ABRUPTO

29.4.06
 


JUDEU ERRANTE


Mais uma corrida, mais uma viagem.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM RUIV�ES - VIEIRA DO MINHO , PORTUGAL



Esta fotografia foi tirada hoje durante a tarde junto � Ponte da Misarela no lugar de Frades, freguesia de Ruiv�es, concelho de Vieira do Minho.

Estes dois homens estavam a cortar o mato para o transportar para as cortes do gado. Quando lhes perguntava se podia tirar esta fotografia, dizia-me um deles que os Portugueses s� se sabem queixar, mas que verdadeiramente n�o querem � trabalhar; eles ao contr�rio, estavam ali a trabalhar debaixo daquele sol (quase) abrasador.

(Paulo Miranda)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL



Trabalhos na barra do Douro.

(Gil Coelho)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: GENEALOGIA DAS PALAVRAS

Salazar aos legion�rios em 1956 sobre a "guerra das civiliza��es":
�H� vinte anos foi n�tido para n�s - mas n�o o foi para muitos - em face do caso espanhol, que o que essencialmente se desenrolava no Mundo eram conflitos de civiliza��o; ou mais precisamente que a civiliza��o ocidental estava sendo desmantelada ate aos alicerces e batida nos seus princ�pios fundamentais e nas suas cria��es por outros conceitos filos�ficos, outras maneiras de encarar o homem e a vida, novas medidas de valor para as realiza��es do esp�rito.�
 


MINHO, MINHO, MINHO � NOITE

Pelas estradas do interior, dez quil�metros s�o cinquenta. Terra, sobre terra, sobre terra. Nomes antigos, nomes b�rbaros, consoantes fortes. B�s e gu�s, erres. De dia, parece estar tudo em cima de tudo, vinhas e terrenos, casas e igrejas. De noite, at� parece que h� bosques, lugares de escurid�o antiga, com casas isoladas, janelas vagamente amarelas ao longe. As igrejas, no cimo das colinas, iluminadas. No iPod, Joan Didion fala de mortes na fam�lia, funerais, do seu livro The Year of Magical Thinking. Numa curva, em Roriz, pergunto-me se alguma vez a voz de Didion se ouviu no Minho. Passou-me Camilo � frente, pelos olhos. N�o � verdadeiramente nada de importante. Adiante.
 


EARLY MORNING BLOGS 769



(do Romanceiro)

*

Bom dia!

28.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NA MAURIT�NIA



Esta fotografia foi tirada no decorrer da semana passada algures entre a pista de praia que liga as localidades de Nouakchott a Nouadibou. Esta liga��o/pista � utilizada n�o s� por pescadores mas tamb�m por todos os que se deslocam a este local com o objectivo de apreciarem o encanto da conjuga��o do deserto com o mar. (...) Ao longo da praia s�o in�meras as comunidades de pescadores.


(Frederico Moreira Rodrigues)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(28 de Abril de 2006)


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Uma muito interessante vantagem nas "antecipa��es" jornal�sticas (sobre as quais tenho as maiores das reservas) � o de obter uma divulga��o quase que inteiramente controlada pela fonte da "antecipa��o". Consegue-se assim "passar" uma mensagem limpa de ru�do, do ru�do que inevitavelmente existe quando a "antecipa��o" se torna um facto (e do meu ponto de vista se torna not�cia). Um discurso parlamentar pode ser assim divulgado sem o aborrecimento do contradit�rio, e com os sublinhados que pretende o seu autor, que "passa" preferencialmente a mensagem que lhe conv�m e n�o a integralidade do que vai fazer.

Consegue-se ainda mais: a de fazer o jornalista incorporar no texto da not�cia a argumenta��o da fonte como sendo do jornalista, logo oferecendo uma mensagem que parece mais legitimada e incontroversa a quem a recebe. Um caso t�pico ocorreu nos �ltimos dias, com a not�cia em primeira-m�o dada � SIC sobre as altera��es nos c�lculos da reforma. A SIC e a SICN passaram em v�rios notici�rios n�o s� a informa��o do essencial do que o Primeiro-ministro ia dizer no dia seguinte (o que � relevante em termos jornal�sticos) como a argumenta��o governamental sobre a inevitabilidade de tal medida tendo como sujeito o jornalista que a escreveu ou o pivot que a leu. Ora, independentemente do ju�zo que se possa fazer sobre a virtude das medidas governamentais, elas s�o escolhas politicas definidas, escolhas entre escolhas, e n�o cabe ao jornalista valida-las como solu��es inevit�veis dos problemas da seguran�a social.


Ali�s um dos trabalhos jornal�sticos que se exigia fazer, o de calcular o impacto real das medidas nas reformas reais, s� foi feito muito tardia e insuficientemente, aceitando-se que o Ministro e o Primeiro-ministro fossem muito omissos (e o Ministro que costuma ser muito seguro no que diz, hesitando no limite de tartamudear) num aspecto decisivo para a vida de todos. Inconscientemente este mecanismo favorece a interioriza��o dos argumentos governamentais e permite propaganda em vez de informa��o.

Voltarei a este assunto tamb�m tratado aqui e aqui .

*

O New York Times n�o faz parte daqueles que acham que os blogues n�o s�o importantes. � assim que, num e-mail aos assinantes, introduzem uma categoria nova, a de "most blogged":
"Most Popular: See what your fellow Times readers are buzzing about. Refer to the constantly updated lists: Most E-Mailed, Most Blogged, Most Searched and Most Popular Movies."
 


EARLY MORNING PICTURES



Movimento matinal de hoje no Tejo: veleiros, navios de guerra e paquetes.

Hoje o Colombo vai estar cheio de marujos. Mas os marujos j� n�o s�o o que eram, as sopeiras j� desapareceram, e temos todos telem�veis.

(J.)
 


EARLY MORNING BLOGS 768

Insomnia


Now you hear what the house has to say.
Pipes clanking, water running in the dark,
the mortgaged walls shifting in discomfort,
and voices mounting in an endless drone
of small complaints like the sounds of a family
that year by year you've learned how to ignore.

But now you must listen to the things you own,
all that you've worked for these past years,
the murmur of property, of things in disrepair,
the moving parts about to come undone,
and twisting in the sheets remember all
the faces you could not bring yourself to love.

How many voices have escaped you until now,
the venting furnace, the floorboards underfoot,
the steady accusations of the clock
numbering the minutes no one will mark.
The terrible clarity this moment brings,
the useless insight, the unbroken dark.


( Dana Gioia)

*

Bom dia!

27.4.06
 


JORNALISMO DE "ANTECIPA��O" COM CINQUENTA ANOS



No S�culo em Novembro de 1956.
 


QUEM PAGA A CRISE?



No fim de um ano de aumento de impostos, de excepcional recolha fiscal e do arranque de v�rias medidas de conten��o, o Governo conseguiu ter um d�fice superior ao previsto no �ltimo or�amento de Santana Lopes / Bag�o F�lix, descontadas as receitas extraordin�rias. Nunca saberemos se o previsto se iria realizar, como nunca saberemos se os 6,8% calculados pelo Banco de Portugal n�o seriam contrariados por medidas do Governo. O que sabemos � que os resultados s�o maus. Os relat�rios da �ltima semana da OCDE e do BM apenas acentuaram a impress�o de que nada vai bem, e as medidas do Governo s� tocam na superf�cie dos problemas, na �epiderme� como diz Medina Carreira. Tudo isto num contexto excepcional quanto �s condi��es pol�ticas, com um governo de maioria absoluta e com uma oposi��o muito fragilizada, e com consider�vel apoio da opini�o p�blica.

Torna-se evidente que os dilemas que j� existiam em 2005 est�o hoje mais acentuados e a margem de manobra, com a passagem do tempo, � j� bastante menor. Vamos pois a caminho de tempos muito dif�ceis, agravados pela conjuntura internacional, mas n�o explic�veis nem exclusiva, nem principalmente por ela. Agora que realmente tudo vai come�ar a apertar, e j� sem a sombra nem a desculpa legitimadora do governo Santana Lopes, as op��es erradas de S�crates, do Governo e do PS come�am a perceber-se com maior clareza. Deixo de lado, que havia uma maneira alternativa de actuar, uma pol�tica genuinamente liberal, que no entanto n�o corresponde �s op��es pol�ticas e ideol�gicas do Governo socialista.

Como nas hist�rias infantis, tudo come�ou no princ�pio, �naquele tempo�. No balan�o da actua��o de S�crates esquece-se v�rias coisas: uma � que o discurso com que o PS ganhou as elei��es n�o era um discurso de crise, bem pelo contr�rio, era o da sua nega��o. N�o se chegava ao ponto de anunciar a �retoma�, mas o discurso socialista era o de que havia �vida para l� do d�fice�. � uma hist�ria da carochinha da propaganda acreditar que S�crates s� se apercebeu da situa��o real depois do relat�rio Const�ncio, porque tal era imposs�vel.

� verdade que S�crates corrigiu o discurso logo que ganhou as elei��es e fez bem, mas uma coisa � corrigir um erro outra � compreender totalmente a necessidade de uma viragem de fundo. Depois de um ano a ser saudado com justi�a pela sua coragem nas medidas dif�ceis, pouca gente se apercebeu que os problemas de fundo do nosso desequil�brio financeiro se mant�m, em particular com o estado a gastar sempre mais e a �comer� n�o s� o que tinha, mas tamb�m o que estava a entrar de novo. Apresentar como resultado um d�fice maior do que o governo anterior n�o tem volta que se lhe d� � � andar para tr�s.

Porque � que � hoje mais dif�cil passar de 6% para 4,8% do que seria um ano antes?

Primeiro, porque � (foi) um erro grav�ssimo, ter cedido ao populismo no pior momento para o fazer. O Governo podia muito bem ter pedido todos os sacrif�cios e ter anunciado todas as medidas dif�ceis com um �nico argumento: eram necess�rias para o pa�s, eram uma quest�o de �salva��o nacional�. Ponto final. Mas o Governo cedeu � tenta��o de dizer que o que estava a fazer era uma luta contra os �privil�gios � de muitas classes profissionais e com isso deslegitimou-os na sua respeitabilidade social.

Hoje sabemos o efeito dessa t�ctica comunicacional: deixou cada grupo profissional de per si, socialmente isolado, face a uma opini�o p�blica hostil, mas azedou irremediavelmente o ambiente dentro de cada corpora��o e grupo entrincheirados contra o Governo. Fez as corpora��es e os grupos profissionais fracos por fora e fortes por dentro. Uma segunda vaga ainda mais dura de medidas de austeridade e conten��o vai dar origem a conflitos sociais mais tenazes. Os comportamentos desesperados v�o ser mais comuns, a resist�ncia maior.

Isto significa que muito do tempo psicol�gico para uma pol�tica de efectiva dificuldade, j� se perdeu, no exacto momento em que � preciso ir muito mais longe e come�ar a perceber quem ganha e quem perde com a crise que atravessamos e o modo como o governo a defronta.

Segundo, porque o Governo apenas esbo�ou as pol�ticas necess�rias, excluindo muitas medidas que lhe foram sugeridas e que melhor traduziam a gravidade da situa��o. Claro que o problema � tamb�m pol�tico-ideol�gico, em particular na intocabilidade do �estado social� universal, em que nunca ousou mexer, apesar de ser um caminho que garantia melhor justi�a social. S�crates diminuiu regalias sociais, mas manteve esquemas de universalidade, em particular na seguran�a social e no sistema de sa�de, o que torna muitas medidas mais duras para os mais pobres e irrelevantes para os mais ricos.

Na verdade, as medidas de S�crates acabam por atingir essencialmente os sectores mais desfavorecidos da sociedade, mais dependentes da infla��o, do aumento das taxas de juro, dos despedimentos, da eros�o das reformas e menos a classe m�dia. Dos ricos nem falo, porque esses podem sempre bem com as crises. O que o discurso de Cavaco Silva no 25 de Abril traz de novo para a an�lise desta quest�o � chamar a aten��o para que, se nada mais se fizer, a crise ser� �paga� pelos mais pobres e agravar� a exclus�o. A �nfase que �surpreendeu� muita gente, s� � surpresa porque se tem ignorado que essas dificuldades n�o s�o igualmente distribu�das e que o �pagamento da crise�, deixando-se estar as coisas como est�o, ir� para baixo e n�o para o meio. Insisto que, em cima, nada verdadeiramente conta no plano �social�.

A classe m�dia, at� agora s� tem sido tocada ao de leve. Os padr�es de consumo n�o revelam significativas restri��es nos h�bitos t�picos desse sector social (f�rias, viagens nas �pontes�, por exemplo) e, no essencial, o efeito da crise tem sido superficial, em detrimento das muito maiores dificuldades escondidas e que raras vezes chegam � comunica��o social, no baixo funcionalismo, no mundo do trabalho industrial, nos jovens com trabalho prec�rio, na pequena burguesia urbana dos servi�os, muito endividada. O agravamento da crise aprofundar� este fosso de degrada��o de qualidade de vida.

O problema da justi�a social nesta crise n�o est� apenas, bem longe disso, na assist�ncia aos casos extremos de mis�ria e exclus�o, aos marginais e aos velhos desprotegidos, que j� era exigida pela nossa pobreza h� muito tempo. A quest�o est� em se compreender que esta forma de atacar a crise atirar� com os seus custos para os grupos sociais que menos defesa t�m e, como o que aconteceu at� agora � apenas um ligeiro assomar de dificuldades que a� v�m, conv�m prevenir n�o contra a austeridade, nem o contra o combate ao descalabro financeiro, mas contra um injusto �pagamento da crise�. E n�o � o PCP quem o diz.

(No P�blico de hoje.)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(27 de Abril de 2006)


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Nos idos de Novembro de 1956, em plena crise do Suez e da invas�o sovi�tica da Hungria, o senhor Ministro do Interior velava por n�s e pela censura.



*

Sobre as querelas da Academia a prop�sito dos dicion�rios, leia-se esta nota do Da Literatura.

*

O Canhoto merece ser lido de forma ambidextra.

*

Bem-vindo seja o novo blogue russo do P�blico, de autoria do nosso bom mujique Jos� Milhazes. H� uma raz�o especial para estar atento � R�ssia: tudo o que l� acontece, mesmo quando parece velho e semelhante, � novo. A "transi��o para o capitalismo" � um fen�meno sem precedente hist�rico, como foi em 1917 a Revolu��o Russa.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL


( o trabalho industrial est� mal representado)
( a f�brica fechou)

(Ant�nio Carvalho)
 


EARLY MORNING BLOGS 767

Chanson Innocente, I

in Just-
spring when the world is mud-
luscious the little
lame balloonman

whistles far and wee

and eddieandbill come
running from marbles and
piracies and it's
spring

when the world is puddle-wonderful

the queer
old balloonman whistles
far and wee
and bettyandisbel come dancing

from hop-scotch and jump-rope and

it's
spring
and
the

goat-footed

balloonMan whistles
far
and
wee


(e.e.cummings)

*

Bom dia!

26.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO



140 retratos do trabalho j� foram publicados no Abrupto, com a colabora��o de cerca de cem leitores em Portugal e fora. Muitos outros retratos foram recebidos e ser�o publicados a seu tempo. Em breve, se far� uma an�lise dessas fotografias, do olhar sobre o trabalho que revelam, das profiss�es que faltam ( o trabalho industrial est� mal representado) e das que s�o mais populares, ou mais vis�veis.

*
Em rela��o � quest�o da pouca representatividade do "trabalho industrial" na sua s�rie "Retratos do Trabalho em Portugal", eu aventaria uma raz�o bastante prosaica. A maior parte das fotografias que lhe chegaram s�o de fot�grafos amadores, que as captam em momentos de lazer (essencialmente fins de semana e f�rias), pelo que � compreens�vel que nesses momentos se captem fotografias de "exterior".

(Ant�nio Maltezinho)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO CAIRO, EGIPTO



Nestes �ltimos meses em que tenho estado a viver/trabalhar no Egipto, tenho notado bastantes diferen�as na abordagem ao trabalho e � vida em geral, nem todas t�o evidentes como esta.

(Nuno Alexandre Lopes Marques)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
DESTAQUE DE NOT�CIAS


(...) hoje no Publico v�m duas noticias muito interessantes:

1) a Faculdade de Psicologia do Porto corre o risco de ficar fora do processo de Bolonha porque uma funcion�ria n�o pagou um excesso de peso no dia 27 de Mar�o. O prazo limite era 31, e os documentos s� seguiram no dia 3. O que � que se ter� passado nessa semana (de 27/3 a 3/4) � um mist�rio; como � que � poss�vel que o erro n�o tenha sido corrigido a tempo � outro mist�rio. Como se costuma dizer, a realidade ultrapassa a fic��o. Aguardemos pelas cenas dos pr�ximos capitulos.

2) vai haver uma exposi��o sobre a Cust�dia de Bel�m de Gil Vicente. Sa�da-se a iniciativa. O que � incr�vel � que quando se vai ao Museu de Arte Antiga, a Cust�dia passa despercebida. N�o h� (pelo menos n�o houve durante anos e n�o havia at� ao ano passado) um texto que evidencie a singularidade da obra, ou que explique quem � o autor. Apenas s�o prestadas as informa��es minimas usuais: data, nome e autor. Sem querer ser destrutivo de modo saloio, parece-me muito pouco. E parece-me revelador de duas coisas:

- um modo elitista de ver a cultura (sup�e-se que as pessoas j� conhecem a obra) que resulta em Museus que s�o montras (e onde n�o se aprende nada / o conte�do did�ctico � pouco).

- um modo muito "sub-desenvolvido" de nos valorizarmos e de preservarmos a nossa mem�ria colectiva. Estamos sempre a pensar que somos piores que os Europeus, mas Shakespeare, Rabelais, Montaigne ou Cervantes n�o eram ourives. Outro povo evidenciaria provavelmente mais essa fant�stica versatilidade de Gil Vicente. Tornar-nos realmente desenvolvidos vai passar por a�: cuidar da nossa hist�ria, dos nossos feitos. Essa versatilidade ali�s ainda existe. Um dos artigos base de uma das ultimas edi��es da Publica (se n�o me engano) era dedicado a essas pessoas.

(Eduardo Tom�)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
UM DI�LOGO MATERNO-INFANTIL E AS NOVAS TECNOLOGIAS



"M�e, j� foi a algum leil�o?

J�, de livros.

Na internet?

N�o. Numa leiloeira.

Acha que podiamos tentar vender o Jo�o no ebay?

Acho. O que � que achas Jo�o?

Acho que faziam para ai uns dois milh�es..."


(M�e do Jo�o.)

25.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NO DOURO, PORTUGAL


Podando oliveiras no Douro.

(Abilio Tavares da Silva)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TERRORISMO EM DAHAB


Esta vila � umas das p�rolas do Mar Vermelho, ainda pouco explorada turisticamente. Em Assalah, a zona sul da vila j� cresceram alguns 'resorts', no resto da vila uns quantos pequenos hot�is e um passeio mar�timo com restaurantes, lojas e esplanadas junto � �gua, onde se pode fumar shisha, comer um peixe grelhado fresqu�ssimo, n�o deve haver melhor no Egipto. As praias s�o calmas e o fundo do mar uma maravilha da natureza, onde os turistas se deleitam a fazer mergulho. Em suma um local muito agrad�vel, onde � possivel descontrair. E era isso mesmo isso que os turistas, em boa parte italianos, alem�es e russos e muitas fam�lias egipcias estavam a fazer, aproveitando os feriados desta semana.

Ontem ao final da tarde com a explos�o de tr�s bombas, despoletadas � dist�ncia ou por suicidas, ainda n�o se sabe, se foram os mesmos terroristas beduinos que nos �ltimos dois anos foram respons�veis por ataques semelhantes com liga��es a redes terroristas internacionais ou alguma dessas redes internacionais tamb�m n�o se sabe. O que se sabe e se v� � o sangue derramado, o sofrimento, os destro�os e os estilha�os. O terrorismo � isto mesmo, � transformar a alegria, a vida, o sossego, os neg�cios em ang�stia, em morte, em medo e destro�os.

(Nuno Alexandre Lopes Marques aka Temba, Cairo)
 


ONDE EST� A DIFEREN�A



Se n�o tivessemos a obsess�o entre a "esquerda" e a "direita", perceb�amos o fosso potencial que existe entre o discurso do Presidente e o do Governo : a separa��o de �guas entre o discurso desenvolvimentista e tecnol�gico, muitas vezes deslumbrado, do Primeiro-ministro, e a observa��o do Portugal real, pobre, estragado, desigual, exclu�do que s� poder� agravar-se em per�odo de crise social e econ�mica. N�o s�o as reformas que os separa, mas o Portugal diferente para que olham na an�lise dos seus efeitos.
 


PALAVRAS QUE S�O MULETAS DO NOSSO JORNALISMO: ESQUERDA / DIREITA



Ao "analisar" o discurso do Presidente da Rep�blica repetem n vezes a muleta da "esquerda" e da "direita" e nem sequer se apercebem de que o fazem para enunciar uma perplexidade, - o Presidente da "direita" fez um discurso de "esquerda" -, que talvez justificasse outro tipo de an�lise. S� que esta � simples e permite simplificar. O problema � que os factos s�o mais teimosos do que as palavras.

*
A prop�sito do discurso do Presidente da Rep�blica, e a sua observa��o, ou seja, sobre o estado da Na��o, n�o resisto a transcrever o que Jos� Daniel Rodrigues da Costa versejou, sobre o mesmo assunto em 1819, e sucessivas edi��es (1820, 1822 e 1829), h� 177 anos portanto, com o t�tulo infra, e onde transparece algum retrato de um Portugal que se vai parecendo a si mesmo, como se o tempo tivesse parado no tempo.

PORTUGAL ENFERMO / PELOS VICIOS, E ABUSOS DE AMBOS OS SEXOS

Portugal, Portugal ! Eu te lastimo !
E bem que velho sou ainda me animo
A mostrar-te os defeitos, e os excessos
Dos costumes, que tens j� t�o avessos
Dos costumes, que tinhas algum dia,
Quando mais reflex�o na gente havia.
Tu de estranhas Na��es foste envejado;
Hoje faz compaix�o teu pobre estado:
Cada vez te v�o mais enfraquecendo,
Todo o brilho, que tinhas, vas perdendo:
Paraiso do mundo te chamav�o;
As mais Na��es com tigo se animav�o;
Ellas por�m ficar�o s�s, e fortes;
E tu todo o instante exposto aos c�rtes
Da usura, da ambi��o, da falcidade,
Do egoismo, da fuga, da impiedade:
Males, que aos que bem pens�o cauz�o t�dio,
A que apenas descubro hum s� remedio,
Que outro melhor n�o ha, a que se apelle,
E muita gente chora a falta d�Elle*�
�����������������

*�A desejada vinda dos nossos Soberanos.

Guardando as dist�ncias no entendimento do tempo que as separa, e se se quiser aplicar � actualidade o rodap� de ent�o, basta substitu�-lo, com a devida v�nia, por A desejada vinda do Professor Cavaco Silva.

Pela sua extens�o, limito-me a transcrever o princ�pio. Para quem quiser compulsar todo o livreto pode faz�-lo na Biblioteca Nacional, na cota L 65160 P, correspondente � edi��o de 1822 que consultei, mas as outras edi��es tamb�m est�o dispon�veis. Vale a pena l�-lo para se verificar que 177 anos, n�o s�o mais do que 177 dias.

(Jo�o Boaventura)

*

Mais do que a pobreza de an�lise da "esquerda/direita", "com cravo/sem cravo", perfeitamente indigente (� mesmo a express�o, pe�o desculpa) h� coisas mais importantes a marcar a sess�o comemorativa do 25 de Abril, a saber:

A t�nica colocada por ACS na inclus�o social que �, verdadeiramente, a pedra de toque que distingue o desenvolvimento do sub-desenvolvimento, a civiliza��o da barb�rie.

O facto de o seu discurso ter focado um s� tema (um e s� um), aquilo que se poderia designar em linguagem de gest�o o key issue, evitando a dispers�o distractiva e o discurso program�tico.

O discurso radical, aqui sim "� direita", do CDS/PP, afastando-se do conte�do da not�vel entrevista de M� Jos� Nogueira Pinto � 2: e aproximando-se muito claramente da linha editorial (podemos chamar-lhe assim?) do extinto "Acidental" e da revista "Atl�ntico", e de textos de alguns dos seus mais conhecidos polemistas (v.g. Luciano Amaral e M� Helena Matos).

A men��o de Marques Mendes, no in�cio do seu discurso, a "Sua Emin�ncia Reverend�ssima o Cardeal Patriarca" (sic). Penso ter� sido o �nico (n�o ouvi o in�cio do discurso do CDS/PP e de certeza o "Bloco" - que n�o ouvi - n�o o fez). Sinceramente, lament�vel.

(Jo�o C�lia)

24.4.06
 


EARLY MORNING BLOGS 766



Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya


N�o sei, meus filhos, que mundo ser� o vosso.
� poss�vel, porque tudo � poss�vel, que ele seja
aquele que eu desejo para v�s. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que adv�m
de nada haver que n�o seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por v�s.
E � poss�vel que n�o seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo � poss�vel,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pare�a a liberdade e a justi�a,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedica��o � honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
n�o tem conta o n�mero dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de �nico,
de ins�lito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente � secular justi�a,
para que os liquidasse �com suma piedade e sem efus�o de sangue.�
Por serem fi�is a um deus, a um pensamento,
a uma p�tria, uma esperan�a, ou muito apenas
� fome irrespond�vel que lhes ro�a as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados t�o anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas n�o restasse mem�ria.
�s vezes, por serem de uma ra�a, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que n�o tinham cometido ou n�o tinham consci�ncia
de haver cometido. Mas tamb�m aconteceu
e acontece que n�o foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por �nvios caminhos quais se diz que s�o �nvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este hero�smo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
h� mais de um s�culo e que por violenta e injusta
ofendeu o cora��o de um pintor chamado Goya,
que tinha um cora��o muito grande, cheio de f�ria
e de amor. Mas isto nada �, meus filhos.
Apenas um epis�dio, um epis�dio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou n�o sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum s�men
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ningu�m
vale mais que uma vida ou a alegria de t�-1a.
� isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que h�o-de falar-vos tanto
n�o � sen�o essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez algu�m
est� menos vivo ou sofre ou morre
para que um s� de v�s resista um pouco mais
� morte que � de todos e vir�.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ningu�m, sem terror, sem ambi��o,
e sobretudo sem desapego ou indiferen�a,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta ang�stia, um dia
- mesmo que o t�dio de um mundo feliz vos persiga -
n�o h�o-de ser em v�o. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos s�culos
de opress�o e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsol�vel.
Ser�o ou n�o em v�o? Mas, mesmo que o n�o sejam,
quem ressuscita esses milh�es, quem restitui
n�o s� a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Ju�zo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que n�o viveram, aquele objecto
que n�o fru�ram, aquele gesto
de amor, que fariam �amanh�.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre t�-lo com cuidado, como coisa
que n�o � nossa, que nos � cedida
para a guardarmos respeitosamente
em mem�ria do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros n�o amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25 de Junho de 1959

(Jorge de Sena)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL


Calceteiros na Pra�a da Liberdade, no Porto.

(�lvaro Mendon�a)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(24 de Abril de 2006)


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Por mim, os jornais em papel n�o perdem nas vendas. Leio-os em linha e dias depois em papel. A experi�ncia de ler em papel � muito diferente de ler em linha e, �s vezes, perde-se muito ao n�o se poder "ver". Mas h� outro aspecto interessante, que � o perceber como os jornais suportam a prova do tempo, mesmo que seja a de alguns dias. � um exerc�cio muito �til e pedag�gico.

Acabei agora de ler a Vis�o com v�rios dias de atraso. Duas coisas interessantes: a caricatura do "Puro veneno" com um Bush a rasgar e a comer um tapete persa. A legenda � que � interessante: "N�o suporta nada que tenha a ver com o Ir�o!" diz uma voz off. No entender do caricaturista seria interessante saber o que � que hoje � "suport�vel" no Ir�o.

A outra � uma explica��o de Freitas do Amaral sobre a sua ida ao Canad� que foi ignorada pela imprensa, certamente porque o assunto j� n�o est� na agenda medi�tica. Independentemente de se concordar ou n�o com o MNE, uma coisa tem que se elogiar: Freitas do Amaral desce muitas vezes da sua posi��o ministerial para se explicar, o que � um m�rito.

*

Book Cover A. S. Byatt sobre Everyman, o novo Philip Roth:
"Roth's characters inhabit a truly post-religious world, in which we do not have immortal souls, only sick, lively desire, and the dying of the animal. The title of this new, bleak tale is taken from a mediaeval morality play in which Everyman, the human soul, is called by Death to appear before God's judgement seat. He is deserted by his strength, discretion, beauty, knowledge and five wits, leaving only his Good Works to speak for him at the end."
 


EARLY MORNING BLOGS 765

http://www.uscg.mil/lantarea/iip/Photo_Gallery/Icebergs_Images/block%20icebergs.jpg

Icebergs

Icebergs, sans garde-fou, sans ceinture, o� de vieux cormorans
abattus et les �mes des matelots morts r�cemment viennent s'accouder
aux nuits enchanteresses de l`hyperbor�al.

Icebergs, Icebergs, cath�drales sans religion de l'hiver �ternel,
enrob�s dans la calotte glaciaire de la plan�te Terre.
Combien hauts, combien purs sont tes bords enfant�s par le froid.

Icebergs, Icebergs, dos du Nord-Atlantique, augustes Bouddhas gel�s
sur des mers incontempl�es. Phares scintillants de la Mort sans issue, le
cri �perdu du silence dure des si�cles.

Icebergs, Icebergs, Solitaires sans besoin, des pays bouch�s, distants,
et libres de vermine. Parents des �les, parents des sources, comme je
vous vois, comme vous m'�tes familiers...

(Henri Michaux)

*

Bom dia!

23.4.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SUSTO E PAVOR



Na habitual linha editorial das nossas TVs de sinal aberto que est�o mais ao n�vel das "trash TVs" de 3� mundo, arrepia at� pensar no que vir� por a� em Junho 2006 com o inicio do mundial de futebol na Alemanha. O hor�rio nobre ser� tomado de assalto pela barb�rie da futebol�ndia com reportagens no inicio, no meio e no fim dos telejornais c� do burgo com noticias t�o relevantes como a les�o do avan�ado, o cart�o amarelo ou a cor do underware da selec��o portuguesa...

� assim a nossa pequen�s, a nossa cultura saloia, a nossa prociss�o medi�tica profano - religiosa em que pululam express�es com o "sobretudo de Mourinho", "o regresso de Mantorras" ou "as escolhas de Felip�o" que fazem as primeiras p�ginas at� de jornais ditos de refer�ncia...
Portugal � o paradigma de pequena p�tria ansiosa por her�is perenes que nada acrescentam de concreto ao verdadeiro desenvolvimento do pa�s... Portugal � uma p�tria exacerbada, uma esp�cie de "bonfire of vanities" � espera que her�is virtuais fa�am grandes milagres...e o pior ?
O pior, � que at� as designadas elites que nos governam e desgovernam alinham no esquema...

(Ant�nio Ruivo)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(23 de Abril de 2006)


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Num pilar de acesso � Ponte 25 de Abril:



"Dr. Salazar"? Se fosse s� "Salazar" percebia-se, o "Dr." � que � todo um programa em duas letras. Salazar era Professor, "Prof.", mais do que apenas "Dr.", mas na altura bastavam as duas letras para enunciar a distin��o. O autor da inscri��o sente essa distin��o tanto quanto a quer transmitir com a simplicidade de um nome que diz tudo. � uma pichagem ing�nua e por isso eficaz. Mas n�o h� diferen�a nenhuma entre este "Dr." e o "camarada" das pichagens sobre o "camarada Gonzalo".

*
(...) tanto quanto sei (e pouco mais sei que isso), "Dr. Salazar" � o nome de uma banda que, ali�s, chegou a actuar na Festa do Avante, h� uns anos atr�s. Essa inscri��o est� em in�meros outros s�tios. Parece-me que estes factos alteram o pr�ncipio (uma inscri��o isolada, num local espec�fico) de que parte para o seu racioc�nio e interpreta��o.

(Rui Almeida)

*

A pichagem na ponte, al�m da possibilidade de se relacionar com a banda, ou as considera��es �cerca do "Dr.", n�o estar� mais ligada com o exemplo do postal de que junto c�pia?



(Vieira Pinto)
*

"Ouvido" no Overheard in New York
Does Psycho Killer Start with P?

Girl: I'm thinking of an animal that starts with a P.

Guy: Porcupine?

Girl: No. Wait, are those big smears of blood all over that subway map?

Guy: I think they're paint.

Girl: They're totally blood.

Guy: [looks harder] Yeah, you're totally right... Penguin?
Girl: Nope!
--

1 train
: Overheard by: djlindee
 


EARLY MORNING BLOGS 764

La G�nisse, la Ch�vre, et la Brebis, en soci�t� avec le Lion

La G�nisse, la Ch�vre, et leur soeur la Brebis,
Avec un fier Lion, seigneur du voisinage,
Firent soci�t�, dit-on, au temps jadis,
Et mirent en commun le gain et le dommage.
Dans les lacs de la Ch�vre un Cerf se trouva pris.
Vers ses associ�s aussit�t elle envoie.
Eux venus, le Lion par ses ongles compta,
Et dit : "Nous sommes quatre � partager la proie. "
Puis en autant de parts le Cerf il d�pe�a ;
Prit pour lui la premi�re en qualit� de Sire :
"Elle doit �tre � moi, dit-il ; et la raison,
C'est que je m'appelle Lion :
A cela l'on n'a rien � dire.
La seconde, par droit, me doit �choir encor :
Ce droit, vous le savez, c'est le droit du plus fort
Comme le plus vaillant, je pr�tends la troisi�me.
Si quelqu'une de vous touche � la quatri�me,
Je l'�tranglerai tout d'abord. "

(La Fontaine)

*

Bom dia!

22.4.06
 


VER A NOITE





Agora mesmo, numa terra sem luz p�blica, imersa numa escurid�o quase total.

*

Outra mudan�a, mais subtil, a da geografia interior da casa. Sem a luz que entra de fora, da lua (que n�o h�), dos candeeiros, que est�o apagados, os contornos da casa perdem-se por dentro. As janelas abrem-se para um escuro que fecha a casa em si mesma. � dif�cil atravess�-la sem abrir todas as luzes, falta um reflexo de uma clarab�ia, um tra�o amarelo que vem da rua, um rastro de n�on ou de magn�sio, mesmo de longe, do mundo exterior.
 


COISAS DA S�BADO: OS TELEJORNAIS DOENTES COM TANTA DOEN�A

Hoje n�o h� telejornal sem doen�as. Ou s�o congressos sobre doen�as, com reportagens sobre os doentes, ou s�o campanhas contra esta ou aquela doen�a, mais reportagens sobre os doentes; ou s�o casos raros, abstrusos, excepcionais, sobre uma doen�a que ataca meia d�zia de pessoas, mais reportagens sobre os doentes da rara doen�a. N�o � poss�vel chegar ao fim do longo tempo de notici�rio sem a dan�a intercalada entre o futebol e as doen�as. Nos per�odos de �opera��es� da GNR para controlar o tr�nsito das pontes, minif�rias idas e vindas de feriados e f�rias pequenas, m�dias e grandes, como se sabe uma actividade constante entre os portugueses, temos o menu intercalado entre futebol, doen�as, acidentes e filas de tr�nsito. Infeliz pa�s o nosso, que s� tem doen�as. Feliz pa�s o nosso, em que n�o h� not�cias.
 


COISAS DA S�BADO: O FINANCIAMENTO DO HAMAS

O Hamas ganhou as elei��es no territ�rio da Autoridade Palestiniana. Muito bem. Ganhando as elei��es deve constituir governo. Muito bem. Um dos erros tr�gicos da diplomacia ocidental, que se pagou com uma guerra civil foi apoiar o golpe de estado contra a FIS na Arg�lia, impedindo-a de chegar ao governo. O Hamas n�o quer mudar duas das suas posi��es centrais � o n�o reconhecimento da exist�ncia de Israel e o apelo � viol�ncia bombista contra os israelitas. Muito bem, embora aqui seja muito mal. O Hamas coloca-se assim fora do �processo de paz� tal como ele existia, mesmo que fragilmente. Muito bem, est� no direito de o fazer. O que n�o pode, nem ele, nem os seus �compreensivos� amigos na esquerda ocidental, � querer que Israel, os EUA e a Uni�o Europeia continuem a financiar o governo palestiniano do Hamas, financiamento que era um contrapartida para a aceita��o do �processo de paz�.
 


ARQUIVO: OUTRAS M�SICAS






Velhos discos de 45 RPM, directa ou indirectamente relacionados com a vida pol�tica.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM SANTIAGO DE COMPOSTELA, ESPANHA


Abastecimento matinal (08H00 da manh�, 07H00 na rep�blica portuguesa).

(Jos� Pedro Oliveira S.)
 


EARLY MORNING BLOGS 763

Today and Two Thousand Years from Now

The job is over. We stand under the trees
waiting to be told what to do,
but the job is over.

The darkness pours between the branches above,
but the moon's not yet
on its walk

through the night sky trailed by stars.
Suddenly a match flares, I see
there are only us two,

you and me, alone together in the great room
of the night world, two laborers
with nothing to do,

so I lean to the little flame and light my Lucky
and thank you, comrade, and again
we are in the dark.

Let me now predict the future. Two thousand years
from now we two will be older,
wiser, having escaped

the fleeting incarnations of workingmen.
We will have risen from the earth
of southern Michigan

through the tangled roots of Chinese elms
or ancient rosebushes to take
the tainted air

into our leaves and send it back, purified,
down the same trail we took
to escape the dark.

Two thousand years passed in a flash to shed
no more light than a wooden match
gave under the trees

when you and I were lost kids, more scared than
now, but warm, useless, with names
and different faces.

(Philip Levine)

*

Bom dia!

21.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM SORGA�OSA, SERRA DO A�OR - ARGANIL, PORTUGAL


Carregando um tronco de pinheiro para fazer cavacas destinadas � fogueira.

(Ant�nio Lopes Pedro)
 


INTEND�NCIA

Actualizadas as notas NUNCA � TARDE PARA APRENDER: "A ILHA HER�ICA" (MALTA STORY) e A FAUNA DAS CAIXAS DOS COMENT�RIOS.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(21 de Abril de 2006)


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N�s temos o nacionalismo t�pico dos pobrezinhos: o astronauta brasileiro foi quase sempre designado no Telejornal das 12 horas da RTP1 como "lus�fono", e o ter-se falado portugu�s no espa�o como o evento principal da viagem. Como se Portugal tivesse algum m�rito, algum papel, na ida para o espa�o do nosso estimado brasileiro.

*
Ao ler o seu post lembrei-me que no passado j� tinha sentido o mesmo, nas �ltimas elei��es americanas com a senhora Teresa Heinz Kerry e a possiblidade da primeira dama americana falar portugu�s.

Nacionalismo � parte, fico contente quando os "outros" se lembram de "n�s", em geral devido ao futebol, o que � pena, mas deve ser a �nica coisa em que temos tido visibilidade junto do p�blico em geral.

No ano passado por esta altura, passava na �frica do Sul um an�ncio de televis�o da cerveja Castle que terminava em Portugal com imagens da bandeira portuguesa[a liga��o da bandeira � cerveja n�o me agradou muito, confesso] e de um jogo de futebol no novo est�dio de Alvalade. Ou ainda � poucos dias, num canal de televis�o eg�pcio, passava um filme local onde uma das personagens a determinada altura envergava a camisola 7 da selec��o nacional.

(Nuno Alexandre Lopes Marques aka Temba)

*

A prop�sito da observa��o/quest�o colocada pelo leitor Rui C. Barbosa: eu sentir-me-ia exactamente da mesma forma, como antes de ouvir o erro do tradutor oficial. Provavelmente pensaria que ele, pela profiss�o, teria obriga��o de o n�o cometer. A �nica coisa que me poderia incomodar, enquanto portugu�s, � que ali estava, como se mais fossem necess�rios, outro exemplo de como as pessoas deste pa�s negligenciaram, d�cadas a fio, a pr�pria l�ngua e a sua divulga��o. A l�ngua inglesa tamb�m n�o nasceu nos EUA (tal como o portugu�s no Brasil), pa�s esmagadoramente dominante a v�rios n�veis, e ningu�m se refere � l�ngua americana.

Paulo Azevedo

*

Obviamente que Portugal n�o tem nenhum m�rito na viagem de Marcos Pontes. No entanto gostava de saber como se sentiria se ouvisse o tradutor ocifial da comitiva brasileira presente nas confer�ncias de imprensa �s quais assisti em Baikonur a dizer aos presentes que primeiro falaria em 'brasileiro' e depois traduziria para russo e que os representantes do Brasil falariam em 'brasileiro'. N�o deixa de ser curioso que era o pr�prio Marcos Pontes a dizer que falava primeiro em portugu�s e depois em ingl�s e russo.


Eu pr�prio salientei v�rias vezes em Baikonur que Marcos Pontes era o primeiro astronauta a falar portugu�s a viajar no espa�o, coisa que muito me orgulhava.

(Rui C. Barbosa)

*

Fazem parte desse nacionalismo dos pobrezinhos coisas como �o Chelsea de Mourinho�, �o Milan de Rui Costa�, �o Barcelona de Deco� - e por a� fora, em "not�cias" em que a realidade � virada de pernas para o ar para g�udio da saloiada nacional. H� tempos, at� teve destaque na TV um golo de um futebolista da Selec��o dos Camar�es s� porque o homem era treinado, l� na sua terra, por um portugu�s!

Se esses patriotas-da-treta resolverem, tamb�m, deitar foguetes pelo facto de uma das personagens principais do romance �Fotaleza Digital� ser portugu�s, esperemos que omitam que ele � o assassino...

(C. Medina Ribeiro)
*

Dilemas dos acad�micos na televis�o: sound bites ou argumentos?

*

Sartre e Beauvoir, o casal insuport�vel, come�a a ter boa imprensa. N�o h� nada que, deixando passar o tempo e as f�rias, n�o tenha boa imprensa. Ele dizia " Je suis �crivain, j'ai besoin d'amours contingentes !", ela era menorizada como La Grande Sartreuse. Agora um telefilme Amants du Flore retoma a hist�ria do casal e Assouline conclui:
"Mais des deux, le g�nie, c'est elle. Rien dans l'oeuvre de Sartre n'arrivera � la capacit� d'influence et de bouleversement des mentalit�s du Deuxi�me sexe. Sur la dur�e et dans la profondeur, c'est Beauvoir qui restera -et qui reste d�j�, n'en d�plaise � la secte des gardiens du temple sartrien, qui d'ordinaire assimile la moindre r�serve � une insulte."
*

Algumas perguntas e afirma��es certeiras de Jo�o Adelino Faria no Di�rio de Not�cias:
"H� quanto tempo n�o damos not�cias? H� quanto tempo n�s, jornalistas, corremos quase obsessivamente, todos os dias, para escutar mais uma reac��o sobre uma declara��o feita por um ministro, pol�tico, advogado, juiz ou procurador? (...) Porque andamos todos atr�s uns dos outros? Um jornal avan�a com um tema, a r�dio segue, a televis�o completa, ou vice- -versa - a ordem pouco importa. � uma tarefa quase ingl�ria descobrir algo diferente nos jornais, na r�dio e na televis�o. Estamos todos quase sempre � volta do mesmo.(...)

O que esta semana � relatado at� � exaust�o, na seguinte � substitu�do ou suspenso porque outras novas alegadas hist�rias surgiram, ou assim nos fizeram crer, para matar as anteriores. S�o not�cias esquecidas que s� voltam � primeira p�gina quando surgir algo de novo. O que esquecemos muitas vezes � que somos n�s quem tem a responsabilidade de encontrar o desenvolvimento e n�o esperar pela vontade daqueles que det�m a informa��o e n�o t�m interesse em divulg�-la.

Temos fama de contrapoder ou quarto poder, mas n�o se pode viver eternamente da reputa��o - h� que fazer justi�a ao nome e isso depende de todos e de cada um que ainda quer fazer jornalismo."
 


EARLY MORNING BLOGS 762

International Incidents


1.

Wang Ping asks if
we went to a seder
last night
She did,
in Minneapolis
No, I say, we�re not
observant
as though we constantly
overlook details

2.

The teachers in the lounge
crowd around the
Swedish visitor
You must be very proud
one of them beams
to be Swedish
She has no idea
what that means
She says,
I don�t dislike
being Swedish

3.

Who�s ever met a Bulgarian?
he would shout in the bar
Then one night
two homely blond sisters
smiled and said
We are Bulgarians!
They smiled for two weeks
then went away forever

(Robert Hershon)

*

Bom dia!

20.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM CORUCHE, PORTUGAL


Lavrando, Coruche, Vale do Sorraia, Abril 2006.

(Ant�nio Ferreira de Sousa)
 


A FAUNA DAS CAIXAS DOS COMENT�RIOS



A Rede est� a mudar tudo, a criar coisas novas, a realizar outras muito antigas que as tecnologias at� agora existentes ainda n�o permitiam e a dar efic�cia a velhos, e muitas vezes maus, h�bitos que existiam no mundo exterior e agora passam para o mundo interior da Internet. Alguns casos recentes voltaram de novo a mostrar a Internet sob uma luz pouco am�vel, bem preconceituosa ali�s, porque nada do que l� se faz se deixou de fazer c� fora. O que h� � um upgrade tecnol�gico no crime, que a Rede melhora e nalguns casos favorece pela sua acessibilidade e universalidade. S�o estes os m�ltiplos exemplos da chamada �fraude nigeriana�, ou os casos de Phishing que leva os incautos a fornecerem palavras-passe de acesso a contas banc�rias; os casos de �cyberstalkers�, pessoas que perseguem outras cujo nome e morada aparece na Internet. Isto tudo depois da pedofilia, e de outras utiliza��es criminosas da Rede.

O que � novo na Rede, quer na �normal� quer na criminosa, s�o as caracter�sticas psicol�gicas especificas do mundo em linha, em especial a explora��o da fronteira, mais t�nue do que parece, entre a realidade e a virtualidade. E isso traz elementos novos como se v� se analisarmos para al�m do crime em si. Um caso actual � o do assassinato de uma menina de 10 anos, por um autor do blogue chamado �Strange Things are Afoot at the Circle K.� , que tinha feito pouco antes um coment�rio sobre canibalismo, O que h� de novo neste caso e no interesse medi�tico sobre ele, � que em vez de um di�rio em papel, ou escritos mais ou menos dementes ou geniais, como era o caso pr�-Internet do Unabomber, agora, quase de imediato, todos se voltam para o blogue, para o perfil do blogue, para o rastro na Rede do putativo criminoso. A Rede fica indissoci�vel da nova identidade das coisas, como se entre o mundo virtual e o real a teia fosse completa. E, se calhar, �.

Mas n�o � este apenas o �nico aspecto interessante, h� outro para que n�o se tem chamado a aten��o: o mundo muito pr�prio dos que escrevem sobre textos alheios nas caixas de coment�rios dos blogues ou de �rg�os de comunica��o em linha. O Strange Things are Afoot at the Circle K. continua em linha e tem, � data em que escrevo, 644 coment�rios na �ltima nota escrita pelo seu autor, todos eles posteriores ao conhecimento do crime. O blogue continua vivo mesmo depois da pris�o do seu autor.

Mas os 644 coment�rios empalidecem face aos portugueses 1321 coment�rios do Semiramis cuja an�nima autora teria morrido de morte s�bita, suscitando as mais contradit�rias vers�es na pr�pria caixa de coment�rios do blogue. Deixando de parte a pol�mica sobre as caixas de coment�rios abertas ou moderadas, ou sobre a sua pr�pria utilidade e valor, deixando de lado tamb�m a hist�ria pessoal inverific�vel do que aconteceu � sua autora (ou autor?) an�nimo, o interessante � registar que o que h� nesse blogue � uma comunidade que aproveita o �lugar� para se encontrar. A caixa de coment�rios tornou-se numa esp�cie de chat, que parasita a notoriedade do blogue, como j� acontecera no Espectro com os seus finais 494 coment�rios, onde as pessoas se encontram numa pequen�ssima �aldeia global�, que tomam como sua.

O comportamento destas pessoas-em-linha � compulsivo, eles �habitam� nas caixas de coment�rios que s�o a sua casa. Deslocam-se de caixa para caixa de coment�rio, deixando centenas de frases, nos s�tios mais d�spares, revelando nalguns casos uma disponibilidade quase total para comentar, contra-comentar, atacar, responder, mantendo s�ries enormes que obedecem � regra de muitos frequentadores desta �rea da Rede: hor�rio laboral na maioria dos casos, quebra no fim-de-semana e nos feriados. S�o pessoas que est�o a escrever do seu local de trabalho ou de estudo, de empresas ou de escolas, onde tem acesso � Internet. H� no entanto, alguns casos de comentadores caseiros e noct�vagos, que s� podem estar a escrever noite dentro, como era o caso nos primeiros anos da blogosfera portuguesa, antes de se democratizar. � um fen�meno aparentado com muitas outras experi�ncias comunit�rias na Rede, mas est� longe de ser o mundo adolescente dos frequentadores do MySpace ou dos �salas� de conversa virtual.

No caso portugu�s, os comentadores n�o parecem ser muitos, embora a profus�o de pseud�nimos e nick names, d� uma imagem de multiplicidade. S�o, na sua esmagadora maioria, an�nimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento m�tuo de blogue para blogue. Est�o a meio caminho entre um nome que n�o desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e n�o querem ser reconhecidos. � o caso da �Zazie�, do �Euroliberal�, do �Sniper�, do �Piscoiso�, �Maloud�, �Bajoulo� �Xatoo�, �Atento�, Dasanta�, �Jos�, �e-konoklasta�, �Cris�, �Sabine�, �Jos� Sarney�, �anti-comuna�, etc,, etc, Trocam entre si sinais de reconhecimento, cumprimentam-se, desejam-se boas f�rias, e formam mini-comunidades que duram o tempo de uma caixa de coment�rios aberta e activa, o que normalmente dura pouco. Depois migram para outra, sempre numa tempestade de frases, expressando acordos e desacordos, simpatias e antipatias, quase sempre centrados na actividade de dizer mal de tudo e de todos.

Imaginam-se como uma esp�cie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de express�o, igualit�rios absolutos, que consideram que as suas opini�es representam o �povo�, os �que n�o tem voz� os deserdados da opini�o, oprimidos pelos conhecidos, pelos c�lebres, pelos �sempre os mesmos�. S�o eles que dizem as �verdades�. Mas n�o h� s� o reflexo do populismo e da sua vis�o invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, h� tamb�m uma procura de aten��o, uma puls�o psicol�gica para existir que se revela na parasita��o dos blogues alheios. Muitos destes comentadores t�m blogues pr�prios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de coment�rios dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes d� uma audi�ncia que n�o conseguem ter.

N�o s�o bem �Trolls�, sabotadores intencionais, mas tem muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profus�o de coment�rios insultuosos e ofensivos que afastam da discuss�o todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de coment�rios aberta e sem modera��o. Quando h� um embri�o de discuss�o, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela � quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ral� moral, os ladr�es, os pregui�osos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que l� se passa � o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinua��es, inj�rias, boatos, cita��es falsas e truncadas, den�ncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , n�o � novo, porque assenta na tradi��o nacional de maledic�ncia, tinha e tem assento nas mesas de caf�, mas a que a Rede d� a impunidade do anonimato e uma dimens�o e amplifica��o universal.

O que � que gera esta gente, em que mundo perverso, �cido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez n�o � principalmente material, embora tamb�m seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas � acima de tudo simb�lica. Numa sociedade que produz uma puls�o para a mediatiza��o de tudo, para a espectaculariza��o da identidade, para os �quinze minutos de fama� e depois deixa no anonimato e na sombra os prolet�rios da fama e da influ�ncia, os g�nios incompreendidos, os justiceiros an�nimos, o �povo� das caixas de coment�rios, n�o � de admirar que se esteja em plena luta de classes.

(No P�blico de hoje.)

*
Quanto ao assunto das caixas de coment�rios, h� caixas e caixas. Como h� sempre comentadores de todos os estilos e para todos os gostos, o resultado depende em grande parte da forma como � gerida (ou n�o) a aceita��o de coment�rios. Veja por exemplo o bom caso d'A Baixa do Porto , em que a "caixa de coment�rios" _�_ a pr�pria p�gina principal do blog.

(Tiago Azevedo Fernandes)

*

Achei interessante a reflex�o que fez no seu artigo do P�blico. Reconhe�o l� muita coisa.Mas tamb�m julgo que falta l� outro tanto, creio. O ano passado teve a bondade de integrarat� uma reflex�o que continha uma cr�tica (exposta num blog - A amea�a dos weblogs), estou certo que desta vez n�o lhe faltar� igual coragem e coer�ncia. Julgo que se n�o tem a caixa de coment�rios aberta para n�o lhe suceder o mesmo que ao espectro, faz bem; j� o que n�o se compreende - uma vez que isso contraria o princ�pio do rizoma que comanda a rede das redes que, por vezes, � mais uma teia, � que n�o tenha links na vitrina do seu template. No fundo, fala-nos da sociedade digital do s�c. XXI e depois o seu template recorda-nos os tempos de novecentos e do arranque dos caminhos-de-ferro, em que o bom do E�a quando se deslocava de Cascais a Carcavelos demorava umas 3 horas. Ora bolas, assim � que n�o!! J� agora, acha que se o E�a fosse vivo, para tristeza de muitos espectros, teria a caixa de coment�rios aberta? E teria links?

(Rui Paula de Matos)

*

Era expect�vel que JPP pretendesse reduzir a participa��o de uma ampla diversidade de comentadores em blogues a um saco de gatos an�nimos - resulta da compreens�o dos spin-doctors quando se apercebem estar perante um novo meio de comunica��o dificil de controlar como at� aqui o foram os jornais de refer�ncia, ou muito mais importante, a televis�o, ambas ferramentas de manipula��o detidas pelas corpora��es da desinforma��o.

�bviamente fui referido no artigo publicado como "postador de coment�rios", enquanto se omitiu deligentemente que eu pr�prio sou autor de um Blogue. Como se cada um de n�s n�o tivesse nada a dizer, ou pior do que isso, como se essa opini�o n�o interessasse verdadeiramente para nada.

(Francisco Pereira)

*

(...) a sua ca�a aos an�nimos parece-me algo esquisita e muito, muito inconveniente.

Em priemeiro lugar porque normaliza os comportamentos: para s�, um an�nimo ( ou algu�m que escreve sob pseud�nimo ) � um ser que pertence a "esta gente," que vive num "mundo perverso, �cido, infeliz, ressentido".

Nada mais errado. H� tantos comportamentos poss�veis quanto pessoas diferentes. Eu n�o posso falar dos outros (um erro em que o Abrupto incorre e que envenena tudo o que diz) por isso vou falar por mim. Hele em dia escrevo sob pseudonimo (hoje sou o Guy Fawkes e j� fui o Harry Lime) e chamo-me Rui Silva e possuo um blog al�m disso comento frequentemente outros blogs. Quer no meu blog quer nas caixas de coment�rios j� escrevi sob estas tr�s formas.

A minha atitude nas caixas de coment�rios varia de blog para blog e do tom que cada um deles me inspira. Exemplos: no Barnab� (onde comentei sempre sob o nome de Rui Silva) publicava coment�rios muito violentos porque era esse o tom que aquele blog pedia. Aquilo era um blog de combate e a minha atitude perante ele era uma atitude de combate. E divertia-me muito com os doidos que andavam por l�.

Noutros blogs (na Janela Indiscreta, por exemplo) j� comentei sob qualquer uma das 3 formas e fiz alguns amigos (que comentam frequentemente no meu blog) da maneira como os blogs pediam: moderadamente e concordando ou discordando educadamente. Existe ainda um terceiro caso: o dos blogs de futebol. A� tenho de confessar que prefiro mil vezes os blogs benfiquistas (sou do sporting) e quando l� vou comento violentamente e sem cerim�nias. Num deles at� j� me acusaram de ser um troll...

Al�m disto, � de assinalar que tenho uma vida social saudavel. Gosto de muito de livros, de boa m�sica, de filmes, de sair � noite, de jogar Playstation e de jantar com os meu amigos (um deles � o benfiquista que me chamou troll). Trabalho muito, numa multinacional de consultoria. Serei um anormal?

Perante o que acabei de lhe descrever acha que eu encaixo nesse perfil que descreve? E se eu n�o encaixo como � que tem a certeza que os outros encaixam?

Pense muito bem no que escreve. Nestas coisas cada caso � um caso. E � sempre errado reduzi-los a esterotipos. N�o o fa�a por favor e deixe as pessoas "andar � vontade com as botas" como dizia o meu av� .

(Rui Silva, aka Harry Lime aka Guy Fwakes)

*

Acho que generalizou demais e agora tem a fauna toda � porta, de tal modo que as excep��es arriscam-se a ser a regra.

Do alto do seu Abrupto, sem caixa de coment�rios e sem "blogroll", n�o sei at� que ponto se apercebe que a caixa dos coment�rios � tamb�m a imagem do autor do blog. Ou apercebeu-se bem demais e precocemente. A qualidade das caixas de coment�rios, leia-se e infiro do seu texto, a falta dela, � um reflexo directo dos autores dos blogs, que em nome de grande e piedoso "esp�rito democr�tico" e "anti- cens�rio", se d�o � ociosidade de publicar rigorosamente tudo, como se de uma grande qualidade se tratasse. Pregui�a.

Desde que li o primeiro e-mail em 1993, fui compreendendo que isto do teclado � uma fonte de mal-entendidos. Pode classificar e arquivar a� muita da acidez que detecta. Se juntar a leveza de esp�rito de conversar para um monitor, com um nome de guerra, tem grande parte do caldo. Mas n�o tem todo.

N�o tenho visto no meu blog, que quero cada vez mais de jardinagem, coment�rios "perversos", "�cidos" e "ressentidos". Nas poucas vezes, apaguei-os sem olhar para tr�s e sem dar grandes satisfa��es. Mas � verdade que a discuss�o j� chegou a azedar nos nossos temas "fracturantes" (aquecimento global, ogms...). Podia listar dezenas de blogs, "Dias Com �rvores", "Guilhermina Succia", " A Cidade Surpreendente"... onde a contradi��o com o que diz � flagrante. � caso para me questionar (como se n�o soubesse), a que universo reduziu os blogs em que se movimentou ou movimenta, para generalizar com esta aparente autoridade. Afinal, concluo tamb�m, que as caixas de coment�rios, al�m de reflexo do "blogger", s�o uma esp�cie de trang�nico dos temas que tratam.

� inevit�vel n�o regressar aos autores e tamb�m j� falou anteriormente disso, designadamente na rela��o dos blogs com a "imprensa tradicional". De momento n�o me posso considerar um observador especialmente atento do fen�meno, porque os temas interessam-me pouco ou nada, mas quem � algu�m na blogosfera ao n�vel de poder aspirar a formar opini�es, j� era algu�m antes na imprensa escrita, r�dio e/ou televis�o. Os que por acaso ou m�rito, n�o sei, atingiram um determinado n�vel de visitantes anunciados (podia-se discutir a sua qualidade enquanto visitantes para al�m da caixa de coment�rios) e visibilidade, andam por a� de bicos de p�s a ver se essa tal imprensa repara neles. Tamb�m acham que t�m direito a 15 minutos de fama, provavelmente a mais. Tamb�m eles j� viram que os blogs de refer�ncia, est�o bem alicer�ados n�o s� na qualidade do seu conte�do, mas tamb�m e principalmente, na visibilidade mediatica dos seus autores. O fogo-f�tuo da blogosfera, que deu pelo nome de Espectro, s� foi excep��o na sua falta de endurance. E a recep��o foi digna de ser vista. Aqueles pobres autores nunca imaginaram que tinham tantos amigos.

Voltando ao in�cio, nesses blogs onde se baseou para lavrar esta teoria, a rela��o entre comentado e comentador, � muito mais de simbiose que de parasitismo. Para os 15 minutos, valem mais 100 coment�rios idiotas, ruidosos e que praticamente ningu�m l�, que meia- d�zia de coment�rios sensatos, podendo estes, inclusivamente, tornar- se inconvenientes. Ali�s, � regra o autor do "post" retirar-se para parte incerta e deixar "o bom povo portugu�s" fazer o seu papel.

(Jos� Rui Fernandes)

*

Eu j� pus meia duzia de posts anonimos em dois ou tr�s blogues, devo pertencer aos tais ing�nuos e acho que tem raz�o. Gostava de acrescentar uma coisa - a solid�o de quem bloga � enorme. A actividade � muito impessoal - n�o se v� o outro - e talvez / provavelmente por isso a asneira � tanta.

(Eduardo Tom�)

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Desde que existem blogues, f�runs e caixas de coment�rios passei a ser um ser muito mais social. Agora escuso de me irritar ou contrariar e discutir com algu�m, seja amigo, familiar ou simples desconhecido, sempre que n�o concordo com o que oi�o. N�o vale a pena! Mais vale concordar "Pois �..." ou ficar calado e continuar nas gra�as dessa pessoa. J� n�o oi�o mais: "Est�s a ser demasiado radical" ou "Est�s a ser fundamentalista".

Agora tenho na net o espa�o para expressar as minhas opini�es, para discordar quando quero, para "converter" os outros, se calhar at� para uma audi�ncia maior sem que a minha sociabilidade fique beliscada.

(Paulo Martins)

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Hoje n�o li o P�blico, (...) mas a partir de certa altura, comecei a achar bizarro, toda a gente a desprop�sito falar-me da sua coluna. Entretanto j� estou informada do ins�lito.

Pelos outros n�o posso falar, mas por mim posso. Comecei a �blogar� no Espectro com o meu nome. Como n�o conhecia as regras, cometi numerosas imprud�ncias. A fam�lia come�ou a temer que me tocassem � campainha e arranjaram-me um nick, Maloud. Continuei com a mesma descontrac��o, mas houve gente que embirrou com aquilo a que chamavam a minha vacuidade. Tornou-se insuport�vel, porque estou habituada �s boas maneiras. Bati a porta com estrondo e simultaneamente com pena. Toda a gente c� em casa me incentivava a continuar, e arranjaram-me outro nick, DasAntas. Quando o Espectro se suicidou, deixei cair o DasAntas, fiquei com alguns contactos pessoais e outros por e-mail, que mantenho. Um deles que o Sr. Dr. n�o cita, porque escrevia como An�nimo, mas terminava sempre por Niet, telefona-me de Estugarda e e-maila-me todos os dias os links, para artigos de jornais franceses, visto eu dominar mal o ingl�s. Tem raz�o, quando diz que se criam uma esp�cie de cumplicidade e de amizade entre gente que n�o se conhece {um veio ao Porto conhecer-me}. Mas sabe, no meu caso, acho estas pessoas muito mais interessantes do que as �tias� das Antas com que me vou dando e, por outro lado, os filhos, embora vivendo c� em casa, cresceram e pouco precisam de mim e o meu marido � verdadeiramente ocupado. Acho que n�o prejudico ningu�m �blogando� e a mim d�-me gozo.

Como talvez me tenha feito entender, v� que nada tenho a esconder, nem me envergonho do que sou. O nick existe mais para proteger a fam�lia do que a mim pr�pria, visto ser uma dona de casa an�nima do Porto.

(autor identificado, Maloud)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: "A ILHA HER�ICA" (MALTA STORY)

http://www.pierluigisurace.it/imagerie/images/aatw/dot_malta_map_1.jpg O filme foi feito em 1953 j� o esquecimento e outras preocupa��es come�avam a apagar a mem�ria da epopeia maltesa durante a segunda guerra mundial. Basta olhar para um mapa para se perceber como Malta estava no pior s�tio do mundo (para os seus defensores, para os malteses e para os italianos e alem�es) e no melhor s�tio do mundo (para os bombardeiros alem�es, e para os ingleses que queriam cortar as rotas de abastecimento de Rommel). Isolada praticamente em territ�rio inimigo, Malta tinha que ser reabastecida com enormes dificuldades por submarinos e por comboios, que atravessavam uma das zonas mais perigosas de toda a guerra: avi�es alem�es, navios italianos e um emaranhado de campos de minas que protegiam a ilha, e cujas estreitas vias de acesso n�o permitiam qualquer erro.

O filme retrata o momento crucial em que o abastecimento de mantimentos e gasolina para os avi�es estava quase no fim, e foi preciso romper o bloqueio com muita dificuldade. O "her�i" � um piloto de reconhecimento, representado por Alec Guinness, numa das mais aborrecidas e petrificadas actua��es que jamais vi dele: o sorriso � o mesmo quer esteja no seu Spitfire, a namorar a maltesa, ou a beber na messe. Ele � arque�logo (a quantidade de arque�logos inglese que aparecem nesta guerra � abissal...), ela � irm� de um nacionalista malt�s que se tornou espi�o italiano e � fuzilado. O romance, como as personagens, s�o moronic at� ao limite.

O que � interessante: a rara oportunidade de ouvir falar malt�s, a Ave Maria em malt�s; a cidade de Valleta, um posto fronteiri�o �nico do Ocidente com toda a hist�ria turbulenta feita pedra, muralhas, subterr�neos, fortalezas, que aparece aqui em filmes verdadeiros dos bombardeamentos; e tudo o que s�o imagens reais da guerra.

*
A minha fam�lia � de origem maltesa. Os meus trisav�s nasceram em La Valetta e como a fam�lia tinha neg�cios na Pen�nsula Ib�rica o meu bisav� e av� acabaram por se fixar por aqui, depois de terem vivido em Espanha (onde o meu pai nasceu) e do meu av� ter casado com uma francesa do sul, de Cassis. No s�culo XVII, ali�s, os meus antepassados Francesco e Nicola C�lia foram os "senhores" do feudo (fief) de Budaq. Daqui a minha curiosidade e interesse sempre que aparecem refer�ncias a Malta, o que � raro apesar de ser um Estado-Membro da UE. Existem mais fam�lias de origem maltesa em Portugal (Zammit, por exemplo, ligados, salvo erro, ao Vinho do Porto) e � sempre f�cil, pelo menos para n�s, identific�-los pelos apelidos onde quer que estejam. Tamb�m Teresa Heinz-Kerry � uma portuguesa de origem maltesa, por parte da m�e. N�o falo Malt�s, mas sei, por exemplo, que � a �nica l�ngua de origem semita da UE e a tamb�m a �nica que se escreve com alfabeto latino. Penso que a l�ngua � de origem �rabe, embora, hoje em dia, tenha adoptado muitas palavras inglesas (Malta foi col�nia inglesa at� aos anos 60) e italianas. De acrescentar que a George Cross inclu�da na bandeira de Malta foi-lhe atribu�da pela coragem e bravura demonstradas pelo seu povo durante a II Guerra Mundial.

(Jo�o C�lia)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(20 de Abril de 2006)


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Uma nuvem em todo o seu esplendor no Astronomy Picture of the Day.

See Explanation.  Clicking on the picture will download  the highest resolution version available.

*

Uma cadeira de design italiano com livros para quem n�o gosta de livros, vista no Gizmodo.

bibliochaise

Nesta cadeira quem l� onde � que coloca os bra�os? Em cima dos livros estragando-os? E como estante � pequena. Como escultura? Talvez, mas que livros coloca o bibli�filo para se perderem como decora��o? Os repetidos.

*

Que mundo se v� por um buraco de uma agulha? Processos e imagens da fotografia estenopeica, vulgo pinhole..

*

Com um grafismo melhorado a apoiar um coment�rio s�rio e calmo, o Bloguitica continua a detectar o spin. Escapou-lhe um bom exemplo de "not�cia" que todos os ministros desejam e alguns n�o conseguem ter: as tr�s p�ginas do Di�rio de Not�cias, de ter�a-feira, 18 de Abril, incluindo a capa e toda a parte nobre do jornal, sobre o "passaporte electr�nico" a emitir a partir de Setembro.
 


EARLY MORNING BLOGS 761

How Much of That Is Left in Me?

Yearning inside the rejoicing. The heart's famine
within the spirit's joy. Waking up happy
and practicing discontent. Seeing the poverty
in the perfection, but still hungering
for its strictness. Thinking of
a Greek farmer in the orchard,
the white almond blossoms falling and falling
on him as he struggled with his wooden plow.
I remember the stark and precious winters in Paris.
Just after the war when everyone was poor and cold.
I walked hungry through the vacant streets at night
with the snow falling wordlessly in the dark like petals
on the last of the nineteenth century. Substantiality
seemed so near in the grand empty boulevards,
while the famous bronze bells told of time.
Stripping everything down until being was visible.
The ancient buildings and the Seine,
small stone bridges and regal fountains flourishing
in the emptiness. What fine provender in the want.
What freshness in me amid the loneliness.


(Jack Gilbert)

*

Bom dia!

19.4.06
 


INTEND�NCIA

Actualizadas as notas MIS�RIA HUMANA e TERRAS DE PORTUGAL ONDE N�O H� ESTADO: RIBEIRA DOS MILAGRES (LEIRIA).
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ALF�NDEGA DA F�, PORTUGAL


Apanhando giesta.

(Lourdes Sendas)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM SAKHALIN, FEDERA��O RUSSA



Montagem de "pipeline" em Sakhalin, R�ssia, onde trabalha pelo menos um portugu�s, de �gueda, chamado Renato da Costa (autor da fotografia), que � "Spread Superintendent" do projecto de "pipeline" mais caro at� hoje. Quando esta imagem foi feita estavam 30 graus negativos, condi��es dif�ceis, mas nem por isso o trabalho p�ra.

(�ngelo E. Ferreira)

18.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NA FONTE DA TELHA, PORTUGAL


Recolha das redes.

(Jo�o Caetano Dias)
 


MIS�RIA HUMANA



Poucas coisas revelam melhor a mis�ria humana, em todos os sentidos, do que a explora��o da morte tr�gica de um actor de telenovela pela TVI. Est� a transmitir o funeral em directo, como um grande acontecimento nacional, com coment�rios a preceito, explorada a morte at� � obscenidade. Com a colabora��o do "bom povo portugu�s".

*
No seu breve coment�rio acerca da morte de um actor de uma telenovela da TVI, considerou a explora��o daquela como reveladora da mis�ria humana. O que a mim me parece � que �explora��o� e �mis�ria� n�o s�o os dois conceitos mais apropriados para avaliar a decis�o da TVI, se a avalia��o e a an�lise desta decis�o se basear nos pressupostos te�ricos do liberalismo. S�o dois conceitos que remetem mais depressa para uma an�lise marxista, que v� neles uma express�o da aliena��o dos homens.

Para um liberal que se preze, a TVI limitou-se a aproveitar uma oportunidade para conquistar audi�ncias, para dessa forma se imp�r no mercado. Como os liberais fazem quest�o em lembrar-nos, aquilo a que se assistiu foi apenas � espontaneidade dos agentes econ�micos que procuram satisfazer os seus interesses. Dizem-nos, tamb�m, que � dessa espontaneidade e da iniciativa individual que surgem produtos inovadores (como a morte em directo) capazes de conquistar os consumidores. Nessa medida, a morte como espect�culo e como mercadoria �, �apenas�, mais um neg�cio em que os indiv�duos podem � e devem � apostar e arriscar.

E isto � assim porque para o liberalismo n�o tem existir qualquer imposi��o legal ou �tica limitadora da iniciativa individual, pois isso seria um ataque ao livre funcionamento do mercado. Portanto, numa economia capitalista o ser e o dever-ser s�o o mesmo: o que o agente econ�mico �, � o que agente moral deve ser; o interesse daquele confunde-se com os valores deste. Assim, qualquer indigna��o por parte do ser moral s� pode ser uma express�o de um dualismo artificial, criado por quem quer fazer a quadratura do c�rculo.

(Rui Fernando)

*

Esquecendo os interst�cios da defini��o de liberalismo como o v� Rui Fernando, que aposto muitos por�o liminarmente em causa, das duas uma: ou a esta��o n�o respeitou a fam�lia, ou a fam�lia e a esta��o desconhecem que se trata de um espect�culo deplor�vel.

Segundo percebo, h� numa sociedade civilizada, direitos que se t�m e n�o se podem p�r em causa, nem pelo pr�prio "interessado". Um deles � o direito ao respeito em morte.

(Henrique Martins)

*

N�o h� costume contempor�neo recente e mais repugnante que aplaudir os falecidos, s� denota uma falta de vergonha e um exibicionismo ego�sta e torpe por parte dos vivos.Respeito pelas fam�lias e reserva de comportamentos, pois que a morte n�o � um evento publicit�rio.

(Ant�nio Carrilho)

*

A pol�mica sobre o funeral em directo resume-se no essencial ao mesmo que todos os programas televisivos. Existem por que t�m publico. Nenhuma televis�o privada emite seja o que for se n�o lhe permitir ter o tal de �Share�. E quem faz o �Share� � quem v�. Referiu e muito bem o �bom povo portugu�s� no seu post. � esse o culpado. Deixemo-nos de minu�ncias sobre o liberalismo e a moral. No dia em que um concerto de musica cl�ssica tiver mais �share� que um funeral de um actor de telenovelas os mesmos respons�veis pelo mesmo canal televisivo passar�o musica cl�ssica e ignorar�o o funeral. O resto � conversa.

J� h� mais de 2 s�culos que Adam Smith escreveu que as tabernas est�o abertas porque existem b�bados e n�o o contr�rio, rebatendo assim os que acusavam os taberneiros de serem os causadores das bebedeiras. E, entre outras coisas, Adam Smith era professor de moral.

(Miguel Sebasti�o)
 


TERRAS DE PORTUGAL ONDE N�O H� ESTADO:
RIBEIRA DOS MILAGRES (LEIRIA)




Pela en�sima vez, uma descarga de suinicultura, empestou a Ribeira dos Milagres. Est� � vista de todos, foi l� a GNR cobrir a ocorr�ncia, e as televis�es filmaram a porcaria da Ribeira. Talvez se o cheiro se filmasse, e o odor muito peculiar, �cido, intenso, que se cola a tudo, entrasse pelas casas dentro, o Estado fizesse o favor de chegar � Ribeira dos Milagres. Mais uma vez todas as autoridades, que mais uma vez nada de consequente v�o fazer, devem estar a cruzar os dedos, esperar que a not�cia, de t�o repetida, caia no esquecimento, para tudo continuar na mesma neste Portugal que n�o vem em nenhuma "estrat�gia de Lisboa", nem em nenhum Plano Tecnol�gico.

*
Porque nada mais resulta, e n�o me sinto tecnicamente habilitada para falar aprofundadamente de assuntos tecnol�gicos, eu sugeria que lhe mudassem o nome. � Ribeira dos Milagres. Pode ser que assim se consiga alguma coisa! Parece estar a funcionar com a incinera��o, que agora se chama co-incinera��o, n�o �? Al�m disso, neste pa�s certos nomes atraem a desgra�a, como aqui h� tempos aconteceu com a povoa��o de Nossa Senhora de F�tima, para onde esteve prevista uma incineradora, durante o governo PSD/PP. Quanto � tal ribeira: n�o sou t�cnica, mas n�o me parece nada imposs�vel (nem milagroso) resolver o problema desses res�duos, em primeiro lugar comendo menos carne de porco (at� faz bem), e em segundo lugar fazendo a compostagem e digest�o anaer�bia. E disse-o eu pr�pria certa vez, j� l� v�o uns anitos, aos microfones da Antena 1. Pelos vistos, esse gesto meu n�o foi t�o �milagroso� como se pela minha voz tivesse falado uma couve (embora me pare�a hoje, a julgar pelos resultados, que fiz de facto tal figura...)

(Adelaide Chichorro Ferreira)

*

Ao ler o "Abrupto pelos seus leitores"(Rui Fernando e Adelaide Chichorro Ferreira) procurei interpretar o empestar da Ribeira dos Milagres por uma suinicultura com a regra do "ser e o dever-ser" serem a mesma coisa numa perspectiva liberal: se o interesse econ�mico da suinicultura tem uma oportunidade no aproveitamento duma via natural e sem custos para o escoamento dos dejectos, o interesse do agente econ�mico e os seus valores morais "confundem-se". Ora aqui fico na d�vida qual o tipo de moralidade em causa, e pergunto-me por que carga d'�gua o agente econ�mico pensa que os que vivem nas imedia��es da ribeira, e as pessoas em geral, t�m de aceitar a imposi��o duma moralidade que se limita a um crit�rio de puro interesse individual sem respeito pelo ambiente dos outros.

O livre funcionamento do mercado n�o admite inst�ncias autoreguladoras como o interesse colectivo dos cidad�os auto-organizados? S� se for na China capitalista, em que o Estado defende a iniciativa dos agentes econ�micos contra a repress�o dos moradores das localidades que sofrem os impactos ambientais resultantes de certa "espontaneidade e iniciativa".

Quanto � liberdade dos agentes econ�micos (tipo exemplo da TVI) "apostarem e arriscarem" em "produtos inovadores (como a morte em directo)", j� leva a um debate mais interessante, tipo "choque de civiliza��es" e "causas da decad�ncia do Imp�rio Romano", sem se cair em "dualismos artificiais", nem em "quadratura do circulo".

(Pedro de Almeida)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ESTRASBURGO, FRAN�A


Pol�cia bloqueia uma rua, 15 de Abril de 2006.

(Daniel Rodrigues)
 


EARLY MORNING BLOGS 760

En l'honneur d'un Sage solitaire



Moi l'Empereur je suis venu. Je salue le Sage qui, soixante-dix ann�es, a retourn� et labour� nos Mutations anciennes et lev� des savoirs nouveaux.

J'attends du Vieux P�re la le�on : et d'abord, s'il a trouv� la Panac�e des Immortels ? Comment on prend place au milieu des g�nies ?

o

Le Sage dit : Faire monter au Ciel le Prince que voici serait un malheur pour l'Empire terrestre.

o

Moi l'Empereur interroge le Solitaire : a-t-il re�u dans sa caverne la visite des trente-six mille Esprits ou seulement de quelques-uns de ces Tr�s-Hauts ?

o

Moi le Solitaire n'aime pas les visiteurs importuns.

o

Moi l'Empereur implore enfin le Sage le pouvoir d'�tre utile aux hommes : quelque chose pour le bien des hommes !

o

Le Sage dit : �tant sage, je ne me suis jamais occup� des hommes.

(Victor Segalen)

*
Bom dia!

17.4.06
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: INGL�S EM DEADWOOD
Deadwood Season 2 - episode 23

Nunca vi falar ingl�s assim numa s�rie de televis�o americana. Novas palavras que nem sequer sabia que existiam: "faro", um jogo de cartas popular no s�culo XIX; "heathen", os infi�is, usado para os Sioux e os chineses; e muitas mais. O cal�o, pelo contr�rio, permanece reconhec�vel, ontem como hoje, a julgar pelo seu uso hom�rico pelas personagens "de baixo", jogadores, prostitutas, rufias, prospectores de ouro, a rua de Deadwood e o com�rcio pioneiro que pratica a acumula��o primitiva, ou seja, o roubo. Quando o roubo se torna em propriedade inicia-se a civiliza��o.
 


RETRATOS DO TRABALHO NA REGI�O DE ANTALYA NA TURQUIA


Montanhas no sul da Turquia, a poucos quil�metros do Mediterr�neo e de Antalya. Mostra mulheres, a fazer p�es , enchidos com queijo, manteiga ou espinafres.

(Jo�o Mour�o)
 


COISAS DA S�BADO :
A RAPOSETA, PINTALEGRETA, SENHORA DE MUITA TRETA



H� v�rios dias que o retrato verbal magn�fico que Aquilino fez da sua raposa me vinha � mente quando observava as sucessivas habilidades com que o nosso Primeiro-ministro nos mant�m distra�dos e muito mais complacentes com a governa��o do que o que dev�amos estar. Ali havia raposeta �senhora de muita treta� e n�s levados pela �treta�, diminu�amos o sentido cr�tico e a vigil�ncia face aos actos do governo.

Mea culpa fa�o tamb�m eu. Comentando as medidas para equilibrar o or�amento, os sucessivos an�ncios de investimentos estrangeiros, os planos tecnol�gicos e outros, o PRACE, o SIMPLEX e outros que todas as semanas nos anunciam, fui pelas inten��es. A imediaticidade do coment�rio tem este defeito, quando se volta aos documentos, quando se conhecem os resultados, a concretiza��o efectiva das medidas, as que ficaram pelo caminho, v�-se melhor a dimens�o da propaganda. As inten��es s�o as melhores do mundo, as medidas propagandeadas parecem reformas e, como suscitam as devidas reac��es corporativas e s�o feitas num clima de depress�o econ�mica, parecem a doer e doem pelo menos a uma parte dos portugueses, tendemos a pensar que desta vez � a s�rio.

A habilidade do governo em integrar as suas medidas no programa do Outro � menos estado, melhor estado, desburocratiza��o, prioridade ao controlo do d�fice, reforma da administra��o p�blica - merece a devida concord�ncia do Outro, ou pelo menos, a sua aceita��o incomodada. O problema � depois. Mas depois j� o efeito de propaganda se verificou. Vai-se apenas � epiderme, como dizia Medina Carreira, ou vai-se mais ao fundo, � carne? E a resposta come�a a ser cada vez mais: epiderme, epiderme, epiderme.

Os n�meros do d�fice previsto para este ano, de 6%, s�o o primeiro sinal muito s�rio que n�o s� se est� na epiderme, como ainda se est� a engrossar a epiderme. De novo o princ�pio da raposeta, a �treta�, foi posto a funcionar para o governo se vangloriar daquilo que � um sinal muito preocupante do falhan�o da sua pol�tica. Isto porque o n�mero de 6%, superior ali�s ao d�fice previsto do governo Lopes sem receitas extraordin�rias, s� parece razo�vel comparado com o exerc�cio a que se prestou o Banco de Portugal, ao calcular um d�fice final fict�cio para o or�amento anterior. A falta de prud�ncia do Banco de Portugal fornecendo um n�mero tendencial � propaganda governamental, partindo do principio que Bag�o Felix nada faria para controlar as contas p�blicas caso derrapassem dessa forma flagrante, serviu �s mil maravilhas para que 6% parecesse um bom resultado num ano em que houve receitas fiscais consider�veis, e um aumento dos impostos excepcional. Mas n�o �, � p�ssimo.

A raposeta continua no seu jogging, deslumbrado pela governa��o por actos e sess�es de rela��es p�blicas, mas o reino animal � demasiado complicado para a �treta� esconder certas garras, e certos dentes.

*
O seu �ltimo coment�rio sobre a diferen�a entre a propaganda do governo e os resultados da governa��o parece-me muito pouco consistente. Qual � a surpresa pelo facto de o d�fice de 2005 ser de 6%? N�o era isso que estava previsto no or�amento rectificativo? Pode-se criticar o or�amento rectificativo, mas apontar o seu cumprimento como exemplo de incumprimento das expectativas criadas n�o faz qualquer sentido. Uma vez que o governo - baseando-se no relat�rio Const�ncio - justificou o aumento da despesa como decorrente do or�amento do governo PSD/CDS, seria preciso indicar exemplos concretos de despesas que o governo aumentou desnecessariamente. O gabinete de estudos do PSD poderia facilmente produzir um documento com este tipo de informa��o detalhada.

As cr�ticas que faz ao dr. V�tor Const�ncio levantam-me imediatamente a d�vida: n�o estaria ele tamb�m enganado quando fez o relat�rio para o governo PSD/CDS? Parece muito conveniente que s� esteja errado agora. � natural que o relat�rio Const�ncio seja criticado, mas as cr�ticas deveriam fundamentadas, apontando concretamente os erros. Mais uma vez, n�o percebo por que raz�o o PSD n�o produz um estudo sobre este assunto, fundamentando as suas posi��es.

Tamb�m n�o percebo a sua surpresa com o facto de o governo fazer propaganda. Todos os governos fazem e, sem bem me recordo, o governo do Professor Cavaco Silva era bastante competente nesta �rea. Ali�s, as oposi��es tamb�m a fazem, embora com menos meios. Mais uma raz�o para a fazerem de forma consistente.

Concordo que � necess�rio ser-se cauteloso na aprecia��o da pol�tica or�amental. O que se passou nos �ltimos anos (com os v�rios governos) a isso obriga. No entanto, as tentativas de diaboliza��o do Primeiro-ministro n�o contribuem em nada para o esclarecimento desta quest�o.

(Pedro F. dos Santos)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(17 de Abril de 2006)


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A rede que nos enreda: a hist�ria verdadeira do autor do blogue Strange Things are Afoot at the Circle K., acusado de ter morto uma crian�a de 10 anos e de se preparar para a comer, depois de ter escrito no seu blogue sobre canibalismo. O blogue continua em linha e recolhe coment�rios, cerca de quinhentos, o que n�o � muito pelos crit�rios portugueses com os seus cinco ou seis comentadores compulsivos por tudo quanto � caixa aberta. Outros tra�os de Kevin Ray Underwood na Rede foram apagados, por exemplo a sua lista de preferidos na Amazon, os seus coment�rios no MySpace. Kevin est� preso, mas o blogue est� solto.

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A ler: "P�scoa" de Eduardo Pitta no Da Literatura.

*

Tempos modernos:
"Os criadores de "South park" foram impedidos de desenvolver um epis�dio mostrando imagens do profeta Maom�. Em vez disso, o epis�dio mais recente da s�rie mostrou Jesus Cristo defecando no presidente George W. Bush e na bandeira americana.
(no Jornal de Not�cias).
 


RETRATOS DO TRABALHO EM TAVIRA, PORTUGAL


Repara��o das redes.

(Jo�o Caetano Dias)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LAGOS, PORTUGAL



Um trabalho t�pico do Algarve - fazer os bolinhos de am�ndoa e gila, conhecidos por morgadinhos. Tirei esta foto numa f�brica que existe � sa�da de Lagos na direc��o de Sagres, do lado esquerdo, na estrada 125. Fazem os morgadinhos, os D. Rodrigos, umas tortas de am�ndoas fabulosas, etc. Podemos v�-los � venda nas grandes superf�cies de Lisboa, mas tamb�m os podemos comprar l� directamente, que s�o muito melhores.

(Acilina Caneco)
 


EARLY MORNING BLOGS 759

A Noiseless Patient Spider


A noiseless patient spider,
I marked where on a promontory it stood isolated,
Marked how to explore the vacant vast surrounding,
It launched forth filament, filament, filament, out of itself,
Ever unreeling them, ever tirelessly speeding them.

And you O my soul where you stand,
Surrounded, detached, in measureless oceans of space,
Ceaselessly musing, venturing, throwing, seeking the spheres to connect them,
Till the bridge you will need be formed, till the ductile anchor hold,
Till the gossamer thread you fling catch somwhere, O my soul.


(Walt Whitman)

*

Bom dia!

16.4.06
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(16 de Abril de 2006)


__________________________

Ruas em tempo real: o "compasso"' na rua de S.Jo�o de Brito no Porto e em Braga. (Fotos de Gil Coelho)






*

Falta selectiva de mem�ria ou duplicidade? � t�o interessante ver artigos retrospectivos sobre as faltas dos deputados como o de hoje no Di�rio de Not�cias e n�o encontrar nenhuma refer�ncia a uma quest�o ultra-pol�mica do passado, as multas aos deputados faltosos aplicadas no Grupo parlamentar do PSD. Talvez porque, nessa altura, toda a comunica��o social era veementemente hostil a essas multas, tratando os deputados faltosos (fora da invoca��o de raz�es de consci�ncia) como her�is contra a disciplina "autorit�ria" da bancada... Era Cavaco o Primeiro-ministro. Ah! como os tempos mudam!

PS: outra asneira repetida � dizer que a falta de quorum nunca se deu no passado. Aconteceu v�rias vezes, aconteceu at� haver vota��es a favor da oposi��o por falta de deputados da maioria. Tanta ligeireza jornal�stica n�o se admite.
 


EARLY MORNING BLOGS 758

O amor de Arthur Rimbaud o mestre do sil�ncio


Nas montanhas onde moram as estrelas
bosques que existem h� mil anos
de cabelos negros como o luar e a brisa da tarde
quando entra branda entre as p�talas das flores
que se inclinam sobre o morto que dorme
e misteriosamente repete:

�Sur l'onde calme et noire o� dorment les �toiles
Un chant myst�rieux tombe des astres d'or�
semi-sa�do da terra com um olho infinito aberto
morto h� um ano ao nascer da lua
morto h� um dia ao nascer da rosa
morto h� um sonho, morto h� um gesto
frente ao sopro das �rvores da noite
tocou o seio infante numa primavera
e misteriosamente repete:

�� p�le Oph�lia! belle como la neige!
Ciel! Amour! Libert�! Quel r�ve, � pauvre Folle!�
transparente sobre a terra mole de lava de estrela
sobre cabelos id�nticos aos dos mortos desolados
morto h� mil anos repete:

�La blanche Oph�lia flotte comme un grand lys�

o morto misteriosamente diz:

�Il y a une horloge qui ne sonne pas�


(Ant�nio Maria Lisboa)

*

Bom dia!

15.4.06
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER:
AMERICANOS, MERCADO NEGRO, GASOLINA, PARADAS MILITARES

Le char Romilly, premier char alli� entr� dans Paris le 24 ao�t 1944

Antony Beevor, Paris After the Liberation, 1944-1949

Picture of Paris After the Liberation, 1944-1949Nos primeiros meses ap�s a liberta��o de Paris, ainda a guerra continuava, os soldados americanos eram os her�is. Eram divertidos, sem preconceitos, e tinham tudo o que faltava � cidade: gasolina, ra��es de combate, meias de nylon. Foi uma festa, como se sabe. Depois a coisa come�ou a azedar. Muitos soldados e oficiais americanos meteram-se no florescente mercado negro e alguns associaram-se a grupos criminosos que tornaram Paris uma cidade muito perigosa � noite. Era s� uma quest�o de tempo at� os ci�mes cumpriram a sua fun��o e espica�arem os jovens franceses contra os GIs, na partilha dos favores femininos. Por fim, chegou a pol�tica, fundindo a hostilidade de De Gaulle aos americanos, com a propaganda comunista anti-americana do in�cio da guerra fria. Depois das meias de nylon, veio a gasolina: os americanos ( e neste caso tamb�m os ingleses) ficavam furiosos com a mania das paradas militares que De Gaulle repetia umas atr�s das outras. Para colocar a Fran�a � for�a entre os vencedores da guerra, De Gaulle fazia desfilar a divis�o Leclerc por tudo e por nada. Nas bancadas, onde estavam por obriga��o diplom�tica, os americanos viam passar todo o seu material de guerra, tanques, fardamentos, armas, transportes, cedido aos franceses, gastando a preciosa gasolina que faltava, sem a m�nima bandeira, ins�gnia, refer�ncia � proveni�ncia de tudo.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(15 de Abril de 2006)


__________________________

Paredes das Caldas da Rainha:

 


COISAS DA S�BADO: MEM�RIA E RESPEITO



O Primeiro-ministro Jos� S�crates visita a Fran�a por estes dias, numa viagem que coincide com a data do 9 de Abril que certamente n�o lhe dir� nada, nem a ele, nem aos seus assessores. Mas seria inconceb�vel um governante de qualquer pa�s aliado, nas duas guerras mundiais do s�culo XX, visitar a Fran�a no dia simb�lico mais importante para honrar os seus mortos em combate, e n�o se dirigir a um dos gigantescos cemit�rios que polvilham os antigos campos de batalha franceses. A 9 de Abril de 1918, na batalha conhecida como de La Lys, o Corpo Expedicion�rio Portugu�s foi massacrado pelos alem�es, tendo sofrido quase 8000 baixas. Muitos dos que morreram est�o sepultados em cemit�rios militares na Fran�a, esquecidos dos portugueses. O Eng. S�crates � um bom exemplo dessas gera��es mais novas, sem mem�ria e portanto sem respeito.

*
Talvez a raz�o porque se fala e escreve t�o pouco sobre a participa��o portuguesa na frente europeia da I Grande Guerra se relacione com o desconforto que uma an�lise imparcial dessa participa��o causaria em muitos de n�s. Relatos insuspeitos falam de casos de grande dignidade e at� de hero�smo, mas falam tamb�m de militares ingleses a obrigarem - � chapada - oficiais e soldados portugueses a n�o fugirem sem deixarem para tr�s os seus feridos.

(P.B.)

*

Acabo de ver no �Abrupto� a indica��o do n.� de baixas (mortos) nos teatros de opera��es de Fran�a e de �frica �rectificados� por um seu leitor, Lu�s Pinto de S�. Na realidade, este senhor, relativamente a Fran�a anda pr�ximo dos quantitativos oficiais, mas falha redondamente no que toca a �frica.

Assim, para que, (...) possa apontar os valores aceites oficialmente (constantes no Arquivo Hist�rico Militar e por mim publicados em Portugal e a Grande Guerra, Lisboa, Di�rio de Not�cias, 2003 (fasc�culos), no cap�tulo intitulado �Portugal e a Grande Guerra. Balan�o Estat�stico� (pp. 547-552), informo que, em Fran�a, morreram 1.997 militares, em Angola, 810 e, em Mo�ambique, 4.811 todos do Ex�rcito e da Marinha morreram 142 no total; feridos incapacitados foram, pela mesma ordem, 5.359; 683; 1.600; e 30; desaparecidos, pela mesma ordem: 199; 200; e 5.500; militares dados como incapazes para todo o servi�o, pela mesma ordem: 7.280; 372; e 1.283; prisioneiros, mais uma vez pela mesma ordem: 7.000 (dos quais 233 faleceram no cativeiro); 68; e 678.

Somando, o esfor�o portugu�s na Grande Guerra pode medir-se pelos seguintes n�meros de baixas gerais: em Fran�a: 21.835; em Angola: 2.133; em Mo�ambique: 13.872; e da Marinha: 172. O total geral � de 38.012 baixas. N�meros consider�veis se tivermos em conta que o empenhamento militar foi, em Angola, cerca de dois anos, em Mo�ambique, quatro anos, e, em Fran�a, 22 meses efectivos.

(Lu�s M. Alves de Fraga)

*

Em minha modesta opiniao, o minimo respeito e homenagem que soldados, e todos aqueles que perderam a vida a combater pela patria, com honra e dignidade, nas guerras para onde receberam Guia de Marcha para combater, pelos diversos governos de Portugal, seria depois de mortos, uma campa simples e digna num em cemiterio militar ou em talhao militar cuidado, no seu pais ou no estrangeiro.

Na realidade tal nao acontece agora, mas nem sempre foi sempre assim, durante os anos que se seguiram a I G M, foram sempre os ex-combatentes carinhados, e os combatentes falecidos alvo das maiores homenagens por todo o pais e ilhas. Observem-se as datas dos monumentos aos Combatentes que existem as centenas pelo pais. O Grande desinteresse deu-se ja na Segunda metade do seculo XX, ainda durante o tempo da ditadura, creio eu por varias razoes, entre as quais o desinteresse dos familiares dos falecidos nas Guerras em Africa na deposicao dos restos mortais dos seus entes queridos nos talhoes militares .

Com o fim do regime, a revolucao do 25 de Abril nao contribui para melhorar o panorama geral, havendo mesmo em varios sectores politicos um sentimento de quase raiva contra os nossos militares que morreram em Africa. Como se fossem eles os causadores da guerra que lhes trouxe a morte. O esquecimento dos militares que repousam nos Palops e a vergonha do nosso pais.

Todo este panorama, a que se junta o desinteresse e a ignorancia dos nossos governos e governantes aliados a falta de meios da Liga dos Combatentes, levou a que os talhoes militares ficassem votados ao abandono, e assim permanecam esquecidos os nossos caidos pela P'atria. Repare-se que nos ultimos anos, quando a Liga dos Combatentes tem homenageado os nossos mortos no Ultramar, quantas vezes la compareceu o ultimo Presidente da Republica? Uma , nenhuma? nao posso confirmar em 10 anos de mandatos quantas vezes ali compareceu? Vergonha? No mesmo periodo a quantos desafios de futebol assistiu, e quantas lagrimas de incontida emocao futebolistica derramou nesses estadios?

Em Inglaterra nao e assim. Naquele pais, todos os mortos pela patria tem o mesmo tratamento, quer tenham falecido no Somme em 1916, no Canal do Suez em 1956, na Normandia no dia D em 1944 ou em Samarra no Iraque em 2003. Existe uma Associacao sem fins lucrativos, por Decreto Real de 1918, com ligacoes ao Ministerio da Defesa, designada por Commonwealth War Graves Commission, na qual participam comissarios, ao mais alevado nivel, dos paises Commonwealth. Pode consultar-se para o efeito o site .

Esta organizacao desenvolve um extraordinario trabalho a todos os niveis, quer na manutencao e conservacao dos cemiterios militares ingleses por todo o mundo, como mantem ainda uma sepultura digital, em rede, com a maior quantidade de informacao disponivel sobre o militar, dados pessoais, foto, local onde perdeu a vida, se esta desaparecido ou onde esta sepultado assim como um resumo da sua folha de registo militar. Um trabalho a serio levado a cabo por gente a serio.

Nem a proposito, aparecerem na ultima quinta-feira, dia 13 de Abril de 2006 os restos mortais de 3 soldados ingleses, falecidos na I GM na Flandres. A achado teve lugar num campo de trigo, proximo de Ypres na Belgica, por equ ipas de voluntarios belgas que tem por hoby a arqueologia militar. Sobre este assunto consulte-se aqui.

Estes militares serao agoram devidamente sepultados, com todas as horras militares, e com a presenca de familiares, se eventual ainda existirem, o que sera sem duvida uma emocionante cerimonia para eles.

(Jo�o Botelho, sem acentos)

*

A respeito deste assunto existe na Columbeira (perto do Bombarral) um dos locais, para os menos informados, da Batalha da Roli�a, um memorial a um soldado Brit�nico morto em combate. Esta Batalha foi o primeiro confronto em Portugal entre as tropas luso-brit�nicas de Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) e o ex�rcito de Junot (comandado nessa refrega pelo General Delaborde). A Batalha da Roli�a representou o primeiro triunfo militar de Arthur Wellesley que teria o seu ponto mais alto na Batalha de Waterloo. Podemos encontrar nesse local um T�mulo (mandado erigir pelo ex�rcito Brit�nico) em mem�ria do Coronel Lake que perderia a vida nessa batalha num ataque do seu 29� Regimento. O t�mulo est� em mal assinalado e em mau estado de conserva��o pois a autarquia pouco tem feito para conferir alguma dignidade ao local. De qualquer forma quer a sua constru��o (por alturas do centen�rio da Batalha - 1908) quer a sua manuten��o tem estado a cargo do Worcestershire Regiment que herdou as ins�gnias do 29� Regimento. De referir a�nda que este espa�o � visitado regularmente pela British Historical Society que organiza visitas guiadas a este local. � de lamentar que um pa�s como Portugal com uma hist�ria militar (e n�o s�) riquiss�ma e com uma presen�a marcante em in�meros locais do mundo n�o preserve e dignifique os espa�os fisicos e os portugueses que (bem ou mal) levaram o nosso pa�s mais al�m.

(Jorge Lopes)

*

Alguns leitores seus �produzem� mais baixas portuguesas na Grande Guerra que as �spandau� alem�s!... Na Grande Guerra, as baixas portuguesas foram:

Na Fran�a � 2100 mortos + 200 desaparecidos. Isto no total!...

Em �frica � 2800 mortos e desaparecidos. 750 em Angola e 2100 em Mo�ambique.

Onde haveria de comemorar a nossa participa��o nessa guerra seria em �frica, n�o em La Lys! S� que isso seria recordar os motivos imperiais por que particip�mos na Guerra, o que ainda � motivo de vergonha� Ali�s, essa batalha n�o � algo de que nos possamos orgulhar muito. Os alem�es escolheram o sector portugu�s para a sua ofensiva desse dia por suporem com raz�o, ser o elo mais fraco da frente aliada � tal como os russos atacariam, em Estalinegrado, os sectores romenos, 24 anos depois� e os nossos oficiais n�o se portaram da melhor maneira, a avaliar pelos processos de que alguns foram depois alvo.

Pode-se consultar aqui.

(Jos� Lu�s Pinto de S�)

*

(...) H� anos que vejo nas televis�es internacionais, ida de Reagan � Normandia, ou da rainha Isabel, e de outros tipos de governos estrangeiros irem, por ocasi�o do desembarque ou mesmo noutras ocasi�es em visitas oficiais. Idas que tenham a ver com a Grande Guerra ou com a Segunda Guerra Mundial. Sempre estranhei n�o se mencionar os portugueses que morreram na Guerra de 14. Ali�s presumo que o mesmo acontece na Guin� e creio que em Angola e Mo�ambique . As campas dos militares portugueses est�o entregues aos bichos. As embaixadas e os adidos militares est�o-se marimbando para este assunto. Lembro-me de ver uma reportagem h� anos, por a�, no Expresso.


Queria s� dizer-lhe o seguinte: a �ltima vez que vi uma reportagem na Skynews, ou outra do g�nero, fiquei a saber que quando os agricultores franceses encontram ossadas no meio dos campos os ingleses tentam descobrir o nome ou a sua origem, pois normalmente s�o soldados, e se s�o ingleses, fazem enterros militares "� s�ria" com bandeira nacional e enterram-nos nos cemit�rios militares, que ali�s est�o impec�veis. Ser� que as campas dos soldados portugueses da Grande Guerra est�o tratadas minimamente? Ser� que se mant�m um respeito m�nimo pelos militares portugueses?

Esta ida de S�crates a 9 de Abril e n�o existir ningu�m no staff que lhe lembre ou informe, ou o embaixador ou o adido militar em Paris n�o o informarem e sugerirem inclu�r no programa da visita uma desloca��o em helic�ptero, ou coisa que o valha, a um s�tio como La Lys acho inacredit�vel. Ser� que n�o sabem? N�o est�o a par destas coisas? (...)

(Jos� Maria Montargil)

*

(...) o que me leva a escrever � exactamento um coment�rio seu na sua cr�nica semanal da Revista S�bado, da qual sou leitor ass�duo, do qual descordo por crer que excessivo. No que diz respeito � visita do Primeiro Ministro a Fran�a numa data t�o importante para o passado portugu�s, n�o aqui querendo desculpar o Eng� S�crates, mas falo sim em nome das gera��es mais novas, que acusou de falta de mem�ria e sem respeito. Julgo que ningu�m pode ser acusado de falta de respeito involunt�riamente. Se n�o sabem, ou � porque tal data n�o � devidamente leccionada nas escolas, ou porque como se tratou de uma derrota n�o a querem lembrar, e ou ainda, porque provavelmente n�o s�o devidamente mencionadas nos manuais escolares.

Isto sim uma preocupa��o maior. Julgo que o passado � o melhor caminho para compreender o Presente e preparar o futuro. A falta de respeito que cita para mim n�o existe nesse sentido. A Real falta de respeito vem de uma quest�o maior: da incapacidade ou mesmo falta de vontade em solucionar o problema. Os sucessivos governantes preferem o povo ignorante a t�-lo "sabido".

(Paulo Pereira)
 


EARLY MORNING BLOGS 757

A Palidez do Dia


A palidez do dia � levemente dourada.
O sol de inverno faz luzir como orvalho as curvas
Dos troncos de ramos Secos.
O frio leve treme.

Desterrado da p�tria antiq��ssima da minha
Cren�a, consolado s� por pensar nos deuses,
Aque�o-me tr�mulo
A outro sol do que este.

O sol que havia sobre o Part�non e a Acr�pole
O que alumiava os passos lentos e graves
De Arist�teles falando.
Mas Epicuro melhor

Me fala, com a sua cariciosa voz terrestre
Tendo para os deuses uma atitude tamb�m de deus,
Sereno e vendo a vida
� dist�ncia a que est�.


(Ricardo Reis)

*

Bom dia!

14.4.06
 


COISAS DA S�BADO : FUTEBOL�NDIA



Num debate organizado pelo Clube dos Jornalistas na 2 com os correspondentes estrangeiros em Portugal, para compara��o das agendas dos �rg�os de comunica��o social nacionais e internacionais, todos eles se referiram � perplexidade que lhes causa o papel absurdo que o futebol tem em Portugal. Seria impens�vel, dizia um deles, que as elei��es para a direc��o de um clube desportivo, abrissem um telejornal, e um caso como o do �apito dourado� dificilmente teria a politiza��o que c� tem e a correspondente cobertura comunicacional. � mesmo impens�vel que no Reino Unido, t�o apaixonado pelo futebol, existissem di�rios desportivos como em Portugal (n�o h� nenhum, est� em cria��o um). Numa semana em que, mais uma vez, Portugal foi a Futebol�ndia, com horas obsessivas diante dos ecr�s todos, com uma m�dia de quatro telejornais a abrirem com cada jogo individual, antes e depois do jogo, n�o contando as in�meras vezes em que o mesmo jogo volta no interior do mesmo notici�rio. A Futebol�ndia � um dos melhores retratos do nosso subdesenvolvimento.

*
Concordo com o que diz acerca da import�ncia do futebol em Portugal, mas por vezes essas coisas impens�veis acontecem noutros pa�ses. Talvez tenha passado despercebida em Portugal toda a pol�mica na Alemanha ap�s a derrota por 4-1 frente � It�lia, com v�rios deputados a exigir a presen�a do seleccionador Klinsmann perante uma comiss�o parlamentar, e a audi�ncia tocante com Angela Merkel, que compreende a situa��o do treinador porque � parecida com a sua.

O Jap�o n�o foi poupado por este editor da Slate:

"Japan's cup delusion indicates a larger phenomenon: In economic matters, Japan is becoming increasingly unlike the American image of Japan. In the American mind, Japan is a nation of efficiency, hard work, and self-sacrifice, in which prosperity only comes from punishing labor. But Japan is embracing the reward-without-work philosophy that is the hallmark of, well, Americans. Japan has become gullible, believing in quack remedies for its severe economic illness. Prime ministers promise salvation through painless economic reforms. Now the World Cup is supposed to restore the economy with some vague soccer magic. Just hold a monthlong soccer fiesta and everything will be glorious again, as if Zinedine Zidane and Luis Figo can make the nonperforming loans vanish or fix the rigid school system or inspire a generation of risk-taking entrepreneurs. Starting today, Japan learns that soccer is a game, not an economic plan." (Artigo completo)

(Paulo Almeida)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM TAVIRA, PORTUGAL


Salinas de Tavira.

(Jo�o Caetano Dias)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: BUSINESS FREE ENVIRONMENT



H� 2 anos e meio ,uma paisagem verde foi devastada na zona do pinhal no distrito de Castelo Branco. Da casa onde passo alguns fins de semanas, e alguns dias de f�rias durante o ano, apenas via o verde e ouvia o vento por entre os pinheiros .Hoje s� vejo gigantescas ventoinhas e�licas e um conjunto de serras carecas. As popula��es que vivem na povoa��o junto ao �parque e�lico�, n�o conseguem descansar de tanto � o zumbido das p�s das ditas ventoinhas. Felizmente disso n�o tenho de suportar�apenas uma paisagens lunar, des�rtica e escaldante alguns dias no ano. Da madeira n�o h� j� nada, refloresta��o � mentira ( se calhar est� � espera daqueles pacotes businessfreeenvironment, t�o sui-generis, do estilo do nosso primeiro ministro , the one and only best dress socialist-capitalist lover�e destinados n�o aos propriet�rios�esses malandros absentistas�mas a algum senhor da pasta de papel..pois ).Desta ecologia amea�ada n�o se v� queixa. Portugal est� a ficar careca �e sem tratamento.

(...) Para que conste, e por ser verdade, o concelho � o de Proen�a-a-Nova , a povoa��o � a aldeia de Vale d�Urso.

(Ant�nio Carrilho)
 


BONS DIAS, GOOD MORNING, BONJOUR

Acabei de dar os bons dias e recebo um e-mail que dizia "bonjour" por parte do Administrateur Ex�cutif du Comit� d'Attribution des March�s et Contrats Corporation Nationale P�troli�re CI, da Costa do Marfim, um nome que � j� todo um tratado de sociologia pol�tica:
Bonjour,

Je suis Docteur Amob� S�ko Philipe, de la R�publique de C�te d'Ivoire, Administrateur Ex�cutif du Comit� d'Attribution des March�s et Contrats � la Corporation Nationale P�troli�re de C�te d'Ivoire (C.N.P.C.I). J'ai �t� dans cette position durant les 5 (cinq) derni�res ann�es mais, je n'ai rien qui puisse montrer cela, j'aurais aim� qu'ensemble, nous formions un partenariat d'affaires avec pour crit�res exclusifs l'honn�tet� et la confiance, partenariat dans lequel tous les deux, nous tirerons �norm�ment profit.

En ma qualit� d�Administrateur Ex�cutif du Comit� d'Attribution de March�s et Contrats, je vous octroierai une faveur d'un contrat de 21 millions (� 21.000.000 Euros) pour la fourniture � nos Forages, Plateformes et Raffineries, de Turbines � Gaz, Turbocompresseurs, Foreuses verticales, Enrobeuses, Anneaux Pipelines et d'�quipements, ainsi une avance sur frais de 10,5 millions Euros sera mobilis�e � vous en tant que fournisseur au d�part pour commencer le travail."
O resto todos sabem o que �.
 


EARLY MORNING PICTURE


Sexta feira santa.

(Gil Coelho)
 


EARLY MORNING BLOGS 756

Permanently


One day the Nouns were clustered in the street.
An Adjective walked by, with her dark beauty.
The Nouns were struck, moved, changed.
The next day a Verb drove up, and created the Sentence.

Each Sentence says one thing�for example, "Although it was a dark rainy
day when the Adjective walked by, I shall remember the pure and sweet
expression on her face until the day I perish from the green, effective
earth."
Or, "Will you please close the window, Andrew?"
Or, for example, "Thank you, the pink pot of flowers on the window sill
has changed color recently to a light yellow, due to the heat from the
boiler factory which exists nearby."

In the springtime the Sentences and the Nouns lay silently on the grass.
A lonely Conjunction here and there would call, "And! But!"
But the Adjective did not emerge.

As the Adjective is lost in the sentence,
So I am lost in your eyes, ears, nose, and throat�
You have enchanted me with a single kiss
Which can never be undone
Until the destruction of language.


(Kenneth Koch)

*

Bom dia, Nomes!

13.4.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A P�SCOA NO PA�S REAL



Vou passar a P�scoa numa aldeia da Beira-Baixa que tem uma centena de habitantes com uma m�dia de idades superior a 70 anos e onde o �nico computador existente � o meu port�til - e s� quando l� estou.

Telefones, h� dois ou tr�s; Internet, s� existe em dois lugares, a meia-d�zia de quil�metros de l� (na vila), e nem sempre est� a funcionar - e muito menos aos fins-de-semana. (Havia um Net-post nos CTT, mas foi retirado). As outras possibilidades (eventuais, pois n�o sei sequer se existem) s�o a 25 km, em Castelo Branco.

E � num pa�s assim que uns citadinos lun�ticos querem que se pague o selo do carro s� atrav�s da Internet - e outras coisas igualmente sem p�s nem cabe�a.

(C. Medina Ribeiro)

*
A possibilidade do �selo do carro� poder vir a ser pago exclusivamente pela Internet motivou um coro de protestos e um sobressalto que atravessou o pa�s de l�s a l�s. Porque muita gente n�o tem condi��es para ter Internet em casa, porque � um acto de liberdade prescindir da liga��o � Internet mesmo que se tenham condi��es, porque um grande n�mero de portugueses n�o sabe navegar no ciberespa�o� Esta � qui�� uma argumenta��o v�lida, mas pouco reflectida, pois considero a medida positiva, com exequibilidade e pode significar um avan�o civilizacional. Passo a explicar.

Para aqueles que est�o habituados a lidar com as novas tecnologias, a possibilidade de realizar este servi�o no conforto do lar, no local de trabalho, frente a um terminal ligado � Internet � uma b�n��o. Para todos os outros avessos � utiliza��o das modernas tecnologias de comunica��o aos poucos poder�o aquilatar das suas vantagens. Se em todas as juntas de freguesia, munic�pios, em todas as aldeias, vilas e cidades houver pontos p�blicos de acesso � net e que funcionem devidamente, ser� incrivelmente f�cil implementar a medida em benef�cio dos utentes e propriet�rios de ve�culos que ter�o toda a comodidade de aceder ao servi�o, ultrapassando o desperd�cio de trabalho e inc�modo de se deslocar � Reparti��o P�blica.

Os mais distra�dos dir�o que a medida acarretaria muito investimento dos munic�pios ou da Administra��o Central. Tamb�m errado. Na pr�tica j� existem esses locais p�blicos de acesso ao ciberespa�o que s�o os denominados Gabinetes de Apoio ao Cidad�o (GAC). Estes postos de atendimento nas Juntas de Freguesia foram criados porque n�o � cred�vel que todas as pessoas tenham proximamente Internet nas aldeias, da� constitu�rem uma porta para a rede mundial. Infelizmente eles n�o funcionam e n�o t�m cumprido o seu papel, pois n�o se demonstra �s pessoas a sua utilidade, conforto e facilidade. Os GAC ou afins podem fazer a interface entre a pessoa e o servi�o p�blico que est� na sede de concelho, de distrito, na capital, etc. para al�m de todas as outras possibilidades de comunica��o. Os servi�os p�blicos de acesso � Internet podem passar para al�m da iniciativa privada por outras redes de ciberpontos ou t�o simplesmente pela itiner�ncia do autocarro camar�rio pelos locais concelhios.

Assim, julgo que ser� com a obrigatoriedade de aceder a determinados servi�os pela rede digital que se implementar� uma sociedade mais moderna, informatizada e em consequ�ncia se elevar� o n�vel de alfabetiza��o digital da popula��o.

(Jos� Alegre Mesquita)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LAGOS , PORTUGAL


Escolhendo o peixe na lota de Lagos (Agosto 2005).

(Jos� Fernandes Santos)
 


POL�TICAS PARA FAZER OPOSI��O



Deslocou-se o PS para o "centro", onde tradicionalmente habitava o PSD, ocupando um espa�o pol�tico que o asfixia? Como se pode fazer oposi��o contra um governo que parece realizar com mais determina��o as reformas que sempre foram defendidas pelo PSD? N�o � poss�vel, ou � dif�cil, tomar uma posi��o distinta, que demarque o PSD do PS? Todos os dias � poss�vel encontrar este tipo de afirma��es, que me levam a uma reac��o do g�nero: tretas, bullshit. Quisesse o PSD e todos os dias se perceberiam claras e distintas as diferen�as, onde h� diferen�as. O problema, tamb�m t�o claro e distinto, est� no "quisesse".

Exemplos? N�o faltam, embora exijam coragem e nalguns casos rupturas com o passado, mais com as atitudes tomadas do que com posi��es program�ticas. E n�o faltam exemplos, porque o PS pode andar na dan�a das cadeiras entre os lados da sala, mas verdadeiramente n�o se senta em nenhuma, a n�o ser naquela em que j� est� sentado, uma cadeira onde os p�s s�o os impostos, e as costas e bra�os o Estado. O primeiro-ministro quer fazer dessa cadeira um m�vel de design, inteligente e com luzes a brilhar, mas � mais deslumbramento do que subst�ncia.

Vamos aos exemplos. Deixo de lado todo o terreno habitualmente mais debatido da configura��o do Estado e do seu papel na economia. N�o porque n�o seja decisivo, mas sim porque me parece a� evidente que o que falta � oposi��o � assumir uma pol�tica liberal consistente, menos presa � vulgata do liberalismo te�rico e mais concentrada num esfor�o continuado para diminuir sempre o Estado onde ele n�o � preciso, encontrar sempre solu��es do lado da sociedade, privilegiar a iniciativa da liberdade individual e n�o a da engenharia social. A�, as distin��es poss�veis, n�o as que existem hoje, mas as que deveriam existir, s�o t�o flagrantes que n�o vale a pena estar a arrombar portas abertas: o pa�s precisa de mais liberdade e de mais liberalismo.

Deixemos tamb�m de lado as chamadas "quest�es fracturantes" que, ou s�o folclore radical que chegou ao mainstream pela m�quina destiladora do "politicamente correcto", ou ent�o s�o mat�ria de consci�ncia e de vida privada, em que o Estado n�o devia meter-se. � um sinal da degrada��o da nossa vida p�blica e do esvaziamento pol�tico dos principais partidos portugueses que essas "fracturas" tenham tido a dimens�o que tiveram, se tornassem, e regularmente se tornem, quest�es centrais da agenda pol�tica. O m�ximo resultado que d�o � produzirem mais legisla��o de engenharia social, que manter� a sociedade exactamente como estava antes.

Exemplos de zonas de oposi��o? Comecemos por uma, t�o crucial quanto ignorada e reprimida: a pol�tica externa, a vis�o global de uma pol�tica externa no mundo tal como � hoje. Defrontando quest�es como o Iraque, a B�snia, as rela��es transatl�nticas, a constru��o europeia (que ainda � uma quest�o de pol�tica externa), as rela��es com os PALOP, onde n�o existe hoje um corpo de pensamento, mas apenas continuidades que passam por ser "pol�tica de Estado", ou meras posi��es oscilantes ao sabor da decis�o de outros. Um pa�s que tem tropas na B�snia, que participa nominalmente no esfor�o de reconstru��o do Iraque, que alterou a sua Constitui��o para aprovar um Tratado Constitucional, que tem um problema simb�lico de identidade com Espanha, que tem uma larga comunidade emigrante pelos cinco continentes, que partilha uma das l�nguas mais faladas no mundo, pensa muito pouco no que se est� a passar � sua volta.

Comecemos com Espanha. N�o � preciso ir mais longe - Espanha est� a mudar muito devido � crescente for�a das suas autonomias, que os entendimentos com a ETA v�o fortalecer. O desenho pol�tico do Estado espanhol est� muito mais fragmentado, e se � f�cil aos portugueses encontrar uma Espanha unit�ria na economia, j� � cada vez mais dif�cil encontr�-la na pol�tica externa, em que Zapatero causou perplexidades e estragos a um caminho de "grande pot�ncia" que Aznar seguia. Que implica��es tudo isto tem para n�s? N�o estudamos, n�o conhecemos, n�o sabemos e por isso o "Espanha, Espanha, Espanha" do primeiro-ministro � t�o vazio como o pragmatismo sem princ�pios que passeou por Angola. Em todas estas mat�rias n�o h� hoje doutrina, mas uma sucess�o de posi��es ao sabor da opini�o p�blica.

Passemos para a quest�o do terrorismo apocal�ptico dos nossos dias, associado a todos os problemas confrontacionais de car�cter cultural e civilizacional com o fundamentalismo mu�ulmano, envolvendo a quest�o israelo-palestiniana, a situa��o no Iraque, e, no limite, o fosso entre parte da Uni�o Europeia e os EUA. Aqui sei mais o que pensa o PS de S�crates (que n�o � o mesmo do PS de Gama), do que sei o que pensa o PSD, porque este deixou degradar o seu pensamento com medo da impopularidade de algumas posi��es que nunca defendeu como devia - como seja a participa��o de Portugal na cimeira dos A�ores. Mas tamb�m sei que em todas estas mat�rias se exige uma ideia estrat�gica. E a haver um esfor�o de clarifica��o, perceber-se-� como � fundamental alicer�ar uma oposi��o � pol�tica externa socialista, que encontra em Freitas do Amaral um dos seus expoentes mais radicais. Que melhor terreno para os partidos de oposi��o para fazer oposi��o, onde ela faz falta, numa mat�ria como a pol�tica externa, onde a tradi��o de consenso � hoje em grande parte feita de ambiguidades?

Querem outro exemplo de diferen�a numa �rea crucial para o futuro e qualidade da nossa democracia e do espa�o p�blico? A defesa da privatiza��o total dos �rg�os de comunica��o social do Estado. Aqui o PSD j� teve posi��es muito distintas, tendo j� defendido na lideran�a de Marcelo Rebelo de Sousa essa privatiza��o total, depois, com Barroso, recuou. O historial pr�tico n�o � brilhante: enquanto governo foi t�o estatista como o PS, controlou a comunica��o social p�blica como o PS, mas tem a seu favor nesta �rea a privatiza��o de uma parte da comunica��o social p�blica e a abertura do espa�o audiovisual ao sector privado. H� muitas raz�es de fundo para olhar para o sector da comunica��o social p�blica de modo inteiramente distinto daquele que � habitual hoje. H� raz�es pol�ticas, culturais, econ�micas e tecnol�gicas, para se fazer essa mudan�a, que �, ali�s, inevit�vel por causa da revolu��o na produ��o, gest�o e divulga��o da informa��o e do entretenimento.

Muitos outros exemplos de diferen�as em que se podem alicer�ar pol�ticas de oposi��o necess�rias apareceriam se olh�ssemos para o nosso pa�s tal como ele �: um tecido desigual de muito arca�smo e pouca modernidade, com tend�ncia para que a modernidade seja moldada pelo arca�smo, um misto de pr�ticas subdesenvolvidas, com muito escassas "boas pr�ticas", com pequeno enraizamento social. O Governo PS mostra pouca sensibilidade com esta realidade, deslumbrado que est� pelo brilho tecnol�gico de receitas sem qualquer correspond�ncia com a nossa realidade social.

Aqui h� uma verdadeira cornuc�pia de linhas de actua��o alternativas: desde a afirma��o crucial do papel da mentalidade empresarial, que para se gerar da escola para o trabalho, implicaria mudar, e muito, as velhas universidades e p�r em causa os seus poderes corporativos; at� � formula��o de uma nova pol�tica agr�cola, que tamb�m se tornou terreno apenas de pr�ticas de resist�ncia ou de adapta��o aos subs�dios europeus e que precisa mais do que nunca de uma vis�o de conjunto. O mesmo se pode dizer da necessidade de, de uma vez por todas, mudar o centro da pol�tica de "cultura" estatal, baseada na subsidia��o, a favor de uma distin��o entre pol�ticas patrimoniais e pol�ticas de anima��o e educa��o, que ganham em ser realizadas por outro tipo de minist�rios, como o da Economia e da Educa��o.

O pa�s est� a entrar num novo desenvolvimentismo ecol�gico, ou seja a utilizar argumentos que eram cl�ssicos dos grupos ecol�gicos, como seja a cr�tica �s energias n�o renov�veis, para criar �reas de neg�cios "verdes" que trazem consigo novos riscos e press�es ambientais que ningu�m quer tratar como tal. � o caso da desapari��o progressiva da paisagem natural com a instala��o maci�a de parques e�licos. Esta nova economia "ecol�gica" far� tantos estragos como a antiga se n�o se travar a corrida para o lucro predador que j� est� em curso, e n�o ser� do PS que vir� essa preocupa��o.

Depois, a agenda da economia, no sentido lato de "economia pol�tica", n�o � a dos jornais econ�micos, como pensam os yuppies socialistas e sociais-democratas. Falta nessa agenda muita coisa que n�o pode ser ignorada na ac��o pol�tica: o mundo do trabalho, o mundo das micro-empresas, a agricultura, o novo tecido social gerado pelas mudan�as econ�micas, desde o impacte do desemprego nas expectativas de vida, as novas formas de conflitualidade social, at� aos problemas gerados pela emigra��o, a que fechamos muitas vezes os olhos.

N�o faltam, como vimos, muitas �reas em que se sabe o que o PS, os seus Governo e primeiro-ministro pensam, fazem ou n�o fazem e at� onde v�o. Ora, toda uma outra vis�o de Portugal existe e faz diferen�a. Esse Portugal precisa de oposi��o, precisa de alternativas. � verdade que muitos dos exemplos que dei s�o pol�micos na oposi��o, porque escapam ao terreno comum em que PS e PSD t�m gerido, muitas vezes em continuidade, o Estado. Mas se n�o se quer mesmo morrer asfixiado e dar raz�o aos te�ricos da ocupa��o do "espa�o pol�tico" tem que se fazer uma revis�o profunda em todas as �reas fundamentais da pol�tica. Uma revis�o do que se fez, das posi��es tradicionais tidas no passado, e dos problemas do presente. Se tal for feito, ver-se-� como h� mais raz�es, hist�ricas, program�ticas e ideol�gicas, para defender estas alternativas do que para andar a mexer por turnos o mesmo caldeir�o.

( No P�blico.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TEMPESTADES COIMBR�S
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(Sobre a nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BAS�FIAS", junto da qual se pode encontrar uma primeira s�rie de coment�rios.)

Para descentrar um pouco o debate, uma cita��o de Fernando Pessoa sobre "o provincianismo portugu�s":

�Se, por um daqueles artif�cios c�modos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num sindroma o mal superior portugu�s, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto � triste, mas n�o nos � peculiar. De igual doen�a enfermam muitos outros pa�ses, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civiliza��o sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordina��o inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, tr�s sintomas flagrantes: o entusiasmo e admira��o pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admira��o pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.�

Recomendo o texto completo.

(Jo�o Filipe Queir�)

*

Viva
(de novo uma reac��o ao Abrupto, de Pacheco Pereira, que pelo menos veio at� Coimbra, provavelmente n�o para ouvir o ministro do ambiente, de cuja vinda eu pr�pria s� soube hoje, depois do debate na Assembleia da Rep�blica...),

Susto e pavor, diz ele, a prop�sito das mulheres que em Coimbra viu! E talvez com alguma raz�o, mas n�o andar�o elas um pouco por todo o lado, incluindo em Lisboa? Muito compostinhas e bem comportadas, intervieram hoje � tarde no debate da Assembleia da Rep�blica deputadas de todos os partidos, em termos ideol�gicos de forma praticamente indistinta, a respeito do projecto de lei de apoio �s v�timas de viol�ncia transfronteiri�a. Mas moita a respeito de outro assunto em debate! (Refiro-me a um de que j� aqui tenho falado v�rias vezes).

Bem poder�o come�ar a tirar uma especializa��o em enfermagem, as mulheres de Portugal. � pelos vistos nesse papel que gostam mais de se ver, e � esse seguramente o papel (n�o remunerado) que mais tarde ou mais cedo lhes ir� caber, pelo menos �s de Coimbra. Ou ent�o sentem-se bem no papel de secret�rias e de empregadas dom�sticas. Para al�m de no de donas ou empregadas de boutiques... Tudo fruto de um destino (ou �des�gnio� inter)nacional. Porque, nestas condi��es, quem deseja verdadeiramente ser m�e?
Ou ler um livro, para adquirir a consci�ncia (inc�moda) da dimens�o a que a explora��o chegou?
As estat�sticas da natalidade confirmam-no.

Um certo (en)fado, seguramente, transforma-as em fadas. Ainda havemos de as ver (�s deputadas no parlamento) a limparem o suor da testa aos seus comparsas homens, entretidos nas suas engalfinha��es ret�ricas e por vezes quase versejantes (salvo raras excep��es: Carloto Marques foi hoje essa excep��o, porque disse ao que vinha com autenticidade - a voz tremia-lhe um pouco - e sem encena��es machistas).

J� vejo uma aura de ouro redondinha a nascer � volta da cabe�a de muitas mulheres portuguesas, deputadas ou n�o, como nas representa��es medievais dos santos. O pior � que, antes de o c�rculo dourado da aur�ola se fechar, os dois semi-c�rculos que o formam, surgindo lentamente a partir de baixo, fazem com que a dada altura aquilo se pare�a com uma meia-lua, equipar�vel a dois cornos de vaca. � dessa imagem da mulher que se alimenta boa parte da economia que nos afecta. N�o h� destino que n�o possa por vezes dar em desatino...

Quase nenhuma mulher em Portugal questiona as mat�rias duras da economia, salvo honrosas excep��es (Helo�sa Apol�nia foi hoje uma dessas excep��es, mas cingiu-se demasiado � tem�tica do ambiente, que possui contornos por vezes demasiado angelicais).

Berardo p�e mulheres nuas arqueando o corpo no Centro Cultural de Bel�m, sem garantias de o Estado n�o sair financeiramente lesado, e a Cultura em Portugal (h� uma mulher � frente desse minist�rio, por sinal...) fez o favor de aceitar a desfeita.

Pacheco Pereira queixa-se das livrarias de Coimbra. N�o ser� por acaso que isso acontece...
� que em Coimbra � inaugurada em breve mais uma Fnac, na margem esquerda do Rio, num centro comercial megal�meno que abre dentro de dias (depois de h� um ano ter sido inaugurado outro, deixando os restantes �s moscas...). Quando se desce a Avenida S� da Bandeira v�-se agora, por cima da silhueta daquilo que em tempos foi o agradabil�ssimo mercado municipal de Coimbra, semi ao ar livre, a torre colorida de um espampanante e por sinal gigantesco centro comercial. Obviamente que n�o foi inocente a escolha do local, ali�s no s�tio onde antes se localizava uma f�brica t�xtil entretanto falida. A� trabalhavam sobretudo mulheres. Talvez algumas tenham agora uma lojeca de trapos ou de colares de madeira com �cora��ezinhos�.

Ora, no folheto de apresenta��o da Fnac, que bem poderia situar-se no P�lo 1 da Universidade, nem um livro vemos: apenas aparecem promo��es de equipamento electr�nico, desde computadores port�teis a c�maras de filmar, e o fado - sempre o fado - como chamariz, pois ent�o. Ah, que saudades da minha biblioteca poeirenta e desarrumada, sem estilo nem design! Apetecia-me sentar-me l� num fim de tarde, com um livro bem velhinho e uma boa ch�vena de chocolate quente. Ouvindo o Requiem de Mozart.

N�o me excluo da culpa por as coisas serem assim e por o conceito de cultura ser hoje t�o restritivo e espumoso, sobretudo para as mulheres portuguesas. Mas - independentemente das defini��es que circulam - n�o deixo tamb�m de me sentir v�tima dessa mesma cultura opressiva e at� violenta, porque ela no fundo nos humilha.

De qualquer modo, se elas, as mulheres, n�o assumirem esse papel de fadas benfazejas, eles alguma vez o assumiriam? � aqui que est� (eternamente?) o cerne do problema da nossa incultura. Bem hajam aqueles (poucos) homens que s�o capazes de dar um passo em frente na mudan�a que urge fazer contra esta quantidade imensa de sorrisos amarelos na pol�tica portuguesa. E que n�o o fazem apenas para depois se contemplarem ao espelho, extasiados com o �estatuto� alcan�ado.

(Adelaide)

*

Surpreendente � para mim o sonho do leitor Paulo Agostinho. Sonha com uma Fnac, o antro do consumismo, dos jogos de computador, televisores de plasma e "gadgeteria" diversa, onde tamb�m h� alguns livros e uns comes e bebes. Afinal ainda vai ser a "culture fran�aise" que vai inundar da "modernidade" as nossas tristes e ba�as cidades. Na passada, liberalize-se o pre�o do livro e rapidamente, nem livrarias "inimagin�veis de provincianas, escuras, mal abastecidas" existir�o.

Os homens sonham com uma Fnac ao p� da porta, onde se deslocar�o de autom�vel, como em tempos as donas de casa sonharam com um hipermercado. Eu sonho com mercearias e livrarias de refer�ncia. Dispenso essa alegre "modernidade", sou um aut�ntico selvagem.

(Jos� Rui Fernandes)

*

A baixa e a alta de Coimbra, a esta��o de comboios Coimbra B, pararam no tempo. Coimbra parou no tempo. Mas � por isso mesmo que se torna t�o enternecedora. Os gatos errantes nos becos, as cal�adas �ngremes, aqui e ali um grupo alegre de matriculados na Universidade (quais estudantes!), descontra�dos e com olheiras, as velhas r�publicas, as lojas de moda completamente demod�s, os restaurantes �s moscas, a Queima � porta, a festa da Rainha Santa como h� 40 anos, o ar leve da Primavera e aquela tranquilidade t�pica da irracionalidade e do provincionalismo puros (nos resultados do ano lectivo, dos lucros do com�rcio, na necessidade da cidade se modernizar�). Coimbra � uma can��o, de sonho e tradi��o. A lua a faculdade. Ai, Saudade. Adoro a minha cidade!

(Helena Oliveira)

*

Tamb�m leio o �Le Monde Diplomatique�, mas nunca o li nem junto ao Mondego nem ao lado do �Bas�fias�. Quest�o de gosto, � claro.
Aqui vivo h� 50 anos. Nunca deixei de comprar um livro que desejasse. A melhor colec��o de Jornalismo, por exemplo, � editada aqui; s�o os livros que me interessam particularmente. � mais f�cil encontr�-los em Coimbra do que noutro lado qualquer. Os de Direito, confesso, passam-me ao lado. Mas se tamb�m os h�, e bons, tanto melhor.
E se n�o h� algo que me interessa e c� n�o h�, como vou por vezes a Lisboa e ao Porto, as FNAC s�o pontos de passagem obrigat�rios. Outras vezes, navego pelas �ciber-livrarias�. � f�cil, acredite; e muito mais seguro desde que inventaram o Mbnet.

Quanto a Coimbra-prov�ncia pura, deixe-me dizer-lhe que fico feliz pela avalia��o. Esse � o objectivo de quem c� est�, acredite. Coimbra � uma aldeia; somos 120 mil e conhecemo-nos quase todos uns aos outros. Vive-se bem, acredite.

PS � Quando conclu�ram a auto-estrada Lisboa-Porto muitos disseram que Coimbra iria morrer. Enganaram-se: melhorou (e muito!) a nossa qualidade de vida. Continuamos provincianos, cidad�os do mundo.

(M�rio Martins, Coimbra)

*

N�o deixa de ser engra�ado como continuamos a achar que tudo vemos sabemos a partir de uma mera observa��o. De facto, o que vemos vem dos nossos pressupostos, mais do que das observa��es. Os elefantezinhos e companhia em nada perdem para as folcl�ricas tias do Herman e as suas correspondentes reais - h�-as em todo o pa�s, ainda que sem a pron�ncia da Linha.

Quanto ao andar "vestido � padre", n�o vejo que mal tenha isso, da mesma maneira que n�o vejo que mal tenha andar de fato e gravata ou andar vestido � punk. S�o linhas conformistas - mesmo as supostamente mais anti-conformistas, por vezes indicadoras de falta de autonomia para decidir. Acho � estranho o adjectivo "poeirentos". Talvez onde estava, sem d�vida: � piso de terra - seco, presumo - � natural que as capas levantem algum p�. Mas � de facto algo que deixa um sorriso, n�o propriamente um inc�modo, quando se passou pela cidade. A vida acad�mica � bem mais rica do que noutras que conheci - e n�o me refiro ao folclore: h� um contacto rico entre colegas de todas as �reas acad�micas, em actividades muito diversas, n�o apenas nos colegas do "grupo" ou "da faculdade". H� debate intelectual (e parvo�ce comum, claro), h� contacto com outras realidades - muito forte.

As livrarias s�o um aspecto cada vez menos importante neste particular, especialmente nas �reas t�cnicas: h� acesso a informa��o actualizada via Web, h� acesso ao invent�rio de quase todos os livros do mundo via Web, em vez de cingido �s exist�ncias de uma livraria; h� acesso barato a esses mesmos livros, quando decidimos compr�-los. O papel (nos dois sentidos) da livraria f�sica continua v�lido, mas muito menos importante. Sim, as lojas da baixa est�o decadentes - por culpa pr�pria, pois impedindo a concorr�ncia "moderna" dos centros comerciais at� recentemente, era mais f�cil subsistir.

Quanto �s capas, usadas por muitos por apego e gosto pela tradi��o, s�o algo a louvar, pois � um uso mais aut�ntico do que t�-las meramente para efeitos administrativos de formatura ou cerim�nia. E tanto jeito d� poder passar uns tempos s� a ter de ter limpas e lavadas as camisas brancas e cal�as pretas, desde que n�o se suje a batina nem a capa... Que jeito d� ter uma capa para a noite fria, para por em cima da relva, para objecto ou fetiche de companhia... Enfim, compreendo a exist�ncia do seu ponto de vista, mas passa-me ao lado.

(Leonel Morgado)

*

Serei breve, mais pelo piscar de olho � amiga que mandou o Blog (n�o sou grande leitor do g�nero, mas em cidades pequenas as not�cias correm depressa�), do que para expiar a gravidade da ofensa ou o orgulho ferido� longe de mim, quero mesmo supor que todos t�m raz�o, simplesmente quando J. fala de P., fica-se a saber mais de J. do que de P.� Neste c�mputo, o choupal serviria t�o bem ao desfecho, como o novo est�dio municipal... Mas vamos �s livrarias. Tudo uma quest�o de perspectiva, diria eu, e as cidades prestam-se muitos bem a todos os enganos.

Cresci sempre com a impress�o de que Coimbra era uma cidade boa apenas para se nascer. A abertura de uma livraria a meias com amigos, foi a �nica raz�o suficiente para me fazer ficar uns anos mais. A ideia era nova e desempoeirada: uma esp�cie de extens�o mais bem composta da estante l� de casa, num s�tio apraz�vel, central e moribundo como conv�m, a uns metros do largo onde o Nozolino fez o retrato perfeito de uma cidade. A coisa tinha bom ar, embora fosse pintada a tinta barata. Uma �nica �rea disciplinar (a que conhec�amos melhor), bastante entrecruzada para n�o parecermos obsessivos e porque �ramos jovens e atentos. Os livros nacionais ficavam de resto em desvantagem com os estrangeiros, apenas e s� porque a produ��o local ser� sempre diminuta em rela��o a tudo o que se produz. A livraria durou o que durou, o tempo que a cidade quis e nem um pingo de nostalgia ou de rancor, tempo suficiente para ouvir o elogio de quem garantia ser uma das mais raras livrarias de arquitectura existentes no mundo. OK. Tanto faz. Finis laus Deo.

(abro par�nteses apenas para reparar uma meia-verdade: a livraria n�o fechou, continua aberta � fechada apenas, como as cidades, para quem n�o se der ao trabalho de dar por elas.)

(vasco pinto, Coimbra)

*

A descri��o que faz de Coimbra � a do turista acidental que encalha num s�tio que dizem ser o "centro da cidade" e que visto o centro viu tudo.
De facto o bas�fias e companhia s�o deprimentes. Mas h� mais cidade!
Ouvi dizer que o Sena propunha como as duas mais importantes medidas p�s queda do regime a extin��o da PIDE-DGS e da Universidade de Coimbra! Provavelmente nunca disse nada disso mas a id�ia tinha boas ra�zes. O problema � que o mundo mudou e as cidades com o mundo. Com certeza o que procura n�o est� onde procura e o que lhe � devolvido na procura n�o � Coimbra � Portugal!

1. Livrarias
N�o vejo grande diferen�a entre Coimbra e Lisboa ( n�o estou a falar de alfarrabistas). O panorama � de uma mediocridade confrangedora. Com a FNAC prevista para abrir a 26 deste m�s menor a dist�ncia.

2. Universidade
Tem centros de excel�ncia reconhecidos por avaliadores internacionais. Tem maus cursos e bons cursos. � demasiado grande e diversificada para ser boa ou m�. Est� � nossa medida. Entretanto o Salazar j� morreu.

3. Vida cultural
Med�ocre. Qualquer cidade francesa com o mesmo n�mero de habitantes produz 10 vezes mais cultura que Coimbra. Assim como qualquer capital europeia que se preze produz 10 vezes mais cultura que Lisboa. Sobre a chamada �rea metropolitana do Porto n�o conv�m falar. Obviamente o 10 � um n�mero como outro qualquer e o conceito de produ��o cultural � aquele que se quiser.

4. Iniciativas da sociedade civil: clubes; ongs; centros de conv�vio. Tudo muito mau. O costume em Portugal. Existe a televis�o.

5. Capas e batinas.
Teve sorte em v�-las. Vivo c� e s� as lobrigo nas festas acad�micas. A pavarosa Queima, a rid�cula Latada, etc. Trata-se de folclore cretino. Existe em muitas cidades do mundo dito civilizado.

(Alberto Costa)

*

N�o querendo abusar da sua paci�ncia, e mesmo sabendo que n�o querer� transformar o assunto num di�logo entre os seus leitores, n�o queria deixar de informar, com refer�ncia ao coment�rio do senhor Paulo Agostinho, que pelo menos numa das tr�s livrarias da Bertrand em Coimbra (uma delas, a maior do pais, segundo penso), encontrar� concerteza o Evelyn Waugh, o Goethe e o Dickens, alguns deles em edi��es estrangeiras, n�o s� da Penguin. Isto, supondo, razoavelmente, que os livros indicados no site da pr�pria Bertrand tamb�m se vendem nas suas lojas de Coimbra. Mas posso estar enganado e numa pr�xima oportunidade irei confirmar.

(Ant�nio Ma�arico, Coimbra)

*

Uma nota que seria injusto n�o fazer. Coimbra possui uma excelente livraria especializada em Banda Desenhada, que est� a entrar no mundo virtual e da venda online . Chama-se Dr Kartoon e a� encontram-se muitas publica��es estrangeiras (inevitavelmente, j� que pouco se deve publicar em portugu�s no campo da BD).

Paulo Agostinho
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(13 de Abril de 2006)


__________________________

Excelente ideia do Kontratempos: sugest�es para desburocratizar a partir de casos reais. Por exemplo, a obten��o do ISSN.

*

M�rio Bettencourt Resendes, "Tempo de ressurrei��o" , no Di�rio de Not�cias sobre uma pr�tica que falta na nossa imprensa: os obit�rios de qualidade.
 


RETRATOS DO TRABALHO NA NAZAR�, PORTUGAL


Vendendo amendoins no S�tio, Nazar�, Abril 2006.

(Ant�nio Ferreira de Sousa)
 


EM BREVE

a animada discuss�o dos leitores do Abrupto sobre Coimbra, suscitada pela nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BAS�FIAS", continuar� aqui em cima.
 


COISAS DA S�BADO : OS PR�XIMOS TR�S ANOS: TEMPESTADE OU BONAN�A?


Olhando para os pr�ximos tr�s anos a primeira impress�o de uma pessoa que viva dentro daquilo que se chama agenda medi�tica � a de uma acalmia anormal no plano pol�tico. O governo est� confort�vel na sua maioria absoluta e o estilo autorit�rio do Primeiro-ministro d� o quanto de confian�a necess�rio, fazendo a propaganda o resto; o Presidente est� l�, s�lido e previs�vel, garantindo um m�dico de equil�brio para o sistema e impedindo abusos; a oposi��o est� confinada ao seu deserto �rido, com lideran�as que todos consideram a prazo, mas que ningu�m quer substituir por reserva e m� f�. Tudo explodir� um pouco, ou talvez quase nada, daqui a dois � tr�s anos na febre das novas elei��es, n�o faltando quem ache que essas elei��es manter�o tudo como est�.

Este olhar � comum naquelas pessoas que s�o politizadas, acompanham a vida p�blica com aten��o, l�em o Expresso no fim-de-semana, discutem pol�tica, s�o da classe m�dia na maioria dos casos e de meia-idade. Este � o pa�s a que pertence a maioria dos produtores e consumidores activos de informa��o em Portugal.

E no entanto� No entanto, a aparente acalmia pol�tica s� pode ser aparente, a n�o ser que o mundo de palavras, inten��es e an�ncios a que assistimos seja puramente fantasm�tico, o que tamb�m � s� por si uma receita para a perturba��o. Tomemos ou n�o o governo a s�rio, os resultados sociais s� podem ser os mesmos: os pr�ximos tr�s anos s� podem ser anos de grande conflitualidade, e � imposs�vel que essa conflitualidade n�o passe para a pol�tica.

Tomemos as reformas que o governo anuncia pelo seu valor facial. Elas significam desemprego, despedimentos e desqualifica��es na fun��o p�blica, racionaliza��o de servi�os, encerramento de institui��es regionalizadas, aumento do custo de vida, mais impostos, menos sal�rios, mais precariedade, pobreza e mediania, onde j� n�o h� pobreza absoluta. As expectativas que j� s�o baixas ir�o ser ainda mais baixas. Se as reformas s�o para ser reformas, s�o para equilibrar o or�amento, diminuir as despesas, aumentar as receitas, racionalizar o estado, s� podem ter este caminho no t�nel, para haver luz no fim de um t�nel que n�o se sabe bem que tamanho tem. Se nada disto acontecer, a crise continuar� a agravar-se e fora dos sectores privilegiados pelo estado, os mesmos efeitos se far�o sentir.

Por isso conv�m n�o tomar como adquirida a paz p�blica e o sossego pol�tico. A n�o ser se j� estivermos todos mortos sem dar por isso, o que tamb�m n�o � imposs�vel de acontecer.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM BANGKOK, TAIL�NDIA


Vendendo amendoins em Bangkok (2004).

(Jos� Fernandes Santos)
 


EARLY MORNING BLOGS 755

QUASI UN MADRIGALE

Il girasole piega a occidente
e gi� precipita il giorno nel suo
occhio in rovina e l'aria dell'estate
s'addensa e gi� curva le foglie e il fumo
dei cantieri. S'allontana con scorrere
secco di nubi e stridere di fulmini
quest'ultimo gioco del cielo. Ancora,
e da anni, cara, ci ferma il mutarsi
degli alberi stretti dentro la cerchia
dei Navigli. Ma � sempre il nostro giorno
e sempre quel sole che se ne va
con il filo del suo raggio affettuoso.

Non ho pi� ricordi, non voglio ricordare;
la memoria risale dalla morte,
la vita � senza fine. Ogni giorno
� nostro. Uno si fermer� per sempre,
e tu con me, quando ci sembri tardi.
Qui sull'argine del canale, i piedi
in altalena, come di fanciulli,
guardiamo l'acqua, i primi rami dentro
il suo colore verde che s'oscura.
E l'uomo che in silenzio s'avvicina
non nasconde un coltello fra le mani,
ma un fiore di geranio.

(Salvatore Quasimodo)

*

Bom dia!

12.4.06
 


EARLY MORNING BLOGS 754

Trees


They stand in parks and graveyards and gardens.
Some of them are taller than department stores,
yet they do not draw attention to themselves.

You will be fitting a heated towel rail one day
and see, through the louvre window,
a shoal of olive-green fish changing direction
in the air that swims above the little gardens.

Or you will wake at your aunt's cottage,
your sleep broken by a coal train on the empty hill
as the oaks roar in the wind off the channel.

Your kindness to animals, your skill at the clarinet,
these are accidental things.
We lost this game a long way back.
Look at you. You're reading poetry.
Outside the spring air is thick
with the seeds of their children.


(Mark Haddon)

*

Bom dia!

11.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ILHA GRANDE, BRASIL


Trabalho em Ilha Grande (Brasil), Mar�o de 2006

(Ana Mouta)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BAS�FIAS".
 


BIBLIOFILIA: MAIS LIVROS, MENOS TEMPO

http://images.amazon.com/images/P/039457589X.01.LZZZZZZZ.jpg http://www.nybooks.com/shop/product-file/19/atim4819/product.jpg


Nancy Milford, Savage Beauty: The Life of Edna St. Vincent Millay

Carol Mavor, Pleasures Taken: Performances of Sexuality and Loss in Victorian Photographs

Patrick Leigh Fermor, On Foot to Constantinople: From the Hook of Holland to the Middle Danube
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS PORTUGUESES S�O DEUSES

Ouvido algures no Ribatejo:

"-Entao eles j� andam a pedir para declarar a cria�ao?
-Andem, andem...
-E vais declarar?
-Eu nao. Para qu�? A minha cria�ao t� toda fechada."

�s vezes lembro-me do filme "Il Gattopardo" a prop�sito de n�s, portugueses. Lembro-me sobretudo da cena em que o conde de Salina explica os sicilianos a um emiss�rio de Roma. Recorda uma visita de soldados ingleses � ilha que, embora admirados com a sua beleza, ficaram pasmados com a mis�ria end�mica. O conde ter-lhes-� respondido que os sicilianos nao se preocupavam com o seu estado - os sicilianos eram deuses, tao simplesmente. �s vezes creio tamb�m que n�s, portugueses, somos deuses, alheios a esses ingleses, de que lemos no jornal e at� elogiamos, mas que secretamente desprezamos.

(Pedro Oliveira)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)

(11 de Abril de 2006)


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Poucas coisas fazem tanto sentido como a de se ser americano e manifestar-se a favor da legaliza��o dos emigrantes. Not�cias nos blogues das grandes manifesta��es a favor dos emigrantes nos EUA.

*

Em vez das absurdas queixas contra o imperialismo anglo-sax�nico, a boa maneira dos franceses responderem ao Google: um motor de busca que analisa o conjunto da obra do fil�sofo L�vinas, incluindo os textos ainda protegidos pelo direito de autor. Na p�gina do Institut d'�tudes l�vinassiennes.

*

Um cr�tico, neste caso uma cr�tica, Michiko Kakutani, do New York Times, analisada por um cr�tico, Ben Yagoda no Slate. E Yagoda n�o � nada meigo:
"The voice this reader would really like to hear in Michiko Kakutani's reviews is not a mock-Holly Golightly voice or the enervated (or prissy) voice of an enshrined critic, but Kakutani's own. Here's a modest suggestion on how to start: Just once, instead of describing what "the reader" expects, thinks, or does, she might try using the word "I."
 


EARLY MORNING PICTURE


Guimar�es pela manh�.

(Gil Coelho)
 


EARLY MORNING BLOGS 753

Lam�ntase Manzanares de tener tan gran puente


Habla el r�o

�Qu�tenme aquesta puente que me mata,
se�ores regidores de la villa;
miren que me ha quebrado una costilla;
que aunque me viene grande me maltrata!

De bola en bola tanto se dilata,
que no la alcanza a ver mi verde orilla;
mejor es que la lleven a Sevilla,
si cabe en el camino de la Plata.

Pereciendo de sed en el est�o,
es falsa la causal y el argumento
de que en las tempestades tengo br�o.

Pues yo con la mitad estoy contento,
tr�iganle sus mercedes otro r�o
que le sirva de hu�sped de aposento.


(Lope de Vega)

*

Bom dia!

10.4.06
 


TEMPOS COMUNICACIONAIS E PROPAGANDA - DEMONSTRA��ES


J� se viu muita coisa, mas uma tomada de posse da direc��o da Pol�cia Judici�ria marcada para coincidir com os telejornais das 8, devidamente transmitida em directo pela RTP, ainda n�o tinha acontecido.
 


TEMPOS COMUNICACIONAIS E PROPAGANDA



O intervalo que passa entre o an�ncio das medidas do governo e a sua execu��o efectiva e impacto real, favorece o efeito propagand�stico. O que �passa� nas sess�es de an�ncio, cuidadosamente preparadas por especialistas de rela��es p�blicas e assessores de comunica��o, onde toda a mensagem � controlada sem contradit�rio e sem ru�do, s�o as inten��es, e as �inten��es� s�o muitas vezes consensuais e de aplaudir, pelo que o efeito � positivo. Este tempo comunicacional dos an�ncios � prime time, tempo nobre. Quando se come�a a perceber a diferen�a entre as �inten��es� e a realidade, o tempo comunicacional � j� bem mais pobre do o do seu an�ncio e a mensagem muito menos eficaz at� porque muitas vezes j� nem sequer est� no centro da agenda pol�tica.

Se se quiser agora e reler, � luz do que j� se sabe, e que j� se p�de estudar o SIMPLEX ou o PRACE, e se come�a a perceber quais os investimentos que v�o ser concretizados, ou a realidade do Plano Tecnol�gico, ou analisar o primeiro resultado de 6% na pol�tica or�amental � luz do relat�rio Const�ncio sobre o d�fice, quem achar� que a agenda medi�tica actual comporta essas quest�es? Ningu�m, porque as quest�es j� s�o �velhas�.

O governo est� a usar e a abusar deste efeito, mas talvez deva dizer-se que ele s� � eficaz pela combina��o de dois processos: um, a oposi��o passar a ser cred�vel, logo a fazer-se ouvir em tempo �til (o que n�o mudar� de um dia para o outro) refor�ando a vigil�ncia parlamentar; e outro, a comunica��o social deixar de simplesmente incorporar os termos das sess�es de an�ncio, fazendo uma cobertura �transparente�, que mant�m intacta a inten��o propagand�stica. Est� mais do que na altura de come�ar a haver mais distancia��o cr�tica, at� para que se perceba o que o governo faz bem e o que n�o faz e � s� propaganda.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM MUMBAI, �NDIA


Lavandaria manual a c�u aberto em Mumbai.

(Jos� Santos)
 


LENDO O LE MONDE DIPLOMATIQUE, JUNTO AO MONDEGO, NUM DIA CINZENTO, AO LADO DO BARCO "BAS�FIAS"

Tudo isto me parece um pouco sinistro, mas encaixa muito bem. Os artigos sobre a defunta lei do CPE, a come�ar pelo editorial de Ramonet, d�o o tom �s aguas. � minha volta fala-se brasileiro, l�ngua dos empregados de restaurante em Portugal, produto da globaliza��o. � minha frente, umas jovens senhoras, de grandes an�is de casadas, uma das quais � dona de uma boutique, mostram umas �s outras um produto novo: uns colares gigantescos de madeira, iguais a milhares de outros, mas com uns "elefantezinhos" e uns "cora��ezinhos" dependurados (elas falam em diminutivos). "S�o bons para a tua loja". Susto e pavor.

Ramonet fala em aumentativos. Ele acha que a Fran�a, sua sociedade, sua economia, e sua cultura s�o gloriosas e que agora a "direita" e o "liberalismo" a rebaixam no seu valor. Toda esta conversa de "decl�nio" e "crise" da Fran�a � uma ced�ncia ao "inimigo", diz Ramonet, ou seja ao imperialismo americano e o liberalismo econ�mico anglo-sax�nico. Pobre Villepin, que eu conheci Ministro dos Neg�cios Estrangeiros, sempre com o mesmo ar enfadado, com a arrog�ncia da pequena nobreza rural perante um mundo que n�o fosse galo-franco-franc�s, agora passado para o "inimigo", que ele mais que tudo desprezava. Apanhado na sua pr�pria medicina, com a esquerda alter-mundialista do Le Monde Deplomatique a agitar a tricolor.

Coimbra por tr�s. Sempre achei que devia haver algo de muito errado numa cidade em que os estudantes gostam de andar vestidos � padre. Passam alguns, negros e poeirentos. Uma cidade cujas livrarias na baixa s�o inimagin�veis de provincianas, escuras, mal abastecidas, quase sem livros estrangeiros. Apenas o Direito � rei e senhor, tudo o resto leva � pergunta: como pode uma cidade universit�ria ter livrarias assim? Tudo triste, ba�o, esquecido da "modernidade" como agora se diz. Mal por mal, prefiro ver as not�cias necrol�gicas ainda coladas nas paredes como nas aldeias e vilas do Norte. � certo que me parecem ser feitas j� em computador e impressas a laser ou jacto de tinta, e depois prosaicamente copiadas. Algures ainda devem ser feitas em tipo de chumbo, apertado nas caixas a cordel, e com os filetes para ocupar espa�o. Prov�ncia pura, o que em si n�o � mal nenhum, n�o fosse ser esta a terra da "Lusa Atenas".

*
O "Sempre achei" demonstra o preconceito, claro. Imagino o projecto matinal: "Deixa-me c� ver e ouvir algo que ilustre o que eu � partida j� decidi escrever."

Eu por mim sempre achei que a an�lise de uma cidade exige mais do que percorrer 50 metros de rua. Suponho mesmo que, qualquer que seja a cidade no mundo, e qualquer que seja o preconceito que sobre ela se tenha, existem nessa cidade 50 metros de rua que ilustram o preconceito.

(Jo�o Filipe Queir�, Coimbra)

*

� curioso que o leitor Jo�o Filipe Queir� reage contra a afirma��o mas n�o a nega. Apenas diz que corresponde a uns metros de rua. Basta ir a Coimbra e ver, andar por aquelas ruas, a maior parte sujas, as lojas antigas, passadas, incluindo � o que � grave na cidade ber�o da nossa Universidade � as livrarias. Coimbra vive � sombra do que j� foi. � ali�s muito portugu�s... Infelizmente JPP tem raz�o. Mais valia n�o ter, mas tem.

(Rui Esperan�a)

*

Disto tudo, ocorre-me uma coisa: porque ser� que s� os portugueses chamam "l�ngua brasileira" � l�ngua que os brasileiros falam? Os brasileiros sabem bem que falam portugu�s. Nunca vi nenhum ingl�s fazer quest�o de dizer que os americanos falam uma qualquer "American language". Porque ser� que n�s gostamos tanto de, com uma pontinha de desprezo, dizer que os brasileiros falam "brasileiro"?

(Ant�nio Franco)

*

Estou exactamente a ver o percurso do JPP. E n�o foi muito longe, de facto. Mas poderia ter andado duzentos, trezentos metros, que encontrava o mesmo cen�rio. � a habitual romagem ao pitoresco que se encontra em qualquer guia de viagens e que pode durar mais ou menos, conforme o tempo dispon�vel. Normalmente retratam um mundo em extin��o e � bem verdade que frequentemente j� levamos esse mundo na cabe�a . A Baixa de Coimbra (e a baixinha), por raz�es comuns a tantas outras cidades europeias, � j� quase uma sombra do que foi. J� quase ningu�m �vai� � Baixa. Pelo contr�rio, �passa-se� na Baixa para ir apanhar os transportes para a periferia, da mesma forma que se passa na Rua Augusta para ir apanhar o cacilheiro para a outra banda. E o JPP, assim como falou das capas dos estudantes, poderia ter falado nas duas ou tr�s �tricanas� que todos os dias ainda lavam a roupa no rio, ali mesmo, muito perto daquelas duas senhoras tamb�m t�o casti�as, � sua maneira. N�o h� falta de livrarias em Coimbra, muito bem fornecidas.. Simplesmente, n�o passa pela cabe�a de nenhum turista (acidental, ou n�o), percorrer a cidade � procura delas. Eu pr�prio, numa cidade estranha, nunca o faria. Ou est�o perto do local de desembarque, ou n�o est�o. Se estiver muito interessado, e gostar de coisas de livros, entro nelas e vejo o que por l� existe. Se n�o estiver interessado, limito-me a verificar o arranjo e o stock das montras. Mas nunca tinha pensado na quest�o dos an�ncios de necrologia. Bem visto.

(Ant�nio Ma�arico, Coimbra)

*

Coimbra, pela sua intr�nseca liga��o � universidade, espelha bem o bloqueio da sociedade portuguesa que subsistiu (e procura subsistir) com base nas corpora��es, neste caso a universidade, para as quais a competitividade e o confronto com a realidade eram factos irrelevantes. Mas antes pelo contr�rio, seria a realidade a ter de se adaptar � fic��o - o que, a n�o ser em per�odos curtos e sempre com resultados desastrosos, n�o �, diz-nos o simples senso comum, de todo poss�vel. Ora com a globaliza��o quem � que n�o est� mais interessado em frequentar um curso, um mestrado ou um doutoramento numa universidade brit�nica ou norte americana ? Ser� que � o provincianismo que leva os estudantes portugueses a tentar cursar nas universidades estrangeiras ou ser� tamb�m aqui uma mera quest�o de senso comum: eu ganho mais dinheiro se tirar o curso numa universidade que seja reconhecida internacionalmente.

(Manuel Cortes)

*

O que escreveu sobre Coimbra (e especificamente sobre as livrarias em Coimbra) podia ser tamb�m a descri��o de Lisboa. Claro que h� mais livrarias e claro que existem p�rolas esquecidas na baixa, habitadas por senhores nobres que parecem esquecidos do tempo que passa l� fora (o que talvez seja a raz�o de tanto prazer quando os visitamos), mas na realidade, tirando estas livrarias e alfarrabistas que vivem do h�bito, o que h� mais?
Quando vamos a uma livraria �universit�ria�, o que � que encontramos? Um deserto. Os livros estrangeiros s�o praticamente inexistentes, com excep��o do Stiglitz e outros livros de economia b�sicos, para dar a impress�o de ser uma livraria moderna e �cosmopolita�. N�o se trata de dizer que s� o que n�o est� em portugu�s � que � bom, mas antes que aquilo que se escreve noutras l�nguas � muito mais (e melhor) do que aquilo que � poss�vel traduzir para a l�ngua materna.
O retrato das livrarias em Portugal � a revela��o de um pa�s que vive apenas consigo pr�prio, culpando-se de tudo e, na aus�ncia de �concorr�ncia� ou compara��o, se acha natural e paradoxalmente o melhor. O retrato do provincianismo luso � tamb�m esta incapacidade de nos medirmos realisticamente com o resto do mundo, e o panorama das nossas livrarias � um espelho disso mesmo.

(Jo�o Lopes)

*

Compartilho o seu lamento sobre as livrarias de Coimbra, com maior pesar da minha parte porque nela vivo. H� muito que sonho com uma Fnac nesta cidade. Julgo que esse 'sonho', em breve, ser� uma realidade. As livrarias tradicionais (por falta de espa�o ou de compradores?) n�o investem nos livros estrangeiros, tirando as colec��es da penguin. Provavelmente porque n�o podem competir com a Internet (por exemplo, comprei mais livros no amazon do que em livrarias de Coimbra, nos �ltimos anos). Mas at� poder�amos conviver serenamente com a aus�ncia de livros em l�ngua estrangeira se as editoras fizessem, como se faz em Espanha, tradu��es s�rias e em grande escala, abrangendo a literatura, as ci�ncias, a Hist�ria, a poesia,a pol�tica... Infelizmente isso n�o acontece. Onde est�o as tradu��es dos escritos que deram a Churchill o Nobel da literatura? Onde est�o os 'cl�ssicos' de Dickens? E Goethe? E Evelyn Waugh? Mesmo obras fundamentais da nossa cultura, escritas em portugu�s, se encontram esgotadas h� v�rias d�cadas, impossibilitando a sua aquisi��o sem o recurso aos alfarrabistas.
Quanto aos estudantes universit�rios, estes, em geral, n�o compram livros, tiram fotoc�pias de livros. Uns fazem-no por falta de dinheiro (os livros s�o caros) ou porque n�o valorizam o livro em si, apenas o olham como um objecto de trabalho, um instrumento para atingir a nota positiva. Outros recorrem �s fotoc�pias porque n�o encontram o livro � venda. E o v�cio instala-se.

(Paulo Agostinho)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(10 de Abril de 2006)


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Certeiro e dur�ssimo, o artigo "Med�ocre, mesmo mau!" de Gra�a Franco no P�blico (sem liga��o) de hoje, contra a pol�tica or�amental do governo.Uma contribui��o para a diminui��o da "treta", que cada vez mais abunda no engolir indiscriminado da propaganda governamental:
"Vamos falar verdade: o d�fice de 6 por cento conseguido pelo actual Governo em 2005 n�o � um bom resultado. �, na melhor das hip�teses, um resultado med�ocre que, conjugado com o escandaloso agravamento do r�cio da d�vida p�blica em mais de cinco pontos percentuais num �nico ano (passando de um limiar abaixo de 60 por cento em 2004 para uma previs�o de quase 69 por cento este ano), s� pode ser entendido como um mau resultado. O efeito do galopar da d�vida est� j� � vista: em 2006, de acordo com os n�meros enviados a Bruxelas na semana passada, o Governo espera gastar, em juros, tanto quanto em investimento, perto de 4,4 mil milh�es de euros. Em rigor, os n�meros de 2005 s� n�o s�o p�ssimos porque o nosso desejo de que "resulte" o trabalho desta equipa para bem do pa�s � t�o grande que risca o pessimismo da an�lise econ�mica."
*

Mais uma raz�o para contestar as quotas, erradamente chamadas da "paridade", e mais uma raz�o para contestar a hegemonia masculina na pol�tica: os g�neros l�em diferente. Os homens s�o escapistas, as mulheres apaixonadas, diz um inqu�rito do Guardian, sobre os livros preferidos por sexo:
"The results are strikingly different, with almost no overlap between men's and women's taste. On the whole, men preferred books by dead white men: only one book by a woman, Harper Lee, appears in the list of the top 20 novels with which men most identify.

Women, by contrast, most frequently cited works by Charlotte and Emily Bront�, Margaret Atwood, George Eliot and Jane Austen. They also named a "much richer and more diverse" set of novels than men, according to Prof Jardine. There was a much broader mix between contemporary and classic works and between male and female authors.

"We found that men do not regard books as a constant companion to their life's journey, as consolers or guides, as women do," said Prof Jardine. "They read novels a bit like they read photography manuals." Women readers used much-loved books to support them through difficult times and emotional turbulence, and tended to employ them as metaphorical guides to behaviour, or as support and inspiration."
*
Ainda a prop�sito do inqu�rito divulgado no The Guardian sobre os diferentes gostos ficcionais dos sexos, parece-me interessante, mas duvidosa, esta conclus�o de Lisa Jardine relativamente ao mercado livreiro e aos pr�mios liter�rios:

Prof Jardine said that the research suggested that the literary world was run by the wrong people. "What I find extraordinary is the hold the male cultural establishment has over book prizes like the Booker, for instance, and in deciding what is the best. This is completely at odds with their lack of interest in fiction....

"On the whole, men between the ages of 20 and 50 do not read fiction. This should have some impact on the book trade. There was a moment when car manufacturers realised that it was women who bought the family car, and the whole industry changed. We need fiction publishers - many of whom are women - to go through the same kind of recognition," Prof Jardine said.

A este respeito, partilho das reservas que algumas autoras j� mostraram face �s conclus�es algo apressadas do inqu�rito:

The psychotherapist Susie Orbach professed surprise at the final list - "Where are the young women?" - but said women's continuing weakness for the happy ending with a wedding wasn't a shock: "There is still all of this longing in our psychology. We want these lovely redemptive romantic endings, to be seen and understood, but within the confines of femininity."

Julie Birchill questioned the value of any poll about women's literature: "I think if people had been hooked up to lie detectors the winner would have been Jackie Collins."


Influenciadas talvez pelos preconceitos acad�micos em rela��o � literatura light, as autoras do inqu�rito n�o referem uma parcela muito significativa - com grandes sucessos de vendas - do mercado livreiro dirigido ao p�blico feminino, a chamada "chick lit" dos di�rios de Bridget Jones & Cia (que tem entre n�s "primas" distantes nas Margaridas Rebelos Pintos e respectiva prole). E, como parece sugerir Orbach, estas jovens autoras, apesar do verniz de (p�s?)modernidade, acabam por reproduzir e promover ad nauseam os velhos clich�s femininos do final feliz, do "Pr�ncipe Encantado", e da mulher que, feitas as contas, o que mais teme na vida � ficar velha e sozinha. Isto levaria decerto a outras conclus�es ainda mais inquietantes e reveladoras...

(Daniela Kato)
 


EARLY MORNING BLOGS 752

Dice la raz�n: Busquemos
la verdad.
Y el coraz�n: Vanidad.
La verdad ya la tenemos.
La raz�n: �Ay, qui�n alcanza
la verdad!
El coraz�n: Vanidad.
La verdad es la esperanza.
Dice la raz�n: T� mientes.
Y contesta el coraz�n:
Quien miente eres t�, raz�n.
que dices lo que no sientes.
La raz�n: Jam�s podremos
entendernos, coraz�n.
El coraz�n: Lo veremos.


(Antonio Machado)

*

Bom dia!
 


AGUSTINA BESSA-LUIS
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL


Eu cresci na secreta depend�ncia moral do afonsismo. Meu tio-av�, Joaquim Bessa de Carvalho, teve uma vida prestigiosa na Ba�a, onde casou. Prosperou com uma frota para com�rcio de fruta, nesse tempo a laranja; mandada para Inglaterra, grande consumidora de compota. Os abastados negociantes da laranja, esp�cie de irmandade laica comungante dos princ�pios ma��nicos, n�o se distinguiam pela cultura. Da� que meu tio-av�, ao enriquecer, se voltasse para as coisas que n�o teve tempo de aprimorar: os livros e o que neles estava escrito. Foi um dos s�cios fundadores do Gabinete Portugu�s de Leitura, do que fui informada da primeira vez que fui � Ba�a.

Meu tio Joaquim, com nome impresso nas Enciclop�dias, era um homem severo, de poucas gra�as. De resto, na fam�lia, os homens tinham fama de perigosos, ainda que am�veis quando lhes parecia. Meu tio Joaquim casou as filhas com doutores; o filho foi deputado na primeira Rep�blica, e ele morreu de repente na sua ch�cara de Vila-Me� que mais parecia a datcha dum escritor russo, sem escritor.

Desde crian�a que eu ouvia o nome de Afonso Costa pronunciado com emo��o e louvor. E a Rep�blica pairava como um l�baro por cima do candelabro da sala de jantar de oito bra�os, estilo holand�s mas de madeira de castanho. Afonso Costa, se n�o era o �dolo, era o que mais se parecia com um dos desses lares, ao lado do bengaleiro, � entrada. Falar de Afonso Costa era proibido como era proibido falar de Yav� na f� dos judeus. No meio do seu silencioso e quase fan�tico afonsismo, meu pai teve uma ideia genial: mandou-me educar pelas doroteias.

�Quem matou o Sid�nio foram as mulheres�, dizia-se, com essa sufici�ncia que t�m as senhoras � hora do ch� de antigamente. O Sid�nio enchia a imagina��o das mulheres que, como se sabe, tem lugar para tudo.

Afonso Costa e Sid�nio faziam o contraponto de duas posi��es pol�ticas ou de duas paix�es politizadas. O primeiro foi odiado pelas medidas caudalosas de reac��es profundas que tomou. O segundo foi amado pela erotiza��o das massas que se julgaram amea�adas pela revolu��o. Sid�nio Pais inaugura no c�rculo do P.N.R. (Partido Nacional Republicano) uma medida chave que � o culto da personalidade. O P.N.R. era um partido criado por uma cimeira forte para apoiar uma figura capaz de mover as massas pela sua aura de iluminado. O que, em toda a Europa carente de todos os bens materiais e de cultura, iria dar frutos envenenados. Sid�nio defendia um programa de governo presidencialista, no qual o presidente podia dissolver o Parlamento, tendo para isso nas m�os um poder, na sua ess�ncia, ilimitado. Egas Moniz avisou Sid�nio Pais dos perigos que ele corria contribuindo para o colapso do P.N.R. A popula��o estava do seu lado mas, excluindo as cidades de Lisboa e Porto, o pa�s era um deserto de moral pol�tica e em que a propaganda a favor da nacionalidade, como preconizava Ant�nio Jos� de Almeida, n�o era priorit�ria. Por enquanto, o poder estava nas m�os de Afonso Costa. S� ele mantinha a calma tendo o Conselho de Ministros perdido o sangue frio quando a guerra com a Alemanha parecia iminente, dado o pacto luso-brit�nico. A guerra n�o era desejada na opini�o de Brito Camacho; e, sobretudo, se Londres n�o apoiasse a interven��o de Portugal, ao menos a honra estaria salva. Brito Camacho tinha uma lucidez aguda e �s vezes at� c�nica. Era ele quem dizia: �N�o bulas na barriga ao macho enquanto come�, aludindo aos interesses obscuros que se geravam em volta duma guerra lucrativa para alguns. O movimento mon�rquico era irrequieto e, para mais, german�filo e, em consequ�ncia, castelhano. �Antes Afonso XIII que Afonso Costa�, era um grito em surdina, mas que era ouvido nos c�rculos mon�rquicos.

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O fetiche tinha sido encontrado, o sil�ncio fora accionado e tanto os german�filos, como os cat�licos e os mon�rquicos agruparam-se em volta de Sid�nio Pais. A sua figura, a natural eleg�ncia que a farda favorecia, atraiu-lhe as boas gra�as das mulheres. O regime ditatorial que atribu�ram a Sid�nio n�o estaria naquilo que n�o passou dum breve culto da personalidade. A sua morte favorecia a Rep�blica, era o que se podia supor. Mas sobretudo favorecia aquilo que j� estava na forja, uma ditadura. Pelo que � indecifr�vel aquele assassinato no Rossio a que n�o faltou um toque maquiav�lico a que tanto a grande pol�tica como a pequena pol�tica n�o s�o estranhas.

Afonso Costa definia-se pela grande pol�tica, vinculada �s grandes quest�es, a defesa, a conserva��o das estruturas econ�mico-sociais. Os seus rasgos elementares mas derivados duma oposi��o cerrada, desacreditaram-no como homem e como pol�tico. O provincianismo que se respira nos ares da pequena pol�tica, em que as quest�es parciais e as lutas de partidos enfermam da ambi��o de serem elementos indispens�veis da grande pol�tica, tornam Afonso Costa um refugiado da Rep�blica. Foi julgado como homem desonesto, mas n�o como homem pol�tico em profundidade, ou seja, que, cumpra ou n�o com os seus compromissos, fale � sociedade que pretende e deseja transformar.

Sid�nio Pais morre, se n�o heroicamente, ent�o digamos como a mola duma m�quina que atingiu o limite da sua dura��o. Para ganhar elei��es, como se queria, mobilizando um eleitorado cada vez mais desgastado pela Rep�blica radical, era preciso controlar o Governo; mas aqui interveio a personalidade de Sid�nio (que cedo ou tarde acaba por se manifestar no decurso dos objectivos pol�ticos mais genu�nos) quando ele pensou criar um partido �nico de massas. N�o teve �xito, era o princ�pio do partido �nico que o esp�rito castrense aprova, mas Sid�nio era muito popular e, como Presidente da Rep�blica, o fetichismo triunfava. Ele era um homem de ac��o, ou parecia ser, porque a sofreguid�o da felicidade cria os seus pr�prios mitos. Quis fazer o que faz um homem t�mido a quem oferecem a gl�ria mais do que o �xito: quis conhecer os portugueses, apertar-lhes a m�o e visitar os doentes nos hospitais. Ignorou um dos princ�pios fundamentais do poder � defender-se da miss�o hist�rica e guardar a dist�ncia entre dirigentes e dirigidos. O seu porte militar foi, por muitos anos, um atributo indispens�vel para se assumir a Presid�ncia.

O fraco de Sid�nio Pais era o de querer fazer da sua ambi��o um charme. Ora, ou h� ambi��o, ou charme. Sid�nio rodeou-se de gente nova a quem a pr�pria infus�o er�tica da juventude fazia parecer optimismo. Duma hora para a outra, o favor dos jovens cai no esquecimento e eles pr�prios n�o se reconhecem no que amaram t�o sinceramente. Chamaram a Sid�nio �homem honrado�, o que � sempre um perigo para quem julga que a honestidade faz votos. Quem vota ou � um transgressor, pequeno ou m�dio, ou est� para o ser. A transgress�o � �leo da m�quina pol�tica; faz com que esta role melhor, sem parecer que depende da lei da gravidade.

O que em Afonso Costa era arrog�ncia, que serve no Parlamento, em Sid�nio Pais era coragem, que depende da sugest�o ou experi�ncia das trincheiras. A coragem requer perseveran�a, o que faltou a Afonso Costa quando se exilou para Paris com o pretexto de que em Portugal um rapaz de doze anos andava armado. Mas a coragem pode conter um pouco de terror, como creio ter acontecido com a viagem de Sid�nio ao Norte e a sua convic��o de ter de fazer algo necess�rio ou algo que esperavam dele. O contr�rio era perder os seus gal�es e o significado dado � sua pol�tica-paix�o.

A f�rmula de L�on Blum �O poder � tentador. Mas s� a oposi��o � confort�vel�, parece ter estado no pensamento de Afonso Costa. Concebe-se plenamente que, em dado momento, preferiu criar as bases duma oposi��o, a usufruir o poder que �, afinal de contas, mais cedo ou mais tarde �uma norma�. Como chefe do executivo, Afonso Costa estava contrafeito e Sid�nio era naturalmente adequado. Mataram-no precipitadamente porque defendia a neutralidade. � evidente que no plano das defini��es Afonso Costa era um jacobino. Aplicava o absolutismo � soberania popular, sendo o seu dom da palavra uma forma de execu��o sum�ria. Nem por um momento deve ter dado aten��o a Sid�nio Pais sen�o para garantir as rela��es de for�a que tinha que ter em conta para mover os interesses econ�micos ao seu alcance. A sua paix�o n�o era a pol�tica nem o que dela adv�m, mas os interesses econ�micos, aquilo com que se lucra ou se perde, o pre�o, em suma. Ele vinha duma prov�ncia solit�ria, franzina na sua produ��o, trabalhosa e com pouca margem de rendimento. Ao mesmo tempo, propunha ao pa�s ideias demasiado avan�adas para o seu grau de instru��o. Para o povo as medidas tomadas de rompante por Afonso Costa, ou eram heresias ou ent�o significavam privil�gios para os mais ricos ou os mais astutos. Atribu�am a Afonso Costa uma fortuna de nababo e dizia-se que tinha na serra um pal�cio; n�o passava dum chal� � moda su��a, como convinha, achava ele, a uma paisagem de neve.

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.


9.4.06
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(9 de Abril de 2006)


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Monumentos, t�mulos, l�pides. No nove de Abril:



Fotos tiradas quando das cerim�nias de 9 de abril de 2005 (Jorge Novo)
J� ningu�m se lembra porque existem tantos Largos 9 de Abril por cidades e vilas portuguesas?

Em La Couture, pequena comuna do Departamento do Pas de Calais, h� um monumento, constru�do salvo erro em 1927, por subscri��o p�blica portuguesa, em m�rmore ou pedra branca, onde pontifica a frase ; "Le Portugal reconnu � la France Immortelle". Nas imedia��es morreram mihares de militares portugueses, quando o Corpo Expedicion�rio Portugu�s ficou exposto a um ataque alem�o, ap�s uma retirada das for�as brit�nicas que guarneceram o flanco, sepultados no cemit�rio de Richebourg.

Em toda aquela regi�o por esta altura do ano � possivel passear entre campos floridos de papoilas e deparar com cemit�rios t�o diversos como os das for�as ANZAC, os batalh�es canadianos ou at� um cemit�rio hindu. Igualmente numerosos, mas n�o identificados por qualquer s�mbolo ou sem a nacionalidade nomeada s�o os cemit�rios de militares derrotados,

(Jorge Lobo de Mesquita)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM NOVA IORQUE, EUA


Tr�s policias � civil no Battery Park (NY) algemam alguns vendedores ilegais (contei 5) e toda a gente circula quase sem se aperceber do facto. Tive de usar a teleobjectiva para n�o dar nas vistas. (Setembro 2004).

(Jos� Santos)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota FAZER OPOSI��O (1).
 


EARLY MORNING BLOGS 751

Voz numa pedra


N�o adoro o passado
n�o sou tr�s vezes mestre
n�o combinei nada com as furnas
n�o � para isso que eu c� ando
decerto vi Os�ris por�m chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava Jo�o
nenhuma nenhuma palavra est� completa
nem mesmo em alem�o que as tem t�o grandes
assim tamb�m eu nunca te direi o que sei
a n�o ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

N�o digo como o outro: sei que n�o sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lan�o os turbilh�es e vejo o arco �ris
acreditando ser ele o agente supremo
do cora��o do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde �a poesia n�o mais ritmar� a ac��o
porque caminhar� adiante dela�
Os pregadores de morte v�o acabar?
Os segadores do amor v�o acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me ent�o aquele canivete
porque h� imenso que come�ar a podar
passa n�o me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o prop�sito de n�o sacrificar-se
n�o construir�o ao sol coisa nenhuma
nada est� escrito afinal


(Jorge de Sena)

*

Bom dia!
 


AGUSTINA BESSA-LU�S
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL

O rei � uma pessoa bondosa, um pouco f�til, o que na realeza se traduz nalguma insol�ncia. Quando da visita do Kaiser a Portugal, ao v�-lo aproximar-se, D. Carlos teria dito: �L� vem o gajo!�, o que � sintom�tico duma personalidade desinibida ou at� que se diverte com a informalidade. Usa da realeza como dum objecto que s� a ele diz respeito, intoc�vel por qualquer coisa de estranho � os outros. Da� a sua simpatia por Jo�o Franco, o ditador. Jo�o Franco assumira como plebeu o que o rei n�o se prop�e como aristocrata. Ser� o rei um falso aristocrata a quem a tirania, no fundo, lhe agrada? H� em D. Carlos uma exaspera��o que contraria a sua �ndole bonacheirona, de artista de domingo, de soberano por desporto. O povo conhecia-lhe os defeitos, mantendo-se � dist�ncia para n�o ser v�tima deles.

Se D. Carlos tivesse demitido Jo�o Franco, pelo menos acabaria em paz o seu reinado e depois dele que viesse o dil�vio. Mas a quest�o � que o rei fizera um pacto com a fatalidade. Ele estava cansado de ser rei, de ser marido, de amar os filhos seus herdeiros ou mais seus herdeiros do que filhos. H� um suic�dio encoberto na teimosia de D. Carlos em ir de Vila Vi�osa para Lisboa onde entra em carruagem aberta. Ele que j� n�o aparece a cavalo pela cidade e sem guardas. Encontra no presidente de conselho, o qu�? A m�o que o h�-de empurrar para o abismo, e de que ele precisa para se precipitar. H� quem veja o golpe de Estado como uma coisa certa; e diz de Jo�o Franco: �� mais f�cil suicidar-se do que deixar de ser o que sempre foi�. � isto que o rei admira e talvez inveja. A inveja � um sentimento de frustra��o. Aparece em qualquer �rea da sociedade e muito especialmente entre a gente culta e estimada para a gl�ria.

Quando Guerra Junqueiro publica o livro P�tria ningu�m quer ver o seu conte�do. � um panfleto arrasador, � uma execu��o em regra do regime, � um grito cujo eco n�o se extinguir� mais. S� v�em um folheto de propaganda no que � uma labareda que chega �s nuvens. Guerra Junqueiro era subsidiado e pago pelo sentido republicano do Porto, onde a propaganda era mais activa. A linguagem do poeta tinha a resson�ncia dum campo de manobras. Jo�o Franco, quando soube do triunfo da lista democr�tica, teria dito: �Republicanos, o qu�? Esses diabos ainda vivem?�. Entre esses diabos, estava Afonso Costa, um advogado de Viseu, que depois se tornou na �spide do jardim das del�cias que se pretendia ser Portugal.

N�o sabemos ainda hoje se Afonso Costa foi um tribuno digno de melhor campo revolucion�rio, se foi um homem de ac��o que estaria bem � cabe�a dum regime s�rio. Mas que seriedade podia haver num regime em que o rei tro�ava mais do que governava? � de Saint-Just a revela��o: �Um regime que tro�a tem tend�ncia para a tirania�.

N�s n�o sabemos como era Jo�o Franco na intimidade. Sem esse dado que se tornou vital para conhecer a profundidade dos factos (e que se tornou dispon�vel exactamente a partir duma nova concep��o planet�ria do homem) n�o podemos avaliar os actos das pessoas. Os actos e as vontades, e a soma de responsabilidade que lhes � atribu�da.

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O rei dizia que vivia numa monarquia sem mon�rquicos. Como hoje se pode dizer que vivemos numa democracia sem democratas. Bento Carqueja, uns bons trinta anos depois do regic�dio, lembrou que as institui��es pol�ticas estavam mais ou menos divorciadas da Na��o ou a Na��o alheada da sua vida pol�tica. D. Carlos e o pr�ncipe herdeiro s�o abatidos no Terreiro do Pa�o sob o olhar duma corte cega e a obstina��o dum governo farto de ter de dar explica��es das suas raz�es. N�o h� raz�es sem paix�es e estas nem sempre s�o demonstr�veis. N�o se leva ao Parlamento um frio de adaga que entrou no cora��o gra�as a uma palavra imprudente. A ced�ncia absoluta do rei perante o seu ministro n�o se pode condenar, nem aprovar, porque pertence aos mist�rios das rela��es humanas. N�o se pode demonstrar que uma Constitui��o � digna de aprova��o em todos os sentidos. Benjamim Franklin chamou �o menos mau dos sistemas� � Constitui��o submetida ao Congresso de Filad�lfia. Porque um certo n�mero de homens reunidos para dar testemunho do seu saber, d�o tamb�m testemunho dos seus preconceitos, as suas paix�es, os seus erros de opini�o, os seus interesses locais e a sua vis�o pessoal dos factos. �Duma tal assembleia pode-se tirar um resultado perfeito?�

E, no entanto, governa-se como se quisessem atribuir � pr�pria ac��o do governo, um resultado perfeito. E, por efeito duma soma de desconfortos interiores, a massa dos homens que, no fundo, est�o alheios aos enigmas do governo para n�o serem devorados por ele, de repente abatem-no. Latino Coelho via assim a revolu��o: �um precip�cio, no fundo do qual est� o usur�rio, oferecendo uma bolsa ao mendigo glorioso�. Para um rom�ntico, n�o se pode pedir melhor.

H� uma pergunta sem resposta feita pelo Dr. Lopes de Oliveira no II volume da Hist�ria do Regime Republicano em Portugal. �O rei, se n�o trazia armas na m�o � ignoro-o � tinha ao seu lado quem as manejasse� A sua guarda despreveniu-se?� Nessa mesma manh� de 2 de Janeiro, consta que o rei fora prevenido para n�o sair de Vila Vi�osa e que ignorou o conselho. Jo�o Franco n�o parece perturbado com o desenlace tr�gico da sua pol�tica; e quando a duquesa de Palmela lhe diz, no Pa�o, � �Mas isto assim � o fim da Monarquia, n�o �, Jo�o Franco?�, ele responde: �O da Monarquia e da minha vida pol�tica�.

O pacto cumpre-se; com a morte do rei ele retira-se; com a sua morte, D. Carlos abdicaria. � simples, tem a simplicidade da trag�dia. N�o � a rainha D. Am�lia nos seus crepes de luto, nem o pr�ncipe imberbe e assustado, com as p�talas do ramo nos ombros, as flores do ramo com que a m�e lhe salva a vida, que s�o o �ndice da trag�dia. S�o as palavras de Jo�o Franco: �Acaba-se tudo e eu tamb�m�� O significado da vida pol�tica, a de ambos, dele e do rei, terminou. Dois homens ligados pelo poder, a intriga, o desprezo pelas raz�es que invocam, a amizade selada pela causa p�blica e, no entanto, pronta a perder o seu inst�vel equil�brio.

Havia muitos espias (num caf�, o Martinho, por exemplo, podiam-se contar mais de cem), os passos dos suspeitos e at� dos insuspeitos, eram seguidos, vigiados, anotados em cifra. E o rei � assassinado � luz do dia, como se se tratasse dum cumprimento da morte e n�o das balas dum assassino. Houve quem se aproximasse do cad�ver do Bu��a, e beijasse a m�o que pendia do tabuleiro, na Morgue, e a beijasse. O Bu��a ficou como um desses her�is de quem n�o se fala, desconhecido e recordado a medo. Quando lhe contaram o plano para matar o rei, ele disse, com uma esp�cie de sensualidade brutal: �Agora que eu tinha em vistas uma rapariga�� Pensava casar-se e ter filhos; � surpreendido por aquele contratempo que lhe pede o melhor das suas for�as, numa ca�ada � presa real, um acto terr�vel mas que o transtorna de felicidade. Matar o rei � arrastar a coroa dele e, por um momento, coroar-se a si pr�prio com ela.

Guerra Junqueiro, do alto da sua pequena estatura, da sua combina��o de paix�o pol�tica e ferocidade po�tica, declama: �O atentado foi obra �nica de dois homens. E, contudo, as balas de morte partiram da na��o�. Ele diz ��nica�, sublinhando, porque sabe que o Bu��a e o Costa foram os sequazes, os servidores dum processo que nunca ficou esclarecido. Era a revolu��o o que se queria evitar, e matar o rei consistia num golpe que paralisasse a revolu��o? Seria aprovado o golpe de Estado, aprovado por altas personalidades do partido mon�rquico. Mas o rei n�o aceitou pactuar; estava talvez possu�do duma c�lera contra os seus cortes�os, os mais dedicados, os mais leais e que o iam trair a qualquer momento, para assegurar uma vida tranquila com as suas esposas moralistas e as amantes dispendiosas.

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.

8.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM FARO, PORTUGAL


Dan�a Contempor�nea.
Depois dos ensaios o espect�culo no palco do Teatro Municipal de Faro pela Companhia Lisboa Ballet Contempor�neo, (uma companhia n�o subsidiada).


(Telmo Martins)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM BRUXELAS, B�LGICA


Varredor, Bruxelas.

(Filipe Pinto da Silva)
 


INTEND�NCIA

Actualizadas as notas FAZER OPOSI��O (1) e NUNCA � TARDE PARA APRENDER: HOMENS, NAVIOS E SOCIEDADE.
 


A PROVA DOS BLOGUES: AGUSTINA LIDA PELOS LEITORES DO ABRUPTO



Agora que o Abrupto entrou na historicidade pela m�o de Agustina Bessa-Lu�s, com a prosa escorreita e encantat�ria a que nos habitou, n�o resisto, a prop�sito, enviar-lhe este texto respigado d'O Popular n.� IX, de 1825, respeitando a ortografia do vintismo.

(Jo�o Boaventura)

Roma he mui d�cil para se conformar com as circunstancias. Quando a M�e de Affonso Henriques se queixou ao Papa da pris�o que seu filho lhe havia feito, o sancto Padre mandou o Bispo de Coimbra, ent�o em Roma, que viesse a Portugal e ordenasse a Elo Rei que soltasse a M�e e se emendasse; e no caso de desobedi�ncia pozesse Interdicto em todo o Reino: Assim foi, porque El Rei n�o fez caso do mandato do Papa. O Bispo fulminou o Interdicto e fugio, mas El Rei foi immediatamente a S� e mandou aos c�negos que elegessem Bispo, e como elles recusassem lanc�-os fora, e encontrando na Claustra hum negro que era cl�rigo, chamado Soleima, o ordenou Bispo e como tal fez que elle logo dissesse Missa. Sabendo o Papa deste facto mandou um Cardeal ao Reino para ensinar a f� a El Rei, que ele tinha por herege, e fazelo emendar de seus erros. El Rei recebe-o bem, mas diselhe que n�o precisava delle para nada, que se recolhesse e no outro dia falari�o; o Cardeal chamou de noute os cl�rigos, excomungou o Reino e o Rei, e partio: El Rei soube do caso de madrugada, montou-se a cavalo e foi em sua seguida, encontro-o perto de Poiares, e agarrando-o pelo cabe��o, tirando da espada assim o cumprimentou � Da qua a cabe�a traidor.- Os da sua comitiva interceder�o, e El Rei contentou-se em o trazer a Coimbra, aonde lhe fez desmanchar o que havia feito e prometter, que dentro em 4 mezes viria letra de Roma para o Reino nunca mais ser excomungado, tomando lhe em ref�ns um sobrinho, para cumprimento da promessa. Quando o Cardeal se apresentou ao Sancto Padre, elle o reprehendeo, por haver prometido o que somente a Sancta S� podia dar; ent�o o Cardeal lhe tornou:

�Santo Padre eu n�o digo letra, mas se a Cadeira de S. Pedro fora minha lha deixara e dera de boamente, por escapar de suas m�os; que se v�s vireis v�s hum cavalleiro tam forte e espantoso como aquelle Rei, e vos tivera huma m�o no cabe��o, e a outra al�ada para vos cortar a cabe�a, e seu cavallo n�o menos alvoro�ado hora com huma m�o ora com outra cavando a terra, parecendo que que j� vos fazia a cova, v�s d�reis a letra e o Papado: por isso me n�o deveis culpar�. O Papa concedeo a letra e o Cardeal mando-a antes dos quatro mezes.


(O Popular, n.� IX, 1825)

*

(...) Confesso que foi a refer�ncia de Augustina a D.Jo�o II que me atirou ao teclado. D.Jo�o � o modelo de monarca exemplar da �poca preconizado por Maquiavel. � um rei que, apoiado na burguesia, como o fundador da dinastia, se torna absoluto a pulso e ferro! Muito havia a fazer, depois de um reinado como o de D.Afonso V! Que o digam o duque de Bragan�a e o de Viseu! � D.Jo�o, o "burgu�s", o impulsionador decisivo da expans�o que sujava as m�os a comer sardinha "mui boa e mui barata!" Se Portugal desempenhou um papel de relev�ncia na hist�ria deve-o a este rei! Como a da uni�o das coroas ib�ricas teria sido diferente caso seu filho D.Afonso n�o tivesse tido aquele acidente em alfarrobeira... "Morrio El Hombre" ter� dito a rainha Isabel de Castela aquando da morte dele.

N�o sei at� que ponto os mestres de D. Sebasti�o, (como os de D.Afonso V) principalmente os irm�os C�mara, ter�o ou n�o modelado a sua personalidade. Sabe-se � que desde o in�cio, o seu reinado � uma corrida para o abismo. Para al�m de ter frequentes paragens, acessos de c�lera senil (principalmente quando era contrariado), e um orgulho encarni�adamente invejoso (n�o foi s� D.Duarte que foi bem maltratado, veja-se D.Lu�s de Meneses, o her�i da �ndia, e D. Ant�nio Prior do Crato) o que mais impressiona � o mundo de fadas e Quixotes em que se movia. Atente-se nas cartas que existem escritas dele... Uma compila��o, um emaranhado de pensamentos pretensiosos, confusos e muitas vezes contradit�rios entre si. A saga da sua correspond�ncia com os embaixadores � fascinante. Os avan�os e recuos em v�rios contratos de casamento negociados ao mesmo e em v�rios tempos ou para adiar eternamente a quest�o matrimonial ou para garantir "tropas, biscoitos, dinheiro e muni��es". Emociona, de facto, a grande dedica��o dele � causa Portuguesa, ainda para mais sabendo que � loucura... Tivesse sido outra que n�o a do Velho do Restelo...

Vejam-se as descri��es da riqueza dos ornamentos da fidalgia portuguesa a embarcar em Lisboa rumo ao Norte de �frica. Parecia um desfile, uma prociss�o, uma festa (ali�s parece que foram encontradas centenas de guitarras entre os despojos portugueses). Parece que se empenharam valentemente. Pior ficaram depois com os resgates que tiveram de pagar. Penso que a quest�o dos "assomos de pedantaria" naquela �poca ainda n�o eram predominantemente burgueses... Os novos fidalgos, os que o rodeavam eram apenas os que o bajulavam, ou os que em determinadas ocasi�es conseguiram ainda ser mais loucos e temer�rios do que ele (sim, n�o era a primeira vez que D.Sebasti�o iria pisar solo Africano!).

Vou passar por cima de prolongadas refer�ncias � falta de disciplina, organiza��o e efectivo comando no ex�rcito. Em v�speras da batalha, quando alguns fidalgos se atrevem a sugerir timidamente a D.Sebasti�o que esperasse ao menos um dia para dar batalha, mantivesse aquela favor�vel posi��o onde o ex�rcito acampou at� porque havia informa��es que Almelique estaria a morrer. (isto depois de: 1) ter arranjado um fraco pretexto para guerrar Almelique, 2) ter for�ado inutilmente o ex�rcito a uma aventura por terra onde esteve prestes a sucumbir de fome antes mesmo de chegar a combater). Ainda assim se ouviam vozes bajuladoras a gritar �Avante! Avante, senhor, que tudo � nosso!�. Pois claro, nem D.Sebasti�o queria ganhar a batalha a um rei morto! (Almelique, a prop�sito morreu na sua tenda durante a batalha).

O que mais impressiona � a apatia da elite de ent�o. A maior parte dos fidalgos tinham plena consci�ncia da loucura do rei, do abismo para onde caminhava e arrastando o reino com ele... "Pois se assim � Pai Nosso pelo Rei, pelo Reino e Pelos Vassalos", fa�o minhas as palavras do bar�o de Alvito. N�o sei se, juntamente com a descri��o do embarque, se poder� fazer outro paralelismo com os tempos actuais. Bom, talvez seja melhor n�o falar disso... Ah! Estivesse este rei rodeado de pr�ticos burgueses com menos interesses a defender...

Mais interessante ainda � o relato dos preliminares da batalha, das lan�adas que deu em v�rios fidalgos, do quanto se enfureceu em "trabalhos de sargento" (porque num pelot�o faltavam dois ou estavam a mais dois homens, ou porque o seu apurado sentido notou alguma outra qualquer imperfei��o) e da ordem expressa que deu para s� se acometer ao seu sinal. Uma paragem do rei ainda fez perder a vida a alguns homens est�cticos gra�as �s balas dos inimigos que j� assobiavam. Que o diga Alexandre Moreira a descer do cavalo de espada em punho. "Sejam todos testemunhas de como me apeio a morrer porque hoje n�o � dia de outra coisa!" Quando o "rei-sargento" (fosse ele um Frederico I...) d� ordem para o ex�rcito avan�ar, d�-a s� a uma parte do ex�rcito, esquece-se de outra, do lado de l�, onde os homens continuavam est�ticos a tombar mas obedecendo �s ordens do rei. Bom, os exemplos do discernimento aristocr�tico de D.Sebasti�o s�o tantos que teria de encher mais umas p�ginas. J� me alonguei demasiado. Deixo apenas as supostas palavras de D.Felipe II quando terminou o encontro em Guadalupe com o sobrinho (por acaso, devido aos orgulhosos arrebiques deste, o encontro at� podia ter acabado bem pior...): "vaya en hora buena, que si venciere, buen yerno tendremos; y si fuere vencido, buen reyno nos vendr�".

(Francisco Felizol)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM MATO GROSSO DO SUL, BRASIL


Carvoaria a c�u aberto no Mato Grosso do Sul, Brasil, 2001.

(Am�rico Oliveira)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(8 de Abril de 2006)


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A comunica��o social tem escassa mem�ria, mas deviam obrigar os jornalistas a consultarem os arquivos. A prop�sito do financiamento das campanhas eleitorais internas dos partidos, que s�o tema do Di�rio de Not�cias de hoje, incluindo um editorial, talvez devessem lembrar que esta quest�o foi por mim suscitada, h� mais de uma d�cada, nas terceiras elei��es em que concorri para a Distrital de Lisboa do PSD (as duas primeiras ganhei, a terceira perdi miseravelmente), tendo divulgado os financiamentos (um leil�o de gravuras, esculturas e desenhos que eram meus), apresentado contas detalhadas e divulgado o destino do dinheiro que sobrou. Vem nos jornais da �poca, mas j� foi no s�culo passado.

Como tamb�m foi no s�culo passado que, pela primeira vez, uma Distrital do PSD fez controlar as suas contas por revisores oficiais de contas, e deixado essas contas com os documentos em apoio e o parecer sobre elas. Isto tudo numa altura em que n�o havia qualquer precedente para estas pr�ticas, que ali�s, apesar de divulgadas, nunca mereceram qualquer aten��o especial da comunica��o social, bastante mais interessada na cozinha partid�ria interna. O mesmo aconteceu com outras iniciativas que tomei como a aprova��o de uma mo��o em Assembleia Distrital considerando incompat�vel a presen�a, nas listas a apresentar �s verea��es, de pessoas envolvidas directamente na urbaniza��o e constru��o civil nas C�maras a que concorriam, e outra defendendo que n�o se devia aceitar pelouros para manter a autonomia da oposi��o municipal, etc.

Nenhuma destas iniciativas foi bem vista no interior do partido, todas provocaram conflitos com pessoas bem concretas, com sec��es do partido, com interesses de h� muito instalados, e nenhuma teve qualquer continuidade depois de ter sa�do da Distrital. Mas, como quem n�o se sente n�o � filho de boa gente, pelo menos lembro-as para mem�ria futura. Muitas vezes me pergunto se valeu a pena.
 


EARLY MORNING BLOGS 750

Owed to New York


Vulgar of manner, overfed,
Overdressed and underbred,
Heartless, Godless, hell's delight,
Rude by day and lewd by night;
Bedwarfed the man, o'ergrown the brute,
Ruled by boss and prostitute:
Purple-robed and pauper-clad,
Raving, rotting, money-mad;
A squirming herd in Mammon's mesh,
A wilderness of human flesh;
Crazed by avarice, lust and rum,
New York, thy name's "Delirium."


(Byron Rufus Newton)

*

Bom dia!
 


AGUSTINA BESSA-LU�S
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL


H� em Filipe II uma obstina��o comovida para obter as coisas que ama. Gosta do luxo e de parecer bem, porque isso afirma a sua dignidade. N�o creio que fosse homem de grande estatura, a este respeito calam-se os que descrevem os seus atributos e tra�os de fam�lia. Mas, como quem se enfada de n�o ter crescido, punha no vestir grande apuro e devia dar uma impress�o de gra�a e compostura. Porque com a gravidade da atitude andava decerto uma fraqueza pelo que � belo, as flores e as mulheres. A sua terceira mulher, a francesa, filha de Catarina de M�dicis, desmaia ao v�-lo, t�o severo � o retrato que lhe fizeram do monarca. No retrato de Sanchez Coelho, que est� no museu do Imperador, em Berlim, nota-se bem que Filipe II era de estatura menos que mediana, com os longos bra�os de D. Manuel que lhe chegavam quase aos joelhos. Mas � um homem belo, com os tra�os finos da m�e e que pela compostura retra�da e orgulhosa procura compensar a altura que lhe falta. No retrato de Hans Eworth, que devia ser um pintor de pouco talento, d� para perceber a pequenez do rei que se encontra de p� junto de Maria Tudor, sua segunda esposa, que est� sentada talvez para n�o demonstrar que � mais alta que o marido. O embaixador veneziano, Michele Suriano, quando Filipe II tem j� trinta e tr�s anos e se casa com Isabel de Valois, que tem dezasseis, diz: �Ainda que n�o seja alto, est� muito bem formado e proporcionado, e veste com apuro e tanto gosto que n�o se pode ver coisa mais perfeita�. No entanto, � dum orgulho t�o frio que chega a ser desabrido.

� este parecer, t�o reiterado que se tem por natureza cruel, o que primeiro impressiona. Da� que o primeiro encontro com a Valois d� ocasi�o a anedotas maliciosas. Como aquela em que, vendo a jovem princesa a olhar para ele com aten��o, lhe pergunta duramente: �Que est� a olhar? Para os meus cabelos brancos?�

N�o contou com a educa��o � francesa, mais livre e desenfadada do que a das mulheres da corte espanhola, r�gidas e sem brilho. Catarina de M�dicis teme pela sa�de da filha, que n�o sai nem pratica desporto, al�m de que gosta mais de dormir do que de mover-se. O regime da corte espanhola n�o � prop�cio a um bem-estar. Adoece e sangram-na, porque os m�dicos pouco mais sabem fazer. Catarina manda-lhe rem�dios aconselhados pela sua privan�a de doutores e curandeiros. Come�a aqui a lenda negra de Filipe II, atribuem-lhe crimes do filho D. Carlos que � desequilibrado e doente. A juventude da madrasta e enteado favorece as intrigas, mas � de crer que o rei n�o esteja muito a par desses enredos de antec�mara. Tamb�m n�o ter� muita paci�ncia para a esposa, limita-se a deix�-la � vontade, muda a corte de Toledo para Madrid. Agradando-lhe livra-se de a aturar. Mas Isabel, iniciada cedo demais na vida conjugal, ou por complei��o doentia, ou ainda porque estranha o pa�s, a corte e o clima, e at� a religi�o, cai enferma. Recobra a sa�de, gra�as talvez � sua pouca idade para se deixar vencer por desastres do corpo e da alma.

D� � luz uma menina, Isabel Clara Eug�nia, que acabar� por ser a luz dos olhos do pai, a sua aia, a sua enfermeira e que ele casa com o austr�aco, que ele sabe n�o lhe dar� filhos. O amor que lhe tem, o medo de que ela acabe em desastre de parto, como a m�e, com a m� complei��o das de Avis para ter filhos, dita-lhe a precau��o extraordin�ria e obcecada. Ainda que Filipe II diga que gostava de ter um filho (D. Carlos � a vergonha do seu sangue e da corte inteira), alegra-se com o nascimento da princesa e ensaia mesmo t�-la nos bra�os como uma boneca. � duma ingenuidade tocante quando n�o se prop�e ser rei de todas as Espanhas.

Morre-lhe a mulher, Isabel de Valois, e definitivamente Filipe II parece estar livre dessa teia de casamentos em que foi envolvido desde os seus dezasseis anos. D. Carlos morre tamb�m depois dum processo escabroso que envolve alta trai��o e do qual o pai sai maltratado na honra e no cora��o. N�o se sabe se Isabel de Valois, primeiro prometida a D. Carlos, desempenhou algum papel naquele drama que o rei conduz com a sua frieza habitual que d� azo a que o tomem por desalmado. N�o o �. � simplesmente t�mido nos momentos graves e os homens acobardam-no. At� o pobre D. Carlos, encarcerado, no auge do desespero, tragando um anel para se suicidar, � usado para ser criada a lenda r�gia. Filipe II ser� para a Hist�ria, feita por embaixadores e partidos que pagam a espi�es de m�s contas e m�s informa��es, um tirano acabado.

Ele ama as mulheres, sente-se protegido com elas, vive com elas num limbo que chega ao incesto mas nunca � desonestidade confessada. A bela D. Joana, que chegaram a querer casar com o sobrinho meio louco, n�o se separa nunca do soberano. Foram sempre muito unidos, muito �ntimos; e tanto que houve suspeita de amores entre eles, e Carlos V mandou que lhes separassem as casas. O rei v� nela a figura da m�e ou simplesmente lhe agrada aquele atalho que conduz � inf�ncia perdida onde tudo era no feminino, festas e alegrias, caprichos e virtudes.

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Era Filipe II, como diz Greg�rio Mara�on, �um bom menino, mas pouco inteligente�? A prova de que era bom � que era sempre enganado pelas mulheres e pelos confidentes, pelos amigos. E as l�grimas cujas n�doas ficaram nas cartas que escrevia �s filhas. Os ditos que lhe atribuem, com humor de improviso, decerto n�o eram dele porque n�o o vemos r�pido no replicar nem engenhoso na cr�tica. Catarina de M�dicis que foi sua sogra, tinha mais firmeza no deliberar. Estava quase na hora da morte e reagiu como uma rainha � not�cia do assassinato do duque de Guise: ��s coisas feitas devem-se tomar medidas�. Verdade seja dita, nenhum poder est� preparado para os grandes acontecimentos. Filipe II, de quem Torneron, um cronista franc�s, diz que ele n�o admitia nenhum punhal sen�o na sua pr�pria m�o, escusando assim Deus de qualquer responsabilidade na pol�tica. Mas n�o � totalmente verdade. O rei, hesitante e pac�fico, aproveitava as situa��es mas n�o as provocava.

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.

7.4.06
 


AGUSTINA BESSA-LU�S
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL



Aos catorze anos D. Sebasti�o era vaidoso como o pote da leiteira de Gil Vicente. Era inteligente, vivo, confuso, como toda a crian�a malcriada mas recebida com toler�ncia porque responde pela sobreviv�ncia dum povo. � dif�cil, para quem n�o foi nascido e criado na integridade cavalheiresca da monarquia, avaliar desse acatamento solene perante a majestade dum soberano. D. Sebasti�o era o rei, reconhecido e sagrado. H� um sabor de trai��o num simples desacordo at� de etiqueta. Um fidalgo morre sem acusar de injusti�a o seu rei. Morre inocente mas n�o vence o escr�pulo de deixar nome de inimigo do rei.

Hoje, com o manual da psiquiatria muito conferenciado num s�culo de debates entre o normal e o patol�gico, � mais f�cil percorrer os caminhos da Hist�ria e trazer � luz os seus personagens. D. Sebasti�o foi tratado como um enfezado capit�o de del�rios e de toscas ambi��es; ou ent�o como o seu oposto, um rei em tudo distinto, arrebatado pelos ideais colhidos nas mem�rias doutros C�sares. N�o faltou quem o equiparasse aos grandes de Roma e lhe pusesse na m�o o ceptro duma rainha destinada a ser garantia da civiliza��o. Nem uma coisa nem outra. D. Sebasti�o foi v�tima do que se chama uma situa��o vital mal suportada com origem possivelmente num facto que se interiorizou at� ao del�rio, por exemplo, o afastamento da m�e aos quatro meses de idade e que ele nunca mais viu. D. Joana era de feitio seco e mal encarado, isso n�s sabemos. A sua ambi��o diminu�a os sentimentos de fam�lia para dar prioridade aos interesses do Imp�rio. Isso � comum nos cl�s que se tornam poderosos, ainda mais pela for�a tentaculosa do dinheiro e da religi�o.

Mas, sobretudo, a complei��o gen�tica de D. Sebasti�o � importante e vai al�m de todas as condi��es emocionais desde a inf�ncia at� � puberdade. Ele � um man�aco destinado a uma ensombra��o de ideias que resultar�o na perda do reino. A sua incapacidade de aten��o faz dele um aluno que pode ter um per�odo brilhante em que a linguagem � r�pida e imaginativa, seguida de prolixidade na desorganiza��o do pensamento com prop�sitos desordenados. A expans�o do humor com a convic��o de tudo conseguir, pode alternar com uma agressividade exasperada. Como a que D. Sebasti�o manifesta a sua av� D. Catarina, dando aso a que ela se sinta mal e perca os sentidos. Um sintoma advertido pelos m�dicos � o da regula��o t�rmica. D. Sebasti�o � acometido de frio intenso, � preciso cobri-lo e aquec�-lo, o que d� origem a ditos ir�nicos, como o de tratarem o seu casamento com frieza.

Esta � uma obsess�o da fam�lia carnal e pol�tica. A sa�de do pr�ncipe parece n�o dar cuidados de maior, com excep��o das perdas nocturnas e uretrite cr�nica cuja causa pode muito bem ser mais secreta do que se aventura. O estado de frustra��o do rei � manifesto e Alc�cer-Quibir regista o seu clima mais alto. A crise pode manifestar-se na crian�a de alguns meses separada de sua m�e durante um largo per�odo. A sua avidez afectiva pode tomar um car�cter agressivo em rela��o ao meio envolvente. N�o � de afastar em D. Sebasti�o um conte�do homossexual, o que constituiria uma perturba��o profunda vinculada ao ideal do eu narc�sico. O esfor�o que D. Sebasti�o faz para corresponder �s expectativas do reino, esfor�o f�sico e moral que o leva a usar da ca�a e dos exerc�cios de campanha desmesuradamente, chega a ser comovente. � um jovem bem constitu�do mas cujo conflito interior est� na base duma tristeza que iria ser-lhe fatal. Nada h� que o possa salvar; e ao pa�s, com ele.
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Eu sempre disse que os grandes mestres n�o s�o pr�prios para educar. Porque o seu exemplo acabrunha quem n�o tem �nimo ainda para entender a grandeza. D. Sebasti�o lia as proezas de Carlos V com tal despeito que se tomou da obsess�o de lhe merecer o parentesco e o destino. A impress�o que d� � a dum bom aluno de artes que n�o lhe competiam, como a da guerra. O facto � que se prepara para a batalha e procede na mesma batalha duma maneira desordenada; sobressai o tipo neur�tico, e, apesar da extravag�ncia do seu comportamento, apesar da sua t�cnica do imagin�rio e de fingimento, ele n�o deixa de se adaptar � realidade. O rei compreende que a morte est� presente e que n�o lhe pode escapar. A famosa frase �morrer, mas devagar� que, a ser aut�ntica � uma das mais belas que se podem proferir num momento em que o del�rio atinge o seu auge, o del�rio da morte, pode pertencer ao plano do c�lebre conto do rei vai nu. Graci�n conta a hist�ria com muita fantasia e redobrado malabarismo de palavras. Parece D. Sebasti�o aquele caso de tecedores de maravilhas que se propuseram bordar um pano com que ele um dia se cobrisse. Ao longo das jornadas do trabalho, que na verdade n�o era nenhum, o rei mandou o criado, o aio e o mordomo, ver como corria a tarefa. E todos, com medo de o desiludir ou de alguma maneira o desenganar, contavam maravilha do trabalho dos burl�es. E o pr�prio rei quando lhe mostraram o trabalho feito, admirou-se do que n�o via. E vestiu-se de nada e o povo de nada o aplaudiu. At� que um rapaz, de poucas artes e menos educa��o, gritou dentre a multid�o: �O rei vai nu!�. Pois D. Sebasti�o, � como o dito rei, vestido de tela invis�vel; adornado de coisa nenhuma, aparecido sem nada se ver.

Depois de tudo, entre muitas ex�quias e rituais da cristandade, n�o havia grande f� em Portugal. O duque de Alba faz uma advert�ncia sobre a jornada de Alc�cer-Quibir e parece que tece no tear o tal pano invis�vel: �Como se pode persuadir o que j� �, e deve ser visto, e como pode ser visto o que n�o foi, nem � visto, e muito menos por raz�o, e com raz�o entendido, e alcan�ado�. � uma resposta enigm�tica mas suficientemente clara para se perceber que ele n�o tem esperan�a, nem no rei, nem na batalha, nem nos favores do C�u. Para ele, D. Sebasti�o � inteligente para louco e n�o cuida em p�r o �nimo abaixo da raz�o, como o crist�o � europeia deve fazer. Entretanto, D. Sebasti�o endivida-se, compra biscoito, p�lvora e tudo o que possa dar-lhe garantia de vencer a guerra. Recruta um contingente fornecido pelo pr�ncipe de Orange, composto por alem�es, holandeses, e val�es, e que trazem com eles as mulheres, os filhos e as amantes, o que causa espanto em Lisboa ao saber-se que eram calvinistas e luteranos. �Ponderei serem hereges t�o bons crist�os, que ajudem � guerra contra os mouros, mais que os crist�os, a quem convinha mais o bom efeito desta guerra, que aos hereges�, escreve o rei a Crist�v�o de Moura, um portugu�s da confian�a de Filipe II e que foi o testamenteiro de D. Joana, a m�e de D. Sebasti�o. Filipe II n�o gostou da heresia do sobrinho, mas um reino vale bem uma falha de catecismo. N�o deixava de dar boas palavras a D. Sebasti�o, mas n�o se distrai em dificultar a aventura feita a peso de ouro e com promessas imposs�veis de cumprir. O rei est� t�o obstinado que trata sem respeito os velhos fidalgos e s� se fia dos jovens da sua idade, os do seu bando. A vaidade, a sua mania de merecer todo o aplauso e todo o pr�mio do m�rito que os aduladores lhe conferiam, faz com que ande arredio de Lisboa ou come�a a ser menos estimado. Num torneio a p�, na Primavera de 1570, combateu com o alferes-mor D. Lu�s de Menezes; saltou-lhe a espada da m�o mas foi-lhe dado o pr�mio pela gra�a com que levantou a espada do ch�o. As pessoas avisadas e prudentes, e com qualquer direito heredit�rio a resistir ao olho cobi�oso de Filipe II, estavam perplexas e varadas de desgosto. D. Duarte, filho do infante D. Duarte e presum�vel pretendente ao trono por morte de D. Sebasti�o, morreu com trinta e cinco anos, dizia-se que minado pelas ofensas que o rei lhe tinha infligido. D. Duarte fora um dos presum�veis maridos da infanta D. Maria mas, tendo ela recusado melhores partidos, n�o era de crer que aceitasse tal casamento. O �nimo que at� ali mostrara, de entranhado orgulho, n�o fazia prever isso.

O que se verifica na dinastia de Avis, � esse assomo de pedantaria, tra�o mais burgu�s do que fidalgo e que vem de longe, com o esp�rito negociante de D. Jo�o II.

�Tem os imp�rios seus altos e baixos; crescem com o valor no seu auge, conservam-se numa mediania que basta para n�o deca�rem, ainda que mais monarquias perecessem por falta de valor do que por excesso.� Este pensamento de Graci�n podia ser dedicado a todos os grandes do mundo. Aquilo de �oponho um rei a todos os passados; proponho um rei a todos os futuros�, parece convir a D. Sebasti�o. S� que ele n�o foi um rei do passado nem um rei do futuro.

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.

6.4.06
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: T�TIS DE MUITO PERTO


A cratera central chama-se Pen�lope. Que mantos tecer� ao frio? Ou olhar� para Saturno, o pai universal, e interpretar� as cores?
 


FAZER OPOSI��O (1)



Haver uma oposi��o eficaz � o melhor sintoma da boa sa�de democr�tica e um dos factores cruciais para assegurar uma boa governa��o. � mais importante do que o consenso ou os "pactos de regime", que uma boa oposi��o n�o p�e em causa, mas integra numa pol�tica alternativa, n�o na morte do contradit�rio. Esta � uma realidade que, nos pal�cios de Bel�m e de S. Bento, n�o pode ser meramente tolerada, como se tolera uma irrita��o que nunca desaparece, ou uma inevitabilidade inc�moda, mas deve ser percebida como fundamental, tanto mais que h� uma maioria absoluta a controlar.

Fazer uma boa oposi��o � em primeiro lugar... tarefa da oposi��o. Ora confunde-se cada vez mais a dificuldade que esta tem em fazer oposi��o eficaz, fruto de muitos factores, nos quais se inclui tamb�m a sua pr�pria incompet�ncia, com a impossibilidade de haver oposi��o eficaz nos pr�ximos tr�s anos. Engano puro - n�o faltam oportunidades, nem exig�ncia de vigil�ncia e cr�tica ao Governo PS. N�o faltam - bem pelo contr�rio, abundam as raz�es, o que � preciso � que a oposi��o mude nos seus m�todos, processos e objectivos para ser eficaz.

Comecemos pelo m�todo para chegar � subst�ncia. Hoje h� uma condi��o pr�via, fundamental, urgente: o PSD e o CDS precisam desesperadamente de estudar. Corrijo a frase: o PSD e o CDS precisam desesperadamente de estudar para produzir pol�ticas. Pol�ticas s�rias, informadas, consistentes e diferentes, em vez do lastro de posi��es, semiposi��es, posi��es na oposi��o e pr�ticas governativas em contradi��o, afirma��es demag�gicas, pragmatismos necess�rios e oportunismos absolutos, que fazem o report�rio partid�rio. O rastro que t�m atr�s de si os partidos que se alternam no poder, e que transformou o pragmatismo inevit�vel da governa��o num oportunismo puramente t�ctico, � p�ssimo. J� era de h� muito desadequado e critic�vel - hoje, � um sintoma gritante da crise dos partidos em Portugal, que tem como efeitos o puro linguarejar t�ctico que se ouve todos os dias no Parlamento e nas declara��es, que nada acrescenta, s� introduz ru�do. E s� faz ru�do porque esse linguarejar revela na sua ess�ncia apenas uma vontade de contradit�rio, do contra, sem coer�ncia, sem consist�ncia, sem interesse. E, para al�m do cansa�o do "politiqu�s", para qualquer observador distanciado revela uma muito grande ignor�ncia sobre o Portugal de hoje, os seus problemas, a sua realidade econ�mica e social

Como o "politiqu�s" � um c�digo �rido de comunica��o entre pol�ticos de segunda, tende a ser muito conservador e a manter f�rmulas que remetem para uma concep��o do pa�s que j� tem pouco que ver com a realidade. O "politiqu�s" � uma corruptela de um Portugal "conhecido" apenas dos artigos de jornais, de reuni�es partid�rias e jantares-com�cios, de gra�olas e bocas de conversa de caf� e de corredor, por gente que n�o l� e n�o estuda. A �nica coisa que actualiza os praticantes do "politiqu�s � verem o professor Marcelo todas as semanas, que lhes d� uma certa lubrifica��o discursiva e argumentativa, que sozinhos nunca teriam.

Contrariamente ao que pensam os pr�ceres da direita do dr. Portas e da esquerda do dr. Lou��, a quest�o n�o � ideol�gica, ou pelo menos, n�o � essencialmente ideol�gica, nem sequer de "centr�o" versus dicotomia esquerda/direita. O mundo puro das ideologias so�obrou quando a sociedade moldada pela Revolu��o Francesa e pela Revolu��o Industrial, que lhes tinha dado origem, se defrontou com pequenos problemas como a revolu��o da informa��o, a bomba termonuclear, o terrorismo apocal�ptico, a crise do Estado-provid�ncia, a mediatiza��o do espa�o p�blico, a "cultura de massas", o consumismo, etc. Hoje, ideologias globais, que ofere�am interpreta��es globais e coerentes para todos os problemas, leituras sist�micas baseadas em tradi��es do passado (como � a esquerda e a direita), n�o servem a n�o ser para os �rf�os identit�rios, uma forma t�pica de conservadorismo. O problema � para j� regressar a formas de piecemeal reformism, no sentido popperiano, de uma pol�tica mais modesta, mais experimental, menos de engenharia social e mais de pequenas interven��es numa realidade que tem outras leis e outras regras que � suposto conhecer a fundo. Ora uma condi��o fundamental para fazer este tipo de pol�ticas � estudar, discutir, confrontar e produzir orienta��es, linhas de ac��o que se avaliem pela pr�tica e n�o pela obsess�o pela abstrac��o. E, durante ou depois, medir essas pol�ticas com os interesses, as ideias, as "partes" que dividem numa democracia as pessoas.

Os partidos portugueses d�o pouca import�ncia ao estudo da realidade, e � formula��o de orienta��es conhecidas, escritas, program�ticas, porque isso contraria o tacticismo pragm�tico. Os partidos precisam de fazer uma consider�vel reconvers�o de recursos internos, abandonando ou reduzindo as tarefas partid�rias de aparelho antigas, sobreviv�ncias do tempo em que os partidos faziam o seu pr�prio marketing, publicidade, previs�es eleitorais, etc., para outro tipo de organiza��o mais voltada para a cria��o de think tanks, produ��o de documentos de orienta��o, todo um esfor�o de estudo, an�lise e produ��o de pol�tica que a complexidade dos problemas exige.

Os partidos precisam de virar uma parte importante da sua actividade interna das fun��es burocr�ticas, elas pr�prias t�o cheias de funcion�rios recrutados por protec��es e amiguismo, para um novo tipo de voluntariado pol�tico, a quem o partido deve dar meios, gastando a� recursos que hoje esbanja mantendo um n�mero de funcion�rios excessivo, empregues em tarefas quase fict�cias.

N�o estou a dizer que os partidos devam ser dirigidos por acad�micos e professores, na sequ�ncia de uma tend�ncia nefasta que j� existe no sistema pol�tico e comunicacional de achar que as opini�es acad�micas de "peritos", de "s�bios", est�o � margem e acima da pol�tica. Precisamos � de pol�ticas que incorporem a maior quantidade de saber poss�vel, que sejam produzidas por cidad�os que usem os seus conhecimentos a favor de uma ideia de "bem p�blico", que conhe�am melhor o seu pa�s, estudem os problemas e sejam capazes de ouvir e de pensar sem ser com o "politiqu�s" pavloviano que se usa hoje em Portugal.

Comece a oposi��o por fazer este trabalho de casa, logo a seguir ver� como � f�cil avan�ar com um programa pr�prio e aut�nomo, que nenhum exerc�cio de "ocupa��o do espa�o pol�tico", como se diz que o eng. S�crates est� a fazer, pode diminuir.

(Continua)

(No P�blico.)

*
Tamb�m me parece �bvio que s� atrav�s de uma an�lise com um m�nimo de profundidade dos problemas do pa�s e de uma subsequente defini��o de pol�ticas pode a oposi��o come�ar a ganhar credibilidade e legitimidade � e, sobretudo, evitar erros e abusos por parte de um governo de maioria absoluta.

Parece-me que isto ainda n�o aconteceu em Portugal devido a uma combina��o de dois factores. O primeiro � que preparar pol�ticas com alguma seriedade � um trabalho �rduo e de m�dio/longo-prazo, o que muitas vezes n�o � compat�vel com a natureza imediatista das agendas pol�ticas e da comunica��o social. O segundo factor, talvez mais importante, � que se presume que quaisquer pol�ticas que venham a ser preparadas e anunciadas ser�o inevitavelmente �impopulares� junto de alguns sectores da opini�o p�blica, algo que seria imediatamente explorado pelos outros partidos. Daqui resulta que fazer um trabalho de casa com algum rigor tenha, pelo menos no curto-prazo, muitos mais custos que benef�cios.

Claro que, por outro lado, querer governar sem se saber que pol�ticas devem ser prosseguidas e como devem ser implementadas � algo dif�cil de explicar, a n�o ser � luz da procura do poder pelo poder. No entanto, nem a opini�o p�blica nem a comunica��o social se insurgem contra a pobreza do debate de pol�ticas, at� nas alturas cr�ticas das campanhas eleitorais. E, assim sendo, parece ser dificil romper este equil�brio de superficialidade na condu��o dos assuntos p�blicos que leva a tanto desperd�cio para Portugal.

(Pedro Silva Martins)

*

O partido que deve ser a face mais vis�vel da oposi��o em Portugal � o PSD. Mas basta ver ou ouvir os debates da Assembleia da Rep�blica e, percebe-se nitidamente que quem sobressai mais no papel de oposi��o s�o os extremos, Bloco de Esquerda e CDS-PP. Ser� que o PSD n�o estar� ref�m deste "centr�o", que o acabou por absorver? Poder�o partidos t�o carreiristas, estatistas e aparelhistas como s�o o PS e o PSD, colocar em pr�tica uma oposi��o com menos de politica de merceeiro, antes de profundidade e de estudo da nova realidade social emergente? E preocupada com novas causas... terrorismo, altera��es clim�ticas, ecologia, trabalho ou emprego, reformas ou fundos de reforma, escolaridade ou literacia, etc.

O facto de termos uma classe politica t�o presa � heran�a de Abril, n�o constituir� tamb�m um constrangimento, para uma verdadeira revolu��o do modo de fazer politica, n�o olhando a realidade, a partir da velha dicotomia esquerda-direita, desta perspectiva t�o ideologicamente manique�sta, mas t�o substancialmente desadequada ao mundo contempor�neo. Pelo que vejo da classe pol�tica, t�o cedo, n�o auguro coragem para empreender essa viragem s�cio-cultural (...)

E os jornalistas, comentadores pol�ticos, analistas pol�ticos, estar�o preparados para viver e trabalhar sem esta almofada, consubstanciada, nesta divis�o simplista da sociedade actual, esquerda-direita, preto-branco... n�o ser� predominante uma grande faixa cinzenta (o "centr�o")! Nas noites de elei��es s� ou�o falar nas vit�rias ou derrotas, da esquerda e da direita. Ser� que isto � s�rio por parte daqueles que deveriam ser estudiosos do fen�meno pol�tico, ou ser� apenas c�modo e simplista?

Esperemos, no entanto, que seja poss�vel uma politica com mais subst�ncia e com muitos menos jogos florais!

(Helder Barros)
*

Concordo em absoluto com as ideias expressas, mas surge uma quest�o: como estudar dossi�s e apresentar pol�ticas alternativas cred�veis, fruto de muito estudo e reflex�o, se os partidos, nomeadamente o PSD e o PS, t�m afastado intencionalmente as pessoas qualificadas?

(Carlos Manuel Serra)

*

(...) h� cerca de cinco anos que vivo no Reino Unido e que tenho tido oportunidade de acompanhar a maneira como se preparam pol�ticas por aqui. Como sabe, o contraste com Portugal � absoluto: entre muitos outros exemplos, os partidos apresentam claramente as suas prioridades (educa��o, sa�de, impostos, burocracia, Europa, etc); caso queiram gastar mais numa �rea, explicam de onde vem esse dinheiro (impostos, divida, cortes em outras �reas). Quaisquer incoer�ncias s�o imediatamente apontadas pelos jornalistas ou pelos v�rios �think tanks� que existem espalhados pelo pa�s.

Ao mesmo tempo, a �evidence-based policy� � o m�todo por excel�ncia para o desenvolvimento de melhorias incrementais nos servi�os p�blicos: conhecer as experi�ncias de outros pa�ses, adapt�-las ao Reino Unido, desenvolver projectos piloto, avali�-los com rigor, disseminar os resultados com transpar�ncia, e alargar os projectos ou discontinu�-los, dependendo do seu sucesso. � todo um pragmatismo na condu��o dos assuntos p�blicos que infelizmente ainda nem sequer se vislumbra em Portugal.

(Pedro Silva Martins)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO GER�S, PORTUGAL


Guardar vacas, Serra do Ger�s, 2006.

(Ant�nio Ferreira de Sousa)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: HOMENS, NAVIOS E SOCIEDADE

In Which we Serve (Sangue Suor e L�grimas, que existe numa colec��o de DVD portuguesa, os "Cl�ssicos do Cinema") de David Lean e Noel Coward � um t�pico filme de propaganda de guerra. Feito a partir da hist�ria do HMS Torrin, um contratorpedeiro ingl�s afundado ao largo de Creta pela avia��o alem�, � uma apologia da Marinha de Guerra, com os tripulantes a brindarem ao navio na ceia de Natal, a gritarem do salva vidas "Hip, hip hurrah!!" quando ele se afunda, terminando na cena final com um "God bless our ships and all who sail on them". Numa ilha, admiram-se os marinheiros, e numa ilha sitiada, como estava Inglaterra em 1942, a Marinha era ent�o o �nico ramo das for�as armadas em que a supremacia inglesa face aos alem�es era incontest�vel. At� aqui, o que se espera.

Film stillMas quando se v� o filme hoje, para al�m dos anacronismos, como um encarregado dos estaleiros a dirigir os oper�rios de colete e gravata, o que � mais interessante � o retrato n�o intencional da r�gida estratifica��o social inglesa. Mostrando as fam�lias do comandante, dos oficiais e dos marinheiros, entra-se em mundos totalmente diferentes, estratificados e estanques, e isso � a marca t�pica de Noel Coward que escreveu o gui�o e interpreta o comandante. Vivem diferente, em s�tios diferentes, falam de forma diferente e cada um sabe as suas dist�ncias. N�o se misturam. Quando o comandante e um marinheiro, cada um com as suas mulheres, se encontram num comboio (que, como o navio, for�a um terreno comum), o marinheiro levanta-se para o cumprimentar numa carruagem de terceira classe, enquanto na cena imediatamente a seguir, o comandante aparece na carruagem-restaurante, numa mesa servida com porcelana e talheres de prata. Sempre dois mundos. Um stiff upper lip, outro moldado pelas paix�es humanas, os marinheiros riem-se, embebedam-se, choram. Noel Coward nada.

Em plena guerra e num momento muito dif�cil, o cimento que une os ingleses � o combate, personificado no filme pelo navio, met�fora do presente, mas tamb�m do passado, met�fora da Gr�-Bretanha. Mas dentro do navio e fora dele o sistema de conven��es permanece intacto. O comandante sabe de cor todos os nomes da sua tripula��o, de que tem que cuidar at� ao limite da sua vida, mas entre ele e os seus marinheiros h� defer�ncia e respeito, h� hierarquia (e n�o s� a da patente), e ordem, militar e social. A classe dirigente inglesa sente solit�ria o peso de todas as responsabilidades, e nisso � inexced�vel. � capaz de colocar, de um dia para o outro, meninos estragados pela vida e que pouco mais sabem do que disparar aos fais�es na Esc�cia, a mostrar a mais absoluta coragem atirados de paraquedas para as montanhas dos Balc�s, ou a dar o exemplo na primeira linha de um assalto de infantaria na Flandres. Mas o mundo deles vai junto, como acontecia com os oficiais que levavam o mordomo atr�s com as malas.

Nenhum americano ou franc�s poderia fazer este filme sem que aparecessem dois sentimentos que estragariam completamente a fleuma de Coward: os americanos n�o deixariam de retratar a puls�o democr�tica para cima, a escada das "oportunidades" e os franceses n�o deixariam de ridicularizar os seus nobres, ambas atitudes comuns nos filmes da d�cada de trinta.

*
N�o se "dispara" aos fais�es, "atira-se" aos fais�es (ou ca�a-se fais�es, sem "aos"). E n�o na Esc�cia: fais�es e perdizes � mais no Sul. Na Esc�cia, a ca�a de penas por excel�ncia (em oposi��o � ca�a de p�lo e grossa, lebres, coelhos, veados) � o grouse (em rigor, red grouse, Lagopus Lagopus Scoticus), o supra-sumo da ca�a porque exclusivo da Esc�cia e imposs�vel de criar em cativeiro, portanto exclusivamente bravo.

N�o que isto fa�a qualquer diferen�a aos seus coment�rios sobre o filme, mas, aprender por aprender ...

(Frederico Pinheiro de Melo)

*

Outro belo exemplo que os brit�nicos nos d�o � a maneira como s�o recordados e homenageados aqueles que lutaram pelo seu pa�s. Na mais pequena vila ou aldeia h� um monumento aos mortos em combate. Erigidos, na sua maioria, ap�s a I Grande Guerra (1914-18) continuam ainda hoje, quase 100 anos depois, a ter flores frescas que associa��es e cidad�os an�nimos l� v�o depositar.

(Jos� Machado)
 


A PROVA DOS BLOGUES: AGUSTINA LIDA PELOS LEITORES DO ABRUPTO




Devo confessar, antes de mais, que nunca fui particular apreciadora de Agustina Bessa Lu�s, mas o que acho formid�vel neste projecto de "blogopublica��o" � o facto de permitir (suscitar, at�) a interactividade com os leitores "comuns". Claro que os leitores do suporte tradicional, em papel, tamb�m podem escrever � editora e ao autor, e apresentar os seus coment�rios. Mas h�, necessariamente, um grande desfasamento temporal, e esses coment�rios ficar�o, na maior parte dos casos, entre o seu autor e o destinat�rio.

Com esta "blogopublica��o" o livro fica com uma dimens�o muito mais ampla, em benef�cio dos leitores. Mas tamb�m, creio eu, em benef�cio da autora, que pode ir vendo, "em directo", as reac��es � sua obra (e at� aproveitar as correc��es de lapsos feitas por leitores mais atentos...)

(Madalena Ferreira �hman, Gotemburgo)

*

Este tipo de hist�rias fazem com que gera��es de historiadores tenham que lutar a pulso contra mitos. Conversa corrida, estilo leve e ligeiro, erros atr�s de erros alternando com mitifica��es que n�o t�m maneira nenhuma de ser provadas. O Fernando que casou em segundas n�pcias com D. Teresa era Transt�mara?... Tinha ideia que era Fern�o Peres de Trava, e foi isso que li em toda a parte. O retrato mais conhecido do Infante D. Henrique � de Gr�o Vasco?...N�o tinha nada essa ideia.

Vou esperar para ver. Como ainda sofro com os mitos criados por Oliveira Martins, tremo com estas experi�ncias que se anunciam sempre despretensiosas. E esta coisa de querer desvendar segredos piora tudo.

(Henrique Jorge)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM GUIMAR�ES, PORTUGAL


Barba e cabelo, Guimar�es, Abril 2006.

(Ant�nio Ferreira de Sousa)
 


EARLY MORNING BLOGS 749

"Never Apologize, Never Explain"


On the contrary, always apologize and explain,
in the terror-white veracity, down to the essence bone,
tenaciously follow the long road. Be
capable and Voltairean, discreet of form and substance, tell it
like it is, don't gloss over
in silent splendor.

Give the unattractive facts. But they won't be
that insipid (arrears of heavenly bodies).
And if you have to polish up
the contemptible gaff, give it all you've got�seriously,
don't swindle and pretend the sky
didn't fall in.

But dole out the mathematics, saviors of the gut.
Inching without propaganda the longhand
of dream. Even insult the host who
just wanted to play the game. Apologize in sample color,
if you loved something, say it. If kept
under your hat,

let the fallacies represent you.
From whatever Acropolis of stress, bat with
that genuine non-expurgation, the angel of bottomless pits.
Versatility and science; right the wrongs you know,
and do it with wholeheartedness. In fundamentals
so brash, or like a glass


of water.


(Jane Mayhall )

*

Bom dia!
 


AGUSTINA BESSA-LU�S
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL



N�o � do meu entendimento e obriga��o adiantar alguma coisa � Hist�ria de Portugal, j� escrita e comentada por pessoas doutoradas para isso. No que me aparento com os cronistas � na tenta��o de romancear e meter di�logos fict�cios onde s� se ajustam secos relatos. A Hist�ria faz-se com as vozes do povo e conveni�ncias de cortes�os. Estes muitas vezes ignoram o que se passa fora das paredes do pa�o, t�o entretidos andam a compor e descompor os factos para seu proveito e n�o para sua erudi��o.

Elevado ao trono de Portugal, mais pelos rogos da plebe do que por sua vontade, o Mestre de Avis (que tinha boa �ndole, e isto faz bons parceiros) desistiu de ir para Inglaterra onde tinha aliados, mais notoriamente Jo�o de Gaunt, duque de Lencastre, quarto filho de Eduardo III. Tendo feito um segundo casamento com Constan�a, filha de D. Pedro de Castela, cultivou a ilus�o de ser rei de Espanha, e era tratado por Monseigneur d�Espagne. A l�ngua oficial era o franc�s, ou seja, o anglo-normando que depois se fixou no idioma pr�prio consagrado pela escrita.

D. Jo�o I tinha trinta e seis anos e o lugar assegurado no reino. Iam ficando longe as suas indecisas cogita��es dos vinte e cinco anos, quando o casamento com D. Leonor parecia ser solu��o para as incertezas da sucess�o e da paz com os castelhanos. As pretens�es do duque de Lencastre ao trono de Espanha contavam com as dilig�ncias diplom�ticas de Portugal, o que era demorado. Os tratados comerciais entre os dois pa�ses firmavam-se desde o reinado de D. Fernando que, segundo os ingleses, n�o era muito persistente na sua alian�a.

Em 1386 Jo�o de Gaunt decidiu-se a ir reclamar a coroa de Castela, com o seu ex�rcito e levando com ele a fam�lia em toda a pompa: Constan�a, a filha de D. Pedro o Cruel, assassinado pelo irm�o Henrique, Filipa j� com vinte e seis anos e prest�vel para ser moeda de troca num casamento vantajoso; Catarina, sua meia-irm�, as bastardas Blanche e Joana e Catarina Swinford, aia e amante �en titre�. Era uma comitiva imponente que alegrou a piedosa Santiago, fazendo ressoar os sinos compostelanos.

O rei D. Jo�o trocava presentes com o duque de Lencastre e a mulher; al�m de oferecer belas hacaneias e panos de r�s. O tratado que se seguiu, depois de tr�s meses de preliminares, era o de combaterem juntos o rei de Castela, pelo que D. Jo�o receberia D. Filipa como esposa. Os preparativos da guerra eram bem conduzidos pelos estrategas, o duque de Lencastre estava satisfeito com o que diziam do futuro genro (o melhor rei que Portugal tivera em cem anos), mas quanto ao compromisso de casamento n�o se adiantava nada.

� verdade que o Mestre esperava de Roma a dispensa das ordens religiosas que recebera, para assim poder casar. No entanto, n�o mostrava entusiasmo pela noiva, a tranquila e paciente Filipa.

Era uma rapariga alta, de olhos azuis e modos aristocr�ticos, decerto empenhada numa severidade que fosse em contradi��o com a corte pouco moral do seu pai. As humilha��es que sofrera ao ter de suportar a amante do duque e depois a madrasta espanhola, deram como resultado um comportamento puritano e uma experi�ncia de sensibilidade ofendida. Tinha j� um passado de desilus�es, prometida a v�rios pr�ncipes estrangeiros mas cujo casamento com ela tinha sido gorado. Estava no limiar da desgra�a da mulher da corte, que era a obscuridade pela falta de pre�o, de heran�a e de manipula��es pol�ticas. E, de s�bito, aparecia-lhe aquele rei de bom feitio, tanto f�sico como moral, que a tirava do convento e do anonimato e que lhe daria filhos. Filipa devia gostar dos filhos antes de os ver gerados. � a �nica not�cia que temos na Hist�ria duma mulher cuja gravidez � desaconselhada pelos m�dicos que aconselham o aborto; e ela recusa-se, levando a termo a prenhez e nascendo D. Fernando, chamado o Santo, dessa escolha amor�vel. Como n�o havia de ser ele destinado ao sofrimento de cativo?

Foi D. Filipa uma m�e de grandiosas virtudes; uma dessas p�rolas que n�o se encontram sen�o num raro momento de triunfo do cora��o sobre a bestialidade humana. E tamb�m D. Jo�o, se bem que n�o fosse apaixonado, foi decerto um marido am�vel. Sem d�vida que ele estava grato a Inglaterra, onde pensara refugiar-se depois que o duque de Cambridge influ�ra para o tirar da pris�o. Os projectos da guerra com Espanha n�o eram aprovados pelo Parlamento e o duque de Lencastre, em 1382, era t�o pouco respeit�vel que n�o p�de sequer conseguir um empr�stimo reembols�vel para pagar o seu corpo expedicion�rio. Os mercadores de Londres n�o acharam interesse em serem seus fiadores e o projecto do duque ficou suspenso. Numa �poca em que a lentid�o das comunica��es faz supor que tudo fosse conforme a esse vagar, surpreendem-nos as r�pidas mudan�as na Hist�ria. D. Leonor d� � luz um filho que, ao que se propala, � sufocado nos bra�os da ama porque suposto adulterino. Mas n�o vinha essa crian�a trazer mais desacordos no j� t�o dilacerado corpo do pa�s? D. Leonor, acusada de trai��o, � encerrada no mosteiro de Tordesilhas, donde saiu para ir viver em Valladolid, cidade principal e capital do reino. Atribuiu-se-lhe um derradeiro amante, Zoilo I�iquez, e uma filha. A hist�ria deixa-a tranquila, decerto gozando uma fortuna quantiosa, e n�o t�o pobre como se quer brindar o insucesso. O que acontecia num ano, nesse tempo, dava para encher uma biblioteca.

E, com a fam�lia, Jo�o Gaunt trouxe uma aura de prest�gio e de festa que deu ao Porto o gosto de cerimonial com consequ�ncias populares. O arcebispo de Braga j� tinha casado os noivos por procura��o, em Compostela. Mas foi no Porto que se celebraram as n�pcias religiosas. D. Filipa estava hospedada no pa�o episcopal e decerto esperava com curiosidade e esperan�a, que � uma forma de submiss�o, a chegada do Mestre de Avis, agora rei jurado de Portugal. D. Jo�o, sem pressa, apresentou-se num cavalo branco, como os noivos da lenda. Pegou-lhe na m�o, beijou-a, e beijou as outras damas, e despediu-se, partindo para o teatro da guerra que se estendia por terra e mar. A vit�ria de Aljubarrota n�o favorecia a alian�a do duque de Lencastre com D. Jo�o I. Os planos pol�ticos eram substitu�dos por acordos matrimoniais. Jo�o de Gaunt cede das suas aspira��es a rei de Espanha, em troca do casamento da filha Catarina com o pr�ncipe herdeiro de Castela. Jo�o de Avis cai gravemente doente e receia-se pela sua morte. A campanha b�lica da Inglaterra n�o trouxera sen�o desaires e preju�zos e, quando as negocia��es come�aram, Portugal ficava de parte. Quando o duque de Lencastre desembarca na Gasconha, a alian�a com Portugal estava amea�ada. Contudo, um novo elo foi forjado, o casamento de D. Jo�o com D. Filipa. Feitas as contas, ningu�m ganhava, e quatro anos de guerras, de empr�stimos, de ru�na mal encoberta por festejos e exulta��o falsa, deixavam o caminho aberto para a paz. A paz, �m�e de todos os v�cios, comadre de todas as corrup��es�, como diziam os pregadores mais audaciosos, franciscanos, ao que julgo.

A corte de D. Filipa era na sua maioria inglesa. O chanceler era um padre ingl�s; o mordomo-mor era tamb�m ingl�s. As damas tinham a carna��o leitosa que tanto contrastava com a beleza morena das portuguesas. Foi este tipo ib�rico que herdou a �nica filha de D. Filipa, Isabel, a que foi mulher do duque de Borgonha e m�e de Carlos o Temer�rio. Pode-se dizer que com a sua gl�ria come�a aqui a �ndole depressiva dos Avis e tantos mist�rios encobre na Hist�ria que patrocinam e fazem brilhar. Aqueles a quem Cam�es chamou a �nclita Gera��o, os filhos de D. Filipa de Lencastre e o rei D. Jo�o I, pode-se dizer que deram ao pa�s o significado da civiliza��o em curso. Com eles, a Idade M�dia ficava convertida a um mau sonho de atrocidades trazidas pelos ventos da guerra. Na verdade, eles s�o filhos da rainha e ela educou-os para outros deveres que n�o eram os da intriga, da vingan�a, do desejo de poder. Outras luzes vinham com D. Filipa. A corte tornou-se discreta, instru�da, dedicada a objectivos grandiosos mas nem por isso aventureiros.

No entanto, nessa fam�lia culta e criada para altos valores, pairava uma sombra que nenhum cronista descobriu; que s� talvez um preceptor arguto descreve no mais �ntimo do seu pensamento. Era uma gente estranha.

Os homens, quatro rapazes, eram altos, apurados no vestir, leitores ass�duos de obras extremadas da vulgaridade. A �nica filha, D. Isabel, era mais do tipo meridional. Baixa, ou mediana, de cor trigueira. A escritora Rose Macaulay, ainda que sem a cristaliza��o nos c�digos e vest�gios hist�ricos existentes nos arquivos, foi uma observadora fi�vel nas suas pesquisas. N�o se demora em dar provas do que diz, mas nem por isso a consideramos ligeira nos seus estudos. Os ingleses t�m um sentido de humor que alterna com o sentido pr�tico. �Henrique, a julgar pelos seus retratos, podia ser um fidalgo ingl�s da prov�ncia�, diz. Justamente Henrique n�o tem ar de provinciano, a julgar pelo retrato mais famoso que lhe � atribu�do, o de Gr�o Vasco. Talvez seja ele, talvez n�o. O que n�s vemos � um homem coberto com um grande chap�u donde pende um v�u e que o distingue dos outros personagens. Foi uma escolha dele pr�prio, pois era bastante preocupado no vestir. Trata-se dum chap�u de corte. Quanto a ser loiro e alto, isso n�o eram apenas caracter�sticas inglesas. Pedro I de Castela era alto e loiro, en�rgico e com voca��o marinheira. Mesmo ajoelhado, na est�tua que est� no Museu Arqueol�gico Nacional de Madrid, v�-se que tem um porte majestoso e que era formoso. Pedro I era primo de D. Pedro, o da Dona In�s de Castro e teve uma hist�ria amorosa quase t�o acidentada como o seu parente portugu�s. Foi ele quem primeiro em Espanha deu um sentido mar�timo ao seu reinado. Alto, loiro e marinheiro podiam ser atributos peninsulares.

No entanto, parece haver na �nclita Gera��o um elemento furtivo que lhes determina a voca��o e um certo movimento interior para o �xtase.

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.

5.4.06
 


O QUE � QUE SABEMOS SOBRE ANGOLA?
Angola / Republica de Angola - flag / bandeira

Agora que o Primeiro-ministro mais a sua comitiva est�o em Angola, e o pa�s aparece nos telejornais, o que � que verdadeiramente sabemos sobre a situa��o angolana no p�s-guerra? A pergunta tem sentido porque, pelo menos os �rg�os de comunica��o social p�blicos, t�m correspondentes permanentes em Angola. Que reportagens de fundo, sobre a pol�tica, a sociedade, a economia angolana, foram feitas para aproveitar a viagem governamental, fornecendo-nos informa��o independente, cr�tica, distanciada dos interesses que geram todos os sil�ncios sobre Angola? N�o vi nenhuma. Esperava, na tradi��o da independ�ncia dos �rg�os de comunica��o, que nos dissessem porque raz�o n�o h� elei��es em Angola, como � que est� a UNITA e o MPLA, o que se passa com a corrup��o, o que � que aconteceu na recente tentativa de "golpe de estado"... tanta coisa para saber sobre Angola e nada. Nada, apenas uns coment�rios sobre as empresas portuguesas, sobre a crescente import�ncia dos chineses, e pouco mais.

Existe auto-censura quanto a Angola e uma interioriza��o pela comunica��o social da agenda dos interesses e dos neg�cios, com consider�vel indiferen�a quanto ao resto: situa��o social, mis�ria, corrup��o da classe dirigente, riqueza e ostenta��o, democracia, viol�ncia. Angola � um caso t�pico de uma coliga��o de sil�ncios, da fragilidade do nosso jornalismo.

*

Ver Adufe.

 


A PROVA DOS BLOGUES: AGUSTINA LIDA PELOS LEITORES DO ABRUPTO



Confesso que hesito entre considerar o texto de Agustina Bessa Luis como um exerc�cio liter�rio de base hist�rica, ou um texto hist�rico com aspira��es liter�rias. Em todo o caso, lidos alguns coment�rios de leitores atentos do Abrupto (...), julgo conveniente esclarecer algo relacionado com a seguinte passagem:

Em primeiro lugar, facto que n�o se pode desdizer nem ocultar, D. Afonso nasceu estropiado. Era uma crian�a formosa e bem constitu�da, mas sofria duma anomalia, hoje oper�vel, mas que no tempo era absolutamente incur�vel. Tinha as pernas coladas a partir dos joelhos, o que o tornava incapaz para o exerc�cio das armas e montar a cavalo. Chegado aos cinco anos, esgotados decerto todos os tratamentos, aquele que reivindicara o lugar do seu aio, Egas Moniz, teve como solu��o encomendar a crian�a � protec��o do C�u. No que foi atendido de maneira miraculosa. O menino apareceu escorreito e disposto a uma vida de agita��o e conquista. A crian�a raqu�tica, embora bela e prendada de muitas gra�as, deu lugar a um guerreiro como n�o houve outro na nossa Hist�ria. D� para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus pr�prios filhos ou filho dalgum rico-homem de pend�o e caldeira, como se dizia.

Esta informa��o aparece, pela primeira vez, num texto do in�cio do S�culo XV, a chamada "Cr�nica de Portugal de 1419", que h� quem atribua a Fern�o Lopes. Usando uma linguagem actual, tal cr�nica, como qualquer outra deste per�odo, � mais �liter�ria� do que �hist�rica�, facto que, acrescentado � �poca tardia em que foi redigida, dissipa quaisquer d�vidas quanto � historicidade do milagre. De resto, nas cr�nicas mais antigas, o aio de Afonso Henriques � Soeiro Mendes (possivelmente o da Maia), e n�o Egas Moniz, o que, tamb�m por si, coloca entraves a algumas interpreta��es ou hip�teses de Agustina - hip�teses e interpreta��es, de resto, tradicionais.

(Filipe Alves Moreira)

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Alertar a Sr.� D� Agustina Bessa Lu�s que o texto cont�m um erro:


� Data em que D. Afonso Henriques entra a fazer-lhe guerra, teria ele vinte e dois anos. E, se nascido em 1106, trinta e quatro anos, o que parece pouco de acreditar. D. Teresa parece apaixonada e decidida a casar com o conde D. Fernando de Trast�mara, o que precipita a disc�rdia entre m�e e filho�

De facto se nascido em 1106, 22 anos (em 1128). Se nascido em 1094, 34 anos�(em 1128).

(Francisco Marques)

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Parece-me critic�vel a utiliza��o pela autora do termo "Espanha", associado por toda a gente ao actual estado politico espanhol, numa altura em que este estado ainda estava muito longe de existir. Poder� dizer-me que nessa altura era esse o nome dado � pen�nsula ib�rica, o que � verdade. Contudo, este texto foi escrito no s�culo XXI para leitores do s�culo XXI, a esmagadora maioria dos quais (eu diria 99%), quando ler "Espanha" vai achar que se est� a referir ao estado espanhol que, julgaram eles, j� ent�o existiria.

(Henrique Oliveira)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


Dan�a Contempor�nea. Ensaios preparat�rios de um bailado.

(Telmo Martins)
 


AGUSTINA BESSA-LU�S
FAMA E SEGREDO NA HIST�RIA DE PORTUGAL

H� quem afirme que Afonso Henriques era um bastardo de Egas Moniz, seu pai verdadeiro. As dedu��es em volta deste boato s�o bastante significativas, pondo de parte favores dos santos e dos cronistas. J� do conde D. Henrique, que foi pai presumido de D. Afonso, a naturalidade � controversa. Uns dizem-no neto do conde Roberto de Borgonha; outros fazem-no proceder do rei da Hungria que seria o pai do dito D. Henrique, vindo a Espanha decerto em busca de gl�ria e de fortuna. Em 1080 j� estavam em Espanha tr�s pr�ncipes franceses, ao que parece na escolta da rainha D. Mafalda, mulher do rei D. Afonso, o sexto. Quando o conde D. Henrique entrou em Espanha o Governo de Portugal estava repartido por v�rios senhores, ditos c�nsules; e as terras entre Douro e Mondego, mais aproximadas a mouros e suas companhias, eram governadas por um capit�o chamado Sisnando. Foi do pr�prio D. Fernando de Castela que recebeu o senhorio de Coimbra e de todos os castelos e cidades em volta: Lamego at� ao mar, o Rio Douro at� aos limites na posse dos crist�os. O rei D. Afonso, passando a reinar por morte de D. Fernando, veio a confirmar todos os poderes de Sisnando, mais militar do que religioso, embora fosse suposto bispo de Iria. Era muito estimado dos mouros em Sevilha, onde vivia antes da conquista de Coimbra. No foral que D. Afonso, o sexto, deu a Coimbra, louva o capit�o Sisnando como povoador e engrandecedor da cidade. Merc� da sua boa alian�a com os mouros e passado entendimento sevilhano, Sisnando fez um governo pac�fico e justo. No ano de 1080 mandou fazer a igreja de S. Martinho e seria decerto o mais importante dos senhores do estado de Coimbra. Uma profus�o de casas aparentadas entre si, com t�tulos e grandeza de fundadores de conventos e igrejas, estendia-se pelas terras de Braga e Coimbra e constitu�a o quadro senhorial que o conde D. Henrique encontrou quando da sua entrada em Portugal. Em 13 de Fevereiro de 1095 o conde estava j� casado com D. Teresa, filha do Rei D. Afonso. Tudo o que se pode averiguar dos factos hist�ricos desses tempos �-nos oferecido por datas de escrituras, doa��es, batalhas e casamentos. O que importa real�ar s�o as contradi��es que v�m a lume na multiplicidade dos pap�is escritos. Confrontando datas, pode-se concluir que antes do fim do ano de 1094 o Conde D. Henrique n�o tinha senhorio em Portugal nem era casado.

O primeiro obst�culo ao senhorio de Portugal pelo casal D. Henrique e D. Teresa (Portugal foi-lhe dado em dote, antes disso na posse do conde D. Raimundo) foi levantado pela data de nascimento de D. Afonso Henriques, apontada para o ano de 1106 e n�o de 1094. O conde D. Henrique, seu pai, seria ent�o homem maduro e, segundo as leis da longevidade, entrado em decrepitude, pelo que a teoria de o pr�ncipe n�o ser seu filho tomou alento na continuidade da Hist�ria.

Em primeiro lugar, facto que n�o se pode desdizer nem ocultar, D. Afonso nasceu estropiado. Era uma crian�a formosa e bem constitu�da, mas sofria duma anomalia, hoje oper�vel, mas que no tempo era absolutamente incur�vel. Tinha as pernas coladas a partir dos joelhos, o que o tornava incapaz para o exerc�cio das armas e montar a cavalo. Chegado aos cinco anos, esgotados decerto todos os tratamentos, aquele que reivindicara o lugar do seu aio, Egas Moniz, teve como solu��o encomendar a crian�a � protec��o do C�u. No que foi atendido de maneira miraculosa. O menino apareceu escorreito e disposto a uma vida de agita��o e conquista. A crian�a raqu�tica, embora bela e prendada de muitas gra�as, deu lugar a um guerreiro como n�o houve outro na nossa Hist�ria. D� para pensar que Egas Moniz o fez substituir por um dos seus pr�prios filhos ou filho dalgum rico-homem de pend�o e caldeira, como se dizia.

Egas Moniz, de apelido o Gasto, casou com D. Toda Alboazar, de nome algo suspeito de ar�bico. A alcunha de Gasto seria antes Gasco, porque este Egas Moniz era filho de Moninha Viegas, capit�o da Gasconha. Na Foz do Douro, digamos que nos penhascos do Porto, teve este grandes batalhas com os mouros. Egas Moniz, o Gasco, foi bisav� de Egas Moniz, o redentor do triste pr�ncipe ao seu cuidado.

Esteve D. Teresa como rainha de Portugal dezasseis anos, depois da morte do conde D. Henrique. Ela sim, foi soberana, por contratos com sua irm� e doa��es de terras que afian�avam a paz. A D. Henrique nunca se reconheceu o t�tulo de rei, mas sua mulher, tornada � solteiria e com idade para se ver coroada e protegida de novos amores, deu em ser majestade e n�o s�bdita at� ao ano de 1128. Data em que D. Afonso Henriques entra a fazer-lhe guerra, teria ele vinte e dois anos. E, se nascido em 1106, trinta e quatro anos, o que parece pouco de acreditar. D. Teresa parece apaixonada e decidida a casar com o conde D. Fernando de Trast�mara, o que precipita a disc�rdia entre m�e e filho. � uma guerra ao estilo troiano, arrebatada e sensual. Salazar perguntava o que se h�-de fazer dum pa�s que come�ou com um filho a p�r a ferros a pr�pria m�e. Candura extrema, que � a de acreditar que as ambi��es humanas n�o devoram o horror, para o fazer parecer santo. Enfim, o Trast�mara era uma realidade que puxava para Castela; e quem n�o h� muito dela ganhara a liberdade, opunha-se a voltar aos preitos de vassalagem. Fosse ou n�o filho de D. Teresa, D. Afonso, no testamento de M�nio Viegas, pai de Egas Moniz (outro, diverso do aio), consta que no ano de 1128 j� D. Afonso Henriques era senhor de Portugal. At� ao princ�pio desse mesmo ano parecia haver harmonia, mas as coisas precipitaram-se com a ideia do casamento; casamento nunca constado mas de certo modo provado, por exemplo, numa escritura de 1121 em que a presen�a de ambos � declarada. Mas causas mais graves h�, um conluio entre os dois, como no texto de conc�rdia entre o bispo de Coimbra e o do Porto, o c�lebre D. Hugo, celebrada a cinco de Abril de 1122. Ambos assinam no livro da S� de Coimbra, seguindo-se a rubrica dos senhores, �in praesentia Regina Tarasiae et Comitis Donni Fernandi, et Baronum Portugallensium�. Isto basta para testemunhar o casamento.

Quando D. Afonso Henriques desfere o golpe da sua ira � possivelmente quando Fernando de Trast�mara se arroga direito sobre o reino e a sucess�o. Em 1131 h� j� uma filha; �Ego Comes Ferdinandus Paes filius Comitis Petri una cum filia mea nata de Regina D. Tereixa conf.�.

Mas a ambiguidade da situa��o persiste, e s�o v�rias as provas e contraprovas dessa uni�o. Para que a c�lera de D. Afonso Henriques se levante t�o devastadora, chegando a perseguir a m�e como uma r� de alta trai��o, � preciso que alguma coisa ameace o pr�ncipe e ponha em causa o seu reinado.

H� portanto uma filha do segundo casamento. Que projectos se desenrolam na falsa harmonia do Pa�o? Se D. Afonso Henriques n�o � de facto o filho de D. Teresa, se h� testemunhas duma cabala que vai at� ao crime, � preciso tomar medidas, e medidas profundamente arriscadas, impetuosas e at� brutais. Sabemos que D. Afonso Henriques � um l�der e que um l�der n�o � um cavalheiro. E D. Teresa tamb�m n�o � muito escrupulosa em coisas de lealdade, porque os tempos n�o aconselhavam o cora��o sen�o para servir a vontade. A vontade era reinar. O efeito duma grandeza que cria a subordina��o e a lisonja � fatal para a sensibilidade. Al�m do mais, Dona Teresa, como bastarda dum soberano, devia conjugar a avidez do poder absoluto com o direito de corrigir a genealogia. Nada se sabe da sua fisionomia, mas h� a c�pia duma litografia de Guglielmi, no livro de F. Fonseca Benevides Rainhas de Portugal, Lisboa 1878, que a mostra de bom parecer, possivelmente alta, de olhos negros e sobrancelhas marcadas e longas, como era pr�prio dos povos mediterr�nicos. Bela, morena e voluntariosa, do tipo que se diria mouro; o que sugere talvez um cruzamento com uma princesa dos arraiais dum desses aliados dos crist�os com quem estes tinham episodicamente contratos de campanhas. Mas isso, o senhor Guglielmi � que sabe e fazemos f� nele.

H� prova de que D. Teresa, depois da morte do marido que a ultrapassava em muito na idade, foi senhora de Portugal at� ao ano de 1127. Depois disso tudo mudou. Como filha do rei de Le�o, ela tinha apoio e respeito. D. Afonso Henriques demorava a pedir-lhe contas da sua heran�a porque a tinha por segura e n�o lhe convinha abrir a cortina sobre o caso da sua deformidade de nascen�a e a maneira como foi curada. O povo podia confundir-se com o milagre, mas os homens de conselho, entre os quais bispos e abades, podiam mostrar desengano quanto � santidade do acontecimento de Carcare, onde se dera o prod�gio. Alguma coisa sucedeu para que as rela��es entre m�e e filho fossem quebradas.

Sabemos que tinha nascido uma crian�a, uma menina, do casamento de D. Teresa com o conde de Trast�mara. Essa sim, era do seu sangue e da sua carne. � de crer que, com o andar dos anos, dezasseis de reinado absoluto, D. Teresa e o marido se propusessem dar � filha o direito de sucess�o. O neg�cio de fam�lia decorrera no maior segredo e o conde D. Fernando tinha por seu lado o Fernandes de Trava, seu pai e praticamente toda a nobreza da Galiza. Mas Portugal tinha em sua defesa toda uma ala de capit�es e gente de guerra que j� se manifestara com �xito e valor quando da vinda do rei mouro Brasimi disposto a chegar �s portas de Coimbra e conquistar a cidade. Percebe-se que a cont�nua acometida dos mouros trouxesse em cuidado Egas Moniz e o afastasse da sua quinta de Resende onde decorria a vida do infante miraculado. Alexandre Herculano p�e-nos de sobreaviso sobre �os fundadores de antigas monarquias cuja vida foi desde o ber�o povoada de maravilhas e milagres pela tradi��o popular�. Mas temos que considerar a inten��o dos poderes a quem convinha instaurar uma tradi��o, para assim melhor iludir e governar. Tamb�m � Alexandre Herculano quem afirma: �o amor cego da rainha por um homem alheio � prov�ncia�, e aqui demonstra mais �ndole de romancista do que prud�ncia de historiador. N�o se pode assegurar a inclina��o de D. Teresa pelo conde Fern�o Peres, quando o que estava em jogo era a independ�ncia de Portugal e a sua soberania absoluta como rainha. Com a morte de D. Urraca sua irm�, crescem as suas ambi��es quanto ao senhorio do Condado Portucalense que nada mais era at� ent�o sen�o um campo de recontros entre fronteiros e mouros. O sentimento da nacionalidade emergia duma revolta de sete s�culos, e n�o � sem motivo que D. Afonso Henriques foi chamado o Viriato crist�o. Em D. Teresa esse sentimento n�o deixou de estar presente num cora��o onde batia o amor da mulher, mas tamb�m o desejo de se afirmar como soberana. O certo � que, depois da morte de D. Teresa, expulsa pelo filho, sen�o que aprisionada, o conde D. Fernando Trast�mara (ou Peres, como diz Herculano) numa exara��o de doa��o de terras que ele faz � s� de Coimbra, tem para com sua mulher, ou amante, palavras de respeito e de emo��o profunda. D. Teresa morre no primeiro de Novembro de 1130. Dia de Finados, j� por si carregado de solenidade. N�o tendo um reino, tem uma coroa de flores no reino dos morto.

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Nos princ�pios de 1127, tendo D. Afonso ainda alguma boa paz com a sua m�e D. Teresa, lavrava j� a conspira��o contra o rei de Le�o e mais directamente contra a influ�ncia do conde Fern�o de Trast�mara. A corte do falecido D. Henrique era fiel ao seu herdeiro directo, pelo que a sucess�o parecia assegurada. D. Afonso VII, primo de D. Afonso, decerto avisado dos conluios portugueses para proclamarem um rei pr�prio, invadiu Portugal, em princ�pio com sucesso. P�s cerco a Guimar�es e obteve, com as for�as que superavam as dos portugueses, uma declara��o de vassalagem da parte de D. Afonso. Egas Moniz deu de penhor a sua palavra de que se cumpriria o tratado. Afonso VII levantou o cerco e retirou-se, fiado na honra de fidalgo que era Egas Moniz. Mas as coisas desandaram em franca hostilidade entre m�e e filho e, no ano seguinte, rebentava a revolu��o que teve desfecho na batalha de S. Mamede. � de supor que a vinda de Afonso VII com intuitos de confirmar os seus direitos sobre o condado portucalense, se devesse a uma queixa de sua tia D. Teresa, a qual n�o estaria em Guimar�es, mas refugiada na corte de Le�o. Em Guimar�es decorriam as conspira��es, talvez n�o completamente votadas pelo fiel Egas Moniz porque receoso de ver debatida a legitimidade do seu pupilo infante. Devia ser esta carta com que jogava D. Teresa. Egas Moniz apressou-se a selar um pacto com Afonso VII, n�o por lealdade mas por prud�ncia.

Todavia, D. Afonso Henriques, na verdura da mocidade e irado pela demora da sua nomea��o como senhor do seu territ�rio, declarou guerra a D. Teresa, pouco interessado se o fazia ou n�o segundo as regras da cavalaria. D. Teresa devia estar fora das terras de Portugal e ele ocupava o castelo de Guimar�es com os seus fi�is. A oportunidade era preciosa e ele lan�ou-se para S. Mamede onde teve, primeiro, fraco sucesso. Foi ao ver que ele sa�a derrotado que Egas Moniz, mandando ao ar o seu juramento, o foi ajudar, obtendo a vit�ria.

N�o cabe, neste interregno entre a vinda de Afonso VII e a batalha de S. Mamede, pouco mais do que um recontro de for�as rivais, o epis�dio de Egas Moniz com a corda ao pesco�o e a fam�lia descal�a, para resgatar a sua palavra perante Afonso VII. Decerto isto pertence � lenda que se formou logo a partir do milagre de C�rquere. A verdade � que, aio ou pai verdadeiro de D. Afonso Henriques, ele o tinha criado para rei nos lugares de Resende, junto com aqueles que seriam os validos mais pr�ximos e os guerreiros mais esfor�ados na nova corte portuguesa. Uma nota arrepiante fica no rodap� da Hist�ria. Que foi feito da crian�a aleijada que Egas Moniz levou nos bra�os, arrebatando-o � sua ama D. Ausenda? Ama de leite, dizem os pap�is, o que parece contradit�rio com os costumes de cria��o dum pr�ncipe. Lembramos o epis�dio da dama de Fran�a, a quem a aia dum filho seu deu de mamar porque ela tinha fome e a m�e estava ausente. A m�e fez com que o menino vomitasse o leite, porque, n�o sendo parte do sangue nobre, podia para sempre infectar o infante de v�cios plebeus.

� de crer que a tal ama de leite de D. Afonso fosse Ausenda Dias, mulher de Gosendo Alves a quem D. Teresa, em 1116, fez a doa��o da vila de G�is. Ela estaria na posse de segredos que a Hist�ria n�o pode remover dos seus escombros. Tendo nascido D. Afonso por volta de 1110, � poss�vel que a doa��o registada em nome de Ausenda Dias e seu marido Gosendo Alves tivesse o intuito de pagar servi�os prestados, entre os quais a cria��o da crian�a misteriosa que Egas Moniz levou do castelo de Guimar�es poucos dias depois de nascer.

� altura de citar Alexandre Herculano na sua melhor interpreta��o de romancista: �H� muitas vezes na Hist�ria, ao lado dos factos p�blicos, outros sucedidos nas trevas, os quais, frequentemente, s�o a causa verdadeira daqueles, e que os explicariam se fossem revelados�.

Pr�-publica��o de uma edi��o da �Guerra & Paz�

� Guerra &Paz editores, Agustina Bessa-Lu�s. Reprodu��o Interdita.


4.4.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


A montar e ajustar a aparelhagem ac�stica para um apresenta��o de m�sica da Eslov�nia no C.C.Colombo.

(Jos� Santos)
 


O �LTIMO LIVRO DE AGUSTINA BESSA-LU�S SER� PR�-PUBLICADO NO ABRUPTO

(Comunicado conjunto Abrupto / �Guerra & Paz Editores�)

Pela primeira vez em Portugal, um blogue, o Abrupto, de Jos� Pacheco Pereira, vai fazer a pr�-publica��o de um livro � a �ltima obra de Agustina Bessa-Lu�s, Fama e Segredo da Hist�ria de Portugal, que ser� publicada integralmente em papel pela �Guerra & Paz Editores�.

A pr�-publica��o inicia-se amanh�, 4�, dia 5. Diariamente, at� 2�, dia 10, o Abrupto publicar� excertos de uma das 12 hist�rias da �Fama e Segredo�, de Agustina, acompanhada de imagens referentes a esse cap�tulo.

O acontecimento � seguramente in�dito em Portugal, n�o se conhecendo ao n�vel da edi��o tradicional, registo de iniciativa semelhante noutros pa�ses europeus. Apenas sob a forma de acesso pago se realizaram experi�ncias deste tipo, principalmente nos EUA.

Substituindo-se �s tradicionais pr�ticas de pr�-publica��o em jornais ou revistas, este evento inaugura um modelo de divulga��o qualitativamente diferente que pode revolucionar a estrat�gia de comunica��o das editoras portuguesas e reconhece aos blogues o papel acrescido no espa�o p�blico que hoje t�m.

Para o Abrupto, de Jos� Pacheco Pereira, � uma iniciativa coerente com a concep��o que desde in�cio o enformou: um blogue de autor, pessoal e intransmiss�vel, aberto a curiosidades e interesses muito diversos. A publica��o de um texto de uma grande escritora portuguesa, que os leitores do Abrupto v�o poder conhecer numa parte significativa, sem qualquer custo, honra o blogue e � consistente com a sua orienta��o desde sempre.

Para a �Guerra & Paz�, esta iniciativa � um claro reconhecimento da import�ncia que as novas formas de comunica��o ganharam nas nossas sociedades de informa��o. Segundo Manuel S. Fonseca, �fascina-nos n�o s� a grande liberdade e acessibilidade desta comunica��o, mas tamb�m o grau de afectividade que ela exprime. A admira��o de Pacheco Pereira por Agustina e o seu interesse pela iconografia do livro justificaram a nossa escolha. E o apoio do Abrupto ao livro vai ter um efeito medi�tico superior ao que obter�amos com outros meios. Para j� n�o falar no prest�gio e na aud�cia do gesto.�

A �Guerra & Paz� apresentar� o livro na Funda��o Gulbenkian, �s 17:30 de 2�, 10 de Abril, data em que o livro estar� tamb�m � disposi��o nas livrarias.

O Abrupto e �Guerra & Paz Editores

*

O primeiro texto de Agustina, intitulado AFONSO HENRIQUES E D. TERESA, sair� no Abrupto amanh� de manh�.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


Pintando o futuro HardRock Caf�.

(Jose Santos)
 


EARLY MORNING BLOGS 748

MA�ANA LENTA


Ma�ana lenta,
cielo azul,
campo verde
tierra vinariega.
Y t�, ma�ana, que me llevas.
carreta
demasiado lenta,
carreta demasiado llena
de mi hierba nueva,
temblorosa y fresca,
que ha de llegar �sin darme cuenta�
seca.

(D�maso Alonso)

*

Bom dia!

3.4.06
 


A PATRULHA DA PRIMAVERA

chega, por r�gida ordem. Andorinhas, flores, folhas, besouros, borboletas.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL

Desenhar o ch�o. Lisboa, claro, na Rua Augusta, 1 de Abril.

(M�rio Furtado)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: PARA ENCERRAR, FACT�IDES

Henry Hitchings, Defining the World (The Extraordinary Story of Dr. Johnson's Dictionary)

Henry Hitchings Defining the World (The Extraordinary Story of Dr. Johnson's Dictionary) Entre as palavras que Hitchings considera que mudaram completamente o seu sentido desde a sua inclus�o no Dicion�rio no s�culo XVIII, uma "calculus - the stone in the bladder", permanece com o mesmo sentido em portugu�s, "c�lculo renal"; outra "paraphernalia - goods in the wife's disposal" ganhou sentido ir�nico; e "orgasm - sudden vehemence" n�o me parece t�o mudada de sentido, mesmo tendo em conta que o Dr. Johnson era um homem p�dico e excluiu do seu livro as palavras que considerava inconvenientes ("fuck" e "cunt" s� entraram nos dicion�rios ingleses nos anos sessenta do s�culo XX...).

O Dicion�rio ainda recentemente foi usado para interpretar o sentido da palavra "declara��o" em "declara��o de guerra" (a prop�sito dos ataques � Jugosl�via na Presid�ncia Clinton), considerando-se que ele oferecia a melhor interpreta��o do l�xico jur�dico da Constitui��o Americana.

O Dicion�rio mostra o impacto de uma nova bebida, o caf�, referido trinta vezes. O h�bito turco, importado de Veneza, devia fazer uma diferen�a com os milhares de tabernas londrinas onde corria a genebra. Johnson define "coffeehouse - " a house of entertainment where coffee is sold, and the guests are supplied with newspapers". "Entertainment", nota Hitchings, era conversa, conversa de caf�.

Johnson e os seus fantasmas: ensaio sobre "procrastination".

"X is a letter which, though found in Saxon words, begins no word in the English language" dizia Johnson, ali�s erradamente. Mas os seus coment�rios sobre letras s�o interessantes: por exemplo, "R" era a "letra canina" como aqui .

Johnson era contra o uso de par�ntesis. (FIM)

*
(...) a palavra �calculus�, tem grande import�ncia em Matem�tica. A sua evolu��o nos pa�ses de l�ngua inglesa, com �nfase no uso matem�tico, pode ser vista aqui.

(Jos� Carlos Santos)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: BIBLIA ABIBLIA

Henry Hitchings, Defining the World (The Extraordinary Story of Dr. Johnson's Dictionary)

itle page of  A dictionary of the English language



Charles Lamb chamava a livros como os Dicion�rios, biblia abiblia, livros que n�o s�o para ler. A express�o grega acabou por fazer caminho e ter dois sentidos: livros que cont�m outros livros dentro, e livros que n�o vale a pena ler. O sentido pejorativo tem-se tornado dominante, embora o uso da express�o permane�a raro e obscuro. Quem � que l� Dicion�rios ou Enciclop�dias? Um grupo muito especial de leitores, entre os quais Aldous Huxley, Malcolm X e Gabriel Garcia M�rquez. Suspeito que tamb�m Jorge Luis Borges. Robert Browning que leu o Dicion�rio de Johnson para se preparar para a vida liter�ria, como um trabalho de casa. Alguns autistas, alguns profissionais de concursos de perguntas e respostas. N�o � uma actividade muito apreciada: Huxley era gozado pelos seus amigos que diziam que se sabia sempre que volume da Enciclopedia Britannica estava a ler.

 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(2 de Abril de 2006)


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No Kontratempos de Tiago Barbosa Ribeiro, palavras s�bias:
REDUCIONISMOS. A simplifica��o de um mundo complexo � um dos problemas do debate pol�tico que temos. As dicotomias paradigm�ticas estruturam em demasia o pensamento, impedindo-o de pensar. Casos concretos. � esquerda, alguma esquerda reduz o CPE a direitos/n�o-direitos e a situa��o no Iraque a ocupa��o/n�o-ocupa��o. � direita, alguma direita reduz o aborto a vida/n�o-vida e a liberdade econ�mica a Estado/n�o-Estado. Assim, � dif�cil.
*

Paredes electr�nicas de Nova Iorque:

 


EARLY MORNING BLOGS 747

La Figlia Che Piange (The Weeping Girl)


Stand on the highest pavement of the stair -
Lean on a garden urn -
Weave, weave the sunlight in your hair -
Clasp your flowers to you with a pained suprise -
Fling them to the ground and turn
With a fugitive resentment in your eyes:
But weave, weave the sunlight in your hair.

So I would have had him leave,
So I would have had her stand and grieve,
So he would have left
As the soul leaves the body torn and bruised,
As the mind deserts the body it has used.
I should find
Some way incomparably light and deft,
Some way we both should understand,
Simple and faithless as a smile and a shake of the hand.

She turned away, but with the autumn weather
Compelled my imagination many days,
Many days and many hours:
Her hair over her arms and her arms full of flowers.
And I wonder how they should have been together!
I should have lost a gesture and a pose.
Sometimes these cogitations still amaze
The troubled midnight, and the noon's repose.


(T. S. Eliot)

*

Bom dia!

2.4.06
 


BIBLIOFILIA: LIVROS SOBRE LIVROS


Phyllis Dain, The New York Public Library (A Universe of Knowledge)

Lawrence Goldstone / Nancy Goldstone, Slightly Chipped: Footnotes in Booklore

A. J. Jacobs, The Know-It-All : One Man's Humble Quest to Become the Smartest Person in the World
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:INTERIORIDADES.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM BAIKONUR, CAZAQUIST�O


Baikonur, Cazaquist�o, este � um dos muitos retratos do trabalho e da vida no ent�o cosm�dromo secreto.

(Rui C. Barbosa)
 


NUNCA � TARDE PARA APRENDER: ERUDI��O, MELANCOLIA E INDOL�NCIA

Henry Hitchings, Defining the World (The Extraordinary Story of Dr. Johnson's Dictionary)

Henry Hitchings Defining the World (The Extraordinary Story of Dr. Johnson's Dictionary) Em pleno trabalho no seu Dicion�rio, j� atrasado e apenas com as letras A-C prontas (e j� tinha ido mais longe do que o nosso dicion�rio da Academia, o grande n�o o pequeno, que ficou s� na letra A, de A a Azuverte) e com aquele fastio que �s vezes d� a meio de uma obra complexa, Johnson deixou-se envolver por essa estranha condi��o, a melancolia. A melancolia teve no s�culo XVII o seu grande cl�ssico, Robert Burton, mas o Dr. Johnson foi um praticante desse "estado de alma" que, muito justamente, os seus contempor�neos consideravam uma doen�a, "a kind of madness in which the mind is always fixed in one subject". Um dos v�rios retratos que Reynolds fez de Johnson d� bem essa dimens�o obsessiva, mostrando-o n�o como cl�ssico e repousado leitor, em que a leitura � um lenitivo para o esp�rito, mas como um leitor compulsivo, devorando fisicamente o livro, sem distancia��o. Conhe�o muito poucos retratos de leitura que sejam deste tipo e Reynolds s� o pode ter feito porque Johnson era mesmo assim.

O Dr. Johnson tamb�m pensava que a sua melancolia era uma doen�a, uma forma de loucura: "I inherited a vile melancholy from my father, which has made me mad all my life, at least not sober." Mas h� um aspecto da melancolia de Johnson muito pr�prio, o seu pavor pela indol�ncia, o medo de ser pregui�oso no seu trabalho. � dif�cil que um homem como Johnson que, quer como leitor, quer como autor, e em particular como autor de uma obra como o Dicion�rio que lhe exigia um esfor�o e concentra��o enormes, pudesse ter d�vidas sobre a sua dedica��o ao trabalho. � certo que ele fazia uma correla��o entre a ocupa��o e o combate � melancolia, dizendo ao seu biografo que "employment, sir, and hardships, prevent melancholy", e escrevendo que "melancholy, indeed, should be diverted by every means but drinking", mas h� mais do que parece � primeira vista nesta obsess�o com a indol�ncia. � exactamente pelo tipo de trabalho erudito a que ele se dedica, pelo facto do Dicion�rio ser uma obra que resulta directamente dum imenso volume de leituras, e que a sua "escrita" tem exig�ncias de completude incontorn�veis - n�o � suposto faltarem palavras b�sicas (como ao nosso pequeno dicion�rio da Academia falta "robalo" e "hipertexto", entre muitas outras) - que a dimens�o do trabalho por fazer convoca o risco da indol�ncia todos os dias. � que fazer um Dicion�rio � "a kind of madness in which the mind is always fixed in one subject".

*
Mesmo nos dias de hoje em que a psiquiatria se afirma como uma disciplina cient�fica os chamados "males da alma" continuam a ser olhados com apreens�o e est�o consistentemente "sob suspeita". Como tal consider�-los doen�as � sempre conveniente: primeiro porque os torna excep��o e desvio, e depois porque pressup�e tratamento e cura. Se hoje n�o se morre de amor como no s�culo XIX, nem se sofre da melancolia do s�culo XVIII, sofre-se por exemplo de depress�o: uma conveniente etiqueta que se aplica a, e correndo o risco de generalizando nem sempre ser precisa, variados estados de alma que fujam � esperada felicidade que a nossa sociedade consumista e imediatista p�e ao nosso dispor 24 horas por dia. Assim, um luto mais prolongado do que o velho ditado "a vida continua" prev�, uma mudan�a de n�vel de vida menos bem aceite, uma trai��o dolorosa que fere l� onde n�o se sabia que podia ferir, encontram r�pida, discretamente e sob patroc�nio de todos os bons amigos, al�vio e promessa de dias melhores no Prozac e no Xanax. "... (It) should be diverted by every means but drinking". Como agora.

(J. )
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(2 de Abril de 2006)


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A ler "Valentes cr�ticos" e textos adjacentes de Fernando Ven�ncio no Aspirina B.

*

No Astronomy Picture of Today , a mensagem enviada, em 1999, aos nossos vizinhos c�smicos. Estamos ainda � espera da resposta, mas, mesmo � velocidade da luz, a casa deles � capaz de ser um pouco longe.

See Explanation.  Clicking on the picture will download  the highest resolution version available.

*

Sursum corda!
Cora��es solit�rios, j� existe um Google Romance onde podem "search for love"... Mas s� no dia 1 de Abril.

*

Foram ou n�o destru�dos livros, feito um auto de f�, atiradas B�blias antigas � cara dos pol�cias, queimados manuscritos, durante a ocupa��o da Sorbonne pelos manifestantes contra a lei do emprego juvenil? Discuss�o no Figaro, discutida por sua vez no La r�publique des livres.

*

Retratos do bairro de Chelsea, NY, onde as galerias de arte coexistem com garagens e oficinas de repara��o de autom�veis. As oficinas voltam-se para fora, as galerias para dentro. As galerias t�m quase todas o mesmo modelo de arquitectura, muito a�o e ferro pintado de cinzento, largas paredes brancas, padr�es de design t�o semelhantes que, vista uma, todas s�o iguais. Uma menina ou duas � entrada, sentada em frente a um laptop. Uma pequena pilha de postais anunciando a exposi��o, e no fundo, por detr�s da menina, uma estante com alguns livros de arte e dossiers. Uma folha de pl�stico com os t�tulos das obras, e, raramente, os pre�os. Tudo t�o estandardizado, como muitas das "obras" que s�o expostas. Pelo menos aqui a imagina��o n�o abunda. As excep��es ficam para depois.

H�, no entanto, uma diferen�a: os tectos. Comecemos pois pelos tectos:





 


EARLY MORNING BLOGS 746

The Results Of Thought


Acquaintance; companion;
One dear brilliant woman;
The best-endowed, the elect,
All by their youth undone,
All, all, by that inhuman
Bitter glory wrecked.

But I have straightened out
Ruin, wreck and wrack;
I toiled long years and at length
Came to so deep a thought
I can summon back
All their wholesome strength.

What images are these
That turn dull-eyed away,
Or Shift Time's filthy load,
Straighten aged knees,
Hesitate or stay?
What heads shake or nod?


(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

1.4.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DIMENS�ES E FANTASIAS



Mais mil, menos mil...Mais um exemplo de rigor jornal�stico � portuguesa. O P�blico tem uma not�cia na sua edi��o online onde se pode ler : Seis mil iniciaram manifesta��o em Lisboa por melhores condi��es laborais. Neste momento em que decorre o com�cio no Rossio, observo da janela onde me encontro um magote de ind�vidos que escutam o discurso de Carvalho da Silva que dificilmente ultrapass� um milhar. Onde � que est�o os outros 5000? Perderam-se no caminho entre a Pra�a do Chile e o Rossio, ou n�o passar� tudo isto de uma singela mentira do primeiro de Abril?

(F. Caetano)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(1 de Abril de 2006)


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Ruas americanas. Spring fever.



*

A marca��o da agenda medi�tica pelos blogues � cada vez mais importante, queira-se ou n�o. Come�a a haver um claro mecanismo de sinergias entre os blogues e outros meios: jornais e revistas em papel, emiss�es de r�dio, publica��o de livros, programa��o cultural, col�quios e sess�es de debate, iniciativas culturais e pol�ticas. Este caminho n�o tem retorno, quem o segue anda em frente. � natural que essa agenda n�o se manifeste para j� com a mesma import�ncia em todas as �reas, mas, em �reas criticas do espa�o p�blico, come�a a impor-se cada vez mais. Entre essas �reas tem relevo a pr�pria comunica��o social, que cada vez mais recruta nos blogues, e o �espa�o cultural� mais mediatizado, incluindo a edi��o, a anima��o cultural, os eventos, como agora se diz.

H� dois exemplos actuais t�picos: a pol�mica sobre a provid�ncia cautelar ao livro de Jo�o Pedro George, que ecoa o impacto de um seu texto no Esplanar; e, com origem no mesmo blogue e amplificado por um debate na blogosfera, a quest�o do amiguismo na cr�tica liter�ria. O debate na Casa Fernando Pessoa (relatado no P�blico de hoje) � t�pico deste papel dos blogues. Organizado por Francisco Jos� Viegas, que trouxe para a programa��o da Casa o mundo dos blogues de que ele pr�prio faz parte, o seu tema era o do debate de h� dois meses na blogosfera, e os seus intervenientes eram identificados em linha pelos blogues que escreviam. Mais significativo ainda: o ambiente na sala, como refere o P�blico, �fez a temperatura ferver na Casa Fernando Pessoa�, o que tamb�m � t�pico dos blogues e j� n�o se usava h� muito no mundo da �cultura�.

ADENDA: outro aspecto interessante deste novo mundo � poder-se ler o relato do que aconteceu na Casa Fernando Pessoa a muitas vozes. Uma delas, a de Eduardo Pitta, que estava na mesa do debate, acrescenta esta muito interessante nota "social" que s� confirma o que se diz acima:
"Numa sala a abarrotar, encontrei Isabel Coutinho, editora do Mil Folhas, Carla Hil�rio de Almeida Quevedo, do Bomba Inteligente, Gustavo Rubim, Jo�o Pereira Coutinho, Isabel Goul�o, do Miss Pearls, Miguel Real, Lu�s Carmelo, do Miniscente, Jo�o Rodrigues, editor da Dom Quixote, Ana Madureira, do gabinete da ministra da Cultura, Maria do Ros�rio Pedreira e Ana Pereirinha, respectivamente editora e editora-adjunta da QuidNovi, o jornalista Rui Lagartinho (fac��o pr�-Margarida), Ana Cl�udia Vicente, do Quatro Caminhos, e se me esque�o de algu�m � sem inten��o. O Francisco, a Anick e o Ricardo, como sempre, anfitri�es atentos. O vinho n�o sei se era bom, n�o provei."
 


EARLY MORNING BLOGS 745

Le chat

Je souhaite dans ma maison :
Une femme ayant sa raison,
Un chat passant parmi les livres,
Des amis en toute saison
Sans lesquels je ne peux pas vivre.


(Guillaume Apollinaire)

*

Bom dia!
 


BIBLIOFILIA: AMERICANA

http://images-jp.amazon.com/images/P/0060566779.09.LZZZZZZZ.jpg [0-671-86742-3Lincoln at Gettysburg the Words That Remade Americaby Garry Wills]

Thomas Frank, What's The Matter With Kansas? How Conservatives Won The Heart Of America

Anthony Bianco, Ghosts Of 42nd Street: A History Of America's Most Infamous Block

Garry Wills, Lincoln at Gettysburg the Words That Remade America

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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