ABRUPTO |
![]() semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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22.7.07
![]() O PSD E A CRISE DOS PARTIDOS NA DEMOCRACIA PORTUGUESA (1) Na oposição pobre tudo se revela, a fragmentação sectária no aparelho, o afastamento das elites, a fuga de personalidades para o lado do poder socialista, o cansaço das "bases", a competição quase mortal pelos fragmentos de poder que sobram (o grupo parlamentar para começar), a sensação de inutilidade, irrelevância e impotência. Antes de se andar no jogo das personalidades em cima e das "espingardas" em baixo, a crise de direcção é propícia, para se discutir esses factores estruturais e os momentos conjunturais que a revelam. E, se não é, deveria ser. ![]() O segundo processo já é especificamente português e tem a ver com o facto de os partidos democráticos, o PS, o PSD e o CDS, terem sido "auxiliados" pelos construtores do nosso Estado democrático para crescerem depressa e se consolidarem, para contrariar o poder do único partido verdadeiramente existente à data do 25 de Abril, o PCP. Por estas razões, os partidos políticos receberam constitucionalmente uma hegemonia completa do espaço público, detendo o monopólio quase perfeito da participação eleitoral, com excepção das eleições presidenciais. Só com muita dificuldade aceitaram a concorrência de independentes nas eleições autárquicas e continuam a manter o monopólio nas eleições para deputados, o último reduto do poder interno das direcções partidárias. O crescente papel dos independentes, mesmo imperfeitos, mostra que esta hegemonia está a rebentar pelas costuras. O terceiro processo é o resultado da conjugação dos dois anteriores com a nossa história política pós-25 de Abril, que envolve a dinâmica política entre o PSD e o PS, e, em menor grau, mas também presente, entre o PSD e o CDS e agora o PP. Esta dinâmica política tem duas componentes, uma de carácter político e ideológico, e outra do modus operandi e do modus vivendi. Deixarei, para já, de lado as questões políticas e ideológicas, para olhar para os factores de crise propriamente partidários. ![]() Neste contexto, várias coisas começaram a correr mal no PSD desde que no tempo de Cavaco Silva se começou a acentuar a separação entre o exercício do Governo, assente em núcleos políticos muito restritos de confiança pessoal, deixando o partido para a gestão corrente e as tarefas menores. Esse divórcio agravou-se pela falta de fiabilidade dos órgãos partidários para actuarem com a reserva e a discrição que o processo de decisão implicava. Sob pressão da comunicação social, num momento de grande agressividade antigovernamental e de competição entre os jornalistas entre si por oportunidades de carreira, prestígio e salário na altura muito razoáveis, os órgãos partidários, conselhos nacionais, comissões políticas começaram a transformar-se em "fontes com pernas". Nada se podia decidir que não aparecesse antes, durante e depois nos jornais, interpretado pela "fonte" e pelos jornalistas em função das suas simpatias pessoais e políticas. A qualidade decisória e de aconselhamento desses órgãos, que necessita sempre de uma certa reserva e de um tempo diferido de divulgação, foi-se degradando e correlativamente aumentaram os órgãos informais, que não respondiam a não ser na base da confiança pessoal. Esses "núcleos duros", task forces, começaram a proliferar ao lado dos órgãos formais, afastando a política e as decisões políticas de órgãos eleitos. Essa evolução para a concentração no Governo e em órgãos informais no tempo de Cavaco Silva foi patente, aliás, nas escolhas de secretários-gerais para o partido, em que depois de uma direcção política (Dias Loureiro) se caminhou para uma gestão técnica (Falcão e Cunha). Acentuou-se assim a divisão entre os que controlavam as decisões políticas e se acantonavam no Governo e os que eram barrados desse controlo e eram deixados apenas à gestão corrente dos seus interesses, a quem foi deixado o partido. Não foi um processo pacífico, porque o PSD estava então muito mais vivo do que o PS está hoje no poder, mas levou rapidamente à ascensão e rigidificação de uma burocracia partidária oligárquica que se instalou nos seus pequenos poderes nas secções, fechando o partido a qualquer competição, acentuou a tendência para os sindicatos de voto, instalou a JSD e os TSD como "partidos paralelos" com quotas de poder interno, instituiu "carreiras" que viviam apenas e só do controlo interno. O partido começou a ter mais "vida interna" do que influência externa e a perder a relação com os sectores mais dinâmicos da sociedade, os self-made man que tinham sido a causa do seu sucesso no passado e que agora não queriam ter nada a ver com o PSD. Estas tensões estavam patentes na conflitualidade entre "loureiristas" e "nogueiristas", a origem próxima de muitas fracturas dos dias de hoje. (Continua) (No Público de 21 de Julho de 2007) Etiquetas: PSD (url)
© José Pacheco Pereira
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