3. POR QUE RAZÃO FALHARAM AS ÚLTIMAS MANIFESTAÇÕES DOS "INDIGNADOS"?
A
comunicação social tem estado relativamente silenciosa sobre o
estrondoso falhanço das últimas manifestações "indignadas", como se não
houvesse nada a perguntar, nem nada a analisar. O mesmo se diga da
patética manifestação contra Cavaco Silva, que nem sequer 200 pessoas
reuniu, apesar de ter sido abundantemente anunciada na comunicação
social, incluindo a televisiva. Ora tenho para mim que qualquer
manifestação hoje que mereça a simpatia benevolente da comunicação
social (como aconteceu com os exemplos referidos) que tenha menos de
alguns milhares de pessoas obriga a analisar não apenas os factores de
atracção em que se baseia o apelo, mas também os factores de repulsão
que afastam as pessoas.
A primeira manifestação da chamada
"geração à rasca" (a designação de "indignados" era ainda muito
minoritária) foi um grande sucesso. Mas é o caso típico de uma
manifestação unanimista, que desde a JSD à extrema-direita, de grupos de
"artistas" à extrema-esquerda, do PSD ao BE ao PCP, teve todo o mundo e
ninguém a apoiar e uma comunicação social activa e ultra-simpática a
divulgá-la. Só quem não era patriota é que não saía à rua. Ah! E havia
um pequeno pormenor - era contra José Sócrates no clímax da sua
impopularidade. Tinha que ser um sucesso e foi, mas gerou a ilusão de
que poderia dar origem a um novo tipo de movimentos, o que também
entusiasmou muitas redacções sempre prontas a encontrar "novos"
movimentos sociais e depreciar os "antigos".
Mas o sucesso da
segunda manifestação só existiu enquanto se esteve longe do folclore das
"assembleias populares" em frente ao Parlamento e deveu-se ao mais
antigo dos movimentos sociais, a CGTP, mais o PCP. Foi isso que encheu
as avenidas e foi isso que se rarefez, quando as tropas disciplinadas
dos sindicatos e do PCP se recusaram a participar nas cenas excitadas de
grupos que acham que o povo são eles e que podem fazer um soviete a
brincar nas escadas da Assembleia. Já aqui se percebeu que estavam em
jogo factores de rejeição e que essa rejeição foi do vanguardismo
mimético da cena entre o hippie e o leninista, no meio de tendas de campismo e lixo, que se pretendeu montar sob o arrogante nome de "assembleia popular".
Por
isso, a terceira manifestação foi um falhanço completo. Sem a CGTP,
ficou apenas o folclore, alguns genuínos indignados e uma
extrema-direita que usa a mesma linguagem dos radicais indignados e por
isso estava lá por direito próprio. O mesmo se pode dizer da micro-manifestação da "moedinha para o Cavaco", um ainda maior falhanço,
apesar da publicidade na comunicação social, em que a todos os outros
factores de rejeição se acrescenta o facto de os jornalistas gostarem
muito do engraçadismo, mas a maioria das pessoas, mesmo irritadas com
Cavaco Silva, não acharem bem o gozo com a figura do Presidente.
Como
é que isto vai continuar? Um pequeno número de proto-leninistas e
anarquistas vão tentar provocar incidentes, como se esses incidentes
revelassem qualquer "luta de classes", os "artistas" vão continuar a
fazer cenas de rua, e tudo isto só ultrapassará a paisagem do Camões e
da Rua do Carmo, se a CGTP e o PCP quiserem. Até agora não quiseram.