| ABRUPTO |
semper idem Ano XIII ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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14.7.06
VIVER HABITUALMENTE ![]() O festival patriótico do futebol vai pouco a pouco entrando na normalidade. Os sindromas de abstinência continuam a manifestar-se, mas é só uma questão de tempo até a euforia dar lugar à depressão. Sozinhos, com o nosso pequeno mundo sem glória voltamos ao habitualmente, sem grandeza e quase sem esperança. Também a isto podemos fechar os olhos, uma especialidade muito nossa, mas a realidade tem muita força e o “material tem sempre razão”. No rescaldo do rescaldo, o incidente do pedido de isenção fiscal para os prémios dos jogadores foi o primeiro sinal de que a nossa assustadora realidade estava bem ancorada por detrás da ilusão. De repente, os jogadores passaram de “heróis” a bestas que querem privilégios do fisco, esse tenebroso monstro que personifica melhor do que ninguém, junto com o subsídio, o Estado. A Federação Portuguesa de Futebol lembrou-nos que, mais do que “nacionais”, os jogadores são “profissionais” o que, aliás, é uma das razões do seu sucesso, e ousou quebrar o mito de que o dinheiro nada tem a ver com isto. E o dinheiro é hoje, na escala do nojo, muito pior do que o sexo. Os jogadores, que são na maioria dos casos trabalhadores qualificados no estrangeiro, seguem as regras do estrangeiro, as mesmas que fazem os emigrantes ter sucesso. Por cá a inveja social, a pulsão igualitária, a rasoira do mérito lá surgiram na sua plenitude, mostrando a hipocrisia de tudo o resto. As reacções a tudo isto são interessantes e alimentarão muita antropologia vindoura. Ver-se-á um retrato muito interessante do Portugal 2006 que nenhuma sondagem, nenhuma votação, nenhum inquérito de opinião, revela com tanto rigor e primor. Intelectuais e povo, mostraram-se sem ambiguidades. Os intelectuais é o que se sabe, tem uma longa tradição de justificar tudo. Tem uma outra longa tradição: escrevem quase sempre sobre si próprios e sobre o seu papel como conselheiros, consiglieri, sibilas e adivinhadores, mesmo quando parecem escrever sobre os outros. São muito sensíveis ao modo como a sociedade os trata e hoje a sociedade trata-os bastante mal, como o império das audiências na televisão, a queda de tiragens dos jornais, etc. revelam. A democracia e o acesso das massas aos consumos, incluindo os culturais, varreram-nos do seu papel e o longo lamento que fazem ouve-se em Andrómeda. São livres de me aplicar todas estas palavras, que é a maldição de quem as escreve, mas não há maneira de as escrever sem esse risco. Uns, como não conseguem vencer o “povo” (e todos os intelectuais querem “vencer” o povo e quem disser o contrário mente) juntam-se a eles. Houve muito disso, houve quase só disso. Todos os dias dizem as maiores aleivosias contra o “povo” e contra os “portugueses”, mas chegados ao futebol tornam-se compreensivos e amáveis, “moscovitas” no sentido do poema de Pessoa, dão todo o dinheiro, do bolso onde tem pouco. Outros, a espécie mais perversa, deu uma no cravo e outra na ferradura, com cinismo quanto baste, sempre preocupados em não parecerem nefelibatas mas homens comuns e colocando-se no melhor lugar, na bancada mais alta, acima dos futeboleiros e acima dos críticos do futebol. Na realidade. o único objectivo deste discurso é para criticar os críticos do futebol que só eles afrontam. Na verdade, odeiam mais os outros intelectuais do que o “povo” do futebol, a que tratam com complacência. Quanto ao futebol, fumam mas não inalam. No Inferno de Dante há um lugar para eles, o da acedia. Sobra o “povo”, ou seja todos os que andaram estes dias em festa permanente. No “povo”, verifica-se mais uma vez uma velha suspeita que fazia as delícias dos “filósofos portugueses” dos anos do salazarismo nas suas elucubrações sobre a identidade nacional: os portugueses gostam de si próprios, estão de bem com o “rectângulo” para usar a expressão de Alberto João Jardim, não tem problemas com Portugal. Somos bons, vibraram em uníssono as almas e os corpos durante o Mundial, e, sabendo como somos bons, o Mundo do Mundial conspira contra nós impedindo-nos de chegar à nossa putativa grandeza de melhores do mundo. Há sempre um árbitro, um conluio, uma diferença de critérios. Há sempre uma conspiração pelo caminho para impedir o Quinto Império. Há sempre um estrangeiro momentaneamente mais poderoso que nós, que nos faz um Ultimatum. Fazem falta, dirão os velhos do Restelo, os façanhudos de antanho que brandindo a espada apareciam em sonhos ao fidalgo da Casa de Ramires e que faziam a diferença entre o sr. Oliveira da Figueira do Tintim e Fernão Mendes Pinto e os seus companheiros. Mas, mal ou bem, é dessa raça que somos e esperamos sempre que um fantasma do passado nos venha redimir dos pecados da actualidade. D. Sebastião, claro está, mas um D. Sebastião que vem para um povo que o merece. Mas isto não é eterno e pode estar a acabar. A última vez que andámos a matar-nos uns aos outros foi no imediato pós 28 de Maio, em que o conflito entre os “revolucionários nacionais” e os “republicanos” se fez de uma história violenta de revoltas com mortos, de deportações de exílios e de mudança maciça de cargos e prebendas. Não foi a mesma coisa que as lutas entre liberais e absolutistas, mas ao nosso nível ainda deu origem a umas centenas de mortos e a muita vida estragada. Quero com isto dizer que há muito tempo que nos entendemos uns com os outros muito bem e o unanimismo do futebol mostrou-o mais uma vez. Nem a guerra colonial nos dividiu de forma significativa, nem quando durou, nem quando acabou. Nem o Império escapou a uma indiferença activa em que somos especialistas. Centenas de milhares de portugueses regressaram, esperavam-se os maiores cataclismos políticos, uma reedição dos pieds noirs franceses virando a balança política e zero. Os “retornados” vieram do nada e voltaram para o nada. O nosso sólido entendimento continuou firme e hirto. Até um dia. E esse dia o futebol o escondeu de novo. É que a enorme plasticidade do nosso tecido social, a sua capacidade de absorver conflitos tornando-os moderados e macios, tem um preço. Esse preço é uma troca entre um Estado que não se reforma, que não só resiste à mudança como impede que nele caiba a mudança, e a moderação do conflito social. Greves a sério, pancadaria nas ruas, violência social não existem, como também não existem reformas que mudem o Estado. A vantagem de uma paga-se com o preço das outras. Só que o modelo de onde emana esse tão eficaz estado-almofada está esgotado e o miolo da almofada vai escasseando deixando ver a dureza do catre. A globalização tirou-nos o bom ar português dos nossos tradicionais e queridos defeitos, que agora são cada vez mais apenas defeitos e isso confunde-nos. O futebol é é apenas ilusão, não tábua de salvação. O mundo à nossa volta é o do fecho da GM na Azambuja e não se resolve a pontapé na bola. O que torna o futebol muito mais do que futebol é o seu poderoso ingrediente de escapismo, a última coisa que precisamos em Portugal nos dias de hoje. (No Público de ontem.) * O seu artigo de ontem do Público recordou-me duas notícias: (url)
© José Pacheco Pereira
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