ABRUPTO

16.9.08


LIVROS DE QUATRO GERAÇÕES (29)


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(Chapman), Traité de la Construction des Vaisseaux, avec des Eclaircissemens & Démonstrations touchant l'Ouvrage intitulee: Architectura Navalis mercatoria, &c. ..., Brest, Chez R. Mallassis, Impremeur ordinaire du Roi & de la Marine. A Paris, Chez Durand, nevey, Libraire, rue Galande. Jombert, heune, Libraire, rue Dauphine, 1781.


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Interessantíssimo livro, para quem se interessa seriamente pela História Naval dos séculos XVII e XIX, no período imediatamente anterior aos vasos de guerra movidos a vapor.

Este período cobre, com singular e decisivo efeito nos destinos da Europa e do Mundo Ocidental, as guerras entre a França, a Espanha e a Inglaterra (com mudanças de alianças da Espanha, ora com os Franceses, ora com os britânicos) e com especial relevo para as campanhas de Napoleão, frustradas pela sua incapacidade de invadir as ilhas britânicas pela superioridade naval dos ingleses; finalmente sangrados quase até à morte pelo Inverno russo e destruidas em Waterloo por uma força expedicionária vinda do lado ocidental da Mancha.

… e ainda dizem que a História não se repete (embora com personagens algo diferentes!).

Mas… divago: o ponto é que a marinha britânica, sistematicamente vencedoras das batalhas, era notoriamente inferir, em qualidade de navios, à marinha francesa.

Fragata por fragata, navio de linha por navio de linha (third rates, second rates e first rates - ou: duas cobertas e 64 canhões + ou -; ou 2 cobertas e 74 a 80 canhões e finalmente, 3 cobertas e 98 até 120, canhões) os navios franceses eram mais rápidos, mais equilibrados, mais manobráveis!

Os ingleses ganhavam apenas na qualidade, disciplina e prática constante das suas tripulações e dos seus oficiais (No tempo de Napoleão, entre outros, Lorde St. Vincent, Cornwallis, Cochrane, Edward Pellew, Saumarez, Hardy e – last but not the least – Horatio Nelson).Todos eram unânimes em afirmar a superioridade técnica dos navios franceses; só a sua constante permanência no mar, enquanto os franceses estavam maioritariamente nos seus portos-fortalezas e quando saiam, as ripulações pouco ou nenhum treino de mar possuiam; a sangria dos seus melhores almirantes, mortos na guilhotina no “terror”, resultavam em esquadras que foram regulamente batidas, mesmo em vantagem numérica. Os ingleses estavam treinados para “disparar pelo menos três bordadas por cada duas francesas e até, frequentemente, duas por uma” e o “peso de metal disparado” era superior, assim, a equivalentes franceses de muito maior porte.

Quanto aos navios franceses tomados em combate, eram desde que minimamente possível, reparados e regressavam à linha sob o “union jack”. E eram disputados pelos mais influentes comandantes ingleses, exactamente pela sua superioridade de construção e manobra.

Alturas houve em que metade de esquadrões ingleses eram formados por navios ex-franceses: Em Trafalgar (e cito de memória) pelo menos o Témeraire, Achille, Belerophon, Revenge, Defiance, Ajax, (e outros) faziam parte da linha de batalha de Nelson.

E voltamos ao livro:

O segredo estava em que os franceses construíam a partir de planos desenhados e estudados por engenheiros navais; e os ingleses, em arsenais chefiados por carpinteiros de marinha, que faziam “maquettes”, mais ou menos reflectindo opiniões de oficiais com experiência, mas seguindo o desenho tradicional que vinha, basicamente de segunda metade dos anos 1600. Uma vez a maquete aprovada, o navio era construído à escala real.

O ângulo do casco com a linha de água (o “tumblehome”), era muito maior nos navios franceses ou seja, o convés era muito mais estreito que as cobertas inferiores; o navio era mais afilado na parte submersa, dado-lhe uma hidrodinâmica muito superior. Resultado: mais velocidade, mais estabilidade como plataforma de tiro, mais capacidade de afrontar o mau tempo!

Um navio de guerra foi sempre um compromisso entre as necessidades dos que o comandam e tem de combater, com os requisitos da construção naval; esse compromisso era muito mais eficiente nas naves francesas. Nelson afirmou um dia, a Hardy, que o navio de guerra ideal deveria ser construído em França, com carvalho americano, ter um velame holandês, canhões espanhois e uma tripulação inglesa…



(Luis Manuel Rodrigues)

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