COISAS DA SÁBADO: 70º ANIVERSÁRIO DA GUERRA CIVIL DE ESPANHA : DILEMAS
Uma nova historiografia revisionista entende arrombar portas de há muito abertas, insistindo em que na guerra civil espanhola não havia lado “bom”. O motivo é evidentemente político: ao se igualizar os “lados” e ao se retirar qualquer conotação moral às escolhas dramáticas da época, ajuda-se a igualizar ambos os beligerantes e a justificar quase sempre, o que ganha. Quem precisava desesperadamente desta revisão da história eram os franquistas, não os republicanos, o que também mostra a dificuldade de iludir dilemas que só nos parecem neutros porque já estamos distantes dos eventos.
Há nesta história revisionista um pequeno problema; é que se os dois lados eram maus, não era possível na época deixar de escolher um. Quem, dos muito poucos que achavam na altura que os dois lados eram maus, não o fazia explicitamente, acabava sempre por servir o mais forte que estava geograficamente do seu lado. Unamuno percebeu-o muito bem.
É que a história não dilui a moralidade, nem o dilema das escolhas feitas sob o fio da navalha, mas torna algumas coisas impossíveis a um momento dado. Há coisas que pura e simplesmente não se podem fazer em determinados momentos, sem não as fazendo, escolhermos. Os maniqueísmos não são desejáveis, mas nem sempre são evitáveis. Para alguns homens, provavelmente dos melhores, isso é de uma enorme violência, que nalguns conduziu ao suicídio, físico ou ético, e a muitos a remorsos e culpas que arrastam toda a vida. Mas a verdadeira tragédia da história é que há momentos em que não nos deixa escolhas. É mesmo assim.
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A propósito da guerra civil de Espanha, já por vezes meditei no que faria eu se lá tivesse estado, sabendo daquela guerra o que sabemos hoje. E não partilho a sua opinião de que há momentos em que não temos escolha entre dois lados maus. Naquele caso, por exemplo, como em outros semelhantes, há uma escolha de princípio sempre de tentar: sair de lá, se possível antes da guerra começar, o que requer uma grande capacidade de previsão. Era, em grande medida, o que faziam os jovens portugueses que emigravam para escapar à guerra colonial.
A não ser possível essa recusa da escolha, há pelo menos outra possível: a da recusa interior de identificação com a parte em que se for obrigado a estar, e a procura de uma participação reduzida ao máximo ao estrito humanitarismo. Era também, em grande medida, a atitude da maioria dos nossos jovens que iam à guerra colonial, razão importante da falta de empenho do nosso exército naquela guerra.
E, na II Guerra Mundial – aliás como na própria guerra civil espanhola, nas batalhas a norte de Madrid – os italianos do exército regular de Mussolini, nada convictos do ideário de Mussolini, rendiam-se em massa. A História viria a dá-los como cobardes, mas eu fui ensinado a considerá-los muito mais inteligentes que os disciplinados alemães de Hitler, que sempre me foram caracterizados como sendo dos que se atiravam a um poço quando o chefe tal lhes ordenava...
(Pinto de Sá)
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No seu texto "70º ANIVERSÁRIO DA GUERRA CIVIL DE ESPANHA : DILEMAS", toca o risco de revisões à posteriori da História, serem transpostas para a época dos acontecimentos.
Hoje em dia sabemos que na Guerra Civil de Espanha não havia o "lado bom". Entendendo o lado bom, como o lado da Democracia e da Liberdade. Franco, tal como a grande maioria dos ditadores de direita, nunca se escondeu debaixo de uma pele de cordeiro. O lado "Republicano" era na realidade um "lobo" tão perigoso quanto o lobo nacionalista, mas usou sempre uma pele de cordeiro. Nem os anarquistas do POUM, nem os comunistas do PCE lutavam para uma sociedade democrática. Apenas lutavam para impor a sua "ditadura", ditadura onde não havia lugar para qualquer outra facção.
Mas há 70 anos atrás, o comunismo e o anarquismo ainda eram umas doutrinas românticas, ainda se acreditava que efectivamente trariam algo de novo. por isso não podemos julgar à luz do conhecimento actual as decisões que foram tomadas há 70 anos atrás. Os estrangeiros que serviram nas brigadas internacionais (sobretudo os de origem ocidental) julgaram sempre estar a lutar no lado "democrático" e de liberdade, por isso não podemos julgar a sua decisão à luz do conhecimento actual.
(Luís Bonifácio)
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Aos exemplos nacionais que referi acima, de sensata recusa em fazer escolhas impossíveis, faltou-me acrescentar a rendição de Vassalo e Silva na Índia, atitude similar à dos italianos que eu referira e que creio merecer o apoio geral dos portugueses. E, se me permite, gostaria de acrescentar especificamente quanto à Guerra Civil de Espanha:
A definição do lado bom era na altura fácil, com o que (não) se sabia da História e em pleno apogeu das grandes ilusões ideológicas totalitárias do século XX.Para uns, era evidente que a desordem popular punha em perigo mortal valores sagrados: a unidade nacional com toda a sua mitologia histórica, a religião católica (basta ir a Sevilha na Páscoa para perceber o que isso significa em Espanha), a ordem e a paz sociais.
Para os outros, o golpe militar justificava o fim da conciliação com a apenas tolerada democracia e o início da revolução, a um tempo genuinamente popular na violência com que se matavam clérigos, patrões e administradores, e para outros a oportunidade de estender a revolução russa a um segundo país. Não nos esqueçamos que a maioria dos combatentes das Brigadas Internacionais não eram democratas românticos como hemingway, mas sim comunistas organizados pelo Komintern que em muitos casos estavam fugidos de ditaduras fascistas nos seus próprios países.
A lutar pela democracia houve muitos poucos, e os que houve, como Azanha, foram rapidamente marginalizados pelos outros. Em tal cenário, a escolha era fácil, à luz da época, mas quase de certeza errada. Qualquer que fosse.
Ah, para o leitor Bonifácio: a principal organização anarquista era a FAI e não o POUM. O POUM era trotskista, e um dos episódios mais vergonhosos da República foi a liquidação do POUM pelo PCE, em ferozes combates de rua numa Barcelona com os "nacionales" à porta, e a execução dos dirigentes do POUM á boa maneira estalinista (levados a maio da noite para nenhures).