos aqueles que consideravam desertores da sua marinha, estendendo o  bloqueio europeu a águas americanas. Quando os EUA se tornaram uma potência continental, com a compra da Luisiana (por Jefferson), e começaram a ter problemas com a Espanha, por via do México e de Cuba, a diplomacia, formada por Adams, ajudou o novo país a estabelecer-se nessa dimensão até ao momento em que a marinha americana começou a surgir do nada,e a tornar-se uma força cujo poder se estendeu até às costas do Norte de África, ainda na Presidência de Jefferson.

Adams escrevia à sua esposa Abigail, para cuja quinta de Quincy (então Braintree no Massachusetts) fugia sempre que podia.  As suas cartas são um relato fascinante de uma amizade intelectual e política, entre dois espíritos poderosos, incluindo a discussão do dia a dia, pessoas, boatos, etc. Abigail era uma conselheira muito respeitada por Adams. (Continua.)

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Abigail, era de facto uma mulher intelectualmente fascinante, extremamente respeitada por Adams. Em 1776, ainda muito antes do surgimento dos movimentos feministas, numa dessas muitas cartas que os dois trocaram, Abigail, demonstrando uma enorme cumplicidade com Adams, escreve-lhe a pedir que este defenda as mulheres no Congresso:

In the new Code of Laws... I desire you remember the Ladies, and be more generous and favorable to them than your ancestors. Do not push such unlimited power into the hands of the Husbands. Remember all Men would be tyrants if they could. If particular care and attention is not paid to the Ladies we are determined to foment a rebellion, and will not ourselves bound by any laws in which we have no voice, or representation.

(MBC)

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Os estudiosos da Revolução Americana publicaram um incontável número de livros sobre Thomas Jefferson, James Madison, Alexander Hamilton, Benjamin Franklin, e George Washington. Surpreendentemente, escreveram muito menos sobre John Adams. Este facto é ainda mais curioso, por Adams ter sido muitas vezes visto pelos seus pares, como o mais instruído e penetrante pensador da geração dos “founding fathers”. O seu papel central e determinante na Revolução Americana é amplamente reconhecido por todos eles. Benjamin Rush (outro dos signatários da Declaração de Independência), afirmou que existia entre a geração de 1776 um consenso generalizado de que John Adams possuía muito provavelmente mais conhecimentos, quer dos antigos, quer dos modernos, do que qualquer outro dos homens que subscreveram a Declaração de Independência. Outro seu contemporâneo, afirmou mesmo, que Adams era o homem a quem a o país mais devia pela independência. Esse mesmo contemporâneo referia-se a Adams como um atlas da independência americana.

John Adams presenciou e participou activamente na Revolução Americana desde o princípio até ao fim. Como revolucionário ele será sempre recordado como um dos mais importantes líderes do movimento político radical em Boston e dos que primeiro clamou pela independência no “Continental Congress”. Ainda durante esse período, como intelectual, Adams escreveu alguns dos mais importantes e influentes ensaios, constituições e tratados do período revolucionário. É nesse período, mais concretamente em 1776, que Adams escreveu sobre o modelo constitucional, num ensaio intitulado “Thoughts on Government” que influenciou significativamente pelo menos quatro Estados na concepção da sua constituição e viria mais tarde a ser determinante na “arquitectura” da Constituição americana.

(MBC)

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© José Pacheco Pereira
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