ABRUPTO

11.7.06


COISAS DA SÁBADO:
DUAS LISTAS NEGRAS DO FISCO E NÃO UMA SÓ




Eu do Fisco quero a publicação de duas listas negras e não de uma só. Quero a dos contribuintes em falta para com o Fisco, e quero a do Fisco em falta para os contribuintes. Em bom rigor deveríamos ter uma lista permanente das dívidas do Estado aos seus concidadãos para se perceber até que ponto o estado não dá o exemplo que exige aos outros. E também quero responsabilidade na elaboração das listas, penalizações claras para os serviços que cometam erros, meios rápidos e drásticos para redimir informações falsas que afectem o bom-nome dos cidadãos. O Fisco é hoje um dos instrumentos mais eficazes para atirar para a lama cidadãos e empresas, por isso todo o cuidado é pouco e há males que são irremediáveis. Se querem usar armamento pesado, que penso ser legítimo usar para quem o merece, ao menos que usem do inteligente para minimizar “danos colaterais”.

Ah! E volto ao princípio, não se esqueçam que são duas listas. Duas listas. Duas listas.

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A propósito do seu post "Duas listas negras do fisco e não uma só", permita-me que lhe sugira uma terceira lista negra: a das dívidas do Estado aos Advogados oficiosos. De facto, estes desde Dezembro passado que não são pagos pelas diligências oficiosas que patrocinaram - o que, como é óbvio, afecta sobremaneira os Advogados mais jovens cujos rendimentos dependem bastante de tais serviços.

Não deixa de ser irónico tratar-se do mesmo Estado que, por via dos tribunais, condena os cidadãos que não cumprem pontualmente com as suas obrigações

(José Manuel de Figueiredo)

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"Eu do Fisco quero a publicação de duas listas negras e não de uma só".

Esta sua frase juntamente com os mailes dos seus leitores que se seguem, aconchegaram-me o espírito, uma vez que gradualmente (já há muito tempo) se assiste na blogosfera a um coro de vozes livres dando forma, sem estarem formatadas, ao repto de Pedro Arroja no Blasfémias - responder aos desmandos do Estado. Efectivamente, como repara um belga que conheço, residente em Portugal há muitos anos, ainda vivemos num sistema com tiques fascistas - fascista o Estado e fascistas os cidadãos porque ainda não conseguem (por defeito) insurgir-se contra ele - por medo, e quando as vozes se levantam, não são pacíficas - são de revolta, porque acho que, logo à partida, já sabemos que vamos perder.

As listas, as duas, aposto que hão-de ficar só pela intenção. Senão, há-de ver a luz do dia uma única e infâme.

(Maria Baldinho)

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Já que tanto se fala de Fisco e de futebol: Alguém sabe informar como vai o Totonegócio?

(C. Medina Ribeiro)

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(...)se em principio a lista de devedores será divuldada em algum portal da DGCI como por exemplo o das Declarações Electrónicas porque não criam os próprios credores o portal que reclama no seu artigo. Não seria talvez mais justo e responsável até para termos pelos um bocadinho de menor e melhor Estado de que toda a gente anda à procura.

(António Fonseca)

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Concordo em absoluto com a sua pretensão de o Fisco dever publicar duas listas negras e não apenas uma. Porém, em tudo isto há muito fumo. Relativamente às listas de devedores, parece-me relevante que a metodologia do Fisco na cobrança das dívidas assente no princípio de que os fins justificam os meios. O problema começa quando os fins são diferentes. Por exemplo, ao mais comum dos cidadãos, muito provavelmente da quase extinta classe média, a máquina fiscal é extremamente eficiente na cobrança das suas dívidas, nomeadamente através da retenção do reembolso do IRS. Por outro lado, as notícias que vêm a público é que, por exemplo, os clubes de futebol devem milhares de euros ao Fisco e aqui, para uns naturalmente, a máquina fiscal é tolerante. Esta "pequena" nuance pode não ser significativa para aqueles que gostam de futebol mas a mim parece-me exemplar na representação dos princípios de actuação do Fisco e que são sobretudo de discriminação. Sendo os fins diferentes, em termos de importância, os meios também são necessariamente diferentes. E sendo as listas de devedores um meio, estou curioso para verificar se de facto elas incluem o grupo dos "intocáveis". Por outro lado, o facto de o Fisco querer publicar apenas uma lista não é dissonante com o "ser português". Recordo-me de uma mercearia no norte do país ter colado na sua montra um papel com os nomes das pessoas que deviam mas de modo algum colou um papel com o nome dos seus credores. Normalmente, queixamo-nos de quem nos deve e raramente queixamo-nos a quem devemos. Quero com isto dizer que este método é unidireccional e tem claramente uma vertente ad hominem que é muito típica do "ser português". O processo consiste em criar na "vítima" sentimentos de vergonha, de culpa e de medo. E são precisamente estes sentimentos que levam a "vítima" a fazer tudo por tudo para pagar o que deve e recuperar o "bom nome" e a "honra". Os problemas começam quando o "fazer tudo por tudo" não chega. Isto leva-nos para outra conversa sobre a tolerância do Fisco mas isso por enquanto fica para outras núpcias. Resumindo, concluindo e baralhando, o que mais me inquieta é de facto o que está por detrás de tudo isto. E que ninguém vê. É o tal fumo. E o que está por detrás de tudo isto é a manipulação arrogante por parte do Estado com o fim último de nos aterrorizar a vida para sacar o seu legítimo quinhão. Na prática, convenhamos, é uma espécie de pré-contencioso muito mais barato. E para esta administração, os fins justificam qualquer tipo de meios. Desde que os fins sejam devedores, é claro.

(Ricardo S. Reis dos Santos)

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Ainda a propósito das listas, só o seguinte desabafo: acho detestável que um Estado que não consegue cumprir com as suas obrigações tenha uma autorização automática para inspeccionar as contas bancárias dos seus cidadãos-contribuintes perante qualquer, sublinho, qualquer incorrecção verificada por parte destes. Não é certamente o mais importante, mas uma das coisas que prezo é a discrição no que concerne à minha (e dos meus) situação financeira. Isto é tanto mais verdade, quanto é comprovável que parte pelo menos significativa das vezes é o próprio Estado a cometer incorrecções (que, justamente, podem levar - e levarão de ora em diante - à quebra do sigilo bancário). Como contribuinte respeitador, considero isto uma falta de respeito pelo direito à privacidade e discrição. Quem me garante a mim que os senhores funcionários das Finanças, ainda que obrigados a tal, não "brincam" com tais informações? Quem me garante a mim que o funcionário das Finanças que, por acaso, é meu vizinho e me conhece (e eu, que o conheço, não faço sequer ideia do que ele faz), por acaso também andou a verificar a minha situação financeira, só porque existe uma incorrecção de 10 ou 20 ou 100 ou 1000 euros relativa aos impostos do ano passado?

Como é óbvio, o sistema das autorizações judiciais não funcionava, pelo menos para o comum das situações. Não duvido, porém, que era a mais justa e respeitadora de um Estado de Direito Democrático (expressão cada vez mais vazia de sentido, devendo (voltar a) ser substituída por Estado-Polícia), só que, por incapacidade dos tribunais e de articulação destes com a administração fiscal, o Governo teve que optar por uma solução mais fácil e célere. Não importa se os direitos dos cidadãos ficam postos em causa. Mais uma vez são estes que pagam as incapacidades de funcionamento da máquina. Esta, porém, continua a alimentar-se a ela própria de forma voraz e incontrolável.

(Rui Esperança)

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Acabo de ler o seu blog e lamento que não se faça o que pede. Já agora o que pede, também, o leitor Nuno Dias. Não sou dos penalizados, mas privo com quem o é; inclusivamente conheço casos (plural) de quem tem de contrair empréstimos bancários para pagar o IVA devido, referente a facturas que o Estado não pagou no prazo, ou mesmo o IRS, se o ano fiscal mudou. Os juros ao banco não são pequenos e não é o Estado (devedor e sempre com as costas quentes) que os pagam. E nem todos têm liquidez para pagar os impostos e, simultaneamente, alimentar a família…

Duas listas. Diz bem: duas listas

(Gonçalo Wahnon)

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Enquanto se discute a publicção ou não da lista dos devedores ao Fisco, ninguém parecem preocupado pelo facto de ano atrás de ano o Estado restituir aos contribuintes pagadores fora de hora e sem a devida taxa de juro o imposto indevidamente cobrado Ou seja, ano a ano o Fisco não cumpre a legislação em vigor e, ao que parece, ninguém se sente atingido. De facto em Portugal, país corrupto e laxista, a Justiça só funciona para os pequeninos, os Grandes e os Poderosos não podiam estar melhor, nem na Colômbia...

(Alberto Fernando Sá Resende )

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A propósito das "listas",(...) não tem no Parlamento a mesma facilidade que há no PE de dirigir "perguntas escritas" e efectivamente obter uma resposta ? o regulamento permite-o ? seria interessante pedir uma destas listas.

(Manuel Pinheiro)

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Se me permite e a propósito da queixa que faz no seu blogue pedindo a publicação da lista de dívidas do estado a credores pela administração fiscal deixe-me dizer-lhe que não faz nenhum sentido. Uma coisa é o papel da cobrança de dívidas ao cidadão comum pelo orgão competente, outra coisa inteiramente distinta são as más práticas de gestão e o laxismo que exista por cada cada organismo como entidade autónoma e com capacidade para assumir compromissos. Este 'meter no mesmo saco' o 'monstro' Estado na análise política e na opinião pública em geral só vem trazer confusões a estas matérias que em nada servem a reforma da administração pública. Veja-se a título de exemplo o caso recente da reforma no ensino onde só se olhou para os 'casos' problemáticos e de muitas outras mudanças para as quais se relevam de imediato as más consequências que por vezes não passam de ser excepções a um caso geral. Neste tipo de clima terrorista e vago não se vai a lado nenhum e só saiem reforçadas as reacções demagógica. Como vai sendo hábito a demagogia costuma tomar logo de rompante a primeira palavra e frequentemente no mesmo modo fica-se também pela última. Isso é mau.

(António Fonseca)

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Se houvesse decoro não deviam publicar as listas de devedores ao fisco. Revelam que a Administração Fiscal não cumpriu o seu dever, que a legislação lhe confere. Esta situação é de todos os responsaveis políticos dos últimos anos. Mas, parece que em Portugal, cada partido que vai para o Governo, estava em Marte, e fica surpreendido com o que encontra no país. Haja decência!

Também gostava que fosse publicada a lista das dívidas do Estado às empresas e aos particulares, e para não ser muito exigente, dívidas superiores a um ano. Com certeza ter-se-ia de pedir aos credores essa informação, pois o Estado não a deverá conhecer nem está muito interessado, pois trata os Portugueses com arrogância. Desafio-o a pedir a economistas o estudo da influência desta situação na economia do País. Qual é a Empresa que pode pagar atempadamente aos seus fornecedores quando o cliente Estado se atraza com prazos superiores a 3 anos, e exige o pagamento dos impostos dessas dívidas.

Eu próprio sou credor dum Tribunal por peritagem efectuada à três anos.

(Dias Eugénio , Técnico Oficial de Contas)

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.. outras listas que eu gostava de ver:

Também gostava de ver a lista dos cidadãos com processos de licenciamento (comercial, ambiental, turísticos, etc) sem resposta atempada.
Conheço vários casos de investidores estrangeiros que acabaram por desistir de Portugal pelo tempo de demora a licenciar as actividades. Poderão não ser investimentos da dimensão de uma Opel, não ter dimensão para vir nos jornais. Mas são uma autêntica sangria. Não só no investimento estrangeiro que se perde como no nacional que definha.
Também gostava que houvesse um prazo para decisão de processos judiciais e que houvesse uma lista dos cidadãos que esperam essas respostas.
Sobre isto, penso que é dispensável exemplificar.
Também gostava de ver a lista de diplomas de regulamentação previstos em leis e decretos-leis e os respectivos prazos de elaboração e saber o tempo de incumprimento dos mesmos.
A título de exemplo, veja-se o art. 13º do DL nº 53-A/98, de 11 de Março.

(Nuno Dias)

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