ABRUPTO

22.1.07


COISAS DA SÁBADO: JORNALISMO POLÍTICO E ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS


Como não há fome que não dê fartura, após longos anos de silêncio, temos hoje uma edição de estudos sobre a comunicação social activa e de qualidade, muita da qual é oriunda de jornalistas que enveredaram por um trabalho académico. O livro de Estrela Serrano, Jornalismo Político em Portugal. A Cobertura de Eleições Presidenciais na Imprensa e na Televisão (1976-2001), editado pela Colibri em colaboração com o Instituto Politécnico de Lisboa, é um excelente exemplo. Estrela Serrano conhece a realidade dos três lados, como jornalista, como assessora de imprensa do Presidente Mário Soares, e como investigadora académica. Ela conhece a “fábrica”, sabe como as coisas se fazem e como as diferentes peças da mecânica comunicacional funcionam. Este conhecimento nem sempre é uma vantagem, pode até ser um inconveniente pela tentação de cobrir com uma legitimação distanciada as práticas de manipulação comunicacional.

Não é o caso deste livro muito crítico do trabalho jornalístico, e que termina com uma análise devastadora do “campo jornalístico” dominado por aquilo que os anglo-saxónicos chamam de “pack journalism”, ou seja, não há alternativas, é quase tudo o mesmo e o mesmo é mau. O livro tem um interesse suplementar para um público interessado mas não académico: a sucessão de exemplos, em particular as transcrições das vozes dos jornalistas da televisão, que revelam o simplismo brutal, a osmose consciente e inconsciente do discurso político na voz do locutor, a repetição até à náusea de fórmulas e clichés.

O capítulo sobre a “análise qualitativa da cobertura televisiva” revela como a combinação imagem e voz e toda a coreografia da emissão “fala” para além de qualquer análise quantitativa ao modo dos tempos de antena. É um bom livro para ser lido alto na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

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© José Pacheco Pereira
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