ABRUPTO

9.12.03


O VÉU

Em França discute-se intensamente o véu islâmico nas escolas. Nos debates televisivos só falta passarem a vias de facto. Entretanto, os franceses já perceberam que o problema não se fica pelas escolas, mas alastra aos hospitais, onde uma parte da comunidade muçulmana exige regras de atendimento que "respeitem" os seus valores religiosos. Na Alemanha, o problema do véu já não se coloca apenas entre os estudantes, - embora a questão não tenha a intensidade da França que vê posta em causa a tradição republicana da "laicidade" -, mas nas professoras muçulmanas da escola pública que dão aulas de véu. Na Suécia, onde não há qualquer restrição quanto ao véu, surgiu o problema quando apareceram duas alunas de burka. A sua presença na escola, assim vestidas, foi proibida com o argumento que o professor para ensinar precisa de ter "contacto visual" com os seus estudantes. O problema avoluma-se e, mais cedo ou mais tarde, cá chegará.

Não é um debate simples, nem tem soluções simples. Pessoalmente sou a favor da maior liberdade na maneira como as pessoas querem afirmar a sua identidade, logo acho que a via francesa de legislar proibindo o véu nas escolas, é autoritária e tipicamente jacobina. Mas não posso esquecer que há um problema com a condição da mulher no Islão, que implica um conflito de valores com a nossa ideia civilizacional de igualdade e dignidade humana, que o véu não é hoje apenas um forma de vestir segundo um código religioso, mas transporta uma simbologia política e que o pluralismo cultural não se sobrepõe no sistema de valores à liberdade e à sua ética.

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© José Pacheco Pereira
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