2. POR QUE RAZÃO NINGUÉM FALA EM PRIVATIZAR AS RÁDIOS PÚBLICAS?
A
televisão é o grande instrumento de poder na comunicação social e por
isso é normal que a atenção política se centre na privatização anunciada
de parte da RTP e no desenho futuro ainda por conhecer da empresa
estatal. Mas surpreende-me o silêncio e ausência de discussão sobre o
facto de, no universo da comunicação social pública, haver um importante
sector de rádio: vários canais de rádio tradicionais, e vários na
Internet. Ora todos os problemas que se colocam com os canais
televisivos da RTP colocam-se com ainda mais agudeza na rádio, onde a
oferta privada é mais sólida e importante e não custa nada aos
contribuintes. Temos a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois
exemplos influentes de um universo de rádios privadas numeroso e activo,
cobrindo todas as formas de música, clássica, ligeira, portuguesa,
fado, rock, e um jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo.
O
que é que justifica existir um pesado sector comunicacional de rádios
públicas? A resposta é certamente a mesma que é dada para os canais
televisivos da RTP: à esquerda, ideologia da superioridade do público
sobre o privado; à direita, poder manter um braço armado na comunicação
social que depende de escolhas políticas.
*
A garantia de uma oferta mínima de um certo tipo de programação
audiovisual dita "erudita", uso o termo por facilidade, é uma opção
política. Poderemos achar que essa garantia deve existir ou não existir, mas que a escolha tem que ser feita, isso tem. Pelo menos enquanto
em Portugal vigorar um sistema de mecenato do qual as pequenas
iniciativas raramente beneficiam, não poderemos pensar em vir a ter a já
referida oferta garantida por privados como acontece na rádio e
televisão pública dos Estados Unidos da América. Pessoalmente
acho que sim, que deve ser garantida essa oferta, pela mesma razão que
deve apoiar, por exemplo, a ópera. É uma questão de ter ou não ter. Por
mais fé que tenhamos na livre iniciativa quanto à oferta cultural, são
já vários os exemplos de ofertas que, por não serem de grandes
massas acabam por morrer.
É
portanto uma questão de opção política e é legítimo que defendamos uma
ou outra solução. O que me parece estranho, no caso deste seu artigo, é a
afirmação de que "Temos
a Rádio Renascença, ou a TSF, só para ir a dois exemplos influentes de
um universo de rádios privadas numeroso e activo, cobrindo todas as
formas de música, clássica, ligeira, portuguesa, fado, rock, e um
jornalismo de qualidade, agressivo e competitivo." Como é evidente, na
lista de géneros que refere há um que não é de massas e não faria
sobreviver nenhuma rádio não apoiada pelo estado. Dizer que a Renascença
ou a TSF cobrem o universo da música clássica parece-me, no mínimo, um
enorme exagero. É apenas um pormenor no seu texto,
mas parece-me ser um pormenor muito importante na elaboração da sua
argumentação.