O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SIRI USTVED, PHILIP ROTH E NAGUIB MAHFUZ E OS "ESTADOS DE ALMA"
"De tanto ler sobre a boa literatura americana contemporânea, decidi que teria de me obrigar a lê-la. Tinha um romance comprado há uns meses com um lindo título “What I loved” de Siri Ustved, escritora norueguesa há muito nos EUA e a conhecida mulher de Paul Auster. Tenho uma forma (não temos todos?) muito subjectiva de escolher e comprar livros, não a saberia explicar, mas o que é um facto é que, como já me vou conhecendo um pouco, não me costumo enganar e a grande parte das vezes fico satisfeita com o que compro, querendo repetir a dose. Comecei pelo “What I loved” continuei com o “The Human Stain” de Philip Roth, mas pelo meio quis respirar do “meu” ar e li um pequeno livro de Naguib Mahfuz (já vi escrito Mahfouz!) “As Noites das Mil e Uma Noites” (da edição “Prémio Nobel” barata e de capa dura que a FNAC tem, só não percebi que tipo de tradução era, fiquei com a sensação que era tradução da versão espanhola!). Foi este último que referi, que me levou aos estados de alma. Não se trata de um romance: é mais uma sequência com alguma lógica de pequenas histórias ou contos passados no “mundo real” (?) e fora dos palácios onde Sherazade vive (feliz para sempre?) depois de ter escapado da morte. Encontramos algumas personagens que já conhecíamos tipo Aladino, Sindbad, e também génios do bem e génios do mal que manobram as personagens, criam conflito ou resolvem problemas; o poder do dinheiro e a corrupção; o amor e o desej; e a todo o momento nos confrontamos com o bem e como mal (só num pequeno e subtil momento, que se relaciona com a própria Sherazade, senti a hesitação do narrador em relação ao bem ou mal e a essa nitidez de fronteiras!). Com este livro respira-se um ar fresco e de simplicidade (...) existencial e psicológica que me encantou. E que em tudo contrasta com o ar mais turvo que se respira nos dois romances americanos que referi. São, no entanto, dois bons romances e nunca poderia dizer o contrário."
SIRI USTVED
"O de Siri Ustved tem uma bela linguagem e é escrito com muita sensibilidade, alguma nostalgia que vai aumentando à medida que o romance se desenvolve e existe nele uma interessante teia de personagens com interligações ora subtis, ora bizarras, ora insólitas, ora profundas, entre elas; e este elemento, esta teia, é para mim a grande força do romance. O romance de Philip Roth está muitíssimo bem escrito, tem uma linguagem forte, original e cuidada. Tenho, no entanto, pouca simpatia pela linguagem excessivamente crua, e as ocasionais páginas cheias de “four letters words” ou descrições hiper-realistas da guerra no Vietnam são passadas a velocidade turbo com uma leitura diagonal que faria inveja a muitos! (Dantes nunca fazia isto, hoje já não tenho paciência para, quando posso escolher, fazer o que não gosto ou o que não quero). O tipo de narrador escolhido, uma personagem menor, mas pivot importante do enredo fez-me lembrar o “Quiet American” de Graham Green. Dito isto: foi com verdadeiro prazer que li este livro, não só pela qualidade da escrita mas também pelas ideias e sentimentos veiculados de forma curiosa, intensa e viva, e nalguns momentos que considerei muito belos senti o impulso de parar e reler a frase ou o parágrafo (sou, normalmente, leitora lenta que gosta de apreciar o que lê, e este meu impulso é o meu melhor cumprimento). Mas (pois é: é agora que entra o “mas”) foi um prazer maioritariamente cerebral, não tendo existido uma completa entrega mútua, embora em dois ou três momentos a faísca tenha surgido. A total adesão afectiva parece portanto ser fundamental para que um romance se torne n’ “O” romance!"
PHILIP ROTH e NAGUIB MAHFUZ
"A explicação que hoje tenho para dar (talvez descubra outras) tem uma dimensão quase infantil, e é o que me afasta afectivamente, e diria quase sistematicamente, desta literatura. Trata-se da identificação e/ou simpatia pelo herói/heroína, ou pelas personagens de uma forma geral, pela parte do leitor – eu. No livro de Naguib Mahfuz há essa adesão (no bom ou mau sentido que será, então, a repulsa) automática e instantânea às personagens, e o mesmo se passou, talvez não tão automaticamente, mas em crescendo, aquando da leitura das atormentadas personagens da literatura russa com personagens em que nós nos revemos. As personagens desta moderna literatura americana não me provocam muito, nem simpatia nem repulsa. Sinto-as um pouco longe, como se não fossem feitas da “mesma massa”, como se tivessem uma alma diferente, num mundo que não é o meu, com complicados problemas existenciais (aos quais me sinto alheia) criados pelos excessos que referi, e rapidamente suprimidos e anestesiados pelas terapias, pelos Xanax, pelos Viagra. Parece que os problemas são problemas que se consomem como outro qualquer bem que se compra no supermercado para consumo imediato ou a prestações, tudo dentro do espírito consumista da visão do mundo do outro lado do Atlântico. Adiro mais facilmente a um “génio” do mal que, sentado na borda de um lago, conspira sobre a melhor maneira de tornar a vida de duas simpáticas pessoas infernais, do que a um homem de 71 anos que se fez passar por branco sendo negro, e que tem problemas por isso e por ter um caso (digo um caso não digo amor ou paixão) com uma mulher mais nova com um passado marcado pela tragédia e que é analfabeta funcional. Essa dimensão afectiva de adesão às personagens, como as crianças que se revêem nos heróis, nas princesas, falha entre mim leitora e estes romances por pouca empatia para com as personagens."
"Neste livro que referi de Naguib Mahfuz os estados de alma ainda não tinham sido inventados. Nos romances russos os estados de alma parecem ter razão de existir, ou melhor, a existência e a razão de existir parecem chamar os estados de alma, há uma forte dimensão de “tragédia” de fado, de inevitabilidade. Como já referi, nos romances americanos fica sempre aquela impressão de maior superficialidade, de problemas criados por quem tudo tem, da ausência da inevitabilidade do fado; nestes romances fica a sensação que tudo está nas mãos das personagens, nas suas opções. E talvez seja esse conjunto de circunstâncias que a minha adesão simpatia/repulsa não acontece da mesma forma. Mas lerei mais americanos e conviverei com os seus “inventados” estados de alma. Daqui a uns tempos!"