ABRUPTO

15.7.06


COISAS DA SÁBADO:
SOLIDÃO QUEM A TEM CHAMA-LHE SUA: UMA EXPOSIÇÃO ÚNICA DE UM PINTOR ÚNICO

http://www.unex.es/unex/servicios/comunicacion/archivo/2004/052004/19052004/art1/Image00012427A exposição não está num dos espaços mais nobres da Gulbenkian , com luz e árvores ao fundo. Está numa cave ao lado dos auditórios. E, num certo sentido, esta escolha menor pareceu-me muito apropriada para exibir aquilo que é a mais completa exposição de Domingos Alvarez, o pintor galego do Porto. Aqueles quadros e desenhos, todos de muito pequena dimensão, cabem bem nos fundos da Gulbenkian e o seu mundo sinistro ainda cabe melhor.

Alvarez é daqueles pintores que parecem dar razão à negação do biografismo que os estruturalistas exigiam. Vamos para a biografia, aos tempos e aos sítios, e os quadros parecem mais triviais, cenas de pequenos entes à porta de tabernas, bêbados, cangalheiros, escriturários tristes em roupa que já não se usa. Este mundo estava à porta de casa de Alvarez, e ele pintou-o como ele estava. Mas quero lá saber da verosimilhança, é em Kafka que penso a ver os quadros de Alvarez, é em coisas universais, muito longe das ruas interiores do Porto que ele retratou, das tabernas e das fábricas, dos moinhos de Castela, da morrinha galego-minhota que parece estar a cair nalgum lado, mesmo quando os seus gnomos trazem guarda-chuva. Também pouco me cuida que Alvarez fosse culto ou não, que a sua pintura e os seus desenhos reflectissem uma história da pintura, um expressionismo irónico, ou um minimalismo trágico ou coisa nenhuma, uma espontaneidade genial e bruta. Não quero de todo saber, pelo menos para já. Quero ver.

A pintura de Alvarez não é ingénua é metafísica. Aqueles homenzinhos patéticos, reduzidos a símbolos torturados ou hirtos são os homens do século XX, mais números do que homens, mais ícones do que homens, mais vírgulas e pontos numa paisagem do que coisas que agem. Por isso, volto a Kafka, porque foi Kafka que primeiro nos mostrou que os homens do século XX iriam ser assim, andando como John Cleese com passos de "silly walk", no meio de uma burocracia que lhes retira individualidade e poder.


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© José Pacheco Pereira
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