ABRUPTO

30.6.06
 


INTEND�NCIA



Parece, sublinho, parece, que os problemas de migra��o dos computadores v�o ser resolvidos, sem qualquer recurso � ajuda e assist�ncia da HP. A solu��o veio-me dos leitores do Abrupto que j� tinham tido que resolver problemas id�nticos, tamb�m sem qualquer ajuda da HP, revelando s�rias incompatibilidades da instala��o original do software feita pelo fabricante. � uma solu��o trabalhosa e com outro tipo de dificuldades, mas que me parecem (talvez) mais f�ceis de resolver. Seja como for, se acabar por ficar com o computador, este ser� o �ltimo HP que compro.

Em breve darei pormenores.
 


EARLY MORNING BLOGS

806 -"I bear a burden that might well try / Men that do all by rule"

Two Songs Of A Fool (I)

A speckled cat and a tame hare
Eat at my hearthstone
And sleep there;
And both look up to me alone
For learning and defence
As I look up to Providence.

I start out of my sleep to think
Some day I may forget
Their food and drink;
Or, the house door left unshut,
The hare may run till it's found
The horn's sweet note and the tooth of the hound.

I bear a burden that might well try
Men that do all by rule,
And what can I
That am a wandering-witted fool
But pray to God that He ease
My great responsibilities?

(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

29.6.06
 


A �NICA OPOSI��O POSS�VEL � A LIBERAL



Estamos num desses momentos em que mais � necess�ria pol�tica no espa�o p�blico, e o que acontece � o contr�rio, ela praticamente n�o existe, obscurecida por uma mistura anestesiante de circo, de conveni�ncias, falsos consensos e maus h�bitos do poder. N�o havendo cr�tica nem altern�ncia, gera-se um feito de obscuridade, n�o havendo �nimo cr�tico, o espa�o p�blico mirra.
Os tempos que vivemos recordam-me, e a mem�ria � uma maldi��o, de outro tempo recente muito semelhante: os primeiros anos do engenheiro Guterres. Nesses anos de gl�ria, quando o engenheiro apesar de n�o ter maioria absoluta governava como se a tivesse, era um esc�ndalo suscitar d�vidas, interroga��es, cr�ticas ao seu magn�fico desempenho. Lembro-me de ter escrito ent�o que me sentia uma esp�cie de ET quando mesmo os meus mais pr�ximos me diziam que era imposs�vel criticar Guterres. Havia dinheiro por todo o lado, a bolsa dava, a cada pequena esquina uma pequena fortuna, todos estavam felizes.

Hoje sabemos que muitos dos erros tr�gicos, que se est�o a pagar caro uma d�cada depois, foram cometidos nessa altura, quando uma excepcional conjuntura favor�vel nos dava a �ltima oportunidade de arrancar e a malbaratamos sem resultados. O governo de Guterres � hoje visto como a grande "oportunidade perdida", mas quem o percebeu e disse na altura? Contavam-se pelos dedos de uma s� m�o os cr�ticos do engenheiro, isolados e ignorados, pelo mesmo "consenso" que hoje considera o seu governo um desastre. � assim e continuar� a ser - em Portugal quando um consenso de rebanho, entre elites, pol�ticos e jornalistas, se instala, tem muita for�a, abafa quase tudo.

Hoje passa-se o mesmo, com a grande diferen�a que estamos em tempo de vacas magras e o Governo, em vez de nos prometer abund�ncia, promete-nos dificuldades. � interessante verificar que � exactamente esta diferen�a que alicer�a o consenso de hoje, com a mesma for�a acr�tica do consenso do passado. O consenso assenta na ideia de que o pa�s est� mal e de que o Governo defronta esses males com coragem, pelo que merece o abater de todos os pend�es. Muito pouca gente se pergunta se n�o era poss�vel n�o apenas fazer melhor, mas fazer muito diferente e se essa diferen�a faz, afinal, toda a diferen�a. Banhados em milhares horas de circo e gladiadores, na anomia generalizada de todos a fazerem a sua vidinha como se nada fosse, e no escapismo, who cares?

Como � que se chegou aqui? Pela combina��o da vit�ria de duas pessoas, Manuela Ferreira Leite e Jos� S�crates. Num certo sentido, Manuel Ferreira Leite � a grande vencedora pol�tica da actualidade. Com a ironia habitual da hist�ria, para se ver a sua raz�o, foi necess�ria a sua queda e a do governo que se preparava para a afastar do cargo, por pensar que queria mais vida para al�m do d�fice. Tamb�m o governo que se lhe seguiu queria dar mais folga aos portugueses e descobriu uma "retoma" que nunca houve. Ambos, Dur�o Barroso e Santana Lopes, com o PSD profundo �s palmas, queriam ver-se livre da "antip�tica" ministra que lhes dava cabo das sondagens. Mas Manuela Ferreira Leite tinha convencido os portugueses a aceitar sacrif�cios para p�r a casa em ordem e, como estes desconfiavam das facilidades e da compet�ncia que Santana Lopes lhes prometia, foi procurar no outro lado, no PS.

S�crates apanhou a boleia desta ideia da necessidade de austeridade que o PS e ele pr�prio tanto tinham criticado. Ele come�ou a falar a linguagem apropriada ao sentimento da opini�o p�blica que Manuela Ferreira Leite lhe tinha deixado. Como se apercebeu de imediato, isso tinha sucesso e ele conseguiu um consenso legitimador que se estende muito para al�m do PS. Com condi��es pol�ticas excepcionais, maioria absoluta de um s� partido, fragilidade extrema da oposi��o e agora um Presidente "cooperador", aproveitou com perfei��o o "ar do tempo", revelando o seu estilo desde o primeiro minuto. O seu governo tem feito algumas coisas bem, mas n�o � o governo que serve para defrontar os problemas com que Portugal se defronta. Esta percep��o refor�a-se todos os dias e s� a acefalia actual do espa�o p�blico tem deixado sem discuss�o medidas sobre medidas, sempre apresentadas, inclusive pela comunica��o social, como inevit�veis. Eu, como j� vi muitas coisas "inevit�veis" serem evitadas, como por exemplo a Constitui��o europeia, pouco me conformo com este ambiente de inevitabilidade.

Pode-se, sobre o governo S�crates, fazer dois tipos de cr�ticas: ou dizer que faz bem mas faz pouco (que � a linha que de alguma maneira a pr�pria Manuela Ferreira Leite sugeriu no congresso do PSD); ou entender que o que � necess�rio � fazer de outro modo, muito diferente. S� haver� verdadeira oposi��o quando se combinarem os dois termos, com preponder�ncia do segundo.

Os n�o socialistas esquecem-se muitas vezes de que S�crates � socialista, ou seja, acredita no Estado como protector e corrector social, n�o concebe vida fora de um jacobinismo econ�mico, social e cultural deslavado e modernizado, que � o socialismo dos dias de hoje. Acrescenta a isso um remake de positivismo cientista, crendo com deslumbramento que as tecnologias mudam a sociedade e n�o vice-versa, como se percebe no chamado "choque tecnol�gico", investindo-se em tecnologias de ponta sem se cuidar das literacias necess�rias ao seu uso.

O que S�crates tem feito � defrontar a crise do Estado-provid�ncia propondo rem�dios que atrasam o seu colapso. N�o o p�e em causa, nem contesta a sua forma, concorda com ele por raz�es ideol�gicas. V�rias vezes afirmou que essas medidas de austeridade t�m como objectivo �ltimo garantir a "seguran�a social" para os portugueses e, com uma oposi��o que n�o contesta o essencial da sua atitude, faz o mal e a caramunha, ou seja, governa como governaram Barroso e Lopes e, mesmo aos olhos de muitos opositores do PS, com a vantagem de o fazer melhor do que os seus imediatos antecessores sociais-democratas.

Ora, que eu saiba, n�o foi Deus que fez o Estado-provid�ncia, nem a Hist�ria chegou ao fim com ele. Foram os homens, numa �poca, numa circunst�ncia, em determinadas partes do mundo. Resultou, como todas as coisas na sociedade, de uma complexa interac��o entre interesses e vontades, entre conflitos sociais e decis�es pol�ticas. Adequou-se �s sociedades europeias do p�s-guerra, geradas pelo Plano Marshall e pela integra��o europeia e beneficiando das circunst�ncias excepcionais de n�o terem de fazer avultadas despesas militares, porque estavam cobertas pelo guarda-chuva nuclear americano. S� que esse mundo acabou e acabou de vez e poucas d�vidas me sobram de que, mantendo os seus fundamentos iniciais e program�ticos, n�o se far� outra coisa do que gerir nas pr�ximas d�cadas o empobrecimento e as tens�es sociais em Portugal e na Europa, sempre presos nas mesmas pol�ticas de esticar at� ao limite o "modelo social", deixando para as gera��es futuras uma heran�a cada vez mais inger�vel.

H� alternativas a esta pol�tica dos socialistas e elas podem ser socialmente muito mais justas do que as pol�ticas actuais. As medidas de austeridade que o Governo est� a tentar implementar, t�midas mas mesmo assim passos de gigante em rela��o aos governos anteriores, apenas adiam a crise estrutural do Estado-provid�ncia e t�m custos muito mais gravosos para os mais pobres do que para os ricos. Mais: a seguir-se esta pol�tica, a crise tornar-se-� end�mica e, com intervalos de pequenos surtos de prosperidade, continuar-se-� a ter de pedir novos sacrif�cios e o problema de fundo permanecer� na mesma. Por isso, a prazo, o Estado-provid�ncia est� condenado, pelas mesmas raz�es que lhe deram o sucesso. N�o sobreviver� nem � globaliza��o nem ao bem-estar adquirido, que n�o � reproduz�vel de gera��o para gera��o com a composi��o et�ria das sociedades ocidentais.

Este � o custo de querer manter sistemas de seguran�a social universais que n�o t�m outra raz�o de ser que n�o seja a ideologia do "modelo social europeu", que os socialistas consideram ser o �ltimo reduto do seu "socialismo". A reconfigura��o do modelo do nosso Estado devia apenas garantir uma protec��o social m�nima para quem realmente a exige, limitar a esse m�nimo de solidariedade social b�sica o car�cter distributivo dos impostos, assim libertando para cada um a gest�o da parte da sua "seguran�a" que est� para al�m do m�nimo garantido e para a economia recursos de que o Estado tem vindo a apropriar-se numa espiral cada vez maior.
O que significa que a �nica oposi��o poss�vel � a liberal. Sem este tipo de oposi��o, n�o h� oposi��o a n�o ser a comunista e a do BE, que � uma variante da comunista. S� uma oposi��o liberal reformista e moderada pode mudar este estado de coisas. O consenso ac�falo dos dias de hoje � favorecido pela inexist�ncia ou debilidade desta oposi��o.

(No P�blico de hoje.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
ANUNCIA-SE, LEGISLA-SE, ...QUANDO SE PUDER FAZ-SE




Hoje, o Di�rio da Rep�blica, presenteia-nos com mais um choque tecnol�gico:

Portaria n.� 657-A/2006 de 29 de Junho - Aprova o Regulamento do Registo Comercial

Pre�mbulo:

�O Decreto-Lei n.� 76-A/2006, de 29 de Mar�o, procedeu a uma profunda altera��o do C�digo do Registo Comercial, designadamente com (�) a cria��o de condi��es para a plena utiliza��o dos sistemas inform�ticos e a reformula��o de actos e procedimentos internos.

Simultaneamente, procedeu � revoga��o do Regulamento do Registo Comercial, pelo que se torna necess�rio aprovar uma nova regulamenta��o daquele C�digo, desenvolvendo as novas solu��es nele previstas.

Artigo 2.�

Disposi��es transit�rias

1 - Enquanto n�o se verificar a informatiza��o do servi�o de registo, s�o aplic�veis a este as disposi��es do Regulamento do Registo Comercial, aprovado pela Portaria n.� 883/89, de 13 de Outubro, que respeitem a livros, fichas e verbetes ou que pressuponham a sua exist�ncia.�

Ou seja, a nova lei entrou em vigor, salvo nos seus aspectos principais, em que se aplica a legisla��o anterior.

Continua-se a fazer tudo como dantes, porque n�o h� condi��es materiais para implementar a lei. Primeiro anuncia-se e legisla-se. Se e quando se puder, faz-se. Dito, mas n�o feito. (Estamos a criar condi��es, dizem no pre�mbulo �.)

Valia a pena contabilizar os casos como este. Suspeito que �amos ter uma surpresa.

(RM)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM MONTREAL, CANAD�


(Ricardo Prata)
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 29 de Junho de 2006


Continuam as palavras a revelar as posi��es. No notici�rio da RTP1 sobre a manifesta��o da FRETILIN em Dili, v�rias interessantes distin��es entre "n�s" e "eles", inscritas na escolha das palavras. A favor de Xanana e contra o Governo s�o os "timorenses", a favor do Governo s�o "os apoiantes da FRETILIN". De um lado os "jovens", do outro os "manifestantes". Uns s�o contados para sugerir que s�o poucos e finitos; outros, nunca s�o contados para serem os "timorenses", a na��o, o povo.
 


INTEND�NCIA



O caminho para a devolu��o � origem (a FNAC) do HP Pavilion Dual core continua a passo acelerado. Pelo meio, ficam muitas horas de trabalho perdidas. A assist�ncia da HP ap�s uma longa navega��o entre "prima 1 e "prima 2", remete-me para outro n�mero de telefone. No segundo n�mero, um t�cnico informa-me que � "normal" que n�o se possa instalar o Windows XP Professional, sobre o Home de origem, devido � configura��o especial do software feita na f�brica. Excelente! Depois quando lhe digo que o computador bloqueia sempre que acede � Internet em banda larga, apesar de fazer a liga��o, - que o seu irm�o HP mais velho ao lado faz na perfei��o -, diz que nunca soube da exist�ncia desse problema e que deve ser um problema com o modem da Telepac, o mesmo modem que deve existir em milhares de casas. Excelente! O computador liga, n�o liga? Liga, com alguma dificuldade depois dos bloqueios, mas liga. O software arranca normalmente, n�o arranca? Arranca, depois de ser reconfigurado de raiz n vezes. O computador liga � Internet n�o liga? Liga, e funciona entre trinta segundos e um minuto antes de bloquear exigindo ser desligado. Ent�o o problema n�o � com a HP.

PS. - Agrade�o aos meus amigos leitores que me aconselham... a mudar para um Macintosh.
 


EARLY MORNING BLOGS

805 -
"La vieille crut qu'on la m�prisait, et grommela quelques menaces entre ses dents."


Il �tait une fois un Roi et une Reine, qui �taient si f�ch�s de n'avoir point d'enfants, si f�ch�s qu'on ne saurait dire. Ils all�rent � toutes les eaux du monde; voeux, p�lerinages, menues d�votions, tout fut mis en oeuvre, et rien n'y faisait. Enfin pourtant la Reine devint grosse, et accoucha d'une fille: on fit un beau Bapt�me; on donna pour Marraines � la petite Princesse toutes les F�es qu'on p�t trouver dans le Pays (il s'en trouva sept), afin que chacune d'elles lui faisant un don, comme c'�tait la coutume des F�es en ce temps-l�, la Princesse e�t par ce moyen toutes les perfections imaginables. Apr�s les c�r�monies du Bapt�me toute la compagnie revint au Palais du Roi, o� il y avait un grand festin pour les F�es. On mit devant chacune d'elles un couvert magnifique, avec un �tui d'or massif, o� il y avait une cuiller, une fourchette, et un couteau de fin or, garni de diamants et de rubis. Mais comme chacun prenait sa place � table, on vit entrer une vieille F�e qu'on n'avait point pri�e parce qu'il y avait plus de cinquante ans qu'elle n'�tait sortie d'une Tour et qu'on la croyait morte, ou enchant�e. Le Roi lui fit donner un couvert, mais il n'y eut pas moyen de lui donner un �tui d'or massif, comme aux autres, parce que l'on n'en avait fait faire que sept pour les sept F�es. La vieille crut qu'on la m�prisait, et grommela quelques menaces entre ses dents.

(Charles Perrault, La belle au bois dormant)

*

Bom dia!

28.6.06
 


COISAS SIMPLES



Jean-L�on G�r�me, Les pigeons
 


INTEND�NCIA



Continuo enredado na tarefa, que devia ser simples e se torna cada vez mais complicada, de mudar de um computador para outro, ambos da mesma marca, HP. O meu primeiro encontro com a assist�ncia t�cnica da HP foi prometedor: tudo o que funciona mal �, pelos vistos, suposto funcionar mal e eu devo resignar-me a essa realidade. Para um computador de topo de gama, � meio caminho andado para ser devolvido � proced�ncia. Vamos ver se consigo evitar o outro meio do caminho, pelos meus meios. Darei not�cias para prevenir os incautos.
 


EARLY MORNING BLOGS

804 - IT SURE WAS PLEASANT TO SPEND A DAY IN THE COUNTRY

Farm Implements and Rutabagas in a Landscape

The first of the undecoded messages read: "Popeye sits
in thunder,
Unthought of. From that shoebox of an apartment,
From livid curtain's hue, a tangram emerges: a country."
Meanwhile the Sea Hag was relaxing on a green couch: "How
pleasant
To spend one's vacation en la casa de Popeye," she
scratched
Her cleft chin's solitary hair. She remembered spinach

And was going to ask Wimpy if he had bought any spinach.
"M'love," he intercepted, "the plains are decked out
in thunder
Today, and it shall be as you wish." He scratched
The part of his head under his hat. The apartment
Seemed to grow smaller. "But what if no pleasant
Inspiration plunge us now to the stars? For this is my
country."

Suddenly they remembered how it was cheaper in the country.
Wimpy was thoughtfully cutting open a number 2 can of spinach
When the door opened and Swee'pea crept in. "How pleasant!"
But Swee'pea looked morose. A note was pinned to his bib.
"Thunder
And tears are unavailing," it read. "Henceforth shall
Popeye's apartment
Be but remembered space, toxic or salubrious, whole or
scratched."

Olive came hurtling through the window; its geraniums scratched
Her long thigh. "I have news!" she gasped. "Popeye, forced as
you know to flee the country
One musty gusty evening, by the schemes of his wizened,
duplicate father, jealous of the apartment
And all that it contains, myself and spinach
In particular, heaves bolts of loving thunder
At his own astonished becoming, rupturing the pleasant

Arpeggio of our years. No more shall pleasant
Rays of the sun refresh your sense of growing old, nor the
scratched
Tree-trunks and mossy foliage, only immaculate darkness and
thunder."
She grabbed Swee'pea. "I'm taking the brat to the country."
"But you can't do that--he hasn't even finished his spinach,"
Urged the Sea Hag, looking fearfully around at the apartment.

But Olive was already out of earshot. Now the apartment
Succumbed to a strange new hush. "Actually it's quite pleasant
Here," thought the Sea Hag. "If this is all we need fear from
spinach
Then I don't mind so much. Perhaps we could invite Alice the Goon
over"--she scratched
One dug pensively--"but Wimpy is such a country
Bumpkin, always burping like that." Minute at first, the thunder

Soon filled the apartment. It was domestic thunder,
The color of spinach. Popeye chuckled and scratched
His balls: it sure was pleasant to spend a day in the country.

(John Ashbery)

*

Bom dia!

27.6.06
 


CORREIO / INTEND�NCIA

Uma mudan�a de computador, com as habituais complica��es, tem afectado o correio mais do que ele j� estava com um infinito e irrecuper�vel atraso nas respostas. As minhas desculpas.
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 27 de Junho de 2006


Os defensores do nosso omnipresente Estado devem estar contentes: conforme declara��es do Secret�rio de Estado do Desporto � TSF uma das coisas de que cuida com desvelo o nosso Governo � escolher (neste caso manter) o selecionador nacional do futebol. � certamente uma quest�o de Estado...

26.6.06
 


COISAS DA S�BADO: A FRAGMENTA��O DE ESPANHA

http://www.meg.org.br/images/flags/large/sp-lgflag.gif The image �http://www.duplipensar.net/principal/images/catalunha-bandeira.jpg� cannot be displayed, because it contains errors. http://www.libreria.com.br/artigos/004/bb.jpg

Existe uma velha m�xima da nossa pol�tica externa que considera sempre positivas as dificuldades do poder central de Castela face �s suas periferias bascas, catal�s e galegas. Qualquer refor�o da unidade do estado espanhol � visto como perigoso para Portugal, a �nica �regi�o� que ficaria de fora da puls�o centralizadora de Madrid e do seu olhar capcioso para um Portugal independente. Desde 1640 agradecemos � Catalunha o puro facto desta existir e assim nos ajudar tamb�m a existir. De Espanha, como todos sabemos, n�o vem nem bom vento, nem bom casamento.

Sei tudo isto e � no entanto, n�o deixo de ver com preocupa��o a tend�ncia para a fragmenta��o do estado espanhol que deu a semana passada outro passo com a aprova��o referend�ria do novo estatuto da Catalunha. � um caminho perigoso, trilhado por Zapatero tamb�m no Pa�s Basco, abrindo as portas � negocia��o com a ETA terrorista. � daquelas coisas que hoje parecem pac�ficas e benignas, mas que come�am a revelar um caminho sem retorno para a independ�ncia da Catalunha e do Pais Basco, sob o olhar apaziguador, mas bem pouco espanhol, de Zapatero. N�o ser� nos dias mais pr�ximos, mas l�ngua, impostos, pol�cias, �rg�os de comunica��o regionais e proximidades a outros lugares centrais que n�o Madrid, dar�o � Espanha dias quentes e isso n�o � bom para Portugal.

*
Lembro-me de ter lido no Abrupto, aquando duma visita a Budapeste,o seguinte coment�rio: "A descentra��o �tnica, lingu�stica, cultural e religiosa significa toda uma �hist�ria� por resolver (por exemplo, a importante popula��o que fala h�ngaro e que ficou na Rom�nia, como se v� no mapa [...])" (Abrupto, 15.5.06) Tenho dificuldade em compreender a posi��o do Abrupto: por um lado, a aprova��o referend�ria do novo estatuto da Catalunha � considerada "um caminho perigoso", por outro lado, os conflictos �tnicos latentes na long�nqua Transilvania representam "uma hist�ria por resolver". Tentar resolver essa hist�ria n�o seria um caminho perigoso ? Por qu� ? S� porque a Espanha est� mais perto ? S� porque eventuais "dias quentes" na Hungria e na Rom�nia n�o chegariam a ter influ�ncia em Portugal ?

(Cristian Barbarosie)

*

N�o posso deixar de considerar o seu texto uma manifesta��o de conservadorismo, no mau sentido do termo. Um medo de mudar nem que seja para se sair de uma situa��o de injusti�a, neste caso a opress�o secular de v�rias na��es por um estado imperialista administrativa, culturalmente, etc. D�-lhe medo que se cumpra um dos princ�pios consagrado pelas Na��es

Unidas, o direito � autodetermina��o dos povos. E parece ser um sentimento t�o forte e irracional que lhe chega para tirar a conclus�o il�gica de que essa independ�ncia � prejudicial a um terceiro pa�s, neste caso a n�s, Portugal; a conclus�o absurda de que quanto maior e mais forte for o vizinho de um pequeno pa�s, melhor ser� para este �ltimo. Isto j� n�o se trata de um julgamento de valor, do direito � autodetermina��o dos povos, mas um julgamento de conveni�ncia pr�tica que a ser verdadeira teria levado durante a hist�ria a todos os pequenos pa�ses desejarem que os seus vizinhos fossem grandes e poderosos.

(Henrique Oliveira)

*

J� em tempos tinha tomado a liberdade de lhe escrever focando o problema que constitu�a a aus�ncia de qualquer debate estrat�gico (pelo menos p�blico), em Portugal, sobre a quest�o das nacionalidades e autonomias de Espanha (e da Pen�nsula, j� agora). Infelizmente, penso o assunto tem sido quase sempre tratado como uma mera quest�o interna de Espanha e da luta contra o terrorismo da ETA e, mesmo assim, de um modo demasiado emocional: � direita, a sua ala mais radical � quem tem liderado o debate, decalcando as suas posi��es, de forma imediatista, das posi��es dos sectores mais conservadores, e tamb�m mais emocionais, do PP de Espanha, influenciados pela "Associa��o de V�timas da ETA"; � esquerda, demasiado ausente na an�lise, a emo��o ainda remete para a associa��o da unidade do estado espanhol ao imp�rio castelhano, � ditadura franquista e � monarquia do in�cio do s�culo XX. Tudo isto influenciado, por um lado, por uma certa frustra��o latente no centro-direita em Portugal pelos fracassos dos governos Barroso e Santana Lopes, tentando cavalgar os indiscut�veis sucessos do PP de Espanha durante o governo Aznar; por outro, pelo peso que o pensamento republicano tradicional e as mem�rias da guerra civil ainda t�m em alguns sectores da esquerda e pela associa��o que sempre se fez das burguesia basca e catal� ao desenvolvimento e ao "progressismo". Em ambos os casos, a aus�ncia de qualquer vis�o estrat�gica para Portugal est� infelizmente ausente, esquecendo-se que a luta pela unidade/fragmenta��o da pen�nsula tem sido uma constante em toda a sua hist�ria e que muito pouco distingue um portugu�s de um castelhano (muito menos de um galego). Muito menos, certamente, do que o que distingue um basco de um castelhano ou de um catal�o... Filho de um madrileno, embora sem sangue espanhol mas com fortes liga��es culturais e sentimentais a Espanha, devo ter sido dos poucos portugueses que n�o foi educado no "�dio a Castela". Por isso, sempre acompanhei a quest�o das nacionalidades e autonomias peninsulares com um interesse redobrado, mais tarde ainda mais acentuado por contactos profissionais e por um dos meus filhos ter feito parte do seu curso na Universidade Polit�cnica da Catalunha e uma filha viver e trabalhar actualmente em Madrid. Devo dizer, do ponto de vista estrat�gico para Portugal, que tenho tudo menos certezas, sendo bem necess�rio lan�ar a discuss�o ignorando o "politicamente correcto" e as emo��es. Tenho, contudo, uma certeza: a necessidade de tornar obrigat�rio o ensino do castelhano na escola portuguesa como segunda l�ngua estrangeira. Sem "�dio a Castela" e sem medo de "perder a p�tria" - e antes que se acorde tarde como aconteceu com o Ingl�s. Quanto a Espanha, o caminho das "nacionalidades" trilhado por Zapatero parece-me inelut�vel, e s� a Hist�ria dir� at� onde. At� porque a direita espanhola n�o me parece alguma vez ter tido para a quest�o uma estrat�gia sustent�vel, que, com maior ou menor grau de centralismo, fosse muito para al�m, no limite, da "Espa�a Una, Grande Y Libre".

(Jo�o Cilia)
 


COISAS DA S�BADO: XADREZ



Nestas alturas de futebolite aguda, volto ao xadrez. Ou�o os berros habituais ao longe, muito ao longe, com o �intelectualismo livresco� deste pobre autor que cometeu o crime de lesa-p�tria de n�o saber quem era o Quaresma� Pois eu respondo aos berros anti-livrescos com o xadrez, venham c� pedir me�as, num jogo onde nada se esconde, tudo se v� e n�o � poss�vel fazer batota. Em poucos jogos � mais evidente o car�cter, a psicologia do jogador, a sua agressividade ou calma, a sua racionalidade ou criatividade, a sua teimosia ou ousadia. Mas cuidado, porque o xadrez �, num certo sentido, o mais violento dos jogos. No tabuleiro, o que se passa � uma batalha e quem l� est� s�o soldados, cavaleiros, oficiais, fortalezas e uma tenebrosa rainha, O rei � o penhor da soberania mas, por si, pode pouco.

Est� l� tudo, no sil�ncio, naquela aparente suspens�o do mundo que torna os jogadores de xadrez figuras m�ticas, travando uma batalha �pica, isolados no meio de um mundo que lhes passa ao lado. Introspectivo e sem a grande teatraliza��o do espect�culo moderno de massas, o xadrez � ainda um dos pin�culos das virtudes da intelig�ncia matem�tica, posicional, territorial, t�ctica e estrat�gica.

Valia a pena haver mais xadrez e muito menos futebol. Por um �tomo do que est�o a gastar no futebol, estado e privados, podiam colocar centenas de escolas a jogar xadrez, milhares de jovens e crian�as a pensar com a cabe�a e n�o com os p�s. Fica o pa�s melhor? Fica, fica. N�o faz mal nenhum usar os neur�nios.

*

Sem colocar em causa o ponto capital do seu artigo "Xadrez", devo dizer que n�o concordo consigo quando defende que o desporto a que o mesmo se refere � "um jogo onde nada se esconde, tudo se v� e n�o � poss�vel fazer batota." De facto, j� no tempo da Uni�o Sovi�tica, Bobby Fisher - hist�rico jogador norte-americano - se queixava de que os sovi�ticos combinavam resultados entre si, de forma a terem maior disponibilidade mental para o derrotar. Tal facto levou-o mesmo a afirmar, em 1963, que n�o voltaria a participar em
torneios da FIDE.

Por outro lado, o "doping" tamb�m existe no xadrez. A t�tulo meramente indicativo chamaria aten��o para o artigo "O 'doping' inteligente para jogadores de xadrez" publicado no Di�rio de Not�cias a vinte e quatro de Janeiro do presente ano.

(Frederico dos Santos Silva)

*

Ent�o V. acredita que estas pobres gentes, mesmo 36 anos depois de Abril, iriam promover o jogo nacional dos patifes dos bolchevistas? E ainda por cima um jogo que estimula o intelecto? Claro que concordo consigo e que me aflijo com um pa�s que vai desbaratando alegrementeo o bem mais precioso de qualquer sociedade: a INSTRU��O.

(Jos� Manuel Calazans)

*

Tem raz�o quando refere que seria mais �til colocar xadrez nas escolas e da�, gastar efectivamente dinheiro nas escolas (a isso chama-se investimento, n�o?). Mas sabe, isso � pouco medi�tico, n�o d� o show do qual o nosso ministro revela depend�ncia, n�o � imediato. Moldar uma sociedade leva muito tempo, � um trabalho �silencioso� feito nas escolas, e com efeitos para outros tantos mais anos. O continuar a apostar na bola � continuar a adiar o trabalho dos neur�nios (como disse). Como fica bem o povo entretido com a bola; assim n�o pensa! Esta estrat�gia qual muleta de regimes passados autorit�rios, continua preocupantemente actual. Parece-me que afinal, desde que partimos do 25 de Abril, o nosso percurso tem sido um c�rculo, que est� prestes, prestes a fechar-se. Se � que me fa�o entender.

(Sofia �vila da Silveira)
 


RETRATOS DO TRABALHO



P. S. Kroyer, Tr�s Pescadores
 


EARLY MORNING BLOGS

803 - THE BOND OF THE SEA

The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide.

The sea-reach of the Thames stretched before us like the beginning of an interminable waterway. In the offing the sea and the sky were welded together without a joint, and in the luminous space the tanned sails of the barges drifting up with the tide seemed to stand still in red clusters of canvas sharply peaked, with gleams of varnished sprits. A haze rested on the low shores that ran out to sea in vanishing flatness. The air was dark above Gravesend, and farther back still seemed condensed into a mournful gloom, brooding motionless over the biggest, and the greatest, town on earth.

The Director of Companies was our captain and our host. We four affectionately watched his back as he stood in the bows looking to seaward. On the whole river there was nothing that looked half so nautical. He resembled a pilot, which to a seaman is trustworthiness personified. It was difficult to realize his work was not out there in the luminous estuary, but behind him, within the brooding gloom.

Between us there was, as I have already said somewhere, the bond of the sea.

(Joseph Conrad, Heart of Darkness)

*

Bom dia!

25.6.06
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 25 de Junho de 2006


Solidariedade na Futebol�ndia: estamos sempre muito preocupados com Timor, muito solid�rios, mas � s� depois do futebol. Hoje, que h� not�cias importantes sobre Timor, em todos os notici�rios dos canais de televis�o, esperaram vinte minutos (na Sic a mais r�pida), para aparecer. Antes disso havia a n�o-not�cia: o espect�culo da bola antes da bola. � assim, prioridades. E a televis�o p�blica deu o exemplo, continuou com o futebol j� a SIC dava not�cias.
 


EARLY MORNING BLOGS

802 - "O HOMEM S� � SUPERIORMENTE FELIZ QUANDO � SUPERIORMENTE CIVILIZADO"

Ora nesse tempo Jacinto concebera uma id�ia... Este Pr�ncipe concebera a id�ia de que o �homem s� � superiormente feliz quando � superiormente civilizado�. E p�r homem civilizado o meu camarada entendia aquele que, robustecendo a sua for�a pensante com todas as no��es adquiridas desde Arist�teles, e multiplicando a pot�ncia corporal dos seus �rg�os com todos os mecanismos inventados desde Ter�menes, criador da roda, se torna um magn�fico Ad�o, quase onipotente, quase onisciente, e apto portanto a recolher dentro duma sociedade, e nos limites do Progresso (tal) como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e Poder... Pelo menos assim Jacinto formulava copiosamente a sua id�ia, quando convers�vamos de fins e destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias filos�ficas, no Boulevard Saint-Michel.

Este conceito de Jacinto impressionara os nossos camaradas de cen�culo, que tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 a 1875, entre a batalha de Sadova e a batalha de Sedan e ouvindo constantemente, desde ent�o, aos t�cnicos e aos fil�sofos, que fora a Espingarda-de-agulha que vencera em Sadova e fora o Mestre-de-escola quem vencera em Sedan, estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos indiv�duos, como a das na��es, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da Mec�nica e da erudi��o. Um desses mo�os mesmo, o nosso inventivo Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, para lhe facilitar a circula��o e lhe condensar o brilho, a uma forma alg�brica:

Suma ci�ncia X Suma pot�ncia= Suma felicidade

E durante dias, do Odeon � Sorbona, foi louvada pela mocidade positiva a Equa��o Metaf�sica de Jacinto.

Para Jacinto, por�m, o seu conceito n�o era meramente metaf�sico e lan�ado pelo gozo elegante de exercer a raz�o especulativa: - mas constitu�a uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a conduta, modalizando a vida. E j� a esse tempo, em concord�ncia com o seu preceito � ele se surtira da Pequena Enciclop�dia dos Conhecimentos Universais em setenta e cinco volumes e instalara, sobre os telhados do 202, num mirante envidra�ado, um telesc�pio. Justamente com esse telesc�pio me tornou ele palp�vel a sua id�ia, numa noite de Agosto, de mole e dormente calor. Nos c�us remotos lampejavam rel�mpagos l�nguidos. Pela Avenida dos Campos El�sios, os fiacres rolavam para as frescuras do Bosque, lentos, abertos, cansados, transbordando de vestidos claros.

- Aqui tens tu, Z� Fernandes (come�ou Jacinto, encostado � janela do mirante), a teoria que me governa, bem comprovada.


(E�a de Queir�s)

*

Bom dia!

24.6.06
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 24 de Junho de 2006


O primeiro retrato, a nossa fragilidade na pedra, por uma m�o (ou duas, ou tr�s) com 27.000 anos. N�o mudamos nada.

Cave art, France

*

Ribeira no S. Jo�oA RTP1 ontem transmitiu em directo o "S. Jo�o" do Porto. Mas para poder ter programa, o S. Jo�o da televis�o n�o � o S. Jo�o do Porto. A televis�o transmitiu uma festa organizada para ela pr�pria e o fogo de artif�cio, mas nem uma coisa nem outra s�o o S. Jo�o do Porto.

O S. Jo�o do Porto n�o se presta a passar na televis�o, � uma festa �nica, absoluta e democr�tica como nada neste pa�s. Na noite de S. Jo�o o Porto sai � rua, para estar na rua e andar na rua. Atr�s daquelas festas para a televis�o milhares e milhares de pessoas est�o pura e simplesmente a andar pelas ruas e a bater na cabe�a umas das outras com um alho-porro (cada vez menos) e com uns abomin�veis martelos de pl�stico, que cada vez parecem ser maiores. Em quase todas as casas, ricas e pobres, depois do jantar, as fam�lias juntas, ou os jovens para um lado e os mais velhos para outro, fecham a casa e v�m para a rua. No S. Jo�o do Porto n�o h� lugares centrais, n�o � uma festa dos bairros populares, � uma festa que se estende por toda a cidade, embora as Fonta�nhas e a Ribeira fossem p�los de atrac��o. Mas eram apenas s�tios onde havia alguma coisa mais do que a rua, nas Fontainhas uns carross�is e farturas e na Ribeira uns bailes. Na Ribeira havia um baile, que penso �nico nos anos da ditadura, em que homens dan�avam com homens e onde pontificava o c�lebre "Carlinhos da S�". Os populares da Ribeira impediam qualquer provoca��o ou incidente, considerando que aquela noite era de todos e da liberdade de todos. Era a noite em que se podia fazer tudo e n�o havia pol�cia nas ruas. (Antes do 25 de Abril era tamb�m uma noite aproveitada para distribuir panfletos, a que a PIDE estava cada vez mais vigilante embora evitasse dar nas vistas porque com a multid�o nada era seguro�).

O ambiente democr�tico da rua, em que ningu�m se livrava de levar com o alho na cabe�a, e onde completos desconhecidos trocavam cumprimentos e piropos, revelava o car�cter muito especial da �nica cidade verdadeiramente �burguesa� do pa�s. Trabalhava duro durante o ano e depois tinha a sua Saturnalia, que tomava t�o a s�rio como o trabalho. No Porto, n�o havia (e n�o h�) essa coisa de �bairros populares� versus �avenidas novas�, nem nobres marialvas e fadistas que depois dos touros v�o para as �casas de tabuinhas� conviver com apaches e severas, isto para usar os nomes antigos e poupar os ouvidos sens�veis. No Porto todos, menos os �ingleses� que nunca se viam, estavam na rua. Ora isso n�o cabe na televis�o, s� num IMAX e mesmo assim transborda.

J� h� uns anos que l� n�o estou no S. Jo�o. Espero que tudo continue assim. Espero.

 


EARLY MORNING BLOGS

801 - CALL ME ISHMAEL

Call me Ishmael. Some years ago- never mind how long precisely- having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off- then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me.

(Herman Melville)

*

Bom dia!

23.6.06
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 23 de Junho de 2006 (2� s�rie)


Scary news: Confirmado primeiro caso de transmiss�o de gripe das aves entre seres humanos.
 


800 EARLY MORNING E OUTRAS EFEM�RIDES



O primeiro da s�rie era assim:

4.7.03

10:20 (JPP)

VALE A PENA : EARLY MORNING BLOGS


O Comprometido Espectador acrescenta novos elementos sobre a situa��o italiana por quem a conhece em primeira m�o. E prop�e um �Ver outra vez� a acrescentar ao �Ler outra vez� . Primeira men��o : o Pin�quio de Disney
ou seja era o que � hoje o LENDO / VENDO / OUVINDO, uma revista de blogues. Depois tombou o "VALE A PENA" e ficou apenas o EARLY MORNING BLOGS, ambos sem negrito. A maioria dos blogues citados nos primeiros cinquenta EARLY MORNINGs j� desapareceram, embora nalguns casos os seus autores tenham aberto outros, fechados de novo e aberto uma terceira vaga.

A blogosfera era ent�o muito diferente e estava a mudar muito depressa. O grande surto dos blogues era contempor�neo desta nota. Vinha de ser mais pequena, estava a democratizar-se. Era pol�mica, mas ainda era am�vel. Estava a tornar-se �cida t�o rapidamente quanto se estava a democratizar. Nos EARLY MORNING BLOGs tentou acompanhar-se essas mudan�as dando origem �quilo que se veio a chamar "metabloguismo". Recorde-se para a mem�ria que o meta-bloguismo foi recebido com muita hostilidade, em particular pelos autores de blogues pioneiros. Exemplos de metabloguismo nos primeiros cinquenta EARLY MORNING BLOGs:
5 de Julho de 2003: EARLY MORNING BLOGS 2: O mundo continua l� fora e quanto mais vozes se ouvirem melhor. Eu sou um liberal, acredito na lei dos grandes n�meros, na �m�o invis�vel�. H� virtudes na cacofonia, cada voz a menos empobrece.

15 de Julho de 2003: EARLY MORNING BLOGS 9

Quando se l� um n�mero suficiente de blogues e, esfor�ando-me por sair da rede mais densa do mainstream, � aquele c�rculo de blogues que est�o intensamente �linkados� uns com os outros e tem uma massa cr�tica suficiente para impor tem�ticas e aparecer como a face da blogosfera fora dela � apercebem-se as tend�ncias e apercebe-se, acima de tudo, a enorme revolu��o do meio em Portugal nos �ltimos meses. Por isso � que o meta-bloguismo � natural, � uma reac��o de auto-compreens�o e auto-defini��o compreens�vel em tempos de tumulto.

V�rias coisas aconteceram ao mesmo tempo como � habitual numa revolu��o. Cito Lenine, j� que os nossos amigos � esquerda tem grande pudor em o fazer, - e permito mais umas brincadeiras humor�sticas comigo inteiramente previs�veis - porque a frase aplica-se bem ao momento actual da blogosfera :

�S� quando os "de baixo" n�o querem e os "de cima" n�o podem continuar vivendo � moda antiga � que a revolu��o pode triunfar.�

O que se est� a dar � a democratiza��o da blogosfera com a entrada de muita gente no duplo sentido: novos blogues e novos leitores. Por outro lado, a exposi��o exterior dos blogues introduziu diferentes crit�rios de avalia��o que n�o coincidiam com os dominantes no seu interior.

Este efeito acabou com a blogosfera cosy , fortemente estratificada entre blogues a quem ningu�m ligava nenhuma e blogues que atrav�s de um permanente di�logo, do auto-elogio, de um esp�rito de elite que ultrapassava claramente qualquer barreira ideol�gica, se apresentavam como primus inter pares. A distin��o esquerda - direita era menos importante do que a distin��o entre os amigos e os desconhecidos, entre �n�s, os bons� e eles a turba ignara de mau gosto. A lista de �blogues de servi�o p�blico� no Blogo era o retrato desse mundo fechado que explodiu.

Era tamb�m natural que a maioria das pessoas se conhecessem umas �s outras e fossem amigos. Quando, num meio de comunica��o qualquer, todos se conhecem, ou todos tem a mesma idade, ou todos tem a mesma forma��o, ou todos l�em os mesmos livros, ou frequentam todos os mesmos restaurantes, � porque esse meio est� na inf�ncia.

Tudo isto gera muitas tens�es e uma certa irrita��o era inevit�vel (�os "de cima" n�o podem continuar vivendo � moda antiga�). Nalguns blogues mais antigos h� uma clara evolu��o do blogue-optimismo para o blogue-cepticismo, que nada justifica, porque s� um cego � que pensa que a blogosfera est� pior porque n�o � um clube de vinte amigos. � natural que tenham vontade de migrar e para isso, por raz�es psicol�gicas, desvalorizam o que deixam para tr�s.

Um dos aspectos mais saud�veis da democratiza��o da blogosfera � que hoje � mais dif�cil �competir� (tomem a palavra com a latitude que quiserem), ter influ�ncia, j� h� muitas vozes qualificadas, muito saber em muitas �reas, uma diversifica��o tem�tica, de opini�es e de escritas, que a capacidade para se afirmar j� n�o depende do elogio m�tuo, mas de se ter ou n�o uma voz pr�pria e persist�ncia. Este �ltimo factor � o que mais falta na blogosfera, onde um m�s � um s�culo e se chega a conclus�es taxativas lendo cinco ou seis blogues de um dia para o outro.

Eu sou liberal no sentido antigo, prezo a chuva e o mau tempo, a f�ria e a calma das discuss�es, e gosto de ouvir muitas vozes diferentes. Como j� disse e repito, na blogosfera, a �m�o invis�vel� est� dentro da cacofonia e para exercer o seu efeito positivo � suposto ser mesmo �invis�vel�. A blogosfera portuguesa passou de ter uma m�o �vis�vel� para ter uma �invis�vel� e foi, em primeiro lugar, o n�mero que provocou esse efeito. Mais gente, mais vozes, tudo mais �rduo. Esta � a revolu��o.


19 de Julho: EARLY MORNING BLOGS 12

Nos blogues �

� as pessoas zangam-se muito, s�o muito piegas, s�o malcriadas, s�o gentis, s�o espertas, s�o espertinhas, s�o parvas, copiam, fazem de conta que n�o copiam, irritam-se, reconciliam-se, cuidam muito da sua identidade, d�o-se todas aos estranhos, representam, representam-se, s�o azedas, s�o poucas vezes alegres, s�o tristes, s�o tristonhas, s�o f�teis, s�o totalmente f�teis, t�m interesse, t�m interesses, t�m egos gigantescos, t�m egos pequeninos, t�m que �dizer-qualquer-coisismo� , deixam cair muitos nomes, deixam cair muitos livros, parece que l�em muito, l�em muito, n�o l�em quase nada, nunca v�em televis�o, tem gra�a, s�o engra�adinhas, t�m tribos, t�m f�rias, t�m territ�rios, est�o sozinhas, est�o tanto mais sozinhas quanto mais acompanhadas, t�m alguns pais, come�am a ter filhos, t�m maridos, n�o t�m amantes, t�m �o que escrevo � para ti�, t�m �o que escrevo � s� para ti�, t�m �o que escrevo � s� para ti�, mas � s� para mim , ou para o outro(a), n�o t�m muita paci�ncia, t�m pressa de chegar a algum lado, t�m a esperan�a de chegar a qualquer lado, est�o convictos que n�o v�o chegar a lado nenhum, t�m quereres, t�m birras, s�o meli-melo, s�o assim �

� porque se calhar � assim na vida toda.

Como os blogues n�o t�m editor, a vida aparece sem ser editada.
Engano, puro engano. Funciona aqui um gigantesco editor, o monstro que est� dentro.

19 de Julho EARLY MORNING BLOGS 13

Eu sou um adepto do meta-bloguismo, embora pense que o excesso do dito levaria a uma esterilidade completa. O meu meta-bloguismo vem de n�o conseguir usar um meio sem me esfor�ar por o perceber. Num primeiro tempo, este olhar �tira� liberdade, condiciona, �prende� e por isso o meta-bloguismo gera sempre um certo mal-estar. Mas h� um segundo olhar, que se calhar tamb�m vem com o primeiro, que acaba por nos dar uma ainda maior liberdade. Eu sou da escola de quem pensa que conhecer liberta. N�o h� provavelmente maior ilus�o nos �ltimos duzentos anos, do que achar que as �luzes� alumiam, mas eu prefiro um mundo em que se proceda (eu disse proceda e n�o acredite) segundo essa ilus�o.

28 de Julho: EARLY MORNING BLOGS 19

Mat�rias que n�o entram nos blogues: pobreza, desemprego, levar os filhos � escola �s oito da manh�, cozinhar (sem ser por prazer), trabalhos dom�sticos, trabalho de um modo geral com excep��o de algum trabalho intelectual, doen�as, quase todas as formas de escassez. Lugares que n�o entram: locais de trabalho fora de universidades, escolas, firmas de inform�tica, telecomunica��es, e jornais, nove d�cimos de Portugal e muito mais ainda.

Pelo contr�rio, os caminhos do Magn�lia � FNAC do Chiado, do Lux ao Algarve ou ao Alentejo, est�o t�o trilhados nos Moleskines que at� deixam um sulco como os carros de bois nas pedras antigas.Nesta mat�ria n�o h� distin��es nem pol�ticas, nem ideol�gicas, nem esquerda , nem direita.

N�o � um julgamento de valor, porque tamb�m n�o entram no Abrupto, � uma constata��o, chamemos-lhe assim, social. Para que n�o percamos a nossa (a minha) medida.

No dia 13 de Setembro, no EARLY MORNING BLUES 39, j� a negrito, publica-se o primeiro poema:
Foram os �Early Morning Blues� que deram o nome aos �Early Morning Blogs�. H� v�rios e em v�rias vers�es. Aqui est� uma dos The Monkees:

A distant night bird mocks the sun.
I wake as I have always done,
To freshly scented sycamore
And cold bare feet on hardwood floor.

My steaming coffee warms my face
I'm disappointed in the taste.
But there's a peace the early brings
The morning world of growing things.

I feel the moments hurry on
It was today, it's died away,
And now it is forever gone.

And I will drink my coffee slow
And I will watch my shadow grow
And disappear in firelight
And sleep alone again tonight.
e a f�rmula foi-se consolidando. Ainda houve um EARLY MORNING BLOGS / BLUES 45, um EARLY MORNING BLOGS / BOOKS 47, um EARLY MORNING BLOGS / SONGS 48. S� bastante depois do cinquenta � que esta parte do Abrupto se tornou o que � hoje. "A poem a day keeps boredom at bay".

(Devo a uma leitora de sempre a gentileza de ter feito uma antologia dos EARLY MORNINGS que me surpreendeu pelas diferen�as - de "tom" , como se diz no Miniscente, o que nunca se repete -, embora n�o com as continuidades, porque eu sou da escola teimosa em mat�ria do pensamento e opini�o.)
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 23 de Junho de 2006


The image �http://www.correspondance-voltaire.de/assets/images/mahomet_voltaire.jpg� cannot be displayed, because it contains errors. fac-simil� encyclop�die Larousse en 7 volumes des environs de 1905
Em Fran�a, no meio do inc�modo geral e de muitos sil�ncios (uma excep��o em La R�publique des Livres) , republica-se Le Fanatisme ou Mahomet et le proph�te de Voltaire, uma pe�a de teatro, como o nome indica, contra o fanatismo e a utiliza��o da religi�o para fomentar o assassinato . Voltaire dizia : Mahomet n�est ici autre chose que Tartuffe les armes � la main .�

*

Muito, muito interessante a an�lise e os exemplos (via Frescos) com que o (ou a? � masculino ou feminino?) Slate examina as cr�ticas dos seus leitores e o problema de uma publica��o na Rede corrigir junto da nota original, uma vez esta colocada num arquivo. O modo como no texto em linha se circula entre os tempos do presente e do passado, particularmente quando o passado � tornado presente por novos dados e pelas rectifica��es dos erros, ainda n�o est� resolvido.
Veja-se este exemplo de uma cr�tica de um leitor:

"So, if, for instance, you think you've nailed President Bush in an error, link to the whole speech, so people can see the context. That way, when you're mocking Bush for saying, "I'm honored to shake the hand of a brave Iraqi citizen who had his hand cut off by Saddam Hussein," readers can easily go to the full quote, and see that it says

I'm honored to shake the hand of a brave Iraqi citizen who had his hand cut off by Saddam Hussein. � I appreciate Joe Agris, the doctor who helped put these hands on these men. � These men had hands restored because of the generosity and love of an American citizen �

Bush was shaking the prosthetic hands of people whose real hands had been cut off by Hussein. In context, there's nothing risible about his statement (as Spinsanity also noted; for similar examples, see here, here, and here).

Because of this, I think the Bushisms column shouldn't have run this statement. But I realize that others may disagree. That's why, rather than the impossible first-best world of "always quote accurate sources, and in context," I prefer the second-best world in which writers try their hardest to be accurate, but also provide the sources so readers can judge for themselves."

*

Por falar em Timor, est� na altura de os �rg�os de comunica��o social come�arem a preparar outra ida e volta dos seus enviados. At� para se saber o que est� l� a fazer a GNR, e que timorenses mandam nela, Xanana ou o governo do pa�s. A n�o ser que tudo isso seja uma fic��o e sejam as autoridades portuguesas a decidir quais os timorenses que t�m legitimidade para dar ordens � GNR, ou seja, tomem partido. Ent�o, nesse caso, um governo democr�tico (o nosso) devia ir � Assembleia explicar as suas op��es, e uma oposi��o a s�rio devia exigi-las. A n�o ser assim temos que ler os jornais australianos para saber o papel de Portugal na crise de poder em Timor.

*

A doen�a dos t�tulos: "Timorenses solid�rios com Xanana". Todos? A maioria? A resposta certa � "alguns" que at� podem ser muitos, os que s�o trazidos "em cami�es e autocarros � capital timorense e juntaram-se �s cerca de 700 pessoas que passaram a noite diante do Pal�cio do Governo." Mais do que isto, o jornalista n�o sabe e provavelmente n�o pode saber.
 


EARLY MORNING BLOGS

800

Soneto

Acusam-me de m�goa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
n�o fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que n�o nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me n�o cale:
at� que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingan�a.

A minha voz de morte � a voz da luta:
se quem confia a pr�pria dor perscruta,
maior gl�ria tem em ter esperan�a.

(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

22.6.06
 


OS BLOGUES ANTES DOS BLOGUES


"Tenho o fragmento no sangue."
(Cioran)

A escrita que se encontra hoje nos blogues � velha como o tempo, embora o tempo pregue partidas, transformando as coisas noutras muito diferentes. O tempo � aquilo a que hoje se chama os "suportes", no caso da escrita na Rede, a forma dos blogues.

Repito, a tecnologia do software em que assentam os blogues tem um papel ao moldar a sua forma. Vimos no artigo anterior como ela valoriza o presente, presentificando a escrita, obrigando-a � actualidade. Agora podemos ver como ela acentua aspectos da escrita: favorece o texto contido, aquilo que na linguagem da blogosfera se chama o "post curto". O "post curto" gera uma tens�o sobre o espa�o das palavras, acentua a utiliza��o est�tica da frase, em combina��o com o t�tulo e com outros elementos gr�ficos. O facto de os blogues poderem usar simultaneamente texto e imagens, sons e v�deo est� a dar origem � primeira grande vaga de um novo tipo de textos, nascidos na Rede e para serem lidos na Rede.

Os blogues revelam e geram novas normas de leitura na Rede que s�o distintas dos livros, acentuando a n�o-linearidade da leitura. Esta segue n�o apenas a frase, mas as liga��es, ganha em espessura ao deslocar-se entre as diferentes p�ginas associadas pelo hipertexto ( mais em Hypertext). Move-se n�o apenas no texto, mas tamb�m pelas imagens e sons ligados ao texto, em detrimento da leitura sequencial, habitual no livro e nos jornais. A leitura num ecr� raras vezes anda para tr�s, tende a andar para o lado antes de andar para a frente. A escrita nos blogues � moldada por estas caracter�sticas f�sicas do novo texto electr�nico e, no seu conjunto, est� a ensinar a uma gera��o um novo c�none de leitura e escrita que poucos exploram conscientemente, mas que molda a todos.

Ora nem todo o tipo de texto, nem todos os conte�dos se prestam a esta nova forma que despeda�a legibilidades antigas a favor de novas. No "post curto" a escrita vai desde a mera frase com uma liga��o, ou seja, uma porta, um caminho que nos leva para longe daquela p�gina, daquele ecr� at� � entrada diar�stica, impressionista ou faceta, at� ao mini-ensaio, pouco mais do que o aforismo. � uma escrita que favorece, comunicando quer com os t�tulos de jornais, quer com o aforismo, a utiliza��o de mecanismos po�ticos, mas tamb�m humor�sticos e sarc�sticos. Nesse sentido os blogues caem sob a cr�tica que Luk�cs fazia aos textos de Nietzsche - a de serem, pela sua forma, naturalmente irracionalistas, valorizando a met�fora, a sedu��o est�tica, em detrimento da argumenta��o.

Que textos t�m esta qualidade de serem protoblogues? Toda a escrita moldada pelo tempo, ou pela "constru��o" da personagem (ou da obra) pelo tempo. Os di�rios, ou uma forma muito francesa de di�rios, os "cadernos". Mas tamb�m alguma correspond�ncia e ensaios. Textos que colocados em blogues parecem ser escritos para blogues encontram-se no Para Al�m do Bem e do Mal de Nietzsche, em anota��es de Kafka,

Image 1. Franz Kafka, Journal.

nos "propos" de Alain, nos di�rios de Morand, nos "cadernos" de Camus, Valery e Cioran. Noutros casos, o tempo e a hist�ria "partiram" os textos originais, dando-lhe essa qualidade de escrita de blogues, como acontece com os fragmentos dos pr�-socr�ticos, restos de textos mais compridos, de tratados e de livros. E muito do que encontramos em dicion�rios de cita��es, frases que vivem por si pr�prias, s�o mat�ria-prima de blogues.

B. A. Pudliner No plano gr�fico, muitos "cadernos" de desenhos, a come�ar pelos desenhos de Leonardo da Vinci com anota��es, muito dos moleskines de artistas, em que o esbo�o e o texto manuscrito se entrela�am, alguma banda desenhada, alguns livros de viagens. A fotografia deu origem a fotoblogues, mas est� longe de revelar as suas potencialidades na constru��o narrativa dos blogues, para onde transporta, em imagem, tudo o que valoriza o texto curto: a impress�o, o fragmento da realidade, o "olhar" no tempo. No v�deo, o sketch, o pequeno filme caseiro do g�nero dos "apanhados", alguns filmes publicit�rios. O som � o menos explorado nos blogues, mas a sua utiliza��o, por exemplo no Kottke.org como complemento de viagem - o som dos sem�foros de Singapura, o ru�do de um mercado, o barulho de uma f�brica -, acentua a fragmenta��o da narrativa ou da ilustra��o que est� no �mago da escrita dos blogues.

Muito significativamente, todo este tipo de material � favorito na actividade de "c�pia-colagem" que tamb�m a forma blogue e a Rede favorecem, apropriando-se cada um das cita��es, de textos e imagens que servem de refor�o da sua identidade em linha. Nalgumas experi�ncias com sucesso na blogosfera, di�rios foram colocados na Rede, como o de Samuel Pepys, que foi transformado num blogue, com o texto original e liga��es, dando uma nova legibilidade ao texto original do s�culo XVII.

Seria poss�vel fazer o mesmo com muitos "cadernos" de Cioran, Camus e Valery, muito diferentes entre si, mas todos passando o teste do blogue. O facto de, no caso de Cioran, este n�o ter a inten��o de os divulgar e inclusive ter pedido para que fossem destru�dos, n�o retira aos seus textos a puls�o fragment�ria que os aproxima do registo dos blogues. Ali�s, Cioran, autor dos Silogismos da Amargura � um cultor de uma forma de escrita muito adaptada ao "post curto".

Valery passava o teste e os seus cadernos ganhariam muito com o uso de hipertexto e liga��es. Um aspecto fundamental, nos cadernos de Valery, � a sua utiliza��o como instrumento para a constru��o da obra, como meio de treinar o pensamento, mas tamb�m de o desenvolver, experimentar, testar, deixando-o aparecer sem a responsabilidade do ensaio final, do livro a publicar. Valery usava os seus cadernos, que escreveu ininterruptamente (no final eram cerca de 261 com 28.000 p�ginas), como um instrumento para pensar, fazendo uso n�o s� da escrita, mas tamb�m do desenho, e escrevendo sobre tudo: arte, filosofia, poesia, matem�tica. E escreveu sobre como o "eu", como o "seu cogito" "funcionava", mat�ria de blogues, como se sabe.

http://oran2.free.fr/PHOTOS%20MERS%20EL%20KEBIR/slides/Mers%20el%20Kebir%20Saint%20Andre.jpgCamus �, de todos, quem, sem d�vidas, faria um blogue excepcional. A escrita, umas vezes mais tensa e outras mais solta, curta e imag�tica, intercalando fragmentos de di�logos, recorda��es de paisagens e de encontros, notas de leitura, revela o olhar de Camus sobre a sua geografia africana peculiar, a Arg�lia, e sobre os acontecimentos que est� a viver. Os cadernos de Camus n�o s� suportariam o formato do blogue, como ganhariam com a imagem na sua dimens�o mediterr�nica. Ganhariam tamb�m com o hipertexto, embora menos que Valery ou Cioran, que quase o exigem para serem devidamente lidos.

Em todos os casos que referi, a legibilidade dos textos na actualidade ganharia com a forma blogue, pela representa��o mais perfeita do tempo que a Rede permite. Os cadernos de Camus s�o os que melhor se l�em, enquanto os de Valery e de Cioran s� s�o leg�veis, na sua forma livro, em antologias depuradas. O de Cioran tem centenas de p�ginas de um grosso volume e os de Valery estendem-se por dez volumes na edi��o da Gallimard. Mesmo em Portugal foram os �nicos divulgados numa edi��o barata e popular, de h� muito esgotada.

Por tudo isto, valia a pena, e acabar� com certeza por ser feito, o teste pr�tico de colocar todas estas escritas na Rede usando modelos iguais ou pr�ximos dos blogues. A blogosfera ter� ent�o ao seu lado Nietzsche, Valery, Camus, Cioran e tantos outros, como autores de blogues.

(No P�blico.)
 


LENDO
VENDO
OUVINDO

�TOMOS E BITS

de 22 de Junho de 2006


Eu bem sei que a vida est� dif�cil para os jornais, mas o que � que leva o P�blico a pensar que dedicar as suas primeiras dezassete p�ginas ao futebol, antes de come�ar o jornal propriamente dito, lhe acrescenta alguma coisa que os seus leitores n�o encontram noutro lado? Quem � que vai comprar o P�blico para ler sobre futebol? E quem � que vai deixar de comprar o P�blico porque ele n�o embarca (n�o embarcava) no reino da Futebol�ndia?

*

Sobre as teorias da conspira��o ver os "professores da paranoia".

*

V�rias dan�as com pares e trios e quartetos muito especiais. Um usa muitos an�is, outro � muito frio, outro faz pela vida no meio dos grandes, outro respira uma atmosfera muito especial.
 


EARLY MORNING BLOGS

799

Just Keep Quiet and Nobody Will Notice

There is one thing that ought to be taught in all the colleges,
Which is that people ought to be taught not to go around always making apologies.
I don't mean the kind of apologies people make when they run over you or borrow five dollars or step on your feet,
Because I think that is sort of sweet;
No, I object to one kind of apology alone,
Which is when people spend their time and yours apologizing for everything they own.
You go to their house for a meal,
And they apologize because the anchovies aren't caviar or the partridge is veal;
They apologize privately for the crudeness of the other guests,
And they apologzie publicly for their wife's housekeeping or their husband's jests;
If they give you a book by Dickens they apologize because it isn't by Scott,
And if they take you to the theater, they apologize for the acting and the dialogue and the plot;
They contain more milk of human kindness than the most capacious dairy can,
But if you are from out of town they apologize for everything local and if you are a foreigner they apologize for everything American.
I dread these apologizers even as I am depicting them,
I shudder as I think of the hours that must be spent in contradicting them,
Because you are very rude if you let them emerge from an argument victorious,
And when they say something of theirs is awful, it is your duty to convince them politely that it is magnificent and glorious,
And what particularly bores me with them,
Is that half the time you have to politely contradict them when you rudely agree with them,
So I think there is one rule every host and hostess ought to keep with the comb and nail file and bicarbonate and aromatic spirits on a handy shelf,
Which is don't spoil the denouement by telling the guests everything is terrible, but let them have the thrill of finding it out for themselves.

(Ogden Nash)

*

Bom dia!

20.6.06
 



LENDO / VENDO /OUVINDO

(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(20 de Junho de 2006)


"Ver" o P�lo Norte em tempo real: uma Web Cam num dos s�tios mais bizarros da terra. Na realidade, no meio do mar.
 


EARLY MORNING BLOGS

798

Enfin quelle apparence de pouvoir remplir tous les go�ts si diff�rents des hommes par un seul ouvrage de morale?

Les uns cherchent des d�finitions, des divisions, des tables, et de la m�thode: ils veulent qu'on leur explique ce que c'est que la vertu en g�n�ral, et cette vertu en particulier; quelle diff�rence se trouve entre la valeur, la force et la magnanimit�; les vices extr�mes par le d�faut ou par l'exc�s entre lesquels chaque vertu se trouve plac�e, et duquel de ces deux extr�mes elle emprunte davantage; toute autre doctrine ne leur pla�t pas. Les autres, contents que l'on r�duise les moeurs aux passions et que l'on explique celles-ci par le mouvement du sang, par celui des fibres et des art�res, quittent un auteur de tout le reste.


Il s'en trouve d'un troisi�me ordre qui, persuad�s que toute doctrine des moeurs doit tendre � les r�former, � discerner les bonnes d'avec les mauvaises, et � d�m�ler dans les hommes ce qu'il y a de vain, de faible et de ridicule, d'avec ce qu'ils peuvent avoir de bon, de sain et de louable, se plaisent infiniment dans la lecture des livres qui, supposant les principes physiques et moraux rebattus par les anciens et les modernes, se jettent d'abord dans leur application aux moeurs du temps, corrigent les hommes les uns par les autres, par ces images de choses qui leur sont si famili�res, et dont n�anmoins ils ne s'avisaient pas de tirer leur instruction.

Tel est le trait� des Caract�res des moeurs que nous a laiss� Th�ophraste.

(La Bruy�re, Les caract�res ou Les moeurs de ce si�cle )

*

Bom dia!

19.6.06
 


EARLY MORNING BLOGS

797

Me voici donc seul sur la terre, n'ayant plus de fr�re, de prochain, d'ami, de soci�t� que moi-m�me. Le plus sociable et le plus aimant des humains en a �t� proscrit par un accord unanime. Ils ont cherch� dans les raffinements de leur haine quel tourment pouvait �tre le plus cruel � mon �me sensible, et ils ont bris� violemment tous les liens qui m'attachaient � eux. J'aurais aim� les hommes en d�pit d'eux-m�mes. Ils n'ont pu qu'en cessant de l'�tre se d�rober � mon affection. Les voil� donc �trangers, inconnus, nuls enfin pour moi puisqu'ils l'ont voulu. Mais moi, d�tach� d'eux et de tout, que suis-je moi-m�me? Voil� ce qui me reste � chercher. Malheureusement cette recherche doit �tre pr�c�d�e d'un coup d'oeil sur ma position. C'est une id�e par laquelle il faut n�cessairement que je passe pour arriver d'eux � moi.

(Jean-Jacques Rousseau, Les r�veries du promeneur solitaire)

*

Bom dia!
 


FUTEBOL�NDIA

Obrigado por este presente.

18.6.06
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER OU " EU BEM SABIA QUE DEVIA HAVER ALGO DE DEMON�ACO NOS TELEM�VEIS" 2

http://www.hha.com.au/imagesweb/0340921455.jpg
Stephen King, Cell
.
.
.
..
.
.H� coisas que Stephen King faz sempre bem: � um mestre da Surpresa. N�o h� suspense nos seus livros, mas sim pura Surpresa. Depois come�a sempre de uma maneira que, � segunda p�gina, j� n�o se larga o livro. L� para a frente, esmorece um pouco, escreve demais, repete-se, mas percebe-se sempre a capacidade de dom�nio sobre o leitor, fundamental em livros que usam o terror, o medo, como sedu��o. N�o � arte � of�cio, mas � excelente of�cio, profissional, capaz. N�o admira que venda mais do que qualquer outro autor popular.
 


EARLY MORNING BLOGS 796


Alice was beginning to get very tired of sitting by her sister on the bank, and of having nothing to do: once or twice she had peeped into the book her sister was reading, but it had no pictures or conversations in it, 'and what is the use of a book,' thought Alice 'without pictures or conversation?'

So she was considering in her own mind (as well as she could, for the hot day made her feel very sleepy and stupid), whether the pleasure of making a daisy-chain would be worth the trouble of getting up and picking the daisies, when suddenly a White Rabbit with pink eyes ran close by her.

There was nothing so very remarkable in that; nor did Alice think it so very much out of the way to hear the Rabbit say to itself, 'Oh dear! Oh dear! I shall be late!' (when she thought it over afterwards, it occurred to her that she ought to have wondered at this, but at the time it all seemed quite natural); but when the Rabbit actually took a watch out of its waistcoat-pocket, and looked at it, and then hurried on, Alice started to her feet, for it flashed across her mind that she had never before seen a rabbit with either a waistcoat-pocket, or a watch to take out of it, and burning with curiosity, she ran across the field after it, and fortunately was just in time to see it pop down a large rabbit-hole under the hedge.

In another moment down went Alice after it, never once considering how in the world she was to get out again.

(Lewis Carroll)

*

Bom dia!

17.6.06
 


COISAS SIMPLES



(Marie Kroyer)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER OU " EU BEM SABIA QUE DEVIA HAVER ALGO DE DEMON�ACO NOS TELEM�VEIS"

http://www.hha.com.au/imagesweb/0340921455.jpg
Stephen King, Cell
.
.
.
..
.
..
.
.
.
.
.
.
O fim do mundo chega pelos telem�veis.
 


LUIS FILIPE CASTRO MENDES - PORTUGAL E O BRASIL : ATRIBULA��ES DE DUAS IDENTIDADES

http://www.comyon.com/bandeira%20do%20brasil.jpg Bandeira Nacional

Como foi que temperaste,
Portugal, meu av�zinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?


MANUEL BANDEIRA

Numa terra radiosa vive um povo
triste. Legaram-lhe essa melancolia
os descobridores que a revelaram ao
mundo e a povoaram.


PAULO PRADO

I DA INFELICIDADE DE SER IB�RICO�

Um preconceito hist�rico, persistente no nosso universo cultural desde o S�culo das Luzes, enfatiza o atraso e a barb�rie dos desgra�ados povos ib�ricos, afastados pelo obscurantismo pol�tico e religioso das luzes da civiliza��o, um degrau apenas acima dos mouros e dos cafres, culpados de n�o serem protestantes, norte-europeus e, consequentemente, trabalhadores, individualistas e empreendedores. Durante os s�culos XVIII e XIX, Portugal e a Espanha s�o vistos pelo mundo civilizado (isto �, o mundo organizado conforme os interesses das pot�ncias dominantes) como qualquer coisa de interm�dio entre a civiliza��o e o exotismo, n�o t�o estranhos que coubessem nos estudos dos orientalistas, mas suficientemente bizarros para despertarem a ironia superior dos viajantes e o fasc�nio er�tico dos poetas e novelistas.

Ironia da Hist�ria: esta unidade de destino entre portugueses e espanh�is decorre mais da rejei��o de que os dois pa�ses foram alvo por parte dos novos centros de poder mundial emergentes no limiar da modernidade, isto �, no fim da idade barroca, do que de uma real identidade de projectos hist�ricos. No s�culo XVI, portugueses e espanh�is, ciosos das suas soberanias e rivais na expans�o mar�tima, sentiam-se, n�o obstante, partilhar uma cultura comum. Mas esta identidade cultural ib�rica, bem vis�vel em Gil Vicente ou Cam�es, quebrou-se no s�culo XVII, com a tentativa filipina de unifica��o pol�tica sob hegemonia castelhana, que veio determinar um persistente div�rcio pol�tico e cultural entre os dois pa�ses, de que s� hoje come�amos, felizmente, a sair.

Eduardo Louren�o, no seu ensaio N�s e a Europa ou as Duas Raz�es, contrap�e � raz�o cartesiana, que funda a nossa modernidade, uma outra raz�o, ib�rica, contra-reformista, barroca, de que o expoente seria Graci�n, o da Agudeza e Arte de Engenho. Nessa raz�o barroca participaram espanh�is e portugueses, mas tamb�m o que, a partir dos espanh�is e dos portugueses, se formava do outro lado do Atl�ntico: n�o s�o Sor Juana In�s de la Cruz e o Padre Ant�nio Vieira express�es maiores do barroco universal, como o vir� a ser, num genial anacronismo, a escultura do Aleijadinho? N�o foi a Ratio Studiorum dos jesu�tas uma matriz fundadora da cultura no Brasil?

Mas a verdade � que esta rejei��o da cultura ib�rica foi assumida por um grande n�mero de historiadores brasileiros como a chave que explicaria todos os atrasos, injusti�as e opress�es sofridos pelo Brasil. A coloniza��o portuguesa seria o pecado original desta terra, o que lhe vedara o acesso ao para�so ou os caminhos da modernidade.

Esta ideia encontra-se formulada exemplarmente na obra cl�ssica de S�rgio Buarque de Holanda Ra�zes do Brasil. Todos os obst�culos ao desenvolvimento do Brasil derivariam dos tra�os de car�cter herdados do colonizador portugu�s, reconstru�dos como um tipo-ideal, � maneira de Max Weber, e contrapostos (sempre seguindo a li��o de Weber) �queles que fundamentam o esp�rito moderno, essencialmente derivados da �tica do protestantismo. Da� o grande confronto, obsessivo na cultura brasileira, entre o Brasil e os Estados Unidos, encarados estes, mesmo quando demonizados, como o supremo paradigma. Bandeirantes e Pioneiros de Vianna Moog � a triste elegia a um Brasil que poderia ter sido, um Brasil que se poderia vir a identificar com os Estados Unidos.

Conhecemos a grande obra de interpreta��o do Brasil antag�nica desta vis�o, que foi a de Gilberto Freyre. Para o autor de Casa Grande e Senzala foi da coloniza��o portuguesa e da escravid�o africana que provieram toda a originalidade e a inova��o da civiliza��o brasileira, atrav�s do processo de miscigena��o. Freyre n�o idealiza o processo colonizador, mas escreve de uma hist�ria olhada sem ressentimentos, com o amor fati nietzscheano e a permanente gula dos sentidos que o tornam o mais moderno de todos os seus contempor�neos.

Com a not�vel excep��o de Vamireh Chacon, as correntes dominantes do pensamento social brasileiro de tend�ncias mais progressistas tenderam a identificar as teses de Gilberto Freyre com o conservadorismo e a nostalgia de uma sociedade patriarcal e pr�-moderna, colocando assim as ideias do mestre de Apicucos como mais um obst�culo ao progresso e � emancipa��o dos brasileiros. Uma rejei��o global que Jos� Guilherme Merquior, grande desmistificador, qualificou um dia de �suprema burrice�.

Sem querer intervir neste debate (porque penso, como Alfredo Bosi, que � uma quest�o ociosa escolher agora quem teriam sido os melhores colonizadores), julgo necess�rio integorrarmo-nos em que medida as duas correntes de interpreta��o aqui demarcadas partilhariam um terreno comum, uma vis�o que da imagem constru�da do passado hist�rico deriva para um olhar intemporal sobre o Outro, o portugu�s, e em que medida n�s, os portugueses, nos confrontamos ainda e sempre com essa imagem intemporal que de n�s foram tecendo os brasileiros no processo de constru��o da sua pr�pria identidade (a piada de portugu�s � apenas a manifesta��o mais superficial e inocente dessa imagem estereotipada).

II �� DESGRA�A DE SER PORTUGU�S

O facto � que Portugal hoje aparece no Brasil, de forma in�dita, e para surpresa e desconcerto de alguns brasileiros, como um pa�s exportador de investimentos produtivos, alguns em sectores de elevada tecnologia, e n�o mais como um mero exportador de m�o-de-obra pouco qualificada para pequenas empresas de com�rcio e servi�os. Esta mudan�a da base material da presen�a portuguesa no Brasil, embora custe muito a ser digerida por alguns (para o historiador Lu�s Felipe de Alencastro, por exemplo, o investimento portugu�s seria apenas um bra�o subordinado do capital espanhol, esse sim o verdadeiro actor da Hist�ria), n�o deixou de trazer mudan�as sens�veis � percep��o de Portugal do outro lado do Atl�ntico. Acresce que a imagem de Portugal como persist�ncia de uma sociedade de Antigo Regime encravada na modernidade europeia, t�o cultivada tamb�m pela intelectualidade brasileira, mesmo quando solidariamente a denunciava, dificilmente se sustenta face � realidade actual de um pa�s democr�tico, moderno e integrado na Uni�o Europeia.

Conv�m n�o esquecer que a imagem de Portugal para os brasileiros foi durante muito tempo a de um pa�s atrasado, arcaico, imune � mudan�a, ancorado no tempo como uma nau de pedra silenciosa. Para os conservadores aut�ntico guardi�o das tradi��es de que nasceu o Brasil, para os progressistas resumo de tudo o que o Brasil deveria destruir dentro de si para ser verdadeiramente moderno e autenticamente justo, Portugal s� era tratado pelos brasileiros como um antepassado.

A recente comemora��o dos 500 anos do �descobrimento� ou �achamento� ou �encontro� dividiu o Brasil. De um lado os que aceitam a heran�a portuguesa como uma matriz fundadora da identidade brasileira; do outro aqueles que, n�o podendo negar essa realidade, n�o se conformam com ela, porque pensam sinceramente que todos os atrasos e as injusti�as do Brasil derivaram em linha directa da coloniza��o portuguesa.

Para dar um exemplo, entre os mais not�veis, um livro como Os Donos do Poder de Raymundo Faoro, na sua vis�o fixista da sociedade brasileira (tudo se joga na sociedade estamental herdada da coloniza��o portuguesa, que se mant�m metafisicamente incorrupta atrav�s dos s�culos), vem tornar mais compreens�vel a dificuldade que os brasileiros sentem em reconhecer no antigo pa�s colonizador mudan�as que muitas vezes n�o conseguem ver no seu pr�prio pa�s. � que o Brasil nunca ser� �um imenso Portugal�, como cantava Chico Buarque, pela simples raz�o de que h� quase 200 anos que vivemos separados.

Na verdade, para um portugu�s � mais claro e mais saud�vel este sentimento de separa��o do Brasil do que para um brasileiro. Para n�s, o colonialismo portugu�s jogou-se no nosso tempo nos dramas de �frica e h� muito j� que reconhecemos o Brasil como uma outra na��o. N�o assim no Brasil, que, de um certo modo, introjectou Portugal, incorporou-o a si mesmo (antropofagicamente, como diriam os modernistas de 1922), olhando-o quase como um cap�tulo do seu passado, como uma refer�ncia incontorn�vel (para o bem e para o mal) da afirma��o da sua pr�pria identidade, mas que, por isso mesmo, se tornou estranhamente invis�vel aos brasileiros enquanto realidade existente e pa�s actual, como diagnosticava Eduardo Louren�o na sua l�cida Nau de �caro. Como se para os brasileiros o �nico sentido de ser portugu�s fosse vir a tornar-se brasileiro�

Acresce que � escala mundial vivemos hoje tempos de uma curiosa ofensiva ideol�gica anti-europeia, fomentada por algum pensamento �politicamente correcto�. Atrav�s do conceito de �p�s-colonial�, concebe-se por vezes uma estranha frente entre os Estados Unidos, o antigamente chamado Terceiro Mundo e os pa�ses industrializados exteriores � Europa (Jap�o, Canad�, Austr�lia), opostos em bloco aos europeus por esta nova constru��o ideol�gica, que foi denunciada, entre outros, pelo marxista Perry Anderson.

Toda a ideia (j� veiculada em 1992, quando do quinto centen�rio da viagem de Crist�v�o Colombo) de que �comemorar os 500 anos � comemorar a viol�ncia e a rapina do colonialismo� vem hoje dessa matriz ideol�gica �p�s-colonial�, bem mais do que do velho marxismo, que sempre soube que a viol�ncia � parteira da Hist�ria e nunca simpatizou excessivamente com etnias e sociedades tradicionais. E vem tamb�m muitas vezes (e particularmente no caso que nos ocupa) daqueles que, na esteira de certas leituras de Max Weber, atribuem todas as virtudes civilizat�rias aos Estados Unidos e aos colonizadores brancos, anglo-sax�es e protestantes e todos os estigmas aos colonizadores ib�ricos, por acreditarem ingenuamente nas hist�rias piedosas que os norte-americanos contam sobre si pr�prios.

Assim, se por um lado os preconceitos anti-portugueses est�o conhecendo hoje no Brasil um evidente recuo, registando-se da parte dos intelectuais e dos jovens brasileiros uma nova curiosidade pela nossa cultura, hoje reconhecida nas manifesta��es da sua novidade e n�o mais como expoente de manifesta��es arcaizantes, n�o deixou algum velho anti-lusitanismo de ressurgir por ocasi�o das comemora��es dos 500 anos, como por exemplo quando o insigne brasilianista ingl�s Leslie Bethell veio escrever que foi a meu ver um grande erro do Brasil permitir que os portugueses praticamente sequestrassem a celebra��o do 500 anivers�rio do Brasil com a �nfase dada ao descobrimento pelos portugueses. A virtude anglo-sax�nica vela sobre o Brasil�

Contudo, se atentarmos na mais recente gera��o brasileira de estudos hist�ricos, sociol�gicos e at� est�ticos e liter�rios, n�o poderemos deixar de ficar impressionados por uma nova ideia de Portugal por eles trazida, bem mais objectiva, cr�tica e isenta das grandes vis�es de �tipo-ideal� que os famosos �int�rpretes do Brasil� quiseram introduzir afinal como �ideologias do Brasil�. A investiga��o fez-se menos sequiosa de grandes s�nteses de interpreta��o do destino nacional e mais atenta � rigorosa impiedade dos factos.

Face a este quadro, parece-nos evidente que uma pol�tica cultural externa portuguesa para o Brasil deveria ousar trazer a este pa�s as manifesta��es mais vivas e actuais da nossa cultura e n�o continuar a responder � sede de tradi��es conhecidas e requentadas, que apenas confirmam no brasileiro a imagem de um Portugal instalado para sempre nas brumas do passado. Este � o desafio da nossa gera��o. Mais do que continuar a mostrar como soub�mos bem navegar no s�culo XVI, h� que demonstrar como sabemos hoje dominar e praticar as linguagens e as tecnologias do nosso tempo.

III � TEMOS TODOS A MESMA IDADE

Mas afinal a Hist�ria foi sempre feita de paix�o e de viol�ncia, de sonho e de furor. Quem se lembra de negar o que �, porque a sua origem n�o � a que desejaria, � como a bela alma hegeliana, incapaz de se inserir no curso da Hist�ria: um anjo torto.

Porque envergonhar-se da pr�pria origem � a atitude t�pica do homem do ressentimento, manifesta��o daquilo a que Freud chama romance familiar, o desejo frustrado de ter pais mais ricos e poderosos. A Am�rica foi um sonho dos europeus. Os portugueses sonharam tanto com o Brasil como todos os outros europeus sonharam com a Am�rica. Por isso do que deix�mos podemos orgulhar-nos, sem ilus�es id�licas nem remorsos tardios (ter remorsos, dizia Espinoza, � pecar segunda vez), porque a viol�ncia da Hist�ria foi para n�s, como para todos, o quinh�o da mesma humanidade.

E Portugal s�o os portugueses e as portuguesas de hoje, n�o esse pa�s obscuro e de antanho, convidado de pedra no tempo e na mem�ria, que tantas vezes os brasileiros identificam com Portugal, projectando em n�s a imagem do seu pr�prio passado. Desse passado vimos, mas tamb�m contra esse passado nos fiz�mos no que somos hoje, para o bem e para o mal. Desmentindo o belo poema de Manuel Bandeira, os portugueses n�o podem ser os av�zinhos dos brasileiros, pelas simples raz�o de que n�s, as gera��es de hoje, temos afinal a mesma idade.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (6� s�rie e final)




N�o podia estar mais de acordo com a sua cr�tica sobre a Futebul�ndia e os excessos dos v�rios canais televisivos no tempo que a este tema dedicam. Perdoe-me a franqueza, mas o mesmo n�o se passa com o Abrupto e o Professul�ndia ? Como antigo leitor, n�o me reconhe�o num Abrupto a dar abrigo ao discurso da compaix�o.

Que n�o tem nada de mal em si mesmo e � uma decis�o pessoal e soberana. Mas a sua repeti��o torna o tema trivial, transforma o objecto de amor numa m� imagem.

Retornamos ao escapismo meu caro Abrupto: como escapar ao escapismo ??

Ou�amos Barthes:

A-Realidade. Sentimento de aus�ncia,fuga da realidade pelo sujeito apaixonado face ao mundo.

Para me salvar da a-realidade - para retardar a sua chegada - , tento ligar-me ao mundo pelo mau humor. Sustento o discurso contra qualquer coisa (...)

- Fragmentos de um Discurso Amoroso, Edi��es 70, s.d. ,tradu��o Isabel Gon�alves

(Jo�o Costa)

*

Pergunto-me se vozes vindas das escolas pertencem sempre aos professores. Eu sou aluno do �ltimo ano do secund�rio numa escola norueguesa � uma experi�ncia de um ano, ap�s 11 anos de escola em Portugal � e sou filho de uma professora de matem�tica do 2� ciclo que sente a sua profiss�o a 100% e a traz muitas vezes para casa, discutindo as novas reformas e as que est�o por fazer, os casos pessoais de alunos que precisam de ajuda, procurando sempre novas ideias para p�r em pr�tica e para tentar catalisar os interesses dos estudantes para a matem�tica � utilizando, para al�m dos livros, de jogos, truques de magia, representac�es teatrais, etc. Considero que tenho assim uma perspectiva singular sobre a educa��o em Portugal, especialmente em compara��o com a Noruega (que �, afinal, o 1� pa�s do ranking da ONU), e � por isso que escrevo � e porque sou tamb�m uma voz dentro da escola.

J� li a� que a obrigatoriedade do ensino faz com que alunos "incorrig�veis" tenham que permanecer na escola at� aos 16 anos; mas eles n�o s�o "incorrig�veis". Uma diferen�a substancial entre Portugal e a Noruega, � verdade, � que aqui 98% da popula��o pertence � classe m�dia, o que significa geralmente que tem boas condi��es de estudo em casa. As condi��es em que o estudante vive, os pais, o ambiente familiar, s�o extremamente importantes para a educa��o de um aluno - a educa ��o n�o passa simplesmente pelos programas educativos e pelos professores, mas por um desenvolvimento social a todos os n�veis. Ainda assim � mais que prov�vel que Saramago tenha raz�o quando diz que ler e gostar n�o � para todos. E gostar de matem�tica tamb�m n�o � para todos. E � dif�cil mudar alunos que, por uma raz�o ou outra, foram "desviados". Mas � poss�vel, e � dever de todo o professor acreditar nisso. Toda a crian�a e adolescente tem ou deve ter o direito de estudar e de ter professores que acreditem nele, custe o que custar.

Nem tudo � perfeito na Noruega. Durante os primeiros 10 anos de escolaridade, todos os alunos passam, independentemente das notas. � fonte de uma certa pregui�a � aos 14 anos eu estudava muito mais que o meu irm�o de acolhimento que tem precisamente essa idade, que apesar de tudo tem boas notas. Toda a gente da minha turma estudava muito mais. Mas apesar de tudo n�o se ouvem muitas cr�ticas por aqui. � assim que �. E essa � uma diferen�a fundamental entre os dois sistemas de ensino: em Portugal as reformas, aqui ou ali, chegam demasiadas vezes. Imaginem o dinheiro que se pouparia em manuais escolares se ainda p�dessemos usufruir dos de h� dez, quinze anos anos atr�s (por exemplo, os alunos podiam vender os livros mais baratos em segunda m�o, como aqui na Noruega) � mas n�o, os programas est�o sempre a mudar, recuam e depois voltam a ter o mesmo conte�do. Aparecem provas de aferic�o de que os alunos ignoram o objectivo, exames para o 9� e 6� anos, os tempos escolares passam de 50 para 45 minutos, mas os blocos de 90 minutos n�o t�m intervalos no meio, os programas s�o completamente modificados � eu faco parte de um ano de transic�o em que t�nhamos o hor�rio do ano anterior mas o programa do ano seguinte. Em Portugal tudo est� em perfeita muta��o. N�o existem, pelo mundo fora, sistemas de educa��o perfeitos. Existem sistemas de educa��o que d�o os seus frutos ap�s algum tempo, que precisam de aprender com os erros e que se v�o refinando. Eu senti-me, muitas vezes, genuinamente confuso com estas mudancas abruptas na educac�o em Portugal.

Por fim, real�o outro pormenor: na Noruega as escolas t�m muito mais independ�ncia em rela��o ao Estado, por exemplo no que respeita � capacidade de decidir sobre o pessoal docente. De despedir e contratar. Em Portugal os professores s�o colocados. Nos milhares de professores desempregados existem muitos com mais qualidade dos que est�o colocados. N�o existe um sistema de avalia��o eficaz dos professores; eles entram com a ajuda da nota do est�gio, por exemplo, que depende muito do supervisor que arranjaram. E o outro factor que conta � a idade e o tempo de ensino. O que deixa os jovens no desemprego. Esse n�o � o maior problema para os estudantes � o mais problem�tico � que alguns deles s�o melhores dos que os que est�o na escola. Porque na escola existem muitos professores "piores do que estudantes", que muitas vezes faltam �s aulas e que fazem pouco mais do que recitar a mat�ria. Mas tamb�m existem muitos que gostam do que fazem, e que se esforcam pelos seus alunos � e esses, acredito, querem ser avaliados, querem a sua pr�pria avaliac�o.

Podia escrever mais, mas talvez j� tenha dito demais, por isso concluo apenas que ser professor n�o � f�cil, e n�o � aceitar apenas ter alunos que estudam muito e n�o t�m problemas, mas aceit�-los a todos.

(Andr� Carvalho)

*

Todos sabemos que a escola n�o vai bem. Os alunos abandonam a escola muito cedo, com n�veis muito baixos de escolaridade, n�o conseguindo adquirir compet�ncias m�nimas, indispens�veis para um mundo de trabalho globalizado e cada vez mais exigente. A falta de qualifica��o, quer dos jovens, quer dos adultos, torna a nossa economia menos competitiva e, desta forma, irremediavelmente afastada dos �ndices de desenvolvimento que ambicionamos. Por outro lado, na �ltima d�cada, Portugal tem feito um enorme investimento p�blico em educa��o. � conta disso, Portugal � o pa�s da OCDE que maior percentagem da despesa corrente gasta em sal�rios de professores, e onde os r�cios de aluno por professor s�o os mais favor�veis da Uni�o Europeia. Por isso, seria de esperar que a escola apresentasse melhores resultados. Se isso n�o acontece � porque o problema � muito mais do que uma quest�o de meios. H� muito que o problema deixou de ser o dinheiro. Essa desculpa, usada por sucessivos governos para fugirem � responsabilidade de fazer o que deveria ser feito, j� n�o serve. Pelo contr�rio, num pa�s onde o estado gasta mais do que tem, seria injusto, numa altura em que o estado tem obrigatoriamente de cortar na despesa p�blica, que na �rea de educa��o se deixasse tudo como est�, isto �, que se continuasse a por dinheiro na escola sem dela se exigir resultados e uma melhor gest�o, racionaliza��o e optimiza��o de meios e recursos.

Serve tudo o que acima foi dito para enquadrar a proposta do minist�rio de revis�o do Estatuto de Carreira Docente. Porque, como � �bvio, os professores n�o se podem colocar � parte destes problemas, muito menos fazendo-se de v�timas.

Para al�m da espuma que tem ressaltado da comunica��o social, nomeadamente na quest�o da avalia��o dos professores pelos pais e noutras quest�es t�cnicas pass�veis de altera��o mediante negocia��o com os sindicatos, interessa-me discutir a quest�o do princ�pio de avalia��o dos professores. Devem ou n�o os professores ser avaliados? Devem ou n�o ser distinguidos os bons dos maus professores? Deve ou n�o haver consequ�ncias de uma avalia��o?

N�o querendo gastar muitas mais linhas a retratar a situa��o actual, parece-me evidente que o actual Estatuto de Carreira Docente n�o serve. Em primeiro lugar porque � injusto para os professores, tornando os bons e os maus todos iguais, ao premiar todos. Em segundo lugar porque n�o assenta em nenhuma l�gica de resultados e de objectivos, n�o estimula os que mais se empenham, torna o sistema ineficiente. Em terceiro porque � economicamente incompreens�vel, permitindo que, indiscriminadamente, todos cheguem, de uma forma autom�tica, ao topo da carreira.

Para existir qualidade no ensino tem de haver uma boa avalia��o dos seus intervenientes. � assim com os alunos. Deve ser assim com os professores. A qualidade tem de ser premiada e tem de haver uma clara discrimina��o entre os bons e os maus professores. Actualmente, a profiss�o de professor proporciona in�meras situa��es de n�o ser exercida. Depois de entrar na carreira � um descanso. Para alguns, a seguran�a de um emprego para a vida e a certeza de uma promo��o autom�tica, s�o as �nicas coisas que os prendem � profiss�o. Muitos caem na rotina, no comodismo e no facilitismo que a carreira oferece. At� os bons professores se desmotivam e acabam por entrar nesta cultura descentrada do seu objectivo principal: o sucesso dos alunos. Por isso que, para bem dos alunos e dos bons professores, � urgente mudar. A escola precisa de voltar a ser cred�vel e isso s� � compat�vel com uma cultura de qualidade e exig�ncia para todos, inclusive para os professores. Porque a escola p�blica existe por causa dos alunos, � neles que devemos centrar as nossas aten��es, ainda que isso possa resultar na perda de direitos de alguns maus professores. Por muito que custe.

Jo�o Filipe Marques Narciso (Professor contratado / Set�bal)
 



LENDO / VENDO /OUVINDO

(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(17 de Junho de 2006)


Os nossos homens no espa�o. A Esta��o Espacial vista da terra:

ISS image from Munich Public Observatory

*

Mais uma contribui��o para a irrelev�ncia da UE, ou, visto de outra maneira, mais uma demonstra��o do mesmo curso suicid�rio:
"Os l�deres europeus decidiram ontem que uma parte substancial dos debates entre os ministros dos 25 Estados-membros passar�o a ser abertos �s c�maras de televis�o, depois de o assunto andar a ser discutido h� anos. "Queremos que entre ar fresco na casa da Uni�o Europeia", explicou o chanceler austr�aco, Wolfgang Sch�ssel, que preside � UE at� ao pr�ximo dia 1 de Julho. Assim, "todas as delibera��es do Conselho Europeu sobre os actos legislativos a adoptar em conjunto com o Parlamento ser�o abertos ao p�blico, tal como as explica��es de voto dos membros do Conselho", afirma o documento com as conclus�es da cimeira dedicada � "pol�tica da transpar�ncia", noticiou a AFP."
(Segundo o P�blico de hoje.)
Os ingleses foram dos poucos a protestar porque sabem melhor do que os seus cong�neres europeus o que � governar e decidir e a necessidade de o fazer de forma discreta, com a liberdade de debate e franqueza de opini�es, pouco compat�veis com a exposi��o p�blica dos locais de decis�o. Foi o que fez a ministra brit�nica dos Neg�cios Estrangeiros, Margaret Beckett.

Esta variante do populismo medi�tico assenta na cren�a absurda de que este tipo de escrut�nio em tempo real melhora a democracia, mas ter� os efeitos exactamente contr�rios. Ao se parlamentarizarem os conselhos de ministros da UE, a pol�tica real, pura e dura, envolvendo interesses nacionais e dinheiro, tender� a emigrar para locais informais onde n�o h� qualquer escrut�nio e responsabiliza��o. L�bis, funcion�rios, pessoal dos gabinetes, consultores, agradecem. Os conselhos de ministros europeus ficar�o para a conversa pol�ticamente correcta ou para as tiradas destinadas a serem publicitadas para efeito eleitoral interno. Os conselhos tornar-se-�o uma sucursal do Parlamento Europeu.
 


EARLY MORNING BLOGS 795


Uma Ap�s Uma

Uma ap�s uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.
Uma ap�s uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spa�o
Do ar entre as nuvens 'scassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
S� uma vaga pena inconsequente
Para um momento � porta da minha alma
E ap�s fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.


(Ricardo Reis)

*

Bom dia!
 


INTEND�NCIA

http://www.comyon.com/bandeira%20do%20brasil.jpg
Actualizada a nota NUNCA � TARDE PARA APRENDER: PORTUGAL NUM LIVRO BRASILEIRO com colabora��es muito interessantes dos leitores. Em breve, colocarei em linha fragmentos de um artigo que Luis Filipe Castro Mendes gentilmente me enviou, sobre as "atribula��es" das identidades portuguesa e brasileira , que foi publicado h� tr�s anos na revista do MNE em Portugal, e na revista do Real Gabinete de Leitura no Brasil.

Em breve, a 6� e, em pr�ncipio, a �ltima s�rie de O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS.

16.6.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NA ARGENTINA


Maquinista da linha San Martin, dos caminhos de ferro argentinos, na esta��o de Villa del Parque, esperando o sinal de partida.

(Francisco F. Teixeira)
 


BLOGUES: A APOTEOSE DO PRESENTE

Os blogues continuam a ser criados a uma velocidade de cruzeiro numa verdadeira revolu��o mundial de novas formas de "fala" dos indiv�duos e dos grupos, o que � um dos reveladores da profunda interliga��o entre "estados" sociais preexistentes e tecnologias que os exprimem e potenciam. O �ltimo balan�o do "estado da blogosfera" refere a exist�ncia de cerca de 35 milh�es de blogues seguidos pela Technorati, uma empresa de refer�ncia no estudo dos blogues, duplicando o seu n�mero cada seis meses. Nos �ltimos tr�s anos, o tamanho da blogosfera cresceu 60 vezes, e o n�mero de blogues criados por dia aproxima-se de 75 mil, o que significa que desde que o leitor come�ou a ler este artigo quase vinte novos blogues (um por segundo) foram criados em todo o mundo.(1)

Claro que sabemos que "criar" e "manter" n�o � a mesma coisa, e que muitos dos blogues nascentes n�o passam do acto da cria��o, mas mesmo assim s� um cego (e ainda h� muitos cegos que n�o querem ver) � que n�o percebe que se est� perante um fen�meno que marcar� a nossa �poca, de um antes e de um depois. N�o se trata aqui de avaliar os efeitos da blogosfera nas �reas que lhe s�o adjacentes, que todas est�o a mudar por processos que tanto empurram os blogues, como as mudan�as nos h�bitos de leitura, de procura, de saber, de "ver", que est�o associados � conjuga��o de novas tecnologias com muta��es sociais nas sociedades industriais e democr�ticas a que chamamos "ocidentais". O movimento que gera o surto de blogues � muito mais profundo do que os pr�prios blogues, tornando-os ao mesmo tempo causa e efeito, agente de mudan�as e revelador de mudan�as.Duas coisas n�o podem por�m ser esquecidas, e muitas vezes s�o-no, na an�lise da blogosfera: a primeira � que os blogues suportam-se numa forma tecnol�gica que valoriza determinados aspectos da "fala" que eles cont�m e minimiza outros; a segunda � que a "fala" que se encontra nos blogues n�o � nova, tem precedentes e hist�ria. S�o estes dois aspectos de que falarei, valorizando o aspecto "liter�rio" e criativo dos blogues, em detrimento de outras fun��es que os blogues tamb�m t�m em particular no sistema da comunica��o social.

Comecemos pelo primeiro aspecto, o modo como a tecnologia, o software, as plataformas de suporte, moldam a forma do blogue, condicionando o produto final. Os blogues evolu�ram das p�ginas pessoais na Rede, num momento de expans�o e democratiza��o da Internet, mas n�o s�o uma nova forma de p�ginas pessoais. O que em todas as plataformas populares, a come�ar pelo pioneiro e mais usado Blogger, se valoriza n�o � a apresenta��o de um indiv�duo, dos seus interesses, das suas opini�es, do seu "universo" pessoal, mas sim tudo isto situado no tempo.
The image �http://mmeiser.com/blog/images/psychicdebate.gif� cannot be displayed, because it contains errors.Tempo � a chave da novidade dos blogues, os blogues for�am as p�ginas pessoais a deixarem de ser est�ticas e a tornarem-se di�rios, locais onde opini�es, interesses, confiss�es, desabafos, impress�es, s�o escritos num ecr� que se comporta como um rolo de papel, que se desdobra entre o presente e o passado. Por isso, acrescentava � frase anterior: tempo desigual, tempo essencialmente presente, � a chave da novidade dos blogues. Na verdade, o ecr� do computador n�o permite "ler" tudo o que est� no blogue da mesma maneira, acentua o que de mais recente � colocado, valoriza no seu prime time a actualidade, o dia �ltimo, de prefer�ncia o dia de hoje, o presente absoluto. Nos blogues, a actualiza��o � da natureza do pr�prio instrumento, dominado pelo presente e atirando com o passado para um "arquivo" que raras vezes � consultado.

Nos blogues h� uma apoteose do presente, uma menoriza��o do passado e uma inexist�ncia do futuro que condicionam o tipo de escrita e o seu sucesso comunicacional. Este desequil�brio dos tempos � coerente com alguns dos efeitos da passagem do mundo comunicacional tradicional, da leitura, do sil�ncio, da lentid�o, da mem�ria, para a velocidade do que � "moderno", para um mundo constitu�do por imagens r�pidas, prazer instant�neo e ilus�o de simultaneidade. � o mundo dos directos televisivos, do em linha permanente, do mundo que testemunha tudo em tempo real, da aldeia na "aldeia global", da superf�cie, da pele das coisas do marketing e da publicidade. Os blogues trazem para a "fala" essa mesma velocidade e ilus�o de instantaneidade de um mundo sem "edi��o", ou seja, sem media��o.

O dom�nio do presente nos blogues molda a "fala", valorizando o coment�rio, a opini�o, a impress�o quase em tempo real sobre o presente a acontecer, mais do que sobre o acontecido e por isso comunica historicamente com a voz dos directos da r�dio e da imagem da televis�o. O sucesso dos blogues chamados "pol�ticos" em Portugal, como ali�s noutros pa�ses, n�o se deve a qualquer deforma��o da blogosfera, que continua a ser maioritariamente constitu�da por blogues de outra natureza mas com menos audi�ncia, mas sim � natureza dos "assuntos correntes" que eles tratam de forma ainda mais "corrente" do que os media tradicionais. A competi��o-tens�o entre blogues e os media tradicionais vem desse campo de actualidade que a forma blogue potencia e acelera.

Esta rela��o pesada com o presente fez os blogues superar as p�ginas pessoais e, mesmo instrumentos f�ceis e gr�tis que surgiram no �ltimo ano para cria��o de p�ginas pessoais (como o Google Page Creator), est�o longe de competir com o interesse pelos blogues. No entanto, a forma blogue � t�o perec�vel como todas as outras e evoluir� com rapidez para outras formas de comunica��o, que por sua vez gerar�o novos efeitos da "fala".

Algum software j� dispon�vel introduz novas funcionalidades que combinam as vantagens da presentifica��o do blogue com um maior papel para modelos em que a "fala" ganha um novo volume, uma nova densidade temporal. Este caminho ser� facilitado tamb�m pelo aumento exponencial da capacidade de armazenamento dos computadores, aproximando-se da possibilidade de nos "meter" dentro de um disco: mem�rias, estados de alma, vis�es, sonhos, sons, leituras, imagens, falas, cheiros, afectos, gestos, saberes.

Os estudos sobre o c�rebro, a mem�ria, a realidade virtual, teorias sobre os "meme" e projectos como o MyLifeBits, podem mostrar-nos como evoluir� o software do imediato futuro, dispon�vel para que cada um "fale", em teoria para um mundo inteiro que o pode ouvir. Tudo isto acompanhar� aquilo que tenho chamado a "biologiza��o dos devices", a sua colagem ao nosso corpo, � nossa casa, a diminui��o da dist�ncia f�sica entre n�s e as vozes que nos chegam de fora. N�o custa compreender as enormes mudan�as que est�o em curso, todas diminuindo a distin��o entre a realidade e a virtualidade, alterando as literacias necess�rias para compreender e agir no mundo real, podendo, conforme a "riqueza" da cada um, ser mais inclusivas ou exclusivas socialmente.

A an�lise deste processo ganha em ser compreendida tamb�m pelo passado da "fala" que perpassa nos blogues e dos seus precedentes. No pr�ximo artigo analisarei os di�rios como protoblogues, escolhendo exemplos em franc�s, os di�rios-cadernos de Valery, Camus, Paul Morand e Cioran e as semelhan�as e diferen�as de uma escrita presa � sua circunst�ncia vivida no tempo.

(1) Utilizei como fonte State of the Blogosphere do Sifry's Alert com dados de Fevereiro de 2006 porque me interessava partir de um conjunto de dados coerentes que tinha analisado em conjunto. A revis�o do P�blico corrigiu-os com os elementos mais recentes, de Abril-Maio, actualizando o n�mero global de blogues para 35 milh�es. O crescimento � t�o r�pido que quando a segunda parte do mesmo estudo foi publicada o n�mero j� tinha atingido 37 milh�es. O n�mero referido no Jornalismo e Comunica��o � o actual (de ontem) de cerca de 45 milh�es. O crescimento exponencial da blogosfera explica estas r�pidas mudan�as de n�meros.

(No P�blico de 15/6/2006)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(16 de Junho de 2006)


__________________________

No P�blico de hoje, um grupo de artigos sobre as "utopias" da Internet como comunismo primitivo, ou, conforme os gostos, comunitarismo crist�o igualmente primitivo, ou a "civiliza��o da gratuitidade, profetizada por Agostinho da Silva". Vai dar ao mesmo. Estas nem sempre ben�volas utopias s�o a milion�sima encarna��o do rep�dio pela propriedade, t�o antigo como a exist�ncia da dita, t�o populares e t�o "primitivas" como as sociedades de ca�adores-recolectores. Elas cont�m em si, para al�m de um utopismo pol�tico que tem sempre dado p�ssimos resultados porque se traduz sem excep��o em engenharia social "primitiva", ou seja � for�a, uma confus�o sobre as ra�zes da mis�ria e da exclus�o. No caso da Internet pode ser tudo de gra�a, pode acabar o direito de autor, pode o mundo dos bits ser "gratuito" (como se lembra num artigo ainda "continua a ser imposs�vel fazer download de bifes, sapatos e casas para habitar ", ou seja, os �tomos resistem aos bits), que a fronteira da exclus�o/inclus�o centrar-se-� nas literacias. E as literacias est�o muito desigualmente distribu�das e n�o � imposs�vel que as mesmas tecnologias, que parecem favorecer a "civiliza��o da gratuitidade", acrescentem ainda mais um fosso aos que j� existem. � que n�o s�o as tecnologias, nem os efeitos tecnol�gicos, que mudam a sociedade. � a sociedade que muda a sociedade. Est� tudo explicado na obra de um alem�o chamado Karl Marx, que tinha que p�r na ordem um seu amigo, Engels que era industrial e acreditava demais no progresso. Marx tamb�m acreditava, mas tinha na cabe�a um outro ratinho a roer-lhe os optimismos positivistas: a luta de classes.

Ah! j� me esquecia , o P�blico n�o faz parte da "civiliza��o da gratuitidade" e por isso h� que comprar o jornal, ou usar uma t�cnica da "acumula��o socialista primitiva", ou seja, o roubo, para o colocar gratuito em linha.

*

See Explanation.  Clicking on the picture will download  the highest resolution version available.

 


EARLY MORNING BLOGS 794

The Rose Of Peace


If Michael, leader of God's host
When Heaven and Hell are met,
Looked down on you from Heaven's door-post
He would his deeds forget.
Brooding no more upon God's wars
In his divine homestead,
He would go weave out of the stars
A chaplet for your head.
And all folk seeing him bow down,
And white stars tell your praise,
Would come at last to God's great town,
Led on by gentle ways;
And God would bid His warfare cease,
Saying all things were well;
And softly make a rosy peace,
A peace of Heaven with Hell.


(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

15.6.06
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: PORTUGAL NUM LIVRO BRASILEIRO

Paulo Francis: 30 anos esta noitePaulo Francis, Trinta Anos Esta Noite

Noutra altura irei ao livro propriamente dito, mas, para ilustra��o do nosso ego nacional fict�cio (agora empolado pela mudan�a do pa�s para a Futebol�ndia), aqui v�o as refer�ncias avulsas a Portugal e aos portugueses, num livro de mem�rias escrito por um jornalista e escritor brasileiro. As refer�ncias s�o interessantes porque s�o avulsas, a inten��o do livro � autobiogr�fica e memorial�stica, mas igualmente reflexiva sobre o Brasil e os brasileiros a pretexto do golpe militar de 1964. Portugal aparece muito de relance, o que � a primeira conclus�o: Portugal conta pouco para se poder falar do Brasil.

E, quando conta, � assim:

- havia um condutor de bonde portugu�s que dizia "faz favoire" e tinha sempre troco;

- o Brasil importou a pregui�a dos portugueses em Goa: nada faziam para viver da terra e melhor�-la, sentavam-se � espera que se lhes entregasse o que havia;

- Get�lio Vargas era o prot�tipo de uma "tend�ncia aut�rquica, estatista e nacionalista" com ra�zes na mesma mentalidade que levou E�a a criticar Paris a favor do "primitivismo espont�neo de Portugal" de A Cidade e as Serras;

- "Sabemos que o papa Alexandre VI, um Borgia, nos deu a Portugal, o pa�s mais atrasado da Europa Ocidental, mal seguro da sua pr�pria independ�ncia, cuja l�ngua � referida por n fil�logos como um dialecto de Castela. Em que pese o g�nio de Cam�es, E�a, Machado e talvez alguns outros, s� Richard Burton, o erudito explorador, e Ezra Pound nos deram aten��o cultural entre o primeiro time da nossa civiliza��o, se bem que despertamos a curiosidade de um Humboldt e de um Darwin, mas por motivos f�sseis...";

- As p�ginas 231-2 s�o de recusa e avers�o a Portugal. Exemplo do tom: "Talvez algum dia saibamos algo de concreto sobre o nosso passado. Mas h� indaga��es antigas. Por que ingleses e franceses, por exemplo, que dariam a qualquer hora um safan�o em Portugal, permitiram que uma vastid�o de terra como a nossa coubesse a pa�s t�o insignificante? Na escola todo o mundo adorava Maur�cio de Nassau, pedindo contra raz�o, porque j� conhec�amos o fim da hist�ria, que ele ficasse. Houve at� a ideia de se fazer um Clube Calabar, o brasileiro que tamb�m preferia holand�s ao portugu�s."

E nada mais.

*

O livro de Paulo Francis � uma brilhante reflex�o sobre a sociedade brasileira. Li-o durante uma semana de f�rias no Rio de Janeiro. N�o consegui sair do quarto do hotel at� o terminar, tal � a clareza de ideias e sentido autocr�tico do autor. Impressiona que o livro tenha sido escrito em 1994 e esteja t�o atual, num pa�s que mudou tanto desde ent�o. Se as refer�ncias a Portugal s�o �cidas e escassas, a cr�tica ao Brasil � demolidora e assusta de t�o l�cida. � preciso coragem para ler este livro e continuar a acreditar no pa�s. Reduzi-lo �s impress�es sobre Portugal � um equ�voco.

Realmente, a elite brasileira, ademais um conceito bastante vago, n�o tem Portugal como refer�ncia. Seria estranho que assim fosse, uma vez que a elite portuguesa se divide entre refer�ncias intelectuais estrangeiras, precisamente as mesmas que servem de modelo ao Brasil. Al�m disso, qualquer pessoa que conhece o Brasil, n�o apenas o pa�s das f�rias tropicais, sabe que as �nicas regi�es do pa�s que conseguiram desenvolver sociedades mais ou menos pr�peras e institui��es t�picas de pa�ses desenvolvidos, foram aquelas onde a coloniza��o portuguesa � pouco importante.

Recomendo a leitura de um livro muito bom, publicado recentemente em Portugal, chamado "O Imp�rio � Deriva". � sobre o reinado de D. Jo�o no Brasil. Ajuda a entender o Rio de hoje e, melhor ainda, o Portugal de sempre. Se a imagem que o Brasil faz hoje de Portugal n�o � aquela que o nosso ego gostaria, � todavia melhor do que aquela que temos de n�s pr�prios, pelo menos em tempo de depress�o nacional. Basta ler as colunas de opini�o do P�blico. Apenas um coment�rio final: � muito mais f�cil ser Portugu�s aqui do que Brasileiro em Portugal. N�o se deixem enganar pelas apar�ncias. At� porque no Brasil as coisas nunca s�o exatamente o que parecem.

(Vitor Salvador Pic�o Gon�alves, Portuense, Professor da Universidade de Bras�lia)

*

N�o h� uma �nica ex-col�nia francesa, holandesa, alem� ou espanhola que apresente razo�veis desenvolvida. N�o h� sequer uma que seja mais desenvolvida do que o Brasil - talvez a Costa Rica..... e a sua meia d�zia de habitantes....

Quanto �s ex-col�nias s� temos quatro mais desenvolvidas do que o Brasil, a Nova Zel�ndia, a Austr�lia, os EUA e o Canad�. Todos pa�ses em que as zonas desenvolvidas s�o de clima temperado tipo europeu, e onde foi bastante f�cil transferir tecnologia agricola da Europa para as col�nias - desde sementes at� ao gado - ou tente um ingl�s levar gado e as culturas do seu clima para o Brasil para ver a produtividade que obtem...

Est� at� o Brasil � frente da �frica do Sul...pa�s onde a emigra��o "wasp" teve o poder at� h� uma d�cada.

O exemplo de desenvolvimento das restantes col�nias mostra que os portugueses foram o povo que melhor interiorizou os custos de adapta��o dos seus processos, metodologias e culturas a climas tropicais.

Essa conversa de brasileiro s� mostra uma enorme ignor�ncia sobre o mundo e sobre ele pr�prio, porque sejamos francos, j� s�o independentes h� 184 anos.....e perante tanta estupidez s� mesmo o desprezo de quem tem um passaporte europeu - que � o que as elites brasileiros mais pena t�m de n�o ter.

(Jo�o)

*

H� um enorme vazio de estudos sistem�ticos das representa��es que persistem na actualidade sobre a presen�a colonial portuguesa nos diferentes espa�os. Em �frica, por exemplo, estudos/pesquisas que versem sobre o pensamento social, sobretudo numa perspectiva de psicologia social e que fujam, de algum modo, aos modelos anal�ticos normalmente usados no estudo das sociedades �tradicionais� pelos antrop�logos (nada tenho contra os antrop�logos, pelo contr�rio), s�o praticamente inexistentes. Reduzir as representa��es sobre a presen�a colonial portuguesa a amor/�dio; as �elites� e os outros; etc. sabe a pouco, pelo menos naquilo que a �frica diz respeito.

Quanto ao �portuga� do Brasil, acrescento que n�o se detecta nada de semelhante em Mo�ambique onde tenho feito trabalho de campo (qui�� em �frica). A rela��o � representada como que num patamar de amor/�dio, mas sem a desvaloriza��o cultural do �outro� (ex-colono). Outra nota � a de que no caso de alguns espa�os em Mo�ambique, como Tete, quando se fala do colono portugu�s surge sistematicamente em contraponto ao ingl�s e isso n�o se reduz ao �mau� versus o �bom�. Parece-me tamb�m que a exorciza��o dos fantasmas da coloniza��o est� melhor consolidada nos ex-colonizados do que nos ex-colonos.

Envio excertos de entrevistas realizadas em 1998 com cidad�os comuns das prov�ncias de Maputo, Nampula e Tete (espa�os urbanos e rurais) e que podem ajudar a pensar. Os entrevistados foram no geral homens adultos. � um trabalho que ainda est� em andamento numa nova vers�o, pelo que se disp�em de outros dados. Disponibilizar o que se segue �a cru� pode originar acusa��es imediatas de �neo-colonialismo�, �saudosismo� ou o que seja. Mas arrisco:

Servi�os for�ados. Fizeram isso. Mas estavam-nos a ensinar (...). Para termos uma no��o direita.�; �O branco, at� agora branco, muita gente que vivia nesse tempo est� a chamar do branco, porque o branco ele batia, mas dava qualquer coisa a voc� saberes.�; �Nessa altura (...) havia algum sofrimento porque aquele que fosse trabalhar, quando faltasse um dia, era apanhado, era dado porrada. E... sabendo que o benef�cio era para ele mais tarde, mas tinha que disciplinar a pessoa.�; �Eles [os mais velhos] sempre falam, dizer que os colonos sempre nos educaram para andarmos asseados. Alguns... os nossos bisav�s para p�r sapato era preciso ser obrigado.�; �Havia coordena��o [entre n�s e os portugueses]. (...) Davam palmat�ria para educar. Isso da escola era educa��o que hoje estamos a gostar. (...) Levei [muitas reguadas]! (...) Era para o meu benef�cio. Hoje j� estou melhor. J� estou a receber. J� estou a ganhar o p�o.�; �Para mim n�o abusou [o portugu�s].�; �(...) o colono proibia fazer aguardente aqui, tradicional (...) em parte cheguei de compreender hoje que estava a fazer bem porque as pessoas morriam com aquela aguardente porque o �cido era mais exagerado, n�o tinha limite.�; �(...) naquele tempo tinha quarta classe. Era limite do... do ind�gena. (...) era tempo de boas coisas tamb�m para n�s, porque n�o sabia os estudos.�; �Eu gostei [do tempo colonial]. (...) Os mais novos s�o sempre... como at� hoje nos livros s� fala escravatura, escravatura, escravatura (...) e n�o souberam como viveram com... com os portugueses. Houve escravatura sim (...). Para construir um pa�s tem de haver sacrif�cio de n�s todos.�; �Gostei [de viver com os portugueses] porque tinha acostumado tamb�m aqueles ali. Tinham raz�o.�; �Gostei muito de viver com os portugueses naquele tempo.�; �(...) tudo era bom para mim, por causa, quando estavam aqui os portugueses n�s - ah! - era satisfeito.�; �Mas o... para mim o tempo colonial foi muito bom porque aquilo que voc� precisava na altura, apanhava com dinheiro.�; �Pela minha parte foi bom [o tempo colonial] porque (...) eu era consciente. N�o mexe (...) n�o era ladr�o (...). � por isso que eu acho que portugu�s, pela minha parte, era bom.�; �Eu tenho muita saudade. At� aquele tempo era muito lindo.�; - �Isso sim! Isso acontecia [o negro ser penalizado por discutir com um branco]. (...) Era uma injusti�a, sim.�; �H� o colono que sempre... n�o queria... dar o negro como pessoa. S� dar o negro como... como animal.�; �(...) s� vi os meus pais serem carregados, serem amarrados para ir trabalhar for�ado (...) a outra coisa foi a cultura de algod�o, de arroz, tamb�m foi muito rigoroso.�; �Mas mesmo assim, aquilo tudo j� passou. Aquilo tudo j� passou.�; �N�o h� problemas para dar. Hum. J� encerr�mos tudo aquilo que ent�o se deu. Aquela ferida que algu�m me cortou. J� a ferida, j� est�... est� j� encerrado.�; �Outros gente dizem que tempo daquele [colonial] at� �s vezes alguns, nossos bisav�s, carregavam as pessoas nos ombros.�; �Abria estradas assim com as m�os. (...) N�o havia coisas boas. (...) �ramos tratados como escravos n�o sei de onde.�; �Era mal... era mal por causa que tinha chibalo, trabalho nas linhas f�rreas e nas planta��es. (...) Aprendi isso na escola.�; �Iam � for�a [para o chibalo, contratados]. (...) N�o recebiam! (...) Quando sa�am daqui, iam para a Beira. Depois, quando acabarem aquilo na Beira, doze meses, vinham para aqui. Chegavam na administra��o e diziam-lhes �Olha l�: toma l� a sua guia de imposto do seu dinheiro que trabalhou na Beira!��; �Realmente isto [racismo] senti bastante. (...) E o negro nada tinha que atribuir. (...) numa pequena falha aparecia o branco e batia. (...) Portanto, um africano perante um branco n�o podia agir.�

(Gabriel Mith� Ribeiro)

*

Embora o ponto de vista sobre a pequenez de Portugal visto do Brasil seja interessante, talvez n�o seja in�til frisar alguns aspectos que s�o bem conhecidos das pessoas mais familiarizadas com a vida cultural e medi�tica do Brasil:


1 - O clube de f�s de Maur�cio de Nassau � bastante grande entre as pessoas mais ou menos letradas do Brasil. N�o � caso para menos, j� que a casa de Nassau trouxe para o Norte do Brasil alguns ind�cios de modernidade, que contrastava com a decad�ncia e o atraso que se tinham tornado caracter�sticos da Coroa portuguesa. Os mesmos motivos levaram grande parte da elite portuguesa de ent�o (excepto a que morreu em Alc�cer-Quibir) a saudar Filipe II de Espanha como rei de Portugal.

2 - A "xinga��o" brasileira com a figura do Portugu�s n�o � muito diferente da de muitos portugueses com o Alentejano, o Galego, o Preto, etc. Trata-se sempre de achincalhar um arqu�tipo de pessoa pobre, esfor�ada e mais ou menos desadaptada da realidade circundante.

3 - Quanto � �ilustra��o do nosso ego nacional fict�cio (agora empolado pela mudan�a do pa�s para a Futebol�ndia)�, o Brasil n�o tem de pedir-nos li��es nessa mat�ria. O Brasil oscila sempre, aos olhos dos seus, entre o para�so na Terra (�Deus � brasileiro�, etc.) e o pior dos pa�ses (�o Brasil � uma merda�, etc.).

4 - S� queria sublinhar como algumas das piores caracter�sticas da nossa �identidade� (irrealismo, sebastianismo, infantiliza��o perante o Estado, aus�ncia de �tica de trabalho) existem muito parecidas no Brasil. Penso que era o Agostinho da Silva que dizia que �o Brasil � Portugal � solta�.

Para concluir, n�o me incomoda nada que o nosso pequeno rect�ngulo europeu,cuja �nica grandeza geogr�fica reside nas �guas territoriais, seja visto do Brasil como uma na��o de pouca monta. O que me incomoda � que n�o saibamos ser mais eficazes, mais realistas, mais �virtuosos� nas nossas rela��es com o Brasil, pois haver no mundo um pa�s daquela dimens�o de l�ngua oficial portuguesa n�o � uma quest�o de somenos import�ncia para o nosso futuro enquanto pa�s.

Nada disto me impede, com � �bvio, de �torcer� por Portugal em primeiro lugar e pelo Brasil, quando n�s n�o estamos presentes.

(Miguel Magalh�es)

*

Irritam-me solenemente estes brasileiros que culpam o atraso, o fracasso, a corrup��o deles e todos os seus defeitos em Portugal.

Sinceramente, considero estes brasileiros ressabiados pseudo-intelectuais de retrete uns adolescentes malcriados que culpam tudo o que existe de mal nas gera��es anteriores e que nada fazem para melhorar o seu presente estado, sen�o parar no caf�, fumar ganza e mandar bocas.


Se calhar as col�nias espanholas est�o muito melhor? E as colonias inglesas, holandesas e de outros pa�ses europeus completamente exploradas, tanto a n�vel econ�mico e humano n�o contam?

V�o ser tapadinhos l� fora! Podemos der atrasadinhos mas se eles andam na mis�ria � porque nada fazem para sair dela.

Se calhar o Brasil saiu ao Pai.

(Jo�o)

*

Talvez ache esta pertunta muito est�pida, mas acha possivel que pessoas habituadas a climas frios e chuvosos como os holandeses se tivessem conseguido habituar ao tropical Brasil ? O mesmo vale seguramente para os ingleses e menos para os franceses...

(Eduardo Tom�)

*

H� muitos anos que eu sei que os nossos ex-colonizados n�o gostam de n�s.

Descobri-o relativamente aos brasileiros h� uns 22 anos, quando estava a doutorar-me, frequentava os laborat�rios de �Autom�tica� de Toulouse, e convivia com os muitos bolseiros brasileiros que por l� havia.

Em Timor descobriu-o o meu pai, aos 80 anos, que como velho colono nunca alimentou nenhuma estima especial pelo pa�s donde partiu h� mais de meio s�culo, e que por l� andou h� pouco a fazer levantamentos hidroel�ctricos prospectivos, por conta da ONU. Veio de l� a dizer ser �bvio que as poucas estradas e outras infra-estruturas existentes foram feitas sob a ocupa��o indon�sia e que os jovens nem sabiam falar portugu�s...

E descobri-lo com os africanos n�o requer mais do que acompanhar os media.

Esta �, ali�s, uma das raz�es por que, por muito tempo, achei uma quimera v� a nostalgia frequente que v� no �espa�o lus�fono� uma aposta estrat�gica para o nosso desenvolvimento econ�mico. Sempre achei a ideia com muita da ilus�o salazarista.

Mas com o tempo mudei um bocado de opini�o.

Quem na realidade n�o gosta de n�s, nesses pa�ses, s�o as �lites. No Brasil, quase sempre os intelectuais, especialmente os de esquerda. Em �frica, os detentores de cargos pol�ticos que os herdaram da Administra��o colonial. E em Timor, acho que todos gostam de n�s.

Por�m, o que tenho visto � que a n�vel de povo, quer em turismo, quer em neg�cios, � diferente. A�, descobre-se de facto que o imp�rio deixou marcas e afectos m�tos.

Talvez voc� precise de uma �descida ao povo� desse tipo para o descobrir, Pacheco Pereira. Deixe l� a leitura dos intelectuais e v� l� comprar ou vender qualquer coisa, ou descansar em Macei�, ou instalar um neg�cio, e vai ver...

Jos� Lu�s Pinto de S�

*

Um romance brasileiro onde os portugueses (ou, melhor dizendo, um portugu�s) s�o encarados de um ponto de vista claramente mais positivo do que no de Paulo Francis � �O meu p� de laranja lima�, de Jos� Mauro de Vasconcelos.

Jos� Carlos Santos
 


EARLY MORNING BLOGS 793

�pigraphe pour un livre condamn�

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et na�f homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et m�lancolique.

Si tu n'as fait ta rh�torique
Chez Satan, le rus� doyen,
Jette ! tu n'y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hyst�rique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre � m'aimer ;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !... sinon, je te maudis !

(Charles Baudelaire)

*

Bom dia!
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (5� s�rie)



Como professor: uma grande parte de n�s concordam com muito do que a Sra. ministra est� a tentar alterar. No entanto, achamos que n�o era por a� que come��vamos. Conclui-se rapidamente que nem o Minist�rio nem os sindicatos fazem ideia do que � a vida na sala de aula e na escola. Qualquer professor do activo sabe o que o minist�rio, em primeiro lugar devia alterar (pequenas medidas sem implica��es financeiras) para que a escola fosse um local melhor e com resultados imediatos (perdoe-me a presun��o). Por exemplo: sou director de turma h� v�rios anos e, apesar dos esfor�os constantes, verifico que os pais, como muitos t�m dito, nunca foram � escola (60 a 70%), e os que aparecem s�o dos alunos com melhores presta��es..... Se todas as presta��es sociais (abono de fam�lia, subsidio de desemprego e todos os outros) dependessem de uma informa��o do DT , concerteza que ter�amos os pais na escola e isso era decisivo.

(Ant�nio Barreira)

*

A professora Ana Teresa Mendes da Silva come�a por assumir que h� professores bons (que gostariam de ser avaliados) e maus (os tais que ganham o mesmo que os outros a troco de muito pouco), mas depois desata a dizer que os professores (num todo) � que preenchem uma s�rie de necessidades dos alunos que os seus pais (que considera tamb�m num todo) supostamente n�o satisfazem.

Gostaria que tivesse a ideia que os pais dos alunos sabem perfeitamente que h� uns professores e os outros, assim como tamb�m eles pr�prios podem ser cuidadosos e esmerados ou desleixados e incompetentes. Gostaria de lhe descrever um professor que conhe�o por ser o de um filho meu: perto do topo da sua carreira e com fama de ser um bom professor, em dois anos n�o fez uma visita de estudo sequer; vai repetidamente ao m�dico e ao dentista (digamos semana sim, semana n�o, dentro do seu hor�rio lectivo) e, al�m de faltar com frequ�ncia �s 6� feiras, s� neste ano lectivo faltou ainda 2 per�odos de 15 dias. Como tarefas n�o lectivas, e uma vez que a escola, por falta de instala��es n�o disp�e de prolongamento de hor�rio, foi incumbido de periodicamente colaborar no apoio ao refeit�rio da escola (1� ciclo) mas n�o o faz alegadamente porque o cheiro da comida lhe ficava nos cabelos. Chega a dizer aos alunos que est� farto deles. Claro que este professor s� pode ter medo de ser avaliado n�o s� pelos pais dos alunos como tamb�m pela sua assiduidade e pelo seu projecto de trabalho.

H� dias li no P�blico um jornalista a indignar-se com a ideia de os pais participarem na avalia��o dos professores, alegando que seria bonito por exemplo as fam�lias dos doentes avaliarem os m�dicos. Acontece que essa pr�tica por acaso est� prevista e come�a a ser usada em algumas institui��es de sa�de. A avalia��o da satisfa��o dos utilizadores dos servi�os (que em Medicina n�o s�o s� os doentes mas tamb�m os seus cuidadores) � uma componente essencial da avalia��o da qualidade dos servi�os, de sa�de e n�o s�. N�o cabe na cabe�a de ningu�m que um m�dico (ou um professor) seja muito bom mas afinal a maioria dos utentes (ou dos pais dos alunos) n�o goste dele.

Ainda quanto �s queixas de as promo��es at� ao topo da carreira n�o serem para todos, essa � a ordem natural das coisas: quantos funcion�rios de uma empresa chegam aos seus quadros superiores? Mesmo na fun��o p�blica e na �rea em que estou, para um m�dico chegar ao grau de chefe de servi�o tem de concorrer a um concurso com vagas limitadas que podem inclusive n�o ser ocupadas se os m�dicos candidatos n�o atingirem o n�vel desejado. S�o provas duras a que muitos nem sequer se submetem e, de entre os que se submetem, alguns ficam for�osamente pelo caminho.

As reac��es em bloco desprestigiam os bons professores que se deviam querer distinguir dos outros. Sabemos que frequentemente trabalham em condi��es muito desfavor�veis prosseguindo por vezes objectivos mais ambiciosos que os que lhe seriam estritamente exig�veis. Todos tivemos professores desses e sabemos reconhec�-los. O que n�o � admiss�vel � que as m�s condi��es de trabalho sirvam como desculpa para os que n�o cumprem, n�o se esfor�am ou, simplesmente, n�o t�m capacidade para mais mas querem, de qualquer forma, chegar t�o longe como os outros.

(M�nica G.)

*

Sem o brado medi�tico do encerramento de qualquer f�brica no litoral, uma verdadeira revolu��o est� a ser operada no mundo rural. O distrito de Bragan�a vai perder este m�s 225 escolas.

Retirada qualquer tentativa de problematizar o tema, duas simples conclus�es, as aldeias nunca mais v�o ser as mesmas e encerra tamb�m uma das �ltimas esperan�as para o mundo rural!

(Jos� Alegre Mesquita)


*

Ao longo da vida tenho deparado resultados semelhantes aos observados em rela��o aos professores.

Ser� que tudo se pode resumir na frase: o sindicalismo de reivindica��o salarial (ou equivalente) teve demasiado sucesso?

Ser� que se pode dizer que � justamente o sucesso do sindicalismo que matas as �conquistas alcan�adas�.

Ou ser� que os alvos em que o sindicalismo se centra s�o inapropriados?

Ou, ainda, ser� que o sindicalismo, no que respeita aos professores, j� deu o que tinha a dar? Ser� de se passar a algum tipo de nova fase?

Os professores n�o devem ser mercen�rios do ensino: se receberem, ensinam, n�o importa o qu� ou como, ou em que condi��es (excluindo as salariais).

Diria que falta ainda uma discuss�o � volta da dicotomia autoridade/formas de a exercer para a tornar efectiva � ou andamos todos a cuspir para o ar. De forma mais prosaica diria: desculpem l�, meus amigos, mas em mat�ria de disciplina o professor tem sempre raz�o � o pouco que sobra s�o excep��es que confirmam a regra.

(Henrique Martins)

*

Hoje na vers�o em papel do P�blico o Minist�rio da Educa��o publica aquilo a que chama de edital. Este edital publicita o "Enriquecimento Curricular para o 1� ciclo" e o "plano da matem�tica para os 2� e 3� ciclos". Normalmente s�o publicados na "zona" dos classificados, mas esta � uma publicidade paga. N�o seria a primeira vez � certo mas o que me pasma � o facto de o edital interessar apenas �s escolas p�blicas. Ao que sei o ME possui hoje mais do que nunca de linhas pr�prias de comunica��o com as escolas e mesmo com os executivos. Qual a necessidade de publicitar uma medida destas? Uma simples circular como tantas outras (com ordens vinculativas) n�o seria suficiente? � apenas publicidade e enganosa. � apenas mais uma evidencia da forma como o ME usa a comunica��o social. Usa-a para vincular uma imagem distorcida das suas politicas educativas. Hoje como nunca o assunto "professores" vende mais que o assunto "escola" os senhores professores est�o na capa do Expresso, nos jornais di�rios e pasme-se at� nas revistas cor-de-rosa. Pena � que todos falam de bancada e sem grande pondera��o. Apenas e s� por terem andado na escola e recordarem este ou aquele docente acham que sabem como corrigir o sistema. Ser� demasiado tarde quando se perceber que estas politicas n�o ajudam os professores a serem melhores, pelo contr�rio. Que n�o melhoram o sistema, pelo contr�rio. Na verdade n�o existe uma verdadeira politica educativa ou existindo est� orientadada claramente pelas necessidades de conter a evolu��o da massa salarial e o seu peso no or�amento.

As politicas educativas deste governo explicam-se em poucas linhas:

N�o h� dinheiro no mealheiro (facto)

A carreira dos docentes implica um aumento da massa salarial exponencial tendo em conta a actual carreira baseada na experi�ncia (ou como dizem antiguidade);

O actual peso da massa salarial no or�amento da educa��o � de cerca 93% ( dados da OCDE j� que o ME nunca mencionou os seus pr�prios n�meros) e cerca de 58% das despesas fixas do estado.

Melhorar os �ndices de escolaridade (ainda que artificialmente) de modo a tornar mais atractivo o investimento no nosso pa�s.

Para qualquer individuo que acompanhe a actualidade compreende que este � um "Estado � Rasca" (n�o rasca - embora tamb�m) e que a forma mais r�pida e eficaz de alcan�ar o equil�brio financeiro ser� actuar onde as medidas surtam maior efeito neste balan�o.

Estamos assim perante uma necessidade isto eu compreendo embora como professor n�o me agrade. Qualquer um compreende desde que lhe expliquem. O que eu n�o entendo � que se vire toda uma sociedade contra os professores e se procure encapotar medidas econ�micas como educativas. Nenhuma das medidas at� agora tomadas ir�o melhorar os resultados dos alunos e t�m contribu�do para a degrada��o das condi��es de trabalho dos professores e isto tem consequ�ncias.

O que agrava a situa��o � justamente o facto de as condi��es de trabalho dos docentes se virem a degradar de alguns anos a esta parte. Os sindicatos devem exigir do ME condi��es de trabalho para os docentes e sa�rem do caminho relativamente �s politicas educativas de modo a n�o serem responsabilizados pelas mesmas como hoje acontece. Devem exigir, por exemplo, que todo o tempo passado na escola seja contabilizado ou como componente lectiva ou como componente n�o lectivas (actualmente um professor passa cerca de duas horas na escola que n�o s�o contabilizadas - s�o os chamados intervalos cuja necessidade n�o pode ser colocada em causa), para al�m de uma generalizada m� gest�o de recursos evidente nas escolas. Pode parecer mesquinho mas o ME cortou em 5min as aulas e p�s os professores a trabalhar mais dois tempos (outras duas horas) de borla. O tempo � um aspecto importante nesta profiss�o. Os professores devem exigir condi��es de trabalho de modo a concretizarem as medidas do minist�rio e n�o passar a vida a contestar essas mesmas politicas.Eu sou professor e fa�o o que me mandam apenas quero condi��es para o fazer. A responsabiliza��o dos alunos com consequ�ncias claras devem tamb�m ser implementadas. N�o faz sentido nenhum n�o partilhar responsabilidades. As escolas n�o podem continuar a ser mais um bra�o do polvo do Estado Social(ista). A escola deve afirmar-se e ter � sua volta os meios e recursos para tal e n�o o contrario ao estar ao servi�o de politicas sociais. Como cidad�o estou preocupado com o rumo da educa��o (p�blica) e a forma leviana como este assunto tem sido tratado pela comunica��o social e por muitos dos fazedores de opini�es. Adivinha-se o crescimento do ensino privado mas sobretudo o aparecimento de Escolas sem parelismo pedag�gico com o ensino oficial mas que se afirmar�o pela excel�ncia das metodologias (e da capacidade de financiamento dos pap�s).

(Carlos Br�s)

*

Por causa das trapalhadas que o leitor B�rtolo descreve, na defini��o das qualifica��es para o ensino especial, a minha mulher, que se dedica a esse tipo de ensino h� muitos anos, que acaba de ganhar um concurso municipal por um projecto que apresentou para a recupera��o de crian�as com dificuldades especiais na sua �rea de escola, que tem um mestrado em Ci�ncias de Educa��o e tamb�m uma dessas p�s-gradua��es �r�pidas� em ensino especial, que tem j� um total de 23 anos de servi�o, a minha mulher baralhou-se no preenchimento das suas qualifica��es no boletim de concurso e foi exclu�da...!!!

Para o n�o � bem poss�vel que fique no desemprego!

(Jos� Lu�s Pinto de S�)

13.6.06
 


COISAS SIMPLES



(John Frederick Peto)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(13 de Junho de 2006)


__________________________

Nuvens como nunca as tinhamos visto: a Tempestade Tropical "Alberto" vista pelo novo sat�lite Cloudsat da NASA. Os "olhos" da meteorologia nunca mais v�o ser os mesmos.

 


EARLY MORNING BLOGS 792

1er janvier


Enfant, on vous dira plus tard que le grand-p�re
Vous adorait ; qu'il fit de son mieux sur la terre,
Qu'il eut fort peu de joie et beaucoup d'envieux,
Qu'au temps o� vous �tiez petits il �tait vieux,
Qu'il n'avait pas de mots bourrus ni d'airs moroses,
Et qu'il vous a quitt�s dans la saison des roses ;
Qu'il est mort, que c'�tait un bonhomme cl�ment ;
Que, dans l'hiver fameux du grand bombardement,
Il traversait Paris tragique et plein d'�p�es,
Pour vous porter des tas de jouets, des poup�es,
Et des pantins faisant mille gestes bouffons ;
Et vous serez pensifs sous les arbres profonds.


(Victor Hugo)

*

Bom dia!

12.6.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (4� s�rie)



(...) Perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele quer ser avaliado. E a resposta � SIM! Claro que sim! Mas qual � o bom profissional que investe na carreira e que quer ter o mesmo Satisfaz autom�tico num relat�rio para progress�o na carreira que aquele que v� o ensino como uma forma de ganhar dinheiro "para os alfinetes"? Qual � o bom profissional que investe muito do seu tempo e da sua energia para querer depois ser "metido no mesmo saco" daquele que pouco ou nada faz??? Qual � o professor digno desse nome que gosta de ganhar o mesmo (ou ainda menos, se estiver num escal�o inferior) do que aquele que � bem pior profissional do que ele?

Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o cegamente arrogante para achar que pode existir sem professores? Ser� este pa�s t�o est�pido para achar que a forma de limpar o ensino dos maus profissionais (que existem, claro que sim! E n�o contem comigo para ser corporativista...) � atacar todos os professores, atribuir-lhes as causas de todos os males da sociedade, desde os meninos que se drogam porque os professores faltam (ouvi isto da boca do senhor Albino, da Confedera��o de Pais) at� aos de falta de produtividade do pa�s? Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o arrogante que entenda poder n�o reconhecer as horas que os professores dedicam a preparar as aulas, a pensar em como �agarrar� aquele aluno que anda meio perdido, a telefonar vezes sem conta para os pais do outro mi�do que anda completamente desorientado, a gastar dinheiro do seu bolso em materiais de apoio, a lev�-los em visitas de estudo a ver museus, teatros, exposi��es, conhecer coisas que muitos pais, confort�veis nos seus fins de semana de centro comercial, n�o est�o para fazer? J� agora, para os que dizem que os professores s� querem passear, pensem que o podemos fazer com os nossos filhos e amigos, sem ter que passar 12 horas fora de casa de um dia que, passado na escola, seria de muitas menos e sem a responsabilidade de tomar conta dos filhos dos outros. Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o arrogante que esque�a que s�o os professores, como �, obviamente, sua fun��o e responsabilidade, a dar a todos os alunos o melhor das ferramentas de que disp�em, sejam elas cient�ficas, intelectuais, sociais, de cidadania e de tudo o mais que possam imaginar e entender necess�rias?

Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o cegamente arrogante que n�o perceba que sem os professores que tentam tirar os mi�dos do miserabilismo intelectual em que muitos vivem (independentemente da classe social) teremos cada vez mais uma escola de pobrezinhos onde, para n�o haver insucesso, devo partir daquilo que "a crian�a" � e sabe, descer ao encontro dos seus interesses, por causa do insucesso, etc,etc,etc... (como isto d� jeito aos donos dos col�gios...)? Assim, ajudamos os �pobrezinhos� a cumprirem o seu (pr�)des�gnio na vida... Ser� este pa�s t�o est�pido que n�o perceba que sem os professores que se est�o a borrifar para estes determinismos sociais e que tanto trabalham, se for essa a vontade do aluno, para ser m�dico o filho do cozinheiro como o do deputado, teremos cada vez mais o pa�s da elite, a quem tudo � poss�vel, e o dos outros, fechados e condenados ao atraso e a perpetuarem o meio onde tiveram o azar de nascer?

Ser� este pa�s de "professores de bancada" (pois, tal como no futebol, todos parecem saber mais do que � ser professor do que n�s, pelos vistos os mais incompetentes de todos os profissionais deste pa�s!) capaz de parar de gastar o tempo (tempo este em que muitos se poderiam dedicar, digamos, a educar os pr�prios filhos, a ir � escola saber deles, a dedicar-lhes uns minutos, sei l�...!) a fazer analogias entre as empresas privadas e os professores? Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o cego que n�o veja, nas empresas, as pol�ticas de incentivo, os pr�mios de produtividade, os semin�rios de motiva��o, os telem�veis de servi�o, os computadores da empresa para trabalhar em casa e, sem ir ao mais �bvio, os ordenados? Ser� este pa�s t�o est�pido que n�o entenda que os professores s�o profissionais qualificados, n�o t�m o 9� ano nem t�o s� o 12�? Portanto, sejam pelos menos honestos (se n�o conseguirem ser inteligentes!) nas compara��es.

Ser� este pa�s t�o est�pido e t�o cegamente arrogante? Quantos de v�s n�o devem muito do que s�o a professores que tiveram? Ou os vossos filhos?

Ser� o meu pa�s t�o cego e t�o arrogante???

Assim, perguntem a qualquer professor digno desse nome se ele que ser avaliado... E ele responde-vos que SIM! O que n�o queremos mais � ser constantemente humilhados, culpabilizados, achincalhados, denegridos, tratados sem a considera��o, o respeito e a intelig�ncia que a minha profiss�o e o meu profissionalismo me concedem o direito de exigir!

E, citando Almada Negreiros:

UMA GERA��O, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS � UMA GERA��O QUE NUNCA O FOI! � UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! � UMA R�SMA DE CHARLAT�ES E DE VENDIDOS, E S� PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

... cada gera��o tem o Dantas que merece! Mas tamb�m tem nas suas m�os o poder de o reduzir � sua insignific�ncia... At� porque do Dantas, o verdadeiro, o J�lio, n�o fora o testemunho/desabafo do Almada Negreiros, e j� se teria dissolvido na poeira dos tempos...

5 de Junho de 2006

(Ana Cristina Mendes da Silva, professora do departamento de L�ngua Portuguesa do quadro de nomea��o definitiva da Escola Secund�ria da Amadora)

*

Sou professor do ensino prim�rio (do 1� ciclo na terminologia actual), tenho 49 anos de idade e cerca de 28 de servi�o (20 dos quais na educa��o especial). Ao longa da minha vida profissional sempre tentei estudar e aprender. Antes da "forma��o em servi�o" fornecida pelo minist�rio paguei do meu, na altura, magro sal�rio muitas inscri��es em cursos e semin�rios. Em 1988 tive a oportunidade ir estudar a tempo inteiro durante 2 anos (DESE em Educa��o Especial na ESE do Porto) e em 1998 fiz um mestrado em educa��o na Universidade do Minho.

Sempre defendi a avalia��o das escolas e dos professores. Mas, neste momento, sinto-me ofendido pela ministra.(...) � muito mais f�cil avaliar os professores do que avaliar as escolas. Mas, uma boa avalia��o das escolas, com medidas de acompanhamento para as escolas com problemas, como fazem os ingleses, permitiria melhorias na qualidade da escola. Temo bem que avaliando-se apenas os professores o �nico resultado que se conseguir� �, no curto prazo, travar as progress�es autom�ticas e contribuir para a redu��o do d�fice. Devo dizer que n�o sou simpatizante do PSD, concordei com algumas das medidas do Dr. David Justino e discordei de outras, mas tenho de reconhecer as medidas eram articuladas e tinham uma l�gica.

Voltando � actual ministra continuo sem perceber a atitude dos sindicatos (talvez seja por isso que deixei de ser s�cio h� mais de 10 anos). Esta equipa ministerial tem mostrado uma incompet�ncia escandalosa na implementa��o de algumas medidas e, sobre isso, os sindicatos nada dizem.

Passo a citar apenas alguns exemplos:

- Foi criado um quadro de professores de educa��o especial. At� agora estes professores eram colocados de acordo com o n�vel de ensino correspondente � sua forma��o inicial. No novo quadro s�o criados 3 grupos de doc�ncia correspondentes a diferentes tipos de defici�ncia dos alunos. A estes lugares podem concorrer professores de qualquer grau de ensino (desde o jardim de inf�ncia ao secund�rio), desde que sejam especializados. Esta especializa��o � conferida pela frequ�ncia de uma p�s gradua��o de cerca de 300 horas.

Ou seja, como n�o se diferenciaram as vagas por n�veis de ensino, pode acontecer que num agrupamento sejam colocadas apenas educadoras de inf�ncia que ter�o de apoiar alunos at� ao 3� ciclo. Noutro podem ter sido colocados s� professores de 3� ciclo, que ter�o de apoiar todos os alunos, incluindo crian�as de jardim de inf�ncia e, eventualmente, at� beb�s.

Devo esclarecer que n�o estou minimamente preocupado com os professores. Estou preocupado com as crian�as, sobretudo as mais pequenas porque esses anos s�o fundamentais para o seu desenvolvimento. Na educa��o especial quanto mais cedo come�a uma interven��o de qualidade mais hip�teses h� de minorar os problemas da crian�a.

- Neste "famoso" concurso os professores s� poderiam concorrer se tivessem a especializa��o, mas a nota dessa especializa��o n�o contava para a sua gradua��o profissional. A experi�ncia profissional em educa��o especial tamb�m n�o. Aos professores era perguntado se possu�am pelo menos 365 dias de servi�o na educa��o especial. Assim, um professor com 20 anos de servi�o total que tem apenas um ano de experi�ncia em educa��o especial fica � frente de outro com 19 anos e 364 dias de servi�o total que tem 12 anos de experi�ncia em educa��o especial.

- Para "completar o ramalhete" o despacho que regulamentava as habilita��es foi acrescentado 3 vezes, duas delas durante o pr�prio concurso!

- No final do ano lectivo anterior foi alterado � pressa o despacho 105 (n�o sei o ano), que regulamentava a educa��o especial, e foi substitu�do pelo Despacho n.� 10856/2005 que poucas altera��es introduziu. Uma dessas altera��es passou a ser a obrigatoriedade de os professores realizarem, em Maio, um relat�rio individual sobre cada aluno. Esse relat�rio seria validado pelas Equipas de Coordena��o (ECAE) e enviado �s direc��es regionais que, por sua vez, o enviariam para o minist�rio. Foi definido um modelo de relat�rio e criado um formul�rio em Microsoft Word para o seu preenchimento. Pelo menos tomaram uma decis�o sensata: o relat�rio seria enviado em formato electr�nico.

- No presente ano lectivo comecei, em devido tempo, a perguntar se haveria altera��es ao modelo do relat�rio. Foi-me dito que aguardasse. H� cerca de duas semanas finalmente chegou o novo modelo. Agora � feito on-line (� o choque tecnol�gico). At� aqui tudo bem, o problema � que atribu�ram a mesma password aos professores de dois concelhos (abrangido pela mesma ECAE) e o nome de utilizador � o da ECAE. Ou seja, qualquer professor destes concelhos, ao aceder ao sistema tem acesso n�o s� ao nome completo das crian�as, como tamb�m ao que os colegas escreveram.

Estou com um problema de consci�ncia grave: tenho de fazer os relat�rios mas, simultaneamente, queria proteger os meus alunos e as suas fam�lias. Os pais e as crian�as com problemas n�o t�m direitos?

Podia continuar a citar um conjunto de incidentes em que h� ordens e contra ordens. A ministra ou um dos seus secret�rios de estado re�nem com os conselhos executivos e d�o uma ordem. As coisas funcionam mal no terreno, h� contra ordem. Desde h� muitos anos que n�o se sentia uma t�o grande instabilidade nas escolas. Felizmente decidi deixar a educa��o especial e voltar ao ensino regular, e digo felizmente apesar de ir ganhar menos e ter mais 5 horas de aulas por semana.

A prop�sito de hor�rios, a ministra voltou � ideia de, "nos agrupamentos em que n�o haja outros meios", nos p�r a servir de babysiter aos meninos ap�s as 5 horas di�rias de aulas. Quando � que preparo aulas e corrijo trabalhos? Nunca me preocupei se excedia as 35 horas semanais mas, este ano, se me transformarem em babysiter passarei a ter cuidado para n�o as exceder.

(V�tor B�rtolo)
 


COISAS DA S�BADO:
UMA DIVERTIDA E A SEU MODO FABULOSA REPORTAGEM DA VELHINHA QUE TINHA UMA ESTUFA DE CANABIS EM CAVEZ


http://civicforum.chattablogs.com/archives/images/canabis.jpgNo Correio da Manh� dominical a hist�ria de uma velhinha de Cavez que tinha umas �sementinhas� num saco e resolveu �estrumar as batatinhas�. Tudo assim gentil e em diminutivos. As �sementinhas� eram afinal de uma �coisa perigosa para os homens�. �Ora n�o quer ver isto?� perguntou a velhinha quando lhe entrou a GNR em casa. Queriam ver queriam e disseram-lhe que aquilo servia para fazer �charros�. �Charros?! Que � isso? N�o sei , n�o senhora. Chicharros? Peixe para comer��, disse D. Carmo do alto da sua magn�fica inoc�ncia. Ainda h� momentos assim. Eram era tomates a crescer, na estufa (eu por mim punha as m�os no fogo pela D. Carmo se n�o fosse a estufa�). Mas os vizinhos j� n�o sabem o que � um cora��o puro e mal�volos diziam �Ent�o uma mulher daquelas n�o via que aquilo n�o podia ser tomates!�. Maldosos, ainda a planta n�o tinha frutos, vizinhos, s� folhas! E assim vamos no interior profundo com a chegada das culturas para o mercado, numa agricultura de subsist�ncia.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(12 de Junho de 2006)


__________________________

A P�tria com que estamos sempre a encher a boca, mas que n�o usamos.
Montra de um alfarrabista do Porto, hoje:


(Gil Coelho)

*

Estranha no��o de servi�o p�blico: a RTP1, no telejornal da uma, demorou vinte e um minutos a perceber que um notici�rio � suposto ser para dar not�cias e n�o transmitir uns cidad�os aos saltos vestidos de vermelho e verde. Depois, despachou dez minutos de not�cias � pressa e voltou aos cidad�os no seu exerc�cio nobre de gritar. Os defensores da televis�o estatal est�o sempre a encher a boca com a diferen�a do servi�o p�blico face aos ignaros dos privados. V�-se.

*

E n�o � que todos os comentadores se tornaram comentadores desportivos! A Futebol�ndia j� tem "pensamento �nico", que escorre da televis�o, dos jornais, dos blogues, das cabe�as como se viesse da Cornuc�pia da Abund�ncia. Estamos em plena "felicidade" pelo Esf�rico. Saltem muito, � o que vos desejo. A s�rio, saltem, saltem, pode vir da� uma desorganiza��o das ideias que seja salutar � P�tria. Duvido, mas n�o excluo nenhum milagre.
 


COISAS DA S�BADO: OS INTELECTUAIS

Henry Kissinger

t�m todas as raz�es para a m� fama de que gozam em todos os s�tios menos a Fran�a que os gerou. Um bom exemplo do mal dos intelectuais est� � vista nos pap�is desclassificados de Kissinger que s� agora est�o dispon�veis. Sobram poucas d�vidas que Kissinger foi um dos grandes diplomatas do s�culo XX, um homem que marcou a diplomacia da grande pot�ncia americana como poucos. Ele n�o era um homem de neg�cios amigo de um Presidente como alguns dos seus colegas, alguns dos quais tamb�m bons diplomatas. Kissinger era um intelectual de s�lidos m�ritos, um acad�mico, um estudioso da hist�ria do s�culo XIX e um te�rico das rela��es internacionais. Era tamb�m o prot�tipo do pol�tico pragm�tico e realista, uma encarna��o viva da realpolitik, defendendo acima de tudo os interesses nacionais dos EUA. No entanto, n�o lhe faltava vis�o, como se viu em todo o processo �chin�s� de Nixon.

Mas, uma vez intelectual, sempre intelectual: entre as conversa��es secretas desclassificadas h� uma em que Kissinger coloca objec��es ao processo de democratiza��o de Espanha, manifestando-se contra a legaliza��o do Partido Comunista. �s tantas comentou naquilo que pretendia ser um elogio, ainda sob reserva, ao Rei de Espanha: �o Rei ainda n�o mostrou a capacidade que t�m os Bourbons para a auto-destrui��o�. Sabia muito, o hoje velho Kissinger. E de facto Rei n�o mostrou mesmo essa capacidade suicid�ria dos Bourbons: contrariou Kissinger, legalizou o PCE, e foi fundamental para vencer o golpe dos saudosistas de Franco. Como Bourbon n�o est� mal.
 


EARLY MORNING BLOGS 791

Rough Country


Give me a landscape made of obstacles,
of steep hills and jutting glacial rock,
where the low-running streams are quick to flood
the grassy fields and bottomlands.
. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . A place
no engineers can master�where the roads
must twist like tendrils up the mountainside
on narrow cliffs where boulders block the way.
Where tall black trunks of lightning-scalded pine
push through the tangled woods to make a roost
for hawks and swarming crows.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . , And sharp inclines
where twisting through the thorn-thick underbrush,
scratched and exhausted, one turns suddenly
to find an unexpected waterfall,
not half a mile from the nearest road,
a spot so hard to reach that no one comes�
a hiding place, a shrine for dragonflies
and nesting jays, a sign that there is still
one piece of property that won't be owned.


(Dana Gioia)

*

Bom dia!

11.6.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NA RIA DE AVEIRO, PORTUGAL



Hoje, domingo.

(Gil Coelho)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(11 de Junho de 2006)


__________________________

A actividade relacionada com os blogues - leitores, autores, colaboradores, correspondentes - � um indicador excelente e rigoroso dos ciclos de actividade/descanso daquilo que no marketing se chama o horroroso nome ( e se calhar verdadeiro) de "classe m�dia baixa". Deve estar tudo a banhos.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (3� s�rie)



Causa-me alguma perplexidade verificar que "as vozes que v�m da escola" se focalizam em quest�es t�cnico-pedag�gicas e de �ndole corporativa e evitam as refer�ncias ao que, se bem aju�zo, � essencial e lhes � pr�vio: a quest�o da autoridade nas escolas e do que � necess�rio fazer para a repor.

De facto, a escola teve, tem e ter� de assegurar duas fun��es: a instru��o e, pelo menos complementar e supletivamente a outras institui��es sociais, a educa��o, entendida como o desenvolvimento de atitudes e comportamentos socialmente desejaveis. o problema � que essas atitudes e comportamentos n�o s�o ideologicamente neutros pelo que, nas r�plicas do Maio, n�o admira que a fun��o educativa da escola tenha sido violentemente posta em causa: a escola era "burguesa" e visava "a reprodu��o/manuten��o das estruturas sociais burguesas" e da "ideologia dominante" ou, dito dum modo metaf�rico embora in�cuo dado o meio, a coloca��o de "another brick in the wall" o que justificava a ordem, irada, "hey, teachers, leave the kids alone".

Ora, n�o � poss�vel instruir sem previamente educar e n�o � poss�vel educar sem o criterioso recurso a mecanismos de puni��o/recompensa que pressup�em a autoridade para os aplicar. E foi essa autoridade que os professores foram paulatinamente perdendo: de ced�ncia em ced�ncia, a escola foi-se transformando num mero local an�rquico, violento, onde, sem custos, os progenitores depositam os rebentos enquanto fazem pela vida esperando que, sem sobressaltos nem canseiras, atinjam a idade em que n�o s�o obrigados a frequent�-la e, nalguns casos, transitem para a universidade.

Este estado calamitoso a que a escola chegou requer a reposi��o da autoridade do professor na sala de aula e da do (inexistente!) director na escola bem como a credibilidade/efectividade das san��es que lhe s�o inerentes o que obriga, por muito incorrecto que seja, a questionar dois tabus :

a obrigatoriedade da ferqu�ncia das escolas at� aos 16 anos que, para todos os efeitos, impede a expuls�o do sistema de todos aqueles que apresentarem incorrigiveis comportamentos desviantes; a gratuitidade do ensino: as pessoas tendem a desvalorizar e a desperdi�ar tudo aquilo que lhes n�o custa nada.

(Jos� Fonseca)

*

Para quem se interessa por Educa��o, o texto de Lafforgue sobre a Educa��o na URSS e na R�ssia de hoje � interessant�ssimo.

Como o nosso caos educativo tem, segundo opini�es muito consensuais, origem na �ditadura� das direc��es sindicais e do staff do Minist�rio, que s�o identificados com a Esquerda e de facto muito apoiados pela Esquerda pol�tica, � curioso ver que a cultura educativa e escolar sovi�tica e hoje russa � considerada, pelos seus resultados, um sucesso consolidado de muitas d�cadas � apresenta tudo que viola a �cartilha� da esquerda educativa � disciplina, competi��o entre escolas, autonomia de decis�o, diferencia��o, apoio � progress�o dos melhores alunos, etc., etc.

Lafforgue � um grande matem�tico franc�s que se demitiu de uma comiss�o nomeada para rever o ensino franc�s, quando l� encontrou todos os respons�veis pelo seu descalabro. O site que criou para divulgar o caso. Para acesso directo ao pdf sobre o ensino russo, antes sovi�tico.

(Eduardo Pedrozo)

*

Tenho lido um coro de protestos acerca da Ministra da Educa��o no seu blog, por causa da revis�o do ECD. A minha opini�o � que pela primeira vez em muitos anos estamos perante um verdadeiro caso de sucesso na Governa��o. E a oposi��o neste aspecto devia ter a coragem de o dizer.

O t�o propalado facto de os professores passarem a ser avaliados pelos pais � uma atoarda lan�ada para a comunica��o social e que os jornalistas, que n�o fazem o trabalho de casa comeram. Os pais apenas t�m que se pronunciar num item acerca dos professores e n�o ir� ser isso que ser� determinante na sua avalia��o.

O que est� verdadeiramente em causa � que ningu�m quer ser avaliado.

O ponto mais controverso da revis�o do ECD � o facto de se permitir a exist�ncia de dois tipos de professores numa escola. Os titulares que t�m acesso ao 9� e 10� escal�o e os outros. Aqui � que poder�o eventualmente vir a criar-se injusti�as j� que o novo ECD estabelece cotas para os professores titulares, que n�o poder�o ser superiores a determinado n�mero em cada escola.

Ora se esse n�mero j� estiver preenchido hoje vai ser necess�rio ou que os professores titulares j� no 9� e 10� escal�o mudem de escola, se reformem ou morram para que os outros por mais competentes que sejam, possam ter esse privil�gio.

O que est� mal j�, que ainda predomina muito o laxismo. Por isso os titulares por muito incompetentes que sejam, nunca ningu�m vai ter coragem de os denunciar para os mais aptos ocuparem esses lugares.

J� se sabe que se um professor estiver � beira da reforma mesmo que n�o fa�a nada todos os outros se v�o calar. Isto segundo o princ�pio bem portugu�s, hoje �s tu amanh� posso ser eu, ou seja cobardia.

Mas por outro lado � sabido que existe um problema de fundo na Fun��o P�blica. Os quadros que entram e os quadros que est�o no topo da carreira ou dirigentes ganham pouco e os quadros interm�dios ganham demais. Para isto mudar � preciso coragem. E a coragem tamb�m passa pela avalia��o que a Ministra quer implementar.

S� gostava era de saber onde andam as palmas da oposi��o.

Ao n�o aplaudir s� est� a demonstrar que tamb�m est� amarrada e ir a reboque dos sindicatos. H�-de chegar o dia em que os sindicatos v�o aplaudir (j� esteve mais longe) e depois vamos ver o PSD e o PP ao lado de quem?

(Paulo Lopes da Silva)
 


EARLY MORNING BLOGS 790

Pri�re du soir


Dans l'espais des ombres funebres,
Parmi l'obscure nuit, image de la mort,
Astre de nos esprits, sois l'estoile du Nort,
Flambeau de nos tenebres.

Delivre nous des vains mensonges,
Et des illusions des foibles en la foi:
Que le corps dorme en paix, que l'esprit veille � toi,
Pour ne veiller � songes.

Le coeur repose en patience,
Dorme la froide crainte et le pressant ennui:
Si l'oeil est clos en paix, soit clos ainsi que lui
L'oeil de la conscience.

Ne souffre pas en nos poictrines
Les sursauts des meschants sommeillans en frayeur,
Qui sont couverts de plomb, et se courbent en peur
Sur un chevet d'espines.

A ceux qui chantent tes lo�anges
Ton visage est leur ciel, leur chevet ton giron,
Abriez de tes mains, les rideaux d'environ
Sont le camp de tes Anges.

(Th�odore Agrippa d'Aubign�)

*

Bom dia!
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: FEARFUL SIMMETRY

Saturno, Tit� e os an�is.

10.6.06
 


ARRAST�O E CONTRA-ARRAST�O



Desde o primeiro minuto que o arrast�o me pareceu implaus�vel, pelo menos como era relatado na comunica��o social. Escrevi-o muito antes do filme da Diana ter feito passar o arrast�o a contra-arrast�o. Estou por isso muito � vontade. Mas o contra-arrast�o a que se assiste nos dias de hoje, n�o � uma mera verifica��o dos erros da comunica��o social, que toca apenas ao de leve e sem respons�veis (parece que a culpa toda foi do dono de um bar...). O contra-arrast�o � um produto ideol�gico puro, t�o afastado da realidade como o arrast�o, t�o falso no plano factual como ele, tentando tornar imposs�vel, culpabilizadora e racista qualquer cr�tica � viol�ncia suburbana, oriunda de jovens negros da segunda gera��o, que implicitamente nega como problema de criminalidade apenas para afirmar como quest�o "social" e de exclus�o.

9.6.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES DE TIMOR E VOZES SOBRE TIMOR



JPP dixit: ADENDA: Por exemplo, ningu�m se pergunta sobre o significado de "acantonar" a GNR num �nico bairro em Timor e o que isto significa de entradas de le�o e sa�das de sendeiro.

Queria s� dar-lhe conta de que quando vi esta not�cia o que me passou pela frente (embora nunca possa certamente vir a ter t�o desgra�ado e infeliz desfecho) foi a imagem dos nossos bravos do Corpo Expedicion�rio Portugu�s, enviados para as piores localiza��es e, em muitos casos, para a morte, para algo que duvido muito que tenha tido � em termos estritamente pol�ticos � justo destaque na altura. Claro que nada de semelhante se passar� agora, mas parece-me patente a inten��o de nos dar algo para tratarmos que ser� certamente sempre complicado e, por outro lado, sempre pequeno.

A fama da GNR em Timor � muita, a capacidade ser� tamb�m certamente muita, mas haver� todo o interesse em que n�o brilhe�

(Ant�nio Delicado)

*

N�o sa� de Timor-Leste.

E c� estarei apesar desta guerra de nervos. Todos os dias somos bombardeados por uma campanha sistem�tica que tem como �nico objectivo derrubar o primeiro-ministro.

Para n�s, portugueses, praticamente que o nosso dia-a-dia � o mesmo. Mas as trag�dias pessoais das fam�lias timorenses s�o assustadoras.

Vale tudo. Os boatos iniciais que resultaram no p�nico colectivo da popula��o, e que a levou a abandonar a capital, tentando parar todas as institui��es; �s declara��es di�rias do Ramos-Horta a manifestar a sua disponibilidade de ser Califa no lugar do Califa, vendendo o seu pa�s aos invasores; os ataques dos governantes australianos ao governo; as manobras de certo corpo diplom�tico; as tentativas de virar os org�os de soberania uns contra os outros; o apoio e a passividade das tropas australianas com os desertores e afins; os t�tulos da imprensa australiana; e as recentes provoca��es � Fretilin para que isto se transforme numa guerra civil. Enfim, vale tudo para desestabilizar e dar ao mundo uma imagem da necessidade de derrubar um governo que enfrenta os objectivos da Austr�lia na regi�o.

Mas uma coisa � certa. A �nica pedra no sapato, o �nico obst�culo entre a ocupa��o de Timor-Leste pela Austr�lia, tem sido a imprensa portuguesa e o Governo portugu�s.

Patriotismos exarcebados ou n�o, � aqui que se tem feito resist�ncia a um invasor arrogante e sem escr�pulos..

Fora de D�li, excepto nas vilas onde est�o os ex-militares sustentados pelos militares australianos, as institui��es funcionam, a pol�cia existe e a vida parece a mesma como h� dois meses atr�s.

Assisti � tentativa da miss�o da UN em evacuar todos os internacionais que apoiam os org�os de soberania de forma a parar o pa�s.

Assisti ao Ramos-Horta a ajudar os objectivos australianos numa campanha de auto-promo��o rid�cula, esperando eu ainda, que o esteja a fazer acreditando que � o melhor para o pa�s.

Assisti incr�dula � passividade das tropas australianas ao lado de jovens que incendiavam e que disparavam, assisti aos apelos desesperados de outros para os defenderem.

Assisti ao alegre conv�vio entre militares americanos e australianos, e os desertores.

Assisti aos pedidos de governantes ao comando australiano para que parasse a viol�ncia e defendesse a popula��o sem qualquer efeito.

Assisti � tentativa do comando australiano em neutralizar capacidade que a GNR tem de acabar com os dist�rbios nas ruas de D�li.

Assisti a muitos timorenses corajosos ficarem nos seus postos, onde agora vivem, por lhes terem sido destru�das as casa e tudo o que tinham.

Mas tamb�m assisti � resist�ncia de muitos funcion�rios da UN e de outras institui��es, na maior parte portugueses e brasileiros, que ficaram mesmo amea�ados que os seus contratos acabassem.

Assisti a muitos portugueses que no meio dos confrontos foram buscar amigos timorenses e os seus familiares, debaixo de fogo, j� com uma presen�a de mais de 1.500 militares australianos que nada, nada fazem para evitar a viol�ncia.

Assisti a outros que tudo fizeram para mostrar ao mundo que est�vamos � beira de um golpe de estado.

Outros que conseguiram travar a intriga entre o PR e o PM e que ajudaram a que se entendessem.

Assisti tamb�m, aos esfor�os de dirigentes da Fretilin em travar militantes desesperados que queriam vir defender o PM, que quer queiram quer quer n�o, foi eleito com larga maioria, e cujo partido h� poucos meses, nas elei��es locais, voltou a demonstrar que representa a maioria dos eleitores, com larga margem.

E assisto todos os dias ao empenho de muitos timorenses, portugueses e brasileiros, para que os org�os de soberania, n�o deixem de funcionar como seria tanto do agrado do governo australiano que levou o pa�s ao caos, sustentando e manipulando todos os grupos insatisfeitos que encontraram.

Exaustos, uns dias mais dif�ceis, outros com mais esperan�a. Fazemos tudo o que est� ao nosso alcance para que a situa��o volte ao normal e que o pa�s funcione.

Como sabe n�o votei no partido do Governo que elegeu o primeiro-ministro de Portugal. Nem alguma vez simpatizei politicamente com o nosso MNE.

Mas, aqui em Timor-Leste, em Camberra e em Nova Iorque, fez a diferen�a. Houve algu�m no Pal�cio das Necessidades que se deu ao trabalho de reagir a tempo. Que nos ouviu. Que fez o que tinha que fazer. E que n�o escolheu o caminho mais f�cil que seria o de abandonar os nossos aliados.

Como sabe, tanto se me d� o nome do pa�s que consta no meu passaporte, n�o ponho bandeiras de Portugal � janela e nem sequer a� vou passar f�rias.

Mas o governo do meu pa�s tomou a decis�o correcta e est� a ter sucesso.

E se algu�m n�o compreende que, apesar de estrangeiros, nos sentimos em casa e que adoramos viver neste pa�s, I could't care less.

Os timorenses compreendem. Ao lado deles resistimos, mesmo que algu�m n�o nos considere politicamente correctos.

(M.)

*

Infelizmente mais uma situa��o que em nada dignificou o nosso pa�s, com custos para a imagem da GNR em Timor-Leste.

Situa��o criada pela falta de prepara��o e insufici�ncia no campo das informa��es.

As Australian Defense Forces (ADF) seguem a doutrina NATO no que concerne ao emprego das suas for�as. Isto � sabido pelos estados-maiores do nosso Ex�rcito e For�a A�rea, pelo menos.

A doutrina NATO coloca grande �nfase na problem�tica do fratric�dio, designado em linguagem NATO por �blue on blue�, express�o que ficou dos exerc�cios no tempo da guerra fria, em que o oponente era sempre �red� e as nossas for�as �blue�.

Esta mesma doutrina foi aplicada durante a UNTAET e depois na UNMISET. Para evitar coordena��es demoradas, complicadas e nem sempre seguras at� pela diversidade de l�nguas dos diversos contingentes militares, o territ�rio de Timor-Leste foi dividido em Sectores. O Ocidental era comandado pela Austr�lia, o Central por Portugal e o Oriental pela Coreia do Sul. Mesmo dentro dos Sectores, cada escal�o tinha �reas de responsabilidade definidas, de forma a poderem conduzir opera��es sem correrem o risco de abrirem fogo sobre tropas amigas. Para uma viatura militar de um Sector se deslocar a outro, tinha que preencher um �Road Space Request� definindo o itiner�rio, as horas, o prop�sito, os ocupantes da viatura, etc...

Na cidade de D�li esta situa��o n�o se punha porquanto a seguran�a cabia � pol�cia civil das Na��es Unidas (CIVPOL), onde se integrava a Unidade de Reac��o R�pida da GNR. Que na realidade era quem avan�ava sempre que havia confus�o. O batalh�o portugu�s cujo comando estava sedeado em B�cora suplementaria a GNR em caso de necessidade e a pedido desta.

Ora a situa��o presente � inversa. As ADF est�o a fazer o policiamento da cidade e a GNR entra depois. E entrou logo em opera��o sem haver estabelecido o sistema de coordena��o previamente. � do senso comum que n�o pode haver duas for�as com armas a actuar na mesma �rea de opera��es sem a devida coordena��o, ou ent�o t�m �reas de responsabilidade distintas. Hoje em dia n�o � aceit�vel enviar gente para casa em saco de pl�stico porque foi atingido por fogo �amigo�. A opini�o p�blica n�o aceitaria tal. E � esse o argumento do comandante da For�a Australiana para os tristes �equ�vocos�.

Bem sabemos (ou dev�amos saber) que as ADF n�o iriam facilitar a vida � GNR. J� n�o o faziam em rela��o ao ex�rcito portugu�s durante a UNTAET e UNMISET, porque haviam de o fazer agora? A posi��o de princ�pio n�o mudou.

E o que a precipita��o fez, foi dar �s ADF raz�es para agirem como agiram.

E o governo l� teve que �s pressas encontrar forma de salvar a face sem deitar tudo a perder. Mais uma vez a humilha��o ficou para os homens da GNR. E agora vamos ver quanto tempo vai levar, se acontecer, para as ADF se retirarem de D�li e deixarem campo livre � GNR e � Pol�cia da Mal�sia. Como a Mal�sia vai ter mais pol�cias que a GNR, o comando unificado de pol�cia vai caber a......... Mal�sia, pois claro.

E as ADF s� retirar�o das fun��es de policiamento de D�li quando a Mal�sia tiver todo o seu equipamento e puder efectivamente comandar toda a ac��o policial. At� existir uma for�a policial das Na��es Unidas. Porque a�, a Austr�lia vai querer ter tamb�m o Comando da for�a policial. Como ali�s prev� o acordo D�li-Camberra.

Resta-nos a confian�a no brio e prepara��o dos homens da GNR para conseguirem levar a cabo com honra e dignidade a sua miss�o.

� aqui que a imprepara��o (ignor�ncia) dos nossos jornalistas vem ao de cima. N�o sabem fazer as perguntas certas aos respons�veis pol�ticos. O mesmo jornalista tanto pode cobrir o funeral de Raul Indipwo, como o fogo florestal de Barcelos, como a seguir cobrir esta triste confer�ncia de imprensa. E as perguntas pertinentes ficam por fazer.

(Jo�o Tavares)

*

Ouvi na TSF uma noticia sobre os deslocados Timorenses...
Porque n�o usar a palavra habitual: refugiados?
N�o entendo a relut�ncia de certa imprensa em motrar que os timorenses s�o um povo como outro qualquer: capaz do melhor e do pior.
Porque carga de �gua s�o deslocados e n�o refugiados? Se at� o ACNUR j� est� a ajudar.

(Alberto Mendes)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


EARLY MORNING BLOGS 789

Tecendo a Manh�


1

Um galo sozinho n�o tece uma manh�:
ele precisar� sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manh�, desde uma teia t�nue,
se v� tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manh�) que plana livre de arma��o.
A manh�, toldo de um tecido t�o a�reo
que, tecido, se eleva por si: luz bal�o.


(Jo�o Cabral de Melo Neto)

*

Bom dia!

8.6.06
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER

http://www.ottakringershop.at/pix/produkte/prod_cachaca51.jpg
Numa parede do Museu de L�ngua Portuguesa, em S�o Paulo, Brasil, um mulato dan�a com uma garrafa equilibrada na cabe�a. Com aquele brilho inventivo muito especial do portugu�s brasileiro, aparece no ecr� "�gua-que-passarinho-n�o bebe". Cacha�a. Mas parece que passarinho bebe mesmo...
 


GOVERNAMENTALIZA��O, O QUE �?



� o modo como a RTP1 passa a confer�ncia de imprensa do Governo (MNE e MAI) relativa ao acordo "t�cnico" em Timor (at� esta palavra � spin) sobre a actua��o da GNR. Interiorizando os argumentos do Governo nas palavras do jornalista, ou seja dando-lhe legitimidade "de fora", sem "edi��o", sem distancia��o, sem pensar, engolindo o spin governamental sem hesita��o.

ADENDA: Por exemplo, ningu�m se pergunta sobre o significado de "acantonar" a GNR num �nico bairro em Timor e o que isto significa de entradas de le�o e sa�das de sendeiro.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FOGO, DE NOVO



Correndo o risco de ser considerado (...) um acto de "voyeurismo" da minha parte, n�o resisti a enviar-lhe uma fotografia do fogo que lavrou ontem n�o longe da minha resid�ncia. O meu objectivo n�o � outro mais do que o de querer alertar novamente para o drama destas situa��es. Penso, de forma muito sincera, que todas as discuss�es p�blicas que possam ser feitas em torno destes dramas ser�o muito �teis. Hoje o dia tem estado cor de laranja porque a luz do sol tem dificuldades em atravessar a cortina de fumo.

A imagem � do fogo que lavrou ontem na Freguesia de Fragoso, concelho de Barcelos.

(S�rgio Ribeiro, Forj�es)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


RETRATOS DO TRABALHO NAS TWIN TOWERS EM LISBOA, PORTUGAL



Um dos aspectos que mais me fascina nas gera��es mais jovens � a capacidade para desenvolver trabalho no meio do mais confuso dos caf�s ou do mais barulhento "food court" de um qualquer centro comercial. Estas novas gera��es t�m, de facto, capacidades acima do normal. No meu tempo, um trabalho em grupo consistia em dividir tarefas, executar as tarefas separadamente cada um em seu canto e depois reunir para juntar as pe�as do puzzle. Hoje em dia, aparentemente, as reuni�es s�o permanentes e a criatividade est� sempre em ac��o. Tudo isto, repito-o, no mais barulhento centro comercial ou caf� da nossa pra�a. E depois dizem que n�o h� produtividade...

(Rui Silva)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VOZES VINDAS DAS ESCOLAS (2� s�rie)



(...) � o pr�prio Minist�rio da Educa��o quem ajuda a confundir dom�nios que devem ser discriminados, dado que o texto � marcado por um problema estrutural de organiza��o tem�tica. Era importante que um novo ECD distinguisse com clareza � seja por cap�tulos; seja por princ�pios orientadores expl�citos; seja por qualquer outro processo; seja por v�rios factores em conjunto � aquilo que � mat�ria propriamente laboral (ou de cariz sindical) daquilo que � mat�ria deontol�gica (ou pedag�gica e �tica) da profiss�o docente. Mesmo que se continue a evitar a quest�o da constitui��o de uma Ordem de Professores (constitui��o que na actual conjuntura n�o parece essencial, at� porque provavelmente uma Ordem ficaria mais pr�xima de reproduzir a fragmenta��o sindical do que de traduzir uma voz coesa de um corpo profissional demasiado heterog�neo), reformar o ensino sem a preocupa��o de estabelecer de g�nese a distin��o referida � curto, precisamente porque ser� continuar a p�r no colo dos sindicatos aquilo que �, misturado com aquilo que pura e simplesmente n�o deve ser da sua compet�ncia. Reside aqui uma incongru�ncia elementar de quem, de peito aberto, est�, bem ou mal, a combater o poder de uma elite de representantes sindicais, mas que depois, por culpa do seu mau tpc, v�-se obrigado a conceder a essa mesma elite o monop�lio da representatividade de um complexo, contradit�rio e multifacetado corpo docente. A fuga em frente resultante desse mau trabalho pr�vio tem sido o folclore agravante de envolver na vida interna das escolas os pais, as associa��es, o poder local e outros, invadindo o dom�nio estrito da fun��o docente, com preju�zo generalizado cuja factura normalmente demora a chegar mas ser� invariavelmente pesada. O documento proposto carece, de facto, de muita e muita reflex�o e clarifica��o. Se calhar at� de ser reelaborado de raiz. �Despach�-lo� em poucos meses � brincar com aspectos essenciais de todo um projecto de sociedade. Ao menos nisso estou de acordo com a Fenprof. Juristas, intelectuais, pol�ticos, jornalistas e demais pensadores seniores n�o podem colocar o corpo de fora deste tipo de discuss�o concreta, como t�m feito, nem perderem-se em generalidades mais ou menos especulativas (basta ler a imprensa), para que mais tarde n�o venham, uma vez mais, ditar senten�as de c�tedra depois de mais um desaire do sistema educativo que n�o � dif�cil prever desde j�. Ali�s, o Partido Socialista nesta fase dever-se-ia centrar nas quest�es contratuais ou laborais e deixar de brincar �s tipologias do bom professor � moda das �ci�ncias da educa��o�. Mas para isso era necess�ria sensibilidade pol�tica e tratar os grupos profissionais com a dignidade que merecem. Parece-me que o tempo pol�tico da Ministra da Educa��o esgotou-se. Pau que nasce torto...

(Gabriel Mith� Ribeiro)

*

No P�blico de hoje, a ministra da Educa��o d� a cara por uma proposta cerca de uma semana depois de ela ter sido apresentada. Ter aparecido com a entrevista de hoje h� uma semana atr�s, poderia nada ter resolvido mas evitava a imagem de estar a reagir aos cr�ticos. Mas h� muito nos habitu�mos a que este minist�rio ateie pequenos fogos e depois surja a apagar os mesmos. Infelizmente tamb�m nos habitu�mos � reac��o extempor�nea de uma classe corporativista e de uns sindicatos que de pedagogia pouco mostram saber. Para tal basta ver muitos dos coment�rios feitos neste blog. � o caso dos "29" itens que definem a fun��o de professor e que pouco ou nada acrescentam ao que j� era suposto serem fun��es dos docentes, mas que alguns cr�ticos parecem desconhecer. Tamb�m a reac��o de alguns � avalia��o � ir�nica se tivermos que vem de profissionais que fazem da avalia��o um instrumento � avaliar sem ser avaliado? � e as leituras em diagonal que muitos fazem desconfiar da prepara��o e leitura efectiva que atribuir�o a documentos de trabalho.

Estamos perante uma proposta, n�o seria interessante discutir a mesma de forma inteligente? Quando uma carreira de 10 escal�es se reduz a 6, n�o seria leg�timo pedir a tabela de equival�ncias para a convers�o de tempo de servi�o e de sal�rio?

S�o muitas as classes de licenciados em que o acesso � carreira s� � feito ap�s prova, ser�o os docentes diferentes? Creio que n�o e basta ver a falta de cultura e conhecimentos b�sicos de muitos professores.

Quanto � avalia��o dos pais, confesso que n�o me choca e noto que � mais bem recebida por docentes que s�o pais do que por docentes solteiros. Ou�o os sindicatos falar em "habilita��es pedag�gicas", mas onde est� isso referido? Em algum s�tio se estipula em que medida os pais v�o efectuar a avalia��o? Os Encarregados de Educa��o podem n�o saber nada de disciplinas, mas certamente saber�o melhor que ningu�m quando um professor falta, ou quando ocupa a aula a discutir a sua vida pessoal em lugar de leccionar, ou se atrasa na correc��o de testes para l� do desej�vel. N�o ser�o estes itens suficientes para distinguir o bom do mau docente? Talvez os sindicatos fizessem melhor em discutir estes temas que em marcar greves para dias a seguir a feriados e assim ter�amos um minist�rio a ter de dar a cara pelas suas pol�ticas e a saber que n�o bastava anunciar as mesmas e que as teria de realmente fundamentar. No momento actual acabam os sindicatos e os docentes exaltados a ser o melhor justificativo das pol�ticas ministeriais

(Emanuel Ferreira, docente do 3� Ciclo)

*

A Ministra foi populista e fez eco da cr�tica comum de que os professores s�o os respons�veis pela calamidade educativa portuguesa. N�o apresenta evid�ncias de que assim seja. Mas por que raz�o a Ministra da Educa��o e outros agentes das esferas do poder se d�o ao luxo de falar assim desta classe profissional? Na realidade, os professores s�o respons�veis, n�o propriamente pelo facto de ensinarem mal ou de serem intrinsecamente maus professores. A responsabilidade � mais funda. � que desde h� algumas d�cadas os professores abdicaram da sua voca��o intelectual, ou mantiveram-na s� para aquilo que interessa em cada conjuntura ou momento, aceitando em troca incluir-se na bolsa de sustenta��o do poder pol�tico e econ�mico.

O poder, � sabido, precisa destas bolsas de sustenta��o, e um grupo como os professores � fundamental que seja "capturado" para o pleno exerc�cio do poder actual. Fala-se em "democratiza��o" do ensino, mas isso � um eufemismo. Com certeza algo corresponder� a isso, mas na ess�ncia o que se deu foi um fen�meno de "massifica��o do ensino", o que n�o � exactamente a mesma coisa. Nesse processo, foi preciso apresentar taxas de sucesso, n�veis de ensino em grande escala, impedir o abandono escolar, etc. Ou seja, o aparelho educativo esteve ao servi�o de objectivos sociais, econ�micos e pol�ticos que pouco t�m a ver com o verdadeiro ensino. E em troca de favores profissionais e de um certo teor de vida, entre outras vantagens, a "classe profissional" dos profs. alimentou estes objectivos extra-educativos. Numa palavra, vendeu-se ao poder.

Evidentemente, o n�vel de forma��o e de conhecimentos dos alunos tem-se ressentido drasticamente. Mas os professores t�m estado sempre cegos, surdos e mudos. Sempre muito mais preocupados com os seus interesses profissionais e com a sua carreira, enfim, com a sua vidinha. N�o se importaram, portanto, durante estes anos, de se submeterem a um processo de proletariza��o que lhes retirou muita da credibilidade que possuiam, sendo natural que agora o poder os trate como p�rias e n�o nutra por eles o m�nimo respeito. E os restantes actores tamb�m n�o, designadamente, os pais dos alunos, que n�o v�m com bons olhos os resultados obtidos. Que pretendem agora os professores? J� nada podem fazer. Podem fazer greves e manifesta��es. Mas n�o t�m mais cr�dito que qualquer outro grupo social. E perderam o apoio da sociedade, e agora falam sozinhos no deserto. Isto � uma an�lise general�ssima. N�o se pretende p�r em causa os muitos professores que ensinam bem e que fazem das tripas cora��o para que os alunos passem e se formem, etc. Mas isso n�o p�e em causa a minha tese central: os professores, enquanto classe, prostituiram-se ao poder e agora s�o tratados como rameiras do sistema. E se querem ter emprego e fruir ainda de algumas migalhas do poder t�m que aceitar a "grelha" que lhes � imposta e conformar-se.

O servilismo e a apatia de anos v�o sendo agora cada vez mais evidenciados, e pelo pr�prio poder, o que n�o � surpreendente. Ainda me recordo quando aqui h� uns anos se negociou o Estatuto da Carreira Docente (penso que em 1997), e estava em causa a sa�da do ensino de centenas de professores provis�rios que durante anos foram os colegas de segunda, mas muitos deles com provas de dadas de qualidade e dedica��o, que ficavam sempre com as piores turmas e at� ganhavam menos. Estava em causa na mesma altura, atrav�s da uma reforma do ensino secund�rio, o desparecimento de disciplinas como Introdu��o � Antropologia ou Jornalismo. A "classe" dos professores e os sindicatos nada fizeram caso disso, e negociaram o Estatuto e a reforma sem o m�nimo de solidariedade por esses colegas, muitos com fam�lia, que ficaram sem trabalho, e muitos continuam no desemprego porque estiveram 10, 15, 20 anos nessa situa��o provis�ria e agora n�o t�m onde se agarrar... E quando estes fizeram manifs. � porta do Minist�rio estavam sozinhos, porque a "nobre" classe dos profs. esteve a marimbar-se para estes colegas... E quanto ao desaparecimento das disciplinas? Algu�m se interrogou sobre a validade destas mat�rias, qual o seu papel na forma��o integral dos jovens? Algu�m ainda se lembra de Educa��o Visual?...

Orlando de Carvalho (...n�o sou professor)

*

(...) desejo fazer uma confiss�o solene. � verdade, tamb�m eu sou culpado. Sim, incluo-me no grupo dos r�us respons�veis pelo �estado a que �isto� chegou�, independentemente do conceito que possa atribuir-se ao termo �isto�.
Resumindo, tamb�m eu sou professor. Do 1� ciclo por reforma imposta pelo �eduqu�s�, prim�rio, por op��o de h� trinta anos, consubstanciada nos ideais que o republicanismo projectava na instru��o popular.
Publicitado o meu crime, ouso, humildemente, questionar o leitor identificado como Leonel sobre algumas das suas afirma��es, face � minha incapacidade de as tornar intelig�veis. (Confesso, no entanto, que apesar desta minha dificuldade, sou moreno e nada tenho de louro. Nem um simples cabelinho).
Para evitar que alguma das aves negras e palradoras que, usualmente, costumam enovelar-se por entre o texto escrito subverta o meu discurso, vou recorrer ao mui tecnol�gico �copy past�.

Ent�o vejamos:

Afirma o comentador Leonel:

�Falam-se em "parasitas" das educa��o, apontando Escolas Superiores, Faculdades, Docentes, Editores.�

�Aprende-se melhor a nadar na �gua dentro dela, n�o a ter aulas te�ricas sobre nata��o, � o que se tenta explicar muitas vezes.�

� As ci�ncias da educa��o, como em qualquer outra �rea cient�fica emergente, cont�m grande valor e grande quantidade de irrelev�ncia ou desinforma��o.�

� fa�a-se como sempre que se fez, n�o tenho de pensar tanto�
(Sic)

Como disse?

Ora, meu caro Leonel, n�o me diga que necessita de uma licenciatura em ci�ncias de educa��o para escrever esta prosa brilhante?
Mas que digo eu? Uma licenciatura? N�o pode ser. �s ci�ncias de educa��o deve corresponder uma licenciatura por ci�ncia�
Ali�s, meu caro, saber� quantas s�o essas ditas ci�ncias? T�-las-� contado? Deveras?
Quanto mais descansado eu ficaria sobre as qualidades dos cientistas que tanto velam pela nossa educa��o, se pudesse esclarecer-me esta d�vida.
Tr�s, eu sei, de fonte certa, que integram o elenco, �no��es de psicologia, de sociologia, de m�todos de avalia��o�.
Mas o Portugu�s, sim esta l�ngua banal em que nos expressamos, tamb�m faz parte da lista, ou t�-la-� V. Ex� esquecido enquanto tanto se empenhou, durante sete anos, �a procurar mais informa��o sobre todos estes elementos, n�o apenas sobre as "t�cnicas pedag�gicas"�?
(...)

(Ant�nio Vicente)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS ESUS LEITORES: QUOTAS PARA HOMENS

A prop�sito da "lei das "quotas" gostaria de saber a opini�o do PS para a hip�tese de haver um partido exclusivamente feminino. Aceitaria de bom grado ou propunha uma nova lei para homens?

(A. Lamas)
 


TEMOS POL�TICA EXTERNA OU � S� EGOS, BRAVADO, BANDEIRA ENROLADA � CINTURA E AMADORISMO?



Repito-me, n�o para exibir qualquer raz�o antes do tempo, mas para mostrar que as evid�ncias eram t�o gritantes que n�o se percebe por que raz�o o Governo (Primeiro-ministro, MNE e MAI na linha da primeira responsabilidade e por esta ordem) mostraram t�o grande incompet�ncia e a oposi��o t�o grande sil�ncio perante uma quest�o desta gravidade.

No dia 29 de Maio escrevi:
"Quem manda em �ltima inst�ncia nas ruas, o governo de Timor ou a Austr�lia? E se mandar a Austr�lia, e manda quem pode e tem a for�a, mandam tamb�m os comandos australianos na GNR? Se os australianos entenderem que a rua X est� interdita, a GNR tem que negociar ou pedir licen�a para l� passar? Qual � a cadeia de comando em Dili? Estas e mais mil e uma perguntas deviam estar a ser feitas e a ter respostas claras. Mas nem se pergunta, nem se responde."
No dia 3 de Junho escrevi:
"Ficou claro que o comando � da GNR" - "Comando" de qu�? Das tropas da GNR? Qual � a exacta cadeia de comando no terreno? Fica por saber. O que se sabe � que num territ�rio numa situa��o de caos, a exist�ncia de v�rios "comandos" operacionais s� pode dar confus�o e risco. � perigoso: se houver um incidente e forem chamados ao mesmo tempo (pelos populares, por uma fam�lia portuguesa, seja por quem for) a GNR e os australianos, como � que se resolve? E sem comunica��es claras a probabilidade de fogo "amigo" � grande, porque ningu�m est� a ver em plena ac��o as for�as a discutirem compet�ncias e comandos."
O que se est� a passar com a GNR em Timor � de uma enorme irresponsabilidade e � perigoso, primeiro para os nosssos homens, depois para a nossa pol�tica externa em rela��o a Timor. A n�o ser que a GNR esteja l�, como antigamente se dizia , em "miss�o de soberania", e ent�o tem que varrer os comandos australianos a tiro, quando estes lhe impe�am o caminho... , ou ent�o � para "ajudar" Timor, e ningu�m sensato pode achar que andarem no terreno for�as sem comando �nico n�o � um risco acrescido para todos.

*
Quando h� dias antes do envio das for�as da GNR, ouvi a explica��o do Ministro dos Neg�cios Estrangeiros sobre a quest�o do respectivo comando, se integradas nas for�as da Austr�lia se aut�nomas, pareceu-me estar a ouvir uma explica��o da Rep�blica Francesa, com laivos nacionalistas e com eterno complexo de inferioridade, quando se refere ao pais do Tio Sam.

Para o Sr. Ministro, com contida, mas vis�vel, exalta��o lusitana (o que cada vez surpreende menos no comportamento very british at� ao exerc�cio do cargo de presidente da assembleia da onu) os argumentos para as GNR estarem a actuar autonomamente n�o s�o de ordem pr�tica, mas sim do facto de Portugal estar a 50 anos de celebrar 900 anos de nacionalidade, sendo uma na��o soberana. � contr�rio e n�o o dizendo, a Austr�lia como na��o existe h� bem menos tempo e ainda tem como representante m�xima a Rainha de Inglaterra.

Parece-me perfeitamente l�gico o seguinte, estando Portugal � dist�ncia que est� de Timor (como demonstra o facto de s� agora estar prevista a chegada do material de transporte da GNR), estando a atravessar uma crise econ�mica com os respectivos constrangimentos, partilhando apesar de tudo de um quadro civilizacional comum com a Austr�lia e que tem c� embaixada, sendo este pais fornecedor de tropas no terreno que em �ltima an�lise permitem a seguran�a num quadro generalizado de insurrei��o, e que em �ltima inst�ncia asseguram as vidas e a possibilidade de retirada dos portugueses, inclusive dos membros da GNR, n�o vejo raz�es para que as for�as da GNR n�o estejam integradas, com mais ou menos autonomia, no comando australiano.

Infelizmente a atitude de bravata rid�cula foi outra e s� veio criar um conflito dentro de outro conflito que esperamos n�o venha a criar danos irrevers�veis em termos de vidas humanas.

Manuel Cortes
*
Agora que a "quest�o timorense" parece ter voltado �s primeiras p�ginas dos jornais, talvez seja bom vermos "para al�m da �rvore"...Aos leitores do "Abrupto", aconselho a consulta do (recentemente) criado "blogue", onde podemos ler coisas que, nem sempre, a comunica��o social portuguesa transmite.

(Rui Mota)

*

Compreendo a sua inquieta��o sobre a quest�o em apre�o. Parece de facto, que o governo portugu�s se p�s em bicos dos p�s quanto � autonomia da for�a paramilitar que foi enviada para Timor-Leste.

Contudo, devo dizer, foi uma posi��o bem avisada. A pior coisa que pode acontecer a esta jovem na��o � ficar ref�m das vontades do governo australiano. S� quem esteve envolvido nas miss�es das Na��es Unidas em Timor, e mais propriamente a n�vel de quartel-general, percebe a apet�ncia do governo australiano de ditar as regras em Timor-Leste, favorecendo descaradamente os grupos que o apoiam especialmente atrav�s das ONG australianas, das quais a mais activa tem sido a AUSAID, � semelhan�a da americana USAID, n�o mais que um bra�o tentacular dos servi�os de "inteligence".

E bem avisada foi a posi��o do governo de Portugal porquanto a sa�da prematura da GNR durante a UNMISET se deveu a c�lebre relat�rio de uma comiss�o de peritos norte americanos e australianos que a acusavam de ser um mau exemplo para a jovem democracia, com as suas atitudes "pretorianas" resqu�cios �bvios da sua g�nese no Portugal ditatorial fascista. A verdade, (...) � que a GNR fazia abortar as tentativas destabilizadoras que alguns agentes promoviam no sentido de influenciar as op��es futuras da lideran�a timorense que j� se adivinhavam. Falo da op��o pela l�ngua portuguesa, e da cria��o de um ex�rcito de defesa.

Este �ltimo, como sabe, mereceu sempre (e ainda hoje merece) a oposi��o firme do governo australiano que entendia que a defesa externa de Timor-Leste deveria ser confiada �s for�as de defesa australianas. Tanto assim, que Alexander Downer, o ministro dos neg�cios estrangeiros australiano, chegou a afirmar perante o parlamento australiano que o novo conceito estrat�gico de defesa em profundidade da Austr�lia, obrigava a considerar Batugad� como a nova fronteira da Austr�lia. (Batugad� � o posto fronteiri�o da costa norte entre Timor-Leste e a prov�ncia indon�sia de Timor Ocidental, Timur Nusa Tengara).

Foi bem avisada a posi��o do governo portugu�s, porquanto, se submetida ao comando hier�rquico das for�as australianas, � semelhan�a do que era pr�tica durante os tempos da UNTAET e da UNMISET que eu presenciei, estes �ltimos iriam de imediato determinar zonas de exclus�o � ac��o da GNR, remetendo-as para um discreto papel secund�rio, com o objectivo de as desacreditar perante a popula��o de Timor-Leste em geral, e a de D�li em particular, e manter latente esta situa��o de instabilidade at� atingirem o objectivo final, a demiss�o de Mari Alkatari.

Ali�s, se d�vidas houvessem quanto �s reais inten��es da real politik australiana, basta verificar a candura e cortesia (quase protec��o), com que o Comandante das for�as australianas trata o Major Reinado ( que se veste e age como se um militar australiano fosse, recusando-se a falar portugu�s quando � entrevistado), tendo inclusivamente deslocado-se a Maubisse para com ele parlamentar e os laudos que a este major rebelde e criminoso (disparou sobre as FDTL causando in�meras v�timas mortais, sem ter sido provocado), t�m vindo a ser tecidos nos maiores jornais australianos. Uma r�pida leitura aos editoriais e colunistas do Australian, Sydney Morning Herald ou o Daily Telegraph s�o elucidativos da teia que a doutrina Downer tem vindo a urdir contra Mari Alkatiri. E nisto meu caro, o cerne da quest�o � bem simples de entender: " It's the oil, stupid!". As for�as australianas n�o o v�o desarmar porque ele � a ponta de lan�a com que o governo australiano pretende fazer Mari Alkatiri demitir-se.

Para lhe agu�ar a curiosidade, deixo-lhe algumas frases extra�das de artigos dos citados jornais: "Portugal is Australia's diplomatic enemy..."; "Portuguese forces refuse to co-operate with international forces..."; Dili's leadership, notably a anti-Australian Mozambique clique needs to be removed from power..."; "Despite our efforts, we must recognize that Portugal has had more influence in East Timor than Australia. It is time to change this sort of things�." .

N�o quero com isto significar que Mari Alkatiri est� isento de culpas. Est� at� bastante carregado delas. N�o propriamente pela forma como tem estruturado e planeado estrategicamente o futuro de Timor-Leste, mas na forma arrogante e nos m�todos Leninistas com que tenta responder aos anseios de uma popula��o que criou expectativas demasiado altas e na forma como afasta toda e qualquer oposi��o. O seu maior erro e que lhe est� a custar caro em termos de apoio, foi a forma como afrontou a igreja de Timor na quest�o das aulas de religi�o e moral. Se estava certo no princ�pio, errou profundamente no tempo e na forma como o imp�s. Sendo mu�ulmano, teria for�osamente que ter cautelas redobradas em t�o melindroso assunto.

Errou ao apoiar-se e apoiar o Ministro do Interior. Rog�rio Lobato mant�m ainda hoje uma vis�o estalinista do poder, assente na partidariza��o da sociedade e na intimida��o dos advers�rios, internos e externos ao partido. E hoje, o feiti�o virou-se contra o feiticeiro, com as armas que distribuiu a ca�rem em m�os hostis.

No meio deste imbr�glio, o Presidente Xanana sente a humilha��o de ter que recorrer ao aux�lio internacional, sem ter os instrumentos constitucionais adequados para ter evitado toda esta lament�vel situa��o. Xanana, que no fundo concorda com as posi��es de defesa dos interesses timorenses que Alkatiri tem tomado, v�-se de m�os amarradas para manter esta posi��o muito pouco ajudado pela esposa Kristy, que resolveu chegar � Austr�lia e acrescentar achas � fogueira em declara��es alinhadas com o discurso de John Howard.

E por fim chegamos ao muito prov�vel futuro Primeiro-ministro de Timor-Leste, Dr. Ramos Horta. Julga chegada a hora de se tornar l�der do governo, sem saber como h�-de isso acontecer sem ser para tal nomeado pela Fretilin, cuja c�pula continua nas m�os de Alkatiri e Rog�rio Lobato. Tem de esperar que seja Alkatiri a renunciar ao poder voluntariamente e que o aponte como seu sucessor. Para a Austr�lia isto seria a cereja em cima do bolo. � sobejamente conhecida a arte de Ramos Horta em se ajeitar �s circunst�ncias e se virar para quem melhor lhe sirva os interesses. N�o � por acaso que come�a a ser noticiado na imprensa australiana como: " the most competent minister in the timorese cabinet...".

� que n�o � f�cil ser-se timorense e pretender-se afirmar-se a soberania do pa�s, quando tudo � volta cria dificuldades, algumas que em parecendo, n�o s�o apenas simb�licas. Veja-se o exemplo da liga��o a�rea entre D�li e Denpasar (Bali). Esta liga��o � servida pela companhia a�rea dom�stica indon�sia Merpati, como se de um voo interno se tratasse, fazendo-se a opera��o de embarque e desembarque no terminal dom�stico de Denpasar. Ou a liga��o entre D�li e Darwin, servida pela companhia regional australiana AirNorth subsidiada pelo governo para o transporte de Abor�genes entre as reservas e entre estas e Darwin e que anuncia a liga��o a D�li como mais uma liga��o regional (www.airnorth.com.au), enquanto Kupang (Timor Ocidental) j� � um destino internacional.

(Jo�o Lima Tavares)

 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


EARLY MORNING BLOGS 788

No meio do caminho


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas t�o fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


(Carlos Drummond de Andrade)

*

Bom dia!

7.6.06
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS CL�SSICOS EM RISCO

Apreciei muito o que escreveu na �ltima revista S�bado sobre a necessidade de dar aten��o aos cl�ssicos greco-latinos. Por isso tomo a liberdade de lhe enviar o endere�o electr�nico de uma peti��o que os Departamentos de Estudos Cl�ssicos das Universidades de Coimbra e Lisboa puseram h� pouco mais de uma semana na internet. O que pretendemos � reunir um n�mero significativo de assinaturas que permitam abrir a discuss�o p�blica sobre o espa�o residual que vem sendo atribu�do �s disciplinas das Humanidades nos curricula do ensino secund�rio, com especial gravidade no que respeita ao Latim e ao Grego, que praticamente desapareceram das escolas em todo o pa�s. Acabada a gera��o que tanto se tem empenhado em divulgar os cl�ssicos, como os que referiu no seu artigo, e outros, como as Confiss�es de Santo Agostinho, Prop�rcio, a Eneida de Verg�lio, o Sat�ricon de Petr�nio, as com�dias de Plauto..., ningu�m mais ficar� capaz de traduzir esses textos, nem de ensinar l�nguas cl�ssicas e, mesmo na �rea da Hist�ria de Portugal, de trabalhar todo o acervo de documenta��o em l�ngua latina que vem, como sabe, at� bem perto de n�s... Ser�o, pois, os investigadores estrangeiros a virem trabalhar esses textos.

(Maria Cristina de Sousa Pimentel, Prof.� Catedr�tica da Faculdade de Letras de Lisboa (Departamento de Estudos Cl�ssicos)

*

Segundo me relatou uma professora da universidade, o minist�rio da educa��o prepara-se para fechar o curso de L�nguas e Literaturas Cl�ssicas em Lisboa e em Coimbra, as duas �nicas Universidades que ainda leccionam este curso. O crit�rio usado � de o curso ter menos de vinte alunos por ano. O que �, tristemente, um facto.

No entanto, penso que � importante n�o esquecer que sem este curso, n�o haver� daqui por uns anos, em Portugal, quem possa traduzir qualquer obra de Latim ou grego cl�ssico. Pois, quando as poucas pessoas altamente qualificadas que hoje em dia fazem esse trabalho deixarem de o fazer, n�o haver� quem o possa fazer.

Terminar a liga��o cultural directa com as matrizes do pensamento cultural europeu � um erro crasso. Portugal ficar� a perder para Pa�ses como a Ge�rgia, a Turquia, a Espanha, a It�lia, a Cro�cia, a Gr�cia, o Chipre, a Pol�nia etc.. e ficar� ao n�vel dos pa�ses do terceiro mundo, onde as dificuldades econ�micas n�o permitem a evolu��o cultural.

Sei que Portugal atravessa dificuldades econ�micas, mas antes de terminarem com o curso de l�nguas e Literaturas Cl�ssicas, podiam ir buscar dinheiro a muitos outros s�tios?

Sem L�nguas e Literaturas Cl�ssicas, n�o haver� pessoas como Maria Helena da Rocha Pereira para nos ensinarem tanto sobre a cultura hel�nica, nem tradutores como Frederico Louren�o que levam para o Portugu�s as obras de Homero, S�focles, Eur�pides e muitos outros.
N�o troco a minha cultura por dinheiro nenhum, e penso que h� coisas que n�o t�m pre�o, e o ensino do Latim, a l�ngua m�e do Portugu�s e do Grego antigo � essencial num pa�s com ambi��es n�o meramente econ�micas mas tamb�m culturais.

Est� em curso uma peti��o on-line que tenta sensibilizar as pessoas para este problema.

Penso que todos os que trabalham com a l�ngua Portuguesa e s�o minimamente sens�veis � ?Cultura? entender�o e subscrever�o a peti��o.
Al�m da peti��o quaisquer formas de protesto sobre esta medida s�o bem-vindas, e sabendo a for�a dos meios de comunica��o social, se ningu�m souber o que se passa sobre este assunto, o encerramento do curso poder� mesmo acontecer.

(Manuel Fialho Silva, estudante do curso de L�nguas e Literaturas Cl�ssicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. )

*
Tomei conhecimento via Abrupto da peti��o online em favor das l�nguas cl�ssicas em Portugal. (J� agora: �em favor�? N�o deveria ser �a favor�?) O assunto interessa-me por diversas raz�es, uma das quais ser o facto de lastimar nunca ter aprendido latim. Mas n�o posso assin�-la e passo a explicar porqu�. Na argumenta��o a favor da peti��o, os seus autores citam (favoravelmente) a express�o de Manuel Dam�sio �a matem�tica e as ci�ncias n�o formam cidad�os�. E � aqui que reside o problema. � que s� vejo duas maneiras de interpretar esta express�o:

- ou significa que a Matem�tica e as Ci�ncias (porque � que na cita��o original estar� escrito com min�scula?) n�o contribuem para a forma��o dos cidad�os;

- ou significa que uma forma��o em Matem�tica e em Ci�ncias n�o constitui, s� por si, uma forma��o de cidad�os.

Ora eu sou totalmente contra a primeira interpreta��o. Quanto � segunda, � uma completa trivialidade. N�o, uma forma��o em Matem�tica e em Ci�ncias n�o constitui, s� por si, uma forma��o de cidad�os. Uma forma��o em cl�ssicos tamb�m n�o.

Bem sei que assinar uma peti��o n�o significa necessariamente que se est� de acordo com todos os pontos mas, neste caso, a barreira � demasiado elevada para que eu a consiga tranpor.

(Jos� Carlos Santos)

*

Relativamente � peti��o para o renascimento do latim e do grego, lembro-me de ter lido, j� h� alguns anos, na revista Esprit, um longo artigo justificando a necessidade de os reanimar em virtude de haver ainda um largo acervo de textos cl�ssicos greco-latinos por traduzir. Deduzo perante a peti��o que, ou se esgotaram as tradu��es, ou, se n�o � o caso, os outros pa�ses que as fa�am. Se estamos t�o atrasados em tantas �reas, entre n�s, parece n�o constituir vergonha banir o latim e o grego do ensino, e ficar � espera dos textos j� vertidos. Enfim, somos o que somos, e temos o pa�s que temos. Como diziam os liberais vintistas, n�o temos emenda.

Jo�o Boaventura
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VOZES VINDAS DAS ESCOLAS

Hoje, o meu grupo disciplinar reuniu-se para escolher o manual a adoptar pela escola para o 7.� ano de escolaridade. Todos, sem excep��o, apresentam o pre�o de 17.42� c�ntimos. A �nica diferen�a, mas ao n�vel dos c�ntimos, est� nos cadernos de actividades. A autoridade para a concorr�ncia n�o devia ver estas coisas?

Havia nove(!) manuais para escolha. Qual � o professor que consegue fazer um estudo exaustivo, correcto e honesto de tantos manuais, sabendo que os foi recebendo a partir do fim de Abril, tempo em que todo o trabalho de fim de ano se acumula?

(Maria Pereira Stocker)
*

Na (minha) qualidade de professor do ensino secund�rio (h� 32 anos a ensinar F�sica) (...) permito-me enviar-lhe algumas achegas. (...)

1. Sobre a componente n�o lectiva e o local da sua concretiza��o, h� problemas ainda n�o equacionados. Um deles � o da exposi��o do professor a ambientes agressivos e ruidosos. De facto, se h� uma parte da componente n�o lectiva que pode /deve ter lugar na Escola, para reuni�es e outras coisas parecidas, tal parcela deve ser pequena �reduzida ao m�nimo� pelas seguintes raz�es:

a) as escolas em geral n�o t�m gabinetes para albergar um grande n�mero de professores em simult�neo; foram concebidas partindo do pressuposto de que a componente n�o lectiva � passada fora da Escola (por exemplo em casa do professor); desse modo, poucos s�o os professores que num dado, momento estariam na escola ao mesmo tempo: quando uns saiam entravam outros.

b) mesmo nas escolas que possuem alguns gabinetes, quase todos esses gabinetes t�m portas que d�o para corredores onde passam alunos a falar aos berros, a gritar intencionalmente, a bater �s portas, etc.; quem � que consegue (eu n�o consigo!) fazer trabalho �til no meio do barulho ?

c) tamb�m � de considerar o problema nas pr�prias salas de professores, onde alguns/algumas colegas n�o se co�bem de falar alto, mesmo quando est�o a ver outro colega a corrigir testes, a preparar li��es, etc.

d) as condi��es de b) e c) tornam o trabalho da componente n�o lectiva (quando prestado na Escola) penoso, triplamente cansativo, frustrante e de escasso rendimento;

As condi��es acima referidas propiciam um desgaste acrescido e in�til por exposi��o demorada ao ru�do. Sabe-se quais s�o as consequ�ncias a m�dio/longo prazo de tal exposi��o excessiva e ao "stress" dela derivado (os psic�lodos e os psiquiatras t�m documenta��o). � certo que uma escola �, por defini��o, um local onde se re�ne muita gente, professores, alunos, etc., mas essa exposi��o ao ru�do deve ser reduzida ao fundamental. Por isso, a n�o ser que haja gabinetes acusticamente isolados, vidros duplos, etc., n�o ser� vi�vel o prolongamente exagerado da componente n�o lectiva nos espa�os das Escolas.

2. Continua a esperar-se do professor um verdadeiro milagre. No entender dos mais "iluminados" governantes, trata-se de um profissional "multifacetado e de largo espectro" que �, ao mesmo tempo, psic�logo, psiquiatra, assistente social, animador, bom encaminhador de jovens, divertido, sempre bem disposto e transbordante de energia, despistador de casos de uso de drogas, domador de delinquentes, perspicaz educador e ainda agente interactivo escola-fam�lia-comunidade. Tamb�m se pretende que seja de vez em quando palha�o quanto baste (com a respectiva bola vermelha no lugar do ap�ndice nasal) e pouco faltar� para termos de equilibrar uma bola na ponta do nariz, como as focas do circo! Depois de tudo isto, e como pequen�ssimo pormenor, o professor tamb�m **ensina** uma determinada disciplina (Matem�tica, Biologia, Portugu�s, F�sica, Ingl�s, Hist�ria, etc.). Mas este �ltimo aspecto ser� (dizem os "iluminados") cada vez mais irrelevante, a bem das primeiras componentes da profiss�o, j� referidas....
(...)

(Guilherme de Almeida)

*

"Dessas 60 mil pessoas que se candidataram e n�o foram contratadas, s� cerca de um ter�o eram professores, outros eram pessoas que se candidataram ao lugar de professor" e "nunca foram professores na vida", afirmou aos jornalistas em Resende, Viseu. � urgente explicar ao Senhor Primeiro Ministro que o concurso em quest�o se destina ao preenchimento de vagas de Quadros de Escola ou de Quadros de Zona Pedag�gica, o que implica ser profissionalizado, ser mesmo professor portanto.

Eles n�o est�o a candidatar-se ao lugar de professores. Eles s�o professores.
Como � poss�vel ficar tudo calado e n�o repor a verdade?
Estes n�o colocados ir�o passar para um concurso de professores contratados e a maioria dos contratados tamb�m tem habilita��o profissional.
Sabia, n�o sabia, Senhor Primeiro Ministro?
Todos os dias s�o dias de dizer a verdade e s� a verdade, sobretudo quando se trata de pessoas que prometeram exercer as suas fun��es "com lealdade".

(Madalena Santos, Professora do Ensino B�sico, Montijo.)

(Continua)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



"Nonada", a primeira palavra do livro.

"Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem n�o, Deus esteja. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando � tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente - depois, ent�o, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto � o sert�o. Uns querem que n�o seja: que situado sert�o � por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, ent�o, o aqui n�o � dito sert�o? Ah, que tem maior! Lugar sert�o se divulga: � onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze l�guas, sem topar com casa de morador; e onde um criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos mont�es oestes. O gerais corre em volta. Esses gerais s�o sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: p�o ou p�es, � quest�o de opini�es... O sert�o est� em toda parte."

Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER


� mesmo assim enevoado.

Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu de L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
 


PALAVRAS, ESSE INFINITO PODER



Exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa.
(Museu da L�ngua Portuguesa, S�o Paulo, Brasil.)
 


MAIS UMA VEZ

o Blogger est� a funcionar mal.
 


RETORNO DO JUDEU ERRANTE


ao mesmo labirinto.

6.6.06
 


UMA NOITE NO FASANO OUTRA NA FAVELA DE VILA PRUDENTE

(Em breve.)
 


MUSEU DA L�NGUA PORTUGUESA DE S�O PAULO

Vale a pena. Vale muito a pena. Vale absolutamente a pena. Toda a nossa l�ngua est� l� e, atrav�s do portugu�s, um dos melhores retratos do Brasil. A l�ngua como som, mas tamb�m a l�ngua como luz, como tempo, como imagem.

A exposi��o de Bia Lessa sobre o Grande Sert�o: Veredas de Guimar�es Rosa, esse texto hom�rico portugu�s, mostra como se "entra" fisicamente num livro, no emaranhado das suas palavras e se sai com ele "lido" ou com vontade de o ler.

"Agora � agora", est� escrito num tijolo. Pois �, agora.

(Em breve, fotos das "palavras", por especial defer�ncia do Museu, que as permitiu para os leitores do Abrupto.)

3.6.06
 


JUDEU ERRANTE


Mais uma corrida, mais uma viagem.
Darei not�cias pelo caminho.
 


NEWSPEAK SOBRE TIMOR



"Houve uma reuni�o t�cnica com uma delega��o das For�as Armadas australianas, onde ficou claro que o comando � da GNR. Ontem foi assinada uma adenda para clarificar que esse princ�pio se mantinha totalmente v�lido e que nada que tivesse sido acordado com terceiros estados podia diminuir o alcance desta posi��o fundamental quanto ao comando operacional pr�prio". (Ant�nio Costa citado aqui.)

"Reuni�o t�cnica" - O problema � pol�tico e n�o "t�cnico". Que reuni�o foi esta? A descri��o da reuni�o como "t�cnica" n�o � inocente, pretende dizer, sem dizer. Para al�m disso, a que prop�sito Portugal se reune bilateralmente com a Austr�lia para decidir o comando de for�as num pa�s estrangeiro soberano? Os timorenses estiveram presentes?

"Ficou claro que o comando � da GNR" -
"Comando" de qu�? Das tropas da GNR? Qual � a exacta cadeia de comando no terreno? Fica por saber. O que se sabe � que num territ�rio numa situa��o de caos, a exist�ncia de v�rios "comandos" operacionais s� pode dar confus�o e risco. � perigoso: se houver um incidente e forem chamados ao mesmo tempo (pelos populares, por uma fam�lia portuguesa, seja por quem for) a GNR e os australianos, como � que se resolve? E sem comunica��es claras a probabilidade de fogo "amigo" � grande, porque ningu�m est� a ver em plena ac��o as for�as a discutirem compet�ncias e comandos.

"Esse princ�pio [do comando] se mantinha totalmente v�lido e que nada que tivesse sido acordado com terceiros estados podia diminuir o alcance desta posi��o fundamental" - Muito interessante, tanto mais que os "terceiros estados" s� podem ser Timor, as autoridades de Timor e os acordos feitos com a Austr�lia. Isto significa que Portugal vai enviar a GNR para Timor, um estado soberano, sem aceitar a legitimidade desse estado para decidir sobre as for�as militares e militarizadas que est�o no seu territ�rio.

Convinha ser mais claro e convinha que se exigissem mais explica��es. Assim n�o chega, assim parece que se est� a esconder alguma coisa.
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o os ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.

Actualizadas as notas NUNCA � TARDE PARA APRENDER: TANQUES, EFFENDI, UMA OPORTUNIDADE PERDIDA: DISCUTIR TIMOR A S�RIO.
 


COISAS DA S�BADO: �QUANTO VALEM OS VERDES�?

http://www.crwflags.com/fotw/images/p/pt%7Dpev.gif

perguntava, com imensa boa vontade, o P�blico, a prop�sito de algumas trapalhadas internas do �partido� �Os Verdes��. A resposta, para al�m de umas preciosidades acad�micas, �: do ponto de vista eleitoral, nada; para o aparelho parlamentar do PCP, bastante. N�o � uma contradi��o: ao manter um partido artificial, que n�o existe fora do PCP, o PCP consegue na Assembleia da Rep�blica aumentar, e muito, os recursos que lhe s�o facultados e pagos pelo er�rio p�blico.

� por isso que nas suas listas � milimetricamente escolhido o n�mero de deputados �Verdes� para garantir um Grupo parlamentar, ou seja instala��es, funcion�rios, e tempo nos debates muito superiores ao que obteria se aqueles deputados estivessem nas suas listas como membros do PCP. H� alguma, escassa, vantagem marginal do disfarce, o que no PCP � gen�tico, habituados a fazer partidos e movimentos �independentes� para tentar alargar o seu espa�o pol�tico. Mas com os �Verdes�, um ano depois, percebeu-se que n�o viria dali nenhum voto, s� sobraram as vantagens no parlamento. De gra�a para o PCP.

ANEXO: Com o m�nimo de dois deputados (o PEV fez-se para ter esse m�nimo), segundo a Lei n.� 28/2003 de 30 de Julho - Lei de Organiza��o e Funcionamento dos Servi�os da Assembleia da Rep�blica (LOFAR), no Artigo 46.� (Gabinetes dos grupos parlamentares)

1 - Os grupos parlamentares disp�em de gabinetes constitu�dos por pessoal de sua livre escolha e nomea��o nos seguintes termos:

a) Com dois Deputados, inclusive: pelo menos um adjunto, um secret�rio, um secret�rio auxiliar e ainda outros funcion�rios nos termos do disposto nos n.�s 2 e 4;


para al�m de uma subven��o para

a) Grupo parlamentar de 2 Deputados - 24 x 14 SMN (sal�rio m�nimo nacional) + 6 x 14 SMN por Deputado.
 


RETRATOS ESQUECIDOS DO TRABALHO EM PORTUGAL






















Desenho de Figueiredo Sobral no livro de Domingos Carvalho, Sementes do Ter�o. Contos, publicado pelo autor em 1956.
 


EARLY MORNING BLOGS 787

In limine


Godi se il vento ch'entra nel pomario
vi rimena l'ondata della vita:
qui dove affonda un morto
viluppo di memorie,
orto non era, ma reliquiario.

Il frullo che tu senti non � un volo,
ma il commuoversi dell'eterno grembo;
vedi che si trasforma questo lembo
di terra solitario in un crogiuolo.

Un rovello � di qua dall'erto muro.
Se procedi t'imbatti
tu forse nel fantasma che ti salva:
si compongono qui le storie, gli atti
scancellati pel giuoco del futuro.

Cerca una maglia rotta nella rete
che ci stringe, tu balza fuori, fuggi!
Va, per te l'ho pregato,- ora la sete
mi sar� lieve, meno acre la ruggine�


(Eugenio Montale)

*

Bom dia!

2.6.06
 


UMA OPORTUNIDADE PERDIDA: DISCUTIR TIMOR A S�RIO



No artigo da S�bado, que seguiu segunda-feira � noite para a revista (que s� se publica na quinta-feira), fazia as seguintes perguntas:
"Se criticamos os australianos de inger�ncia indevida, por dizerem que n�o h� governo em Timor-Leste, com que lado alinha Portugal no conflito institucional timorense? A RTP e muita da comunica��o social de �causas�, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa, alinham por Xanana contra o Primeiro-ministro, sem se saber muito bem porqu�, mas a nossa pol�tica externa tamb�m �alinha�? Se os australianos se est�o a ingerir nas quest�es de Timor-Leste, o que significa que est�o a por em causa a soberania do pa�s, quem manda em �ltima inst�ncia nas ruas, o governo de Timor ou a Austr�lia? E se mandar a Austr�lia, e manda quem pode e tem a for�a, mandam tamb�m os comandos australianos na GNR? Se os australianos entenderem que a rua X est� interdita, a GNR tem que negociar ou pedir licen�a para l� passar? Qual � a cadeia de comando em Dili?
Estas e mais mil e uma perguntas deviam estar a ser feitas e a ter respostas claras. Mas nem se pergunta, nem se responde."
Tentei discutir esta mesma quest�o na Quadratura do C�rculo e a resposta foi que estava tudo j� combinado e n�o havia qualquer problema com a cadeia de comando em Dili. Procurei na comunica��o social alguma reflex�o sobre esta quest�o, t�o evidente era. Nada, at� h� vinte e quatro horas, quando subitamente se come�ou a perceber nas habituais declara��es agrestes do Ministro dos Neg�cios Estrangeiros, que, ou havia precipita��o, ou neglig�ncia (nossa) ou dolo (deles). Dolo de quem? De Xanana, do Governo leg�timo de Timor, dos australianos?

H� explica��es muito claras que t�m que ser dadas, e n�o vejo a oposi��o e os parlamentares a fazerem aquilo que � a sua verdadeira fun��o: vigiar o governo, controlar os seus actos, perguntar. Timor n�o pode continuar a ser um tabu "consensual". As decis�es sobre Timor ou s�o puramente humanit�rias, - ir l� buscar ou proteger os portugueses, j� que para salvar os timorenses n�o temos capacidade, s� os australianos -, ou s�o actos da nossa pol�tica externa, e como tal devem ser explicados. Ora o que diz o Ministro dos Neg�cios Estrangeiros pode ter duas interpreta��es contradit�rias: ou � excessivo ou � bem pouco. Tudo est� por explicar: o que � que se est� a passar em Timor, e qual o nosso papel?

*
Ouvi na televis�o o ministro dos Neg�cios Estrangeiros, Diogo Freitas do Amaral, afirmar, relativamente aos militares da GNR que se dirigem para Timor, que �Portugal tem mais de oito s�culos e meio de independ�ncia nacional e n�o aceita que for�as militares suas sejam comandadas por militares estrangeiros�. Permito-me corrijo-lo. De facto, j� por diversas vezes no passado Portugal aceitou �efectuar importantes transfer�ncias de soberania. A primeira foi em 1949, com Oliveira Salazar, quando Portugal foi membro fundador da NATO, aceitando que, em caso de guerra no teatro europeu, as suas tropas fossem comandadas por um Estado-Maior internacional, chefiado por um general americano (os nacionalistas n�o protestaram ent�o�. Talvez o Ministro dos Neg�cios Estrangeiros devesse informar-se junto do autor do livro do qual extra� esta passagem. Chama-se �Um voto a favor de Maastricht: Raz�es de uma atitude�, escrito por um certo Diogo Freitas do Amaral.

(Jos� Carlos Santos)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a bibliografia dos ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.
 


ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (5� s�rie)




Porque � que ningu�m considera os alunos como intervenientes activos e respons�veis pelo seu sucesso ou insucesso?

Atente-se no Plano de Ac��o para a Matem�tica, Ano Lectivo 2006-07: "(...) o sucesso de uma interven��o para a melhoria dos resultados em Matem�tica depende fundamentalmente do trabalho das escolas e do trabalho colectivo dos professores de matem�tica."
Os alunos nem sequer s�o considerados (isto para n�o falar j� dos pais, dos quais, segundo parece, nada se espera).
O S. e a N. eram ambos meus alunos a Matem�tica no 9� ano. Tiveram 5 no final do ano e 5 no exame, quando bastava terem tido 3 para manterem o 5 final (e sabiam-no).
Porque � que trabalharam tanto para o exame? E porque � que outros, tamb�m meus alunos, a receberem as mesmas aulas, n�o o fizeram? E esta � que � a quest�o verdadeiramente crucial no problema do insucesso escolar!!! Os alunos. Andar � procura noutros s�tios s� me faz lembrar a hist�ria contada por Herberto Helder:
�Trata-se de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda de sua casa. Acorre ent�o o jovem que pretende ajud�-la, e pergunta:
Que procura? � Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. � Porque na cozinha est� escuro � responde a mulher.
A par�bola ajudar� a desaprender alguma coisa, e depois ser� poss�vel aprender outra coisa.�
Acho que isto diz tudo.

(Rui Monteiro, professor de Matem�tica)

*

Preocupa��o pertinente a da professora Madalena Santos no seu texto do Abrupto. As disciplinas de �rea Projecto, Estudo Acompanhado e Forma��o C�vica servem para tranquilizar as mentes pensantes do "eduqu�s" em primeiro lugar, servem para impedir uma maior exig�ncia curricular a Portugu�s, Matem�tica, Ingl�s, etc. Servem para os professores falarem com "agenda", mas sem ensinar nada durante os 90 minutos que duram cada aula de cada uma dessas pseudo-disciplinas, servem tamb�m para que os alunos nunca mais na vida queiram fazer trabalhos de grupo tal a press�o para o fazerem, com qualquer pretexto, de qualquer modo e com qualquer tema, num dif�cil per�odo de desenvolvimento pessoal, em que as aptid�es necess�rias ao sucesso de um trabalho de grupo tais como aceita��o dos diferentes pontos de vista, capacidade negocial, objectividade em rela��o �s compet�ncias de cada um, e gest�o de recursos, est�o muito pouco desenvolvidas ou mesmo ausentes. As repetid�ssimas experi�ncias de trabalho de grupo s�o sobretudo, nestas idades, momentos e motivos de acrescida tens�o, conflito, luta por lideran�a, que pouco ajudam o bom relacionamento entre colegas e amigos e que tanto tempo tiram � aquisi��o de conhecimentos.

Tamb�m eu tenho dificuldade em perceber como ningu�m nunca fala sobre este assunto. Os Pais n�o se importam?

(n�o sou professora)

(J.)

*

Reparo nos coment�rios que se continua a insistir em lugares comuns sobre os professores, t�picos dum pa�s em que todos desconfiamos que os outros n�o fazem nada. N�o sou professor (nem o quero ser), mas conhe�o bem muitos professores. Para l� da experi�ncia pessoal de que s�o sempre os meus amigos professores que t�m menos disponibilidade e tempo livre, o facto � que quem se d� ao trabalho de investigar v� que um professor (pelo menos um professor normal, que em todas as profiss�es h� quem n�o fa�a o que deve) trabalha tantos dias como os restantes trabalhadores (ao contr�rio do racioc�nio simplista de muitos, quando os alunos est�o de f�rias, os professores n�o est�o de f�rias) e tem bastantes horas de trabalho por dia, a grande maioria das vezes muito mais do que oito horas. Claro que a maior parte das pessoas, completamente fora do mundo da educa��o, confundem "horas lectivas" com "horas de trabalho", quando uma grande parte da carga de trabalho docente consiste na prepara��o das aulas (ou assim devia ser...). Por isso, quando a maior parte dos meus amigos sai do trabalho, t�m tempo para si; quando se trata dum professor, raramente tem tempo para deixar de pensar na profiss�o. Mas, claro, � mais c�modo deixar passar a imagem banal do "professor-pregui�oso". Talvez por traumas do tempo de escola...

(E ai de mim se insinuar que o ensino at� melhorou um pouco nos �ltimos 30 anos, apesar de todos os entraves. Obviamente, � mais f�cil dizer que est� tudo mal, n�o tentar destrin�ar nada e atirar para o ar uns lugares comuns � laia de solu��es infal�veis.)

(Marco A. F. Neves)

*

Num conjunto de textos publicados n�As Farpas, sob o t�tulo �Os nossos filhos � instru��o p�blica� ( e do qual aqui se transcreve alguns excertos), Ramalho Ortig�o focava j� alguns dos problemas que, neste momento, afectam o ensino e os que nele interv�m:

Em primeiro lugar os alunos habituam-se desde a inf�ncia, nos primeiros actos da sua vida civil, a descrerem do m�rito, do trabalho, e do estudo, a contarem para todo o �xito com a falsea��o das provas, com a mercancia da justi�a e com a omnipot�ncia do compadrio � perfeita inicia��o para uma inexist�ncia de intriga, indol�ncia e de desonra.

Os pais, quites para com as suas consci�ncias dos encargos da educa��o que devem a seus filhos pelo facto de haverem delegado noutros esses encargos, contentam-se em participar aos parentes que o menino continua a ser aprovado nos seus exames, at� que, aos dezasseis ou dezassete anos, o col�gio devolve � fam�lia plenamente aprovado em todos os seus estudos o menino que a fam�lia lhe confiara, e o pai encontra-se ent�o, frente a frente, no seu campo, na sua loja, na sua oficina, ou no seu lar dom�stico, com um mancebo aproximadamente in�til para toda a esp�cie de emprego.

[�]

Na Escola Polit�cnica, na Universidade, num escrit�rio comercial ou na casa paterna esse rapaz deixar� correr descuidadamente a sua exist�ncia pelo declive f�cil em que o puseram, sem est�mulos afectuosos, sem vontade, sem energia, sem for�a, sem consci�ncia e sem car�cter�

(Ortig�o, Ramalho � Os Nossos Filhos-Instru��o P�blica. In As Farpas, Lisboa: Livraria Cl�ssica Editora, 1944.Tomo VIII, p.15-17)
Ao ler estas palavras recordei-me de alguma situa��es passadas, como por exemplo, a da professora prim�ria que numa aula do 3.� ano ensinou aos que um conjunto de dois versos era um dueto, tendo posteriormente, quando questionada sobre o facto por um dos pais, explicado que para eles era mais f�cil fixar o termo dueto do que d�stico; ou do professor cujas aulas se repetiam textualmente, ano ap�s ano; do professor que corrigia os testes durante as aulas; ou ainda o caso do professor que, momentos antes de entrar na sala, confessava n�o saber que mat�ria iria dar naquela aula; mas tamb�m o caso dos cento e tal atestados m�dicos que foram entregues por alunos aquando dos exames do 12.� ano, entregues com a coniv�ncia de pais e m�dicos, h� dois anos atr�s; ou ainda o estudo divulgado na passada semana, segundo o qual 4 em cada 5 alunos do ensino superior, copiava, uma vez que a sociedade premeia as melhores classifica��es em detrimento do saber e outras capacidades�

O ensino em Portugal tem sido desde sempre um dos principais problemas a que nenhum governo (passe o exagero e a presun��o), tem sabido dar resposta.

Certamente nos recordamos da possibilidade que existiu durante largos anos, de �professores� leccionarem, tendo como habilita��es o 11.� ano, ou o curso da Alliance Fran�aise, British Council,�, sem a m�nima prepara��o pedag�gica (a este prop�sito, n�o consigo perceber a indigna��o de um dos leitores, docente no ensino superior polit�cnico, por o quererem �obrigar a fazer est�gio pedag�gico�).

Claro est� que ao permitir-se atitudes destas, deu-se azo � m�xima utilizada por um dos leitores: �Quem sabe faz, quem n�o sabe ensina, e quem n�o sabe ensinar �... agente educativo.�

Se a tudo isto juntarmos a massifica��o do ensino, (que levou a destrui��o do ensino t�cnico de que agora tanto se fala), o florescimento de escolas quer ao n�vel do ensino b�sico quer ao n�vel do ensino superior e a redu��o de alunos que se come�ou a verificar h� alguns anos a esta parte, o resultado s� poderia ser aquele a que cheg�mos.

E tudo isto era e tem sido do conhecimento dos governos, dos sindicatos, dos docentes e da sociedade em geral, sem que nada tenha sido feito para combater a situa��o, procurando-se agora empolar exageradamente a quest�o: um dos leitores chama a aten��o para �a quantidade infind�vel de tarefas e fun��es a que v�o obrigar os docentes [e para] a complexidade dos processos envolvidos em cada uma delas�.

Assim como as moedas t�m sempre duas faces, tamb�m as situa��es podem ser sempre vistas de dois modos diferentes.

Ningu�m, de bom senso, acredita que a cada professor ser� exigido o cumprimento simult�neo de todas as tarefas e fun��es enunciadas, tratando-se outrossim de um mero elencar das mesmas.

Por outro lado, � preciso n�o esquecer que muitos daqueles que tantos protestam s�o, provavelmente, os mesmos que usufruem de 6 a 8 horas de redu��o num hor�rio de 22 horas, trabalhando 14 horas semanais (contrariamente ao funcion�rio p�blico comum que � obrigado a fazer 35 horas at� se reformar), e complementando o seu tempo de descanso, para que foram dispensados, com explica��es noite dentro!

Em s�ntese, h� boas e m�s pol�ticas, h� bons e maus bons profissionais, h� melhores e piores condi��es de trabalho� (...)

(Jorge Amaral)

*

Notas soltas sobre a Escola

H� 9 anos, era eu pouco mais que rec�m-licenciado, concorri para dar aulas no distrito de Beja � nos ent�o designados "mini-concursos" � e fiquei colocado! Na altura tinha apenas uma licenciatura em Sociologia, obtida na Universidade Nova de Lisboa; t�o mal forjada para as minhas necessidades de emprego como para as necessidades do mercado.

O facto de ter uma licenciatura em Sociologia tornava-me, na altura e creio que ainda hoje, legalmente habilitado para dar aulas de Portugu�s/Hist�ria ao 2� ciclo do ensino b�sico; apesar da mesma legisla��o n�o me considerar capaz de leccionar� Sociologia!

Quando me apresentei na escola deram-me o hor�rio com a anota��o 318/91. Perguntei o que � que aquilo queria dizer e responderam-me que era o diploma legal que regulamentava o ensino especial e, no caso, o ensino que eu deveria leccionar �s minhas turmas. Preocupei-me, li o diploma, preocupei-me ainda mais, falei com o conselho directivo que me tranquilizou e me encaminhou para o gabinete de psicologia da escola. No gabinete de psicologia tranquilizaram-me � outra vez! � e disseram-me que n�o me preocupasse, que n�o tivesse muitas expectativas em rela��o aqueles mi�dos e que me limitasse a ir com eles ao centro de recursos, ver uns filmes, conversar um bocado� enfim, passar o ano.

N�o sei se nesta altura do relato, para avaliar convenientemente a situa��o, interessa lembrar que eu n�o tinha experi�ncia lectiva, n�o tinha qualifica��es para lidar com crian�as com necessidades especiais, nunca tinha dado uma aula e que a �nica coisa que me habilitava a dar aulas de Portugu�s/Hist�ria (ou passar o tempo com os alunos, como explicitamente o gabinete de psicologia da escola me sugeriu) era uma licenciatura em Sociologia. Por esta altura poder-se-� perguntar se o cen�rio era este, porque raio resolvi eu aceitar o des�gnio. A explica��o � simples. Estava desempregado, queria trabalhar (o que nem sempre s�o condi��es cumulativas), disponibilidade para sair de casa e ir arranjar emprego a 200 kms de casa (de Cascais a Beja), tinha um "perfil" de habilita��es que o "mercado" reconhecia e validava, uma imensa vontade de aprender e, j� nessa altura, uma grande apet�ncia para os processos de ensino/aprendizagem.

Conheci finalmente os alunos. Eram 14. Distribu�dos por 4 (!) turmas o que d� uma m�dia de 3,5 alunos/turma. Uma turma tinha 6, a outra tinha 4 e ainda havia 2 turmas com 2 alunos cada. Nenhum deles tinhas necessidades especiais � sobretudo defici�ncias ou incapacidades como o discurso correcto lhes chama agora � como o diploma anunciava. Tinham de facto necessidades especiais, mas de outra ordem. Resultavam essas necessidades especiais de serem crian�as provenientes de montes isolados e de lugarejos rurais, onde a sociabilidade era pouca, pobre, rude e, n�o poucas vezes, violenta.

Fosse l� como fosse, a escola tinha resolvido contratar um professor de portugu�s e um de matem�tica e outros de outras disciplinas para dar "acompanhamento" mais personalizado (um acompanhamento sobre o qual nem sequer tinham pensado muito�) a estas crian�as.

Nem vou falar sobre o efeito que esta pedagogia, alegadamente inclusiva, e o seu efeito estigmatizante, consubstanciado no facto de se criarem turmas especiais para os "bichos do mato" ou, como lhes chamavam na altura, os "319", tinha sobre as crian�as.

Vou falar de prioridades. E de custos. Que � coisa que a esquerda normalmente acha que faz parte da agenda suja da pol�tica.

Ora bem, eu tinha na altura um hor�rio completo (deveriam rondar, n�o me recordo com exactid�o, as 21 horas lectivas) tal como todos os meus colegas que tinham, tamb�m eles, aproximadamente 4 turmas "normais". Uma turma "normal" contava com uns 20 e tal alunos. Fa�amos a coisa pelos 22. Ora cada colega tinha (4 turmas x 22 alunos) 88 alunos. Eu tinha 14. Receb�amos todos aproximadamente o mesmo. Eu deveria receber, l�quidos, qualquer coisa como 180 contos. Ora, isto fazia com que os meus alunos, para desenvolverem compet�ncias em Portugu�s/Hist�ria, custassem, cada um deles, (180 cts/14 alunos) quase 13 contos por m�s. Ao passo que os outros alunos custavam apenas (180 cts/88 alunos) 2 contos; para o mesmo objectivo.

A pergunta que eu fa�o, e fa�o-a a pensar nesta minha experi�ncia particular, como a fa�o a pensar nos acontecimentos em discuss�o sobre a viol�ncia nas escolas urbanas e sub-urbanas � a seguinte: e os melhores? Quem se preocupa com os melhores? Aqueles que, em turmas "normais", aguardam pelo curso normal, na melhor da hip�teses, da mediania geral? Pior: quem se preocupa com aqueles que, n�o sendo ainda pr� ou proto ou rec�m delinquentes, pelo conv�vio e sobretudo pela partilha do espa�o escolar com todos aqueles que j� s�o qualquercoisa-delinquentes acabam por n�o se desenvolverem como mereciam numa escola que estimulasse a excel�ncia e que n�o andasse sempre a olhar para os mais violentos, e para os mais carentes de ajuda e para os mais atrasados.

� evidente que n�o julgo que se devam deixar cair, ainda mais, os mais fracos. O que n�o suporto � ver a Escola consumir-se at� � exaust�o com toda a problem�tica dos coitadinhos, nomeadamente por via dos efeitos que o meio exerce sobre eles, como se o facto de se nascer e viver na Cova da Moura tornasse o individuo, inexoravelmente, num marginal inimput�vel ou merecedor de maior atenuante que outro marginal qualquer nascido e criado na Quinta da Gandarinha.

O que n�o suporto � ver a Escola transformar-se numa arena em que aos alunos e aos pais dos alunos � permitido insultar, cuspir, agredir e incendiar os cabelos dos professores, com total impunidade. E um Estado que ao inv�s de proteger a Escola e de a centrar no essencial a desloca para tarefas que deveriam estar a ser, no limite, caso os pais sejam irremediavelmente casos perdidos, desempenhadas pelo Instituto de Reinser��o Social, pela Pol�cia, pelos Tribunais e pela Seguran�a Social.

(Pedro Gomes Sanches)

*

Sou professor do ensino secund�rio e estou, como muitos outros, "de rastos" com o actual estado da carreira docente. A proposta apresentada por este governo vai piorar ainda mais o n�vel do ensino em Porugal. � reconhecido pelos especialistas que a carreira docente � uma das profiss�es mais causadoras de stress e as altera��es que t�m sido introduzidas nos �ltimos anos s� t�m ajudado a piorar o estado das coisas, como referia um leitor deste blog, neste momento os professores vivem "afogados" em burocracia, reuni�es e projectos, n�o lhes sobrando muito tempo para fazerem aquilo para que se propuseram e que � preparar aulas e ensinar. Como se n�o bastasse o actual estado das coisas e os ataques que j� foram feitos vem agora este governo denegrir ainda mais a imagem dos professores perante a opini�o p�blica, por que raz�o? Na minha opini�o estas manobras mediaticas t�m por objectivo legitimar junto da opini�o p�blica este ataque � classe docente.

As raz�es que est�o por detr�s deste novo estatuto s�o as mesmas que est�o por detr�s da lei que pretendia obrigar os professores a permanecerem 35 horas por semana na escola e que s�o, nada mais nada menos que o corte no or�amento da educa��o. Inventam-se motivos, inflama-se a opini�o p�blica contra os professores para que, no meio da confus�o, os cortes salariais sejam introduzidos. Na minha situa��o em particular, com a aplica��o desta lei no presente ano lectivo, com os mesmos cargos e com o mesmo ou mais trabalho na escola tive um corte salarial de cerca de 150 �. Multiplicado este valor por alguns milhares � facil encontrar a causa do surgimento desta lei.

O estatuto proposto vai provocar exactamente o mesmo efeito desejado. Com a introdu��o de bastantes entraves na subida da carreira docente (convenientemente disfar�ados com motiva��es pedag�gicas) v�o haver bastantes professores a ficar retidos em escal�es mais baixos e consequentemente com ordenados inferiores.

Relativamente � resposta por parte dos sindicatos a esta situa��o gostaria aqui de lamentar a desuni�o existente e a manipula��o partid�ria dos mesmos.
Que l�gica tem um sindicato ser apoiado por um partido? Como � obvio quando esse partido estiver no governo v�o existir compadrios e o sindicato n�o vai fazer o papel que devia! Quem acredita no contr�rio?
Gostava ainda de referir que relativamente � greve anunciada pela FENPROF, prevista para uma ponte, sem estar sequer disposta a ouvir os demais sindicatos e a chegar a um acordo para uma iniciativa concertada, na minha opini�o joga claramente a favor do governo pois desta forma a �nica coisa que v�o conseguir � denegrir ainda mais a imagem dos professores junto da opini�o p�blica. Todas as pessoas v�o se levadas a pensar que a greve foi feita para que se tivesse um fim de semana prolongado, "malandros dos professores que s� querem sopas e descanso".

(Francisco Lampreia)

*

Antes de mais quero esclarecer que sou professor. Tenho uma licenciatura em F�sica cujos os primeiros dois anos e meio s�o comuns � prepara��o cient�fica de outros cursos do ramo cient�fico (Matem�tica e F�sica) nos semestres seguintes s�o �cadeiras� das �reas das did�cticas espec�ficas , psicologia, sociologia entre outras. A prepara��o de uma monografia tem�tica no quarto ano com uma forte componente laboratorial associada � igualmente necess�ria. O quinto ano da licenciatura � um est�gio com 3 supervisores, dois cient�ficos (F�sica e Qu�mica) e um docente que acompanhou as minhas actividades numa escola, o est�gio pedag�gico integrado, que inclui a elabora��o de dois semin�rios (trabalhos escrito em estreita colabora��o com os supervisores cient�ficos).

Tenho 10 anos de servi�o nos quais ao longo dos primeiros cinco conheci v�rias escolas e portanto realidades diversas. Nos �ltimos seis anos tenho trabalhado na forma��o inicial de professores tendo exercido o cargo de supervisor pedag�gico em colabora��o com a Faculdade de Ci�ncias da Universidade do Porto. A forma��o acrescida, fornecida pela institui��o do ensino superior para o exerc�cio do cargo tem sido realizada regularmente e de forma pertinente com vista � melhoria do processo. Para al�m disso adquiri um Mestrado na �rea da Educa��o Multim�dia cuja interdisciplinaridade muito enriquece quem o frequenta. A minha tese assentou num desenvolvimento de um estudo nacional sobre a utiliza��o das TIC na escola em particular pelos professores da minha �rea; na produ��o de recursos e estrat�gias para uma eficaz integra��o das novas tecnologias nas escolas e na compreens�o das perspectivas pedag�gica � did�cticas com base no livro branco da F�sica e Qu�mica entre outros estudos com vista a uma mudan�a de paradigma educativo cuja a efic�cia d� resposta �s necessidades n�o s� formativas da popula��o para o s�culo XXI como do desenvolvimento de compet�ncias transfer�veis. Participei em simp�sios internacionais apresentando comunica��es. Formador de professores, actividade que suspendi por ter optado por continuar como supervisor apesar de penalizado do ponto de vista remunerat�rio.

Constato hoje que os meus alunos de 9� ano de � dez anos sabiam mais e melhor, que a maioria dos alunos que agora completam o 11� ano de escolaridade. Para que possa compreender que esta � uma compara��o poss�vel e n�o uma opini�o cumpre-me explicar que o curr�culo est� elaborado em espiral. De uma forma simples � o mesmo que dizer que os alunos andam sempre a falar do mesmo mas com graus de profundidade crescente. Voltam sempre, mais tarde, aos assuntos. � portanto compar�vel tendo em conta que hoje coloco nas minhas fichas de avalia��o do 10� e 11� ano quest�es com um n�vel de exig�ncia id�ntico �s que colocava aos meus alunos de 9� ano de � dez anos atr�s. Os professores s�o os mesmos. O que mudou ent�o? A resposta � simples: o sistema. Temos os mesmos programas e menos horas para os leccionar; o n�mero de alunos por professor disparou. Quando comecei um professor tinha cerca de quatro turmas (cerca de 100 alunos); hoje um professor tem entre 7 a 11 turmas ( cerca de 180 alunos). Equacionando a implementa��o de novos programas e de um aumento significativo de trabalho burocr�tico nas escolas com a press�o da institui��o e da sociedade para um sucesso a qualquer custo come�a-se a compreender os resultados. Lembremo-nos do tempo em que era necess�rio o 9� ano para obter a carta de condu��o, forma de reconhecimento dos valores e conhecimentos a� adquiridos. Hoje esse � um aspecto irrelevante.

Antes de qualquer opini�o que se possa ter sobre a proposta do governo no que respeita ao ECD � necess�rio perceber que esta � uma mudan�a de paradigma e que o actual estatuto n�o � compar�vel � proposta do governo.

Sobre este assunto seria interessante conhecer as opini�es de Roberto Carneiro, Mar�al Grilo ou Ana Benavente.

A grande diferen�a est� no estatuto dos professores. Afinal � essa a fun��o do documento. As diferen�as s�o enormes. De modo muito simplificado podemos afirmar que no actual ECD, ainda em vigor, os professores s�o vistos como respons�veis e parte integrante do sistema educativo. As suas fun��es no terreno s�o trabalhar com o minist�rio da educa��o no sentido de melhorar o sistema. Na actual proposta os professores n�o trabalham com, mas para o minist�rio da educa��o. S�o funcion�rios (servis) e n�o colaboradores activos para uma melhor educa��o.

Como supervisor estou habituado a ter aulas assistidas todos os anos por v�rias pessoas. Assisto e avalio o desempenho de outros � tempo suficiente para perceber que este sistema de avalia��o serve sobretudo para avaliar um funcion�rio e n�o um professor.

Neste novo paradigma as responsabilidades do governo s�o enormes. N�o h� d�vida que face a maus resultados o governo n�o mais poder� atribuir a culpa aos docentes, pois possui todos os mecanismos de avalia��o e correc��o das irregularidades do sistema.

Resta saber se este � o modelo adequado �s exig�ncias dos tempos e do pa�s. Este n�o � apenas um Estatuto da Carreira dos Docentes � um modelo de educa��o para o pa�s que vamos conhecendo aos poucos. O pa�s deve ter uma palavra a dizer e o assunto deve ser discutido abertamente sem a postura fossilizante dos sindicatos e a casmurrice da ministra.

� talvez a confus�o entre forma��o profissional e educa��o que este governo n�o percebe.

Os sucessivos governos PS t�m afundado sempre a educa��o p�blica. Esta � sem d�vida a �ltima machadada. O PP n�o faria melhor.

Do ponto de vista social a situa��o � grave e tende a agravar-se. Ao contr�rio do que possa supor qualquer intelectual de esquerda esta democratiza��o da ignor�ncia que a escola p�blica promove (n�o os professores) levar�, na minha opini�o e a curto prazo a uma cis�o entre classes sociais. Os acontecimentos recente em Paris com a incinera��o de autom�veis na via p�blica � um aviso a que devemos estar atentos.

Um �ltimo pensamento: ainda n�o percebi se esta reforma em curso � fruto de uma convic��o s�ria ou de uma posi��o demag�gica com objectivos econ�mico-financeiros mas que ainda n�o pesou as consequ�ncias a longo prazo.

�A coragem e a estupidez identificam-se pelos resultados obtidos� dizia um colega meu; o problema � que quem ir� pagar ser� o pa�s e n�o este governo pois � certo que nessa altura estar�o na oposi��o.

Uma coisa � certo estas n�o s�o as fun��es para as quais me preparei.

(C. B.)
*

Por que raz�o ningu�m toca na ferida das �reas Projecto e Estudo Acompanhado que, juntamente com a Forma��o C�vica, t�m uma carga hor�ria igual a duas disciplinas, tal como Hist�ria e Ci�ncias ou CN e Ingl�s. A redu��o da carga de Ingl�s? Depois a Senhora Ministra diz que eles n�o sabem matem�tica.... E a indisciplina? Os programas?
Os noventa minutos, em que sobeja tempo �til de aula, ao contr�rio dos quarenta e cinco, em que falta? E as car�ncias dos meninos mais pobres? E as pobrezas morais que por a� h� que "animam" muito os telejornais? Na escola, n�s temos de lidar com elas antes da "Alice no Pa�s das Maravilhas".

A culpa � sempre toda dos porfessores. Porqu�?

(Madalena Santos, Professora do 2� ciclo, Ensino B�sico)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: TANQUES, EFFENDI

Kursk History's Greatest Tank Battle Nik Cornish, Kursk History's Greatest Tank Battle

No que correu bem (algumas coisas correram bem aos alem�es) e no que correu mal (muita coisa), a batalha de Kursk foi mais decisiva do que qualquer outra para o destino final da II Guerra Mundial. N�o � l�quido o que podia acontecer caso Hitler n�o tivesse mandado suspender a ofensiva, no momento em que, com muita dificuldade,as divis�es alem�s tinham conseguido juntar-se numa frente cont�nua, para refor�ar a frente italiana amea�ada pelos desembarques americanos.

Conheci um combatente de Kursk, um velho azeri com os dentes de ouro, que usava as suas medalhas sobre um fato pu�do. Chamava-me "effendi", palavra que nunca imaginei algu�m chamar-me, t�o longe vinha da hist�ria otomana e queria vender uma carpete que trazia aos ombros, a sua riqueza s�bita num s�tio onde n�o havia turistas. Mas o velho sabia muito mais do que eu e n�o esquecera a defer�ncia do tratamento para com quem, naquele s�tio, uma aldeia azeri com refugiados do Nagorno-Karabakh, estava com as autoridades, com o poder. Contava depois, com orgulho, como tinha iniciado a guerra nos momentos dif�ceis de 1941 e a tinha acabado em Praga vitorioso, combatendo sempre pelo caminho. Com passagem pelo matadouro de Kursk.

*

Discordo, JPP, que a batalha de Kursk tenha sido mais decisiva "do que qualquer outra" para o destino final da II Guerra Mundial. A mais decisiva foi Estalinegrado, e Kursk, 5 meses depois da rendi��o do 6� Ex�rcito, foi apenas o seu remate.
Em Estalinegrado n�o foi apenas o 6� Ex�rcito, a fina flor da Wermatch que vencera a Fran�a um ano antes, que desapareceu; foi praticamente todo o ex�rcito romeno e boa parte do grupo de ex�rcitos do Don! Mais: a ofensiva russa em tenaz que cercou o 6� ex�rcito alem�o em Estalinegrado foi apenas parte de uma ofensiva muito mais geral que atacou depois todo o flanco esquerdo da ofensiva alem�, guarnecido por ex�rcitos italianos, obrigando o grupo de ex�rcitos do Don a retirar apressadamente para Karkhov, de onde partira a ofensiva de Ver�o desse ano de 1942.
Mas h� mais: conforme foi narrado pelo grupo de reporteres do 6� ex�rcito, no Inverno de 1942-43 a R�ssia j� produzia mais tanques, morteiros e muni��es que o Reich. O T-34, embora fosse um tanque primitivo quando comparado com o Tigre que faria a sua "apresenta��o" meses depois, em Kursk, avariava muito menos que este precisamente devido � sua simplicidade, e tinha lagartas largas adaptadas � neve e � lama. Os Tigres tinham uma blindagem quase invulner�vel e um canh�o incompar�vel, o 88, mas enterrava-se com facilidade devido ao seu peso e avariava-se ainda mais facilmente. Em Kursk boa parte deles n�o passou dos campos de minas com que os russos se fortificaram.
E mais ainda: j� em Estalinegrado a percentagem de feridos que sobrevivia era nos russos superior � dos alem�es, atestando a superioridade dos seus servi�os m�dicos de campanha! Mas, onde a superioridade se afirmaria ainda mais, seria na espionagem.
Em Kursk, apenas alguns meses depois da derrota da ofensiva para o C�ucaso, Hitler j� estava derrotado � partida. Era claro que n�o conseguira destruir os ex�rcitos russos nem a Norte, em 1941, nem a sul em 1942, e por isso foi uma ofensiva desesperada.
Em primeiro lugar por que, ao contr�rio das anteriores, este ataque j� n�o se inseria num plano estrat�gico (a ofensiva de 41 visara Moscovo e a de 42 o petr�leo do C�ucaso). Em segundo lugar porque Hitler piorou da sua paran�ia racista e decidiu abdicar dos ex�rcitos auxiliares estrangeiros (ali�s j� praticamente destru�dos) e apostar em factores m�gicos, nomeadamente nas divis�es SS de maior pureza racial e dando-lhes nomes gloriosos. Em terceiro lugar por que os russos dominavam completamente o terreno e as informa��es: minutos antes do hora marcada secretamente para o in�cio do ataque, o ex�rcito russo desencadeou uma barragem infernal de artilharia, mostrando que sabia tudo sobre os planos nazis, para j� n�o falar nas fortifica��es preparadas arduamente durante semanas, incluindo vastos campos de minas que, apesar da efic�cia nocturna dos sapadores alem�es, foram um cemit�rio para os tigres. Em quarto lugar por que os russos tinham entretanto aprendido t�cticas de combate t�o boas como as dos alem�es (e que por sua vez eram incomparavelmente melhores que as de ingleses e americanos).
A primeira import�ncia de Kursk foi a de ser a primeira batalha frontal em que, em pleno Ver�o, quando os tanques se n�o enterravam e os avi�es tinham boa visibilidade, os ex�rcitos mecanizados nazis tiveram tantas baixas como o seu inimigo. Com uma diferen�a: enquanto os russos eram j� capazes de substituir as m�quinas e os homens perdidos em poucos meses, as perdas alem�s eram praticamente irrecuper�veis.
A segunda e maior import�ncia de Kursk foi a de ter tornado claro para todo o mundo que a efic�cia militar de choque nazi fora superada. Foi certamente por isso que foi a partir de Kursk, no Ver�o de 43, que a resist�ncia clandestina nos territ�rios ocupados ganhou outro f�lego e alguns colaboracionistas come�aram a mudar de campo, como Miterrand. Infelizmente foi tamb�m a partir de Kursk que a paran�ia nazi descambou de todo, atribuindo aos judeus a culpa dos males sofridos e que eles pr�prios tinham provocado, e que a matan�a dos mesmos entrou no desenfreamenteo total.
N�o creio que a ofensiva de Kursk tenha sido parada por Hitler por que os aliados amea�avam a It�lia. Creio que foi ao contr�rio: os aliados resolveram finalmente atacar a s�rio a Ocidente por que em Kursk ficou claro que R�ssia ganhara a guerra. At� por que em It�lia os aliados negociaram com os italianos a sua mudan�a de campo e estes n�o ofereceram resist�ncia. Teriam de vir a ser os p�raquedistas alem�es a deter a ofensiva aliada em Monte Cassino, meses depois, j� bastante perto de Roma...
Significa isto que a guerra aliada na frente ocidental n�o teve m�rito? Teve, claro. Mas muito mais por ter impedido o comunismo de ocupar o Ocidente do que por ter derrotado os alem�es!...

(Pinto de S�)
 


INTEND�NCIA

Para que seja poss�vel um ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (5� s�rie), textos mais curtos por favor.
 


O C�O, O DIA DO C�O E O DIA DE TODOS OS ANIMAIS, INCLUINDO O TOURO



H� coisas que n�o se percebem. Por que raz�o o Grupo Parlamentar do PSD se exp�e ao rid�culo com esta hist�ria do "dia do c�o"? � verdade que a maneira como tratamos os animais � um elemento de civiliza��o, como os ingleses perceberam h� muito. Mas � imposs�vel falar de um tratamento "humano" dos animais em Portugal sem nos lembrarmos do touro e das touradas e, sobre isso, presumo que o Grupo Parlamentar do PSD n�o queira dizer nada, agora que o Campo Pequeno reabriu e o marialvismo toureiro tem foros de jet set e de tempo nobre na televis�o. N�o h� coisas mais importantes para fazer?

*
Estava ainda sonolenta quando ouvi hoje de manh�, julgando estar a sonhar, o r�dio despertador despejar que um qualquer senhor a quem pago para fazer estas coisas (!) propor que se celebrasse um dia do c�o.
Incredulidade seria uma palavra demasiado forte para descrever o que fui sentindo. Acho que j� nem tenho for�a para tanto - apenas um encolher de ombros e as palavras pensadas de que "andamos aqui a levantarmo-nos �s 7 da manh� para trabalhar e um gajo armado ao engra�adinho vem insultar-nos com coisas destas".
� um insulto �s pessoas, mesmo as que como eu gostam muito de c�es, mas n�o t�m espa�o, nem tempo (apenas obt�veis por dinheiro) para ter um, que um deputado tenho gasto sequer uma hora do seu tempo (que muito me custou a ganhar, sim porque somos n�s que lhes pagamos) a congeminar uma treta destas!

(Maria Baldinho)

*

DOG, n.
A kind of additional or subsidiary Deity designed to catch the overflow and surplus of the world's worship. This Divine Being in some of his smaller and silkier incarnations takes, in the affection of Woman, the place to which there is no human male aspirant. The Dog is a survival -- an anachronism. He toils not, neither does he spin, yet Solomon in all his glory never lay upon a door-mat all day long, sun-soaked and fly-fed and fat, while his master worked for the means wherewith to purchase the idle wag of the Solomonic tail, seasoned with a look of tolerant recognition.

The Devil's Dictionary - Ambrose Bierce

(Jo�o Costa)

 


EARLY MORNING BLOGS 786

Navigating in the Dark


Papua, Indonesia

In this mining town in Papua the electricity
Has a habit of giving up at night, and this

Is a miracle of modern stasis, a secular Shabbat,
Reminding us of what is expendable, of how so few

Of us ever truly experience the dark. We are amazed,
My wife and I, with the heavy darkness

Of the no moon jungle, insect sounds lacerating
All illusions of silent places. �It�s so absolute,�

My wife says, and I like to think she means
More than the darkness; the naked places

Of ourselves we dress in sunlight, lamps,
And recorded music like antithetical

Blanche DeBois�s fearing a different sort
Of scrutiny. �We could pretend it�s 1940,�

I say, �put a Jack Benny tape on the short wave
And drink coffee, light candles.� She suggests

A walk outside instead, where there are dozens
Of others already out on paths bounded by jungle,

Stepping small and laughing loudly through various
Uncertainties; flashlights as eyes, ears like animals�.

Soon we are trying only to remember not to disappear
Altogether; everything is so absolutely, so darkly possible.


(Erik Campbell)

*

Bom dia!
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (4� s�rie)



E, no entanto, a Ministra tem raz�o! Concursos para quatro anos,avalia��o dos professores, congelamento da progress�o autom�tica na carreira,substitui��o dos professores em falta, maior envolvimento dos pais e associa��es locais,s� como exemplo, s�o medidas sensatas que os professores deveriam analisar com isen��o, em vez de declararem guerra dia sim, dia n�o!

O n�vel,deplor�vel, do conhecimento dos nossos jovens, n�o � raz�o suficiente para que os nossos professores tenham um bocadinho mais de humildade?

Numa m� educa��o,o culpado � sempre o educador! Somos todos? Seja! mas ent�o juntemos esfor�os para vencer esta batalha, que � decisiva para o nosso futuro!

(Luis Moreira)

*

Aqui deixo a minha opini�o sobre alguns dos pontos da proposta que considero mais pertinentes:

O artigo 22� da proposta enuncia os requisitos gerais e espec�ficos para a doc�ncia, de entre os quais aparece como grande novidade a obriga��o do candidato, depois de frequentar a institui��o de ensino superior que lhe concede a qualifica��o profissional, realizar uma prova nacional de avalia��o de conhecimentos e compet�ncias, assente numa prova escrita e numa entrevista, a determinar em futura portaria.

Ora, n�o tendo nada contra a realiza��o pelo candidato a docente da referida prova nacional, uma vez que a mesma ir� determinar, porventura, uma eleva��o do n�vel de exig�ncia dos futuros professores, n�o � menos verdade que a mesma determina um acto de desresponsabiliza��o ou, pelo menos, de desconfian�a perante o papel das institui��es de ensino superior na forma��o de docentes. De facto, se se quer que os futuros professores fa�am uma prova extra-licenciatura, ent�o h� que assumir que o problema poder� estar, sobretudo, na falta de confian�a que o ME demonstra pelo desempenho e capacidade das universidades e das ESE`s em formar docentes. Assim, n�o seria melhor, para al�m da referida prova, assumir uma pol�tica s�ria e rigorosa de avalia��o do desempenho das universidades e das ESE`s na forma��o dos seus alunos? � que, com o financiamento destas institui��es a ser determinado pelo n�mero de alunos que t�m, o normal ser� que as mesmas queiram "fabricar" licenciados a todo e qualquer custo...

Em rela��o �s duas categorias de docentes que a proposta veicula (professor e professor titular), como vem no artigo 34�, embora a inten��o ministerial possa ser a de melhorar a organiza��o e metodologias de trabalho a desenvolver por cada um dos departamentos da escola e outros �rg�os da escola, n�o tenhamos d�vidas que a mesma poder�, infelizmente, aumentar as desigualdades e conflitos entre docentes, at� porque falamos de "fun��es diferenciadas pela sua natureza, �mbito, grau de responsabilidade e n�vel remunerat�rio". Digo conflitos porque, na minha modesta opini�o, a idade, nesta profiss�o, n�o constitui um factor exacto de maior empenho, capacidade ou responsabilidade. Bem sei que n�o fica nada bem, no politicamente correcto deste pa�s, termos algu�m de 30 anos com um cargo "superior" ao de um seu colega de trabalho de 50 anos de idade, mas, por exemplo, quem me diz que um professor com dez anos de servi�o, mas com um curso de mestrado em organiza��o escolar, n�o poder� desempenhar melhor o cargo de coordenador de departamento do que um docente com 25 anos de carreira, contrariado, sem vontade de ocupar o dito cargo e que n�o investiu nada na melhoria da sua forma��o acad�mica?

A minha proposta seria a de fomentar a democracia na escola. Todos os docentes de cada departamento teriam uma palavra a dizer sobre a melhor pessoa a indicar para ocupar o cargo de coordenador de departamento, baseando-se tal escolha n�o na idade, mas sim na compet�ncia, tomando-se a mesma estrat�gia para todos os outros cargos da escola...

Outra quest�o pertinente que ressalta da proposta do ME � a do artigo 36�, no seu n�mero 2. Quem se der ao trabalho de ler todas as compet�ncias que o ME remete para a profiss�o docente, certamente n�o estranhar� que o que o ME quer � que o professor seja muito mais do que um formador: h� que ser orientador, psic�logo, animador, confindente, organizador de papelada, gestor, e professor claro, enfim, temos que ser homens e mulheres dos sete instrumentos... S�o mais de vinte deveres que o ME nos imp�e a cumprir!!!

Sobre a possibilidade dos pais intervirem na avalia��o dos professores, apenas deixo duas quest�es: a concess�o de direitos aos pais n�o impede que se descurem os deveres, pois n�o? Ent�o porque s� se fala dos direitos e se esquecem os deveres a que os pais est�o obrigados em termos de responsabiliza��o pelos actos dos seus filhos?

(Pedro Peixoto)

*

Algumas quest�es sobre a revis�o do Estatuto da Carreira Docente

Natureza e estrutura da carreira docente
N�o se compreende a necessidade de hierarquizar em duas carreiras quando os professores, sejam desta ou daquela categoria, t�m o mesmo tipo de alunos. O m�rito pode ser reconhecido na mesma carreira atrav�s da avalia��o e de incentivos.

Conte�do funcional
� estranho que, de um momento para outro, professores que s�o h� muitos anos coordenadores de departamento, orientadores pedag�gicos etc., passem por via administrativa a serem professores de uma carreira considerada inferior e impedidos de continuarem a exercer essas fun��es e substitu�dos por outros que por raz�es diversas n�o o fizeram at� agora. V�o sentir-se penalizados pelo trabalho que fizeram e discriminados por terem feito actividades que a l�gica do m�rito deveria promover. Em muitas escolas pode criar-se um vazio, sobretudo nas escolas mais afastadas dos centros urbanos, no interior sobretudo, agravando tamb�m a discrimina��o geogr�fica e social dos alunos desses meios.

Acesso � carreira de professor titular
Professor titular apenas com 18 anos de servi�o? Afinal o m�rito � fruto do trabalho, do conhecimento ou da idade?
Transi��o da carreira docente Na transi��o da carreira docente os professores dos actuais 9� e 10� escal�o passam a ser equiparados a professores titulares para efeitos funcionais e remunerat�rios, exceptuando a aplica��o das correspondentes regras de progress�o e o exerc�cio dos cargos de coordena��o cient�fico-pedag�gica que estejam especialmente cometidos �quela categoria. Significa isso que no dia 1 de Janeiro de 2007 n�o existem, por exemplo, coordenadores de departamento habilitados? Como funcionar�o os Conselhos Pedag�gicos?

A dimens�o �tica A dimens�o �tica necessita de ser definida sob o risco de se resvalar para a identifica��o simplista de comportamentos aprovados ou reprov�veis, de acordo com um padr�o m�dio eivado de preconceitos, pondo em causa a liberdade de ensinar. Ali�s, a insist�ncia nos processos em detrimento dos resultados pode p�r em causa a diversidade de m�todos e levar a algum puritanismo e � arrog�ncia da forma ��nica� de ensinar e aprender, o que pode ter como consequ�ncia a utiliza��o de f�rmulas e receitas que n�o suscitem cr�ticas e, portanto, acr�ticas e estandardizadas.

Autonomia t�cnica e funcional
A autonomia t�cnica e funcional � posta em causa atrav�s da avalia��o dos professores por pessoas que n�o t�m conhecimentos cient�ficos e t�cnicos. Pode correr-se o risco de haver professores que actuem apenas de acordo com a opini�o p�blica ou da minoria de pais que interv�m nas escolas e nos meios de comunica��o social e, por outro lado, promover a confus�o entre os professores que mant�m boas pr�ticas levando-os a �funcionalizar� a profiss�o de acordo com as modas, em detrimento do esp�rito cr�tico, do aprofundar de conhecimentos e da inova��o

Avalia��o por professores do Ensino Superior
Na avalia��o dos docentes por outros docentes do ensino superior tem que ser assegurado que os avaliadores sejam da mesma �rea, que conhe�am o ambiente das escolas e os programas e que tenham habilita��es superiores na mesma �rea. Poder-se-� correr o risco de, e dada a autonomia destas institui��es, por exemplo, um professor de F�sica ser avaliado por um docente de um departamento de Pedagogia com a forma��o de base em Sociologia ou de ter at� menos habilita��es. Sublinhe-se que na carreira docente das ESEs e Institutos Polit�cnicos n�o era exigido o doutoramento e continuam a existir assistentes licenciados. Por outro lado, uma cr�tica recorrente ao ensino superior � o facto de os professores n�o serem avaliados pela sua qualidade pedag�gica. Corre-se tamb�m o risco de os avaliadores proporem um modelo de professor que tem uma linguagem cient�fica correcta mas que menoriza a aprendizagem dos alunos (veja-se tamb�m as causas do abandono escolar no ensino superior). Ser� leg�timo algu�m avaliar aulas quando nunca passou pela experi�ncia de ser avaliado nas aulas?

Avalia��o pelo coordenador de Departamento e direc��o executiva.

No processo de avalia��o fica o �nus, na pr�tica, essencialmente no coordenador de departamento. A avalia��o seria mais independente se fossem tamb�m chamados outros professores (at� de outras escolas).

Avalia��o pela Inspec��o
A avalia��o dos docentes que exercem as fun��es de coordenador de departamento ou do conselho de docentes efectuada pelos inspectores ter� que ter a garantia que os mesmos inspectores estejam familiarizados com os ambientes das aulas e a pr�tica de assist�ncia �s aulas, o que n�o tem acontecido at� agora. Infelizmente, por raz�es diversas, entre as quais a sempre referida falta de meios, a inspec��o conhece melhor as escolas atrav�s de processos burocr�ticos do que pelo conhecimento da realidade das turmas concretas onde os professores trabalham. Al�m disso haveria que garantir que tivessem mais habilita��es que os professores que v�o avaliar.

Sistema de classifica��o e percentagens m�ximas As classifica��es nunca deveriam depender de percentagens. A Lei de Bases � clara quando refere o primado do pedag�gico sobre o administrativo. Uma coisa � admitir n�o haver condi��es financeiras para todos os professores qualific�veis de muito bom ou excelente progredirem de determinada maneira, outra � o m�rito da classifica��o. A consequ�ncia directa � a desigualdade de classifica��es para o mesmo tipo de trabalho em diferentes escolas. Pode tamb�m assim promover-se a mediania em detrimento da qualidade.

Itens de classifica��o: abandono escolar e resultados escolares

A quest�o do abandono escolar na pondera��o da classifica��o dos professores tem que ser objecto de reflex�o em diversas situa��es que n�o s�o control�veis pelas escolas. Por exemplo, verifica-se no 10� ano que muitos alunos se matriculam nos cursos que visam o ingresso no ensino superior e que pouco tempo depois �abandonam� para frequentarem cursos profissionais.
Os resultados escolares dependem do percurso anterior que, at� por via administrativa, coarctou possibilidades de aprendizagens em determinadas disciplinas. Veja-se o caso de Hist�ria, onde no 3� ciclo, de um programa previsto para tr�s aulas semanais nos tr�s anos, se passou em muitas escolas para uma aula de 90 minutos no s�timo e nono ano e uma aula de 90 minutos mais uma de 45 minutos no oitavo ano. A perda de cerca de 100 horas num ciclo n�o p�de permitir o desenvolvimento de compet�ncias e conhecimentos o que vai ter repercuss�es no ensino secund�rio. O que far� o professor? Recupera o tempo perdido e n�o cumpre a totalidade do programa prescrito ou descura a qualidade e � penalizado de uma maneira ou de outra?
Os curricula e as frequentes altera��es a estes tamb�m n�o ajudam. Cite-se o caso do ensino secund�rio em que os alunos continuam com hor�rios extensos e programas que pretendem abarcar tudo, como se fossem mini-licenciaturas. Nos programas privilegiam-se as compet�ncias e nos exames exigem-se todos os conte�dos. Uma das consequ�ncias tem sido, nas aulas, nas disciplinas sujeitas a exame, privilegiar-se o ensino magistral de muitos conte�dos, frequentemente ensinados superficialmente por falta de tempo, em detrimento dos conte�dos e compet�ncias essenciais que deveriam ser mais aprofundados. Veja-se ali�s, exemplos de compet�ncias exigidas:

??Percepcionar no meio social, no seu sentido mais vasto, mediante a focagem globalizadora espec�fica da Hist�ria; ??Relacionar e integrar informa��es de origem diversa num corpo estruturado de conhecimentos, moldando a sua pr�pria percep��o da Hist�ria, por via de uma aprendizagem significativa. (programa de Hist�ria C do ensino secund�rio).

Ac��es de forma��o
As ac��es de forma��o com �estreita liga��o � mat�ria curricular que lecciona� podem fazer perigar a abertura a outros conhecimentos. Ser� in�til um professor de Biologia ter uma ac��o de forma��o em ingl�s, o que lhe pode permitir participar no programa S�crates? N�o seria interessante um professor de Hist�ria ter algumas no��es de F�sica Qu�ntica que poderia aproveitar para melhor levar os alunos a compreender as inova��es da ci�ncia no s�culo XX?

Dispensas para forma��o

As dispensas para forma��o s� podem ser concedidas na componente n�o lectiva do hor�rio do docente. Como poder�o os professores das escolas do interior fazer forma��o noutros locais que podem ficar a centenas de quil�metros: no Natal, na P�scoa, em Agosto?

(Jo�o Simas, Professor de Hist�ria do Ensino Secund�rio na Escola Secund�ria de Severim de Faria em �vora)

*

Portugal conta, actualmente, com um n�mero elevad�ssimo de maus professores, parece ningu�m ter d�vidas a este respeito, gra�as a Deus que temos bons psic�logos, bons pol�ticos, bons governantes, uma boa ministra da educa��o e bons teorizadores das ci�ncias de Educa��o, que seria do pa�s se assim n�o fosse!

E, claro est�, ali�s, de outra forma n�o poderia ser, assim foi sempre, c� est�o os bons a resolver o problema dos maus. Para isso muito se t�m esfor�ado os bons a ensinar os maus, vejamos: os pol�ticos d�o-nos exemplos brilhantes de virtudes, como, a humildade, a honestidade, a assiduidade, a pontualidade, enfim, o trabalho acima de tudo (mesmo que o tudo seja um jogo de futebol); os psic�logos resolvem-nos os problemas de indisciplina nas escolas, afinal t�o simples, basta tirar as crian�as aos pais biol�gicos, como � que nunca nenhum professor tinha pensado nisto!; os governantes s�o modelos de verdade, imparcialidade, defensores dos desfavorecidos, tudo fazem pela integra��o social e pela defesa dos direitos humanos, o combate � viol�ncia dom�stica, que afecta, na maior parte dos casos, as mulheres, � um bom exemplo da preocupa��o do governo, mas, note-se, apenas a dom�stica, porque a mesma mulher, pode estar sujeita a todos os tipos de viol�ncia, caso seja professora; quanto � ministra, inigual�vel, tem-nos ensinado o que � a dignidade, o respeito pela profiss�o, vai, at�, ao ponto de nos dar exemplos, para que possamos compreender bem a li��o, veja-se, a exemplo, a compara��o entre a doc�ncia e a medicina, digno, muito digno! E as ci�ncias da educa��o, o que elas nos t�m ensinado, veja-se, uma vez mais, a exemplo, a quest�o da avalia��o, andam os professores uma vida inteira a aprender a usar instrumentos e mecanismos de avalia��o, tais como, grelhas de auto e hetero-avalia��o, fichas de avalia��o diagn�stica, de avalia��o formativa, de avalia��o sumativa, observa��o directa das aptid�es a todos os n�veis, das compet�ncias, do empenho, do interesse, da participa��o, do esp�rito cr�tico, da iniciativa, da responsabilidade, dos trabalhos realizados, das atitudes e valores�, e, tudo isto, para qu� se agora se verifica que, afinal, uma simples ficha sem qualquer tipo de observa��o, directa ou indirecta, permite aos pais uma avalia��o criteriosa, rigorosa, s�ria do trabalho desenvolvido por cada professor da escola.

At� hoje ainda n�o compreendi como foi poss�vel que a profiss�o existisse antes da inven��o das ci�ncias da educa��o, mas tamb�m ainda n�o compreendi e, ao que parece os teorizadores, os pol�ticos, os governantes, os psic�logos e a ministra da educa��o tamb�m n�o, como � que afinal, sendo as ditas ci�ncias respons�veis pela forma��o daqueles que, actualmente, s�o professores, os acusa de serem t�o maus e continua, insistentemente, a pol�tica seguidora dessas teorias, que talvez daqui a cem anos estejam comprovadas cientificamente, mas que actualmente est�o na base do fosso em que todo o sistema educativo mergulhou.

(G. Maria Fonseca )

*

Em primeiro lugar quero dizer que n�o sou professor. Frequentei um curso de ensino na Universidade (que abandonei a meio) e n�o me arrependo de n�o ter seguido esta profiss�o.

1� -� indiscutivel que este minist�rio trabalha contra os professores e n�o com os professores.

2� -Quando do ataque aos "previligiados" foram identificadas duas classes profissionais como os alvos a abater. Os Ju�zes e os Professores. Com os Ju�zes o Governo vem paulatinamente a "meter o rabo entre as pernas". Sobram os Professores.

3� -Concordo com a revis�o da progress�o da carreira. Um professor podia fazer uma ac��o de forma��o em Andorra e contar para a sua progress�o na carreira!!!

4� -N�o posso concordar que se afunile a progress�o apenas com fins de poupan�a de dinheiro. Queremos avaliar os professores mas definimos cotas para o n� de excelentes ou muito bons!!!!

5� -Por muito que o Senhor Secret�rio de Estado defenda a bondade da medida, a avalia��o dos professores por parte dos pais � a subvers�o do sistema. Eu tamb�m vou passar a avaliar os funcion�rios das finan�as ou o meu m�dico de fam�lia. A maioria dos pais n�o vai � Escola. Quando vai � depois de ter sido intimado para tal atrav�s de carta, telefone e, por vezes, de visitas ao domicilio por parte do director de Turma. Como pode ser feita esta avalia��o? Por quem?

6- A Sra. Ministra tem tido interven��es que no m�nimo podemos qualificar de indelicadas e n�o se convence que n�o pode estar � frente de um minist�rio tendo por base da sua ac��o desconsiderar os seus funcion�rios. Se o Ministro das Finan�as passar a dizer que os seus funcion�rios s�o incompetentes e pregui�osos, o Ministro da Sa�de fizer o mesmo em rela��o aos m�dicos e por a� fora o que faria o nosso Primeiro Ministro?

7�- Para terminar estes actos s� contribuem para minar ainda mais a autoridade do professor. Um pa�s que trata assim a Educa��o e os seus Agentes n�o tem futuro.

(Rui S�)

*

"A enorme rarefac��o de recursos escolares imperante nos quadros de socializa��o familiar da esmagadora maioria da popula��o actual pesou fortemente no perfil de literacia observado. Poder� mesmo considerar-se que, apesar de todas as responsabilidades atribu�veis ao sistema de ensino, ter� sido muito mais a escola do que a fam�lia a promover nas �ltimas d�cadas alguma melhoria dos n�veis de literacia." (Benavente**, 1996: p.144)


** BENAVENTE, Ana (coord.), ROSA, Alexandre, COSTA, Ant�nio F., �VILA, Patr�cia, "A Literacia em Portugal: Resultados de uma Pesquisa Extensiva e Monogr�fica", Funda��o Calouste Gulbenkian, 1996

(Ant�nio Carvalho)

*

Luxemburgo (minha morada permanente). Momentaneamente em Portugal

M�e de tr�s crian�as a frequentar o �ensino� p�blico portugu�s em Portugal (9� ano, 8� ano e 6� ano de escolaridade).

Sobre o estatuto da carreira docente, gostaria de deixar, � laia de exemplos (longe, muito longe de querer ser exaustiva), tr�s ou quatro quest�es sobre o ensino p�blico em Portugal.

1-Os meus tr�s filhos frequentam todos a mesma escola de ensino (C+S). Todos eles, t�m aulas de manh� e � tarde, na quase totalidade dos dias �teis, o que implica que durante quase toda a semana, n�o possam estudar as mat�rias leccionadas ( j� que a noite, � para dormir e descansar);

Conclus�o:

os meus mi�dos ( agora, �eufemisticamente�, chamados por �meninos�) n�o podem adquirir h�bitos de trabalho di�rio, porque n�o t�m tempo para estudar e adquirir ou solidificar os conhecimentos fornecidos nas aulas;

De quem � a culpa?

O estatuto da carreira docente estabelece este tipo de prioridades b�sicas sem os quais n�o se pode falar sequer, na possibilidade ainda que remota de um ensino de qualidade?

A resposta � n�o!

2-O meu filho mais velho (9� ano) � um excelente aluno. Todavia, a turma que lhe saiu em �sorte� � p�ssima, tanto no que concerne ao comportamento e � boa educa��o dos seus colegas, como no que concerne ao aproveitamento escolar.

Qual a reac��o dos professores � anomia reinante na sala de aulas? Completa demiss�o, invocando para o efeito, e sistematicamente, o argumento de que s�o professores e n�o educadores (e que a educa��o se recebe em casa) e � para dar aulas que s�o pagos.

Conclus�o:

Os professores demitem-se da sua fun��o supletiva de educadores e h� muito que se est�o pouco preocupando com a sua autoridade.

3-Um outro filho meu, com algumas culpas dele pr�prio, � perseguido por uma sua professora de desenho cujas habilita��es s�o o antigo curso de forma��o feminina, como j� foi e � perseguido pela professora de ingl�s.

Tenho meios para p�r termo a esta situa��o? Claro que n�o, pois ainda prejudicaria mais a crian�a.

Conclus�o:

No pr�ximo ano lectivo, o mi�do ter� de transitar para uma escola privada, sob pena, de somadas �s sua pr�prias defici�ncias, se sujeitar a ter de suportar a persegui��o �ad hominem� de professores ignorantes e mal-formados.

4-A minha filha tem dificuldades a matem�tica, embora seja uma excelente aluna �s restantes disciplinas.

Conclus�o:

A mi�da n�o � est�pida, a mi�da � trabalhadora. Falha qualquer coisa, e � bom de ver o qu� que falha.

5-Os meus filhos estudam m�sica ( e t�m particular talento) no ensino articulado. Apesar disso, pago cerca de 200 euros mensais na forma��o musical da garotada. O custo total das despesas com a forma��o dos meus filhos ronda os 500 euros mensais (j� que t�m de andar em li��es particulares de ingl�s e matem�tica).

Para o pr�ximo ano lectivo, na impossibilidade imediata de lev�-los este ano comigo para um pa�s civilizado, vou inscreve-los numa escola privada, onde nada disto acontece ( as aulas s� ocupam um parte do dia, n�o h� anomia nas salas de aula, o meu filho do meio n�o ser� perseguido por nenhum professor).

Tudo somado, vou ter de arranjar um or�amento mensal de 800 euros s� para a educa��o formal dos garotos.

5-O Estado vai ressarcir os meus filhos pelos preju�zos brutais j� sofridos e que o sistema p�blico de ensino j� lhes causou, simplesmente porque s�o filhos de metecos?

Solu��o que eu proporia:

-Privatiza��o do ensino; entregar as escolas aos professores, que seriam delas propriet�rios;

-Publica��o anual dos �rankings� das escolas, segundo crit�rios antecipada e publicamente conhecidos;

-Institucionaliza��o do cheque �voucher�

Num pa�s como Portugal, onde os h�bitos s�o t�o maus, n�o h� outra solu��o s�ria.

(Maria Teresa Carvalho)

*

Estou espantado com estes professores que s� se queixam. Porque motivo n�o contam toda a verdade:

- quantos dias leccionam por ano?

- quanto ganham por m�s?

- as regalias principescas que possuem?

- as mordomias que possuem e que s�o bastantes???

- as f�rias que possuem ao longo do ano??

- o vencimento mais elevado da UE!!!!

Se est� t�o mau podem sempre mudar de carreira e fazer outra coisa.

(Rui Henriques)

*

Nesta quest�o do novo estatuto da carreira docente, onde n�o se coloca em causa todo o sistema de ensino que tem vindo a ser implementado ao longo das �ltimas d�cadas, penso que seria interessante analisar o paralelismo com a situa��o vivida em Fran�a, despoletada h� j� algum tempo e pela interven��o de um matem�tico mundialmente famoso, Laurent Lafforgue, quando foi convidado a fazer parte da Alta comiss�o para a Educa��o nacional. Na altura ele respondeu ao presidente da dita comiss�o por e-mail, que inadvertidamente, ou n�o, foi tornado p�blico e que o levou a demitir-se (Laurent Lafforgue). O texto integral deste e-mail encontra-se aqui do qual se transcreve este pequeno texto:

Monsieur le Pr�sident du HCE,

Je vous remercie de votre message ci-dessous qui nous donne
l'ordre du jour de la prochaine r�union.
Je ne peux m'emp�cher de r�agir sur certains points
qui me plongent dans le d�sespoir.
Le principal est le suivant:

> - appel aux experts de l'Education nationale : Inspections
> g�n�rales et directions de l'administration centrale, en particulier
> direction de l'�valuation et de la
> prospective et direction de l'enseignement scolaire,

Pour moi, c'est exactement comme si nous �tions un "Haut Conseil
des Droits de l'Homme" et si nous envisagions de faire appel
aux Khmers rouges pour constituer un groupe d'experts
pour la promotion des Droits Humains.

Penso que vale bem a pena ler e analisar este e outros textos deste senhor sobre educa��o.

(Vitor Augusto)

*

Tendo acompanhado aqui a discuss�o sobre o estatuto dos professores, venho dar uma achega a t�tulo de cidad�o eleitor e contribuinte, ex-estudante, pai duma estudante do 8� ano, nunca tendo sido professor, nem ter perspectivas de alguma vez o ser:

Uma das medidas anunciadas foi a dos pais fazerem a avalia��o dos professores dos respectivos filhos. H� quem compare a medida com o que j� se passa em todos os sectores: o utente/consumidor manifesta-se sobre a qualidade dos servi�os/produtos. Mas ser� assim? Bem, se eu fosse professor passaria a exigir uma avalia��o pr�via dos alunos no in�cio do ano e negociar com os pais, escola, minist�rio, sei l�, os objectivos a atingir aluno a aluno. Por outro lado, quantos pais aceitar�o que chumbar o filho possa ser a melhor coisa que o mo�o/a ganhou aquele ano (a hip�tese de recome�ar e melhorar o seu desempenho, em vez da fuga em frente e depois se v�)? Ora, estas quest�es passam mais pelos respons�veis da gest�o da escola, na verdade, pelo pr�prio minist�rio.

Na escola da minha filha, em reuni�o dos pais com o director de turma, j� nos aconteceu pronunciar sobre o desempenho de determinados professores, de modo verbal e dando ao director a oportunidade de falar com o professor em causa, sempre com bons resultados. J� assisti a reac��es exaltadas, mas o di�logo entre os pais e o director tem estabelecido consensos no sentido de tentar melhorar o que pode ser corrigido. A avalia��o que n�o se fala, mas que nessas reuni�es vem sempre � baila, s�o sobre os recursos da escola para fazer mais e melhor: instala��es desportivas, salas de aula, seguran�a, apoio diverso, etc. Pessoalmente, entendo que h� alunos a mais por turma, vejo que os professores t�m pouco tempo, pouco est�mulo e pouco apoio, para se prepararem, se empenharem a fazer algo de diferente (e melhor, claro).

Se calhar os pais podem fazer mais pela Escola (podem, certamente), e se calhar isso passaria por um envolvimento da autarquia (n�o tenho qualquer d�vida, na verdade). O que n�o aceito � ver as quest�es essenciais, que s�o pol�ticas e da responsabilidade do minist�rio, serem embrulhadas numa estrat�gia em que os professores s�o postos no pelourinho (� t�o f�cil apontar o dedo ao funcion�rio).

(Pedro Freire de Almeida)

1.6.06
 


INTEND�NCIA

Em breve h� mais O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (4� s�rie).
 


MAL-AMADOS



Jack Welsh, descrito na imprensa portuguesa como "um dos gestores mais admirados em todo o mundo" n�o esteve com meias medidas e, numa confer�ncia em que participou, exprimiu o seu espanto pelo facto de os portugueses n�o se mostrarem "envergonhados" pela maneira como s�o vistos no estrangeiro. E disse mais: "� humilhante para os portugueses a percep��o que o exterior tem de Portugal, que � a de uma cont�nua degrada��o e decl�nio ao longo dos �ltimos anos."

Welsh fez bem em diz�-lo e fazia-nos bem ouvir mais verdades como esta para substituirmos a nossa balofa e inconsequente auto-estima pela percep��o de que a realidade n�o � propriamente um espelho do nosso excesso identit�rio. Como vivemos no mundo das ilus�es, n�o queremos saber por que � que homens como Welsh, que n�o precisava sequer de se dar ao trabalho e � incomodidade de dizerem coisas feias sobre os seus anfitri�es, s�o capazes de sentir por n�s a "vergonha" que n�s n�o temos. Basta ler os coment�rios indignados a estas declara��es para ver como a "arrog�ncia do estrangeiro" nos serve para esconjurar o que n�o queremos ver e desresponsabilizarmo-nos do que fazemos e n�o fazemos.

� particularmente �til sermos confrontados com a nossa imagem vista de "fora", quando mais uma vez nos entregamos � tarefa permanente de nos iludirmos com o futebol. A futebol�ndia est� a assumir o papel de nossa "p�tria", quando n�o conseguimos fazer melhor a que temos. Talvez por isso lidamos bem e contentamo-nos com o que dura pouco e n�o d� muito trabalho, fadados para bater os recordes do Guinness, se isso implicar n�mero, festa, um pouco de idiotice e muitos autocarros pagos pelos nossos impostos. Encher as ruas de Pais Natais e os est�dios de senhoras coloridas, isso somos capazes de fazer. Ser exigentes e abandonar a nossa consabida "displic�ncia", que E�a retratou como ningu�m em Fradique, isso n�o nos leva a colocar bandeirinhas nas janelas.

Mas nem o futebol apaga de todo o choque que as imagens de Timor fazem � nossa id�lica vis�o do "mundo feito pelos portugueses", outro reposit�rio da nossa permanente procura de auto-estima na ignor�ncia e na facilidade. � uma velha ilus�o p�s-colonial que temos por todo o lado, a de acharmos que os povos por onde n�s passamos, muitas vezes de forma completamente epis�dica, nos estimam de forma muito especial. A realidade encarrega-se de nos desiludir, mas n�s queremos pouco saber da realidade.

Os brasileiros discutem seriamente se n�o teria sido melhor terem sido colonizados pelos holandeses e alguns maldizem o dia em que a Holanda perdeu o Brasil para o reino de Portugal. Reagem pavlovianamente a qualquer up-grade da nossa presen�a, seja nos dicion�rios e na ortografia, seja na literatura, seja nos neg�cios, seja na pol�tica. A maioria dos portugueses nem sequer sabe, nem ningu�m lhes diz, que muitos "irm�os" brasileiros nutrem tais sentimentos familiares.

Em Angola damo-nos bem com os governantes, convencidos que nos damos bem com o povo. Mas estes tratam-nos com arrog�ncia em todos os momentos em que n�o nos portamos bem e esquecemos que somos tolerados apenas enquanto formos serventu�rios de um dos poderes mais corruptos de �frica. A eleg�ncia europeia da fam�lia "Dos Santos" pode partilhar os sal�es com muitos empres�rios portugueses, mas o que flui entre eles � o dinheiro dos neg�cios, n�o � respeito nem considera��o. Qualquer m�nima tergiversa��o no c�digo de conduta da omert� luso-angolana d� logo origem a editoriais do Jornal de Angola e admoesta��es aos "tugas".

Na Guin�-Bissau, nem vale a pena pensar, porque se tornou inabit�vel. � talvez a �nica parte do imp�rio que pensamos que perdeu as cores verde-rubras e voltou a dissolver-se no negro de �frica, na �frica n�o recomend�vel em que n�o entramos. Nunca pensamos Angola e Mo�ambique s� como �frica, mas a Guin� � �frica de vez, ou seja, �-nos indiferente.

O que � que sobra? De S�o Tom� sabemos pouco, mas pensamos que talvez pudesse ter sido um Dom-Tom portugu�s [ex-col�nia francesa com estatuto especial na UE] que deixamos escapar � sorte de ter entrado na Uni�o Europeia e, como na Ilha da Reuni�o, de ter vacas pagas pela Pol�tica Agr�cola Comum e as ro�as a funcionar. Temos a vaga nostalgia de que, se n�o fosse o PREC, S�o Tom�, como ali�s Cabo Verde, poderiam ter continuado "nossos", com um governador benigno, dinheiros comunit�rios e apenas com uma agita��o residual e irrelevante de alguns independentistas a quem a democracia do 25 de Abril permitiria um partido e um jornal local em crioulo.

Macau, esse, n�s esquecemos depressa. Ficou chin�s com imensa velocidade e s� existe entre n�s como mem�ria da "�rvore das patacas", com a m� fama de ter sido o local de perdi��o dos socialistas que o governaram nos anos do fim. Foi-se o ex�tico, fica Camilo Pessanha, mas o quem � que coleccionaria cromos com o bizarro Pessanha, quando temos os sub-21 e os supra-21?

Resta Timor, a �ltima e hoje a maior das nossas ilus�es p�s-coloniais, que desaba nos ecr�s de televis�o, quando vemos os bandos de "jovens" destruindo os escassos bens do seu pa�s e somos obrigados a chamar-lhes n�o indon�sios, nem milicianos a soldo dos indon�sios, mas sim timorenses. O pa�s que os portugueses acham que tornaram independente com as manifesta��es silenciosas de Lisboa, a quem os jornalistas passaram a chamar Timor Lorosae para que na palavra os seus mitos se fizessem realidades, e sobre o qual alimentamos o absurdo transversal, � esquerda e � direita, que os timorenses querem ser portugueses, conhece um golpe de Estado (que tamb�m n�o queremos ver), associado a viol�ncias t�picas de "Estado falhado", que o tornaram ainda mais pobre e esquecido.

Ficamos mal amados, mal lembrados, pouco estimados no mundo e Welsh lembra-nos com crueldade que ainda estamos pior, que estamos num caminho descendente. Lembr�-lo � negativismo dos intelectuais, tra�o t�pico desde os "Vencidos da Vida" das nossas elites ou outro defeito qualquer que fa�a parte do problema e n�o da solu��o? Talvez. Tamb�m. Mas n�o s�. E n�o deixo de pensar que mais vale uma boa dose de realidade, cruel que seja, do que a ilus�o das bandeirinhas, que ao fim do primeiro jogo, ao fim de uma qualquer derrota no relvado, se transforma em azedume, zanga e justifica��o de impot�ncia para nada se fazer.

(No P�blico de hoje.)
 


BIBLIOFILIA: MAIS CURIOSIDADES DA FEIRA DO LIVRO



Est� � venda num dos alfarrabistas da Feira uma colec��o de Militaria, oriunda de uma biblioteca da Escola Pr�tica de Infantaria. Como l� chegou n�o sei. Entre os livros e folhetos dessa biblioteca que comprei encontra-se um estudo de um capit�o do Estado-Maior franc�s, M. R. de Verneuil, �tude Historique et Militaire sur le Passage du Rhone et des Alpes par Annibal, de 1873. O detalhe acima faz parte de um mapa do op�sculo.



Comprei tamb�m uma edi��o "rom�ntica" do Quo Vadis de 1900, presumo que a primeira, com uma capa a condizer e uma "edi��o fora do mercado" de um dos mais activos propagandistas do regime salazarista, Dutra Faria, com uma confer�ncia proferida em Set�bal em 1935. A confer�ncia come�a assim:
"A mocidade portuguesa n�o deve permitir que falem em seu nome aqueles que n�o lhe pertencem. Mas permite.
A mocidade portuguesa n�o deve consentir que se valorisem � custa da sua for�a, que se imponham atrav�s do seu prest�gio, aqueles que a traiem. Mas consente.
Porqu�?
Porque a mocidade portuguesa ainda n�o compreendeu o sentido da palavra UNIDADE".
A mocidade portuguesa divide-se ainda em duas mocidades: a mocidade que presta culto a um deus chamado Marx e, a mocidade que presta culto, directa ou indirectamente , a outro deus, chamado Maurras."
Onde � que a mocidade tinha triunfado contra todos os deuses? Na Alemanha, "onde a voz de Adolfo Hitler � a sua voz", na It�lia, "onde a voz de Mussolini � a sua voz", e ... na R�ssia, onde matam os velhos. Em 1936, foi criada a Mocidade Portuguesa. Conv�m n�o esquecer estes textos quando se fala do regime salazarista.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (3� s�rie)




O n�mero de contribui��es para este debate � muito grande, como se compreende pelo seu interesse e actualidade. Tento publicar tudo o que me parece significativo, mesmo que contradit�rio entre si, mas pedia brevidade aos leitores que est�o a fazer o Abrupto.

Mesmo que apare�am com iniciais, todas as contribui��es est�o identificadas.

*

A INVAS�O DAS CI�NCIAS ALHEIAS (ou o novo ECD)

Da proposta de novo ECD, pode ler-se:

CARREIRA:
- Duas categorias: professor titular e professor (novo: actualmente s� h� uma categoria)
- O professor titular desempenha todas as fun��es atribu�das ao professor, mais as fun��es de coordena��o e supervis�o de outros docentes, direc��o de escola e direc��o de centro de forma��o
- Para chegar a professor titular ser� necess�rio presta��o de prova p�blica de discuss�o e an�lise curricular; � necess�rio pelo menos 18 anos de lecciona��o com avalia��o positiva
- Seis escal�es (tr�s em cada categoria: actualmente h� 10 escal�es)
- A dura��o dos escal�es depende da avalia��o do desempenho, em regra seis anos (actualmente os escal�es podem durar 3, 4, 5 ou 6 anos)
- Progress�o horizontal, dependente de presta��o de seis anos de servi�o, atribui��o de Bom, Muito Bom ou Excelente na avalia��o anual de desempenho, frequ�ncia de ac��es de forma��o cont�nua
- Os que n�o obtiverem Bom n�o progridem na carreira
(1) Os que tiverem Muito Bom ou obtiverem um grau de Doutor na �rea das Ci�ncias da Educa��o ou na �rea cient�fica da qual s�o professores podem ter redu��o de tempo para efeitos de progress�o (1)
(2) A mudan�a para a categoria de professor titular depender� da aprova��o em provas p�blicas de avalia��o e discuss�o curricular e do trabalho desenvolvido e da avalia��o de desempenho (Excelente, Muito Bom e Bom em toda a carreira) (2)

VALORIZA��O DE DESEMPENHO (NOVO):
- Pr�mios de desempenho (percentagem da remunera��o, ainda n�o definido)
- (3) Ao fim de quatro anos com classifica��o de Excelente ou Muito Bom o docente tem direito a um pr�mio de desempenho (3)
- (4) O professor que obtenha na avalia��o de desempenho Excelente dois anos consecutivos reduz num ano o tempo de acesso ao exame para a categoria de professor titular; o que obtenha Muito Bom dois anos consecutivos, reduz em seis meses esse tempo (4)

EFEITOS DA AVALIA��O:
- (5) Excelente: progride; pode antecipar num ano a candidatura ao exame de acesso a professor titular; pr�mio de desempenho (5)
- (6) Muito Bom: progride; pode antecipar em seis meses a candidatura ao exame de acesso a professor titular; pr�mio de desempenho (6)
- Bom: progride normalmente
- Regular: n�o muda de escal�o, mas o tempo de servi�o conta para antiguidade na carreira e categoria
- Insuficiente: n�o contagem do tempo para progress�o e acesso na carreira; os contratados n�o ter�o contrato renovado; com duas qualifica��es de Insuficiente, passa ao quadro de supranumer�rios do ME (actualmente o docente s� n�o progride para o escal�o seguinte se tiver N�o Satisfaz)

COMPONENTE LECTIVA:
- 25 horas semanais para Educadores de Inf�ncia e professores do 1.� Ciclo
(7)- 22 horas semanais para professores dos 2.� e 3.� Ciclos e Secund�rio (7)
-(8) Redu��es de duas horas a partir dos 50 anos/15 de servi�o e de mais duas horas por cada cinco anos de idade/servi�o, at� ao limite de seis horas (8)

Breves notas acerca dos pontos destacados:
(1a) O mestrado pr�-Bolonha (antigo) era certamente um comprovativo de interesse, capacidade e esfor�o de actualiza��o por parte dos docentes do secund�rio. Contemplar-se o doutoramento nesta nova carreira (muito provavelmente, tornar-se-� num crivo para atingir a categoria de Professor-Titular, � abrir a porta a uma verdadeira enxurrada de doutorados (muito provavelmente, considerados de "segunda"). As escolas que oferecem PhD nestas ci�ncias ser�o naturalmente inundadas de alunos (�ptimo para elas, isto n�o � inocente) mas para protegerem o seu pr�prio recrutamento de docentes universit�rios (no futuro, necessariamente doutorados) ter�o que ter dois cursos: um PhD para a casa, e outro para "encher" e "despachar" o "pessoal do liceu". Isto � um desrespeito a ambas as classes (docentes de liceu e universit�rios) bem como �s ci�ncias.

(1b) As escolas pensamento das ci�ncias da educa��o t�m aqui (mais) uma vit�ria estrondosa. Havendo pouco mercado em termos de alunos para cursos de doc�ncia, porque o n�mero de alunos hoje nas faculdades e nos liceus diminuiu bastante, t�m aqui uma dupla forma de angariar mais alunos e de conseguirem, como recurso, injectar docentes universit�rios excedent�rios (que necessariamente surgir�o) no sistema liceal em situa��o vantajosa em rela��o aos demais. Passam a ter duas carreiras alternativas.

(1c) A designa��o Professor-Titular � manifestamente infeliz, dado que tem sido desde h� longos anos debatida a sua utiliza��o para o topo de uma carreira reformada do ensino superior polit�cnico (equiparando-a a Prof. Catedr�tico do ensino superior universit�rio).

(2). �ptimo. Deveria estender-se a outras carreiras da fun��o p�blica como magistraturas e carreiras militar e policial. A doc�ncia do ensino superior sempre contemplou variadas provas.

(3) Quatro anos ?? Quatro anos ? No privado, a que se fazem loas e se recitam hossanas, os pr�mios s�o anuais! N�o saber�o disso os ministros que j� foram, e voltar�o a ser, gestores em empresas privadas? Andar a "penar" para ter um pr�mio como se fosse em ano de jogos ol�mpicos, haja decoro.

(4). Aqui come�a o bruar da aparente dificuldade de atingir a categoria de topo. Em termos m�dios, � �bvio que � essa principal inten��o do minist�rio, limitar a massa salarial. "Sendo necess�rio, para qu� discutir se � justo?". � nisto que ca�u a actualidade pol�tica nacional.
Contudo, olhando para o caso mais favor�vel, se cada dois anos como excelente reduzem um ano no exame de admiss�o, os 18 anos, reduzem-se a 12 anos o que j� n�o � muito. Aqui manifesta-se a possibilidade de eternizar professores na categoria-base mas deixar sempre via aberta (um "fast-track") para alguns docentes chegarem rapidamente ao topo. Ser�o esses os que se doutorarem em ci�ncias da educa��o?. Assim sendo, da corrida aos doutoramentos, com as expect�veis consequ�ncias nefastas, aguarda-se simplesmente o tiro de partida.

(5 e 6). Deve haver aqui um erro, caso contr�rio, as bonifica��es de tempo acumular-se-iam com as do ponto 4.....Algo vai mal no reino do "copy-paste" assessorial???

(7). Carga hor�ria muito semelhante sen�o id�ntica �quela em vigor actualmente. Mais uma vez se comprova o crit�rio puramente economicista, uma vez que ao minist�rio, � indiferente quanto tempo os professores passam realmente na escola desde que lhes possa pagar menos, at� aceitaria uma profus�o de part-times se tal fosse aceit�vel pelos pais. Ficou o mais importante na gaveta, na linha reincidente dos an�ncios faustosos e/ou agressivos, seguidos de abjura��es e ced�ncias silenciosas, fora da imprensa. Toda a ret�rica oca de aumentar a carga lectiva dos professores e/ou o aumento da sua dedica��o in loco � escola so�obrou:
Nada se diz acerca de:
- ATL (que admito e aceito que a maior parte dos docentes n�o considere digno, mas chegou a ser usado pelo governo),
- salas de estudo acompanhado,
- explica��es oferecidas pelo estado (mas nunca h� decis�es destas por c�, o estado nunca � um verdadeiro agente de igualdade entre classes),
- clubes de leitura e ci�ncia nas escolas,
- tutoria de conjuntos de alunos.
Em tudo o que seria realmente fracturante de uma forma de ver a escola, o governo recuou...apenas pretende poupar em sal�rios.

(8) Hor�rio-m�nimo de docente com mais de 50 anos: 14 horas lectivas. Todas as aulas agrupadas em dois ou tr�s dias, sem requisito de exclusividade, sem investiga��o, sem actividade de gest�o (agora vedada na categoria inferior), o que v�o ent�o os professores fazer ...? Vide ponto 7.

(L.V.)

*

Fico-lhe para sempre grato por, tendo publicado a enumera��o exaustiva das fun��es de um docente do secund�rio no Abrupto, me ter permitido tomar consci�ncia da minha rotunda iliteracia. � que n�o consigo entender o jarg�o, deliberadamente redondo e espesso, utilizado pelos doutos e iluminados educadores que, desde o Dr. Veiga Sim�o, se t�m chimpado na 5 de Outubro. Felizmente que, gra�as � preclara clarivid�ncia do nossos governantes, vem a� um Plano Nacional de Leitura que espero me ajude a n�o voltar a passar pela vergonha de n�o conseguir juntar duas letras daquela esp�cie de novil�ngua.

(Jos� Fonseca)

*

Sou professora h� 30 anos e n�o consigo parar de pasmar com o que se passa no ensino. Que isto est� mal, toda a gente o v�, mas ser� que ningu�m no Governo percebe que n�o se resolve com ataques indiscriminados da parte da ministra contra os professores? N�o ser�o o Minist�rio e os sucessivos Governos respons�veis por aquilo que se est� a passar? Quem deve avaliar os professores n�o ser� o Minist�rio? O mesmo que permitiu a entrada directa na carreira docente a todos os licenciados que n�o conseguiram emprego em mais lado nenhum. O mesmo que permitiu que se fossem fazendo sucessivas reformas mais interessadas em esconder a ignor�ncia do que em promover a cultura.O mesmo que obriga os professores a frequentar cursos de forma��o para progress�o na carreira que s�o um atentado � intelig�ncia de qualquer um ( eu posso fazer um curso de dan�as populares para subir de escal�o como professora de L�ngua Portuguesa!). O mesmo que obriga os mesmos professores a fazer um relat�rio das suas actividades, tamb�m para progress�o na carreira, e que depois n�o serve para nada uma vez que n�o � discutido nem defendido pelo pr�prio, apenas lido por uma comiss�o de professores que se limita a ver se ele obedece �s normas referidas no Decreto-Lei. N�o estar� o Governo, na pessoa da Ministra da Educa��o a tentar n�o perder votos ao passar todas as culpas do estado do pa�s para os professores (incompetentes, pregui�osos, diab�licos, etc)? � que � muito mais f�cil resolver as coisas desta maneira. Tem sido sempre assim qualquer que seja o Governo. � preciso olhar para os cursos das Escolas Superiores de Educa��o e ver a qualidade intelectual dos seus licenciados; � preciso que se tornem a implementar exames a n�vel nacional para todos os n�veis de ensino e com uma pondera��o na nota final que lhes permita avaliar realmente os alunos e professores. � muito f�cil acabar com o insucesso. Basta os professores darem positivas a todos os alunos. � isto que j� come�a a acontecer. Tenho a certeza absoluta que n�o vai haver nem um pai que se preocupe com isto, pelo contr�rio, v�o gostar imenso. � triste.

(Maria Nunes da Silva)

*

O leitor N. M. faz a seguinte observa��o com a qual concordo plenamente:

'Os "pirralhos" s�o fruto das conting�ncias que lhes oferecemos, sem negar as influ�ncias biol�gicas. '

Sim, � verdade, mas parece-me ser por aqui que passa muita da guerra relacionada com os "cientistas da educa��o" (de quem n�o gosto porque me soam a especialistas em Politicamente Correcto, sin�nimo, para mim, naturalmente, de Falsidade Perfeitamente Camuflada em Verdade Absoluta, sancionada pelo carimbo "Ci�ncia")

Sim, a frase de N. M. � verdadeira. Mas suponho que falta a conclus�o fatal que, na minha opini�o seria: "Perante tal h� que contrariar os efeitos das conting�ncias com o esfor�o e at� sofrimento de todos n�s INCLUSIV� dos alunos". � o "inclusive" que n�o aparece sistematicamente nestas considera��es. Os alunos s�o sempre v�timas, por isso isentas de responsabilidade. Ningu�m � capaz de lhes dizer: "Pois, a culpa pode n�o ser vossa mas s�o voc�s quem ter� que aprender. Deitem portanto ao lixo as justifica��es e atirem-se � mat�ria - ou ficam burros".

O mundo e a vida s�o muito frequentemente injustos. E ent�o, carpindo m�goas resolve a coisa?

Frases como �Gerir os conte�dos program�ticos, criando situa��es de aprendizagem que favore�am a apropria��o activa, criativa e aut�noma dos saberes da disciplina ou da �rea disciplinar, de forma integrada com o desenvolvimento de compet�ncias transversais;� parecem deixar margem de manobra a uma riqu�ssima aprendizagem em coisa nenhuma, caminho que j� trilhamos h� muito tempo com os resultados que conhecemos: a criatividade dos alunos tem-se revelado particularmente acutilante em m�todos para n�o ter que aprender coisa alguma � m�todos que o minist�rio vai sancionando como que fugindo com o rabo � seringa dos resultados obtidos. Resumindo, quanto mais idiota for a ideia que um aluno desenvolva em determinada mat�ria mais se arrisca a v�-la classificada como radicalmente criativa.

O Rei vai n�.

(H. Martins)

*

(...) tomo a liberdade de enviar em anexo o texto dos dois mails que enviei ao Primeiro Ministro e ao Presidente da Rep�blica, na expectativa de os ver publicados no seu blog. Fa�o-o n�o s� porque gostei das reflex�es que nele vi publicadas, completamente diferentes das bo�alidades que por a� pululam, mas tamb�m porque o desespero e a frustra��o de ter uma profiss�o simultaneamente exigente e menosprezada me obrigam a agir e a instigar. H� algu�m que compreenda a a baixa de autoestima que esta equipa ministerial provocou nos professores? Que n�o se iludam: os melhores de n�s procurar�o sair.

(Maria Filomena Rocha)

ANEXO : http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Geral/Contactos

Venho por este meio expressar a vossa excel�ncia a minha mais profunda revolta e indigna��o pelas grav�ssimas, injustas, caluniosas, perigosas e demag�gicas acusa��es feitas pela Ministra da Educa��o na abertura do debate promovido pelo CNE e hoje transcritas no DN e no JN.
Tal ataque cego e destemperado aos professores, que se concretiza em muitas das inaceit�veis e inadmiss�veis propostas de altera��o do estatuto da carreira docente, desmotiva os in�meros profissionais qualificados, competentes e profundamente preocupados com os resultados e aprendizagens dos alunos, colocando em causa todo um percurso dedicado � consecu��o do sucesso educativo dos jovens, na maior parte das vezes em dific�limas condi��es de trabalho pelas mais variadas raz�es. As afirma��es proferidas pela senhora ministra atacam a ess�ncia da miss�o dos docentes e da escola, questionam toda a orienta��o do seu trabalho e denigrem a sua imagem junto da sociedade, retirando-lhes o respeito, a autoridade e a compet�ncia que lhes deveria ser reconhecida em primeiro lugar pela tutela. Tivessem os docentes a for�a de outras classes profissionais e estar�amos hoje aqui a intentar uma ac��o em tribunal por difama��o. Num estado de direito, as acusa��es feitas devem ser provadas e os prevaricadores identificados e punidos. O que � inaceit�vel e totalmente reprov�vel � a generaliza��o abusiva, arrasando toda uma classe que est� na base do desenvolvimento sustent�vel de qualquer pa�s que se quer moderno, formado e empreendedor.
Muito mais poderia dizer a Vossa Excel�ncia, sendo contudo prefer�vel que vivenciasse o exigente e desgastante, acredite, dia a dia de uma escola e de um professor.
Termino considerando existirem raz�es mais do que evidentes para que a senhora Ministra reconhe�a a ligeireza e imprud�ncia das suas conclus�es e pe�a publicamente desculpa aos professores deste pa�s.

A sua mensagem foi enviada com sucesso.
Em breve receber� um email de resposta.

http://www.presidencia.pt/index.php?action=3

Excelent�ssimo Senhor Presidente da Rep�blica Portuguesa

Como mais alto dignat�rio da na��o e garante do estado de direito, venho por este meio expressar a Vossa Excel�ncia a minha mais profunda revolta e indigna��o pelas grav�ssimas, injustas, caluniosas, perigosas e demag�gicas acusa��es feitas pela Senhora Ministra da Educa��o na abertura do debate promovido pelo CNE e hoje transcritas no DN e no JN. Considero, como muitos, que tal ataque cego e destemperado aos professores, que se concretiza em muitas das inaceit�veis e inadmiss�veis propostas de altera��o do estatuto da carreira docente, desmotiva os in�meros profissionais qualificados, competentes e profundamente preocupados com os resultados e aprendizagens dos alunos, colocando em causa todo um percurso dedicado � consecu��o do sucesso educativo dos jovens, na maior parte das vezes em dific�limas condi��es de trabalho pelas mais variadas raz�es. As afirma��es proferidas pela senhora ministra atacam a ess�ncia da miss�o dos docentes e da escola, questionam toda a orienta��o do seu trabalho e denigrem a sua imagem junto da sociedade, retirando-lhes o respeito, a autoridade e a compet�ncia que lhes deveria ser reconhecida em primeiro lugar pela tutela. Num estado de direito, as acusa��es feitas devem ser provadas e os prevaricadores identificados e punidos. O que se afigura inaceit�vel e totalmente reprov�vel � a generaliza��o abusiva, arrasando toda uma classe que est� na base do desenvolvimento sustent�vel de qualquer pa�s que se quer moderno, formado e empreendedor.
Por me considerar atingida na minha dignidade profissional e pessoal, atrevo-me assim a dirigir a Vossa Excel�ncia, na esperan�a de que uma sua poss�vel interven��o contribua para explicar � senhora ministra e � sua equipa as nefastas consequ�ncias das suas conclus�es, reflectindo sobre e repensando propostas que em nada contribuir�o para a promo��o do verdadeiro sucesso educativo.

Subscrevo-me atenciosamente,

Maria Filomena Rocha

A sua mensagem foi enviada com sucesso.
Agradecemos a sua participa��o. A resposta � sua mensagem ser� enviada t�o breve quanto poss�vel.

31 Maio 2006
*

Sou professor efectivo com 19 anos de servi�o. Estou no 7� escal�o (congelado) e fiz um Curso de Mestrado em Estudos Americanos. Deveria estar no 9� escal�o, n�o fosse o "tal congelamento" Agora face � reforma do sistema, vou ficar para sempre congelado, nunca mais podendo ser "tutelado". Entretanto, levo para casa 1200 Euros, tenho 3 filhos a meu cargo (na totalidade) e sou divorciado. Ser� assim, pagando um sal�rio de mis�ria e limitando a progress�o na carreira a quem est� devidamente formado que a nossa educa��o vai melhorar?

(Jos� Carreira)

*

A avalia��o dos professores na proposta de revis�o do ECD aparece como algo particularmente objectivo parecendo assim que o processo � OBRIGATORIAMENTE transparente e blindado a subver��es subjectivas. Dito por outras palavras, presume-se que a aplica��o dos mecanismos previstos s� podem conduzir a resultados un�vocos e justos, sem manipula��es para se promoverem os primos, lambe-botas, e cart�es-rosa!

Basta percorrer os artigos 44.� e seguintes para se ficar com a sensa��o de que tudo � claro e objectivo. Esta avalia��o " implica a utiliza��o de instrumentos normalizados nos quais se incluir� a defini��o de cada um dos factores que integram" as v�rias componentes (art. 45.�, n.� 2); por outro lado, existe uma multiplicidade de itens e factores (art. 46.�) cuja aprecia��o � posteriormente "convertida" matematicamente numa escala de 1 a 10 (art. 47.�) , da qual, a m�dia vai dizer se o professor � "Excelente", "Muito Bom", "Bom", "Regular" ou simplesmente "Insuficiente"!

S� que, tanta objectividade esbarra logo a seguir com o facto de ser a senhora ministra a dizer quantos "Excelentes" ou "Muito Bons" � que h� nas escolas mesmo sem conhecer os professores envolvidos!
" Por despacho conjunto do Ministro da Educa��o e do membro do Governo respons�vel pela Administra��o P�blica s�o fixadas as percentagens m�ximas de atribui��o das classifica��es de Muito Bom e Excelente, por escola ou agrupamento de escolas" (art. 47, n.� 3).

Ent�o vamos l� analisar o seguinte exemplo: se, depois da aplica��o das f�rmulas, se concluir que em determinada escola existem tr�s professores qualificados de "Excelente" no ano em que a Senhora Ministra, decide que s� deve haver dois, qual a solu��o aplicar? Faz-se o "Jogo das Cadeiras" para ver quem fica de p�?

� evidente que ter�o de ser alteradas e manipuladas as classifica��es de uma das v�timas, para se cumprir a ordem da tutela. Ou seja, l� se vai a objectividade e transpar�ncia por �gua abaixo!

(Paulo Martins)

*

A prop�sito de um coment�rio publicado que refere que ao fim de 18 anos h� uma estagna��o na carreira, os c�lculos est�o errados. � ao fim de 12 anos que tal acontece. � com esse tempo de servi�o que ocorre a transi��o do 2� para o 3� escal�o no 1 � patamar da carreira, de onde uma elevada percentagem nunca mais sair�, independentemente das suas capacidades profissionais, pois a progress�o a partir desse momento depende de um concurso sujeito a vagas. Portanto, em 40 anos de carreira, para muitos docentes, a partir dos 12 anos , n�o existe qualquer possibilidade de progress�o.

(Paulo Viegas)

*

O Estatuto da Escravid�o Docente

Muitos s�o os trocadilhos que se podem fazer com a designa��o de Estatuto da Carreira Docente.
Confesso que a que mais me agrada � a de Estatuto da Escravid�o Docente e isso n�o se deve ao desejo de fazer um trocadilho f�cil, mas simplesmente porque � aquilo que mais me parece adequado na actual proposta de revis�o apresentada pelo Minist�rio da Educa��o.
O documento colocado para discuss�o (ser� mesmo negoci�vel?) � pass�vel de ser atacado de muitas formas, sendo as mais �bvias aquelas que s�o esperadas pela equipa ministerial para contra-atacar de acordo com o modelo t�pico deste Governo que � o de mostrar determinados grupos sociais como privilegiados e reactivos de forma corporativa ao esfor�o moralizador do Estado.

Tamb�m � errado atac�-lo por significar a vit�ria de uma qualquer fac��o instalada no Minist�rio da Educa��o sobre estes ou aqueles professores, porque isso � minimizar os seus perigos e reduzi-los a quest�es de luta pelo Poder, o que � perfeitamente lateral ao que � fundamental nesta quest�o.

Por isso, esse � o caminho que n�o deve ser seguido por quem pretender demonstrar como este potencial futuro ECD � negativo e prejudicial, n�o apenas para os professores, mas para o funcionamento do sistema educativo no seu conjunto. Porque esta proposta de revis�o do ECD cont�m demasiados equ�vocos, erros, omiss�es, injusti�as profundas, incongru�ncias e factores de distor��o, para nos ficarmos pela espuma das apar�ncias. Conv�m, por isso, por deixar de lado a quest�o das faltas (artigo 94�), dos crit�rios para a sua justifica��o e das m�ltiplas obriga��es definidas para os docentes (artigo 36�), porque isso apenas suscitar� reac��es demag�gicas t�picas contra quem quer manter �privil�gios� e n�o aceitar �deveres�.
.
Comecemos pelas evidentes incongru�ncias do documento: antes de mais, o paradoxo de um documento que pretende servir uma Escola plural, criativa, flex�vel e com capacidade de reac��o aos diversos problemas que se lhe podem colocar, optar por uma estrat�gia que tolhe profundamente a ac��o dos docentes, impondo-lhes um espartilho de obriga��es formais e de regras de comportamento, cujo n�o cumprimento pode implicar graus diversos de penaliza��o (desde logo a n�o progress�o na carreira) que torna virtualmente imposs�vel que esses mesmos docentes se sintam dispon�veis para arriscar solu��es inovadoras, mas potencialmente �irregulares� e, no caso de falharem, pun�veis.
Em seguida, o paradoxo de um discurso que, pretendendo afirmar uma pol�tica de meritocracia, reduz imenso as possibilidades de valoriza��o dos docentes, limitando-lhe as hip�teses de valoriza��o pessoal, circunscrevendo-as na pr�tica apenas � oferta das pr�prias estruturas centrais, regionais ou locais do Minist�rio (art� 109).
.
Depois temos as injusti�as gritantes: fazer depender parte da avalia��o de um docente do desempenho dos seus alunos (artigo 46�, n� 2, al�neas b e c), pois isso coloca em situa��o de vulnerabilidade todos aqueles que trabalham, voluntariamente ou n�o, em zonas e com turmas problem�ticas. Isto significa que os professores que se disponibilizam para trabalhar com turmas de percursos alternativos e outras modalidades e solu��es destinadas a combater as situa��es de maior insucesso escolar, est�o em situa��o de risco acrescido em rela��o a quem trabalha em zonas �pac�ficas� e com turmas regulares. O abandono escolar ou o insucesso escolar provocado por factores ex�genos � ac��o do docente ter�o reflexos na sua avalia��o, mesmo que tenha feito tudo o que estava ao seu alcance para contrariar situa��es que, por exemplo, podem derivar da situa��o familiar dos discentes. Para al�m disso, coloca nas m�os dos �rg�os executivos a possibilidade de fazer uma distribui��o �selectiva� das turmas, favorecendo conjuntos de docentes em rela��o a outros.
.
Quanto aos factores de distor��o pass�veis de ser introduzidos em todo o sistema de funcionamento do sistema educativo, logo desde a introdu��o de um novo ECD como este, destacaria desde logo o facto de ser criado, ex nihilo, um sistema hier�rquico tendencialmente gerontocr�tico, pois postula que passem a professores titulares os docentes que se encontrem actualmente nos 9� e 10� escal�es, passando esses professores-titulares a �dominar� �reas sens�veis como a coordena��o pedag�gica de grupos disciplinares, a orienta��o de docentes em ano probat�rio ou a pr�pria avalia��o dos restantes docentes. Para um sistema que se pretende meritocr�tico na progress�o na carreira e rigoroso na avalia��o, esta primeira medida � claramente incongruente, pois valida o factor-idade como suficiente e �nico para constitui��o das novas elites nos estabelecimentos de ensino e/ou agrupamentos. Desde quando � a antiguidade, por si s�, crit�rio de m�rito que permita o acesso a uma situa��o de privil�gio?
.
No plano das omiss�es avulta a inexist�ncia de qualquer tentativa de limitar a perpetua��o das mesmas pessoas nos cargos executivos, pois nada se escreve sobre a limita��o dos mandatos. Actualmente, existem grupos fechados que dominam estabelecimentos de ensino e agrupamentos, com pr�ticas de gritante nepotismo que a presente proposta de ECD parece querer validar ao fechar formalmente esses grupos e ao dar-lhes um maior poder ainda sobre a avalia��o dos colegas, em especial se for aplicada uma pol�tica de quotas para a atribui��o das melhores classifica��es.
.
E aqui entronca o mais crasso de todos os erros deste documento que � tornar a avalia��o dos professores um processo que n�o � kafkiano, mas apenas um emaranhado burocr�tico de compet�ncias, em que todos parecem ter um papel na desorienta��o geral, mas em que a margem para a cristaliza��o de pr�ticas de favorecimento pessoal e de clientelismo se alarga de forma desmesurada. O mais grave n�o � a participa��o dos encarregados de educa��o no processo; o mais contest�vel � que o processo possa ser adulterado, desde o seu in�cio, por quest�es de ordem pessoal e tornar-se um sistema atribili�rio e, mais do que subjectivo, simplesmente arbitr�rio e ditado por humores e simpatias. Qualquer docente que se torne persona non grata junto do poder estabelecido na sua escola, v�-se perfeitamente desprotegido perante a possibilidade de ser prejudicado por um conjunto variado de factores.
.
Por tudo isto, e muito mais haveria a dizer numa leitura mais demorada do documento, acho que � dever de todos os docentes com orgulho de ainda o serem, intervirem e desmascararem a forma �nvia como todo este processo tem decorrido e vai culminar, sem que nenhuma parte activa tenha sido deixada aos pr�prios docentes na defini��o das condi��es do exerc�cio da sua profiss�o.

Paulo Guinote (professor de nomea��o definitiva do quadro de escola, do 1� grupo do 2� ciclo do Ensino B�sico, doutorando em Hist�ria da Educa��o)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(1 de Junho de 2006)


__________________________

As tradu��es da edi��o portuguesa do Courrier Internacional s�o muito m�s. Um exemplo: o artigo sobre "intelectuais" do Guardian no n�mero 80, onde as "chattering classes" passaram a ser "intelectuais de esquerda", o que, enfim, n�o deixa de ser verdade, mas � uma enormidade como tradu��o. Nem era preciso ir ao OED, bastava a Wikipedia.
Ao Abrupto, com pedido de publica��o
Chamaram-me a aten��o para esta proclama��o solene do Abrupto do dia 1 de Junho: �As tradu��es da edi��o portuguesa do Courrier Internacional s�o muito m�s. Um exemplo: o artigo sobre "intelectuais" do Guardian no n�mero 80, onde as "chattering classes" passaram a ser "intelectuais de esquerda", o que, enfim, n�o deixa de ser verdade, mas � uma enormidade como tradu��o. Nem era preciso ir ao OED, bastava a Wikipedia.�
Lamento, mas este �post� tamb�m � muito mau.

Em primeiro lugar, n�o existe uma edi��o portuguesa do Courrier Internacional: existe o Courrier Internacional, que � a edi��o portuguesa do Courrier International. Em segundo lugar, o n� 80 do Courrier Internacional ainda n�o foi publicado. S�-lo-� l� para Outubro. Supomos que o Abrupto se refere a um artigo do jornal The Guardian publicado no n� 60.

O que � que isto interessa para o caso, perguntar� o leitor? Interessa muito. � que um pouco mais de rigor n�o ficaria mal a quem exige tanto rigor dos outros. Sobretudo quando se permite uma acusa��o global e um ju�zo lapidar a partir de um �nico exemplo - e mesmo esse bastante p�fio.

Se o Abrupto queria criticar o Courrier podia t�-lo feito sem fingir que o analisava. Declara, taxativo : �As tradu��es s�o muito m�s�. E porqu�? S� porque �chattering classes� aparece traduzido por �intelectuais de esquerda�. Diz o Abrupto que, �enfim, n�o deixa de ser verdade�, mas � uma �enormidade como tradu��o�. Ora, se �n�o deixa de ser verdade�, porque diabo ser� uma enormidade? Estaria melhor �classes palradoras�? Por sinal, a edi��o francesa traduziu �chattering classes� por - repare-se na enormidade! - �intellos de gauche�. S�o mesmo broncos. Nem era preciso irem ao OED, bastava a Wikipedia.

N�o menos revelador � o facto de o Abrupto denunciar uma enormidade e n�o saber corrigi-la. Se tivesse uma tradu��o melhor para �chattering classes� no contexto em que a express�o aparece � fala-se dos �ep�tetos um pouco pejorativos ou trocistas� geralmente aplicados aos intelectuais no �ingl�s falado� - decerto que a teria dado. N�o deu. Remete, generoso e paternalista, para o OED ou para a Wikipedia, onde os ignorantes que traduzem artigos para o Courrier podiam ter-se documentado. Curioso: o que se pretende � uma express�o em portugu�s para �chattering classes�; pois o Abrupto recomenda dois �sites� ... em ingl�s. Mesmo assim, vejamos o que diz um deles, precisamente aquele que o Abrupto prefere (o OED): �Chattering classes: members of the educated metropolitan middle class, esp. those in academic, artistic, or media circles, considered as a social group freely given to the articulate, self-assured expression of (esp.liberal) opinions about society, culture, and current events�. Al�m do j� referido contexto em que a express�o aparece, as conota��es pol�ticas de �liberal� no ingl�s corrente autorizam perfeitamente o recurso � express�o usada. E ainda que estiv�ssemos perante um erro crasso, isso n�o legitimaria a proclama��o de que as tradu��es do Courrier � todas, portanto, ou a sua esmagadora maioria - �s�o muito m�s�.

Os nossos leitores regulares sabem que, neste jornal, apreciamos as cr�ticas justas e estamos sempre prontos a reconhecer os erros - cometemos muitos, infelizmente - , dando voz a quem os aponta. Temos, com certeza, tradu��es melhores e piores. Mas n�o podemos aceitar a cr�tica de algu�m que assume a supina pose de grande educador para deitar lama sobre o t�tulo de um jornal a partir de um �nico exemplo e sendo o erro que aponta mais que duvidoso. Da� que o �post� em causa n�o seja apenas mau: � tamb�m mal intencionado.

Fernando Madrinha, Director do Courrier Internacional
*

Outro aspecto interessante do notici�rio de Timor � o facto de os jornalistas n�o saberem onde o incluir, se no "Nacional" se no "Internacional" (ou no "Mundo"), e acabar por ir para sec��es de "Destaque" h�bridas, ou para um limbo sem sec��o. Os bra�os da mentalidade colonial s�o longos, � esquerda como procura da revolu��o pura, � direita como nostalgia do imp�rio.

*

Pergunta certeira de Ruben de Carvalho no Di�rio de Not�cias sobre Timor visto por c�:
"H�, relativamente � situa��o de Timor, uma surpreendente parcim�nia verbal: qual a raz�o por que se n�o fala pura e simplesmente de tentativa de golpe de Estado? O surpreendente desta significativa utiliza��o � em poucas circunst�ncias se reunir com t�o transparente evid�ncia aquilo que caracteriza uma ac��o pol�tica que mereceu vast�ssima literatura, que inclui mesmo o manual t�cnico que poderia cap�tulo a cap�tulo ser compaginado com os acontecimentos de D�li."
 


EARLY MORNING BLOGS 785

The Rose Family


The rose is a rose,
And was always a rose.
But now the theory goes
That the apple's a rose,
And the pear is, and so's
The plum, I suppose.
The dear only knows
What will next prove a rose.
You, of course, are a rose--
But were always a rose.


(Robert Lee Frost)

*

Bom dia!
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.

Em breve h� mais O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O NOVO ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE (3� s�rie).

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
Site Meter [Powered by Blogger]