ABRUPTO

10.8.03


COUNTRY – CONTRIBUTOS

Nota: já não é a primeira vez que uma frase que se pretendia irónica é tomada à letra. Culpa minha, que me esqueço de uma forte tendência para o literalismo existente nos blogues. A minha descrição da country apenas como música pimba americana destinava-se exactamente a criticar os que a isso a reduziam.
Alguns dos leitores do Abrupto enviaram contribuições sobre a country que a seguir se publicam.

Hugo Pinto acrescenta :

vejo que já lhe referenciaram, e bem, Johnny Cash e Townes Van Zandt. São, juntamente com o paladino Hank Williams, os nomes que mais influenciaram a geração que, respeitosamente, recomendo. Falo de uma música que as publicações europeias designam singelamente de "americana". Ainda se chegou a falar de "alternative country"...
Aqui ficam alguns nomes: Lambchop, Chris and Carla, Palace Music (que é Will Oldham, cujo heterónimo é Bonnie 'Prince' Billy), Red House Painters, Neil Casal, Tarnation, Smog. É, acima de tudo, muito boa música."


Miguel na Origem do Amor remete também para canções country num seu outro blogue.

António envia-me a sua memória pessoal da country :

"Comecei a apreciar a música country por volta de 1962, em Moçambique. (…) Penso que neste estilo –e eles até dizem country & western style – ele há de tudo, como na botica. O mesmo se poderia dizer em relação ao fado ou ao tango argentino.

Não me parece que o Tex Ritter deva ser apontado como exemplo negativo, tanto mais que ele também interpretou trechos muito mais interessantes, designadamente o tema do célebre filme “O Comboio Apitou Três Vezes –High Noon / do not forsake me oh my darling”- e que não era, de forma alguma, um filme reaccionário. Diz-se que John Waye colocou esse filme na lista negra, por causa da cena anti-autoritária em que Gary Cooper atirava com a estrela de xerife para o chão para a pisar em seguida. Diga-se ainda que a música era da autoria de Dimitri Thiomkin, um nome consagrado de Hollywood.

Muitos cantores populares norteamericanos passaram ou tiveram que passar pela country, também definida como “white men blues”. E também houve cantores negros, como o Ray Charles, que venderam milhões de discos com interpretações dessa música de brancos wasp, numa altura em que os afro americanos ainda não tinham conquistado todos os direitos cívicos nos Estados Unidos.

Se consultarmos a lista do “Country Music Hall of Fame” verificamos que há, efectivamente, nomes absolutamente impróprios para o consumo, como Merle Haggard. Mas também encontramos pessoas recomendáveis em termos de crítica social, tais como Johnny Cash ( e os seus colegas “highwaymen” Waylon Jennings e Willie Nelson”). Cash até conseguiu trazer o Bob Dylan para estas lides, participando no excelente album “Nashville Skyline”, que também é uma homenagem à “Meca” da música country. Claro que, nessa altura, Dylan era um valor consagrado da “protest song” e ainda não tinha caído no fundamentalismo judaico.

Li algures que Nashville se transformou na capital da música country devido à existencia de um número considerável de saloons e de outros recintos adequados às vozes de Hank Williams e seguidores, um pouco como as tabernas do Bairro Alto e da Alfama em relação aos cultores do “portuguese blues”. Mas o fenómeno de Nashville é também o resultado do trabalho empreendido pelo pianista e produtor Floyd Cramer, de parceria com o excelente guitarrista Chet Atkins. O que era canção de vaqueiro passou a ser produto cultural e industrial algo sofisticado.

Compositores consagrados da pop americana dos anos 60 deram à country títulos de glória. Lembro-me de Jimmy Webb que escreveu alguns dos maiores standards, tais como “Wichita Lineman”, “Galveston” e “By the Time I Get to Phoenix”, interpretados originalmente pelo célebre Glen Campbell e que posteriormente entraram nos reportórios de artistas ultra consagrados como Sinatra. Curiosamente, um dos maiores standards da country, “Let It Be Me”, foi composto pelo francês Gilbert Bécaud. Este foi convidado a ir a Nashville receber um dos grandes prémios da country, mas recusou porque não lhe pagaram o bilhete do avião...

Pela parte que me toca, sou fanático das vozes femininas da country, tais como Linda Ronstadt e Emmylou Harris, embora os puristas as designem como cantoras de variedades... Graças à internet tenho conseguido reunir uma colecção razoável de trechos. Até consegui arranjar canções de Jim Reeves gravadas na Africa do Sul em afrikaans, nos anos 60, com o Cramer e o Atkins.

Não me parece que este género musical tenha sido explorado pelos artistas portugueses. Excepto, talvez, o Paco Bandeira na “Minha Cidade” ( “oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista/ sou contrabandista de amor e saudade/ transporto no peito a minha cidade) ...
"


Paulo Azevedo lembra Townes Van Zandt:

O Townes Van Zandt foi um texano (de pedigree familiar holandês, daí a estranheza do nome para um texano) que editou entre 1968 e 1978. Era um filho da classe média mas com uma inclinação irremediável para o lado mais depressivo e contemplativo da vida. Chegou a ter um relativo sucesso, apesar de ter passado grande parte das fases iniciais e finais da carreira a tocar em bares.

Inscreve-se naquela tradição folk-blues que começou com Hank Williams ou Woody Guthrie, assim como nos blues à desgraçado do tipo Lightnin' Hopkins; e que continuou (mais recentemente) com os primeiros sons do Bob Dylan, Lee Hazelwood, Scott Walker, Nick Drake ou mesmo (ainda mais recentemente) Mark Koezelek (dos Red House Painters) e o próprio Jeff Buckley.
Não cai naquele country mais xaroposo; é uma música muito melancólica mas ao mesmo tempo muito genuína; ou seja, os ambientes criados não são estilizados de forma a parecerem tristes, são-no naturalmente.

Há tempos encontrei uma CD set de 4 discos com todo o material gravado pelo Van Zandt; é uma edição daquelas bonitas e cuidadas que parece um livro rectangular e tem fotos e textos muito bons. Fica-se com uma boa perspectiva da música e do enquadramento pessoal e social em que ela surgiu.

Chama-se 'texas troubador' e tem, nos 4 CDs, 8 álbuns (LPs):

-for the sake of the song (1968)
-our mother the mountain (1969)
-townes van zandt (1970)
-delta momma blues (1971)
-high, low and in between (1972)
-the late great townes van zandt (1972)
-flyin' shoes (1978)
-live songs from 1973 (1973)



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© José Pacheco Pereira
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