ABRUPTO

14.10.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OS HOMENS QUE PASSAVAM O INVERNO NA SUA QUINTA (2)

Primeira parte.

O livro de Gore Vidal é um ensaio entre a história e a literatura,  nem um ensaio histórico, nem um texto de ficção nem, no limite, de "creative nonfiction".  Percebe-se bem porquê: Vidal está fascinado pelas suas personagens históricas, aqui como noutros livros que escreveu, e o material que elas oferecem é tão bom que não precisa sequer de criar personagens ficcionais. Gente como Hamilton, Adams, Burr, Jefferson, Washington, Franklin, são melhores personagens do que as da ficção. Em que país e em que tempo seria normal, tanto quanto estas coisas são normais, que um Vice-Presidente dos EUA em funções (Aaron Burr, era Presidente Jefferson) matasse num duelo o antigo Secretário das Finanças, e na prática o verdadeiro governante na presidência de Washington (Vidal chama-lhe o "premier") Alexander Hamilton. Mais ainda se percebe o fascínio de Vidal (e nosso por sua via) quando, anos depois, Burr comentava assim o seu duelo mortal:
"Had I read Sterne more and Voltaire less, I should have known the world was wide enough for Hamilton and me."
No jogo destes tempos e destes homens, todos eles verdadeiros "fundadores", em todos os sentidos, na pena, na acção política, na governação, na revolução e na guerra, Vidal centra-se em Washington e Adams, as personagens que se percebe menos lhe interessam intelectualmente, pouco fala de Jefferson. É  a sombra de Hamilton, o único dos fundadores que não chegou à presidência, o verdadeiro background do livro.

Washington aparece como um mau militar mas um excelente administrador, um homem de modesta inteligência e considerável menos "mundo" que os seus companheiros, pouco interessado em livros. As más línguas diziam que, como era o mais alto e  imponente em qualquer reunião, acabava sempre por ser escolhido para as chefias militares. Mesmo assim, como os generais ingleses eram  muito incompetentes, acabaram derrotados. Os ingleses queixavam-se de que os lavradores americanos e os caçadores habituados ao mato, os predecessores de David Crockett, "não lutavam" fair, ou sejam usavam técnicas de guerrilha e, como diz Vidal, não achavam especialmente bem vestirem-se de vermelho para servirem de alvos à distância.

Washington também personificava as virtudes republicanas, idealizadas em Cincinato (que deu nome a uma cidade americana por força das leituras de Catão destes homens), que tendo todos os poderes na mão, tendo ganho a guerra, não quis proclamar-se rei e regressou às suas propriedades. Washington, sendo sempre descrito num tom menor, acaba por ser uma personagem maior, mesmo contra Vidal. O mesmo se passa com Adams.

(Continua.)

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]