ABRUPTO

10.8.03


MICRO-CAUSAS

As razões por que cada um tem um blogue são muito diferentes e essa diferença é uma das riquezas desta atmosfera. Mas uma leitura de vários blogues revela interesses e agendas próprias que envolvem um espírito de “causa”, um activismo orientado. Há causas, pequenas causas e micro - causas em muitos sectores da vida pública. É natural que assim seja também nos blogues.

Se os blogues me parecem um meio pouco adequado para, chamemos-lhe assim, neles se centrarem as grandes causas, que não entram aqui a não ser pelo protesto, pela denúncia, pelo testemunho, o que é pouco , já para aquilo que chamo as micro - causas pode haver resultados.

Veja-se o caso dos foguetes. Haverá quem, com um sorriso de lado, presumo que em riscos de ficar permanentemente de lado e parecer um esgar, dirá: a gente vem aqui para falar de Larkin e Auden e vem este aqui discutir os foguetes. É, vem. Vem aqui discutir os foguetes porque acredita que pode ser eficaz em reduzir o risco de fogo e a dispersão dos bombeiros a muito curto prazo, neste Agosto. Não me passa pela cabeça que possamos fazer muita coisa sobre o ordenamento florestal ou sobre a organização dos bombeiros, mas pressionar o governo para proibir o fogo de cana, talvez seja possível. Não há nada que os governantes mais temam do que a possibilidade de, se correr qualquer coisa mal, poderem ser confrontados com um aviso público, uma prevenção que conheciam e que ignoraram.

Penso, no entanto, que a condição de sucesso destas micro - causas é serem sensatas, razoáveis e moderadas. Não se trata de proibir o fogo de artifício, trata-se de proibir o fogo de cana lançado para terra, nas partes do país em que isso é um risco conhecido de incêndio. A legislação já existente é, como muita legislação portuguesa, duríssima, só que nunca é aplicada. Obrigar a que os bombeiros se desloquem nesta altura do ano para milhares de festas do país para controlar o lançamento do fogo, é pura decisão de gabinete e perigosa. Existem resistências populares consideráveis a que haja festas sem foguetes, e os governadores civis, oriundos das máquinas partidárias, não querem impopularidades e incidentes? É verdade, mas quem não quer ter autoridade que não lhe vista a capa.
Eu acredito na distinção entre a democracia e a demagogia, que se revela nestas humildes coisas dos foguetes.

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]