ABRUPTO

12.7.04


TEMPOS DUROS 3: O ARGUMENTO HEGELIANO

Já se esperava que voltasse, e em força, aquilo a que chamo o argumento hegeliano. O argumento hegeliano pode ser exposto assim: o que tem que ser, tem muita força; logo, o que acontece teve que acontecer; logo o que acontece tem que acontecer. Não adianta esbracejar (e reparem como eu uso já uma palavra condenada pelo ridículo, “esbracejar”, que é para entrar bem dentro do argumento hegeliano e de uma das suas sequelas: ou se fica “senhor”, ou se fica “escravo”). A força do que “é”, é inelutável, e era disto que gostavam os hegelianos de direita, e, de um modo geral, os que aceitam o que é, porque o que é tem muita força e eles nenhuma. Os de esquerda gostavam do princípio da negação e não gostavam da “negação da negação”. Mas isso é para o BE, que se construiu na base da negação da “negação da negação” (por isso é que são pós-trotsquistas e são muito afirmativos da negação - dos outros).

Daqui decorrem depois múltiplas conclusões, todas elas assentes na inevitabilidade do que “é”. O que “é” ganha então uma explicação retrospectiva, intelectual, afectiva, e, a um dado momento, moral. Entra então em funcionamento o famoso “caixote do lixo da história”, para onde vão todos os que o “é” nega, pelo próprio facto de existir. O “é” só pode ter sido feito de qualidades e virtudes, senão como é que seria “é”? Pelo contrário, os que o “é” nega têm que ter algum mal intrínseco, ou são irrealistas (leia-se parvos, já que não conhecem a realidade que gerou o “é”), ou são preguiçosos (argumento contraditório com o anterior, porque não há labor que contrarie a marcha inevitável da História, ou seja, da realidade), ou então não fizeram o que o “é” fez, mesmo que isso tenha sido condenado quando o “é” ainda não o era. Mas a vitória que transforma o não-ser em ser dá-lhe retrospectivamente o direito de ver os defeitos transformados em virtudes. Veja-se como exemplo de argumento hegeliano o editorial do Público de hoje.

Esta forma de argumento hegeliano esquece a “ironia” da História, com H grande, que também vem em Hegel, e que neste caso se chama a “partida inesperada” ou a “deserção inimaginável”, mas não importa. A força do “é” é tanta que até o inesperado se torna esperado. Não esperavam, pois não? Deviam era ter-se posto na bicha da História.

O “é” antes de ser já o era. Inevitavelmente. Aliás é onde vai desaguar o argumento hegeliano: tudo o que acontece é inevitável, o que explica o cem a zero. E o cem tem muita força, não é?

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© José Pacheco Pereira
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