ABRUPTO

13.10.08


NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OS HOMENS QUE PASSAVAM O INVERNO NA SUA QUINTA

Gore Vidal, Inventing a Nation. Washington, Adams, Jefferson, Yale University Press, 2003.

Comecei a ler este livro há cinco anos, depois interrompi e coloquei-o na grupo dos "para ler", a pilha de livros com maior crescimento, que já não cabe na estante e de vez em quando desaba com fragor. Escrevi aqui uma primeira nota de impressões sobre o livro, mais sobre o estilo do que sobre a substância, que não preciso agora de repetir. Nos últimos dias, a reboque do Jefferson de Hitchens, comecei outra vez e foi do princípio ao fim, sans haleine. Ainda estou por perceber que evento me fez parar a leitura da primeira vez, porque este é daqueles livros que não se interrompe. Deve ter havido, nesse ano, um qualquer terramoto.

Nas últimas páginas do livro, Gore Vidal relata  como ele começou. Vidal, que era amigo de John F. Kennedy, conta como este lhe perguntou como era possível que um país provinciano, com apenas três milhões de pessoas, tivesse "produzido" três dos maiores génios do século XVIII, Franklin, Jefferson e Hamilton. Vidal respondeu:
"Time. They had more of it. (...) They stayed home on the farm in winter. They read. Wrote letters, Apparently, thought, something no longer done - in public life."
Continuaram a conversa, com Kennedy a queixar-se de como as principais figuras com que tinha de lidar como Presidente eram tão "second-rate" comparados com os fundadores da república. Vidal acrescentou e "eram anglo-saxões", ironizando com o católico irlandês dentro de Kennedy. Pois, se calhar era outra coisa, disse Kennedy, devia ser da "água", que entretanto acabou.

Muitos anos depois,  à procura dessa "água", Vidal escreve sobre os "inventores" da nação americana e em vez de escrever sobre Franklin, Jefferson e Hamilton, escreve sobre os três primeiros Presidentes, Washington, Adams e Jefferson. Só Jefferson está na lista de Kennedy e no livro de Vidal, mas Franklin, e principalmente Hamilton, estão mais do que presentes no seu texto. A flutuação entre a lista de Kennedy, que não incluía nem Washington, nem Adams, mostra como estava a falar da trilogia genial assente na sua qualidade de intelectuais, coisa que Washington não era de todo, enquanto Adams cabia na categoria na medida em que possuía a sólida formação cultural e jurídica do seu tempo e participara nos debates constitucionais, mas sem comparação com Jefferson, Hamilton ou Madison. Mas a verdade é que os EUA foram fundados por gente que "pensava",  uma excepção na história de todas as épocas. A França revolucionária começou na "canalha" e acabou no pequeno corso e no resto do mundo nenhum homem com poder se podia comparar aos fundadores americanos que tinham "tempo" para "pensar".

(Continua.)

*
Um fait divers curioso no livro que refere, que liga a invenção da nação Americana a Portugal".

Página 73... "Washington had two wooden plates containing ivory teeth that Madeira wine tended to stain..." E logo de seguida, "Once the table was cleared Lady Washington led the ladies upstairs to a drawing room, and the man passed the port round the table and listened as President Washington told a complicated "funny" story about a clergy man who lost is hat and wig while crossing the Brunks River."

Podemos portanto concluir que os vinhos de Portugal tinham lugar importante à mesa em Mount Vernon e, quem sabe a influência que terão tido no nascimento da nação Americana. Pelo menos terão ajudado às longas conversas nos invernos passados nas quintas.
 
(AJC, Colombus, Ohio, US)

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© José Pacheco Pereira
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