O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES OPINIÕES, CHAMADAS DE ATENÇÃO, MICRO-CAUSAS, ETC.
O tema das micro-causas é relevante e entronca com a temática da cultura de exemplo que não existe em Portugal, tem-no dito também V. É, aparentemente difícil fazer compreender, não só à população em geral, mas também aos governantes, que subversões, favoritismos ou laxismos face às regras vigentes, por muito pequenos que sejam individualmente, quando tornados públicos (e mais importante, quando tornados públicos a sua impunidade e proveito óbvio), originam fenómenos emergentes de comportamentos à escala de toda uma comunidade (ou país).
A já estafada defesa de que são apenas excepções não se compadece com a realidade de que, em Portugal, no âmbito da prevaricação-soft (para o Português, o que não for crime de sangue é apenas um desvio comportamental imposto por uma tutela iníqua a que importa resisitir, em vez de os ver como roubos patrimoniais perpetrados contra o conjunto dos seus concidadãos), a excepção apregoada dita sempre as regras dos comportamentos seguintes, porque os desculpabiliza a priori.
(Luís Veiga)
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Falou-se muito ontem e hoje dos 70% de reprovações de alunos do 9º ano no exame nacional de Matemática. No entanto, a situação é pior do que parece, pois, salvo erro, só foram admitidos a exame os alunos que poderiam passar graças a este. Como o exame contava para 1/4 da nota final, isto teve como consequência que os alunos com nota final de 1 ficaram automaticamente excluídos.
(José Carlos Santos)
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Senti-me muito triste pelo que observei durante a minha visita ao Palácio e Convento de Mafra. A "guia", não era guia, mas uma guarda de museu (como atestava o crachá no peito) que, pelo treino de anos desbobinava referências sem cadência pedagógica, com má dicção, com erros graves de português e com informações erradas (pelo que pude perceber, em Mafra todos os "guias" são guardas do museu). A culpa não será concerteza dessa funcionária que estará a fazer o melhor que sabe, mas da ausência de formação e supervisão de qualidade.
Dos vinte visitantes desse turno de visita, só 5 eram portugueses, mesmo assim, nem uma palavra em inglês esteve disponível. E era patético os visitantes estrangeiros a fingir que percebiam e depois a rirem-se do equívoco quando a guarda lhes falava directamente.
Ouvi nessa visita, entre outras pérolas, dizer "trabeculosos", "mobiliário indio-português" e, referindo-se a duas cabeças de javali que aí estavam como troféu de caça, que "uma era de javali e a outra de porco-espinho pois, como se via os dentes eram diferentes". Quando chamei à atenção para esse erro contrariou-me, argumentando que todos os outros colegas diziam o mesmo.
Não tenho conhecimentos históricos suficientes para poder avaliar a exactidão de muitas das informações e curiosidades que foram referidas durante a visita, mas a forma e alguns conteúdos, destruiram qualquer hipótese de idoneidade. E isto destrói completamente uma visita guiada a um museu. Esta também é outra dimensão do respeito que é suposto haver pelo património.
(Manuel Figueiredo)
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É sintomático que no dia em que ocorreram os bárbaros atentados de Londres, Portugal tenha assinado o acordo de extradição com os EUA. De facto esta notícia passou no rodapé do "JN" sem grandes detalhes, mas penso que ela deveria ter sido, não sendo no dia em que foi, notícia de primeira página.
Com efeito pela primeira vez na história é possível que um cidadão nacional seja extraditado para os EUA, acusado de terrorismo desde que os EUA apresentem "provas". Estas aspas referem-se a provas como as da existência de armas de destruição maciça do IRAQUE, que justificou, á revelia da comunidade internacional, a invasão do Iraque. Uma imagem que nunca vou esquecer é de Collin Powell com um frasco de Antrax, made in USA, a discursar nas Nações Unidas.
As minhas questões são: Foi assegurada a reciprocidade? Isto é se Portugal reunir provas e acusar um cidadão dos EUA ele será extraditado e submetido á Lei Portuguesa? Se não então que acordo é este? Que mecanismos de segurança e controlo foram instituídos de modo a garantir que um qualquer cidadão português acusado inocentemente ou não, não vá parar a Guantanamo, á revelia de todos os tratados internacionais?
Se os EUA não se submetem ás regras do Tribunal Internacional de Justiça por crimes de guerra, porque temos nós de extraditar alguém sem garantias de que a Convenção dos Direitos do Homem seja respeitada. Os EUA são um país admirável e tem demonstrado ao longo da sua história um empenho na Luta pela Liberdade, quando isso é do seu interesse, mas a actual administração não inspira confiança em face das suas atitudes.
O actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Prof. Freitas do Amaral, tomou posições corajosas aquando da Invasão do Iraque relativas aos EUA, será que já esqueceu todas as suas reservas ou como diz o poeta "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".
(José Bernardo)
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Se calhar sou eu que não estou ver bem a coisa. É impressão minha ou a nossa comunicação social este ano está a dourar a pilula no caso dos incêndios que infelizmante lavram por tudo o país? É que eu bem lembro do ano passado não haver telejornal em que não viesse alguém bramar contra o governo por causa dos fogos. Toda a gente aparecia a solicitar mais meios por parte do governo e a exigir (como foi feito) que o ministro da tutela se deslocasse aos lugares para ver in loco o que lá se passava. Este ano NADA. Ninguém exige, ninguém acusa o governo e o ministro, NADA. É o perfeito exemplo do controle dos media por uma esquerda que sempre teve por eles uma atração que mais cedo ou mais tarde se revelará fatal. O povo não é estúpido.
(António Lamas)
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Gostaria de lhe relatar um caso - ainda mais micro - que se passou com a minha familia. Embora num contexto diferente do caso apresentado no seu texto, creio ser também revelador de que "quase nada funciona em Portugal, porque é que ninguém acredita no estado, nas leis, nas autoridades, nas instituições".
Há vários anos a morar num prédio com 8 condónimos, eis que recentemente o filho de um desses condóminos achou que faria de um espaço comum, o canil para o seu novo cão. (...) Para além do regulamento do condominio proibir animais domésticos, obviamente que não se faz um canil num acesso a garagens, muito menos num espaço do qual não se é proprietário (passo a redundância, pois é acesso a garagens...). Como é óbvio a pessoa em causa não acatou o que lhe foi dito na reunião de condominio... etc...
Passando ao paralelo com o seu artigo: É revoltante ver que uma situação sem qualquer dúvida legal ou moral, e pública, pois é fácil constatar da veracidade da história... ou seja, sem qualquer obstáculo á justiça rápida e eficaz... permaneça na mesma, mais de um ano depois de ter sido apresentada queixa. É muito triste. A policia limitou-se a comunicar á autarquia, da autarquia... nada. Qualquer tentativa de saber como vai o processo, esbarra num... "está a ser averiguado." (como se houvesse algo de dificil para averiguar), ou mais caricato ainda: "o meu colega hoje não está cá. Isso é com ele."(com aqueles modos à funcionário do "não me chateiem que o ordenado ao fim do mês é o mesmo"). Enfim, é mais um processo que vai circular o tempo que for necessário até ser esquecido saltando entre o departamento da "higiene e não sei quê" e o gabinete do "director dos serviços camarários e mais qualquer coisa". Ou pior: simplesmente parado, pois desconfio que mesmo que ande, esbarrará em algo do género: "foi-se verificar e não vimos nenhum cão.". Refira-se que esta história passa-se numa pequena cidade onde toda a gente se conhece, ou perto disso.
Para além do paralelo com o seu texto, em que é muito triste a acção dos serviços do estado, ou melhor, a falta de acção, gostaria de levantar uma questão. Será que na origem desta história não está também um clima de quase (por enquanto...) total impunidade? Um país em que casos como o "seu" ou o "meu", não são excepções. Esse clima também contribuirá para que qualquer troglodita saiba que sem estado de direito é a lei do mais forte, pelo menos do que se predispõe a isso, e dessa forma sabe que fará o que quer sem que nada nem ninguém o pare? Não estaremos a entrar num ciclo vicioso, do qual será muito complicado sair? Pois por cada história destas há sempre mais uns "espertos" que percebem o poder que têm, e mais tarde ou mais cedo vão usá-lo? Depois é só uma questão de oportunidade e dimensão. Butterfly effect. Este problema de inação, ineficácia, laxismo, sei lá... não será mais grave do que possa parecer? Que futuro, que evolução, pode haver na ausência do estado de direito? Sublinhando que o estado de direito faz-se no dia-a-dia da vida dos cidadãos, e não numa folha de papel.