ABRUPTO

10.8.03


EARLY MORNING BLOGS 25 (Actualizado)

Sou fiel aos sítios onde aprendo e a Formiga é um deles.

Há uns dias, a propósito dos incêndios, está lá uma fotografia de satélite que contém mais informação do que dezenas de noticiários. E por cima da fotografia um título tão terrível como verdadeiro:”a ignorância é uma calamidade”. É, a ignorância é a nossa calamidade, a ignorância pura e simples, a ignorância esperta, a ignorância presumida, a ignorância arrogante, a ignorância boçal.

O problema é que a mediocridade da vida possível, a pobreza dos meios socialmente disponíveis, o próprio modo como a ascensão social das famílias se fez da absoluta pobreza para uma mediania satisfatória, parece travar um impulso de melhoramento. Talvez porque fomos muito pobres, parecemos satisfeitos como o nível da mediocridade que atingimos.

Como parece que a pulsão social para sair da miséria rural, que levou uma geração de trabalhadores rurais e pequenos camponeses a poderem dar aos seus filhos um mínimo que lhes demorou toda uma vida a ter, criou nos filhos uma espécie de acomodação com o que os pais lhes deram e passaram a viver “habitualmente”, ou seja a andar para trás em relação ao resto do mundo que anda para a frente.

Será que uns cresceram num Portugal mais violento e desequilibrado e portanto onde a ascensão vertical era quase que empurrada pela necessidade de garantir mínimos vitais? Será que depois, quando se atingiram esses mínimos se deu uma espécie de repouso, facilitado pelas mil e umas estratégias de vida garantidas pelo “Estado - providência”? E que hoje, com a cultura da casa, do carro, do whiskey, do marisco, da piscina, da praia, do centro comercial, do futebol, achamos bastante? Será que perdemos a violência e mantivemos a boçalidade?

Eu não desprezo a fabulosa mudança que isto representa para um povo que andava descalço há sessenta anos, mas já está na altura de se dar o passo seguinte e é difícil ver onde está a força para o dar. Porque o passo seguinte é o de acabar com a “ignorância” , essa mistura de betão de hábitos de complacência e facilitismo que cria um enorme lastro a todo o movimento.

Eu sei que tudo isto é impressionista, que um sociólogo nunca o diria assim, mas que numa parte importante de Portugal uma cultura “providencial” parece ter travado a vontade de ser melhor, de ser mais culto, de ser mais livre, ai isso parece.

*

Pelas mesmas razões de aprender, de ter a alegria de aprender, também volto ao Socio[B]logue. Só que onde lá se coloca Deus nos detalhes, eu estou habituado a colocar o Diabo. Daí que a genealogia da frase seja outra, e a sua língua original diferente -. "the Devil is in the details ". Por razões que se podem discutir , suspeito que é mais o Diabo que Deus, o habitante das pregas das coisas, dos detalhes, dos decisivos detalhes. Se não houvesse detalhes não era tudo mais simples, mais próximo das virtudes divinas? Porque ser Deus não é complicado.


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© José Pacheco Pereira
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