| ABRUPTO |
semper idem Ano VI ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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29.2.08
No caso do Ministro da Saúde a contestação era maior na rua do que no interior do “sistema”, no caso da Ministra da Educação é o contrário. A situação nos dois ministérios “reformistas” do governo Sócrates tinha por isso uma diferença fundamental e levou ao despedimento do Ministro da Saúde e à manutenção da Ministra da Educação. No entanto, com a deterioração acelerada da situação no interior das escolas já estive mais seguro de que ninguém tocaria na Ministra do que estou hoje. Não é que o Ministério da Educação não tenha simpatias do seu lado e poderosas: muitas pessoas estão com a Ministra, pais, autarcas, “povo”, porque se revoltavam com a situação das escolas, por muitas e diferentes razões, mas unidos num único alvo, os professores. Os professores no seu conjunto eram tidos como os grandes responsáveis pelo que se passava nas escolas e embora houvesse outros alvos, o Ministério, o laxismo, o “eduquês”, os sindicatos, acabava sempre por sobrar para os professores. Os professores tinham uma óbvia responsabilidade por esta situação e tinham-se posto a jeito. Embora houvesse professores que individualmente expressassem o seu descontentamento com o “eduquês”, o facilitismo, a falta de hierarquia de mérito entre os próprios professores, o absentismo, o desleixo e a má preparação de muitos profissionais, a ausência de avaliação digna desse nome, a sindicalização do Ministério, não havia um sólido movimento de opinião entre os professores que exigisse reformas e isso permitiu a demonização dos professores enquanto classe profissional. Mas havia professores com estas preocupações e estes deveriam ser os aliados naturais de uma política de reformas como a que a Ministra quis realizar. Só que não há, não há ninguém, é difícil encontrar alguém, em qualquer escola do país, que apoie a Ministra, que é universalmente odiada pelos professores. Uso a palavra forte, “odiar”, porque é raro encontrar algum responsável ministerial mais sozinho que a Ministra da Educação e isso, por si só, mostra que alguma coisa falhou nas suas reformas, porque, por escassos que fossem, alguns aliados deveriam existir, 10%, 5% dos professores, 3 ou 2% para se conseguir ter sucesso. Onde estão os erros? Um, de primeira responsabilidade de Sócrates, foi fazer reformas “contra”, usar, para obter apoio popular fácil, o mecanismo de pôr juízes contra professores, professores contra médicos, pais contra os professores, cada classe ou grupo contra os “privilégios” dos outros, e o “povo” contra todos. É bom para as sondagens, é péssimo para fazer reformas. Esta linguagem agressiva das reformas “contra” os grupos profissionais também penetrou no Ministério e, feito o mal, a seguir não é possível controlar os estragos. Depois, o Ministério, que é uma burocracia que se comporta como burocracia, quis fazer tudo ao mesmo tempo, dispersou-se e desconcentrou-se, misturou coisas importantes com irrelevâncias, atirou para todo o lado, e, sem dar espaço às escolas e aos professores para se adaptarem a uma nova ecologia, logo surgia outra alteração e outra e outra. Muita coisa foi feita de forma incompetente, gerando injustiças flagrantes em processos muito delicados, criando divisões e hostilidade entre professores, despromovendo carreiras profissionais altamente qualificadas a favor de critérios apenas centrados no dar aulas, actuando de uma forma sentida como punitiva contra os professores. O Ministério alienou os apoios dos melhores e mais dedicados professores e não conquistou o apoio de nenhuns outros. A Ministra bem pode mandar, como Jeová, os Anjos a Sodoma e Gomorra à procura de um justo, que não encontra ninguém. Pode-se dizer que isto acontece porque são mesmo verdadeiras reformas e atingem o cerne do corporativismo dos professores, o que é em parte verdade, mas escapa à questão de fundo: muitas reformas foram mal conduzidas, mesmo quando tinham mérito de per si e o resultado pode apenas ser mais caos e esvanecer-se junto com a Ministra. A janela de oportunidade está quase fechada, o tempo é escassíssimo, mas só uma pessoa pode ainda tentar salvar o que se pode salvar: a Ministra da Educação. Não é “ceder” que se lhe pede, é que distinga o que é essencial do que é secundário e se concentre, concentre, concentre, no que é essencial e deite o resto pela borda fora. Já. * (...) concordo em grande parte com o seu texto sobre a "A SITUAÇÃO DE REVOLTA NAS ESCOLAS". Permita-me, porém, como professor do ensino secundário, dizer-lhe que também existem na escola professores do lado das politicas educativas deste Ministério da Educação. Mas, confesso, não somos muitos. Etiquetas: professores (url) Segurança em torno do Teatro Mariinsky (S. Petersburgo) onde Vladimir Putin assiste a um concerto privado. (..) no St. Petersburg Times pode-se ler uma noticia sobre o concerto a que Vladimir Putin assistiu na passada quarta-feira. (ao qual se referem as fotografias que lhe enviei com a segurança em torno do teatro). Não e' de todo coincidência que em véspera de eleições, Putin decida homenagear cantores tão queridos do publico russo, como a nova "diva" Anna Netrebko, e anuncie aumentos dos subsídios para um teatro que esta' tão no coração dos russos como o Mariinsky. Seria normal que nesta altura escrevesse algumas linhas sobre as eleições na Rússia mas para ser sincero nao me apetece, porque na realidade, uma vez mais não havera por aqui verdadeiramente qualquer eleição. Esta tudo mais do que determinado, e o suposto acto eleitoral e uma encenação que nem se esforça muito por disfarçar a fraude. Mas gostaria de partilhar um pequeno comentário que me fez um destes dias o concertino da Orquestra Filarmónica de St.Petersburgo. Contava-me ele, em conversa de café, no intervalo de um ensaio, como foi a sua passagem por Lisboa há cerca 2 semanas, quando se houve pela televisão a voz de Putin. Ele faz uma pequena careta (como quem diz "nao gosto deste tipo"), e depois diz: "mas pela música e pelos músicos, so' fez coisas boas!" E' por estas e por outras que, independentemente de alguns métodos menos ortodoxos usados, e perante a incompreensão de muitos ocidentais, Putin goza de tanta popularidade entre os russos! (João Tiago Santos) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 29 de Fevereiro de 2008 A quantidade de correspondência que está a chegar ao Abrupto sobre os serviços dos CTT, de que se publicam aqui alguns exemplos, mostra que a exibição malcriada e arrogante ontem na SICN do seu responsável nomeado pelo governo, esconde muita incompetência e maus serviços de uma empresa pública que despreza os seus utentes como o seu administrador despreza as regras de civilidade e a obrigação de prestar contas. * Poucas vezes tive mais pena de não poder escrever de imediato, com bastante fúria aliás, do que quando ouvi ontem na SICN o gestor destacado pelo PS para os CTT, Luís Nazaré, responder com uma grosseria e má educação sem limites, às críticas da DECO aos serviços dos correios. Espero que a SICN coloque em linha esses longos minutos de insultos, de arrogância, de recusa liminar de qualquer crítica, no fundo para disfarçar uma desresponsabilização fundamental: a administração dos CTT não assume a responsabilidade pelo correio normal, não registado, o correio dos cidadãos comuns que não podem esperar que comprar um selo, ou seja pagar um serviço ao estado, lhes dê a garantia que a carta chega ao destino. Não ficou aqui o protesto em directo, fica em diferido.Resposta de Luís Nazaré aqui e aqui. * Em relação aos serviços que os CTT prestam, gostava de referir alguns aspectos que, por serem factos (e não opiniões), têm algum interesse: (url) 1237 - L'homme et son image Un homme qui s'aimait sans avoir de rivaux
Passait dans son esprit pour le plus beau du monde: Il accusait toujours les miroirs d'être faux, Vivant plus que content dans une erreur profonde. Afin de le guérir, le sort officieux Présentait partout à ses yeux Les conseillers muets dont se servent nos dames: Miroirs dans les logis, miroirs chez les marchands, Miroirs aux poches des galands, Miroirs aux ceintures des femmes. Que fait notre Narcisse? Il se va confiner Aux lieux les plus cachés qu'il peut s'imaginer, N'osant plus des miroirs éprouver l'aventure. Mais un canal, formé par une source pure, Se trouve en ces lieux écartés: Il s'y voit, il se fâche, et ses yeux irrités Pensent apercevoir une chimère vaine. Il fait tout ce qu'il peut pour éviter cette eau; Mais quoi? Le canal est si beau Qu'il ne le quitte qu'avec peine. On voit bien où je veux venir. Je parle à tous; et cette erreur extrême Est un mal que chacun se plaît d'entretenir. Notre âme, c'est cet homme amoureux de lui-même; Tant de miroirs, ce sont les sottises d'autrui, Miroirs, de nos défauts les peintres légitimes; Et quant au canal, c'est celui Que chacun sait, le livre des Maximes. (La Fontaine) * Bom dia! (url) 27.2.08
1236 - L'infinito
Sempre caro mi fu quest'ermo colle, E questa siepe, che da tanta parte Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude. Ma sedendo e mirando, interminati Spazi di là da quella, e sovrumani Silenzi, e profondissima quiete Io nel pensier mi fingo; ove per poco Il cor non si spaura. E come il vento Odo stormir tra queste piante, io quello Infinito silenzio a questa voce Vo comparando: e mi sovvien l'eterno, E le morte stagioni, e la presente E viva, e il suon di lei. Così tra questa Immensità s'annega il pensier mio: E il naufragar m'è dolce in questo mare. (Giacomo Leopardi) * Bom dia! (url) 26.2.08
NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE NESTES DIAS LENDO / VENDO / OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 25 de Fevereiro de 2008 (2) - sobre o debate Rajoy - Zapatero + comentários. NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (4) - o livro de Gordon e Trainor, sobre a invasão militar do Iraque. O LASER QUE PERSEGUIU RONALDO - o que valem as notícias do dia a dia + comentários. (url) (url) (url) 1235 - 1(a... (a leaf falls on loneliness) 1(a le af fa ll s) one l iness (e.e. cummings) * Bom dia! (url) 25.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 25 de Fevereiro de 2008 (2) O debate Zapatero - Rajoy transmite a dureza da vida política espanhola, mais radicalizada do que a portuguesa. Mas, no seu conjunto, mostra em ambos o esgotamento deste tipo de retórica política, deste teatro estudado ao milímetro, feito de acusações mútuas, que resulta cansativo e estéril. O que é que acontecia se aparecesse alguém a falar normalmente com dúvidas, reconhecendo erros, hesitações, com convicções mas sem tanta certeza, discutindo mais do que proclamando? Cada vez me parece mais que talvez, talvez, tivesse uma oportunidade. Não sei. talvez. * Estou absolutamente de acordo consigo quanto ao debate Zapatero - Rajoy e ao cansaço causado pelas certezas absolutas. Mas não estará você a cair em contradição com a sua própria atitude frequentemente pouco nuancée - veja por exemplo o que escreveu sobre Obama, a última entrada sobre o Insurgente ou a fobia do futebol. Não me entenda mal: eu acho muito bem que pense nas coisas e que escreva sobre elas e infelizmente há poucos por aí a fazê-lo com liberdade; acho é que também sofre dessa tendência de pintar a preto ou branco. (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (4)
A operação militar no Iraque foi uma forma moderna de blitzkrieg, executada por um número de forças bastante reduzido, mas dotado de enormes vantagens tácticas e estratégicas, a começar pelo controlo absoluto do ar e pela superior qualidade do armamento. A capacidade e determinação dos militares americanos debaixo de fogo, marines, forças especiais, soldados e oficiais, revelou-se em múltiplas ocasiões. Apesar de existir um plano estudado até ao mais pequeno pormenor, houve um grau considerável de iniciativa e de adaptação às circunstâncias imprevistas. Entre as páginas mais interessantes deste livro está a descrição do raid final até ao centro de Bagdade comandado pelo coronel David Perkins. A incursão era suposta ser exploratória, mas Perkins, actuando por sua iniciativa, transformou-a no momento da derrota iraquiana, quando resolveu ficar a noite num dos palácios de Saddam. Nessa altura, os americanos pensavam que ainda iriam ter a sua prova de fogo mais dura contra a Divisão Medina, que tinha sido ultrapassada na corrida a Bagdade, mas isso nunca aconteceu.A "velocidade" da máquina de guerra americana foi no entanto atrasada por formas pouco convencionais de guerra, entre a guerrilha e acções de guerra convencional, que se revelaram a seu modo eficazes e mostraram que havia grupos determinados e organizados para continuar a resistência, mesmo que o "centro" caísse. Não é no entanto líquido que, se a transição fosse melhor gerida, a "insurreição" do Baas e de alguns grupos sunitas não tivesse o sucesso que posteriormente veio a ter. O caos que se instalou quase de imediato com os saques generalizados mostrou as debilidades enormes da ocupação. Resultou de erros de julgamento sobre a possibilidade de manter a máquina do estado iraquiano a funcionar, associados à impossibilidade prática de controlar as cidades devido ao número muito pequeno de tropas, conforme a "economia de forças" defendida por Rumsfeld. Este estava convencido que as tropas americanas chegavam, viam e venciam e depois vinham-se embora. Nunca houve planos sérios para uma estadia muito superior aos seis meses, o que se veio a mostrar completamente irrealista. Alguns dos erros que hoje são evidentes, têm estado a ser, pouco a pouco, corrigidos, mas já num contexto muito mais hostil e com enormes dificuldades que podiam ter sido evitadas ou minimizadas. A melhoria das condições de segurança, ainda que ténue, parece consolidada, mas há ainda muito que fazer para "remendar" um país que Saddam quase destruiu, com colaboração dos erros e ilusões americanas. Mas a situação ainda é precária, pelo que não parecem ser outra coisa que demagogia as propostas de retirada de candidatos presidenciais como Hillary Clinton e Obama. Se o fizerem, os EUA sofrerão uma enorme derrota política no Iraque muito para além da vitória militar que obtiveram, com consequências gravosas para todo o mundo. Bush tem as suas responsabilidades, mas uma retirada unilateral imediata é do domínio do pesadelo para a segurança do mundo.
Etiquetas: Iraque (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 25 de Fevereiro de 2008 O Insurgente "ocupado" parece os Avantes falsos que a PIDE fazia. Parecia propaganda comunista e era propaganda anti-comunista. Este parece a mesma coisa: parece esquerdista mas é para ser anti-esquerdista. Só que é tão rudimentar, tão rudimentar, que é tão ineficaz como eram os Avantes, e mostra o mesmo primarismo de aproximação (não me venham dizer que tem graça, porque isto é tão óbvio que não tem graça nenhuma).Um exemplo da pseudo-linguagem revolucionária do "Insurgente (okupado)": Um exemplo semelhante num Avante falso, onde um pseudo-general Delgado explica como se converteu ao comunismo: Para isto não valia a pena terem dado cabo do Insurgente. (url) CAÇA ![]() E RECOLECÇÃO (2) Quando se escreve sobre história, mesmo muito recente, mapas, guias, roteiros, mapas de estradas, são muito úteis e evitam muita asneira na narrativa. Somo para a minha colecção este Guide et Plan de Lisbonne de dois jornalistas ilustres, Norberto de Araújo e António Soares, que não está datado, mas deve ser do final dos anos trinta, ou anos quarenta. Para se ver como era a zona das Amoreiras antes da ligação à autoestrada e das torres, fica aqui um fragmento do mapa. Depois vários livros "raros e curiosos", como se diz nos catálogos dos alfarrabistas. Dois vindos dos regimes ditatoriais, um sobre a ofensiva que a URSS e outros países conduziram contra a Espanha franquista (e também o Portugal de Salazar) na muito jovem ONU em 1946; outro, um conjunto de documentação da Itália fascista, destinada entre outras coisas a justificar a entrada da Itália em guerra contra a França em 1940. Vários para os meus trabalhos sobre a extrema-esquerda: O de Glucksman, anterior ao Maio de 1968, é um exercício filosófico sobre a "guerra revolucionária", que tenta enquadrar a revolução cubana e o "pensamento de Mao Zedong". Muito do tempo, como a Partisans, a revista fundamental para estes anos e estas situações. Tenho uma colecção incompleta, em grande parte porque era muito difícil obtê-la antes do 25 de Abril, e lá vou comprando número a número, quase sempre nos alfarrabistas estrangeiros. Este número 12 é muito interessante por ter um dos primeiros artigos maoístas europeus de autoria do belga Jacques Grippa. Ao lado está um livro-panfleto de Hill, ele também um dos primeiros maoístas, advogado de Victoria na Austrália, e fundador do PC da Austrália Marxista-Leninista. O PC Belga de Grippa e o PCA - ML de Hill foram casos de sucesso do muito jovem maoísmo, logo nos anos de 1963 e 1964. Por fim, Eldridge Cleaver, o Pantera Negra, candidato presidencial, revolucionário internacionalista que viveu na Argélia, violador de brancas, prisioneiro de delito comum, autor de Soul on Ice, um best-seller, consumidor de crack, desenhador de roupas, cristão born again, tudo o que se podia, devia e não devia ser. O livro Panthére Noir da Seuil é só sobre o revolucionário, mas já se percebe o tumulto interior do personagem. (Continua) (url) CAÇA ![]() E RECOLECÇÃO Resultados da actividade, um pouco por todo o lado, de caça e recolecção: um grupo de postais de Bernardino Machado enviados ao jornalista e publicista Carlos Portugal Ribeiro nos anos vinte. ![]() Um lote de números da revista Gil Vicente. Este número aqui reproduzido, o 21-24, Janeiro - Dezembro de 1985, tem um estudo de Manuel Gama sobre Sampaio Bruno e a divulgação do marxismo em Portugal. (Continua) (url) 1234 - L'approdo Felice l’uomo che ha raggiunto il porto,
Che lascia dietro di sè mari e tempeste, I cui sogni sono morti o mai nati, E siede a bere all’osteria di Brema, Presso al camino, ed ha buona pace. Felice l’uomo come una fiamma spenta, Felice l’uomo come sabbia d’estuario, Che ha deposto il carico e si è tersa la fronte, E riposa al margine del cammino. Non teme né spera né aspetta, Ma guarda fisso il sole che tramonta. (Primo Levi) * Bom dia! (url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() ![]() Barra de Aveiro ao fim da tarde. (José Manuel Figueiredo) Fim do dia sobre a Quarteira. (Ochoa) Mosteiro, Gondar, Amarante. (Helder Barros) Mar no Algarve. (Ochoa) ![]() Rio Sizandro. ![]() De manhã no Oeste. (Ana Ferreira) Burro à hora do almoço. (António Cabral) Algarve. (Ochoa) ![]() Sede do PSD em Setúbal. (Mário Simões) ![]() Porto da Figueira da Foz. (Pedro Pimentel) ![]() Cheias em Gotemburgo. Diga-se em abono da verdade que não havia muito a fazer. Vento de oeste a 100km/hora, com rajadas a 140, empurra a água do mar com uma força fenomenal. Como além disso a pressão atmosférica é muito baixa, "puxa" a água para cima. Em poucas horas, o nível médio do mar e do rio tinha subido quase um metro e meio. Mas havia um "alerta laranja", tanto para o vento como para a subida do nível da água, e toda a gente estava mais ou menos preparada. (Madalena Ferreira Åhman) (url) 24.2.08
O que é que é importante e o que é que é "espuma dos dias"? É um exercício perigoso e arriscado, não é bem futurologia, mas também não é apenas a mais segura análise do presente. O futuro é uma terra distante e o futuro tem muitas mãos a mexer-lhe. Por isso gente sensata não se põe a fazer de Maya ou Paulo Cardoso, nem de "mãe de santo", nem de general romano a mandar ler as entranhas de uma ave antes de uma batalha. Com o futuro tenho muito respeitinho, até porque tem o hábito de não andar por cá quando escrevemos sobre ele e depois chega quando não o esperamos. Tomem, pois, este exercício à conta de desespero noticioso. Por onde é que anda o futuro? Uso como minhas vísceras de ave, ou cristais, que é mais elegante, o Público de ontem, um jornal que, declarando-se de referência, já é suposto fazer uma selecção de assuntos em termos de importância, logo de futuro. Deito fora de imediato as páginas de desporto. Duvido que "dois minutos à Benfica resolvem jogo praticamente perdido" dure mais que um dia ou dois, para além do enigma que para mim é este "à Benfica". O "Basileia caiu com estrondo", "faltaram golos para poder sonhar", o "laser que perseguiu Ronaldo", "bom arranque de Pedro Figueiredo faz sonhar..." e vários "líder" nos títulos tenham futuro. Tem graça esta secção de desporto, parece a página de poesia, cheia de "sonho", ou será a página Lopes-Menezes cheia de "líder"? Não sei. Devem ser as duas: a poesia que eles lêem e o "sonho" que eles têm. Adiante. As páginas de economia estão dedicadas ao crime. BCP e "processo de fraude das falências" e a "fuga ao fisco que cria tensão entre a Alemanha e o Liechtenstein" são os destaques. Se fosse nos EUA, já teríamos visto os amáveis gestores a saírem das empresas de algemas. Na Europa, duvido. Futuro? O crime tem sempre futuro. O destaque do jornal também é dedicado à economia, ao crescimento da UE em 2008, uma análise macroeconómica dominada pelo medo da "estagflação", o fantasma que ensombra o mundo, diz o título, feito certamente de uma memória remota do início do Manifesto Comunista. Um pouco mais de futuro já tem a notícia sobre a Greenpeace ir ter uma "antena virtual" em Portugal. Sempre pensei que isto das "antenas" era com os serviços de informação, mas a Greenpeace parece que está preocupada com o facto de Portugal ser "o país europeu que mais peixe per capita consome: 50 quilos por ano". Bem tem que se preocupar, porque com a moda elegante do sushi que invadiu a turma lisboeta dos que seguem a moda, vamos ficar o Japão da Europa e tornar a dar trabalho aos baleeiros dos Açores. Preparem pois as armas para a guerra entre os amigos da pesca e os amigos do peixe. E eu que pensava que peixe era bom para a saúde. Deixei para o fim, a política nacional e a internacional, o "mundo" como se diz. Nós por cá todos bem, diz o poder, e todos mal, diz toda a gente que sobra. A SEDES escreve sobre o futuro: "Sente-se em Portugal "um mal-estar difuso", que "alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional". Este mal-estar e a "degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento". E se essa espiral descendente continuar, "emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever"." Ou seja, diz o mesmo que disse o general Garcia Leandro, sem as reminiscências do 28 de Maio e do 25 de Abril. Como todos sabem, eu faço parte da equipa dos pessimistas de quem o senhor primeiro-ministro falou com enorme enfado esta semana, por isso acho mesmo que há futuro nesta previsão. É por isso que os que dizem que a entrevista do primeiro-ministro foi um sucesso para ele, esquecem que, com este "mal-estar difuso", aquele tipo de discurso não só não cola como começa a ser contraproducente. Depois, o resto do noticiário nacional tem muito crime e pouco castigo. Há os episódios seguintes da "telenovela venezuelana" no PSD, várias disfunções, coisas que funcionam mal e deviam funcionar bem, uma eterna fonte de notícias em Portugal. Há também os habituais passos de dança da coreografia nacional entre as quais a benemérita passagem das discotecas a "associações" para nelas se poder fumar. De resto, nada de relevo, espuma. Só espreita por cima da espuma esta complacência que se tem com António Costa, a mesma que sempre envolveu os "meninos de ouro" putativos sucessores no PS, Vitorino e Costa. Costa está a conduzir mal o processo financeiro na CM de Lisboa, mas o mau da fita é agora o Tribunal de Contas, que impede a câmara de pagar aos fornecedores, baseando-se numa lei do próprio Costa, quando, noutra encarnação, verberava os autarcas devedores e lhes cortava a colecta. Por fim, chegamos ao futuro propriamente dito, ao "mundo", onde a selecção natural das notícias já nos garante alguma solidez. A começar pelo Kosovo, ilustrado com chamas. Os Balcãs são um perfeito exemplo de uma regra que convém não esquecer: onde há muito passado, há muito futuro. O vespeiro em que a UE se tem vindo a meter é um verdadeiro caso de estudo da inexistência de uma política externa europeia e da relação dessa ausência com a falta de expressão militar da União. Quem está a fazer a política para os Balcãs são os EUA, num dos casos exemplares em que uma política "europeia" teria sempre que ser diferente da americana. Mas como são os EUA que, desde a guerra da Bósnia, têm o músculo militar, por si e através da OTAN, que podem os europeus fazer diferente? Nada, balbuciam e dividem-se, com o directório a mandar. Por tudo isto ainda vamos ouvir falar muito desse protectorado dos EUA que é o Kosovo. E da UE como femme de ménage. Muito futuro, muito futuro, o recordista do futuro neste dia de jornal.A maioria da opinião pública e de muita da comunicação social (aqui o Público é excepção) permanece indiferente à política externa portuguesa quanto ao Kosovo. O mesmo se poderá dizer da indiferença com que o PS e o PSD tratam esta questão, ainda por cima numa zona onde há tropas portuguesas que foram para lá baseadas num mandato que afirmava que o Kosovo era parte da Sérvia... Quem é que quer saber disso para alguma coisa? Agora o que eu queria saber é que pressão está a fazer o directório europeu, França, Alemanha, Reino Unido, para que países como Portugal reconheçam o Kosovo? Porque estão de certeza a fazê-la e eu estou longe de considerar que o reconhecimento do Kosovo corresponda aos nossos interesses nacionais. Por muito que isso pareça contra-intuitivo em relação à nossa história, não é do interesse nacional qualquer coisa que ajude à fragmentação da Espanha.Muito futuro, tanto futuro quase como o Kosovo, é a destruição de um satélite perdido por um míssil disparado de um navio americano. Um teste real que qualquer militar desejaria fazer e que pelos vistos correu bem, mostrando que os EUA avançam na sua capacidade anti-satélites, uma vantagem estratégica fundamental. Os russos acusaram o toque, como é óbvio. De resto, Paquistão, Marrocos e Al-Qaeda continuam nas notícias, como era de esperar, vem do passado, estendem-se para o futuro. Mais "tempos interessantes" da maldição chinesa, a caminho por esses lados. Podemos agora pôr o futurómetro de lado. Pensando bem, o que é que é estranho nisto tudo? Há a história, como de costume, com a sua assinatura caótica que estamos sempre a querer ordenar a posteriori. Mas estranho, estranho, meus amigos e leitores, estranho é o presente em que vivemos, em que um "laser perseguiu Ronaldo". Aí está aquilo que nunca passou pela cabeça ao Deus da História, ao Professor Hegel, às Parcas, ao Destino Manifesto, seja lá ao que for. É por isso que o mundo nunca nos aborrece e é sempre interessante. (Versão do Público de 23 de Fevereiro de 2008.) * (...) Confesso, no entanto, que não entendi porque a UE vai ser a "femme de ménage" no Kososvo. A dúvida ou divergência não é de substância, é linguística. Escapa-me porque não utilizou você, a expressão mulher-a-dias e teve de se socorrer de duma expressão fracesa desnecessária. Cá para mim, complexo freudiano, de quem acha que os deputados no Parlamento Europeu em Bruxelas, podem e devem ter uma femme de ménage, talvez vinda da Sérvia, do Kosovo ou da Albânia; mas os intelectuais portugueses devem ser ele próprios a engraxar os seus próprios sapatos, e pôr as peúgas a lavar na máquina. Que é o que eu faço. (url) 22.2.08
(url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 22 de Fevereiro de 2008 Aleluia! Pela primeira vez vi aquilo que me parecia ir ser mais um momento-Chávez de Sócrates na RTP ser transformado numa pergunta a sério e respondida pela irritação e pela recusa mal-humorada de quem é perguntado. O Primeiro-ministro marca as cerimónias para aparecer em directo no telejornal, logo é suposto que lhe perguntem pela actualidade, neste caso o documento da SEDES, também em directo. Espero que não seja apenas um acaso, mas revele uma nova orientação editorial que só prestigiaria a televisão pública. Amen. (url) (url) 1233 - One Life of so much Consequence! One Life of so much Consequence! Yet I—for it—would pay— My Soul's entire income— In ceaseless—salary— One Pearl—to me—so signal— That I would instant dive— Although—I knew—to take it— Would cost me—just a life! The Sea is full—I know it! That—does not blur my Gem! It burns—distinct from all the row— Intact—in Diadem! The life is thick—I know it! Yet—not so dense a crowd— But Monarchs—are perceptible— Far down the dustiest Road! (Emily Dickinson) * Bom dia! (url) 21.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 21 de Fevereiro de 2008 Ninguém entrevista hoje na televisão como Mário Crespo, como se pode ver neste momento com Telmo Correia na SICN. (url) (url) 1232 - La conchiglia marina
O conchiglia marina, figlia della pietra e del mare biancheggiante, tu meravigli la mente dei fanciulli. (Salvatore Quasimodo) * Bom dia! (url) (url) 20.2.08
EXTERIORES: CORES DE HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver Lua no noite do eclipse no Funchal. (Carlos Oliveira) Crepúsculo em Setúbal. (Ochoa) Crepúsculo no Montijo. (António Cabral) ![]() Quinta da Granja frente ao C.C. Colombo. Benfica,Lisboa. (Pedro Gms) ![]() ![]() Miranda do Douro. (Pedro Bandeira) Tâmega junto de Amarante. (Gil Regueira) Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM) Nevoeiro em Setúbal. (Ochoa) Nevoeiro na Ponte. (Nuno Soares) Depois da chuva. (António Cabral) (url) 1231 - I Am The People, The Mob
I am the people--the mob--the crowd--the mass. Do you know that all the great work of the world is done through me? I am the workingman, the inventor, the maker of the world's food and clothes. I am the audience that witnesses history. The Napoleons come from me and the Lincolns. They die. And then I send forth more Napoleons and Lincolns. I am the seed ground. I am a prairie that will stand for much plowing. Terrible storms pass over me. I forget. The best of me is sucked out and wasted. I forget. Everything but Death comes to me and makes me work and give up what I have. And I forget. Sometimes I growl, shake myself and spatter a few red drops for history to remember. Then--I forget. When I, the People, learn to remember, when I, the People, use the lessons of yesterday and no longer forget who robbed me last year, who played me for a fool--then there will be no speaker in all the world say the name: "The People," with any fleck of a sneer in his voice or any far-off smile of derision. The mob--the crowd--the mass--will arrive then. (Carl Sandburg) * Bom dia! (url) 19.2.08
NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE NESTES DIAS "VAMOS A VER" (1) e (2) - fotografias e cartas de leitores de Loures sobre as cheias que o responsável da Protecção Civil dizia que não podia haver. NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITARVer 1 , 2 , 3. e continua. BOOMERANG - sobre o pedido de desculpas do PM australiano aos aborígenes+ comentários. (url) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 19 de Fevereiro de 2008 Alguém percebeu a "defesa" dos magistrados do DIAP do Porto? Alguém percebeu em que é que aquilo é "defesa"? * Hoje, o Eduardo Prado Coelho teria escrito sobre Alain Robbe-Grillet. * O "tabu" é uma tentativa de dar interesse e novidade a uma entrevista que não teve nenhum, nem interesse, nem novidade. Eu podia prescindir da novidade se houvesse interesse, mas nem isso. O Diário Económico pediu-me uma opinião sobre a entrevista do Primeiro-ministro à SIC: “Não teve pontos positivos nem negativos. Foi completamente desinteressante e reveladora do estilo agressivo e propagandístico do primeiro-ministro. Ou há contraditório ou não há interesse nestas entrevistas.” * Um típico rodriguinho dos jornalistas é a palavra "tabu". Já está por todo o lado nos relatos da entrevista de Sócrates (aqui e aqui), porque ele resolveu não dizer já que se vai recandidatar, por razões que se percebe serem puramente retóricas, para afirmar que o que lhe interessa agora "é governar e não pensar em eleições". Por favor, deixem lá de usar a palavra sempre que alguém não quer responder numa determinada altura a uma determinada questão, como se fosse verdadeiramente um segredo, ou uma dúvida ou um "tabu"... Alguém pensa que Sócrates não respondeu porque não vai recandidatar-se ou não sabe ainda o que vai fazer? Poupem-me. Um pouco mais de imaginação e menos de estereótipos não fazia mal.
(url) "VAMOS A VER" (2) foi o que eu disse ontem no programa da Maria Elisa sobre as cheias na RTP1 ao responsável da Protecção Civil de Loures, que assegurava que a construção de uma nova ponte em Loures tinha acabado com os problemas das cheias e me acusava de desconhecer a actual situação do concelho. Viu-se para infelicidade de muita gente em Loures. A chuva respondeu ao senhor responsável da Protecção Civil pelo que talvez seja bom que alguma explicação seja dada por quem tão bem conhece o concelho cuja segurança é suposto garantir. Já passou um dia sem que este responsável, que também é ou foi Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara, esclareça o que aconteceu e como pôde dizer o que disse. A correspondência e as informações que recebo de Loures contam uma longa história de incúria, indiferença e arrogância, tão bem retratadas nessa atitude. Mais fotografias e correspondência dos leitores sobre o que aconteceu em Loures, aqui. Rotunda da EN 8 com a EN 115 - Ao fundo, a famosa ponte. Imagem captada na altura em que se efectuava a limpeza da água, lama e dos lixo que atolaram a rotunda, as lojas, as casas, os terrenos agrícolas e as... Oficinas Municipais. * O testemunho que apresento prende-se, como facilmente se deduz pelo que acima escrevi, com a Câmara Municipal de Loures e com os últimos e trágicos acontecimentos que tive a infelicidade de poder ver com os meus próprios olhos. Também eu, como você e milhões de portugueses, tive a oportunidade de ver o senhor Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Loures e responsável máximo pelo Serviço Municipal de Protecção Civil, António Baldo, proferir aquelas palavras – pejadas de arrogância e desfaçatez – no programa “E Depois do Adeus”, de Maria Elisa. (...) Arrogância, prepotência, desprezo, indiferença perante o comum dos mortais, sobranceria face a todos os que o rodeiam. As suas palavras no dia de ontem mais não mostram que a sua verdadeira personalidade. (url) 1230 - Self-Portrait He wants to be a brutal old man, an aggressive old man, as dull, as brutal as the emptiness around him, He doesn’t want compromise, nor to be ever nice to anyone. Just mean, and final in his brutal, his total, rejection of it all. He tried the sweet, the gentle, the “oh, let’s hold hands together” and it was awful, dull, brutally inconsequential. Now he’ll stand on his own dwindling legs. His arms, his skin, shrink daily. And he loves, but hates equally. (Robert Creeley) * Bom dia! (url) 18.2.08
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (3)
Um dos aspectos a que a planificação operacional americana deu muita atenção foi a possibilidade de utilização pelos iraquianos de armas químicas ou biológicas na guerra. Os militares consideravam essa possibilidade muito a sério e, contrariamente às teses dos que afirmam que a administração Bush estava de forma deliberada a mentir sobre a sua existência, tudo aponta para que acreditavam de boa fé que os iraquianos as tinham. Em várias ocasiões, os recursos escassos do exército e das forças especiais tinham sido atribuídos a missões de controlo de locais que se considerava terem armamento químico e biológico, houve vários falsos alarmes, e os soldados tiveram que transportar, usar e às vezes combater, debaixo de condições muito difíceis, os seus fatos protectores.Aliás, conforme revela o livro, também os comandantes iraquianos estavam convencidos de que essas armas existiam e quando, em vésperas do conflito, Saddam os informou da sua inexistência, uns ficaram surpreendidos, outros continuaram a achar que ele as tinha escondidas, provavelmente sob comando de um pequeno grupo de fiéis dirigido pelos seus filhos, Uday e Qusay. No "Cobra II" não só o próprio desenvolvimento das operações tinha em conta a possibilidade de um ataque com armamento não convencional, como havia o convencimento que, à medida que as tropas dos EUA se aproximassem da linha "vermelha", inscrita no plano de defesa iraquiano, à volta de Bagdad, Saddam utilizaria esse armamento como último recurso. Os americanos tinham obtido, através de uma fonte iraquiana da CIA, esse plano de círculos concêntricos de linhas defensivas, uma das quais estava a vermelho. A interpretação do plano era errada, mas, em nenhum momento antes do conflito fora posta em causa a existência de tais armas pelos militares dos EUA, que se prepararam com cuidado para a hipótese de serem atacados com esse armamento pelos iraquianos. (Uma discussão sobre a interpretação da "linha vermelha" encontra-se no Anexo G (Chemical Warfare and the Defense of Baghdad) em DCI Special Advisor Report on Iraq's WMD, o relatório da CIA que analisa os erros cometidos na avaliação das armas de destruição massiva iraquianas.)(Continua) Etiquetas: Iraque (url) "VAMOS A VER" foi o que disse ontem no programa da Maria Elisa sobre as cheias na RTP1 ao responsável da Protecção Civil de Loures, que assegurava que a construção de uma nova ponte em Loures tinha acabado com os problemas das cheias e me acusava de desconhecer a actual situação do concelho. Hoje, a chuva respondeu ao senhor responsável da Protecção Civil originando uma situação calamitosa em Loures, pelo que talvez seja bom que alguma explicação seja dada por quem tão bem conhece o concelho cuja segurança é suposto garantir. Sobre os problemas de Loures e a atitude dos responsáveis municipais em 2007, veja-se aqui. Agradeço a todos os que estão a enviar informação sobre a situação em Loures. ![]() ![]() Cheias em Loures: rua Cesário Verde. (NB) (...) a realidade tristemente o comprova, basta aceder à zona da entrada do parque de Loures, onde se encontra por acabar uma rotunda. Esta zona que foi durante anos, afectada por cheias sempre que a intensidade das chuvas era um pouco maior, parecia ter a sua situação controlada, até que aproximadamente nos últimos 3 anos o problema regressou. Só não aconteceu antes nada como hoje, pois nos últimos anos a época de chuvas tem sido bem mais suave, mas a zona em causa já indiciava que voltaria a ser palco de cheias. (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 18 de Fevereiro de 2008 (2) Finalmente, ao fim de meio dia e de várias chamadas de atenção, esta notícia do Expresso foi corrigida. Onde estava "O ministro da Defesa espanhol, José António Alonso, rejeitou hoje comparações entre a independência do Kosovo e aspirações de forças em algumas regiões espanholas, afirmando que a situação na zona báltica "nada tem a ver com a realidade espanhola"." está agora correctamente "O ministro da Defesa espanhol, José António Alonso, rejeitou hoje comparações entre a independência do Kosovo e aspirações de forças em algumas regiões espanholas, afirmando que a situação na zona dos Balcãs "nada tem a ver com a realidade espanhola". Demorou. (url) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 18 de Fevereiro de 2008 Ontem no novo programa da Maria Elisa na RTP1 discutiu-se a questão das cheias a partir do aniversário da tragédia de 1967. Houve vários exemplos de más práticas no concelho de Loures, incluindo as construções na Quinta do Infantado, e a localização do parque de máquinas dos Serviços Municipais. Com bastante arrogância o responsável da Protecção Civil de Loures garantiu que, depois da construção da nova ponte, tudo estava resolvido quanto às cheias. Hoje, a chuva em Loures respondeu ao senhor responsável da Protecção Civil originando uma situação calamitosa no concelho. Para se perceber melhor pedia aos leitores do Abrupto em Loures que me enviassem informação e fotografias sobre a situação. Numa manifestação de falta de respeito pelos leitores, esta notícia no Expresso continua a confundir os Balcãs com o Báltico, apesar de aqui e vários leitores do jornal em linha terem pedido a rectificação: "O ministro da Defesa espanhol, José António Alonso, rejeitou hoje comparações entre a independência do Kosovo e aspirações de forças em algumas regiões espanholas, afirmando que a situação na zona báltica "nada tem a ver com a realidade espanhola"." (url) (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (2)
O plano de operações para a guerra do Iraque foi resultado de opções políticas essencialmente tomadas por Rumsfeld, aplicadas pelo general Tommy Franks, e que implicavam uma nova concepção da aplicação do poder militar, a que o Secretário da Defesa gostava de chamar de "economia de forças". Rumsfeld era muito crítico da forma como os EUA tinham actuado na Guerra do Golfo e no conflito nos Balcãs. Essa crítica atingia todos os que tinham estado envolvidos nessas operações, a começar pela administração Clinton e a acabar nos diplomatas chefiados por Colin Powell. Rumsfeld discordava da lentidão no acumular de forças, tornada inevitável pelo número de militares e meios envolvidos, que entendia excessivos e dos processos de "nation bulding" nos quais se entrava e depois não se conseguia sair, como nos Balcãs. Opunha aquilo que achava ser uma "revolução" no Pentágono: em vez de uma enorme concentração militar, que demorava meses a juntar, queria forças pequenas, rápidas, móveis, com utilização predominante de tropas especiais, apoiadas em armamento tecnologicamente avançado. Inteligente, muito capaz, meticuloso, persistente, autoritário, querendo controlar tudo ao mais ínfimo detalhe, afastando liminarmente quem se lhe opunha, Rumsfeld queria aplicar os seus novos conceitos à guerra no Iraque contra tudo e contra todos. Muitos chefes militares se opuseram e muitos mais fizeram avisos sobre as consequências das opções da "economia de forças", em particular, a exiguidade dessas forças não só para as operações da guerra, como para a ocupação posterior do Iraque, para a paz. Uns foram afastados, como representantes de uma corporação conservadora, que estava habituada a apenas contar com a força bruta do poder bélico massivo e não entendia as novas condições da guerra, outros não foram ouvidos ou só foram ouvidos quando a realidade não admitia escapatória.O resultado da "economia de forças" foi inconclusivo no plano militar, - nem tudo funcionou mal e muitos aspectos do plano militar, em particular a fluidez muito rápida das forças terrestres, apanhou Saddam de surpresa porque estava à espera de um lento acumular de unidades e logística nas suas fronteiras, o que não sucedeu - , mas foi desastroso no plano político e depois também no militar, quando houve que defrontar a deterioração da situação de segurança posterior à vitória. (Continua) Etiquetas: Iraque (url) (url) 1229 - Winter Trees All the complicated details of the attiring and the disattiring are completed! A liquid moon moves gently among the long branches. Thus having prepared their buds against a sure winter the wise trees stand sleeping in the cold. (William Carlos Williams) * Bom dia! (url) 17.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 17 de Fevereiro de 2008 Leio isto com espanto no Expresso: "O ministro da Defesa espanhol, José António Alonso, rejeitou hoje comparações entre a independência do Kosovo e aspirações de forças em algumas regiões espanholas, afirmando que a situação na zona báltica "nada tem a ver com a realidade espanhola"."Zona báltica? De quem é a asneira de confundir os Balcãs com os países bálticos? ADENDA: esta nota é das 18.00, às 22.15 continua o erro. (url) NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A GUERRA DO IRAQUE COMO OPERAÇÃO MILITAR (1)
Michael R. Gordon / Bernard E. Trainor, Cobra II: The Inside Story of the Invasion and Occupation of Iraq , Nova Iorque, Pantheon Books, 2006Este é o melhor livro que li sobre a guerra do Iraque, e duvido que haja melhor sobre a componente militar da guerra: o plano final de operações intitulado "Cobra II" e a sua execução. Pela descrição em dois tempos, o da preparação do plano, e a guerra propriamente dita até à ocupação de Bagdad, percebe-se até que ponto as forças armadas americanas são o único exército moderno existente no mundo, dotado de uma capacidade operacional sem paralelo e, depois do Iraque, de uma experiência de combate total. A começar pelas "botas no chão"e a acabar nas formas mais sofisticadas de guerra aérea, nenhum exército se lhe pode comparar. A guerra iraquiana não foi um passeio e os americanos defrontaram problemas novos, imprevistos e mesmo surpreendentes (como as tácticas anti-aéreas low tech usadas pelos iraquianos, após estudarem a experiência da guerra do Golfo, contra os helicópteros americanos), mas no essencial a performance militar das forças americanas, blindados, marines, forças especiais, engenharia e logística, revelou um elevado profissionalismo, determinação e coragem, tudo factores que nenhum exercício virtual pode revelar, mas apenas o combate real. O grande falhanço foi o das informações, em particular as da CIA, mas também as informações militares. Do lado iraquiano, enquanto as grandes unidades convencionais do exército regular e da Guarda Republicana se dissolveram quase sem lutar, as forças não convencionais, os Fedayen, mostraram também uma capacidade de resistência que surpreendeu os americanos e não raras vezes os obrigou a mudar de planos. (Continua) Etiquetas: Iraque (url) (url) (url)
A cena do pedido de perdão do primeiro-ministro australiano Rudd aos aborígenes provocou a habitual satisfação politicamente correcta por este tipo de actos. Rudd pediu desculpa pelas "leis e políticas de sucessivos Parlamentos e governos que causaram profunda dor, sofrimento e perdas aos nossos companheiros australianos (fellow australians)" e salientou em particular a política de retirar à força os filhos e filhas de casamentos mistos aos aborígenes, que viriam a constituir as Gerações Perdidas (Stolen Generations). Tal política infligiu "indignidades e degradação a um povo orgulhoso e a uma cultura orgulhosa".
(Esta afirmação é reveladora. O que é uma "cultura orgulhosa"? Duvido que exista na cultura aborígene sequer tal conceito, típico da forma moderna do discurso paternalista "multicultural". )Acabou desejando que com este pedido de desculpas se abrisse caminho a um futuro que unisse "todos os australianos, indígenas ou não indígenas", separados hoje por grandes diferenças de "esperança de vida, oportunidades económicas e resultados educacionais", como "parceiros iguais" para moldar este "grande país, a Austrália". A declaração foi negociada ao milímetro com dirigentes da comunidade aborígene e provocou cenas de choro, emoção e festa em vários sítios da Austrália. Parece que muitos aborígenes a consideram mesmo assim insuficiente e, por detrás da declaração, arrasta-se uma enorme discussão sobre as reparações económicas e financeiras que são devidas aos aborígenes, os homens e mulheres que vivem em piores condições na Austrália. Sobre os direitos humanos violados e a desigualdade social dos aborígenes ver os documentos da Human Rights and Equal Opportunities Comission , em particular o relatório Bringing them Home, que esteve na origem da percepção pública sobre as Stolen Generations. Seja qual for a dimensão da "culpa", mesmo o actual governo australiano não está disposto a fazer compensações às crianças, hoje adultos, "roubados". Isto significa que a maioria "branca" dos australianos, os descendentes dos colonizadores, não estão dispostos a diminuir o seu bem estar para saldar as "culpas" da sua atitude.O cerne da declaração tinha a ver com as Stolen Generations, uma política iniciada em 1860 e que durou cerca de 100 anos até ao fim da década de sessenta do século XX. O objectivo era retirar as crianças de origem mista, quase sempre com pai branco e mãe aborígene, que as comunidades originais recusavam e abandonavam e levá-las para orfanatos e instituições do Estado e religiosas com o fim de as educar fora da sua cultura original, mas também de as proteger dos abusos de que eram vítimas ou, pura e simplesmente, recolhê-las porque eram abandonadas. Cerca de 100.000 crianças teriam conhecido este destino, mas os números são muito contestados. Toda a questão é muito controversa na Austrália, incluindo um debate sobre números, percentagens, relevância e significado da política, que atravessa também as linhas de fractura político-partidárias. Nalgum desse debate não é difícil reconhecer quer variantes do "negacionismo", quer do "politicamente correcto", na interpretação dos factos, valorizando ou negando a sua dimensão e significado. E o pedido de desculpas actual tem também a ver com a viragem política ocorrida nas últimas eleições que deram a vitória a um trabalhista, Rudd, contra um conservador, John Howard. O governo Howard sempre se recusou a fazer um pedido formal de desculpas considerando que a actual geração de australianos não devia pagar o preço pelos "erros da geração anterior", embora vários estados já tivessem feito pedidos de desculpa sem a dimensão nacional do que ocorreu na semana passada. O que aconteceu na Austrália não é muito diferente dos múltiplos pedidos de desculpa que têm proliferado nos últimos anos, em particular na Europa, pela expulsão dos judeus (Portugal também fez), do pedido de desculpas do Papa anterior, quer aos judeus, quer aos ortodoxos, pela conquista e saque de Constantinopla, repetido aliás pelo Papa actual, e dos pedidos de desculpa exigidos por várias comunidades como os arménios face aos turcos, os povos indígenas americanos ao Governo dos EUA, e os coreanos face às violências japonesas. Estes pedidos de desculpa são uma atitude política e cultural moderna, sem precedente no passado, na qual confluem muitas influências. Falando do "arrependimento", o Papa João Paulo II referiu um conceito judaico, o de teshuva, como estando na base destes pedidos de perdão. Os judeus, sujeitos a uma exterminação de proporções bíblicas, o Holocausto, mostraram-se sempre muito sensíveis a esta relação de culpa, aliás um elemento muito importante que o judaísmo trouxe à modernidade e que impregnou a cultura ocidental. Durante muito tempo, a exigência da admissão da culpa, de arrependimento e da sua proclamação pública fazia-se em relação aos "injustos" que tinham perseguido os judeus, os nazis e a Alemanha, e a todos os anti-semitas. Pouco a pouco, o clima do pós-guerra europeu e em particular do "olimpianismo" dominante desde o fim da Guerra Fria tornaram aquilo que era uma reivindicação judaica, que só tinha paralelo na exigência do reconhecimento do genocídio arménio pelos turcos, se tornasse um ritual público muito comum nos governos à esquerda. Não se conhecem pedidos de desculpa, por exemplo, pelo Gulag, nem pelas purgas soviéticas que atingiram milhões de pessoas durante mais de trinta anos. Existe uma diferença entre o discurso de carácter religioso e o político e o papel do "arrependimento" e do "perdão" num e noutro não é o mesmo. Mas, na nossa tradição cultural, eles comunicam mesmo nas sociedades laicizadas da Europa (nos EUA a densidade de relações entre o discurso político e religioso é muito maior). Os dois últimos Papas, o anterior e o actual, não têm dificuldade nenhuma em mover-se numa tradição comum entre o judaísmo e o cristianismo: Olhando para o futuro das relações entre judeus e cristãos, em primeiro lugar pedimos aos nossos irmãos e irmãs católicos que renovem a consciência das raízes judaicas da sua fé. Pedimos-lhes que recordem que Jesus era um descendente de David; que do povo hebraico nasceram a Virgem Maria e os Apóstolos; que a Igreja haure sustento das raízes daquela boa oliveira na qual foram enxertados os ramos da oliveira selvática dos gentios (cf. Rm 11, 17-24); que os judeus são os nossos caros e amados irmãos, e que, num certo sentido, são verdadeiramente «os nossos irmãos maiores» (Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, Nós Recordamos: Uma Reflexão sobre o Shoah, 16 de Março 1998) mas, mesmo assim, sentiram a necessidade de justificar o regresso ao passado do Shoah, entendendo que a "história" é memoria futuri . Daí a valorização do teshuva num contexto histórico teleológico, semelhante ele também à tradição do judaísmo, que percebe a história como destino, como sentido. A política nas democracias não pode ser teleológica, a não ser no sentido do "bem comum", e por isso deve resistir a uma impregnação religiosa. Parte do poder psicológico do "pedido de desculpas" de Rudd vem do seu sentido religioso mediatizado num ritual.Os pressupostos dessa atitude têm também na Europa muito a ver com o fim do mundo colonial e com a culpa que o "homem branco" teria na colonização. A culpabilização do colonialismo acompanhou uma nova sensibilização "multicultural", que tende a considerar de forma relativista o valor de todas as culturas e civilizações em nome do abandono de uma visão eurocêntrica do mundo. O racismo, o sentimento de superioridade branca e o correlativo menosprezo pelas culturas não europeias, em particular aquelas que não se tinham constituído em civilizações, como acontecia em África ou pior ainda, as que se considerava estarem no limiar da idade da pedra, como acontecia com as tribos da Amazónia ou os aborígenes australianos, levaram a enormes violências e a atitudes que hoje seriam entendidas como um crime. E bem. Estes fenómenos culturais foram muitas vezes o instrumento para a chacina das populações locais, principalmente quando estas se encontravam na posse de terras, bens, recursos minerais, florestas, valiosos para os colonizadores externos ou internos. Os índios do Brasil e as tribos da Amazónia foram sujeitos a múltiplas violências, só para citar exemplos recentes. Mas, quando saímos da actualidade e vamos para a História as coisas são bastante mais complexas. A ideia da "missão do homem branco", a ideia de que ao colonizador branco estava assacada uma missão divina de "civilizar" os povos "atrasados", tiveram como resultado práticas que hoje consideramos racistas e cruéis, como foi o caso da política australiana de "roubo" de crianças que "perdeu" gerações de aborígenes. Mas elas eram feitas muitas vezes com as melhores das intenções, em nome daquilo que se pensava ser o bem-estar e dignidade das crianças, que seriam rejeitadas pelos aborígenes. A ideia de "civilizar", a bem ou à força, implicava também obrigações e sentido de missão que levaram muitos homens e mulheres a viverem vidas difíceis e perigosas apenas para melhorar as condições de vida daqueles que, ou queriam converter à sua religião e num certo sentido "salvar", ou a quem queriam dar condições mínimas de vida, alimentação, cuidados médicos, educação, como seres humanos que tinham direito à dignidade da vida. Foi esse, por exemplo, o papel das missões religiosas, elas próprias também um produto do colonialismo. Por estranho e irónico que pareça, o pedido de desculpas é também uma típica atitude "branca" e ocidental, que não conhece paralelo noutras civilizações, a que não é alheia uma tradição humanista, que se poderia saudar se não contivesse elementos perigosos para os próprios valores que a sustentam. O "multiculturalismo", com o seu forte relativismo cultural, é cada vez mais difícil de compatibilizar com o adquirido civilizacional ocidental. Os valores que consideramos universais, em particular os direitos humanos, são postos em causa pelo relativismo "multicultural", que tende a desvalorizar a universalidade desses conceitos e a substituí-los por "interpretações" culturais que os põem em causa. As declarações do arcebispo de Cantuária sobre a aceitabilidade da sharia são um exemplo do caminho a que o "multiculturalismo" leva e, se tomarmos à letra o significado profundo destes pedidos de perdão pela História, ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como "cruzados", logo um alvo a abater pelo novo Saladino. E porque não, se nos consideramos culpados de tudo o que aconteceu na História desde que somos o que somos? Há certas ideias que funcionam como o boomerang, a gente atira-as convencidos das nossas melhores intenções e elas voltam para nos bater na cabeça.(Versão do Público de 16 de Fevereiro de 2008) * O seu artigo sintetiza muito bem as virtualidades e os defeitos destes rituais de desculpabilização, mas creio que não valoriza suficientemente o ponto de vista dos "ofendidos". Principalmente quando ainda são vivas pessoas que directa ou indirectamente foram afectadas pelos acontecimentos, como é o caso australiano. (url) 1228 - All that's Past
Very old are the woods; And the buds that break Out of the brier's boughs, When March winds wake, So old with their beauty are-- Oh, no man knows Through what wild centuries Roves back the rose. Very old are the brooks; And the rills that rise Where snow sleeps cold beneath The azure skies Sing such a history Of come and gone, Their every drop is as wise As Solomon. Very old are we men; Our dreams are tales Told in dim Eden By Eve's nightingales; We wake and whisper awhile, But, the day gone by, Silence and sleep like fields Of amaranth lie. (Walter De La Mare) * Bom dia! (url) 16.2.08
EXTERIORES: CORES DE HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() A Lua em Sul. (José Manuel Figueiredo) ![]() Canal Griboedov, S. Petersburgo. ![]() Pequena esquadra da Polícia na estação de metro Sennaya Ploshad. (João Tiago Santos) ![]() A sede do PSD no Bairro Salgado, Setúbal. A foto com a legenda "A sede do PSD no Bairro Salgado, Setúbal.", não corresponde à sede do psd. o psd fica na mesma rua, mas um quarteirão mais abaixo e no lado esquerdo da rua, enquanto que esta casa que aparece na foto é sensivelmente no ínicio da rua e do lado direito.(a não ser que haja por aqui alguma ironia...) Polícia na noite. (Ochoa) (url) 1227 - Thanatos Athanatos
Edovremo dunque negarti, Dio dei tumori, Dio del fiore vivo, e cominciare con un no all'oscura pietra «io sono», e consentire alla morte e su ogni tomba scrivere la sola nostra certezza: «thànatos athànatos»? Senza un nome che ricordi i sogni le lacrime i furori di quest'uomo sconfitto da domande ancora aperte? Il nostro dialogo muta; diventa ora possibile l'assurdo. Là oltre il fumo di nebbia, dentro gli alberi vigila la potenza delle foglie, vero è il fiume che preme sulle rive. La vita non è sogno. Vero l'uomo e il suo pianto geloso del silenzio. Dio del silenzio, apri la solitudine. (Salvatore Quasimodo) * Bom dia! (url) 15.2.08
Comecei a ir à Leitura ainda se chamava Divulgação. Há muito tempo. Lembro-me de ver lá Sá Carneiro que tinha escritório perto. Lembro-me da Leitura pequena e da Leitura grande e da do meio, com os livros empilhados na escada que subia ao andar de cima, sem espaço. Lembro-me da Leitura de Fernando Fernandes. Quando a Leitura ganhou dimensão e espaço escrevi um texto que está aqui. Depois começaram os sinais imperceptíveis da decadência, sempre os mesmos livros, falta de renovação, rigidez nas estantes. A gente que habita livrarias percebe logo o que se está passar. Na última vez que lá tinha estado a senhora do balcão tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que ia acontecer. O ciclo de vendas sucessivas começara e ninguém sabia o que ia acontecer. Estive lá hoje e fiquei contente. A Leitura não é a mesma, percebe-se que mudou a mão. Mas, as livrarias são os livros que têm, e na Leitura de hoje encontrei coisas que nunca tinha visto numa livraria portuguesa. Por exemplo, dez ou doze volumes das grandes obras teológicas de Urs von Balthasar, traduzidas para espanhol. Para mim basta para perceber que a Leitura ainda é a Leitura. São os livros, Senhor. Só os livros a fazem durar. * Porque segui o seu post e comprei livros on line na Leitura estive um ano e dois meses (sic) à espera de alguns. Chegaram hoje (sexta-feira) os 4 últimos e agora deparo-me com o seu post... Nem imagina as pragas que roguei ao autor da sugestão. NOTA: a mim aconteceu-me o mesmo com livros encomendados na própria Livraria e que também só chegaram agora. O problema, disseram-me, teve a ver com a crise da Livraria no ano passado, que a levou quase à extinção, e que parecem estar ultrapassados. Oxalá. (url)
A palavra “estupor” tornou-se um insulto e, mesmo como insulto, está a cair em desuso face a outros mais brutos, humilhantes e eficazes. Mas “estupor” é uma palavra com uma velha história médica. Significa uma forte diminuição das funções intelectuais, acompanhada de uma espécie de catatonia física. Até vem na Wikipedia. Os tratados médicos dizem-nos que o indivíduo em estado de estupor pensa que está bem, lá por dentro pensa numas coisas dispersas, mas não tem consciência da sua desconexão com o mundo exterior e “repete movimentos estereotipados”. O “estado de estupor” está algures entre o “estado onírico” e o “estado de delírio”, e não é certamente bom para a saúde. Infelizmente é como o PSD está, em estado de estupor.
Já repararam que, na maioria das questões, o PSD não toma posição, não toma posição a tempo, promete tomar e depois esquece-se de tomar posição, ou qualquer destas três variantes? Nuns casos, parece que está à espera para ver o que dizem os jornais no dia seguinte. Noutros, os múltiplos comités de assessores, agências e sábios convidados para photo opportunities, ou não tem nada para dizer ou então estão à espera de ver o que os outros dizem para reagir, ou, como concordam com o governo, ou porque é matéria espinhosa, ficam calados e aconselham silêncio. A teoria do “estado de estupor” vigente no partido é que “é preciso não se cometer asneiras” e por isso fica-se calado a ver se se foge pelos interstícios dos telejornais, aparecendo porque é bom para os barómetros que são “apareçómetros”, mas sem se dizer nada. Claro que depois, de repente, há uns movimentos desconexos, também típicos do “estado de estupor”, com consequências desastrosas, que só reforçam os conselheiros da teoria catatónica como política, mais vale estar calado, a ver se o engenheiro se despenha por si. O “estado de estupor” do PSD, o silêncio do PSD como partido de oposição é um dos factores mais perturbadores da vida política nacional. Etiquetas: PSD (url) 14.2.08
(url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 14 de Fevereiro de 2008 Sobre o "meio". Vale a pena ler o despacho de arquivamento do caso Bexiga que está disponível no Público, em anexo. Ler com todos os olhos, os sociais, os políticos, os do direito, os da investigação policial, e os do bom senso. Está lá quase tudo. E está o "ponto axiológico para que tende o inquérito": "(...) o seu encerramento, com decisão de mérito, vinculada ao juízo sobre a suficiência de indícios. * Já agora depois de pedir perdão aos aborígenes, "our fellow australians", só falta perguntar-lhes se eles querem ser australianos. Dado o tom do pedido de perdão, tem todo o sentido pôr em causa a colonização branca da Austrália. Nunca lhes foi pedida autorização, nem licença, pelo uso das terras, não é? O país era deles há 25000 anos, os brancos são na verdade guest workers, ainda por cima indesejados porque vinham degradados, fugidos, presos. Isto de pedir desculpas pela história não tem pés nem cabeça, porque os pedidos de desculpa acabam por ser sempre selectivos. Nós, por exemplo, já pedimos desculpa por expulsar os judeus e ainda não pedimos desculpa por expulsar os árabes. Pode ser que o Bin Laden nos obrigue.* Omissio veri, suggestio falsi. João Miranda no Blasfémias: "Sócrates escolhe as palavras sempre que fala deste tema. Diz “assumo a autoria”, não diz “fui eu que fiz”. Diz “os projectos que assinei são da minha responsabilidade”, mas não diz “os projectos que assinei foram feitos por mim”.É exactamente o mesmo do "I did not have sexual relations with that woman, Miss Lewinsky". * A ler os jornais australianos para tentar saber o que se passa em Timor, encontram-se outras notícias. Morreu Smoky Dawson, o cantor cowboy local. Aqui fica o velho Smoky a cantar. (url) 1226 - Against Winter The truth is dark under your eyelids. What are you going to do about it? The birds are silent; there's no one to ask. All day long you'll squint at the gray sky. When the wind blows you'll shiver like straw. A meek little lamb you grew your wool Till they came after you with huge shears. Flies hovered over open mouth, Then they, too, flew off like the leaves, The bare branches reached after them in vain. Winter coming. Like the last heroic soldier Of a defeated army, you'll stay at your post, Head bared to the first snow flake. Till a neighbor comes to yell at you, You're crazier than the weather, Charlie. (Charles Simic) * Bom dia! (url) 13.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 13 de Fevereiro de 2008 Isto está de cortar à faca. É um pouco inevitável com a conjugação de três coisas em sequência: um pano de fundo de crise económica e social grave, que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, e, como na política não há alternativas, tudo desagua num ambiente pastoso, irritado e sem esperança. Hoje, num supermercado, um homem disse-me: "vai haver uma explosão". Sei lá, alguma coisa vai haver. Não menosprezem os sinais. * Será que a situação do país é tão desesperada como pretende fazer crer? Não será que o Senhor com o seu pessimismo descontrolado não é um dos responsáveis? Deveria tentar reflectir um pouco sobre as suas verdades, talvez não sejam tão absolutas como pretende fazer crer. Não tem nenhum sentimento de culpa por ter um discurso que é claramente alarmista e exagerado? O Senhor fala em crise económica e social, mas será que sabe do que fala? Tenho sérias dúvidas. (url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() Noite em Vouzela. (José Manuel Figueiredo) Justiça ao fundo. (António Cabral) Pôr-do-Sol em Setúbal. (Ochoa) ![]() À saída de um dos refeitórios, Universidade de Tóquio. Saindo da cantina ele faz-se à neve sem medo. Qui audet adipiscitur. (Antonio Rebordão) Casa dos Bicos. (António Cabral) Saída da escola. Skate. (Ochoa) Espantalho em horta biológica. (António Cabral) Gatão. Tâmega em Amarante. (Helder Barros) (url) 12.2.08
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: PEDIDOS DO FISCO ![]() Email recebido hoje na empresa. Tradução: como nas nossas repartições o atendimento não é célere, é melhor vocês porem os computadores da empresa a trabalharem para nós… Tudo isto para o vosso benefício pois terão elevados ganhos de produtividade. Por favor tenham pena de nós. Recepcionar 4,5 milhões de declarações é uma chatice! Um dia destes vão pedir-me que disponibilize um automóvel e respectivo motorista para transportar um qualquer funcionário do fisco às nossas instalações e fiscalizar a empresa. (Sublinhados meus.) (JC) Ex.mos Senhores ..........., Contribuinte nº ---------, Como certamente será do conhecimento de V. Ex.as, encontra-se a decorrer o prazo para a entrega da declaração de rendimentos de IRS Modelo 3. A Direcção-Geral dos Impostos disponibiliza, há já vários anos, no seu site das "Declarações Electrónicas", em http://www.e-financas.gov.pt, a possibilidade de os sujeitos passivos de IRS procederem à entrega de tais declarações via Internet, com benefícios vários, designadamente o menor dispêndio de tempo no cumprimento desta obrigação. De facto, certamente que V. Ex.as não desconhecerão os significativos ganhos de produtividade decorrentes da não deslocação dos vossos colaboradores aos Serviços de Finanças, para efeitos da entrega das suas declarações de rendimentos, onde nem sempre se consegue assegurar um atendimento célere, particularmente em épocas de maior afluência de contribuintes a estes serviços, como é o caso do período em que são recepcionadas mais de 4,5 Milhões de declarações de IRS. Deste modo, e atendendo a que nem todos os sujeitos passivos de IRS terão ainda acesso aos equipamentos informáticos indispensáveis à concretização da opção pelo envio da declaração pela Internet nas suas residências, tal como aconteceu no ano passado, muito gostaria de poder mais uma vez contar com a vossa colaboração, permitindo o uso dos referidos equipamentos aos vossos colaboradores, para efeitos da entrega, por essa via, das respectivas declarações de IRS. Agradeço a colaboração prestada por V. Ex.as e apresento os melhores cumprimentos, O Director-Geral, José António de Azevedo Pereira * Devo dizer que não vejo problema nenhum no pedido da DGCI, antes pelo contrário, mostra boa-educação. Se os cidadãos/empresas não colaborarem com o Estado, quem o vai fazer? Faz algum sentido estar a dimensionar os serviços de atendimento da DGCI para aguentar um enorme pico de solicitações nesta altura, sendo no resto do ano o volume de trabalho é muito menor? Qual o inconveniente, concretamente, para as empresas? (url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver Manhã em Setúbal. (Ochoa) Alameda de Sta. Quitéria, Felgueiras, ao anoitecer. (Sérgio Martins) Fim da tarde no campo. (RM) Fim de tarde, na região de Apenzeller, na Suíça . (Marcelo Correia) Acessos à Ponte Vasco da Gama. Bugio. (António Cabral) ![]() Cargueiro à vista, 10 milhas sul de Vila Franca do Campo, Açores. (Nuno Pimentel) Café do PS, em Valadares, V.N.Gaia. (Filipe António) Douro. (Gil Regueiro) ![]() Caminhos de S. Petersburgo. (João Tiago Santos) ![]() Caminho em Regoufe. (José Manuel Figueiredo) Na Maia. (Luis Vidal) (url) 1225 - A Book Full of Pictures Father studied theology through the mail And this was exam time. Mother knitted. I sat quietly with a book Full of pictures. Night fell. My hands grew cold touching the faces Of dead kings and queens. There was a black raincoat in the upstairs bedroom Swaying from the ceiling, But what was it doing there? Mother's long needles made quick crosses. They were black Like the inside of my head just then. The pages I turned sounded like wings. "The soul is a bird," he once said. In my book full of pictures A battle raged: lances and swords Made a kind of wintry forest With my heart spiked and bleeding in its branches. (Charles Simic) * Bom dia! (url) 11.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 11 de Fevereiro de 2008 (No Prós e Contras) No meio da discussão, Hespanha teve um pequeno lapso de memória e esqueceu-se da autoria dos Buddenbrooks de Thomas Mann, que citou. Ficou em silêncio e faltou-lhe o nome, como nos acontece a todos, e uma sala inteira, com alguma da nossa mais alta elite jurídica, pura e simplesmente não sabia completar-lhe a frase com o nome do autor. Foi já na frase seguinte, após aqueles segundos de incomodado silêncio, que Hespanha se lembrou e continuou. Eu ainda me espanto com isto, mas deve ser defeito e certamente um sinal da minha arrogância... * Não assisti, mas escrevo-lhe para lhe comunicar que também compartilho o seu espanto sobre o silêncio de uma sala preenchida com a nossa mais prestigiada elite jurídica quando se levanta uma questão a respeito da autoria dos Buddenbrooks. Simpaticamente, sempre é possível especular que parte daquele silêncio fosse gerado por causas diferentes à da ignorância: desde a inércia de quem, sabendo, não estivesse para se esforçar a pensar, a quem não tivesse a certeza, até quem não se dispusesse, por antipatia, a auxiliar António Hespanha, que sofrera o lapso… * Era mesmo o que fazia falta: um debate absolutamente confuso, inútil, impotente e às vezes patético no Prós e Contras sobre "justiça". * Será que ouvi bem o PGR dizer, a propósito do "Apito Dourado", que a mera existência do processo, seja qual for o resultado, é já "positiva" e já "teve resultados"? Isto é completamente absurdo sob todos os pontos de vista e péssimo para o ambiente que já se vive em Portugal. Primeiro, porque podemos passar a ter processos desencadeados com intenção exemplar, funcionando para culpabilizar alguém junto da opinião pública, mesmo sem decisão judicial de culpa, apenas porque o Ministério Público tem uma agenda punitiva contra A ou contra B. Depois, porque é absurdo pensar que, se processos sobre processos chegam a tribunal e ficam pelo caminho, ou porque as pessoas foram injustamente acusadas, ou porque a instrução foi deficiente e negligente; que isso possa contribuir para qualquer outra coisa que não seja o aumento da sensação de impunidade e de ineficácia da justiça. O que parece é que o PGR não tem confiança na solidez da instrução do "Apito Dourado" ou não acredita na justiça...* Ainda não ouvi o sonoro "prove!", que imediatamente foi dito a Marinho Pinto, a propósito das acusações de António Costa contra o Público. * Nós deveríamos ser o país com melhor informação sobre Timor, depois da Austrália. Temos lá jornalistas dos órgãos de comunicação do estado dentro de uma ideia de "serviço público". No entanto, acordamos sempre com novidades cujo contexto desconhecemos, desenquadradas de tudo, e foi preciso que Mário Alkatiri fornecesse uma interpretação política do que estava a acontecer para termos enfim um vislumbre dos eventos e do seu contexto. Depois, mais uma vez, os jornais em linha e os sítios de notícias que deveriam acompanhar o fluxo de notícias em tempo real, como era de noite não deviam ter ninguém (o mais rápido foi o Expresso), e atrasaram-se de uma forma injustificada. Hoje quando há notícias deste tipo, de surpresa, as pessoas vão à televisão, à CNN se a tiverem e à Internet. A lentidão dos nossos recursos noticiosos em linha, com a Lusa a fechar os comunicados a quem não paga assinatura, não se justifica. ADENDA - Para se ficar informado: ver e ouvir as intervenções do Primeiro-ministro da Austrália aqui. * Há um pormenor perfeitamente descabido na análise jornalística do duplo (url) (url) 1224 - The early history of Rome is indeed far more poetical than anything else in Latin literature. The early history of Rome is indeed far more poetical than anything else in Latin literature. The loves of the Vestal and the God of War, the cradle laid among the reeds of Tiber, the fig-tree, the she-wolf, the shepherd's cabin, the recognition, the fratricide, the rape of the Sabines, the death of Tarpeia, the fall of Hostus Hostilius, the struggle of Mettus Curtius through the marsh, the women rushing with torn raiment and dishevelled hair between their fathers and their husbands, the nightly meetings of Numa and the Nymph by the well in the sacred grove, the fight of the three Romans and the three Albans, the purchase of the Sibylline books, the crime of Tullia, the simulated madness of Brutus, the ambiguous reply of the Delphian oracle to the Tarquins, the wrongs of Lucretia, the heroic actions of Horatius Cocles, of Scævola, and of Cloelia, the battle of Regillus won by the aid of Castor and Pollux, the defence of Cremera, the touching story of Coriolanus, the still more touching story of Virginia, the wild legend about the draining of the Alban lake, the combat between Valerius Corvus and the gigantic Gaul, are among the many instances which will at once suggest themselves to every reader. (Thomas Babbington Macaulay, Lays of Ancient Rome) * Bom dia! (url) 10.2.08
(url) NÃO, NÃO ESTAMOS NOS NOSSOS MELHORES DIAS Lá fora está um esplêndido dia de Inverno, com uma luz do Sol que faz brilhar todos os contrastes, todos os limites, separando cada coisa com uma clareza que só o frio permite. A noite anterior também estava assim, escura e nítida, e, sem a poluição luminosa que já de há muito nos impede de olhar o céu, podia-se ver como a máquina do mundo rodava perfeita, com Orion, a grande constelação do Inverno, presidindo. Mas a memória, a inimiga das veleidades da novidade, lembra-me um ditado que aprendi na escola primária do salazarismo: "Em Janeiro, se vires verdejar põe-te a chorar, se vires terrear, põe-te a cantar." E verdeja já um pouco por todo o lado, e as andorinhas já começam a voltar, e percebe-se que falta pouco para as árvores se convencerem de que estão na Primavera. Pensando bem, devia levar as andorinhas a ver o filme do Al Gore para as convencer de que não são as aparências do tempo que contam, desreguladas que estão pelos sinistros neoliberais que querem aquecer a tampa do mundo, mas sim as realidades do calendário. E que ainda é Inverno, ainda é Inverno. Não, não estamos nos nossos melhores dias... Não eu, que estou bem e recomendo-me, mas eles, lá fora, as andorinhas, Portugal, o mundo.A colheita dos últimos dias "verdeja" à superfície de coisas um pouco sinistras: o processo de Isaltino de Morais voltou quase à estaca zero, mais uma vez, ao fim de não sei quantos anos, e não acontece nada. Vários crimes de que era acusada Fátima Felgueiras prescreveram entre os passeios pelo Brasil, as mudanças de visual e as peregrinações a Fátima dos felgueirenses, patrocinadas pela "Fatinha". E não acontece nada. O Ministério Público arquivou o processo de agressões ao vereador de Gondomar, continua a não se saber quem o agrediu, mas isso não deve ter importância, porque não acontece nada. Cravinho faz uma crítica duríssima aos seus colegas de bancada por sabotarem qualquer legislação contra a corrupção. E não acontece nada. De passagem, o mesmo Cravinho põe em causa com todas as letras o comportamento do LNEC, a quem acusa de ter moldado as conclusões às vontades do poder político, falsificando o seu relatório sobre o aeroporto por omissão de despesas. E não acontece nada. O bastonário da Ordem dos Advogados falou alto de mais e obrigou a mais uma ronda de lip service sobre a corrupção dos ricos e poderosos, que muito provavelmente vai dar origem a mais uma... Comissão. E não acontece nada. O mesmo bastonário acrescentou um caso muito interessante de como se ganha dinheiro em Portugal, o prédio vendido de manhã pelo Estado aos privados e vendido à tarde pelos privados a outros privados com mais cinco milhões em cima e, pelo meio, consultores e assessores do PS e do PSD. E não acontece nada. O Público mostrou a obra arquitectónica do engenheiro Sócrates, (vale a pena este vídeo) por coincidência toda no distrito da Guarda, apesar de ele ser funcionário da Câmara da Covilhã e dirigente partidário do distrito de Castelo Branco. E não acontece nada. Depois, há o ciclo do governo PSD/PP com os seus sobreiros, submarinos e um casino dado numa noite de despachos que adormeceu ainda com o governo Santana Lopes/Portas e acordou com o governo do engenheiro Sócrates, porque era o dia do fim dos tempos, o Gotterdamerung da coligação despedida por Sampaio e por milhões de portugueses. E não acontece nada. Do lado do "dar" está o Estado, do lado do "receber" está a Estoril-Sol, os Espírito Santo, a Lusoponte, o Futebol Clube Felgueiras, etc., etc. Não, não estamos nos nossos melhores dias... Pensando bem, não admira que, com este dia-a-dia, fiquemos tão intimamente absurdos como os maoístas nacionais, nos quais eu me incluía, que queriam derrubar o "quartel-general" à força de dazibaos. O nosso maoísmo dos dias de hoje é, imagine-se, o glamour da monarquia. Não a inglesa, nem a sueca, nem a do Brunei, o que ainda se percebia, mas a dos Braganças, o que não se percebe de todo. Não, não estamos nos nossos melhores dias...Numa daquelas reviravoltas que a moda faz à história, sim, que a história é muito de modas, passou-se da versão carbonária à versão ao modo do Senhor Dom Duarte Nuno. Tudo isto a propósito desse bom homem que matámos há cem anos, o Rei D. Carlos, agora o Senhor Dom Carlos, Rei de Portugal. Uma pequena multidão descobriu as maravilhas da monarquia, muda o nome de Ataíde para Athayde, de Rui para Ruy, passeia o seu blaser nos grandes escritórios de qualquer coisa burocrática que eles acham que não é burocrática, negócios, auditoria, advocacia, aconselhamento fiscal, project finance, com o emblema da Causa Monárquica na lapela, dobrando a voz todas as vezes que diz Senhor, como em Senhor Dom Carlos, indo a missas para esconjurar os jacobinos e os carbonários, convencidos de que os regicídas eram a encarnação da Al-Qaeda da época e que Portugal seria um grande país caso não houvesse aqueles tiros junto ao Tejo. Para o resto, peguem numa lupa e vão ver as fotografias dos "palácios reais", as fotografias dos grandes e médios eventos desses anos finais da monarquia e podem continuar pela República e pelo Estado Novo dentro e vejam o Portugal que lá está ao lado da Família Real nos vasos partidos segurados com arame, nas louças com "gatos", nos jardins pouco cuidados, nos espelhos com a prata gasta, nas roupas puídas e usadas, nas decorações erguidas de madeira e papelão, no tom de abandono, descuido e pouca limpeza, que nem a hierarquia do upstairs e do downstairs servia para funcionar bem, não porque não houvesse muita criadagem, mas porque faltavam os mordomos ingleses. Esse mundo que tomam por brilhante e cosmopolita era o mesmo Portugal que hoje pretendem esconjurar porque "feio, porco e mau", o mesmo Portugal - oh sinistro adjectivo! -, "piroso", de que pensam fugir conhecendo os vinhos de casta, comprando relógios Patek Philipe para entesourar, caçando vestidos de duendes verdes, fazendo subir o preço do Almanaque de Gotha nos leilões, e passeando-se por resorts e spas. Não, não estamos nos nossos melhores dias... Salva-nos o mundo? Não, não salva, a não ser que Barack Obama, que em Portugal tem o maior número de admiradores por metro quadrado da Costa Leste dos EUA para cá, ganhe as eleições. Obama, aquilo que a esquerda europeia pensa que é a esquerda americana, é a última esperança do mundo, tão esperançosa que levou muita gente a trair os Clinton, aquilo que a esquerda europeia pensava que era a esquerda americana antes de Obama aparecer. Soares vota em Obama, Jorge Coelho vota em Obama, Marcelo vota em Obama, o BE vota em Obama, as redacções da TSF, da RTP, da SIC, do Diário de Notícias, votam em Obama. E as outras também. Pensam que Obama vai lá chegar e com a varinha mágica da Utopia e da Esperança, o seu grande mérito a julgar pelos comentários, vai acabar com a guerra no Iraque, a Al-Qaeda, a recessão e as lojas dos chineses, reconhecer a União Europeia como parceira mundial dos EUA e propor Barroso para o Prémio Nobel, dizer "porreiro, pá" ao nosso engenheiro, reconciliar Mário Soares com os EUA e pôr ordem nos israelitas. Está bem, está na altura de acordar, mas como é que se pode acordar quando toda a gente quer continuar a sonhar? Não, não estamos nos nossos melhores dias... (Versão do artigo do Público de 9 de Fevereiro de 2008.) (url) (url) COISAS DA SÁBADO: A OPOSIÇÃO QUE NÃO QUER ONDAS ![]() Não me admira. A oposição, enterrada até ao pescoço nos casos do governo PSD-PP, que uma divina justiça, um deus ex-machina, distribui sempre como pancada aos dois (PSD e PS) quando um se porta mal (PS), ou vice-versa, como se houvesse sempre um arquivo de malfeitorias à disposição para distribuir num preciso momento, não quer ondas porque nunca sabe se se vai molhar. É por isso que há esta sensação de impunidade na lama, todos estão lá metidos, logo nada é importante. No momento em que um eco gigantesco amplifica as palavras do Bastonário da Ordem dos Advogados, tudo isto é muito, muito, incómodo. Guilherme Silva, há muitos anos um dos exemplos do que é um bom deputado, num parlamento que os tem cada vez menos, foi a voz solitária vindo da vida política activa contra esta tenebrosa sensação de pastosidade em que estamos metidos. Etiquetas: PSD (url) (url) 1223 - Ode To Modern Art Come on in and stay a while I'll photograph you emerging from the revolving door like Frank O'Hara dating the muse of modern art Talking about the big Pollock show is better than going to it on a dismal Saturday afternoon when my luncheon partner is either the author or the subject of The Education of Henry Adams at a hard-to-get- a-table-at restaurant on Cornelia Street just what is chaos theory anyway I'm not sure but it helps explain "Autumn Rhythm" the closest thing to chaos without crossing the border I think you should write that book on Eakins and also the one on nineteenth century hats the higher the hat the sweller the toff and together we will come up with Mondrian in the grid of Manhattan Gerald Murphy's "Still Life with Wasp" and the best Caravaggio in the country in Kansas City well it's been swell, see you in Cleveland April 23 The reason time goes faster as you grow older is that each day is a tinier proportion of the totality of days in your life (David Lehman) * Bom dia! (url) 9.2.08
COISAS DA SÁBADO: A DOENÇA ![]() Na continuidade deste texto. Há dois factores em presença no tratamento noticioso da questão Sócrates II (a I foi o diploma): o primeiro, é um julgamento sobre a oportunidade e o valor jornalístico da notícia do Público; o segundo, é a sua incomodidade para o Primeiro-ministro e as estratégias de spin para a contrariar. Quanto ao primeiro, só gostava que me dissessem com clareza se jornais como o New York Times, o Times, ou o Le Monde (tenho mais dúvidas sobre este último) tivessem uma investigação como esta, sobre Bush, Gordon Brown ou Sarkozy, não a publicavam e isso não era entendido como um “furo” jornalístico? É tão óbvia a resposta que nem vale a pena perder muito tempo aqui. Insisto, o escrutínio rigoroso do currículo público de um Primeiro-ministro, que já era político no activo há “vinte anos”, como insiste Sócrates para minimizar os factos, é uma prática jornalística não só aceitável como exigível. E há factos, declarações, documentos, realidades, que a sustentam e talvez seja por isso que o Primeiro-ministro até agora não processou o Público, nem o jornalista, como fez com o elo mais fraco no caso do título académico, o autor do blogue Portugal Profundo, aliás sem sucesso. O segundo factor é onde está a doença, e essa doença é muito preocupante, é a capacidade que tem o poder de, nos casos em que realmente dói, exercer uma pressão eficaz, não escrita, que não está nos telefonemas, está no próprio poder e nas suas teias implícitas e explícitas, sobre a comunicação social. Desconto já aqui, a dificuldade da comunicação social reconhecer o mérito alheio, neste caso do Público e dos seus jornalistas, num meio onde há muita fome e todos ralham. Desconto também as afinidades políticas que levam muitos jornalistas a proteger um governo PS. Agora, que a RTP tivesse começado a sua notícia, convenientemente remetida para os fundos do telejornal, com as palavras “a nova ofensiva do jornal Público contra o PM ...” já é a doença. Que, no dia seguinte, o Jornal de Notícias tivesse uma pequena notícia num canto de página em que se diz “Sócrates diz-se alvo de “ataque pessoal”, já é a doença. Embora o Diário de Notícias e o Correio da Manhã fossem salomónicos entre o conteúdo da notícia do Público e o spin do Primeiro-ministro, pelo menos sempre se distanciavam da pura conspiração, com mérito do Correio da Manhã que entrevistava o jornalista acusado pelo Primeiro-ministro, acrescentando pormenores da investigação. Já percebo menos porque razão a notícia foi para a secção dos media e não a da política... Mas, a atitude geral foi isolar o Público, como se fosse pestífero. É essa a doença. Na verdade, havia duas linhas para tratar o assunto no dia seguinte, ou se desenvolvia a matéria da notícia (as assinaturas, os projectos de casas, as circunstâncias, a exclusividade) ou o contra-ataque de Sócrates que queria colocar o Público no centro da notícia e não as casas da Guarda. Para mim a doença está no facto de a maioria da comunicação social seguir Sócrates e fazer de conta que não há uma notícia do Público de interesse público. (url) (url) 1222 - A Description of the Morning Now hardly here and there a hackney-coach
Appearing, show'd the ruddy morn's approach. Now Betty from her master's bed had flown, And softly stole to discompose her own. The slip-shod 'prentice from his master's door Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor. Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs, Prepar'd to scrub the entry and the stairs. The youth with broomy stumps began to trace The kennel-edge, where wheels had worn the place. The small-coal man was heard with cadence deep; Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep." Duns at his lordship's gate began to meet; And brickdust Moll had scream'd through half a street. The turnkey now his flock returning sees, Duly let out a-nights to steal for fees. The watchful bailiffs take their silent stands; And schoolboys lag with satchels in their hands. (Jonathan Swift) * Bom dia! (url) 8.2.08
NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE NESTES DIAS MEMÓRIAS - uma entrevista que fiz a Aznavour em 1966... COISAS DA SÁBADO:A ENCOMENDA QUE ME FEZ BELMIRO DE AZEVEDO - sobre a tese conspirativa a propósito das notícias do Público sobre Sócrates. + comentários. (url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver Ponte Vasco da Gama iluminada. (António Cabral) Fim do dia na Praia do Pópulo, S. Miguel, Açores. (Nuno H C Pimentel) Berlim, hoje, em redor da fundação Heinrich Böll , perto da estação de comboios Hackescher Markt. (Luís Costa) Vinhas de Inverno às portas de Amarante. (Helder Barros) Vela no Atlântico (LR) Céu da manhã. (RM) ![]() Alvorada em Fátima. (Leonor Rodrigues) (url) MEMÓRIAS Em 1966, Aznavour veio a Portugal, penso que pela primeira vez. Estava-se no período de ouro da influência da canção francesa e, sem se saber, no início do seu ocaso. Nessa altura, vieram a Portugal Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Gilbert Bécaud e Aznavour. Conheci-os e entrevistei-os a todos, na maioria dos caso para o jornal do Liceu Alexandre Herculano de que era director. Não era comum que gente tão famosa falasse para um obscuro jornal dum Liceu, nem os hábitos da época favoreciam a liberdade que era entrevistar um artista estrangeiro que podia sempre dizer inconveniências impublicáveis. O jornal não ia à Censura oficial porque formalmente, como toda a imprensa escolar, devia ser da MP, mas foi nesses anos completamente independente. Na prática quem fazia a censura era o professor responsável (o padre Brochado) e o reitor Martinho Vaz Pires. Durante o período em que fui director houve problemas graves com o jornal (por culpa de Lopes Graça, de Picasso, dois comunistas, dos bons costumes, e da Bauhaus por outros motivos que já contei noutro lado), mas nenhum com as entrevistas.Bom, a entrevista (que fiz com um colega meu mais velho, o Soler, que já tinha publicado uns livros de poesia) é o que se pode esperar: banal, estereotipada, escolar, direitinha, respeitosa. Perguntas muito sérias, respostas mais soltas. Aqui ficam alguns exemplos: E não sei por que carga de água perguntei-lhe isto: Por aqui se pode imaginar o resto. (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 8 de Fevereiro de 2008 Alguém me consegue explicar como é o processo de decisão no Ministério das Obras Públicas? Caótico? Fuzzy? Dependente das decisões dos engenheiros do LNEC? Dos jornais da manhã? Da CIP? Do senhor Presidente da República? Do agora ganhas tu, agora ganho eu? Do senhor Ministro chegar à janela e dizer, parece-me que aquela ponte ficava melhor ali, não achas? Por diktat? Segundo o método do Ministro Mexia no governo Santana Lopes, anunciando uma travessia do Tejo em conferência de imprensa ainda sem saber nem onde nem como seria? Pela posição dos ossos, pelas vísceras duma ave? Alguém me explica?
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Escrevo estas linhas [sobre as aventuras de Sócrates projectista] porque Belmiro de Azevedo me pediu, ou, Belmiro de Azevedo pediu a José Manuel Fernandes que me pediu para escrever estas linhas. Como a SONAE perdeu a OPA sobre a PT, o desejo de vingança do “grupo” é enorme e é para isso que existe o Público e o Cerejo, o “novo pide”, para vilipendiar o pobre do proto-engenheiro Sócrates que, há vinte anos, fazia uns projectos para uns amigos que, por coincidência, não os podiam assinar, graciosamente é claro, sem qualquer da burocracia que faria as Finanças hoje grelhar um cidadão nas sinistras suspeitas de fugir ao fisco. Ou pior, como escrevo no Público, escrevo estas linhas para agradar a Belmiro de Azevedo ou a José Manuel Fernandes que não as pediram, mas vão ficar agradados por eu as ter escrito e alguma recompensa me hão-de dar. Ou pior ainda, escrevo estas linhas para que o senhor Primeiro-ministro e o seu gabinete saibam que a “a mim ninguém me cala” e por isso, como fizeram com Manuel Alegre, me dêem a cabeça de um ministro numa bandeja para me amansar. Eu digo já qual é o ministro... Ou pior do pior, mãe de todos os piores, escrevo estas linhas para tramar a tríade Menezes – Lopes – Ribau que a última coisa que querem é que Cerejo olhe para eles com o mesmo olhar com que olha para as casas elegantes que enxameiam a Guarda com assinatura de José Sócrates. Ou pior ainda, o absoluto pior, o pior que encerra o puro mal, porque no meu ignoto canto, mergulhado na raiva pura, no monstro verde, na bílis do mais total ressentimento, invejo o sucesso brilhante do engenheiro Sócrates como desenhador e projectista, um homem que faz, que tem obra feita no distrito da Guarda, enquanto eu não durmo à noite porque apenas pertenço àquela confraria inútil que só escreve livros e artigos, mergulhada na sua própria peçonha.
Deve haver coisas ainda muito piores, mas a minha imaginação não chega lá. * 1. Há alguma diferença entre projectista, desenhador e Eng. Técnico? Qual o papel de cada um na elaboração de um projecto de ampliação de uma casa(maioria dos casos) ou da construção de uma nova moradia? (url) 7.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 7 de Fevereiro de 2008 Um deputado do PS e quatro deputados do PSD votaram a favor do referendo num sentido de voto contrário ao das suas bancadas e coerente com as promessas eleitorais na base das quais foram eleitos. A Lusa , cujo comunicado se encontra aqui, entende nomear o deputado do PS pelo nome, António José Seguro, e ignorar os nomes dos deputados do PSD. Não posso assim dar-lhes os parabéns pela coerência que mostraram, porque a agência noticiosa que é paga pelos meus impostos acha irrelevante dizer quem são. ADENDA: Depois desta nota a Lusa fez um segundo comunicado com a indicação de "actualizado" que inclui os nomes na bancada do PSD, que afinal são três: os deputados independentes Pedro Quartin Graça, Nuno da Câmara Pereira e Carloto Marques, tendo Mota Amaral, Miguel Macedo, Miguel Frasquilho, José Manuel Ribeiro, Almeida Henriques, Duarte Pacheco, Cristina Santos e António Preto apresentando declarações de voto. Fez bem. (url) (url) 1221 - Si celui qui s'apprête à faire un long voyage
Si celui qui s'apprête à faire un long voyage Doit croire celui-là qui a jà voyagé, Et qui des flots marins longuement outragé, Tout moite et dégouttant s'est sauvé du naufrage, Tu me croiras, Ronsard, bien que tu sois plus sage, Et quelque peu encor (ce crois-je) plus âgé, Puisque j'ai devant toi en cette mer nagé, Et que déjà ma nef découvre le rivage. Donques je t'avertis que cette mer romaine, De dangereux écueils et de bancs toute pleine, Cache mille périls, et qu'ici bien souvent, Trompé du chant pipeur des monstres de Sicile, Pour Charybde éviter tu tomberas en Scylle, Si tu ne sais nager d'une voile à tout vent. (Joachim du Bellay) * Bom dia! (url) 6.2.08
EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM) Fim da tarde em Budapeste. (Gil Regueira) Carnavel em Torres Vedras. (André Felício) Desfile trapalhão no Funchal. (Carlos Oliveira) Carnaval de Gondar em Amarante, à chuva. (Helder Barros) Anúncio de Primavera. (António Cabral) Arrozais de Montemor. (Ochoa) Dia de Carnaval em Lisboa. (MJ) Voos. (António Cabral) Erosão em S. Miguel. (António Cabral) Luz do fim do dia. (RM) Fevereiro em Penha de França. (Luis Pereira) (url) 5.2.08
NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE COISAS DA SÁBADO: A FASCINAÇÃO POR BARACK OBAMA + comentários (url) AS MUDANÇAS DA “CULTURA” ![]() ... significam quase sempre mais mudanças na clientela do que mudanças na política. Num sector tribalizado até ao limite, o que muda é a tribo próxima do Ministro, e quem perde é a tribo longínqua. Em função da distância aos subsídios, claro. O novo ministro chega lá com ideias, gostos, opções diferentes do anterior: gosta mais de teatro de revista, mais de ópera, mais de cinema, mais do grupo A ou do grupo B, mais do fado ou de Emanuel Nunes, vai ao CCB ou à CGD, à Gulbenkian ou a Serralves, dá-se com os bolseiros da escrita ou com os actores da “Rivolução”, está mais com os críticos do Actual do Expresso, do ex-DNA do Diário de Notícias ou com os do Ipsilon do Público, e por aí adiante conforme as tribos. Como nunca há dinheiro que chegue para todos os gostos e tribos, há sempre uma insatisfação activa na “cultura”. É só uma questão de tempo até haver outro abaixo-assinado na Internet. (url) Hoje, agora. Nem todos os Carnavais são iguais.
(url) (url) PORQUE É QUE ESTES HOMENS PODEM FALAR DEMAIS E MANTER-SE NOS CARGOS? ![]() O director da Judiciária falou demais, falou mal e demais. Em qualquer país civilizado a tutela, sim que o homem tem quem mande nele, o teria demitido no minuto seguinte. Em Portugal não. O que o director da Polícia Judiciária disse foi que a “justiça” portuguesa, juízes, procuradores e a sua própria polícia, se “precipitou” numa avaliação de provável culpa, no caso mais sensível nacional e internacional que no século XXI se conhece em Portugal: o do desaparecimento da “pequena Maddie” e da “culpa” dos McCann. As suas palavras sobre os McCann iriam ser ouvidas da Califórnia a Hong Kong, de Beijing a Joanesburgo, em qualquer sítio onde se fale inglês e se leia um tablóide britânico, ou seja todo o mundo, das poucas palavras ditas em Portugal que têm o megafone do mundo inteiro. Depois de ditas nada ficará na mesma, e mais vale esquecer depressa o processo da “pequena Maddie” e esperar cinquenta anos até que uma investigação criminal portuguesa que envolva estrangeiros consiga devolver-nos alguma da credibilidade que foi agora irremediavelmente perdida. (url) 1220 - Psalm 176 When I am appalled By colossal artifice The sad word Is my fellow laborer. What would make you Want to forsake miracles You are too close to. Why. My eyes are lights In an emergency alert System. The radio static Sounds like water Left on in the kitchen. Not real silence. I Am better off not having Lived in the age of Miracles for I can Believe in them. -----------------Selah. (Stan Rice) * Bom dia! (url) 4.2.08
COISAS DA SÁBADO: A FASCINAÇÃO POR BARACK OBAMA Uma parte da nossa direita e de quase toda a nossa esquerda, mostra como o anti-bushismo não é bom para a qualidade do pensar. É que Obama, comparado com Hillary Clinton ou com John McCain, tem pouco lá dentro. Nem saber, nem experiência, nem consistência. Pode vir a ganhar tudo isto, mas para já não tem. Mais um produto da fábrica de plástico, jovem, simpático, bom ar, bom falador, muito teatro de convicções, e politicamente correcto na cor, nem muito preto, nem muito branco, mais um teste para a tese de Kissinger de que cada vez mais as condições para se ser eleito presidente nada tem a ver com as condições para se exercer bem o seu cargo.* Afirmar que o Senador Barack Obama é menos experiente que a Senadora Hillary é um facto. No entanto, classificá-lo como um produto de plástico parece-me um salto excessivo. Concordo quando afirma que no campo politico nacional há uma doença grave.As técnicas de comunicação e o invólucro social sobrepõem-se ostensivamente em prejuízo da causa pública.Ora, nos EUA, para bem e para mal,há um pré-requisito mínimo e muitas vezes fulcral para o pender da balança eleitoral e que se concentra na pergunta:Qual o seu passado?O passado político e pessoal,muitas vezes militar,e principalmente de luta pela causa social é escrutinado até as ultimas consequências(os relatórios de pré-primaria do senador Obama,foram postos em causa!).É importante sublinhar que o passado político mede-se em termos de acções e resultados e não pelo simples facto de ter subido na hierarquia partidária.É este crivo proporcionado pelos media que separa o trigo do joio,e que evidencia a agenda política de cada candidato.A partir daí,quem ganha ou deixa de ganhar depende de outras realidades,mas isso são as regras do jogo democrático. (url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE Saudação ao público das equipas do Amarante e do Aliados de Lordelo, no inicio de um jogo jogado sobre chuva diluviana e em que o Amarante F.C. venceu por duas bolas a zero.Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() Desde as 8h que neva abundantemente em Tóquio e acabei de tirar uma fotografia que ilustra o facto. (Antonio Rebordão) Hoje, às 01:14 da manhã, Nova Deli. Menos de 5ºC. Este é o guarda nocturno do meu bairro, enquanto vagueava pela minha rua. O cajado, na mão direita, serve para afugentar cães e vacas, e porventura algum ladrão. Para provar que não adormece e os residentes se sentirem seguros, passa a noite inteira a bater com ele no chão e a soprar um apito (na mão esquerda). (Constantino Xavier) Pôr-do-sol na Serra dos Mangues. (RM) Pôr-do-sol no Samouco. (António Cabral) Caminho ao fim do dia. (RM) ![]() Cruzeiro em Sul. (José Manuel Figueiredo) Mourão. Aldeia da Luz. (MJ) Prédios com reflexos. (António Cabral) Rio Ovelha. (Helder Barros) ![]() ![]() Vinhas no Alto Douro. (José Ribeiro) (url) 1219 - ... the oak announces itself when, with a far-sounding crash, it falls A paradoxical philosopher, carrying to the uttermost length that aphorism of Montesquieu's, 'Happy the people whose annals are tiresome,' has said, 'Happy the people whose annals are vacant.' In which saying, mad as it looks, may there not still be found some grain of reason? For truly, as it has been written, 'Silence is divine,' and of Heaven; so in all earthly things too there is a silence which is better than any speech. Consider it well, the Event, the thing which can be spoken of and recorded, is it not, in all cases, some disruption, some solution of continuity? Were it even a glad Event, it involves change, involves loss (of active Force); and so far, either in the past or in the present, is an irregularity, a disease. Stillest perseverance were our blessedness; not dislocation and alteration,--could they be avoided. The oak grows silently, in the forest, a thousand years; only in the thousandth year, when the woodman arrives with his axe, is there heard an echoing through the solitudes; and the oak announces itself when, with a far-sounding crash, it falls. How silent too was the planting of the acorn; scattered from the lap of some wandering wind! Nay, when our oak flowered, or put on its leaves (its glad Events), what shout of proclamation could there be? Hardly from the most observant a word of recognition. These things befell not, they were slowly done; not in an hour, but through the flight of days: what was to be said of it? This hour seemed altogether as the last was, as the next would be. (Thomas Carlyle, The French Revolution) * Bom dia! (url) 3.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 3 de Fevereiro de 2008 Leituras que valem a pena: - o "Retrato do Pai Natal" no Portugal dos Pequeninos, um bom contraponto para a louvaminhice que grassa na "cultura" e não só sobre o ministro que há alguma probabilidade de ter sido convidado por engano; - uma muito interessante entrevista a José Serra na Artes e Leilões de Janeiro de 2008, sobre as técnicas e truques usados nos leilões em Portugal, sim em Portugal, com nomes, pessoas, firmas, casos, tudo; - uma igualmente interessante biografia de Hugh Everett no Scientific American de Dezembro de 2007 com um título revelador de "The Many Worlds of Hugh Everett", sobre um desses cientistas que tomaríamos por loucos e génios ao mesmo tempo, maus caracteres, infelizes e absolutamente brilhantes, passados, do outro lado, noutros "mundos". A história do homem que tomava as fórmulas da mecânica quântica a sério, não como "realidades" matemáticas, mas como realidades do mundo físico, não "incertas", mas certas numa multiplicidade de mundos existentes, é melhor do que a "ficção cientifica" a que deu origem. Algures alguém, eu próprio, que escreveu esta nota não escreveu esta nota.* Quanto a Hugh Everett, as ideias dele não me convencem. Mas há muitos exemplos de ideias científicas que inicialmente foram apresentadas como um mero utensílio matemático e que só muito mais tarde foram vistas como correspondendo a realidades físicas. Por exemplo, as ideias de Copérnico não foram, no início, tão chocantes como geralmente se pensa, pois o trabalho dele foi inicialmente interpretado como dizendo que, para efeitos de cálculos, seria mais simples supor que era o Sol e não a Terra que estava no centro do Universo. (url) PORQUE É QUE "ÉTICA REPUBLICANA" É MUITO MAIS DO QUE A LEI ![]() As declarações do bastonário da Ordem dos Advogados suscitaram um intenso debate sobre a corrupção na vida política, entre os defensores do "prove!" e os defensores do "é mais importante que denuncie e possa denunciar sem ter que provar". É um debate que nasceu torto, continua torto e vai morrer na praia, onde infelizmente morrem em Portugal os debates tortos e até os que o não são. E é pena, porque o que Marinho Pinto diz é verdade e os factos são graves demais para serem ofuscados pelo modo como o disse. E, pior ainda, há mais inocência nas palavras do bastonário do que nos "prove!" que lhe atiraram, vindos de quem sabe bem demais que ele está a suscitar um problema real, que nem sequer precisa de "prova" porque é do domínio da ética política das democracias, antes de ser do domínio do ilícito penal. A questão é que existe a ideia de que estas matérias de corrupção são para os juristas, os advogados, os procuradores, os polícias e os tribunais, que naturalmente se pronunciam em termos de legalidade ou ilegalidade, de crime, de prova, de lei e de sanção. Mas o problema, se só ficar por aqui, não vai muito longe. E em Portugal é que não vai mesmo para lado nenhum. Nós somos especialistas em fazer as melhores leis do mundo e em arranjar maneira de nunca serem aplicadas. E somos também especialistas em deixar tudo na mesma enquanto, com enorme alarido, dizemos que vamos alterar. O modo como os grupos parlamentares do PS e PSD em uníssono se mostraram disponíveis para o que for preciso fazer para combater a corrupção, depois de terem congelado o pacote Cravinho e de, pelos seus representantes na comissão de Ética, cobrirem todos os deputados que flagrantemente abusaram do seu cargo, mostra bem que dali nada vai vir que não seja fogo de vista. Se os deputados estiverem de boa fé na luta contra as práticas eticamente inaceitáveis no plano político, sabendo eu que há aqui uma fronteira que só se pode definir caso a caso, alterariam o actual modelo da Comissão de Ética, de modo a que casos como estes e este não possam acontecer sem sanção. O Diário de Notícias de ontem escrevia que eu defendia uma Comissão de Ética "extraparlamentar", que nunca me passou pela cabeça. O que eu defendo é uma Comissão de Ética com reais poderes de sanção (a começar pela censura pública), constituída por personalidades parlamentares, passadas (antigos Presidentes da Assembleia, antigos deputados) e presentes, sem uma lógica maioria-minoria a não ser muito mitigada, com mandatos longos numa lógica senatorial, e de cujas decisões se possa recorrer em plenário com exigência de maioria qualificada.A questão é que se a corrupção ou o tráfico de influências são crimes, eles estão na ponta final de um longo processo de actos e procedimentos, que começa bem dentro da legalidade, mas já longe da moralidade pública. Eu acho péssimo que a moralidade seja metida ao barulho todos os dias, em particular como julgamento de carácter individual dos políticos. Mas já condeno a indiferença face a regras e procedimentos que, numa democracia, violam o princípio do "exemplo" na coisa pública e estão todos na antecâmara da ilegalidade. Por exemplo, a indiferença com que nos partidos políticos se reage ao conhecimento de pequenas falcatruas, truques e golpes na vida interna partidária parece-me meio caminho andado para o tráfico de influências e a corrupção. Parecem-me e são. A questão da "ética republicana" aplica-se às aventuras projectistas do primeiro-ministro, que dava o seu nome, perante pagamento, a projectos que precisavam de um "engenheiro". Não é sequer um crime, dizem os especialistas, e poderia ser um pequeno pecado de um jovem no início da carreira, tentando sobreviver, se Sócrates dissesse claramente dito que foi isso mesmo. Ninguém lhe levaria muito a mal, tão generalizada está esta prática. Se há razão para levantar esta questão em termos políticos é exactamente a de saber porque é que esta pequena falcatrua existe e tem que ser feita com conhecimento de todos. Saber se há burocracia a mais, regras absurdas ou se, pelo contrário, são mesmo graves estas assinaturas de cruz. E, então, deveriam ser penalizadas.Por isso me preocupa o facto de existir gente que acha normal falsificar assinaturas em delegações de voto para uma assembleia distrital, ou condicionar processos eleitorais com pagamentos em massa de quotas a desoras, ou manipular urnas de votos, ou viajar com a família para uma estância turística por conta do Parlamento ou, pior ainda, de haver gente que fazia tráfico de influências antes de a prática ser criminalizada e que só isso impediu de ir a tribunal, e, ainda assim, prosseguir, impune e serena, uma pequena e média carreira política como se nada fosse, com a aprovação e a indiferença dos seus pares. Sobre a tentativa de Marques Mendes de introduzir critérios de ética política para além da legalidade / ilegalidade verificada em Tribunal.Num certo sentido, o problema é ainda pior, porque a indiferença que ocorre no interior dos partidos tem raízes fora, na atitude de muitos portugueses que não se importaram de eleger, por exemplo, Fátima Felgueiras, que pelo menos uma coisa fez que deveria exigir sanção antes sequer de qualquer tribunal a julgar: fugiu à justiça. Num país mergulhado na clientela, na cunha, no patrocinato, em que quase por obrigação e sobrevivência é necessário ser criativo com a lei, é difícil encontrar um impulso e uma motivação forte para a luta contra a ilegalidade e a corrupção. Outro exemplo do que não se deve fazer nestas matérias encontra-se na desvalorização do processo que o Tribunal de Contas tem aberto contra a nova ministra da Saúde. É um processo que em nada afecta a sua honorabilidade pessoal e em que não está em causa qualquer benefício próprio, mas que não pode ser desvalorizado por governantes e políticos como o está a ser, porque remete para o bom uso dos dinheiros públicos, algo que não pode ser desvalorizado como irrelevante sem apoucar o Tribunal de Contas e sem dar um sinal de indiferença perante um eventual mau uso dos dinheiros públicos.Insisto por isso num ponto que tem a ver com a frase de Pina Moura quando disse que para ele "a ética da República é a ética da lei" e não podia haver nenhuma questão de ética que não tivesse como fundamento a ilegalidade. Havia e grave: a óbvia incompatibilidade de funções entre ser deputado da Assembleia da República portuguesa, tendo assim acesso a informação privilegiada e podendo moldar a legislação e as políticas no mesmo sector em que a empresa espanhola de que era presidente competia com as nacionais, num mercado cujas regras ele ajudava a definir como deputado português e não como deputado no Congresso dos Deputados, reunindo no Palácio das Cortes em Madrid. A própria expressão "ética republicana" é aqui abastardada do seu sentido original. Importada pelos socialistas portugueses do PS francês, importada pelo PS francês do jacobinismo, importada pelo jacobinismo do que o jacobinismo pensava ser a "virtude" da república romana que Catão e Cícero defendiam, a ideia de uma "ética" republicana, universal e comum, face à defesa de interesses particulares, de grupo, casta ou facção, está longe de se restringir à lei, mas remete directamente para os "costumes públicos" que dividiam os senadores virtuosos dos que o não eram. Por tudo isto, e voltando às declarações do bastonário, ou a condenação dos caminhos para a ilegalidade começa cedo no espaço público, dentro dos partidos e dentro do Estado, ou apenas esperar pelo crime e a sanção nunca cortará o caminho aos corruptos. Insisto: há muita coisa que depende apenas da pura vontade dos responsáveis, e o que se verifica é que ela pura e simplesmente não existe. O problema começa aí. (Versão do Público de 2 de Fevereiro de 2008) (url) (url) 1218 - Coronemus nos Rosis antequam marcescant Let us drink and be merry, dance, joke, and rejoice,
With claret and sherry, theorbo and voice! The changeable world to our joy is unjust, All treasure's uncertain, Then down with your dust! In frolics dispose your pounds, shillings, and pence, For we shall be nothing a hundred years hence. We'll sport and be free with Moll, Betty, and Dolly, Have oysters and lobsters to cure melancholy: Fish-dinners will make a lass spring like a flea, Dame Venus, love's lady, Was born of the sea; With her and with Bacchus we'll tickle the sense, For we shall be past it a hundred years hence. Your most beautiful bride who with garlands is crown'd And kills with each glance as she treads on the ground, Whose lightness and brightness doth shine in such splendour That none but the stars Are thought fit to attend her, Though now she be pleasant and sweet to the sense, Will be damnable mouldy a hundred years hence. Then why should we turmoil in cares and in fears, Turn all our tranquill'ty to sighs and to tears? Let's eat, drink, and play till the worms do corrupt us, 'Tis certain, Post mortem Nulla voluptas. For health, wealth and beauty, wit, learning and sense, Must all come to nothing a hundred years hence. (Thomas Jordan) * Bom dia! (url) 2.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 2 de Fevereiro de 2008 Será que os senhores jornalistas da televisão (a julgar pelos dois noticiários do almoço que vi sobre esta matéria na RTP e na SIC) não se importam de se preparar um pouco melhor para não fazerem perguntas genéricas ao Primeiro-ministro e receberem respostas genéricas, quando há documentos, datas, declarações, e outro material concreto já publicado que impede exactamente que nos bastemos por essa vaga generalidade?
(url) EXTERIORES: CORES DOS DIAS DE ONTEM E HOJE
Clicando na fotografia fica na boa dimensão. Para se ver ![]() Faial: lancha das 8:30 para a ilha do Pico . (José Junqueiro) ![]() O Douro, hoje de manhã. (J. Ferreira) Sul, esta noite!. (José Manuel de Figueiredo) Anoitecer no Tejo em Belém. Travessias em Belém. (MJ) A bandeira da Federação Portuguesa de Futebol já está hasteada no hotel Beau Rivage, en Nêuchatel, Suíça - é aqui que a Selecção Nacional de Futebol ficará instalada na primeira fase, no Europeu deste Verão, que decorre na Suíça e na Áustria. Os portugueses jogarão praticamente em casa, dada a numerosa comunidade imigrante nacional que vive na região. (Fernando Correia de Oliveira) Vinhedos no Chile. (João Almeida) Estações de comboio: Gare do Oriente e Quebedo, Setúbal. O nome do apeadeiro de Setúbal é Quebedo e não Quevedo. Interessou-me e emocionou-me, porque, nos 5 anos que frequentei o Liceu de Setubal (só tinha até ao 2º ciclo dos liceus de então – a chamada “Nova reforma”), foi ali que me apeei (eu era “da malta do comboio”, que se levantava antes das seis da manhã, andava no mínimo um ou dois quilómetros até às estações, desde o Barreiro a Palmela) antes de haver o chamado “Liceu Novo”. As salas de aula, então, dividiam-se entre um anexo da abegoaria municipal e o “Liceu velho”, semi-arruinado e só com meia dúzia de salas de aula, mais a secretaria e a reitoria, operacionais. (António Cabral) ![]() Veiros, Estremoz. (Filipe Feio) (url) 1217 - Why I am a liberal "Why?" Because all I haply can and do,
All that I am now, all I hope to be,-- Whence comes it save from fortune setting free Body and soul the purpose to pursue, God traced for both? If fetters, not a few, Of prejudice, convention, fall from me, These shall I bid men--each in his degree Also God-guided--bear, and gayly too? But little do or can the best of us: That little is achieved thro' Liberty. Who then dares hold, emancipated thus, His fellow shall continue bound? not I, Who live, love, labour freely, nor discuss A brother's right to freedom. That is "Why." (Robert Browning) * Bom dia! (url) 1.2.08
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 1 de Fevereiro de 2008 O que o Público fez foi jornalismo puro. A raiva contra o Público é de facto contra a liberdade de informar, escrutinar, pesquisar uma matéria de interesse público em qualquer sítio civilizado: o percurso de um Primeiro-ministro, quando há legítimas suspeitas de actos impróprios, mesmo quando não são ilegais. Mais do que raiva, mesmo um vago tom de ameaça ao "bem conhecido jornalista José António Cerejo".* Para que não subsistam duvidas, acerca da integridade moral do Primeiro-ministro em exercício, poderá este, facilmente demonstrar, que os projectos de engenharia adjudicados pelos seus clientes, tiveram uma contrapartida de ordem financeira, ou seja, houve lugar a pagamentos, recebimentos, emissão de facturas/recibos e a correspondente liquidação ao fisco dos impostos referentes aos montantes recebidos. (url) (url) COISAS DA SÁBADO: UM MÉRITO DE MARQUES MENDES QUE JÁ PASSOU À HISTÓRIA PARA NOSSO MAL: PENSAR QUE A ÉTICA REPUBLICANA NÃO É APENAS A LEI ![]() Quando Pina Moura foi confrontado com a incompatibilidade ética de exercer as funções de deputado e ser Presidente da Iberdrola, respondeu que para ele (e para o PS) “só havia uma ética republicana, a lei”. Ou seja, tudo que não é proibido por lei é permitido a um político, mesmo que se tratasse, como era o seu caso e de mais alguns deputados, de uma incompatibilidade ética evidente: ser presidente de uma empresa estrangeira que concorria com empresas nacionais e ter acesso, como deputado, a informação privilegiada sobre decisões que afectavam o mercado em que a sua empresa actuava. Durante um breve período de tempo num partido português, o PSD, Marques Mendes entendeu o contrário: que havia circunstâncias que não implicavam nem a assunção de ilegalidades, nem a sua condenação em tribunal mas que implicavam a suspensão do exercício de alguns cargos políticos ou a retirada da confiança política. Ele formulou a questão correctamente, insistindo que não se tratava de fazer um pré-decisão de condenação, ou de uma norma genérica que punha em causa arguidos apenas por serem arguidos. Ele insistiu que se tratava de um juízo político pontual, caso a caso, mas que tinha implícito que determinados comportamentos podiam exigir uma sanção política, mesmo sem ser ilegais e sem presunção de culpa. Perdeu três câmaras por causa disso, Oeiras, Gondomar e Lisboa, e o seu partido não lhe perdoou, pelas piores razões. Caiu-lhe tudo em cima, confundindo aquilo que ele sempre dissera ser político e pontual, nalguns casos até com solidariedade pessoal com os acusados e sua defesa pública, para, na amálgama, condenar o precedente que ele com coragem iniciou. Não houve qualquer inocência no ataque que foi vítima Marques Mendes, que uniu solidamente os “profissionais” do PS e o PSD. Se o que ele inaugurou, a responsabilidade dos partidos em sancionarem determinados comportamentos como eticamente inadmissíveis, mesmo que não sejam ilegais, se tornasse uma regra, muita coisa que hoje se faz impunemente teria custos políticos para os que os praticam. O mesmo se pode dizer para a Comissão de Ética da Assembleia: tivesse a Comissão autoridade e independência para sancionar determinados comportamentos dos deputados, que causam e com razão escândalo público, e a Assembleia sairia mais prestigiada. Muita da antecâmara da corrupção e do tráfico de influências não é ilegal, está numa zona cinzenta que os partidos conhecem bem. Começa na complacência com as próprias fraudes internas, a falsificação de assinaturas em declarações de voto, os procedimentos do “gangue do Multibanco” pagando centenas de quotas às 3 da manhã, para acabar no proto-tráfico de influências que se torna muita vez a principal actividade de secções e federações e depois sobe por aí acima, passando pelas alcatifas, até chegar aos tapetes persas. É que muita coisa que pode ser feita contra a corrupção e os seus caminhos, não precisa de novas leis, nem de polícias, nem tribunais, precisa de políticos que se incomodem com o que vêem à sua volta e actuem politicamente. Foi o que fez Marques Mendes e correram-no também por isso. Etiquetas: PSD (url) (url) 1216 - ... on the subject of Clothes Considering our present advanced state of culture, and how the Torch of Science has now been brandished and borne about, with more or less effect, for five thousand years and upwards; how, in these times especially, not only the Torch still burns, and perhaps more fiercely than ever, but innumerable Rushlights, and Sulphur-matches, kindled thereat, are also glancing in every direction, so that not the smallest cranny or dog-hole in Nature or Art can remain unilluminated,--it might strike the reflective mind with some surprise that hitherto little or nothing of a fundamental character, whether in the way of Philosophy or History, has been written on the subject of Clothes. Our Theory of Gravitation is as good as perfect: Lagrange, it is well known, has proved that the Planetary System, on this scheme, will endure forever; Laplace, still more cunningly, even guesses that it could not have been made on any other scheme. Whereby, at least, our nautical Logbooks can be better kept; and water-transport of all kinds has grown more commodious. Of Geology and Geognosy we know enough: what with the labors of our Werners and Huttons, what with the ardent genius of their disciples, it has come about that now, to many a Royal Society, the Creation of a World is little more mysterious than the cooking of a dumpling; concerning which last, indeed, there have been minds to whom the question, _How the apples were got in_, presented difficulties. Why mention our disquisitions on the Social Contract, on the Standard of Taste, on the Migrations of the Herring? Then, have we not a Doctrine of Rent, a Theory of Value; Philosophies of Language, of History, of Pottery, of Apparitions, of Intoxicating Liquors? Man's whole life and environment have been laid open and elucidated; scarcely a fragment or fibre of his Soul, Body, and Possessions, but has been probed, dissected, distilled, desiccated, and scientifically decomposed: our spiritual Faculties, of which it appears there are not a few, have their Stewarts, Cousins, Royer Collards: every cellular, vascular, muscular Tissue glories in its Lawrences, Majendies, Bichats. How, then, comes it, may the reflective mind repeat, that the grand Tissue of all Tissues, the only real Tissue, should have been quite overlooked by Science,--the vestural Tissue, namely, of woollen or other cloth; which Man's Soul wears as its outmost wrappage and overall; wherein his whole other Tissues are included and screened, his whole Faculties work, his whole Self lives, moves, and has its being? (Thomas Carlyle, início de Sartor Resartus) * Bom dia! (url)
© José Pacheco Pereira
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