ABRUPTO

13.8.07


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ÁTOMOS E BITS

de 13 de Agosto de 2007


A RTP começou hoje (13 /08/2007) o Telejornal das 20 horas com uma reportagem alarmista sobre a queda dos mercados bolsistas. A queda tinha sido na sexta feira dia 10 de Agosto. (imagino que na sexta feira tenham sido apanhados desprevenidos e mantiveram-se no caso Maddie). Alguém decidiu então mandar fazer uma reportagem sobre o assunto. Veio a verificar-se que durante o dia 13, segunda feira, os mercados tiveram tendência a corrigir da queda bolsista de sexta feira mas, mesmo assim, abriram fogo com vocabulário incendiário sobre as “assustadoras” quedas bolsistas com descrições acerca do “pânico” dos investidores como se a reportagem tivesse actualidade. De seguida trucidaram o Banco Central Europeu (BCE) que, para resolver um problema de liquidez do sistema financeiro europeu, terá posto à disposição dos bancos mais de 40 mil milhões de euros. Na reportagem a RTP, de forma crítica, censurava o fornecimento de liquidez ao mercado que seria a responsável pelas previstas novas subidas de taxas de juro.

Parece que a reportagem, feita pelo amador de serviço, estaria pronta e na RTP não quiseram perder a oportunidade de mostrar que alguém tinha trabalhado no fim de semana. Mesmo que a realidade da correcção ocorrida nos mercados bolsistas no dia de hoje tivesse inutilizado o trabalho e que o BCE considere que os mercados estão normalizados com a ampla liquidez conferida ao mercado, o execrável serviço público não se comoveu.

(Miguel Rosa)

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No texto de Miguel Rosa confundem-se opinião e factos. E os factos são: (comprovados no site da RTP)

1. No Telejornal da sexta-feira que refere (dia 10), o telejornal emitiu duas peças sobre o assunto;
2. O vocábulo "assustadoras" não consta em nenhuma peça do telejornal de dia 13;
3. Sobre a actualidade ("...como se a reportagem tivesse actualidade.") outros órgãos como a TSF deu a mesma notícia ao longo de toda a tarde do mesmo dia, e nos jornais de terça-feira foi assim: no DN na primeira página e destaque nas primeiras páginas. No público é o destaque na Economia, uma página inteira, no Diário Económico é manchete na primeira página, mais cinco lá dentro. No Jornal de Negócios é manchete, mais três páginas e um editorial;
4. "...terá posto à disposição dos bancos...", o BCE colocou, de facto, como vi/li/ouvi em todas as notiícias, apenas Miguel Rosa parece duvidar;
5. Sobre a desactualização das notícias: ("Mesmo que a realidade da correcção ocorrida nos mercados bolsistas no dia de hoje tivesse inutilizado o trabalho...") além de não ter "inutilizado" todas as notícias em toda a imprensa escrita no dia seguinte, na mesma peça da RTP é dito: ..." Num comunicado o presidente do BCE mostra-se convicto de que esta tranche chega para normalizar as operações da banca Europeia. E o recado parece ter surtido efeito. A face mais frágil da crise no sistema bancário são as bolsas. Depois das fortes quedas do final da semana passada voltaram agora às subidas ."

As opiniões são:
1. "reportagem alarmista";
2. "imagino que na sexta feira tenham sido apanhados desprevenidos e
mantiveram-se no caso Maddie", imaginou mal como se pode ver;
3. "Alguém decidiu então mandar fazer uma reportagem sobre o assunto."
Puramente especulativo;
4. "vocabulário incendiário";
5. "trucidaram o Banco Central Europeu" (?!);
6. "de forma crítica, censurava" (?!);
7. "feita pelo amador de serviço" não é necessário insultar para criticar;
8. "estaria pronta e na RTP não quiseram perder a oportunidade de mostrar que alguém tinha trabalhado no fim de semana." Puramente especulação;
9. "execrável serviço público".
Mais opinião que factos como se vê. Acho que se não queremos ver posta em causa a nossa credibilidade teremos de ser absolutamente rigorosos.

Samuel Freire

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Acabei de rever o Telejornal de dia 13/8 no serviço de TV online da RTP (via internet) e aqui dou a mão à palmatória: neste aspecto é um excelente serviço público de que até hoje desconhecia a existência.

Respondendo a Samuel Freire (que presumo seja o autor da reportagem que critiquei), passo a reproduzir alguns "factos" e opiniões.

1 - Quando utilizo a expressão "assustador", não estou tão afastado da versão da reportagem. Na verdade, num dia que terminou com todas as bolsas a recuperarem (umas mais, outras menos) das quedas do dia útil anterior, a reportagem fala em "pânico" dos investidores, "colapso" do sistema e "explosão" das taxas de juro. Com algumas cautelas, admito. Mas o que fica nos ouvidos do telespectador (como muito bem sabem na RTP) são as palavras fortes: pânico, colapso, explosão. Esta última é particularmente incendiária, não ?

2 - No que se refere "a trucidar o Banco Central Europeu" diz a reportagem, taxativamente: ".....As intervenções do Banco Central estão a criar um clima de incerteza em relação às taxas de juros. Há quem defenda que as injecções de capital do Banco Central inviabilizam a necessidade do aumento das taxas de juro já em Setembro. ....". Com esta frase, a mim pareceu-me que se responsabilizava o Banco Central pelos acontecimentos.( afinal não pelo aumento das taxas de juro como referi inicialmente mas porque a sua actuação impedia esse aumento).

3 - Continuo a considerar que na sexta feira foram apanhados desprevenidos no Telejornal porque, nesse dia, as fortes quedas das bolsas é que mereciam destaque e foi com a infeliz da Maddie que começaram o noticiário. Na segunda feira a crise parecia ter amenizado e, embora a notícia merecesse honras de abertura, creio que o tom de alarme chegou atrasado. E, por outro lado, não creio que a evolução dos acontecimentos de terça e quarta feiras, que lhes veio a dar alguma razão, possa servir de desculpa, tal como, se dentro de uma semana tudo estiver normalizado, eu não passarei a ter mais razão. No fundo o quero dizer é que os noticiários devem reflectir as notícias do dia.

4 - Finalmente peço desculpa pelos excessos de adjectivação, como nas expressões utilizadas: "feita pelo amador de serviço", "execrável serviço público" . Tanto mais que ouvida a notícia uma segunda vez se percebe alguma cautela no conteúdo, mantendo porém a adjectivação incendiária que é o que fica nos ouvidos do telespectador que não tenha acesso à repetição. E continuo a crer que é essa a intenção das televisões, coisa que não posso deixar de continuar a criticar.

(Miguel Rosa)
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O Eugénio de Andrade quando alguém lhe falava do Torga dizia com imenso desdém, "ah! esse poeta parolo..."

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Essa citação do Eugénio de Andrade sobre o Torga, faz pensar na habitual dureza (um eufemismo!) de uns autores para os outros. Independentemente de achar ou não que seja esse o caso aqui, é incrível ver como os escritores são por vezes tão escandalosa e surpreendentemente "injustos" para com os "colegas". Há disparates esplêndidos (sem ironia) na história da literatura. Lembremo-nos dos juízos de Tolstoy sobre Baudelaire ou de Brecht sobre Thomas Mann, de Nabokov sobre Balzac e Mann outra vez, Wittgenstein sobre Shakespeare... Ou, à nossa dimensão, das opiniões que Camilo confessava sobre Eça, do olhar deste sobre Camilo e do "ódio" de Fialho de Almeida pelo autor d'Os Maias. São cegueiras talvez inevitáveis. A época, a Escola. Ainda assim. Por vezes, um pobre crítico literário (uma espécie de eunuco estético - imagem de Steiner) consegue ver "melhor". Os grandes escritores são também grandes leitores e no entanto... Também na Filosofia acontece: não se fica banzado com a maneira desdenhosa com que Kant despacha Berkeley? Ou a visão que parece ter de Leibniz? E os ataques selvagens de Schopenhauer a Hegel e Fichte?

Torga poeta parolo: acho que se percebe o que Andrade quer dizer. E, enfim, num país pequeno, pobre e provinciano... Mas já não será de modo nenhum parolo o Torga dos Contos da Montanha (os Novos e os outros), de alguns Bichos e, descobri há pouco, algumas páginas do Portugal.

(Carlos David Botelho)

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