ABRUPTO

28.2.06
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(28 de Fevereiro de 2006)


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Novos descobrimentos: na noite, Mimas passa em frente de Saturno. Percebe-se o frio.


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No Guardian as guerras de livros e autores � beira dos pr�mios.

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Bom retrato de S�crates feito por Valupi no Aspirina B:
"S�crates � muito irritante. Tem uma pose sempre no limite da arrog�ncia possid�nia, tend�ncia que se tem agravado com a idade e os pap�is do poder. Mas S�crates torna-se simp�tico quando se irrita; o que lhe acontece com facilidade, de resto. A�, o seu temperamento sangu�neo tem uma genuinidade que se distingue dos artificialismos da circundante pandilha. Sente-se-lhe o gosto em passar responsos paternalistas, exerc�cio que atinge o auge quando a v�tima � Marques Mendes. A sua voz tamb�m se modula de acordo com a bancada do interlocutor: o CDS � tratado com indiferen�a fria, o PSD com agressividade c�mplice, o PCP com petul�ncia agastada e o Bloco com bonomia agreste.
*
O que Valupi diz de S�crates � apenas a confirma��o do que diz o nosso cl�ssico Vieira: "Se olharmos para as coisas com simpatia, at� um cisne preto nos parece branco; se olharmos, com antipatia, at� uma rato branco nos parece preto."

(Jo�o Boaventura)
 


EARLY MORNING BLOGS 730

Henri quatre

Henri quatre
Voulait se battre
Henri trois
Ne voulait pas
Henri deux
Se moquait d'eux
Henri un
Ne disait rien.

("Comptine" an�nima)

*

Bom dia!

27.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NOS OLIVAIS - LISBOA, PORTUGAL



Envio-lhe uma foto do trabalho duro de dois imigrantes de leste de S�bado � tarde, dia 25 de Fevereiro de 2006, enquanto a maioria da popula��o de Lisboa se fazia � estrada para comemorar o Entrudo ou andava em roda viva para comprar os fatos de Carnaval a pre�os chorudos em centros comercais. Chovia torrencialmente a rua estava deserta e esses dois homens colocavam pedra a pedra a cal�ada da minha rua um. Um deles n�o tinha mesmo imperme�vel e estava encharcado. Envio-lhe a foto para que seja um pequeno tributo aos imigrantes que ajudam a desenvolver o meu pa�s com trabalho muito duro e em condi��es muito dif�ceis. O grau de desenvolvimento de um pa�s tamb�m se v� na forma como reconhece e integra aqueles que por aqui quiseram procurar uma vida melhor.

(Renato Gon�alves)
 


EARLY MORNING BLOGS 729

Coccinelle vole

Coccinelle vole
Va-t'en � l'�cole
Prends donc tes matines
Va � la doctrine.

("Comptine" an�nima)

*

Bom dia!

26.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM TIMOR-LESTE



Um grupo de alunas da Universidade Nacional de Timor-Leste depois de uma aula, falando sobre o futuro de Timor. No quadro negro pode ver-se uma frase com que eu havia intrigado os alunos, solicitando-lhes que descobrissem o que queria dizer em portugu�s. Quando descobriram, fizeram quest�o de a escrever naquele quadro que estava na minha sala de trabalho, gabinete frequentado pelos estudantes, onde t�nhamos grandes conversas sobre as suas dificuldades, sobre as suas ansiedades, medos, esperan�as, e ali ficou durante um ano. Carpe diem. Aproveitem o dia. Era assim que nos cumprimentavamos, Carpe Diem. No meio de tanta ambiguidade, de tanta dificuldade, era necess�rio aproveitar o dia, estudar, trabalhar, lutar, mas tamb�m criar amizades, solidariedades, fortalecer a paz. Esta farse ganhava ali mais sentido do que uma mera c�pia rom�ntica e paternalista do Clube dos Poetas Mortos.

(�ngelo Eduardo Ferreira)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO SUL DE PORTUGAL


Obras.

(Ant�nio Filipe Meira)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: LI��O DE POPULISMO



No dia do primeiro anivers�rio da vit�ria com maioria absoluta pelo PS (20.02.2006) assistimos nas televis�es a uma exibi��o de populismo de c�tedra pelo Eng.� Jos� S�crates e governantes da educa��o:

1) Anunciou o primeiro-ministro o alargamento das aulas de substitui��o ao ensino secund�rio (10�-12� anos) num dia em que se iniciava uma semana greve de professores �s mesmas, depois de numa greve anterior (18.11.2005) a ministra da educa��o ter publicado um texto �coincidente� com a data no P�BLICO e no DI�RIO DE NOT�CIAS ser levantada, tamb�m nesse dia �oportuno�, a quest�o das faltas dos professores. Come�a a ser uma estrat�gia doentia ou ent�o s�o coincid�ncias a mais. N�o vejo diferen�as de fundo entre isso e a interven��o do primeiro-ministro sobreposta � de um candidato na noite eleitoral das presidenciais. No �ltimo caso admito que pode ter sido acidental, mas tamb�m n�o se podem deixar de assinalar outras atitudes compar�veis que revelam a estrat�gia de afirma��o de um governo do qual o Eng.� Jos� S�crates � o primeiro respons�vel. Nada de novo nesta forma de atropelar a dignidade dos outros. Em democracia os processos valem tanto quanto os resultados. N�o sou sindicalizado, concordo com as aulas de substitui��o, dou com prazer aulas de substitui��o, n�o fiz greve e, no entanto, n�o compreendo certas pr�ticas.

2) Anunciam-se avan�os sem se fazer uma pondera��o minimamente s�ria de como decorrem as aulas de substitui��o no b�sico. Isso tem uma designa��o: fuga em frente, um v�cio de longa dura��o nas pol�ticas educativas. Qualquer correla��o entre melhorias substantivas na qualidade do ensino e a generalidade das medidas que o governo tem implementado, em especial as aulas de substitui��o, s� mesmo se and�ssemos distra�dos. A n�o ser que se considere que o problema do ensino � essencialmente or�amental. Mas se assim for preferiria viver numa rep�blica de contabilistas-governantes. Enquanto o centro da quest�o, a sala de aula, se mantiver como est� (e n�o se prev� que mude com o rumo que as pol�ticas tomaram), o que se �reformar� ter� efeitos meramente laterais ou circunstanciais. C� estarei daqui a meia d�zia de anos, se estiver vivo, para tentar explicar porque, uma vez mais, se falhou.

3) O governo tem-se mexido muito (reorganiza��o da rede escolar, aulas de substitui��o, revis�o da progress�o nas carreiras, etc. � medidas que t�m de ser tomadas, sem d�vida), mas foge dos problemas estruturais: indisciplina (n�o se vislumbra que o problema tenha sido assumido, tal como se teve de assumir o d�fice p�blico, e que exista uma estrat�gia, boa ou m�, para enfrent�-lo e, se calhar, teremos de esperar largos anos para, outra vez, se actuar tarde e mal), facilitismo das avalia��es (enquanto o pa�s insiste na incapacidade de discutir de modo sustentado e plural a quest�o dos exames nacionais no b�sico e no secund�rio porque uns quantos �especialistas� os desvalorizam, o governo reproduz medidas de promo��o do facilitismo como o Despacho Normativo 50/2005), estruturas curriculares ineficazes (s� n�o v� quem n�o quer).

4) Tal qual os populistas que falam �por cima� e atropelam as elites alegando que os interesses do �povo� est�o em primeiro lugar, este governo insiste em falar �por cima� dos professores, encarnando a �vontade� dos alunos, dos encarregados de educa��o (com se n�o houvesse professores-progenitores-encarregados-de-educa��o nos mais de 100.000 profissionais) e da escola (cuidadosamente, ao menos, nessa palavra os governantes n�o ousam incluir os professores). Depois de marginalizados pelos discursos dos l�deres sindicais, os professores de sala de aula s�o confrontados com uma nova vers�o: um governo que refinou e monopolizou o autismo estrutural do sistema. Nunca dei por um verdadeiro pluralismo na educa��o. Ora uns, ora outros.

5) Directa ou indirectamente, este discurso governamental ao referir apenas �os sindicatos� (e mesmo esses convinha discrimin�-los) e ao omitir os professores, n�o estabelecendo uma distin��o entre uns e outros (talvez porque, honestamente, n�o sinta legitimidade para tal), permite que socialmente se instale uma percep��o p�blica que mete tudo no mesmo saco, numa �rea t�o complexa quanto a do ensino (veja-se o artigo prim�rio da autoria de Filomena Martins na S�BADO de 23.02.2006, p.67). Al�m disso, a nega��o sistem�tica e mesmo obsessiva do papel social dos sindicatos (concorde-se ou n�o com eles), representados no simplismo ret�rico do primeiro-ministro (e de alguma imprensa) como �os maus da fita�, em prol de um omni-representativo governo na �rea da educa��o, constitui uma �bvia deriva populista inimagin�vel num governo dito de esquerda se recu�ssemos um ano. A �burguesia, os ricos, os poderosos� foram finalmente descodificados: os sindicatos. J� nem sei se a esquerda que governa tem alguma coisa a ver com Marx.

6) Todavia, a sobranceria do primeiro-ministro e do governo tem muito a ver com uma oposi��o que, dia-a-dia, vai justificando o contr�rio daquilo para que existe: apesar de tudo, com esta oposi��o (n�o generalizo, mas refiro-me em concreto � �rea da educa��o), justifica-se a maioria absoluta do Eng.� S�crates e a ac��o �not�vel� da ministra da educa��o.

(Gabriel Mith� Ribeiro)

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Toda a gente ligada � educa��o sabe que a decis�o do Governo relativamente �s aulas de substitui��o est� ligada a um n�mero que recentemente surgiu nos media: o de que a taxa de abstencionismo dos professores do ensino b�sico or�a os 10%. Ora, sendo sobejamente evidentes os preju�zos que tal pr�tica acarreta sobre a educa��o das crian�as, das duas uma: ou o Governo, entidade abstracta que para o efeito teria de tomar a forma concreta de uma qualquer entidade inquisitorial e disciplinar, a puniria, ou criava mecanismos, similares aos j� institucionalizados pelo costume em muitas Universidades, para que sejam os pr�prios pares dos abstencionistas a criarem uma moral menos transigente para com esse relaxe. Fazendo-os ocupar os tempos lectivos que os colegas abstencionistas abandonam. No fundo, trata-se de afirmar uma coisa muito simples e just�ssima aos docentes: �faltem se quiserem, mas as crian�as n�o podem ficar abandonadas e algu�m tem de tomar o lugar dos faltosos�!
Evidentemente que as aulas de substitui��o n�o s�o a melhor solu��o para o abstencionismo de alguns docentes. A melhor solu��o seriam medidas punitivas fortemente dissuasoras de tal pr�tica. Mas e o seu custo pol�tico? E a sua implementabilidade pr�tica? Enquanto o relaxe for uma cultura dominante ou pelo menos tolerada, � dif�cil imaginar melhores solu��es!
Misturar este problema com o da qualidade das salas de aulas ou com o facilitismo n�o ajuda nada. Cada problema de sua vez. At� por que se n�o come�ar por instaurar uma cultura de auto-exig�ncia entre os docentes, nada se conseguir� realizar com eles.
A maioria dos portugueses apoia esta pol�tica. Por que � populista? N�o, por que � cristalinamente necess�ria. Ou qual � a alternativa?
Pessoalmente, gostaria de acrescentar o seguinte: n�o perten�o ao clube do 1� Ministro nem a clube nenhum. E tanto se me d� que seja o Eng� S�crates como o Dr Marques Mendes a fazer o que � necess�rio na educa��o. Mas como nas �ltimas d�cadas ainda ning�m se interessara em fazer coisa alguma nesta mat�ria, por mim, apoio! E comigo, segundo as sondagens, a maioria dos portugueses!

(Jos� Lu�s Pinto de S�)
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Por outro lado, quero fazer uma observa��o relativa ao excelente texto do seu leitor Gabriel Mith� Ribeiro, que faz refer�ncia �facilitismo das avalia��es�. Quero apenas acrescentar que uma das causas desse facilitismo consiste em querer-se diminuir o insucesso escolar. Mas se analisarmos o conceito subjacente de �insucesso�, o que se torna �bvio � que ter sucesso � passar de ano e n�o, como se poderia pensar, ter-se aprendido novos factos ou desenvolvido novas compet�ncias. Considero obscena esta no��o de sucesso. E se a aplic�ssemos a outras �reas? Vamos medir o sucesso de um pol�tico unicamente pelo n�mero de elei��es que ganha, independentemente do modo como o fez e de como exerceu o cargo para que foi eleito? Vamos medir o sucesso de um presidente de um clube de futebol unicamente pelo n�mero de campeonatos ganhos, sem pensar em eventuais subornos e outras falcatruas? J� agora, porque n�o medir o sucesso de um professor pelo n�mero de alunos que n�o reprova? Parece-me que faria perfeitamente sentido, pela mentalidade em vigor.

(Jos� Carlos Santos)
 


RETRATOS DO TRABALHO NA SERRRA DA ESTRELA, PORTUGAL


Pastores conduzindo um rebanho - Vila Soeiro / Guarda - regi�o da Serra da Estrela, 2006.

(Ant�nio Ruivo)
 


EARLY MORNING BLOGS 728

The Limerick Packs Laughs Anatomical

The limerick packs laughs anatomical
Into space that is quite economical.
But the good ones I�ve seen
So seldom are clean
And the clean ones so seldom are comical.

(An�nimo)

*

Bom dia!

25.2.06
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(25 de Fevereiro de 2006)


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Mais um Google: o Google Page Creator. As cr�ticas t�m sido negativas, mas para um amador vale experimentar.

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O modo como a comunica��o social (exemplo t�pico: o relato �pico-l�rico de um jornalista da RTP no notici�rio das 20 horas de ontem) est� a tratar o crime cometido no Porto contra algu�m que se encontrava na maior das solid�es, da perda de si, o que tamb�m significa na margem mais absoluta da exclus�o, � um t�pico exemplo de jornalismo de causas, ou seja, de n�o-jornalismo. Duvido que sequer sirva qualquer causa, serve uma determinada vis�o pol�tica do problema e da sociedade, a do Bloco de Esquerda. Penso ali�s que � absolutamente contraproducente para uma sociedade que aceite a pluralidade das escolhas de vida com naturalidade, que � o que desejamos.

O problema � que n�o � isso de todo o que est� em causa neste caso. O que est� em causa s�o os mecanismos da exclus�o, e esses n�o s�o apenas a homossexualidade, mas tamb�m a mis�ria, a droga, a marginalidade, de onde vieram criminosos e a v�tima. A droga , por exemplo, n�o tem nenhum papel? Transformar este crime num instrumento para mais uma vez fazer legisla��o "politicamente correcta " sobre a "homofobia", � pol�tica, n�o � jornalismo.
 


RETRATOS DO TRABALHO NO ALENTEJO, PORTUGAL


Empilhamento da corti�a.

(Jo�o Sobral)
 


RETRATOS DO N�O-TRABALHO NA FINL�NDIA



Descri��o: Bar de uma faculdade nos arredores de Helsinki, depois das cinco da tarde.

Apesar da faculdade estar aberta os funcion�rios do bar j� n�o trabalham a essas horas, o bar no entanto permanece aberto. Nestas circunst�ncias o funcionamento do mesmo � muito simples e da mesma forma um excelente exemplo de como as coisas em geral funcionam na Finl�ndia. O bar adopta um sistema de self-service em que o consumo � cobrado na base da confian�a, ou seja cada um serve-se (sejam caf�s bolos ou qualquer coisa ao dispor no balc�o), anota num caderno o que apanhou, e mete a moeda num porquinho de loi�a. E � j� aqui ao lado, na Nokialand.

(Nelio Barros)
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Este sistema de self-service baseado na confian�a � muito semelhante ao caso de uma empresa, descrito no excelente livro "Freakonomics", que coloca "bagels" em v�rios edif�cios de escrit�rios da mesma forma:
sirvam-se, mas deixem aqui o dinheiro correspondente, confiamos.
Claro que h� roubos de bagels, mas a percentagem de roubos � pequena e d� para a empresa ter um lucro aceit�vel. O curioso da hist�ria � que devido aos registos pormenorizados de v�rios anos o autor do Freakonomics (j� traduzido para portugu�s) pode contar-nos factos t�o interessantes como saber em que tipos de escrit�rios h� mais roubos, que nas v�speras de feriados propiciadores de ansiedade, como o Dia de Ac��o de Gra�as e o Natal, h� mais roubos do que na v�spera de feriados neutros como o Dia do Trabalhador ou o Dia da Independ�ncia.

(Leonel Morgado)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


Coloca��o de um equipamento de ar condicionado no topo de um hotel em Lisboa, no dia 1 de Maio de 2004 (dia do trabalhador!).

(Andr� Fel�cio)
 


A FRAGILIDADE DOS PARTIDOS NACIONAIS



Quando analisamos a capacidade pol�tica dos partidos portugueses, no seu duplo sentido de "produ��o" de discursos pol�ticos e de efic�cia eleitoral, verificamos que ela se mant�m a n�vel do poder local, e � quase inexistente na dimens�o das grandes cidades e a "n�vel nacional". Duas observa��es j� � cabe�a: uma � que o que se diz a seguir n�o se aplica ao PCP, que � um partido distinto dos outros, e ao BE, em que a componente de agit.prop se sobrep�e � organiza��o, mas apenas ao PSD e PS; a outra � que estamos a falar de partidos na oposi��o, em que a vertente governativa n�o potencia a ac��o partid�ria. Esta �ltima objec��o n�o � de fundo, visto que o poder derivado do acesso � governa��o n�o revela maior capacidade dos partidos a "n�vel nacional", mas oculta apenas as suas fragilidades. Resumindo e concluindo, o PS e o PSD s� existem hoje como partidos locais, a n�vel nacional a sua presen�a � t�nue e cada vez se torna mais d�bil.

Mesmo nas grandes cidades como Lisboa e Porto, as estruturas distritais e federais s� existem como estruturas locais, agarradas �s juntas de freguesia e � verea��o das c�maras, irrelevantes enquanto organiza��es pol�ticas para a maioria dos habitantes urbanos, que n�o t�m com as suas autarquias qualquer rela��o de proximidade. Uma distrital de Lisboa do PSD ou uma federa��o do PS do Porto, dois exemplos de organiza��es que j� tiveram efectivo poder, n�o contam hoje em quase nada para a formula��o de pol�ticas partid�rias e s�o irrelevantes enquanto m�quinas eleitorais, a n�o ser em sentido negativo. As organiza��es partid�rias t�m conseguido sobreviver enquanto �rg�os de poder e decis�o apenas ao n�vel da pol�tica de proximidade, perdendo cada vez maior poder quando nos afastamos desse c�rculo mais estreito, para dimens�es em que os principais instrumentos de intermedia��o de influ�ncia pol�tica s�o os media modernos.

Uma das consequ�ncias desta situa��o � a crescente transforma��o dos partidos em m�quinas do poder local e regional, com aumento da influ�ncia dos autarcas em toda a vida partid�ria, em detrimento da influ�ncia de outro tipo de inst�ncias mais perto do "n�vel nacional": deputados e �rg�os centrais do partido que det�m cada vez menor autonomia em rela��o ao partido local. O conglomerado poderoso de interesses que � hoje o poder local resulta mais eficaz do que o poder de qualquer direc��o nacional. Manuel Alegre, na sua campanha, quando falava do "medo", referia-se ao efeito deste poder local, dador de emprego, e estritamente controlado, sem alternativas e sem "ar", mais do que �s prepot�ncias do PS nacional contra a sua candidatura. Hoje, a pol�tica de proximidade deu uma nova dimens�o a formas modernas de caciquismo e clientelismo pol�tico mais sofisticadas do que as do passado, pois h� mais dinheiro, logo mais mecanismos de controlo.

Neste contexto, as direc��es e lideran�as nacionais de um partido de oposi��o s�o muito mais fr�geis do que no passado, porque gastam uma parte importante do seu tempo a competir desigualmente com inst�ncias mais capazes de fidelizar o aparelho partid�rio e a ter que competir para o exterior num meio essencialmente mediatizado, para que n�o disp�em de instrumentos eficazes. Com quem conta e o que faz um l�der de um partido pol�tico na oposi��o? Voltamos aqui aos dilemas que defrontam Marques Mendes e Ribeiro e Castro.

A mediatiza��o da pol�tica valorizou desmedidamente o papel individual da lideran�a, em detrimento de �rg�os colectivos. O l�der � suposto "passar" bem na televis�o e espera-se tudo dessa prova. �, desde logo, uma grande responsabilidade que recai sobre uma pessoa, alimentada pela espectacularidade e pelo populismo tendencial da sociedade medi�tica. Hoje isto considera-se quase como uma evid�ncia, mas reportando-nos a l�deres como S� Carneiro, Freitas do Amaral, �lvaro Cunhal e Ramalho Eanes, que conduziram grande parte da sua ac��o pol�tica em per�odos menos dominados pela televis�o, percebe-se que h� toda uma s�rie de elementos de lideran�a que pouco t�m que ver com "passar a imagem". A ascens�o de Santana Lopes representa o movimento a contr�rio, mais conforme com os tempos de domina��o medi�tica. A sua queda n�o contraria a tese geral.

Acresce que os �rg�os pr�prios do topo dos partidos - comiss�o pol�tica, secretariado - foram normalmente eleitos em fun��o da correla��o das for�as partid�rias, como emana��o do aparelho "de baixo", a que se junta um pequeno grupo de pr�ximos do l�der, que lhe s�o pessoalmente leais, mas que n�o chegam a fornecer consist�ncia aos �rg�os de direc��o. Estes s�o cada vez mais federa��es de grupos e menos uma equipa coesa. Para al�m disso, s�o cada menos �teis como �rg�os de aconselhamento, visto que as fugas sistem�ticas de informa��o os torna inadequados a decis�es importantes. A tend�ncia � para as lideran�as dirigirem o partido na base da conjuga��o entre um grupo de pessoas leais, um grupo dentro de um grupo, e outro tipo de �rg�os informais destinados a dar o suplemento de "prest�gio" e capacidade a �rg�os formais que n�o os t�m. Da� a prolifera��o de task forces, interiores, com um poder que n�o � escrutinado pelos �rg�os partid�rios, e de "�rg�os de prest�gio" que n�o t�m um efectivo poder na condu��o da pol�tica partid�ria. S�o tudo solu��es de recurso e n�o resolvem o problema de fundo: dar aos �rg�os formais a capacidade pol�tica e o prest�gio p�blico que eles n�o t�m e faz�-los funcionar com discri��o e reserva nas decis�es delicadas e com influ�ncia enquanto "vozes p�blicas".

Vamos admitir que um l�der deseje efectivamente unir o prest�gio e a influ�ncia p�blica de uma direc��o partid�ria com a sua legitima��o formal, e vamos admitir que consegue fazer a verdadeira revolu��o que � inverter o tipo de escolhas aparelh�sticas que s�o dominantes nos partidos. Encontrar� ent�o outro tipo de obst�culos: a completa falta de competitividade que t�m as carreiras pol�ticas, em todos os planos, a come�ar no simb�lico, com carreiras profissionais, e a resist�ncia mais que justificada a fazer pol�tica em democracia nos dias de hoje. N�o � f�cil convencer algu�m que pela sua qualifica��o profissional � um alto quadro num banco a ser porta-voz da pol�tica financeira de um partido de oposi��o. A administra��o do banco, mesmo que ele dela fa�a parte, lhe dir� que � inconveniente. N�o � f�cil convencer um grande advogado a ser porta-voz em quest�es de justi�a ou a dirigir um grupo de estudo sobre corrup��o, sem que os seus colegas lhe lembrem que isso prejudica o escrit�rio. Por a� adiante. A omnipresen�a do Estado, o seu car�cter ainda muito clientelar, a fragilidade da sociedade civil em oferecer espa�os alternativos, a m� fama da vida pol�tica e a degrada��o das condi��es do seu exerc�cio aparecem como um cont�nuo em rela��o � m� qualidade dos partidos. Pode-se sempre argumentar que � poss�vel come�ar de novo, formar gente nova e sem v�cios, mas n�o � uma solu��o exequ�vel a curto prazo e oferece as mesmas dificuldades.

Estas dificuldades s�o reais e s� podem ser superadas atrav�s de uma requalifica��o da pol�tica, que passa n�o s� por profundas mudan�as nos partidos pol�ticos, como tamb�m na forma de a fazer. S�o precisos novos instrumentos e novas formas que permitam esta qualifica��o das direc��es "de cima", que s� podem ser levadas adiante e ganhar credibilidade quando se defronta a dupla resist�ncia da mediocridade e dos interesses instalados, coisas que os partidos deixaram crescer at� um n�vel cr�tico. Sem isso, nem por baixo, nem por cima, os partidos conseguir�o manter a influ�ncia c�vica na sociedade.

(No P�blico de 24/2/2006)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ARROIOLOS, PORTUGAL


Bordando tapetes.

(Jo�o Antunes)
 


EARLY MORNING BLOGS 727

As A Beauty I�m Not A Great Star

As a beauty I�m not a great star,
There are others more handsome by far,
But my face, I don�t mind it,
Because I�m behind it,
�Tis the folks in the front that I jar.

(An�nimo)

*

Bom dia!

24.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NO SUL DE PORTUGAL


Demoli��o.

(Ant�nio Filipe Meira)
 


COISAS DA S�BADO: �NGELO DE SOUSA

�ngelo de Sousa

A abertura de uma grande exposi��o de esculturas de �ngelo de Sousa no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian merece toda a aten��o porque �ngelo � um artista dif�cil de arrumar. Alguns dos seus quadros t�m um forte poder decorativo e h� mesmo uma pequena pe�a de escultura em metal que faz parte dos objectos que a Loja de Serralves comercializa. Por outro lado, muitos dos seus desenhos e esculturas e alguns dos seus quadros fazem parte daquelas pe�as de arte contempor�nea que s� existem em museus e ningu�m quer ter em casa. S�o rabiscos, s�o coisas feias, n�o valem nada. Qual �arte pobre�, qual minimalismo qual nada? �Eu tamb�m sou capaz de fazer aquilo�, diz o bruto que h� em n�s. N�o pode n�o.

Nesta exposi��o percebe-se o que est� por detr�s de quase tudo que � �produto� nesta oficina: um trabalho de aten��o �s formas, minimal-repetitivo, risco a risco, folha a folha, tra�o a tra�o, cor a cor, lata a lata, pl�stico a pl�stico, n�on a n�on, para perceber o que est�, o que h�. A obra de �ngelo � uma daquelas que melhor corresponde � procura ideal da forma, uma ilustra��o da frase de Da Vinci da pintura como �coisa mental�. Quantas formas h�? Pergunta cada escultura. S� a minha? Um milh�o? Quantos materiais me fazem? S� este lat�o, este a�o, este pl�stico, este vidro? Um milh�o de materiais, um milh�o de formas? S�o infinitas? N�o sei. �ngelo enche o mundo de formas, como ali�s muita da arte contempor�nea, mas n�o procura a Forma, procura o Mundo. Ele sabe que n�o chega l�, mas esfor�a-se.
 


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL


Calceteiro nos passeios do Porto.

(Eduardo Moura)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(24 de Fevereiro de 2006)


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A ler Formas de Censura em Portugal no P�s-25 de Abril no irreal TV.

*

Faz 40 anos que ouvimos esta frase sincopada "1,2,3,4,5 Minutos de Jazz", uma das melhores frases de abertura e t�tulo de um programa de r�dio em Portugal. Os "cinco minutos" de jazz come�avam logo no primeiro segundo em que Jos� Duarte dizia "um". 40 anos � obra num pa�s pouco persistente, em que tudo se gasta num instante, e nos media n�o dura um pico-instante.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTO SEGURO, BRASIL


Vendedor ambulante em Arraial d�Ajuda (Porto Seguro) � Brasil, em Fevereiro deste ano.

(Rui Negr�es)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO ALENTEJO, PORTUGAL


Tiragem de Corti�a.

(Jo�o Sobral)

(...) essa fotografia � uma imagem da minha inf�ncia passada num monte da serra algarvia e ainda agora parece que estou a ouvir a minha av� comentar com alegria, o descorti�amento dos sobreiros da nossa "fazenda". Dizia ela que eram as nossas ovelhas...

(M�rio Estevam)
 


EARLY MORNING BLOGS 726

THE SECOND COMING


Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all convictions, while the worst
Are full of passionate intensity.

(...)

( William Butler Yeats)

*

Bom dia!
 


RETRATOS DO TRABALHO DOM�STICO


Lavar a lou�a.

(F.)

23.2.06
 


(Escrito em tr�nsito, depois ser� integrado no texto final)
D�CIMA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA


A blogosfera n�o se consegue ver ao espelho.

OUTRA FORMULA��O: A blogosfera tem em comum com os vampiros n�o se conseguir ver ao espelho.

NOTA 1: Os blogues que representam a Excep��o a esta regra seguem Alice e entram pelo espelho dentro. Esses blogues jogam xadrez com a atmosfera. Nem sempre ganham.


22.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM CINF�ES, PORTUGAL


Lavrando a terra com uma junta de bois.

(Jos� Rui Fernandes)

21.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL


Trabalhadores numa esta��o de caminho-de-ferro na linha Porto-Lisboa.

(Eduardo Moura)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: POEIRA DAS ESTRELAS

2-micrometer comet particle

Part�cula dum cometa trazida pela Stardust para a Terra.
 


DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
(Vers�o 1.1)

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NOTA INICIAL: As Leis aqui transcritas n�o s�o nem Mandamentos, nem Regras, nem Instru��es Morais, nem Ordens de Servi�o, s�o Constata��es, descrevem o modo como os debates na blogosfera se desenrolam. S�o gen�ricas e universais. Como todas as Leis d�o origem a Excep��es, que s�o elas pr�prias outras Leis que regulam as Excep��es. Todas as Leis da blogosfera, dada a natureza do meio, s� podem ser formuladas de forma ir�nica, ou seja, absolutamente verdadeira.

PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO : Evitar discutir a Posi��o, procurar atacar a Contradi��o.

NOTA 1 : Ao se passar da Posi��o � Contradi��o o debate ganha uma dimens�o ad hominem. A maioria dos debates na blogosfera s�o ad hominem, na tradi��o da pol�mica � portuguesa.

NOTA 2: A Contradi��o � sempre apresentada como uma fraqueza moral.

NOTA3: Se houvesse s� Posi��es na blogosfera esta tinha um tamanho diminuto. A exposi��o das Contradi��es � o grosso da actividade da blogosfera. Os Insultos s�o outra parte importante.

NOTA 4: O n�mero de coment�rios num blogue t�m rela��o directa com a natureza da nota se esta for sobre uma Contradi��o (ad hominem) e inversa se for uma Posi��o. Num mesmo blogue, as notas que n�o atacam ningu�m n�o tem coment�rios e as que atacam algu�m est�o cheias.


SEGUNDA LEI DO ABRUPTO : A blogosfera � um lugar de fronteira, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social, logo a intensidade da zanga e da irrita��o na blogosfera � muito superior � da atmosfera.

NOTA 1: A blogosfera n�o � um local apraz�vel para os esp�ritos am�veis.

NOTA 2: A ferocidade dos coment�rios est� em rela��o directa com o seu anonimato mais o n�mero de coment�rios produzidos por metro quadrado de ecr� / dia.

NOTA 3: Os comentadores an�nimos na blogosfera s�o na sua maioria Trolls, na sua minoria Curiosos-s�rios. A maioria dentro da maioria s�o Trolls com nick name, profissionais das caixas de coment�rios.

NOTA 4: O genu�no comentador an�nimo da blogosfera desejaria n�o ser an�nimo, mas muito conhecido. No entanto, tem medo de p�r o nome e, se o assinasse com ele, n�o teria coragem de escrever o que habitualmente escreve. O nick name � a solu��o para ter nome n�o o tendo. O comentador com nick name, deseja ao mesmo tempo ser an�nimo e ter uma identidade como comentador, reconhecida inter-pares nas caixas de coment�rios.

NOTA 5: O comentador an�nimo com nick name escreve compulsivamente em todas as caixas de coment�rios abertas que encontra, escolhendo de prefer�ncia as dos blogues com mais leitores.

NOTA 6: Os comentadores an�nimos seguem em absoluto a PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO.

NOTA 7: Os Trolls nas suas v�rias incarna��es s�o o proletariado da blogosfera e os principais garantes da QUINTA LEI DO ABRUPTO.

NOTA 7: Os comentadores Curiosos-s�rios t�m uma vida curt�ssima na blogosfera. S�o os "inocentes-ut�is". Se continuarem inocentes acabam por fugir a sete p�s. Os que n�o fogem perdem a inoc�ncia e ou abrem blogues ou tornam-se Trolls por impregna��o do meio .



TERCEIRA LEI DO ABRUPTO : A esmagadora maioria dos temas, coment�rios, reac��es, alinhamentos, posi��es � absolutamente previs�vel.


NOTA 1: Na blogosfera n�o h� surpresas.

NOTA 2: A falta de previsibilidade � punida na blogosfera como Contradi��o (ver PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO), ou como "deslealdade org�nica".


QUARTA LEI DO ABRUPTO : A blogosfera tem horror ao vazio.


NOTA 1: Na blogosfera est� sempre a maior parte de cada um, o seu ego, que costuma ocupar um grande espa�o. Ainda cabe o Super Ego e o Id. Logo, n�o h� espa�o para mais nada.

NOTA 2: A blogosfera � compulsiva. A blogosfera � obsessiva. Pode-se ficar doente de uma longa exposi��o � blogosfera

NOTA 3: Os blogues colectivos morrem por implos�o, os individuais por cansa�o.

NOTA 4: A nota anterior � enganadora. Os blogues nunca morrem, s�o fechados e abertos logo a seguir com outro nome. Um lugar de um blogue � sempre preenchido por outro do mesmo autor, quando � individual, ou do mesmo tipo quando � colectivo.

NOTA 5: Quando um blogue deixou de ter sucesso na opini�o do seu autor, � morto por ele e aberto outro logo a seguir. O objectivo da morte anunciada � dar oportunidade ao seu autor de ler as necrologias em vida e saber a falta que faz. As necrologias em vida funcionam como massagem do ego.


QUINTA LEI DO ABRUPTO : A blogosfera � a Aldeia dentro da Aldeia Global, todos s�o vizinhos, todos sabem tudo de todos, todos zelam activamente para que se cumpra a regra principal da Aldeia: o igualitarismo tem que ser absoluto.


NOTA 1: Se eu fa�o tamb�m tu tens que fazer. Se tenho coment�rios tamb�m tu tens que ter. Se fa�o muitas liga��es, tamb�m tu tens que fazer. Se eu tenho contadores tamb�m tu tens que os ter.

NOTA 2: A patrulha da igualdade � uma das actividades mais generalizadas na blogosfera.

NOTA 3: Na blogosfera h� luta de classes.


SEXTA LEI DO ABRUPTO : Na blogosfera o lixo atrai o lixo.


S�TIMA LEI DO ABRUPTO : O tribalismo � a doen�a infantil da blogosfera.


NOTA 1: Os blogues s�o grupais, precisam imenso de companhia.

NOTA 2: A blogosfera tem evolu�do do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual.

NOTA 3: Os blogues atacam em grupo.

NOTA 4: As afinidades s�o muito fr�geis na blogosfera devido ao ambiente �cido que corr�i os elos normalmente muito d�beis entre blogues e dentro dos blogues colectivos entre os seus autores.


OITAVA LEI DO ABRUPTO : O que vale na blogosfera tem que valer na atmosfera.


NOTA 1: N�o basta ser capaz de respirar - no ciclo completo da respira��o (inala��o e exala��o) - �cido, � preciso ser capaz de respirar ar.


NONA LEI DO ABRUPTO : O car�cter l�dico dos blogues diminui � medida que a import�ncia da blogosfera aumenta na atmosfera.


NOTA 1: O car�cter l�dico dos blogues � cada vez mais afectado pela imposi��o de etiquetas e por uma crescente normatividade na blogosfera.

NOTA 2: Os blogues colectivos s�o mais propensos � normatividade do que os individuais, pela necessidade de se auto-gerirem.

NOTA 3: O car�cter l�dico dos blogues diminui � medida que as agendas medi�ticas se tornam dominantes. Na formula��o dessas agendas h� hoje um cont�nuo blogosfera-atmosfera.

(Continua)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM NISA, PORTUGAL


Bordadeiras.

(Jo�o Antunes)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(21 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Novas no caso do 24 Horas que n�o deve ficar esquecido ou "normalizado": um artigo de Medeiros Ferreira ("At� prova em contr�rio, n�o gostei nada da rusga num jornal. Agora, ou se sabe tudo sobre a fuga de informa��o em causa, e sobre a seguran�a das escutas telef�nicas, ou ficar� disto o travo forte de uma intima��o intimidante."), uma nota de JPH no Gl�ria F�cil e a not�cia do pedido de nulidade da busca feito pelos advogados do jornal.

*

A injusti�a gen�tica da beleza, o proletariado da fealdade e a propens�o para o crime no Washington Post.

*

No Overheard in New York:
"Its Existence Preceded Its Essence

Woman #1: So she told me, "I think Simon de Beauvoir was so brave for a man, to write like that." Can you believe it?
Woman #2: Oh my god.
Woman #1: How can she get a PhD without knowing who Simone de Beauvoir was?

--NYSC, Madison & 36th

Overheard by: J-Ho"
 


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL


Recolha do lixo no Porto.

(Eduardo Moura)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LANZAROTE - ILHAS CAN�RIAS, ESPANHA


Bi�logos portugues e espanh�is em Lanzarote, em trabalho de campo nas zonas intertidais.

(G. Carreira)
 


EARLY MORNING BLOGS 725

Prince des joies d�fendues



Prince, � Prince des joies d�fendues entendez-vous pas ce qu'on chante autour de vous ? � Les quatre coursiers trottent, les r�nes flottent : quitter le mal pour le bien serait un nouveau d�lice ! �

Prince, � Prince, votre perte est d�nonc�e. Songez � l'Empire ! Songez � vous !

o

Le Prince dit : Assez. Mauvais augures ! Je suis � l'Empire ce que le Soleil est au Ciel. Et qui donc s'en irait le d�pendre ? Quand il tombera, moi aussi.

Mon tr�ne est plus lourd que les Cinq Monts gardiens : il est couch� sur les cinq plaisirs et le sixi�me. Viennent les hordes : on les r�jouira.

L�Empire des joies d�fendues n'a pas de d�clin.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

20.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ALG�S, PORTUGAL


Amola-tesouras num s�bado de manh� em Alg�s.

(Ant�nio Maltezinho)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM SABROSA - VILA REAL, PORTUGAL


Abrindo uma vala.

(Leonel Morgado)
� mesmo um retrato do trabalho em Portugal... ningu�m usa capacete, o risco de derrocada e soterramento do oper�rio na vala est� presente, a m�o de obra barata exclui a necessidade de automatizar pr�ticas de trabalho.

(Carlos Pereira da Cruz)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(20 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Um artigo do Financial Times muito hostil aos blogues , mas que vale a pena ser lido:
"No Modern Library edition of the great polemicists of the blogosphere to yellow on the shelf; nothing but a virtual tomb for a billion posts - a choric song of the word-weary bloggers, forlorn mariners forever posting on the slumberless seas of news."
*

Admir�vel mundo novo. Cito do Blogouve-se estas declara��es sobre a TV Mais:
"Se aparecem na televis�o e s�o reconhecidos pelos leitores, ent�o tamb�m n�s vamos falar deles, das suas vidas", resume Carlos Maciel, considerando que estas ser�o, a partir de agora, duas condi��es essenciais para que as "estrelas" figurem nas p�ginas da revista. A informa��o televisiva propriamente dita fica relegada para segundo plano, abrindo antes as p�ginas aos rumores semanais sobre casamentos (des)feitos, opera��es de beleza, paix�es e desaven�as dos mais glamourosos do Pa�s e do mundo (...)�
*


Boa ideia (ou aplica��o de uma ideia) do Atrium: uma semana numa imagem. E que semana!
 


RETRATOS DO TRABALHO NO DOURO, PORTUGAL


Novas vindimas no Douro.

(M�rio Negreiros)
 


EARLY MORNING BLOGS 724

Human Abstract


Pity would be no more,
If we did not make somebody Poor;
And Mercy no more could be,
If all were as happy as we;

And mutual fear brings peace,
Till the selfish loves increase;
Then Cruelty knits a snare,
And spreads his baits with care.

He sits down with holy fears,
And waters the ground with tears;
Then Humility takes its root
Underneath his foot.

Soon spreads the dismal shade
Of Mystery over his head;
And the Caterpillar and Fly
Feed on the Mystery.

And it bears the fruit of Deceit,
Ruddy and sweet to eat;
And the Raven his nest has made
In its thickest shade.

The Gods of the earth and sea,
Sought through Nature to find this Tree,
But their search was all in vain;
There grows one in the Human Brain.


(William Blake)

*

Bom dia!

19.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


Apanhando isco num s�bado de manh� no Parque das Na��es.

(Ant�nio Maltezinho)
 


DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

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Nova vers�o em breve.
 


QUANDO CADA NUVEM TEM ALGUMA COISA A DIZER



O vento � forte.
 


QUANDO CADA NUVEM TEM ALGUMA COISA A DIZER


D� nisto: as laranjas caem todas das �rvores. Os lim�es aguentam melhor. Deve ser da acidez.
 


QUANDO CADA NUVEM TEM ALGUMA COISA A DIZER



D� nisto: aguaceiros muito r�pidos, violentos e curtos.
 


RETRATOS DO TRABALHO NA ICONOGRAFIA SOVI�TICA


Caixa de f�sforos da URSS.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM NOVA DELI, �NDIA



A m�quina, instalada no meu campus universit�rio, tem um assistente a tempo inteiro, 24 horas por dia, 365 dias por ano, fa�a frio g�lido ou calor t�rrido em Nova Deli. S�o dois funcion�rios que se revezam, sendo que � noite estendem uma pequena colcha para dormirem em frente � m�quina. H� diversas raz�es que explicam este factor humano.

Primeiro, h� repetidas e cont�nuas avarias, especialmente devido ao clima, for�ando a utiliza��o manual (o empregado tem a chave de acesso no bolso). Segundo, � raro algu�m ter consigo troco exacto para pagar em moedas os produtos expostos (devido � infla��o dos pre�os).
Terceiro, embora numa zona universit�ria, muitos dos utentes n�o s�o suficientemente literados ou simplesmente n�o t�m paci�ncia para seguir as instru��es. Finalmente, ao receberem o dinheiro em m�os, em vez de este ser colocado na ranhura, os empregados t�m uma fonte de rendimento adicional, desviando uma percentagem para um copinho de papel que se encontra escondido dentro da m�quina de caf� branca (ao meio), sem conhecimento da empresa gerente. Utilizei esta "vending-machine" por v�rias dezenas de vezes ao longo dos �ltimos meses, mas at� hoje n�o me foi poss�vel uma �nica vez efectuar uma transac��o com sucesso sem interfer�ncia do empregado, pelas raz�es acima expostas, ou variantes similares.

(Constantino Hermanns Xavier)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(19 de Fevereiro de 2006)


___________________________

N�o � novidade mas continua a ser bizarro que todos os canais televisivos transmitam em directo uma cerim�nia religiosa, respeit�vel por certo, mas cuja ocupa��o do espa�o televisivo � excessiva em rela��o ao seu interesse p�blico. Interesse p�blico que tem como not�cia, mas injustific�vel em horas e horas de directo simult�neo.

*

J� agora duas perguntas por curiosidade, e que os leitores n�o ter�o dificuldade em responder:

- nas actuais condi��es atmosf�ricas de vento muito forte, os helic�pteros est�o a actuar em condi��es de seguran�a? (Admito que sim, mas gostaria de saber mais.)

- lembrando-me eu da Morgadinha dos Canaviais e dos conflitos provocados pela proibi��o de sepulturas nas igrejas, que legisla��o permite o caso da Irm� L�cia?

*

Mais um amigo do 24 Horas - Ant�nio Barreto no P�blico:
"O ataque ao jornal 24 Horas � um exemplo flagrante. Protegidos pela lei, pois claro, um juiz, v�rios procuradores, a PJ, a PSP e a GNR assaltaram a redac��o do jornal, confiscaram computadores e discos inform�ticos e entregaram notifica��es a v�rios jornalistas entretanto acusados de crime e constitu�dos arguidos. Como n�o se trata de um jornal benquisto pelas elites, o caso passou relativamente � margem dos grandes esc�ndalos. Mas � um caso muito s�rio e grave.
(...)
� confrangedor o sil�ncio do Presidente da Rep�blica, do Parlamento e do Governo. Escudados pela "separa��o de poderes" e pela "independ�ncia da justi�a", esses �rg�os de soberania revelam um comportamento conden�vel: h� assuntos que n�o dispensam opini�o e a que os mais importantes dirigentes pol�ticos n�o podem ficar indiferentes. Seria bom que percebessem que os direitos dos jornalistas s�o instrumentais, isto �, garantem os direitos dos cidad�os e a liberdade de express�o e informa��o. � por isso que o caso � grave."
Assino por baixo. J� est�o a ficar muitos os que se preocupam com o que se est� a passar com este "inqu�rito" da PGR.
Com o caso "24 Horas", criou-se um precedente perigos�ssimo. O facto de se tratar de um tabl�ide - de que, de resto, n�o sou leitor - � irrelevante. De agora em diante, nenhum dos media poder� considerar-se a salvo de opera��o semelhante. Ora, o direito de informar (indissoci�vel do direito � protec��o das fontes) pertence ao cora��o da democracia. Subscrevo consigo, portanto, o texto de Ant�nio Barreto.

(Torquato da Luz)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL


Trabalhando nas obras municipais no Porto.

(Adolfo Fundo)
 


EARLY MORNING BLOGS 723

THE WEATHER IN VERSE.


The undersigned desires, in a modest sort of way,
To make the observation, which properly he may,
To wit: That writing verses on the several solar seasons
Is most uncertain business, and for these conclusive reasons :

In the middle of the Autumn the subscriber did compose
A sonnet on November, showing how the spirit grows
Unhappy and despondent at the season of the year
When the skies are dull and leaden, and the days are chill and drear.

Perhaps you may recall to mind that, when November came,
No leaden skies nor chilly days accompanied the same ;
But the weather was as balmy as in Florida you'd find,
And that sonnet on November was respectfully declined !

With laudable ambition to prepare a worthy rhyme,
The writer wrote a Christmas song three weeks ahead of time ;
And there was frequent reference to the shap and piercing air,
And likewise to the cold white snow that covered earth so fair.

I scarcely need remind you that the Christmas did not bring
The piercing air and cold white snow of which I chose to sing :
'T was all ethereal mildness while for icicles I yearned,
And of course my frigid verses were with cordial warmth returned.

This very Spring I set to work � 't was on an April day,
And warm as June � I set to work and wrote an ode on May ;
The inspiration may have come in part from what I owed,
But while I sang of gentle Spring I swear it up and snowed !

And once, when dew inspired me a pastoral to spin,
It happened, when the poem was done, a dreadful drought set in ;
There was no moisture in the earth, which dry and dryer grew,
And the piece on dew came back to me with six cents postage due !

And for these conclusive reasons it is obviously plain
That verses on the weather are precarious and vain ;
And the undersigned would only add, so far as he can see,
The trouble's not the metre, but the meteorology !


(Marc Cook)

*

Bom dia!

18.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO NA ERICEIRA, PORTUGAL


Trabalhos nas arribas da Ericeira.

(Helena Monteiro)
 


SOBRE OS RETRATOS DO TRABALHO

A s�rie de fotografias sobre o trabalho que aqui se tem publicado, contraria a muito pequena representa��o que tem o trabalho nos blogues. O mundo do trabalho, a n�o ser em determinadas fun��es profissionais do jornalismo ou da academia, ou nalguns blogues de mulheres, com o trabalho feminino dom�stico, praticamente n�o aparece na blogosfera. Isso tem a ver muito com a composi��o social da blogosfera, traduzida tamb�m no mundo simb�lico dos autores de blogues. � como no cinema, parece que ningu�m trabalha.

Essas fotografias (quase todas dos leitores do Abrupto) valem pela representa��o do trabalho, na sua normalidade e na sua trivialidade, no quotidiano da esmagadora maioria das pessoas. Elas revelam tamb�m o olhar dos seus autores, muito n�tido nalgumas fotografias tur�sticas, que mostram o Outro trabalho do resto do Outro mundo, como sendo uma curiosidade ex�tica. � tamb�m uma maneira de ver. Muitas, por�m (como a dos jardineiros de Odivelas) revelam esse ritmo quotidiano quase invis�vel de milh�es de pessoas. Aqui faz-se por ver.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(18 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Novos descobrimentos: mais Marte.



*

O fim do Moby Dick esteve para ser diferente e a baleia para ser morta. Como � que seria o nosso mundo se o capit�o Ahab sobrevivesse?

*

Assouline na La R�publique des Livres transcreve uma entrevista de Ballard em que este fala das previs�es falhadas da fic��o cient�fica. N�o concordo com este julgamento de Ballard sobre Orwell (porque o 1984 � tanto sobre o estalinismo como sobre os media, e aqui Orwell percebeu muita coisa antes de tempo sobre a nossa "sociedade medi�tica"), mas vale a pena fazer este balan�o:
"J'ai �t� influenc� par Wells,Huxley et Orwell.Les pr�dictions faites par Huxley dans "Le Meilleur des mondes" et "Les portes de la perception" se sont r�v�l�es beaucoup plus justes que celles d'Orwell, dont "1984" brossait avant tout un tableau du stalinisme. En bon socialiste, il craignait que ce d�voiement du socialisme ne contamine l'Europe occidentale. Mais Huxley a su pr�dire des soci�t�s fond�es sur l'uniformisation, l'�vasion dans la drogue, le clonage, ainsi que l'id�e d'exploiter le potentiel c�r�bral par l'usage d'hallucinog�nes -une intuition proph�tique. Pourquoi la Grande-Bretagne a-t-elle produit ces trois auteurs ? Sans doute parce qu'elle r�siste au changement, et que ces �crivains se sont r�volt�s contre tant d'immobilisme".
*

Entre as ofertas � "f�brica" dos �ltimos tempos, destaco uma colec��o magn�fica de caixas de f�sforos sovi�ticas, um excelente exemplo da iconografia comunista. O seu desenho � muito parecido com o dos selos da mesma �poca. Aqui vai um exemplo de uma s�rie sobre monumentos, est�tuas, o c�lebre tanque, as "casas da cultura" e os hot�is da Inturist:



*

� imposs�vel deixar de pensar que h� um elemento retaliat�rio na busca no 24 de Horas (ser� que dizer isto � crime?). Se � um crime o que o jornal fez, n�o foi um crime enviar as informa��es indevidas para o processo? Se � um crime o que o jornal fez, n�o t�m os jornais e as televis�es cometido o mesmo crime dezenas e dezenas de vezes, pelo menos desde que come�ou o processo Casa Pia? Pode-se sempre dizer que alguma vez a "justi�a" deveria "funcionar", s� que � um pouco estranho que s� o fa�a contra um jornal que denunciou o que, para n�o sugerir outra coisa, foi uma neglig�ncia grave do Minist�rio P�blico. Por isso diz bem Eduardo Pitta no Da Literatura:
"Hoje levantei-me cedo. Fui ler os jornais e os blogues do costume. � distrac��o minha, ou n�o est�o convocadas manifesta��es de solidariedade em frente ao 24 Horas? No momento em que, pela primeira vez em trinta anos de democracia, um jornal portugu�s � alvo de rusga policial, onde p�ram os estr�nuos defensores da liberdade de express�o? Acaso sup�em que ela � indissoci�vel de uma imprensa livre? Que � feito dos blogues de causas? E da indigna��o bem-pensante? Eu percebo. O 24 Horas n�o � dos �nossos�. N�s somos todos muito finos para nos preocuparmos com jornalismo marron. Mas e o senhor Presidente da Rep�blica? Desta vez n�o considera que estejam em causa direitos fundamentais?"

*

Novos tempos (do New York Times):
"For the first time, a major publisher is offering a book online at no cost to readers, supported by advertising. HarperCollins is selling the book, "Go It Alone! The Secret to Building a Successful Business on Your Own" by Bruce Judson, through Mr. Judson's site, brucejudson.com. "
 


COISAS SIMPLES


Andr� Kert�sz, Nature morte II
 


EARLY MORNING BLOGS 722

The world is too much with us; late and soon,
Getting and spending, we lay waste our powers:
Little we see in nature that is ours;
We have given our hearts away, a sordid boon!
This Sea that bares her bosom to the moon;
The Winds that will be howling at all hours
And are up-gathered now like sleeping flowers;
For this, for every thing, we are out of tune;
It moves us not�Great God! I'd rather be
A Pagan suckled in a creed outworn;
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlorn
Have sight of Proteus coming from the sea,
Or hear old Triton blow his wreathed horn.


(William Wordsworth)

*

Bom dia!

17.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ODIVELAS, PORTUGAL


Jardineiros.

(Pedro Oliveira)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: EQUIL�BRIO

Dione, Prometheus, and Epimetheus in Saturn's ring plane

Dione, Prometeu e Epimeteu alinhados pelos an�is de Saturno. Luxo, calma e voluptuosidade.
 


(Escrito em tr�nsito, em m�s condi��es, para ser integrado no texto final da vers�o 2.0)

DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
Vers�o 1.0

NOTA INICIAL: As Leis aqui transcritas n�o s�o nem Mandamentos, nem Regras, nem Instru��es Morais, s�o Constata��es, descrevem o modo como os debates na blogosfera se desenrolam. S�o gen�ricas e universais. Como todas as Leis d�o origem a excep��es, que s�o elas pr�prias outras Leis. Todas as Leis da blogosfera, dada a natureza do meio, s� podem ser formuladas de forma ir�nica, ou seja, absolutamente verdadeira.


S�TIMA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

O que vale na blogosfera tem que valer na atmosfera.

NOTA: N�o basta ser capaz de respirar - no ciclo completo da respira��o (inala��o e exala��o) - �cido, � preciso ser capaz de respirar ar.

OITAVA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

Na blogosfera o lixo atrai o lixo, n�o sendo a inversa verdadeira.

16.2.06
 


LENDO / VENDO /OUVINDO(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)

(16 de Fevereiro de 2006)

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Tudo isto vai escrito em p�ssimas condi��es por causa de "mais uma corrida, mais uma viagem". Mas os tempos est�o complicados e exigem escrita.

*

A ler sobre a "ocidentalofobia" ocidental, o artigo de Luciano Amaral no Di�rio de Not�cias.

*

Um exemplo de um boato (intencional e dirigido) oriundo de um blogue habitual em lan�ar boatos: a ida de Jos� Manuel Fernandes para Bel�m. No mesmo blogue h� m�ltiplos exemplos do mesmo tipo de planta��o de boatos.

*

Quando escrevi para a S�bado (n�mero que saiu hoje) levantando a d�vida sobre se o inqu�rito que foi pedido � Procuradoria , n�o se teria desviado do objectivo expl�cito para se centrar no 24 Horas, n�o fazia a m�nima ideia das buscas que justificariam plenamente essas palavras. A busca na redac��o do 24 Horas abre uma nova p�gina nas rela��es entre a PGR e os jornais, que eram, at� ao processo Casa Pia, de quase colabora��o. A hist�ria do Independente de Portas na sua cruzada contra os pol�ticos, abrindo caminho para uma Rep�blica dos Ju�zes � italiana, s� foi poss�vel pela transforma��o dos magistrados em justiceiros, fun��o que a politiza��o dos magistrados do Minist�rio P�blico e a cobardia do poder pol�tico facilitou. Com o processo Casa Pia tudo mudou. Por raz�es nem sempre muito nobres, as sucessivas fugas de informa��o revelaram claros abusos do poder, neglig�ncias e ambiguidades, que comprometiam os m�todos da investiga��o. Depois, a partir da�, cada cavadela, sua minhoca. O caso revelado pelo 24 de Horas, em que � incontorn�vel existir pelo menos neglig�ncia no tratamento da informa��o reservada que nunca deveria estar no processo, tornou-se a gota de �gua para toda a gente. Na realidade, como j� n�o havia mais margem de manobra para desculpar a actua��o da PGR, esta respondeu usando todos os seus poderes e virando uma p�gina na responsabiliza��o dos jornalistas. Que essa responsabiliza��o era de h� muito tempo devida, � verdade. Mas mudar a complac�ncia para com a comunica��o social nos seus abusos (e que n�o encontravam no sistema judicial uma protec��o capaz porque os tribunais raras vezes protegiam os direitos ofendidos), num processo em que um elemento de retalia��o pode sempre ser suspeito, coloca de novo a quest�o de liberdade de informa��o... E l� voltamos ao mesmo.

*

A auto-censura est� a crescer exponencialmente na nossa sociedade. J� n�o bastava a hist�ria das caricaturas, come�a-se agora a policiar o que se escreve. Eu pr�prio me pergunto sobre se o que escrevi atr�s me leva a cometer algum crime que justifique qualquer busca, t�o flu�da est� a fronteira da criminaliza��o da opini�o. Mas de uma coisa tenho a certeza: se eu n�o posso livremente criticar a PGR e os seus agentes, sem correr o risco de cometer algum bizarro crime que, mesmo que n�o me leve � condena��o, me leve a viver uns tempos miser�veis e humilhantes, n�o h� genu�na liberdade de express�o.


15.2.06
 


EARLY MORNING BLOGS 721

Te Deum


Not because of victories
I sing,
having none,
but for the common sunshine,
the breeze,
the largess of the spring.

Not for victory
but for the day's work done
as well as I was able;
not for a seat upon the dais
but at the common table.


(Charles Reznikoff)

*

Bom dia!
 


DEZ LEIS DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA
Vers�o 1.0

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PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

Evitar discutir a Posi��o, procurar atacar a Contradi��o.

NOTA 1 : Ao se passar da Posi��o � Contradi��o o debate ganha uma dimens�o ad hominem. A maioria dos debates na blogosfera s�o ad hominem, na tradi��o da pol�mica � portuguesa.

NOTA 2: A Contradi��o � sempre uma fraqueza moral.


SEGUNDA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

A ferocidade dos coment�rios est� em rela��o directa com o seu anonimato mais o n�mero de coment�rios produzidos por metro quadrado de ecr� / dia.

NOTA 1: O genu�no comentador an�nimo da blogosfera tem um nick name, deseja ao mesmo tempo ser an�nimo e ter uma identidade como comentador, reconhecida nas caixas de coment�rios.

NOTA 2: O comentador an�nimo com nick name escreve compulsivamente em todas as caixas de coment�rios abertas que encontra, escolhendo de prefer�ncia as dos blogues com mais leitores.

NOTA 3: Os comentadores an�nimos seguem em absoluto a PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO.


TERCEIRA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

A esmagadora maioria dos temas, coment�rios, reac��es, alinhamentos, posi��es � absolutamente previs�vel.

NOTA 1: A falta de previsibilidade � punida na blogosfera como Contradi��o (ver PRIMEIRA LEI DO ABRUPTO), ou como "deslealdade org�nica".

QUARTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

A blogosfera tem horror ao vazio.

NOTA 1: Um lugar de um blogue � sempre preenchido por outro do mesmo tipo.

NOTA 2: Os blogues nunca morrem, s�o fechados e abertos logo a seguir com outro nome. A blogosfera � compulsiva.

NOTA 3: Os blogues colectivos morrem por implos�o, os individuais por cansa�o.

NOTA 4: A blogosfera � um lugar de fronteira, o Wild West, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social. N�o � um local apraz�vel para os esp�ritos am�veis.

NOTA 5: A intensidade da zanga e da irrita��o na blogosfera � muito superior � da sociedade em geral (da� a SEGUNDA LEI DO ABRUPTO).

QUINTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

O car�cter l�dico dos blogues diminui � medida que a import�ncia da blogosfera aumenta na atmosfera.

NOTA 1: O car�cter l�dico dos blogues � cada vez mais afectado pela imposi��o de etiquetas e por uma crescente normatividade na blogosfera.

NOTA 2: Os blogues colectivos s�o mais propensos � normatividade do que os individuais, pela necessidade de se auto-gerirem.

NOTA 3: O car�cter l�dico dos blogues diminui � medida que as agendas medi�ticas se tornam dominantes. Na formula��o dessas agendas h� hoje um cont�nuo blogosfera-atmosfera.

SEXTA LEI DO ABRUPTO SOBRE OS DEBATES NA BLOGOSFERA

O tribalismo � a doen�a infantil da blogosfera.

NOTA 1: Os blogues s�o grupais, precisam imenso de companhia.

NOTA 2: A blogosfera tem evolu�do do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual.


(Continua)
 


RETRATOS DO TRABALHO NA NAZAR�, PORTUGAL



Vendedora de rua na Nazar�

(Carlos M. R. Franquinho)

14.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM BUENOS AIRES, ARGENTINA



Paseaperros em Buenos Aires

"Buenos Aires supports a legion of paseaperros, or professional dog walkers, who can some-times be seen with up to 30 canines on leash. They'll stroll through areas like Recoleta, Palermo's parks and even downtown with a variety of dogs ranging from scruffy mongrels to expensive purebreds, each of their tails happily a-waggin'.
Paseaperros are employed by busy or sedentary apartment dwellers who either can't or won't take the time to exercise their animais properly-and are willing to pay up to US$100 per month for this unique walking service. Since most paseaperros don't pay taxes, they can really 'clean up' in the city - figuratively speaking.
Every day, hundreds of thousands of canines deposit tons (literally) of dog shit and urine in the sidewalks, streets and parks of the capital. For this reason, city authorities may begin to regulate the profession by limiting dog walkers to 10 animals at a time, for example, and obliging them to carry a broom and bag to clean up after their charges. Some of these re-quirements are already law, but enforcement is nil."
(Lonely Planet)

(Alberto Costa)
 


RETRATOS DO TRABALHO NA �NDIA



Oper�rios da ind�stria de cal�ado, India, Chennai, 2006.

(Jo�o Costa)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TROVOADA EM SATURNO

Screenshot from 'Lightning Sounds from Saturn' movie

 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL



Pesca da sardinha.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL


Trabalhando na redac��o de um jornal.

(Jos� Manuel Fernandes)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(14 de Fevereiro de 2006)


___________________________


Assino por baixo desta nota de Eduardo Pitta no Da Literatura:
"Faz hoje um m�s o senhor Presidente da Rep�blica falou ao pa�s. Em s�ntese, disse que estavam em jogo �direitos fundamentais dos cidad�os�, raz�o que o obrigara a exigir do procurador-geral da Rep�blica um esclarecimento cabal, a prestar em �prazo curt�ssimo�. Estribado no prazo, o PGR adiou por tr�s dias a ida � comiss�o parlamentar que o convocara. Afinal, o prazo do presidente tinha preced�ncia. Passou um m�s. Ningu�m se lembra das listas da PT. Ningu�m se preocupa com o prazo. H� quem argumente que o esclarecimento n�o era para n�s, era para o dr. Sampaio. Ou que tudo n�o passou de um equ�voco. Em qualquer dos casos, quem deve exigir um esclarecimento s�o os cidad�os cujos �direitos fundamentais� foram ofendidos, sem que se perceba porqu�, e por quem."
*

O Adufe soma duas personagens bem apanhadas a esta quest�o das caricaturas: o Senhor Bom e o Senhor Senso, os "seus censores predilectos". Um deles ou os dois, escreve hoje no Di�rio de Not�cias:
"Freitas do Amaral, na sua fala, limitou-se a ser sensato, defensor dos interesses nacionais e dos da Europa e nada do que disse colocou em quest�o os princ�pios fundamentais do nosso sistema de valores."
*

O nosso bom embaixador do Ir�o (o deles e n�o nosso, porque como as coisas est�o � preciso fazer estas precis�es) deu uma entrevista (conforme informa��o de Jos� Carlos Santos) que passar�
"entre as 16h00 e as 17h00 pela Antena 1 (...) onde ele afirma que � preciso rever a hist�ria do Holocausto e que, tendo visitado Auschwitz e Birkenau quando foi embaixador na Pol�nia, chegou � conclus�o que teriam sido necess�rios 15 anos para incinerar seis milh�es de seres humanos. Nessa entrevista, ele tamb�m afirma que a melhor reac��o diplom�tica dentro da Uni�o Europeia ao caso dos cartoons foi a de Freitas do Amaral."
Eis uma importante vit�ria diplom�tica portuguesa, m�rito do nosso MNE.

*

Afinal as declara��es de Freitas do Amaral eram muito piores do que pensava. Aqui est� um fragmento:
"O maior agressor temos sido n�s. Para j� n�o falar das Cruzadas, que v�o longe mas que est�o presentes como alguma coisa que se passou anteontem, para j� n�o falar na coloniza��o de �frica e de v�rios povos isl�micos e asi�ticos, para j� n�o falar da pol�tica de canhoneira seguida pela Inglaterra em rela��o a esses pa�ses, veja o que foi a estrat�gia seguida pela maior pot�ncia mundial no mundo �rabe neste momento."
Esqueceu-se da funda��o e da exist�ncia do estado de Israel, mas tamb�m foi (e �) uma "agress�o" n�o foi, n�o �? Bin Laden de facto venceu. Venceu na pol�tica externa portuguesa.

*
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Grandes novidades arqueol�gicas: o primeiro t�mulo eg�pcio intacto no Vale dos Reis a ser descoberto desde o de Tutankhamon, "King Tut" para os amigos; e um outro, na Gr�cia, do per�odo logo a seguir ao reino de Alexandre, apenas com pequenos estragos e que parece ser o maior t�mulo subterr�neo desde sempre descoberto naquele pa�s.
 


EARLY MORNING BLOGS 720

Rien de trop

Je ne vois point de cr�ature
Se comporter mod�r�ment.
Il est certain temp�rament
Que le ma�tre de la nature
Veut que l'on garde en tout. Le fait-on ? Nullement.
Soit en bien, soit en mal, cela n'arrive gu�re.
Le bl�, riche pr�sent de la blonde C�r�s
Trop touffu bien souvent �puise les gu�rets ;
En superfluit�s s'�pandant d'ordinaire,
Et poussant trop abondamment,
Il �te � son fruit l'aliment.
L'arbre n'en fait pas moins ; tant le luxe sait plaire !
Pour corriger le bl�, Dieu permit aux moutons
De retrancher l'exc�s des prodigues moissons.
Tout au travers ils se jet�rent,
G�t�rent tout, et tout brout�rent,
Tant que le Ciel permit aux Loups
D'en croquer quelques-uns : ils les croqu�rent tous ;
S'ils ne le firent pas, du moins ils y t�ch�rent.
Puis le Ciel permit aux humains
De punir ces derniers : les humains abus�rent
A leur tour des ordres divins.
De tous les animaux l'homme a le plus de pente
A se porter dedans l'exc�s.
Il faudrait faire le proc�s
Aux petits comme aux grands. Il n'est �me vivante
Qui ne p�che en ceci. Rien de trop est un point
Dont on parle sans cesse, et qu'on n'observe point.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

13.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ROMA, IT�LIA


Actores ensaiando uma pe�a no passeio lateral do Tevere (Tibre) Roma

(Tony Ventoinha)
 


RETRATOS DO TRABALHO NA TERCEIRA - A�ORES, PORTUGAL


Ordenha.

(Augusto Oliveira)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: UM TESTEMUNHO ARGELINO


O que se est� a passar na Arg�lia tem um significado muito particular neste contexto da "Guerra das Caricaturas". Embora a Arg�lia n�o seja um pa�s t�o aberto e colorido para o nosso imagin�rio europeu, sobretudo porque n�o tem turismo, nem est� vocacionado para tal, era no entanto um pa�s onde se gozava de uma liberdade de express�o pouco comum nos pa�ses do Norte de �frica. Essa liberdade de express�o era vis�vel quer nos jornais em l�ngua �rabe quer nos jornais em l�ngua Francesa que, sem receios criticavam Presidente, Governos, Ministros, pol�ticas e legisla��o. O c�lebre C�digo de Fam�lia, em vigor no pa�s, era regularmente alvo de duras cr�ticas. Com as recentes informa��es que nos chegam sobre a deten��o e destitui��o de jornalistas que usaram a sua liberdade de informar e esclarecer, temos que perguntar se algo tamb�m est� a mudar naquele pa�s.

(J.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GUERRA DE CIVILIZA��ES

Em 2001, um engenheiro de uma empresa portuguesa muito conhecida, de visita a um pa�s onde os fundamentalistas isl�micos estavam em maioria, levou como prendas (para oferecer, em p�blico, ao representante do seu Cliente) duas bel�ssimas garrafas de Vinho do Porto.

Atento aos problemas civilizacionais, ele fez quest�o de explicar que o �Vinho do Porto n�o � vinho� e que, por sinal, �o vinho tinto, se n�o for em excesso, at� faz bem ao colesterol�.

Quando Dezembro chegou, os seus superiores puderam minimizar os danos de imagem enviando, aos eventualmente ofendidos, cart�es de Feliz Natal com um bonito pres�pio.

(C. M. Ribeiro)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(13 de Fevereiro de 2006)


___________________________

J� que o 11 de Setembro parece t�o esquecido que j� nem conta para as "agress�es" de que fala o nosso MNE, vale a pena voltar aos 102 minutos tr�gicos que catorze mil pessoas viveram no World Trade Center, e que resultaram em 2749 mortos. Este livro, escrito por jornalistas do New York Times, baseia-se em entrevistas e transcri��es telef�nicas sobre o que aconteceu dentro das torres no meio do terror e da confus�o, da valentia de alguns e da imprepara��o das autoridades para um evento daqueles em pr�dios com 400 metros de altura.

Li-o com um calafrio muito especial porque, um ano antes, em 11 de Setembro de 2000, vivi v�rios dias praticamente dentro do WTC, alojado no Marriot Hotel, tomando o pequeno almo�o no Windows of the World, para uma reuni�o matinal, exactamente o mesmo que matou um n�mero consider�vel de pessoas que l� estavam um ano depois, e jantando no mesmo restaurante com Nova Iorque ao fundo. Uma amiga minha trabalhava na loja do andar panor�mico - a mobilidade profissional americana salvou-a - e muitas vezes tinha ido � livraria Borders, uma excelente livraria, onde havia um caf� no segundo piso e se podia estar horas a trabalhar. Esta � uma geografia muito especial, fresca na minha mem�ria em 2001, que me permitiu "ver" demasiado bem o que se passou.

Fotografia das destrui��es da Borders Books and Music.

*

A ler, via Bloguitica , o texto e um in�cio de debate sobre a "guerra de civiliza��es", a partir do artigo de Huntington de 1993. Como se percebe que muita gente fala do assunto sem ter lido o artigo e muito menos o livro (de 1996), como ali�s acontece com o "fim da hist�ria" de Fukuyama, o que se discute � o t�tulo, vale a pena l� ir e repesar os argumentos. As datas s�o muito importantes: Huntington escreveu o artigo original oito anos antes do 11 de Setembro, e onze antes do 11 de Mar�o, mesmo antes dos momentos mais cr�ticos da guerra na ex-Jugosl�via, j� para n�o falar de todos os conflitos no Afeganist�o, Iraque, etc. E, pode-se discutir a generaliza��o, mas a tese central do argumento de Huntington merece muita aten��o:

"It is my hypothesis that the fundamental source of conflict in this new world will not be primarily ideological or primarily economic. The great divisions among humankind and the dominating source of conflict will be cultural. Nation states will remain the most powerful actors in world affairs, but the principal conflicts of global politics will occur between nations and groups of different civilizations. The clash of civilizations will dominate global politics. The fault lines between civilizations will be the battle lines of the future."

*

Liberdades e terror, outra quest�o de que falaremos cada vez mais. Um t�pico liberal americano Nat Hentoff escreve sobre The War on Privacy no Village Voice. A cita��o que encabe�a o artigo, do 1984 de Orwell, � cada vez mais certeira, para os EUA e para Portugal:

"There was, of course, no way of knowing whether you were being watched at any given moment. How often, or on what system the Thought Police plugged in on any individual wire was guesswork. . . . But at any rate they would plug in your wire whenever they wanted to. You had to live�did live, from habit that became instinct�in the assumption that every sound you made was overheard, and except in darkness, every movement scrutinized. "

*

A discuss�o sobre se o avi�o voa ou n�o voa, no �ltimo LENDO / VENDO come�a a animar.
 


RETRATOS DO TRABALHO NA BIRM�NIA



(Ra�l C�sar de S�)
 


EARLY MORNING BLOGS 719

S� tu a palavra


1.
S� tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
S� o desejo � matinal.

3.
Poupar o cora��o
� permitir � morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na �gua amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de t�o longe.

6.
Da chama � espada
o caminho � solit�rio.

7.
Que me quereis,
se me n�o dais
o que � t�o meu?


(Eug�nio de Andrade)

*

Bom dia!

12.2.06
 


C�U DO PORTO HOJE


(Jorge Aguiar)
 


ISTO EST� BONITO



Ser� que ouvi mesmo bem? Ser� que ouvi Freitas do Amaral dizer, quando das cerim�nias de �vora hoje de manh� com Aga Khan (esse sim, um genu�no moderado do Isl�o), que a culpa de tudo o que est� a acontecer se deve �s nossas "provoca��es" ocidentais? N�o vi o texto em lado nenhum, nem na LUSA, nem nos jornais digitais, mas ouvi-o na RTP. J� come�a a ser demais.

NOTA: Ouvi mesmo bem. Freitas do Amaral, o nosso Ministro dos Neg�cios estrangeiros afirma ipsis verbis: "Quem t�m sido os maiores agressores dos �ltimos tempos somos n�s". Depois sugeriu um campeonato de futebol entre mu�ulmanos e "ocidentais"...

A RTP repetiu as declara��es (no telejornal da noite) truncando uma parte (que passara no telejornal das 13 horas) em que Freitas do Amaral enfatiza a responsabilidade da agress�o, embora depois diga que algumas respostas a essas "agress�es" s�o excessivas. � pena n�o haver uma transcri��o das suas palavras, que , pelos vistos, n�o foram consideradas relevantes. Ou, talvez por ser domingo, faltam jornalistas na LUSA.

NOTA 2: N�o escapa a ningu�m que, no dia de hoje, o Presidente da Rep�blica e o Governo (pela voz do MNE) disseram coisas radicalmente diferentes sobre a quest�o das caricaturas.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(12 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Ouvindo The Legend of Sleeping Hollow de Washington Irving.

*

The Hitler Book. The Secret Dossier Prepared for Stalin, Londres, John Murray, 2005. O dossier que foi preparado pelo KGB sobre os �ltimos dias de Hitler poderia parecer pouco interessante e podia pensar-se que nada acrescentava aos rios de tinta escritos sobre esses dias do fim. Bem pelo contr�rio, o livro, escrito essencialmente a partir de testemunhos dos "de baixo", os criados, as ordenan�as, os guarda-costas, as secret�rias, aprisionados e interrogados pelos agentes da espionagem sovi�tica, l�-se sem parar.

*

Novos descobrimentos: Tit� em infra-vermelho.

*

Alimento para a cabe�a:

"A plane is standing on a runway that can move (some sort of band conveyer). The plane moves in one direction, while the conveyer moves in the opposite direction. This conveyer has a control system that tracks the plane speed and tunes the speed of the conveyer to be exactly the same (but in the opposite direction). Can the plane take off?"


Discuss�o no The Straight Dope e no kottke.org.
Em rela��o ao problema que citou no seu blog, o avi�o descola, mesmo que a velocidade do tapete seja superior � do avi�o. O que conta � a velocidade do avi�o em rela��o ao ar, s� o vento influencia esta velocidade, n�o o terreno. Um hidroavi�o descola mesmo com uma corrente contra, muito forte. No problema em quest�o o avi�o descolaria, parado no mesmo s�tio, logo que a velocidade atingida fosse a de descolagem.

(Jos� Gameiro)

*

Depende do aparelho e do vento.
No caso de um avi�o comum penso que n�o descola pois o avi�o est� estacion�rio relativamente ao solo.
S�o as asas e o efeito sobre estas da desloca��o do ar que sustentam o v�o.
No caso do tapete rolante a desloca��o do ar nas asas n�o ser� suficiente para permitir a sustenta��o.
H� ac��o (motores) mas n�o h� reac��o (desloca��o), que se traduz pelo movimento do aparelho que neste caso n�o existe. O facto de as rodas rodarem ao dobro da velocidade em nada altera a condi��o pois tudo seria igual se o avi�o estiver travado com os motores a trabalhar - n�o levanta; a menos que seja tipo foguete ou com descolagem vertical.

(J. Mineiro)

*

A discuss�o sobre se o avi�o voa ou n�o voa � uma discuss�o tipicamente masculina. N�o pena natureza eventualmente cient�fica do tema, mas pelo tipo de problema, racioc�nio ou modelo de argumenta��o que envolve. (Deve ser por envolver motores, ou coisa parecida�) Eu, que vejo avi�es a aterrar o dia todo, pergunto-me de onde v�m, quem trazem e vejo-os como parte da (minha) paisagem.

E, quando excepcionalmente, os vejo a partir, imagino que seja o vento que n�o est� de fei��o, ou o destino que lhes imp�e uma rota diferente. O efeito da passadeira, a mim parece-me pura m� vontade ou partida do destino.

(RM)

*

Para um observador colocado fora da pista (referencial ar) que esteja a observar o fen�meno, imaginemos de lado, o movimento oposto entre o avi�o e a pista � mesma velocidade, com sentidos opostos, cria a situa��o relativa de ter o avi�o parado. Esta situa��o n�o � apenas uma sensa��o ou ilus�o de o avi�o parecer parado, na verdade ele est� mesmo parado para o referencial ar. Como tal, n�o se gera o fluxo de ar necess�rio para impulsionar o avi�o e obter assim a descolagem.

Se a velocidade da pista fosse superior no sentido contr�rio, como refere um leitor, nesse caso o avi�o come�aria a andar em sentido contr�rio relativamente ao referencial ar, onde est� colocado o nosso observador. Poderia at� descolar, mas ao contr�rio, caso a aerodin�mica do avi�o o permitisse, o que obviamente n�o � o caso.

(Pedro Lima)

*

A aparente complexidade do problema do avi�o reside unicamente num subtil paradoxo do enunciado, que postula que, mesmo com for�a a impeli-lo para frente (motor ou turbinas), o avi�o permanecer� estacion�rio porque o tapete rolante se desloca a uma velocidade igual em sentido contr�rio.

Ora o erro est� em fazer a analogia com um autom�vel, em que a desloca��o deriva das pr�prias rodas.

Num avi�o � indiferente a velocidade do ch�o em sentido contr�rio.

O motor puxa para a frente e o avi�o nunca chega a estar estacion�rio pois por mais "r�pido" que o tapete ande num sentido oposto, a for�a das h�lices ou turbinas aplica-se ao "ar" e � isso que o impele.

Este � o erro do enunciado, postula uma situa��o que � imposs�vel de acontecer e que, como tal, induz uma discuss�o sem fim.

A resposta a um enunciado correcto �,obviamente, que o avi�o levanta voo.

J� agora, recomendo o problema de Monty-Hall, capaz de levar pacatos matem�ticos e cientistas ao confronto f�sico para resolver a quest�o. Este problema tem sido utilizado para testar como as pessoas reagem quando s�o confrontadas com uma verdade incontorn�vel, matem�tica, provada, mas que foge a tudo o que julgavam poss�vel.

Veja l� n�o se inicie outro conflito sangrento por causa de uma quest�o te�rica.

(Davide E. Figueiredo)
*

Novos quotidianos:
Domingo, Fevereiro 12, 2006 - O que eu j� fiz desde as 8:40 .

.Fiz o pequeno-almo�o de flocos de aveia e ovos estrelados
.Lavei lou�a, arrumei cozinha
.Arrumei quartos e fiz camas de lavado
.Fiz uma m�quina de roupa e estendi-a
.Fiz outra m�quina de roupa
.Ajudei Tiago com problemas de �ngulos
.Ajudei Lucas com Lingua Portuguesa
.Dei uma volta pela Blogoesfera
.Procurei uns voc�bulos dif�ceis na Internet para o trabalho
.Estou a dar banho ao Lucas
.Escrevi este post.
 


RETRATOS DO TRABALHO NA CHINA


Vendedor ambulante na China.

(Joana Lopes)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
TURISMO EM TERRAS DO ISL�O



Matali, o guia touareg

Chegou a conduzir o Landcruiser da frente � porta do hotel de Tam (� assim que os locais chamam a Tamanrasset). Era alto, esguio e elegante nos movimentos. Cumprimentou-nos com poucas palavras, e dez minutos depois deix�vamos a cidade. Disse n�o falar franc�s e ainda menos ingl�s, mas algumas horas depois t�nhamos percebido que tudo o que diz�amos era objecto da sua aten��o e que ele n�o s� percebia tudo como ouvia tudo. Ali�s, quer o seu sentido da vis�o, porque habituado a olhar sempre longe, quer o da audi��o, porque habituado ao sil�ncio, eram apurad�ssimos. Via o que nenhum de n�s via e ouvia o que nenhum de n�s ouvia. Nunca tivemos longas conversas pois era parco no uso das palavras, como em tudo da sua vida. Estudou e formou-se como enfermeiro, casou e teve cinco filhos, mas percebeu que nunca conseguiria viver numa casa, numa rua, numa cidade. O deserto era a sua casa e para ele voltou, deixando a enfermagem, como guia, como pr�ncipe. Uma felicidade contida habitava o seu rosto e o olhar tranquilo sobre as nossas d�vidas urbanas, que de repente surgem em pleno deserto, centrava-nos rapidamente no momento. Ficava sempre lisonjeado com o nosso espanto perante a imensid�o e beleza dif�ceis de apreender, com as vezes que lhe ped�amos para parar e tirar fotografias, com os cumprimentos que tec�amos ao cozinheiro e �s maravilhas que cozinhava sa�das dos pequenos contentores do segundo landcruiser. (A �gua para o ch� era sempre fervida num fogo de lenha, nunca no bico de g�s).



�Les Cat�drales�, Sahara, Sul da Arg�lia

Ao longo dos dias mostrou-nos paisagens que nunca sonhamos, rochas que nem imagin�vamos, apontou-nos a liberdade e nas poucas palavras que dizia disse s� gostar de dormir ao relento e que, mesmo quando estava em �casa� com a fam�lia, dormia c� fora, disse que se t�m o h�bito de tapar a boca � porque � dela que tanto mal sai, disse j� ter conhecido pessoas t�o diferentes vindas de pa�ses t�o diversos e com vontades t�o d�spares. Ao fim do dia e de manh� cedo v�amo-lo a rezar, um pouco afastado, sempre discreto e elegante nos movimentos. No pen�ltimo dia fizemos oitenta kil�metros em quatro horas para chegarmos l� cima: ao tecto do Sahara como ele lhe chamava.


Assekrem, 3000 m de altitude, Hoggar. Sul da Arg�lia

H� l� uma pequena comunidade de padres de Charles de Foucauld que eram conhecidos, amigos � mais correcto, de Matali que, na sua imensa sabedoria, se apressou a comunicar-nos que eles iriam celebrar missa dali a pouco tempo e que poder�amos assistir: os padres sorriram-nos timidamente, com certeza mais conscientes do nosso laicismo e das nossas poucas pr�ticas religiosas, do que Matali, mas tamb�m eles sabiam que os bons convites nunca se recusam, e numa pequen�ssima, simples e acolhedora capela ouvimos missa no tecto do Sahara.

No �ltimo dia pouco fal�vamos, e mal o carro pisou estrada deixando para tr�s as pistas do deserto, sentimo-nos envoltos numa nuvem cinzenta que nos apertava.

Um ano depois tinha na minha caixa de correio uma carta e um pacote vindos de Tamanrasset: Matali tinha feito um cadeado met�lico, tal como tinha visto nos mercados de Tam e quis enviar-mo.

(J.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
CONCORD�NCIAS, DISCORD�NCIAS E OUTRAS D�NCIAS
(3� s�rie)



NOTA: Nos �ltimos dois dias mais de trezentas mensagens foram recebidas sobre este tema, sendo aqui publicada apenas uma pequena parte, com base nos crit�rios habituais. A n�o ser em casos excepcionais, esta s�rie de correspond�ncia terminar� por agora, n�o por o assunto estar esgotado, nem pelo efeito do f�cil "cansa�o" medi�tico, que nos faz correr de uns temas para os outros de forma muito superficial. H� bem pouco de superficial no que estamos a discutir e ser� inevit�vel voltar ao assunto.

Os textos dos leitores est�o publicados em ordem inversa � sua recep��o e alguns textos enviados de fora de Portugal n�o t�m pontua��o.
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N�o tenho o dom da palavra como o senhor, se o tivesse escrevia na l�ngua de Cam�es (que desde pequeno tentei aprender), com engenho e arte, e tentava lhe mostrar que algo do que pensa n�o est� totalmente correcto. Todavia, c� fica o discordar quando diz que estamos em guerra e estamos a perder. Ningu�m est� a ganhar e ningu�m est� a perder, excepto os radicais de ambos os lados. Sou mu�ulmano e inicialmente n�o dei nenhuma import�ncia �s caricaturas de algu�m com turbante. Fechei os olhos, porque n�o queria, nem quero, ter essa imagem do Profeta Muhammad (aben�oado seja o seu nome) na minha mente. Mas com todo o banz� que se faz � volta disso, n�o sei com que inten��es, vejo-me for�ado a manifestar com a liberdade de - ser� de resposta ou de imprensa? - a minha discord�ncia quando pensa que a liberdade � total. Ver� com o tempo que isso n�o corresponde � realidade e que existem limites. N�o acredito que diga sempre o que pensa...acho eu. N�o lhe quero roubar mais tempo, escrevo estas linhas para me afirmar como um cidad�o pac�fico e integrado na sociedade portuguesa ,mas que nem por isso deixarei de respeitar todos os Profetas. A terminar, devo notar-lhe que acho repugnante ter visto a caricatura do Papa com o perservativo colocado no nariz. Simplesmente sem palavras para mim num Pa�s maiorit�riamente cat�lico!

(Aboobakar Choonara)

*

Antes de mais nada, sou um cidad�o portugu�s, n�o sou religioso, tenho muito orgulho naquilo que a nossa civiliza��o europeia deu ao mundo a n�vel de valores e progresso e j� vivi na Dinamarca. Por esses motivos, penso que pode haver algum interesse naquilo que eu diga acerca deste assunto que nos tem melindrado.

Em primeiro lugar, penso que a Escandin�via tem muitas li��es a dar ao mundo, a todos os n�veis, incluindo nas quest�es que dizem respeito � liberdade de imprensa.

Em segundo lugar, h� que reconhecer que a Dinamarca � um pa�s com muitas virtudes, mas com alguns defeitos, dos quais o racismo sobressai. � um pa�s cujo governo � indirectamente apoiado pela D. Pia Kjersgaard, que mais n�o � do que uma vers�o dinamarquesa do Sr. Le Pen. � tamb�m um pa�s onde as restri��es � imigra��o chegam ao ponto de negar o direito de resid�ncia por motivos de reagrupamento familiar, mesmo no caso de estrangeiros casados com cidad�os daquele pa�s. Sou amigo pessoal de uma cidad� dinamarquesa afectada por esta pol�tica.

Em terceiro lugar, o jornal que publicou os cartoons, o Jyllands-Posten, que � um dos tr�s mais lidos no pa�s, � identificado com os partidos que levaram a cabo este tipo de pol�tica. E uma das maiores comunidades estrangeiras na Dinamarca, sendo por esse motivo, uma das afectadas, � a mu�ulmana.

Em quarto lugar, apesar do contexto nacional em que este tipo de atitude ocorreu, o jornal representa-se a si pr�prio e n�o o pa�s, sendo por isso injusto que a Dinamarca seja por isso condenada por esta situa��o.

Relativamente ao seu artigo, repudio veementemente a assump��o da guerra de civiliza��es e as consequ�ncias que o senhor n�o clarifica quais devem ser, mas que no seguimento do conte�do desse seu texto, assumem um car�cter de confronta��o e amea�a.

N�o penso que o que ocorreu em diversos pa�ses mu�ulmanos justifique esse tipo de declara��o de guerra. Foi uma reac��o de indigna��o contra uma atitude que se deveria ter sabido que era bastante provocat�ria e insens�vel relativamente a outra cultura. Evidentemente que a resposta � ofensa � excessiva. Mas se os protestos de rua, os cartazes com linguagem violenta, o queimar de bandeiras e algum vandalismo a que o pr�prio Ocidente j� tem assistido por diversas vezes em manifesta��es contra a globaliza��o � um motivo para essa guerra, ent�o lamento dizer-lhe que nela estarei moralmente do lado do seu inimigo, uma vez que n�o � meu inimigo. N�o pense, no entanto, que isso significa renunciar � civiliza��o na qual nasci e cresci. Renuncio a um presum�vel escalar de viol�ncia que consideraria absolutamente inadmiss�vel, com justifica��es t�o pouco racionais como o assassinato que em 1914 levou � morte mais de 10 milh�es de europeus.

(Nuno Pestana)

*

Atravez do blog "an unsealed room" da Allison Kaplan Sommer no seu blog de 9 de fevereiro "nice Jewish girl" pude visionar o delicioso filme de 18 minutos, "The tribe" sobre o que e ser judeu nos Estados Unidos. Com um sentido de ironia e de sentido de humor este pequeno filme aborda alguns assuntos pertinentes nas discussoes de hoje. Visualmente e simplemente excelente.

A coragem de publicar a caricatura que mais reaccoes provocou e admiravel visto que o J. P. Pereira e uma figura publica e embora seja Portugal um local que favocere o anonimato, nao deixa de envolver risco pessoal.
Pensando bem seria um risco que eu estaria disposta a tomar? Deve ser uma questao que todos nos deveriamos colocar.

Gostaria de salientar o que para mim parece ser por demais obvio. A condicao da mulher mo mundo islamico e o facto de a Uniao Europeia nao tomar posicoes sobre essa realidade. Se fosse um outro qualquer grupo racico ou etnico as reaccoes seriam mauito mais assertivas. Admite-se que se utilize o relativismo cultural para denegrir e oprimir as mulheres. Nao necessito de pormenorizar sobre as diversas leis tiranicas aplicadas nao so nos pais de lei islamica mas nas sub culturas europeias. Assusta-me que a minha filha possa ser sujeita a leis tao contrarias a tudo porque eu tenho lutado, nomeadamente, a dignidade de todo o ser humano. sera que aqueles belos documentos adoptados pela ONU nada significam? A condicao da mulher no mundo islamico nao provoca semelhantes demonstracoes de repugnia. Lembro-me da impotencia que senti aquando do reinado dos Taliban no Afganistao. Lembro-me de ter tido na altura pensamentos menos generosos para com os fulanos barbudos que decidiram que mulheres nao podiam ter sequer tratamento medico, e lembro-me da atitude europeia. Temo que a nossa tolerancia seja tomada por medo. Temo porque me revejo nessa pessoa amedrontada que pode ser o editor de um qualquer jornal ou o cartoonista que com o sentido de absurdo dejesa somente questionar um valor ou uma crenca.

Compreendo porque os jornais americanos recusam publicar os desenhos. Seria possivelmente uma "provocacao" cujo preco poderia ser semasiado caro.
Outra coisa que nao percebo. Foi um jornal dinamarques que publicou os cartoons por isso o que tem os judeus ou o holocausto a ver com o assunto?
Enfim sao tantas as questoes, mas termino so acrescentando que recebi um mail de uma amiga minha em Portugal a manifestar a sua revolta com fundamentalismos e com o facto de estar farta de defender o indefensavel.
Sera que a tolerancia tem limites?
Peco desculpa pela falta de acentos.

(Manuela Silva)

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H� poucos dias, Jos� Pacheco Pereira escreveu: �Aproveitem, n�o vai durar muito. Cada vez se percebe mais que, tamb�m n�s, estamos de novo em guerra.�
N�o gostei da certeza com que ele falou do que para mim era s� uma intui��o vaga. Sou demasiado novo para ter vivido a guerra fria, e s� comecei a aperceber-me da pol�tica depois da queda do muro de Berlim, e do colapso da Uni�o Sovi�tica. Nunca como nos �ltimos dias tive um sentimento t�o forte de perigo iminente, de inevitabilidade de guerra. � curioso, porque j� se passaram os ataques de 11 de Setembro e 11 de Mar�o, e as guerras do Afeganist�o e Iraque. A vit�ria do Hamas e o problema nuclear do Ir�o deveriam ser mais significativos do que uma pol�mica acerca de �cartoons�.
Talvez este epis�dio tenha desenhado nitidamente as linhas de demarca��o entre dois modos de pensar, fazendo sobressair os pontos em que ningu�m est� disposto a ceder; se os ocidentais s�o muitas vezes arrogantes, a intoler�ncia de uma faixa do Isl�o torna-se cada vez mais evidente. Pior:
esta intransig�ncia pode estender-se a grupos populacionais muito mais vastos do que se imaginava (ou do que eu imaginava), em ambos os lados.

Queria acrescentar duas notas:

Discordo em absoluto de qualquer pedido de desculpas dos governos europeus, pelas raz�es aduzidas inicialmente pelo primeiro-ministro dinamarqu�s, mas n�o considero sup�rfluo distanciar-me do cartoon com a bomba no turbante.
Interpretei-o como uma generaliza��o com a qual n�o concordo (do mesmo modo que n�o fez sentido para mim, para dar um exemplo, a caracteriza��o de "gera��o rasca" para designar a minha gera��o, h� anos atr�s). Admito que haja outras interpreta��es do "cartoon", mas este ponto � importante para dizer que n�o apoio a republica��o dos desenhos apenas para afirmar a liberdade de express�o. Por outro lado, � �bvio que os "cartoons" se tornaram not�cia, e � leg�timo e natural que sejam publicados para ilustrar reportagens sobre o assunto.

Concordo com muito do que se diz no abaixo-assinado a que se refere no Abrupto, mas penso que podia ser mais conciso e evitar a tenta��o da hip�rbole. Pedir desculpas pelo sucedido � apenas isso; n�o � pedir desculpas pela Magna Carta, por Erasmo, etc. Mais uma vez, este ponto parece-me relevante porque mesmo discordando de pedidos de desculpa, teria sido para mim perfeitamente normal e correcto que os governos europeus se distanciassem dos "cartoons", sem preju�zo do direito inalien�vel � sua publica��o.

(Paulo Almeida)

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Eu acho que chegamos a um momento de viragem, chegamos ao ponto em que a grande e vasta maioria dos europeus veem hoje George W Bush e a America, como um maior perigo que o radicalismo e terrorismo islamico. Existe hoje um odio tao profundo por Bush, que tudo o resto e' ofuscado: atentados em Madrid e Londres - culpa dos EUA, atentados do 9/11 - Os EUA estavam a pedi-las, atentados terroristas no Iraque - culpa dos EUA, cartoons Maome - culpa dos EUA.
Eu culpo os media por esta situacao, nao ha' que medir palavras, o conteudo de um noticiario da SIC, RTP e' quase um folhetim do PCP ou BE, nao existem contrapontos, existe apenas negativismo, o chamado "bota-abaixo" Bush e' hoje generalizado. Nao existem noticias sobre as coisas boas que estao a acontecer no Iraque e Afeganistao, nao existe defesa, apenas ataques baratos, com argumentos simplistas e gastos.
Talvez nos estejamos a esquecer de uma coisa: o nosso inimigo nesta guerra chama-se Bin Laden e Al Qaeda! Sao estes que voam avioes contra edificios, sao estes que poem bombas em comboios durante a hora de ponta. A Europa tornou-se passiva e tolerante a este inimigo, cega de odio pelos EUA, tornou-se tolerante 'a intolerancia.

Carlos Carvalho (Ottawa - Canada')

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Apreciei a sua cr�nica �Mais vale Verdes que mortos�. Neste caso n�o pode haver meio-termo: Ou estamos do lado da liberdade de express�o, ou aceitamos que um bando de fan�ticos religiosos (n�o importa de que religi�o�) passe a censurar todos os nossos actos. Infelizmente o Governo portugu�s, atrav�s do Ministro dos Neg�cios Estrangeiros, j� optou: o nosso pequeno pa�s prefere colocar-se de c�coras. E o problema � que h� outros dirigentes europeus que tamb�m alinham em sujeitar-se a essa posi��o�

Como n�o quero viver numa Europa ref�m seja de quem for, nem aceito a vergonha da posi��o do nosso governo, enviei um fax de solidariedade para a embaixada da Dinamarca com a frase �Eu tamb�m sou Dinamarqu�s� e vou pendurar uma bandeira da Dinamarca na minha varanda. Se 300 milh�es de europeus tomarem estas simples atitudes, ningu�m nos far� viver de joelhos, por muito que os nossos governantes se ponham a jeito�

(Jos� Bas�lio)

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Absolutamente de acordo com a subst�ncia do texto de Ana Gomes no P�blico. Os "cartoons" s�o ofensivos. Quer dizer: talvez sejam. Nas nossas sociedades s�o os tribunais que o decidem, mas cada um de n�s (incluindo Ana Gomes, o MNE, ou eu) pode ter a sua opini�o. Se calhar at� j� come�ou o processo num tribunal dinamarqu�s e eu aqui sem saber.

N�o me recordo de ouvir Ana Gomes dizer o mesmo quando Ant�nio publicou o tal desenho do JP2 com o preservativo do nariz. Bem sei que h� uma diferen�a entre o profeta e o JP2. Al�m disso, nessa altura, Ana Gomes n�o tinhas o mediatismo actual, por isso talvez eu n�o a tenha escutado. Mas ser� que nessa altura o pensou? Ou que o pensa agora?

�s vezes parece-me, mas posso estar errado, que a esquerda, ou melhor a esquerda da Ana Gomes, acha que a liberdade de express�o inclui ofender as maiorias, mas n�o as minorias. Reconhe�o at� um certo m�rito nessa posi��o de protec��o dos mais fracos. � piedoso e crist�o. Uups, ela � ateia.

(Pedro Costa Ferreira)

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A quem aproveita, directamente, o que est� a acontecer por causa dos cartoons?
Uma europa desorientada e com medo perante fan�ticos religiosos b�rbaros, � o cen�rio que qualquer extrema direita mais deseja: � neste tipo de pano de fundo que os discursos xen�fobos musculados conseguem maior n�mero de adeptos. Quando se apresentam como os �nicos capazes de fazer frente � barb�rie. O resto do discurso que deles se espera vir� natural e rapidamente. > Se a ideia do jornal dinamarqu�s era provocar, conseguiram-no, certamente para l� do que imaginavam poss�vel. Assustador ver o mundo inteiro cair facilmente em t�o grosseira armadilha.

(Vasco Colombo)

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O Ocidente caiu que nem um patinho�

O destaque que foi dado relativamente � quest�o das caricaturas foi exactamente ao encontro dos objectivos dos fundamentalistas. Os Media(?) fizeram o trabalhinho todo, e todos n�s demos uma ajudinha.

Com a cultura que defendemos dev�amos ter sido mais inteligentes e perspicazes. Era nossa obriga��o termos visto para al�m do evidente.

N�o falo em ignorar (que isso sim � que os teria posto a pensar - mais adequado: meditar - ), mas dev�amos valorizar o que era realmente valoriz�vel: o m�nimo poss�vel.

(Sofia �vila da Silveira)

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Estou essencialmente de acordo consigo no que respeita � questao dos cartoons. No entanto, talvez seja tamb�m importante dividir a questao num ponto de vista de princ�pios, nisso estaremos de acordo, e noutro, diplom�tico. Afinal, qual � a linha divis�ria entre diplomacia e subversao dos nossos princ�pios fundamentais?
A prop�sito, no que respeita � sua limita�ao da liberdade de expressao. Diz que os limites existem quando amea�am a integridade pessoal ou outras inst�ncias da vida democr�tica. Suponho que a liberdade de expressao sobre ideias e abstra�oes como religiao e na�ao serao leg�timas. Mas, julgo eu, nos EUA � proibido queimar a bandeira do pa�s. � isso um atentado � liberdade de expressao?

(Pedro Oliveira)

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S� hoje, gra�as ao Courrier International, consegui ver as caricaturas dinamarquesas com tranquilidade e num tamanho leg�vel. Depois de tudo o que li da parte de pol�ticos, estadistas e comentadores em geral, sobre as ditas cujas, ficara a impress�o de serem de mau gosto, xen�fobas, racistas e, obviamente, ofensivas. Devo dizer, e se calhar � falta de arg�cia e sensibilidade minha, que n�o vi nada disso. Num caso vi um caricaturista a gozar com a pr�pria iniciativa do jornal, noutro vi um suposto Maom� numa imagem sem contexto, caminhando com um burro preso pela corda; gostei particularmente da recep��o que o profeta faz aos bombistas suicidas e achei uma boa imagem sobre o aproveitamento que o fundamentalismo isl�mico faz da leitura do Cor�o a bomba oculta no turbante de Maom�: nestes dois casos parece-me �bvio que o objectivo da cr�tica n�o afecta minimamente a religi�o isl�mica, muito menos as pessoas que seguem essa religi�o. A que me deixou mais d�vidas � a intitulada "identifica��o dum suspeito", por�m, numa leitura atenta retiro a ideia oposta � xenofobia/racismo, ou seja, debaixo do turbante somos todos iguais na apar�ncia, e vice-versa.

Desde ontem que tenho lido e ouvido sobre o tempo e o modo como esta pol�mica foi desenvolvida a ponto de se tornar numa crise internacional, com refer�ncia aos eventuais benefici�rios e aos supostos objectivos. Depois do que atr�s disse, fico maravilhado com o poder da propaganda e da manipula��o, pois eu mesmo andei algum tempo sugestionado com a ideia de que se tratavam de caricaturas, no m�nimo, ofensivas. E isto sou eu, portugu�s a viver em Portugal, sem ter tido acesso �s ditas caricaturas na totalidade e reproduzidas em tamanho leg�vel e legendadas numa lingua que eu conhe�a (embora a� a falha possa ser minha, ainda que procure ler diariamente jornais de refer�ncia como o P�blico e o JN, em papel ou na net).

Quanto �s quest�es da liberdade, etc, etc, subscrevo inteiramente as suas opini�es e a de outros no mesmo sentido, era s� o que faltava haver interditos a esse n�vel, e se houver quem se sinta ultrajado existem os tribunais, as campanhas de boicote, tantas outras formas de press�o.

Por�m, ontem ouvi o ministro Freitas do Amaral justificar a tomada de posi��o do seu minist�rio. Pelo que percebi, h� que dar o bra�o a torcer para n�o encostar os governos dos pa�ses de predomin�ncia mu�ulmana �s posi��es radicais, coisa que far�o por quest�o de sobreviv�ncia. E porque atr�s disso vem a quest�o do petr�leo, claro. Porque o Choque de Civiliza��es pode se dar se n�o houver di�logo, etc, etc. Pois...

Creio que a Comunidade Europeia tem muito a reflectir sobre o modo como se integram os imigrantes, n�o s� os isl�micos, na nossa sociedade. Assim como sobre o relacionamento com os pa�ses do mundo de influ�ncia isl�mica, sendo o caso da Turquia verdadeiramente actual e exemplar para o futuro. E toda a carrada de problemas complexos associados � Palestina vs Israel, ao Iraque, ao Ir�o, etc, etc. Sem d�vida.

Mas fiquei preocupado ao aperceber-me como valores como a liberdade de express�o, pensamento e cr�tica, assim como a pr�pria capacidade de rir, fazer rir ou deixar os outros rirem, n�o est�o t�o vivos no Ocidente como se supunha, pelo menos eu e mais alguns outros inocentes.

(Pedro Almeida)

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Porqu� ler os cl�ssicos?
Tamb�m, talvez, porque muitos de n�s descubram que eles nos ensinam que a liberdade � a nossa "inven��o hesitante".D.Hume soube-o desde sempre.
Pace Hume.

"A intoler�ncia de quase todas as religi�es que sustentam a unidade de Deus � t�o extraordin�ria como o princ�pio contr�rio dos polite�stas. O implac�vel esp�rito tacanho dos judeus � bem conhecido. O maometanismo defende princ�pios ainda mais sangrentos e ainda hoje sujeita � dana��o, ou p�e mesmo a ferro e fogo, todas as outras seitas. E se, entre os crist�os, os ingleses e os alem�es abra�aram os princ�pios da toler�ncia, esta singularidade resultou da firme resolu��o do magistrado civil em oposi��o aos esfor�os cont�nuos dos padres e dos fan�ticos"

David Hume - Hist�ria Natural da Religi�o


*

No tempo de Thatcher e Reagan, n�o eram as vozes e os acampamentos montados contra os m�sseis defensivos na Alemanha e os F-111 em Inglaterra t�o sonoros? E n�o pareciam eles predominantes? E n�o tiveram afinal a pouca import�ncia que tinham?
E por isso n�o consigo nem encarar seriamente nem considerar muito graves as posi��es de uma esquerda que s� � nova no seu geral reaccionarismo. N�o posso deixar de compreender que invoquem multiculturalismos, relativismos e nihilismos, que s�o os estribos que lhes sobram da clamorosa fal�ncia.
Neste caso dos cartoons, vem-me uma disposi��o optimista. N�o � apenas por muitos blogs terem compreendido instantaneamente o que estava em causa e terem feito a defesa da liberdade sem par�ntesis nem al�neas. � por ver que a compreens�o da gravidade do caso suscitou saud�veis milit�ncias � direita e � esquerda e, sobretudo, por ver que pela primeira vez claramente, est� a ser dito que se temos um problema de sobreviv�ncia f�sica com os �fan�ticos�, temos um problema de sobreviv�ncia civilizacional com os �moderados�. E ainda: se foi bem citado, fortalecemos hoje a ideia de que h� um homem de coragem na presid�ncia da Comiss�o Europeia.
Para al�m disso, e com toda a franqueza, que relev�ncia ou peso espec�fico ter�o pessoas como Freitas, ou Canas, ou muitos jornalistas que sempre foram parciais ou pusil�nimes ou vol�veis?

(Jos� Cruz)

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Se acreditasse na teoria da conspira��o, diria que toda esta confus�o teria sido resultado de uma p�rfida maquina��o do complexo industrial e militar dos EUA, com a colabora��o cobarde das restantes democracias ocidentais, destinada a colocar a opini�o p�blica ocidental a favor de uma posi��o forte contra o Ir�o (assim ultrapassando o manietar de m�os que resultou das dificuldades no terreno e do desastre de rela��es p�blicas do Iraque).

Infelizmente, n�o acredito. E seria mais simples faz�-lo, como � apan�gio das teorias da conspira��o.

Mas, mesmo que acreditasse, o facto de tal hipot�tica cabala ter sido t�o bem sucedida no seu objectivo intercalar (isto �, ter suscitado a reac��o intolerante e violenta de tantas comunidades mu�ulmanas) seria ainda assim um aviso para imensa preocupa��o...

Se quisermos manter a hip�tese de manipula��o, dos americanos (por absurdo) ou dos im�s, s�rios ou iranianos (com muito maior probabilidade), a conclus�o � que aquela encontrou terreno demasiado f�rtil para frutificar.
O am�go das cren�as - n�o apenas o contexto ou as circunst�ncias - foi de molde a deixar-se incendiar com esse rastilho, ao inv�s de o apagar com bom senso, modera��o e respeito.

(Artur Furtado)

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�est�o bem uns para os outros, os caricaturistas irrespons�veis e os fundamentalistas violentos, ambos s� podem ser alvo da nossa condena��o� (Vitalino Canas, deputado socialista portugu�s.)

Poderia colocar a data, local ou org�o de comunica��o onde isso tenha sido dito/escrito? Conv�m que isto fique registado para a posteridade com todos os dados. Obrigado.

Ainda estou arrepiado, n�o acredito que um respons�vel pol�tico de um partido democr�tico com responsabilidade governativa possa dizer uma coisa dessas. Enfim, acredito, mas quem me dera que n�o fosse verdade, � demasiado infame.

(Jorge Filipe)

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Uma frase que penso que resume toda a situa��o:

A diplomacia � que tem limites, n�o � a liberdade de express�o.


(Jorge Gomes)

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Acabei agora de ouvir o nosso Ministro dos NE e fiquei mesmo muito triste.
Disse a seguinte frase na SIC-N "...estamos a fazer o jogo de Osama Bin Laden..."
Pois �, mas afinal quem est� a fazer o jogo de quem???
O jogo dele ou deles, quem o faz s�o todos os governos europeus que pedem desculpa ao povo mu�ulmano por cartoons!
A nossa liberdade, conquistada com a dor de muitos est� posta em causa, n�o por desrespeito algum, de caracter jur�dico ou qualquer outra coisa, mas pelo medo. Medo! Este � o grande problema, com medo.

A liberdade dos povos ocidentais � t�o insignificante ao ponto de cedermos � chantagem de alguns radicais isl�micos.
Segundo o nosso ministro Freitas do Amaral o rem�dio � estar calado.

Outro problema que ele coloca e n�o achei de bom tom foi dizer "...mas ser� que n�s ocidentais n�o temos a intelig�ncia...", referindo-se que estamos a fazer o jogo deles, caso algu�m tenha a liberdade de expressar o seu pensamento de forma diferente e n�o convencional.

Segundo o nosso ministro, intelig�ncia e liberdade de opini�o � a mesma coisa.
Para ele quem � inteligente n�o pode discordar dele. � triste isso que se est� a passar.

E para terminar, agora que alguns pediram desculpa como vai ser quando voltar a acontecer?
Para mim foi um erro muito grave o precedente que se levantou com esse pedido de desculpas.


(Bruno Teixeira)

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Escrevo s� para lhe dizer que concordo inteiramente com o que escreve em "Mais vale verdes do que mortos" e que tenho pena que a comunidade internacional se esteja a comportar desta forma cobarde, pretensamente diplom�tica. De n�s, portugueses, n�o talvez n�o esperasse outra resposta tendo em conta a forma como nos temos comportado nestas quest�es num passado recente. Da comunidade internacional, sim esperava outra resposta, mais firme, mais digna.

A revolta dos mu�ulmanos, com uns meses de atraso, contra as caricaturas n�o me espanta num povo que come�a por ser intolerante com os seus pares, em especial com as suas mulheres. Do que se v� diariamente nos jornais parece que s�o intolerantes e irracionais por princ�pio. Poderiam ter evitado a viol�ncia e a destrui��o de bens e propriedades alheias mas tamb�m parece que o confronto saud�vel e as manifesta��es pac�ficas n�o fazem parte da sua pr�tica di�ria.

Agora a rea��o da comunidade internacional, deixando sozinhos os autores das caricaturas, entristece-me e considero-a como um verdadeiro atentado contra a liberdade, a democracia e a dignidade de todos aqueles que acreditam nestes valores.

(Rita Camilo)

*

Andamos n�s europeus t�o preocupados com o imperialismo americano e com o "social-capitalismo" chin�s que quando nos bate � porta a ame�a isl�mica logo nos colocamos de joelhos. Basta ver os apelos ao nosso bom senso e � nossa toler�ncia (!!??) lan�ados quer por pol�ticos quer por editorialistas. Tudo isto vem a prop�sito do caso do jornal dinamarqu�s que publicou uns "cartoons" do profeta Maom�. Facto que desencadeou por parte das chefias religiosas isl�micas e de alguns estados �rabes um ataque imediato quer ao governo dinamarqu�s ( e a outros onde entretanto tamb�m se publicaram os desenhos ) quer �s respectivas representa��es diplom�ticas, numa tentativa clara de condicionar a liberdade de express�o nos pa�ses democr�ticos do nosso continente. E aqui � que a "porca torce o rabo" ,pois esta atitude das chefias �rabes e isl�micas n�o visa mais do que criar um ambiente de intimida��o e condicionamento da nossa sociedade de forma a conduzir-nos � submiss�o. No fim de contas trata-se t�o s� e simplesmente da "forma de imperialismo mais intransigente" como diz V.S. Naipaul no seu livro "Beyond Belief" ( de 1998 ) : " A crueldade do fundamentalismo isl�mico � que permite apenas a um povo - os �rabes, o povo escolhido pelo profeta - ter um passado, e partilhar lugares, peregrina��es e outras refer�ncias na terra. Estes lugares sagrados dos �rabes t�m de ser partilhados por todos os povos convertidos. Os povos convertidos t�m de se despir do seu passado; aos povos convertidos nada � exigido a n�o ser a mais pura f� ( se � que tal coisa existe), o isl�o, a submiss�o." No actual caso ainda � pior , porque n�o sendo a Dinamarca um pa�s convertido ao isl�o esse fundamentalismo tenta , desde j�, que nos submetamos a um pensamento �nico criando um ambiente de medo. � que n�o estamos a falar de eventuais cr�ticas ou ofensas de dirigentes pol�ticos europeus ao Isl�o ou ao profeta Maom�! Estamos a falar de desenhos publicados por um jornal de um pequeno pa�s europeu com uma democracia parlamentar e onde � possivel viverem diferentes comunidades �tnicas e religiosas.Relembro a pol�tica de acolhimento dos paises n�rdicos aos refugiados de todo o mundo. Quando o Presidente Iraniano apelou � destrui��o de Israel n�o me lembro de ouvir nenhum chefe religioso isl�mico protestar. Muitos dir�o que estou a exagerar. Talvez ! Mas conv�m saber travar as lutas pol�ticas que temos pela frente e esta � uma delas. Com uma dificuldade adicional , a de que do lado isl�mico pretendem-nos fazer crer que se trata apenas de op��es religiosas e que n�s ocidentais travamos uma guerra santa contra os "infi�is". Conv�m n�o cair nessa armadilha, pois sabemos que n�o � disso que se trata. Terminaria citando novamente Naipaul, na sua palestra de 1992 ( qu�o longe est�vamos do 11 de Setembro ! ) dada no "Manhattan Institute " de Nova Iorque ( e traduzo livremente da edi��o inglesa da "Knopf" ) :
" A civiliza��o universal demorou muito tempo a ser feita. N�o foi sempre universal; n�o foi sempre t�o atractiva como hoje. A expans�o da Europa deu-lhe uma matriz racial, que ainda causa dor. Na Trinidad cresci nos �ltimos dias desse tipo de racismo. E isso talvez me tenha dado a possibilidade de apreciar as enormes mudan�as desde o fim da 2� Guerra Mundial, a extraordin�ria tentativa desta civiliza��o para acomodar o resto do mundo, e todas as correntes de pensamento desse mundo."
Esta � a melhor resposta a dar quer aos fundamentalistas quer �queles que pretendem que temos que pedir desculpas pelo facto de um jornal ter publicado uns desenhos.

(Ant�nio Monteiro Pais)

*

Totalmente de acordo que n�o devemos desculpas a ningu�m, era s� o que faltava! Mas�

Nesse outro mundo, toler�ncia n�o significa o mesmo que para n�s, religi�o n�o significa o mesmo que para n�s e viol�ncia, liberdade, vida, morte, vingan�a, terrorismo e tantas outras, s�o palavras com outro significado. Nesse outro mundo as crian�as aprenderam que se cortava as m�os aos ladr�es, e se apedrejava quem se portava mal, n�s aqui no mundo perfeito sab�amos que isso era horr�vel mas em nome da liberdade ach�mos que o melhor era deixar estar, � uma cultura diferente, diz�amos para justificar a nossa indiferen�a.

Se � inconceb�vel para n�s a reac��o dos radicais mu�ulmanos tamb�m � inconceb�vel para eles que algu�m tenha desenhado o Maom� naqueles preparos.

� a guerra pois �! Mas vamos esperar para ver se as tais dezenas de anos de democracia nos ensinaram a fazer uma guerra com outras armas, uma guerra com caricaturas por exemplo.

(Rosa)

*

Acho a indigna��o nacional com a reac��o troglodita dos mu�ulmanos absolutamente chocante.

O Ocidente invade-lhes os pa�ses, vende-lhes os recursos a amigos e afilhados, mata-lhes a popula��o civil (sem qualquer provoca��o) e chama �danos colaterais� �s dezenas de milhar de crian�as mortas, apoia entusiasticamente o regime de apartheid israelita e as cleptocracias violentas que os oprimem e exploram, e depois chama-lhes selvagens.

As pessoas miser�veis fazem coisas miser�veis. � s� isso.

E a nossa toler�ncia? N�o ter� limites tamb�m? Quantas pessoas � que pediram a cabe�a do Herman Jos� por causa de uma piada com a Ultima Ceia? Ou com o rei D. Afonso Henriques? Houve manifesta��es, abaixo-assinados e arrua�as. Lembra-se?

(Filipe Castro, Texas, EUA)

*

Ainda a prop�sito da pol�mica acerca dos limites da liberdade de express�o proclamados pelo nosso MNE, aconselho a leitura deste coment�rio em que o autor nos diz, com toda a raz�o em minha opini�o, que se n�o se pode criticar Maom� por isso ofender os sentimentos de milh�es de pessoas, ent�o tamb�m n�o se pode criticar Kim-Il-Sung, que na Coreia do Norte tem j� estatuto divino e cujos ensinamentos s�o seguidos por milh�es de coreanos. A ele, acrescentaria, por exemplo, David Koresh, esse m�rtir davidiano imolado pelo fogo no Texas, Charles Manson, que criou uma religi�o com 10 a 15 adeptos que o consideravam divino e cometiam atrocidades em seu nome ou o japon�s Azahara, que ordenou aos seus seguidores o atentado com g�s sarim no metro de T�quio.

Pela mesma ordem de raz�o (e atendendo a que h� liberdade de culto em Portugal e, supostamente, todas as religi�es devem ser tratadas por igual perante a lei), se algu�m fundar um partido pol�tico xen�fobo e sexista, pode ser satirizado, mas se esse mesmo algu�m invocar ser iluminado por Deus e fundar uma religi�o xen�foba e sexista, j� n�o pode ser satirizado, porque isso ofende o mais profundo sentimento religioso dos seus seguidores.

Ser� a Astrologia uma religi�o? Pode-se criticar? E a Cientologia?

(Alexandre Fonseca)

*

* Que a reac��o violenta e fan�tica dos que se sentiram ultrajados n�o nos roube a �ltima r�stia de lucidez: os dois argumentos com que �os de c� querem justificar a publica��o das caricaturas do Profeta, h� que diz�-lo alto e bom som, est�o viciados.

* �Que est� em causa a liberdade de express�o...� N�o est�. Como n�o estar� quando um editor decide �cortar� este ou aquele artigo. Porque a liberdade de express�o � um direito individual, n�o um dever editorial. Se fosse um dever editorial, o que tinham para dizer, ent�o, os media a essa multid�o que n�o tem modo nem jeito de ver alguma vez as suas opini�es publicadas? O que h� a debater, sim, � o ju�zo de oportunidade que trouxe a p�blico algo que, todos sabiam, iria ofender, directa, ostensiva e gratuitamente, as convic��es religiosas de outros.

* �Que os Estados ocidentais s�o laicos, por princ�pio...� E s�o. Mas a quest�o n�o � essa, porque o referido princ�pio existe, unicamente, na esfera p�blica, e visa assegurar que nenhum crente, enquanto tal, seja objecto de discrimina��o por parte dos �rg�os do Estado. Na esfera privada, maxime, no plano individual, dizer-se laico �, apenas, viver uma das muitas cren�as em que a Humanidade vai sendo f�rtil � e saber que nunca se ser� prejudicado por isso. E os que, para se desresponsabilizar, v�m esgrimir um princ�pio de que, afinal, s�o meros benefici�rios, mais n�o pretendem que reclamar-se de uma superioridade �tica/civilizacional, ao arrepio desse mesmo princ�pio equalizador que insistentemente invocam.

* Que o cristianismo, e os seus s�mbolos religiosos mais sagrados, sejam tamb�m caricaturados, talvez com maior acidez ainda, isso s� prova que a toler�ncia, entre n�s, europeus, � uma virtude mal distribu�da. O m�rito de tanta serenidade pertencer�, por inteiro, � cultura crist�, e � mem�ria sofrida de s�culos e s�culos de intoler�ncia, de persegui��es e de lutas sangrentas.

* Por �ltimo, os que invocam a liberdade de express�o fariam bem em reflectir na reac��o que teriam caso aparecesse nos media uma fic��o, uma simples fic��o, que ofendesse de forma directa, ostensiva e gratuita os que lhes s�o queridos, ou aqueles cuja mem�ria veneram. Porque, bem vistas as coisas, � liberdade de imprensa (e, n�o, de express�o) foi dado um uso que compete aos tribunais qualificar � luz, justamente, do princ�pio do Estado laico.

(A.PALHINHA MACHADO)

*

Sou Portuense mas vivo em Bras�lia h� 6 anos. Sou agn�stico e liberal. Ontem passava pela pacata embaixada da Dinamarca e me perguntava porque no Brasil, onde vive uma extensa comunidade de origem �rabe, n�o houve manifesta��es agressivas de rep�dio �s famigerada caricaturas. Apenas se registraram declara��es de lideres religiosos. Talvez seja porque essas comunidades s�o parte de um povo e de uma cultura que aceita a toler�ncia, sobretudo a religiosa, como parte essencial da rela��o entre os homens. Aqui, se algu�m quiser cobrir o rosto para assistir a uma aula nenhuma lei ou a��o o impedir�. Os �rabes s�o parte do tecido econ�mico e social, encontram-se em todos os n�veis sociais e n�o servem apenas como m�o-de-obra barata. Nada disto explica ou justifica o que est� a acontecer em muitos pa�ses mu�ulmanos. S� o atraso social e cultural em que esses pa�ses se encontram pode explicar a barb�rie a que estamos assistindo, � semelhan�a de muitas outras trag�dias de um passado recente. No entanto, serve, pelo menos em parte, para entender porque tantos �rabes que vivem na Europa permanecem no mesmo "mundo" intolerante, apesar de viverem em sociedades t�o liberais.

Quanto � liberdade de express�o, os pa�ses �rabes parecem entender melhor as sociedades Europ�ias do que os pr�prios Europeus. Quando eles amea�am retaliar com caricaturas sobre o holocausto est�o a reconhecer que sabem que a Europa � hoje uma sociedade p�s-crist� (vale a pena ler o livro "The Right Nation" dos editores do "The Economist" nos EUA), um espa�o onde as ofensas a simbolos religiosos s�o triviais. Essa �, ali�s, uma caracter�stica que cada vez mais afasta a Europa de outras sociedades, nomeadamente a Americana. O que esses pa�ses sabem � que a publica��o de caricaturas sobre o holocausto em, por exemplo, jornais Alem�es, provocaria uma onda generalizada de indigna��o com consequ�ncias imprevisiveis. Vale a pena lembrar que na Europa do politicamente correto um candidato a comiss�rio europeu teve de pedir para "retirar-se de cena" porque fez coment�rios desagrad�veis sobre os homosexuais. Numa universidade Inglesa onde trabalhei h� alguns anos, um laborat�rio foi destru�do por activistas dos direitos dos animais, porque se suspeitava que estavam em andamento investiga��es com macacos. Imaginem um jornal Americano publicar caricaturas sobre as vitimas do 11 de Setembro ap�s o atentado. Mau gosto inaceit�vel. Apenas quero com isto dizer que EM TODAS as sociedades existem limites, ainda que n�o legais, � liberdade de express�o e de a��o. � evidente que para uma sociedade religiosa nada � mais ofensivo do que a falta de respeito por simbolos religiosos. Numa sociedade laica e liberal, as "sensibilidades" demonstram-se em outros temas. Um pedido de desculpa pelas caricaturas grosseiras nada mais � do que reconhecer o direito � diferen�a, que tanto reclamamos para n�s pr�prios. Julgo que confundir isto com a necess�ria condena��o da viol�ncia e intoler�ncia que est�o em curso � um equ�voco.

(Vitor Salvador Pic�o Gon�alves)

*

No jornal que esteve na origem de toda esta barafunda (e que conseguiu, com 12 bonecos, o que Saladino n�o conseguiu com muitos anos de guerra!), pode ler-se hoje:

�Nunca, em nenhum momento, tivemos consci�ncia da extrema sensibilidade dos mu�ulmanos (...) face a esta quest�o�.

Ora eu convivi de perto com muitos deles (turcos, iranianos, argelinos, tunisinos, marroquinos e at� congoleses) e sei que o problema est� precisamente a�: na falta de sensibilidade e na falta de consci�ncia da sensibilidade dos outros.

Como se compreende, uma das coisas que torna este assunto particularmente dif�cil de discutir � o facto de estar em causa algo que se aprende na inf�ncia e, quando se chega a adulto, ou se tem ou n�o se tem...

(C. Medina Ribeiro)

*

H� um aspecto que me parece merecer reflex�o adicional relativamente a um exemplo que deu, o da proibi��o em alguns pa�ses de textos que negam a exist�ncia do Holocausto.

N�o me parece que esse exemplo seja minimamente compar�vel com o das caricaturas. Trata-se de algo que se sabe perfeitamente que existiu e que teve o impacto que todos sabemos na vida particular de milh�es e milh�es de pessoas, provocando uma dor inimagin�vel por quem n�o viveu esse drama na pele. Entra portanto j� no campo onde a lei limita a libertade de express�o para proteger o cidad�o relativamente � sua esfera privada.

Acredito que ouvir negar o Holocausto seja uma viol�ncia literalmente insuport�vel para algu�m que esteve em Auschwitz. Independentemente de outras raz�es que pudessem existir para permitir essa express�o, neste caso concreto elas t�m menor peso do que o respeito que � devido �s v�timas desta trag�dia. Tratar-se-� porventura de ultrapassar ou n�o aquilo que uma pessoa, por mais racional que tente ser, � capaz de humanamente aguentar.

(Tiago Azevedo Fernandes)
 


EARLY MORNING BLOGS 718

Poema pouco original do medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambul�ncias
e o luxo blindado
de alguns autom�veis
Vai ter olhos onde ningu�m o veja
m�ozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos n�o s� nas paredes
mas tamb�m no ch�o
no tecto
no murm�rio dos esgotos
e talvez at� (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na �pera
sess�es cont�nuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
confer�ncias v�rias
congressos muitos
�ptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
her�is
(o medo vai ter her�is!)
costureiras reais e irreais
oper�rios
(assim assim)
escritur�rios
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
pa�ses
suspeitas como toda a gente
muit�ssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que � justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


(Alexandre O'Neill)

*

Bom dia!

11.2.06
 


QUANTAS CORES CABEM NESTE AZUL DO DIA DE HOJE?


(R.)
 


COISAS DA S�BADO:
UMA BOA COLEC��O IGNORADA



Esta colec��o de pequenos livros entre o ensa�stico e o did�ctico, da Imprensa Nacional � mais uma vez uma v�tima da pol�tica absurda de promo��o da editora do estado. Os seus livros n�o se encontram praticamente em s�tio nenhum no mercado livreiro, e fora das livrarias da pr�pria Imprensa Nacional e das Feiras do Livro s�o muito dif�ceis de encontrar. N�o se percebe, os livros, como ali�s outras edi��es da Imprensa Nacional (nem todas, porque h� algum desequil�brio editorial), s�o bem feitos e muitos deles, como os exemplos recentes sobre S�lvio Lima, Adolfo Casais Monteiro, Tomaz de Figueiredo, D. Ant�nio Ferreira Gomes, s�o raros ensaios introdut�rios sobre obras que est�o ignoradas e que caminham para o esquecimento. Muito da nossa cultura contempor�nea anterior ao 25 de Abril, em particular a que n�o era exclusivamente liter�ria, mas sim cr�tica e ensa�stica, est� por estudar. Trabalhos como os de Miguel Real e Carlos Leone t�m encontrado nesta colec��o um reposit�rio �essencial� que faz jus ao nome.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ROMA, IT�LIA


Vendedor de mel�ncias em Roma.

(Tony Ventoinha)
 


QUANTAS CORES CABEM NESTE AZUL DO DIA DE HOJE?


 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(11 de Fevereiro de 2006)


___________________________

No New Yorker sobre Maria Madalena.

*

H� duas raz�es muito claras que exigem a publica��o das caricaturas como elemento informativo indispens�vel para a forma��o de opini�o numa sociedade livre: uma, � perceber pela sua observa��o que elas est�o absolutamente dentro daquilo que � o mainstream do desenho sat�rico t�pico da imprensa dos pa�ses em que h� liberdade de express�o; outra, � perceber que s� com um esfor�o de manipula��o desproporcionado ( e intencional) elas podem ser consideradas ofensivas e blasfemas. Isto s� se percebe bem vendo-as e nenhuma descri��o as substitui. � ali�s vendo-as que melhor se percebe o que est� em causa. Talvez seja isso que muitos pretendem evitar.

*

Os perigosos caminhos da autocensura num importante artigo do LA Times criticando a atitude da imprensa americana (e do LA Times) ao n�o mostrar as caricaturas (salvo honrosas excep��es): "those of us who inhabit this real world will continue to believe that the American news media's current exercise in mass self-censorship has nothing to do with either sensitivity or restraint and everything to do with timidity and expediency."
 


QUANTAS CORES CABEM NESTE AZUL DO DIA DE HOJE?


 


COMO ESTAMOS A FICAR

Como estamos a ficar ou os efeitos da censura, da autocensura, do medo, de n�o querer parecer mal, de n�o querer sofrer as consequ�ncias, de estar bem com todos, de aceitarmos uma pol�cia dentro de n�s, para as palavras, para as ideias, para a fala, para o pensamento.


(Quino, bem lembrado pelo Jos� Carlos Santos)
 


EARLY MORNING BLOGS 717

Poema de los dones


Nadie rebaje a l�grima o reproche
esta declaraci�n de la maestr�a
de Dios, que con magn�fica iron�a
me di� a la vez los libros y la noche.
De esta ciudad de libros hizo due�os
a unos ojos sin luz, que s�lo pueden
leer en las bibliotecas de los sue�os
los insensatos p�rrafos que ceden
laa albas a su af�n. En vano el d�a
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandr�a.
De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esa alta y honda biblioteca ciega.
Enciclopedias, atlas, el oriente
y el occidente, siglos, dinast�as.
S�mbolos, cosmos y cosmogon�as
brindan los muros, pero in�tilmente.
Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el b�culo indeciso,
Yo, que me figuraba el para�so
bajo la especie de una biblioteca.
Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibi� en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.
Al errar por las lentas galer�as
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habr� dado
los mismos pasos en los mismos d�as.
�Cu�l de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
�Qu� importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?
Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una p�lida ceniza vaga
que se parece al sue�o y al olvido.


(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

10.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM S.MIGUEL - A�ORES, PORTUGAL


Mulheres empacotando ch� da Gorreana.

(Tony Ventoinha)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(10 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Como � um assunto que interessa aos blogues e para se ir mais longe do que a c�lebre sopa do Jos� Rodrigues dos Santos, veja-se Ed Park, "Word Salad" sobre Dana Carroll, On Sex and Intercourse in Contemporary Fiction,no Village Voice.

*

As cenas absurdas geradas no parlamento regional da Madeira, com a aprova��o de um pedido do PSD local de verifica��o da sanidade mental de um deputado do PS, deveriam ser criticadas sem tibiezas pelo PSD nacional. N�o � uma quest�o menor, � uma quest�o institucional que tem a ver com o abuso de poderes de uma maioria parlamentar. Como se pode exigir mais autonomia, quando se arrasta a institui��o parlamentar regional para o m�ximo rid�culo, tornando-a alvo da merecida chacota nacional?

*

Um bom sinal sobre o movimento de repulsa pela chantagem contra a liberdade de express�o � que ele � transversal, ultrapassa algumas dualidades simplistas que se pretendem impor como absolutas na mec�nica pol�tica, como a de "esquerda / direita". E isso d�-lhe for�a, como se v� na lista dos signat�rios do abaixo-assinado que, desde ontem, circula na Rede e que �, at� agora, o mais significativo movimento de protesto pelo que se est� a passar.

(Nota � margem: os estudiosos do futuro podem tamb�m encontrar ali uma amostra do cont�nuo que, dos blogues aos jornais e � academia, explica o novo papel dos blogues e da Rede, e a emerg�ncia de mecanismos de "influ�ncia" intelectual e pol�tica diferentes dos do passado, assentes apenas na imprensa tradicional.)

*

Hoje, se alguma r�stia de genu�no amor pela liberdade ainda existisse na bancada parlamentar de um partido que tem sempre a boca cheia dela, o PS, (e eu penso que existe) haveria (haver�) protestos sonoros contra a vergonhosa interven��o de Vitalino Canas, que, n�o se esque�a, falou em nome do Grupo Parlamentar de que � dirigente.

J� vi que nos blogues a enormidade n�o passou despercebida, mas ainda estou � espera do que dizem os deputados do PS, e dos editoriais dos jornais. Amanh� se far� o balan�o dessas vozes. Veremos.

*

H� qualquer coisa de estranho nesta not�cia do P�blico de hoje, ou ent�o faltam elementos noticiosos relevantes, para se compreender o que se passou na manifesta��o junto da Embaixada da Dinamarca:
"No final da manifesta��o, j� com poucas pessoas no local, apareceu um homem com uma bandeira com um s�mbolo de extrema-direita (uma cruz celta), que foi prontamente levado pela pol�cia."
Que lei � que este homem violou? Estava a provocar dist�rbios? A provocar os manifestantes? Punha em causa a "ordem p�blica"? Gostava de saber.

*

Multiculturalismo do melhor: daqui a cinco dias comemora-se o dia de John Frum no Vanuatu.
 


EARLY MORNING BLOGS 716

Anti-Profanity


I do not swear because I am
A sweet and sober guy;
I cannot vent a single damn
However hard I try.
And in viruperative way,
Though I recall it well,
I never, never, never say
A naughty word like hell.

To rouse my wrath you need not try,
I'm milder than a lamb;
However you may rile me I
Refuse to say: Goddam!
In circumstances fury-fraught
My tongue is always civil,
And though you goad me I will not
Consign you to the divvle.

An no, I never, never swear;
Profanity don't pay;
To cuss won't get you anywhere,
(And neither will to pray.)
And so all blasphemy I stem.
When milk of kindness curds:
But though I never utter them -
Gosh! how I know the words.


(Robert William Service)

*

Bom dia!

9.2.06
 


ISTO EST� BONITO



�As agress�es simb�licas e materiais a Estados e cidad�os europeus merecem certamente a nossa repulsa, nada legitima esse actos hediondos, est�o bem uns para os outros, os caricaturistas irrespons�veis e os fundamentalistas violentos, ambos s� podem ser alvo da nossa condena��o

(Vitalino Canas, deputado socialista portugu�s.)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL




Manuten��o/repara��o geral do elevador do Lavra; Lisboa em ano de Expo.

(Paulo Gouveia)
 


MAIS VALE VERDES DO QUE MORTOS



Eu pensei que as coisas estavam melhores do que o que est�o, mas, mais uma vez, se percebe como h� apenas uma fina pel�cula entre a civiliza��o e a barb�rie. Pel�cula que estamos a deixar romper com a maior das displic�ncias. Devia desconfiar que � assim porque os sinais est�o por todo o lado. Mas a gente acredita, quer acreditar, que algumas dezenas de anos de democracia consolidada (na maioria da Europa) e duas centenas de anos desde a revolu��o americana e francesa tinham consolidado a liberdade como princ�pio. Mas n�o �, n�o � suficiente, como se v�.

Estamos em guerra e estamos a perder. Estamos a perder, antes de tudo, porque ainda n�o percebemos que estamos em guerra. A ret�rica olimpiana, de um mundo "multicultural", de uma "comunidade internacional" eficaz, assente na lei e na Realpolitik moderada, ofusca-nos e impede-nos de ver o que est� � nossa frente. Muitos sublimam as fraquezas, transformando-as num arremedo de "diplomacia" que n�o � sen�o contemporiza��o e complac�ncia, outros t�m medo e est�o dispostos � servid�o, outros minimizam o que acontece para n�o quebrar o mundo ideal em que vivem.

Estamos a perder por dentro, o que � pior. A crise das caricaturas dinamarquesas � disso o melhor sinal. Mortos e feridos, atentados, viol�ncias, destrui��o de embaixadas, expuls�o de estrangeiros, muitos deles os dadores de solidariedade, intoler�ncia exaltada e absoluta, e n�s, os visados, arrastamo-nos pela culpa. A UE gaguejou, no limite do pedido de desculpas, e Portugal, pela voz do ministro dos Neg�cios Estrangeiros, foi ainda mais longe do que o pedido de desculpas, condenou os caricaturistas e calou-se face � viol�ncia absurda e orquestrada que passa por ser "a rua �rabe".

A comunica��o social que costuma ser hiper-sens�vel � quest�o da liberdade de express�o, muitas vezes de forma puramente gratuita e corporativa, para encobrir os seus abusos, est� numa de "respeito", de "contexto", de "bom senso", de "bom gosto". Encontram-se mil e um pretextos e mil e uma desculpas para se n�o ser claro: � o jornal dinamarqu�s que � d�plice e se recusou a caricaturar Cristo, � o jornal dinamarqu�s que � racista e anti�rabe e encomendou as caricaturas de forma provocat�ria, � Sousa Lara, Abecasis, e as cenas � volta do filme sobre a Virgem Maria, � o abaixo-assinado contra a caricatura de Ant�nio do Papa com o preservativo no nariz, � tudo e mais alguma coisa. Estamos a falar do mesmo? Quero l� saber se o jornal dinamarqu�s � respeit�vel, equilibrado, sensato, equidistante do isl�o e da cristandade, quero l� saber se o New York Times n�o passou as caricaturas, ou se a SIC e a RTP as mostraram veladas e � dist�ncia! O que eu quero saber � que se o valor da liberdade, e da sua forma especial, o da liberdade de express�o, n�o est� em causa nestes eventos, ent�o n�o sei o que � a liberdade.

Pergunta-se (sinistra pergunta nos dias de hoje, que mal se formula culpabiliza os dinamarqueses): � a liberdade de express�o absoluta? N�o, n�o �. Tem limites na lei na democracia, tem regras m�nimas, para proteger outras liberdades e outros direitos. Regras m�nimas, ali�s habitualmente violadas sem consequ�ncia, para proteger a dignidade dos indiv�duos, a sua intimidade, a sua personalidade, o seu direito de n�o ser caluniado. Mas s�o regras para os indiv�duos, n�o s�o nem para religi�es, nem comunidades, nem cren�as, nem para a "blasf�mia". Mesmo assim, o abuso destes limites � comum, justificado pelo "interesse p�blico", e � rar�ssimo ver a comunica��o social a discutir t�o voluntariamente os seus limites no "bom senso" e no "bom gosto", quanto mais no "respeito" e muito menos no "contexto". Ainda bem, vivemos com esta realidade, n�o � perfeita, mas � melhor do que o seu contr�rio. Por isso repito a mesma pergunta: � a liberdade de express�o absoluta neste caso? �. Ou � absoluta ou n�o �.

De novo, insisto, n�o quero saber se houve inten��o de ofender (e depois?), de fazer propaganda anti-isl�o (e depois?), de ser simplista na representa��o do "mart�rio" (e depois?), de rebaixar Maom� (e depois?) de associar o isl�o ao terrorismo (e depois? � proibido?). � acaso proibido representar Deus-pai como um velho l�brico como faz Vilhena e Crumb, e Cristo como um alegre imbecil como fizeram os Monty Python? � que se n�o � para defender este direito de se exprimir no limite das nossas cren�as, a liberdade n�o serve para nada. � que tamb�m conv�m n�o esquecer que a nossa liberdade foi conquistada exactamente aqui, contra a intoler�ncia religiosa. A ess�ncia da liberdade, tal como a entendemos, � a liberdade do outro, de escrever, desenhar, pintar, representar, filmar aquilo com que n�o concordamos, aquilo que consideramos ofensivo, de mau gosto, insensato, mesmo vil e nojento. Esta � a nossa concep��o de liberdade, a liberdade de diss�dio, do dissent, que, como tudo no mundo, n�o nasceu da natureza mas de uma hist�ria cultural, pol�tica e civilizacional que cada um escolhe e deseja como quer. E eu quero esta, porque n�o tenho nada a aprender sobre a liberdade com a S�ria e o Ir�o, com o Egipto e a Ar�bia Saudita, com o Hamas e o Hezbollah, com a "rua �rabe", nem com aqueles que se "indignam" contra os desmandos do "Ocidente, porque s�o contra os EUA, ou contra a guerra no Afeganist�o e no Iraque, contra Israel, e est�o �rf�os do mundo a preto e branco do comunismo, nas suas v�rias vers�es, mesmo as de Toni Negri e do Le Monde Diplomatique.

A maior das fal�cias � achar que � a religi�o que est� no centro destes eventos (e se fosse? O que � que mudava?), mas claramente uma recusa pol�tica da democracia e uma recusa cultural da toler�ncia, da liberdade, das diferen�as, e uma recusa social e cultural em viver em sociedades em que as mulheres n�o fa�am parte do patrim�nio dos homens. Estes n�o s�o problemas que devamos interiorizar como sendo nossa culpa, s�o problemas do mundo �rabe e persa, s�o problemas do isl�o. Enquanto as sociedades maioritariamente mu�ulmanas se recusarem a separar o Estado da religi�o, a tolerar as outras religi�es e em particular o agnosticismo e o ate�smo, a tratar de outro modo as mulheres, estes problemas s�o problemas de poder e de conflito, uma guerra nas formas novas que tem hoje.


Esta � a chantagem que nos � feita e a que estamos a ceder. E se no fim disto tudo eu pedir ao P�BLICO que ilustre o meu artigo com uma das caricaturas, uma das que penso ser absolutamente defens�vel como caricatura, a de Maom� com o turbante-bomba, o que � que acontece? � uma provoca��o gratuita? N�o �, � a ilustra��o ideal para o que digo, n�o s� pela imagem como sobre tudo o que ela suscita. Mas j� se levantam todos os problemas, de autocensura, de risco, de pensar duas vezes. Nunca se sabe se algu�m pega no P�BLICO e o associa aos outros jornais "blasfemos" e me dita uma fatwa. � pouco prov�vel, mas conv�m pensar duas vezes. E � nesse pensar duas vezes que est� a autocensura, e a censura, e a efectiva diminui��o das nossas liberdades.

Voltamos aos tempos de "mais vale vermelhos do que mortos", revistos agora para outra cor, para "mais vale verdes do que mortos". Ficam os mu�ulmanos ofendidos? N�o deviam, porque t�m sempre uma maneira de responder a esta situa��o: serem os primeiros a manifestar-se pela liberdade dos dinamarqueses, pelo seu direito de caricaturarem o profeta, como muitos crist�os marchariam, como cidad�os, pelo direito de se caricaturar a Igreja, o Papa e Deus, em nome da liberdade que prezam no "reino de C�sar".

(No P�blico de hoje.)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM S.MIGUEL - A�ORES, PORTUGAL


Recolha de ch� da Gorreana.

(Tony Ventoinha)
 


EARLY MORNING BLOGS 715


The Mole of Hadrian

Tout le parfait dont le ciel nous honore,
Tout l'imparfait qui na�t dessous les cieux,
Tout ce qui pa�t nos esprits et nos yeux,
Et tout cela qui nos plaisirs d�vore :

Tout le malheur qui notre �ge d�dore,
Tout le bonheur des si�cles les plus vieux,
Rome du temps de ses premiers a�eux
Le tenait clos, ainsi qu'une Pandore.

Mais le destin, d�brouillant ce chaos,
O� tout le bien et le mal fut enclos,
A fait depuis que les vertus divines

Volant au ciel ont laiss� les p�ch�s,
Qui jusqu'ici se sont tenus cach�s
Sous les monceaux de ces vieilles ruines.

(Joachim du Bellay)


*

Bom dia!
 


ABAIXO-ASSINADO: COMO UMA LIBERDADE



Como acontece sempre n�o se concorda com tudo, mas concorda-se no essencial, logo assina-se. Dou a minha assinatura a este abaixo-assinado que tem o tom certo.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
CONCORD�NCIAS, DISCORD�NCIAS E OUTRAS D�NCIAS
(2� s�rie)




NOTA: Os textos dos leitores est�o publicados em ordem inversa � sua recep��o.

Escrevo-lhe sobre esta quest�o porque julgo compartilhar consigo um valor fundamental: um grande amor �s liberdades individuais.

Ora, estando estas em causa, quero, desde j�, manifestar o meu total apoio � posi��o por si manifestada no �Abrupto� acerca da quest�o dos �cartoons� dinamarqueses. Uma disposi��o que foi refor�ada pela inacredit�vel nota enviada � Comunica��o Social pelo MNE, cujo teor (do estilo �o respeitinho � muito bonito�) seria, com toda a certeza, subscrito por qualquer membro de um governo de Salazar. Algo que vem, ali�s, na linha da igualmente lament�vel entrevista do primeiro-ministro ao �Expresso�. Confesso que, em ambos os casos, tive vergonha de ser portugu�s.

Entrando, agora, na quest�o em apre�o, esta merece-me as seguintes reflex�es:

1 � O caso dos �cartoons� �, antes de mais, uma quest�o de liberdade de express�o e de cr�tica. Para mim, estas constituem os fundamentos de qualquer democracia, pelo que toda a limita��o que lhes seja imposta por via administrativa constitui, em minha opini�o, um atentado � ess�ncia de qualquer regime democr�tico. Logo, considero extremamente perigoso o discurso que a tenta minimizar, contrapondo-lhe e acentuando a ideia dos �limites�, da �responsabilidade�, do �bom senso� e quejandos. � que sabemos sempre como come�am as restri��es mas n�o sabemos como acabam. Assim, se, agora, elegermos o religioso como interdito (deixando de poder fazer cr�ticas expl�citas �s diferentes religi�es), sob o pretexto que isso ofende sentimentos profundos, ent�o, em breve haver� novos �tabus�. Por exemplo, n�o se poder�o caricaturar os presidentes do FC Porto, Benfica e Sporting porque ofende os sentimentos de milhares de adeptos? Ou os dirigentes sindicais de qualquer classe profissional, porque isso � ofensivo para todos os seus membros? Ou, pior ainda, o Presidente da Republica ou o primeiro-ministro, porque s�o s�mbolos nacionais?

� certo que h� um limite para a nossa liberdade: a liberdade dos outros. Mas a cr�tica aos comportamentos, h�bitos, costumes ou convic��es de outrem (por muito violenta ou mordaz que seja) n�o constitui um atentado � sua liberdade. E, se algu�m se sentir difamado ou ofendido, pode sempre recorrer � via judicial para obter uma eventual repara��o. Da� que afirmar (como fez o MNE) que os �cartoons� constituem um atentado � liberdade religiosa �, no meu entender, totalmente absurdo.

A liberdade de express�o e de cr�tica (mesmo para os nossos inimigos) constitui a principal for�a moral das democracias. Aqueles que defendem a cria��o de interditos deveriam recordar a exemplar senten�a do Supremo Tribunal dos EUA, que absolveu o porn�grafo Larry Flint de uma acusa��o que lhe foi movida por um grupo de crist�os fundamentalistas.

2 � Apesar de defender o di�logo de civiliza��es e de entender que todas as culturas t�m aspectos positivos e negativos, entendo que o relativismo cultural n�o � absoluto (sob pena de nega��o do conceito). Para mim, tem como limite o respeito pela dignidade da pessoa humana em todas as dimens�es, ou seja, pelas tr�s gera��es dos Direitos Humanos. Estes s�o valores universais, que respeitam tanto a portugueses ou ingleses como a africanos, �rabes ou chineses. Ou seja, n�o posso admitir, em nome do respeito pelas culturas alheias, que se tolerem pr�ticas como a mutila��o genital feminina ou os chamados �crimes de honra�.

3 � Coerentemente com os princ�pios democr�ticos que defendo, reconhe�o aos mu�ulmanos o direito de se sentirem indignados com as caricaturas de Maom�. Por isso, � perfeitamente leg�timo que respondam � letra com �cartoons� anti-ocidentais e que se manifestem na rua contra o que consideram uma ofensa � sua f�. Mas n�o posso admitir que recorram � viol�ncia contra representa��es diplom�ticas e consulares e que ameacem de morte os �cartoonistas� dinamarqueses e os directores de �rg�os de informa��o ocidentais que reproduziram os �cartoons�. E, muito menos, que pretendam impor, �s nossas sociedades livres, abertas e laicas, as mesmas restri��es que existem na maioria das sociedades isl�micas.

4 � � precisamente por viverem em sociedades n�o livres (onde a Comunica��o Social � rigorosamente controlada pelo Estado e n�o existe uma verdadeira separa��o de poderes) que as popula��es mu�ulmanas s�o facilmente manipuladas por aqueles a quem interessa acirrar os �nimos. Na verdade, n�o entendem que a publica��o das caricaturas num jornal dinamarqu�s n�o responsabiliza, em nada, o governo da Dinamarca. E que, se pretenderem alguma repara��o, ter�o de interpor uma ac��o num tribunal dinamarqu�s, obviamente independente do executivo do pa�s.

5 � Por outro lado, embora eu entenda que a religi�o e cultura mu�ulmanas devem ser respeitadas, h� que ter em conta que s� merece respeito quem respeita os outros. Ora, se h� quem n�o respeite outros povos e culturas s�o os radicais isl�micos. Nos jornais �rabes, s�o frequentes as ofensas aos judeus, tendo um deles chegado ao ponto de caricaturar Anne Frank na cama com Hitler (!...); os �taliban� destru�ram os dois Budas de Bamian (Afeganist�o), patrim�nio da Humanidade; s�o frequentes, em pa�ses mu�ulmanos (ou onde existem fortes comunidades isl�micas), os ataques a igrejas, sinagogas, templos hindus e budistas. Isto sem falar dos atentados da Al-Qaeda (Nova York, Madrid, Londres, Istambul, Bali) ou dos ataques dos radicais tchechenos a escolas (!...), hospitais (!...) e teatros na R�ssia. E que dizer da �fatwa� contra Salman Rushdie, da persegui��o � escritora feminista bengali Talisna Nasreen ou do assassinato do realizador holand�s Theo Van Gogh? Perante esses lament�veis acontecimentos, n�o se viram nas ruas, em sinal de protesto, as turbas ululantes que se v�em hoje!

6 � Na actual crise, h� a salientar as hipocrisias, oportunismos, cinismos e cobardias de diferentes actores nas sociedades ocidentais. Assim, a hipocrisia � not�ria da parte de alguns sectores da direita cat�lica, que tanto se indignaram com a caricatura de Ant�nio (o preservativo no nariz do Papa Jo�o Paulo II), e que se arvoram, agora, em grandes defensores da liberdade de express�o; o mesmo se pode dizer de alguma esquerda �politicamente correcta�, que, ent�o, tanto criticou a intoler�ncia da Igreja Cat�lica e que, hoje, mostra compreens�o pelas ac��es dos islamistas radicais, acusando os �catoonistas� de racismo e xenofobia. Oportunista � a reac��o do Vaticano e de outras igrejas que procuram aproveitar a �boleia� para impor restri��es � cr�tica religiosa. C�nica e hip�crita foi a primeira posi��o da Administra��o Bush, que mal disfar�ou a sua satisfa��o por ver a UE �queimada� no mundo �rabe e isl�mico. Cobardia foi o que mostraram os governos europeus, alguns dos quais se apressaram a pedir desculpas por algo de que n�o tinham qualquer culpa!...Nesse particular, S�crates e Freitas do Amaral pareceram �um Chamberlain e um Eden da quarta divis�o�.

7 � Claro que toda esta crise est� ref�m de um determinado contexto pol�tico, onde avultam a vit�ria do Hamas nas elei��es palestinianas, a situa��o no L�bano e o dossi� nuclear iraniano. Da� o facto de os �cartoons� terem sido publicados em Setembro e s� agora rebentar a crise. A primeira colocou sob press�o os regimes �rabes ditatoriais e corruptos (sejam monarquias mais ou menos teocr�ticas, sejam ditaduras laicas e seculares). Este caso deu-lhes, em primeiro lugar, o pretexto para se aproximarem das massas populares e tentar retirar espa�o aos seus opositores islamistas. Em segundo lugar, constitui uma advert�ncia ao Ocidente, que, para evitar a subida dos islamistas ao poder em futuras elei��es democr�ticas (algo que apareceria cada vez como mais indesej�vel), estaria condenado a manter os actuais regimes. Algu�m acredita que, na S�ria, um dos Estados mais autocr�ticos da regi�o, a pol�cia n�o consiga controlar uma manifesta��o? Aqui, existiu, claramente, uma tentativa do regime s�rio de aproveitar a situa��o para recuperar a influ�ncia perdida no L�bano. No caso do Ir�o, ser� uma forma de a ala radical do poder teocr�tico (liderada pelo presidente Ahmadinedjad) mobilizar a popula��o, ao associar as press�es ocidentais contra o nuclear a uma campanha anti-isl�mica do Ocidente.

8 � Independentemente dos contextos, h� algo que reputo de essencial: a liberdade de express�o � um valor essencial da democracia. Como tal, n�o � negoci�vel, muito menos sob press�o dos seus piores inimigos. � chegada a altura de dizer �Basta!�. Temos de abandonar o �politicamente correcto� e deixarmos de fingir que n�o existe um problema entre n�s e o mundo isl�mico. Ele existe e vamos ter de encar�-lo de frente. Com esp�rito de di�logo e sempre com intuitos pacifistas, mas sem medos e sem ced�ncias em pontos essenciais. Face �s tibiezas dos governantes, parece ser altura de as suas sociedades civis dos pa�ses europeus mostrarem, por todos os meios democr�ticos e pac�ficos ao seu alcance, que as amea�as n�o nos intimidam e que estamos dispostos a defender as nossas liberdades.

(Jorge Martins)

*

O seu argumento foi o de que eram os pa�ses mais contr�rios � guerra no Iraque que mais �mas� punham a prop�sito das caricaturas de Maom�. N�o me parece que seja verdade. Foi Straw e a administra��o americana quem mais disseram que eram contra a publica��o das caricaturas. De onde poderei retirar que eles foram contra a guerra do Iraque? Permita-me esta correc��o, porque n�o me parece completamente tonto lembr�-lo.

A verdade � que Straw tamb�m disse que a Turquia � um grande pa�s europeu. Donde posso concluir que neste jogo de espelhos � natural que num mundo governado por palhinhas e arbustos sejam naturais estes tipos de confus�es.

Como vejo que no seu blog tem uma visita a esse maravilhoso pa�s asi�tico que ministros analfabetos se lembraram de qualificar de europeu percebo que um ou outro sofisma escapa insindicado na comunica��o social.

Perdoe-me mais uma vez este inc�modo, mas parece-me o que falta no espa�o p�blico n�o � saber de c�lculo tensorial nem do Theravada, mas uma elementar instru��o prim�ria. Um jornalista mais avisado de l�gica ter-lhe-ia chamado a aten��o para o paralogismo.

(Alexandre de Castro Brand�o de Melo e Veiga)

*

A avalia��o, � luz dos acontecimentos recentes, de uma eventual compatibilidade entre isl�o e liberdade de express�o, que conduz, ali�s, � an�lise daquilo que o liga �s ra�zes do terrorismo, desenrola-se, normalmente, com grande desconhecimento das fontes can�nicas, das fontes fundamentais estruturantes do isl�o. Deve-se isto, frequentemente, quer a omiss�es deliberadas por parte dos cl�rigos mu�ulmanos perante os n�o crentes quer a pura e simples ignor�ncia dos n�o mu�ulmanos. Ora, para se abordar um assunto como este com um m�nimo de crit�rio, � necess�rio algum conhecimento dessas fontes: cor�o, sira (biografias de Maom�), hadith ou sunna (relatos pormenorizados, coligidos por mu�ulmanos pios, com base em, pelo menos, tr�s testemunhos da vida e ditos do respectivo profeta).

Para quem se der a esse trabalho, nomeadamente atrav�s da consulta de bases de dados isl�micas (por exemplo), � r�pida a conclus�o de que Maom� foi muito pr�digo em ordens de assassinato de todos aqueles que se lhe opuseram.

O primeiro assassinato por ordem de Maom�, de que encontramos descri��o nas fontes isl�micas, foi o de uma mulher, vi�va, de nome Asma, que comp�s versos satirizando o autoproclamado profeta. Uma situa��o em muito semelhante �quela com que actualmente nos deparamos. Maom� desafiou os seus seguidores a assassinarem a mulher que o afrontou no terreno da ironia. Quem respondeu ao desafio foi um disc�pulo cego chamado Umair. O devoto apunhalou-a enquanto esta dormia amamentando o seu beb�. Segundo os relatos, ao ouvir isto, Maom� exclamou: �Vede um homem que assistiu o Senhor e o seu profeta. Chamai-lhe n�o cego, mas antes Umair �o vidente�.

De muitos mais assassinatos �s ordens de Maom� se encontra descri��o nos hadith.

Alguns exemplos, em tradu��o directa a partir da colect�nea de Al Bukhari, tal como constam da referida base de dados isl�mica:

Volume 4, Livro 52, N�mero 259:

Narrado por Abu Huraira:

O Ap�stolo de Al� enviou-nos numa miss�o (i.e. miss�o armada) e disse: �se encontrardes fulano e sicrano, queimai-os a ambos com fogo�. Quando est�vamos prestes a partir, o Ap�stolo de Al� disse: �ordenei-vos que queim�sseis fulano e sicrano, e ningu�m sen�o Al� pune com o fogo, portanto, se os encontrardes, matai-os�.


Volume 4, Livro 52, N�mero 265:

Narrado por Al-Bara bin Azib:

O Ap�stolo de Al� enviou um grupo dos de Ansar a Abu Rafi. Abdullah bin Atik penetrou na sua casa durante a noite e matou-o enquanto ele dormia�

Volume 4, Livro 52, N�mero 270:

Narrado por Jabir bin 'Abdullah:

O Profeta disse: �Quem est� disposto a matar Ka'b bin Al-Ashraf, que ofendeu deveras Al� e o seu Profeta?� Muhammad bin Maslama disse: �� Ap�stolo de Al�! Queres que eu o mate?� Ele respondeu afirmativamente. Assim, Muhammad bin Maslama dirigiu-se a ele (i.e. Ka'b) e disse: �Esta pessoa (i.e. o Profeta) encarregou-nos de pedir por caridade�. Ka'b replicou: �Por Al�, cansar-vos-eis dele�. Muhammad disse-lhe: �Temo-lo seguido, portanto desagrada-nos abandon�-lo antes de assistirmos ao fim da sua miss�o�. Muhammad bin Maslama continuou a conversar com ele desta forma at� que encontrou oportunidade para o matar.

Volume 8, Livro 82, N�mero 795:

Narrado por Anas:

O Profeta cortou as m�os e os p�s dos homens da tribo dos �Uraina e n�o cauterizou (os seus membros a esvair-se em sangue) at� que por fim eles morreram.

Estes hadith de Al Bukhari s�o fontes incontorn�veis e incontest�veis do isl�o. Nenhum mu�ulmano pio pode ou deve ignor�-las. N�o nos esque�amos que, no isl�o, Maom� � considerado como o m�ximo exemplo de vida, o homem mais perfeito que jamais caminhou ou caminhar� sobre a terra.

Atente-se tamb�m no que diz o cor�o. Por exemplo:

Sura 9, vers�culo :5 :"Mas quando passarem os meses de interdi��o, ent�o combatei e matai pela espada todos aqueles que associam outros deuses a Al� onde quer que os encontreis; cercai-os, assaltai-os pela for�a, esperai-os com toda a esp�cie de emboscadas...�.

De igual modo, a sura 47, vers�culo 4: �Quando encontrardes os infi�is, cortai-lhes a cabe�a, at� fazerdes grande matan�a entre eles�.

A sura 9, vers�culo 29, afirma: �fazei a guerra contra aqueles que tomaram conhecimento das escrituras e n�o acreditaram em Al�, ou no dia do ju�zo, e que n�o pro�bem o que Al� e o seu ap�stolo proibiram... at� que paguem tributo�.

A sura 5, vers�culo 33, ordena: �a recompensa daqueles que combatem Al� e o seu Mensageiro, e espalham a desordem sobre a terra, � apenas a de que devem ser mortos, ou crucificados, ou terem as suas m�os e p�s amputados em lados opostos...


Na sura 48, vers�culos 16-17, l�-se que todos os que morrem �a combater na guerra do Senhor (Jihad)� s�o ricamente recompensados, mas aqueles que batem em retirada s�o dolorosamente castigados.

A matan�a, por decapita��o, dos cerca de 600-700 homens da tribo judia dos Banu Kuraiza de Medina, que se haviam rendido �s tropas de Maom�, oferece um dos primeiros testemunhos da pr�tica destas suras e preceitos cor�nicos. Repare-se que, segundo os relatos, a matan�a durou todo o dia, do raiar ao p�r do sol, e Maom� assistiu e orientou, imperturb�vel, as opera��es que se desenrolaram na pra�a principal da cidade. At� ficar com sangue pelos artelhos, segundo o ufano cronista. Deu, depois, ordens que as mulheres e crian�as dessa tribo fossem reduzidas ao concubinato e � escravatura.

Quanto ao tratamento a dar �s mulheres n�o mu�ulmanas cativas, atente-se neste hadith, tamb�m de Al Bukhari:

Cap�tulo 22, Livro 8, N�mero 3371:

Abu Sirma disse a Abu Sa'id al Khadri (que Al� se agrade dele): �� Abu Sa'id, ouviste o Mensageiro de Al� (a paz des�a sobre ele) referir-se ao al-'azl [coito interrompido]? Disse ele: �Sim� e acrescentou: �Fomos em expedi��o com o Mensageiro de Al� (a paz des�a sobre ele) contra os de Bi'l-Mustaliq e captur�mos algumas mulheres �rabes espl�ndidas, e desej�vamo-las, pois sofr�amos da aus�ncia das nossas mulheres (mas ao mesmo tempo) tamb�m desej�vamos obter resgate por elas. Por isso, decidimos ter rela��es sexuais com elas observando o 'azl (retirando o �rg�o sexual masculino antes da emiss�o de s�men para evitar a concep��o). Mas dissemos uns aos outros: �estamos a praticar um acto enquanto o Mensageiro de Al� se encontra entre n�s, porque n�o perguntar-lhe?� Interrog�mos, portanto, o Mensageiro de Al� (a paz des�a sobre ele), que disse: �n�o tem import�ncia alguma que o fa�ais dessa forma ou da outra, pois todas as almas que tiverem de nascer daqui at� ao Dia da Ressurrei��o h�o de nascer�.

Ou no Cap�tulo 22, Livro 8, N�mero 3373:

Abu Sa'id al-Khudri (que Al� se agrade dele) relatou: �Fizemos cativas algumas mulheres e quer�amos praticar o 'azl com elas. Pergunt�mos ent�o ao Mensageiro de Al� (a paz des�a sobre ele) o que fazer, e ele disse-nos: �Na verdade, fazei-o, na verdade, fazei-o, na verdade, fazei-o, mas a alma que tiver de nascer daqui at� ao Dia do Julgamento h� de nascer.

Como se v�, para Maom�, a viola��o de cativas pelos mu�ulmanos � livre e nada importa que seja feita com coitus interruptus ou de outra forma.

Tudo isto demonstra a fort�ssima liga��o, desde a origem, entre isl�o e terrorismo.

A quest�o, para os mu�ulmanos, n�o � a da op��o entre fundamentalistas e moderados, que � em larga medida uma fic��o ocidental, mas saber se o isl�o � capaz de pensar criticamente estas suas fontes e de as rejeitar. S� isto permitir� que o isl�o aceda a uma civiliza��o de respeito pelos direitos humanos, de respeito pela dignidade do homem, caso contr�rio ser� sempre uma poderosa for�a para degrada��o humana.

Eis aquilo a que os mu�ulmanos devem dar resposta: �Aceita ou n�o aceita estas passagens, partes indesmentivelmente integrantes do Isl�o mas merecedoras de severo exame e cr�tica? Rejeita-as no seu conte�do? N�o rejeita? Condena ou n�o condena os referidos actos de Maom�?�

S� a resposta a estas quest�es permitir� aferir do grau de modera��o de um mu�ulmano e do seu respeito pela restante humanidade.

Talvez que o primeiro assunto a tratar por um mu�ulmano, a prop�sito do isl�o, que traduzido literalmente significa �submiss�o� e n�o �paz�, como nos querem fazer crer, seja o de dar resposta � quest�o do quantum de submiss�o compat�vel com a humanidade do homem.

Sinto-me com todo o direito a criticar, violentamente se necess�rio, com ironia e sarcasmo se me apetecer, todos estes e quaisquer outros aspectos do isl�o e da vida do seu profeta, Mafamede. Um cartoon � apenas uma forma condensada de cr�tica. Assistem-lhe os mesmos direitos que ao discurso verbalizado. Como tal, n�o vejo como se possa cercear legalmente, seja de que forma for, o exerc�cio do direito a caricaturar, quando este exerc�cio n�o cont�m em si nenhuma viol�ncia que n�o seja o furor da indigna��o da consci�ncia. N�o tem validade alguma o argumento de que isso pode ferir susceptibilidades. Essa � a pr�pria ess�ncia da liberdade de express�o.

� extremamente infeliz, vergonhoso, que pessoas com responsabilidades representativas do Estado portugu�s, um Estado que se quer democr�tico, civilizado e respeitador dos direitos humanos, como � o caso do Ministro dos Neg�cios Estrangeiros de Portugal, n�o o consigam entender.

Por este andar, quais os livros a lan�ar ao fogo? Quais as p�ginas da literatura a apagar? As do humor virulento dos dada�stas? As da ironia surrealista? Cesariny? O�Neill?... Ou talvez Cam�es?... Gil Vicente?...

Pode-se compreender que quem viveu e conviveu, tranquila e refasteladamente, com o regime de Oliveira Baltazar tenha pouco apre�o pelas liberdades pr�prias de um Estado democr�tico respeitador da dignidade humana, que junte, at�, a sua voz ao coro ululante de protestos dos filo-fascistas contra a liberdade de express�o. N�o custa perceber que aos nost�lgicos de totalitarismos para-estalinistas, caso de alguns representantes de partidos comunistas e de mais alguns, cause engulho a livre express�o de ideias e de ideais.

Mas tais fen�menos s�o de molde a repugnar profundamente toda e qualquer pessoa que preze a liberdade, alicerce da dignidade do homem.

Porque � muito triste assistir � capitula��o da civiliza��o perante a barb�rie.

(Manuel Barros)

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A sua, como a de todas as que t�m aparecido na televis�o, concep��o de liberdade parece-me pouco profunda. n�o � por acaso que se tem utilizado �liberdade de express�o� em vez de �liberdade�. Aqui ocorre o mesmo que entre a �justi�a social� e a justi�a�: inconscientemente altera-se-lhes o termo por motivos que agora n�o importa aprofundar...

O que tenho para lhe dizer � o seguinte: a liberdade � essencialmente uma conquista do sujeito e adquire-se pelo saber. Se eu souber, por exemplo, o que � uma alimenta��o saud�vel, melhoro as possibilidades de evitar a servid�o da doen�a. A ignor�ncia �, portanto, o maior inimigo da liberdade e o saber o seu maior amigo.

P�r a �liberdade de express�o� como algo de fundamental e sagrado parece-me algo de pessoas que n�o s�o livres...

Se lhe interessar, pode aprofundar o assunto no pref�cio da tradu��o portuguesa do "Ensaio sobre a Liberdade" de Stuart Mill.

(Luis Barata)

*

"Os sentimentos religiosos devem ser respeitados e a liberdade de express�o n�o pode ser confundida com liberdade de provoca��o, contudo h� que respeitar os outros se queremos ser respeitados. Foram muito poucos os dirigentes ou religiosos mu�ulmanos que condenaram a destrui��o das est�tuas centen�rias de Buda, no Afeganist�o, em 2001 (pelos fan�ticos Talib�) e em termos de provoca��o religiosa a hist�ria das caricaturas � incomparavelmente menos grave do que a destrui��o de monumentos seculares. Tamb�m n�o me recordo de nenhum comunicado do MNE Portugu�s condenando essa destrui��o, mas deve ser falha minha."

(P.Bandeira)

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Tal como a generalidade dos os ocidentais, tamb�m a mim me parecem exageradas e absurdas as imagens dos protestos mu�ulmanos por causa daquilo que � para n�s um simples cartoon.

Mas pensando melhor, n�s nunca nos conseguimos posicionar completamente dentro do ponto de vista dum mu�ulmano para saber o quanto a sua sensibilidade pode ficar ferida por causa duma brincadeira deste g�nero.

Quando oi�o falar da tradi��o de liberdade de express�o no mundo Ocidental, penso que neste momento ningu�m se est� a lembrar do que pode provocar a muitas consci�ncias ocidentais, por exemplo, uma brincadeira deste tipo mas alusiva ao tema do nazismo. Sabemos que na Alemanha, e noutros pa�ses europeus, s�o proibidas certas manifesta��es neo-nazis. E tamb�m me lembro do esc�ndalo provocado por um s�mbolo nazi que o pr�ncipe Harry da Inglaterra exibiu inconscientemente, h� uns meses atr�s, numa festa de estudantes. Ora, o mesmo tipo de ofensa podem sentir os mu�ulmanos por esta provoca��o a um "simples" s�mbolo religioso e isso nunca ser� completamente compreendido por uma mente ocidental.

Mas acredito que o que est� em causa no exagero destas manifesta��es, s� se pode explicar por duas coisas: pela manipula��o que alguns grupos radicais est�o a levar a cabo, aproveitando-se da situa��o, mas tamb�m seria interessante fazer uma an�lise que as relacionasse com o mesmo tipo de fen�meno de revolta que aconteceu recentemente por toda a Fran�a, desta vez est� � escala mundial. Os motivos de fundo podem ser o choque, cada vez maior, entre interesses ocidentais e as comunidades isl�micas, mas que pouco t�m que ver com motivos religiosos.

(Sergio Pinto)

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Neste outro continente onde me encontro, o debate � de outra natureza. J� em Guerra, o presidente (encontro-me nos Estados Unidos) apela ao di�logo e ao respeito. N�o se publicam os cartoons na imprensa escrita porque se assume que h� acesso automatico a internet. No pa�s da primazia da liberdade de express�o, a imprensa escrita teme por demais as repres�lias. Assume-se que a liberdade de express�o � para opini�es extremas e para ocasi�es de �dio.
A moderacao e a auto censura imperam nos media, mais por medo de represalias economicas do que por outro qualquer motivo. Os americanos acham europeus um povo estranho, que geralmente �do not put their money where their mouths are�. Parece ser verdade se esquecermos as lic�es de historia. Mas eu sou dum tempo que leu sobre as batalhas de Dom Afonso Henriques, das campanhas das Cruzadas , do Imp�rio Ottomano, das conquistas de Alexandre o Grande. Na continuidade da hist�ria se encontra o ponto fulcral para o qual nos dirigimos. Nao esque�amos o passado para prever o futuro. Os dias l�mpidos, de optimismo e de crescente euforia passaram. A encruzilhada da Guerra estar� no horizonte?

PS mais uma vez, obrigada pelas diversas visoes que apresenta...conto cada vez mais com a riqueza que e uma visao, secular intelectual , europeia e tao diferente do que neste momento reina na net e media...medo ou arrogancia...

(Manuela Silva)

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O debate sobre os cartoons dinamarqueses est� um verdadeiro turbilh�o, cada vez mais impenetr�vel. No Abrupto e outros locais, falta alguma sistematiza��o das in�meras interven��es.
Posso estar enganado, mas parece-me que ningu�m analisou o contexto em que os desenhos foram publicados l� no jornal da Dinamarca. Segundo entendi do que disse Marcelo Rebelo de Sousa na RTP, a publica��o foi um acto deliberado e ostensivo de provoca��o aos mu�ulmanos locais, foi uma express�o de um movimento dinamarqu�s racista e xen�fobo a que o jornal dar� habitualmente cobertura.
Ora, a lei da Dinamarca d� aos mu�ulmanos locais o direito de accionarem um processo judicial contra o jornal que os ofendeu. Ent�o, porque � que eles n�o usaram esse direito?
Ser� que na Europa estamos a fazer, junto das comunidades n�o europeias que vivem connosco, a necess�ria pedagogia acerca dos direitos que lhes assistem?
E ser� que as organiza��es que representam essas comunidades est�o verdadeiramente motivadas para accionar esses direitos dos seus representados? Ou ser� que,na verdade, representam outros interesses mais obscuros? Ou que t�m objectivos menos confess�veis?

Por outras palavras: o aumento do racismo e da xenofobia organizados, o crescendo do �dio de parte a parte, em plena Europa da liberdade e da toler�ncia, no seio da civiliza��o mais evolu�da do Mundo - estas quest�es � que, digo eu, deviam ser o primeiro motivo da nossa preocupa��o e o centro do debate.
Mas parece que n�o � isso que se est� a debater � parece que se est� a fugir a essas quest�es. Discute-se o que se passa nos pa�ses isl�micos, n�o se discute o que se passa debaixo dos nossos narizes.

(Joaquim Jord�o)

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H� alguns anos, enquanto fazia um interrail com mais dois amigos, visitei o Museu de Arte Moderna em Hels�nquia. A minha capacidade de avaliar a arte contempor�nea � muito limitada, pelo que apenas posso seguir o meu instinto. Uma das obras que figurava era um quadro onde figurava Jesus Cristo a ser sodomizado pelo Rato Mickey. Isso mesmo. Eu n�o conseguia deixar de achar piada �quilo, embora deva confessar que me deixava tamb�m desconfort�vel e que era de um certo mau gosto. Mas a provoca��o tinha piada.
Os meus dois amigos que estavam comigo (e que tinham andado comigo durante v�rios anos num col�gio cat�lico) achavam o quadro uma vergonha, uma coisa sem nenhum sentido art�stico, uma simples provoca��o reles e gratuita que n�o nos elevava em nada.
Na altura ri-me. Mas ao comparar a sua reac��o com os dias de hoje n�o posso deixar de sentir uma certa nostalgia por um tempo em que a vida espiritual era entendida, quase unanimemente como algo de individual e pessoal, e as discuss�es que envolvessem a sua exterioriza��o se podiam resumir a uma quest�o de gosto art�stico. Era quanto muito a vida espiritual que estava em causa, nunca a pol�tica, como � hoje.

O epis�dio dos �cartoons� � a melhor demonstra��o do car�cter profundamente pol�tico desta guerra, tal como a guerra fria n�o se resumiu apenas a uma simples quest�o geopol�tica de interesses divergentes, como uma certa esquerda pretende apresentar agora a segunda metade do s�culo XX.
Nesse tempo tamb�m foi dif�cil saber onde estava a �verdade�. Mas para aqueles que hoje n�o se sentem seguros para assumir o que � a �verdade�, resta-nos a consola��o de que embora n�o possamos saber o que � verdade com toda a certeza, podemos saber o que � mentira.
Determinar e provar constantemente o que � uma e outra � o desafio pol�tico do in�cio deste s�culo, e um est�mulo para quem gosta de Pol�tica. Mas n�o deixa de ser �dif�cil viver em tempos interessantes�.

(Jo�o Lopes)

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Tamb�m c� dentro da nossa Europa existem bolsas de obscurantismo. A Gr�cia continua a ser um estado n�o laico, regime que o governo de direita ( ND) tende a perpetuar. Refiro-me �s acusa��es de blasf�mia que poderiam ter dado pena de pris�o a um cartoonista austr�aco por ter feito humor com a figura de Jesus Cristo.

O autor foi ilibado mas a acusa��o existiu num estado da UE.

(Jo�o Lencart e Silva)

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Come�o por dizer que estou profundamente chocado pela forma como alguns dos leitores do Abrupto aconselham a que a liberdade de express�o tenha limites impostos "por algu�m"...
Mais me espanto quando as "for�as de esquerda" defendem de uma maneira assustadora de que os cartoons da pol�mica n�o deviam ser publicados.
Como Pacheco Pereira disse, liberdade de express�o, ou se tem ou n�o se tem, n�o podem existir zonas cinzentas, nem qualquer express�o "sim, mas...".
Uma quest�o continua a martelar na minha cabe�a, durante meses ouvimos PS e PCP defenderem que era preciso lutar contra o "bicho-pap�o" da direita, e depois quando todos esper�vamos uma reac��o condizente ao caso das caricaturas de Maom�, o MNE de um governo socialista, vem dizer que os cartoons n�o deviam ser publicados, no que foi secundado por dirigentes do PCP...

(C�sar Silva)

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Concordo com este seu texto, mas n�o posso deixar de o corrigir, pois o JP vende 150.00 c�pias num pa�s de 5.000.000 de pessoas.

Tem havido muita desinforma��o em rela��o ao jornal. Trata-se de um jornal com um a orienta��o de centro-direita, mas nunca extremista ou xen�fobo como alguns comentadores t�m dito.

(Bruno Ricardo Pais)

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Sobre o coment�rio do leitor C. Medina Ribeiro:

O caso do Ministro Carlos Borrego e da triste piada sobre os diab�ticos mortos por ingest�o de alum�nio � um belo exemplo daquilo que se discute. O Ministro n�o podia ter agido pior, ao contar essa anedota. N�o por achar que a liberdade de express�o tenha determinados limites, mas sim porque, no humor, h� sempre que ter em conta o contexto em que se produz qualquer tipo de material pretensamente engra�ado. Da mesma forma que � de extremo mau gosto contar uma anedota sobre a morte num funeral, ou sobre nazis e judeus a familiares de v�timas do Holocausto, tamb�m o Ministro deveria ter estado calado. A isto chama-se bom senso. Isso nada tem a ver com liberdade de express�o. O Ministro foi demitido por motivos pol�ticos (era insustent�vel a sua manuten��o no cargo depois desse caso), e n�o por ter violado qualquer lei.

Ou seja: o humor tem que ser, necessariamente, enquadrado, por uma quest�o de sensibilidade e respeito para com aqueles que, verdadeiramente, se possam sentir magoados pelo seu teor. No entanto, n�o � nada disso aquilo que se passa neste caso das caricaturas de Maom�. A n�o ser que seja o pr�prio profeta a interp�r um processo contra os jornais que publicaram o cartoon e contra o cartoonista, mais ningu�m se pode sentir ofendido.

� por isso tamb�m que discordo da nota n� 1, do leitor Medina Ribeiro. O artigo do C�digo Penal que referiu nunca se poderia aplicar ao caso em quest�o. As caricaturas n�o ofendem qualquer pessoa nem dela escarnecem em fun��o da sua cren�a. Aquilo que acontece, infelizmente, � que temos um sem n�mero de pessoas, largamente manipuladas (quantos daqueles que atacam as embaixadas viram, verdadeiramente, o cartoon?), e que se identificam com as pr�ticas terroristas. Ora, esses, s�o exactamente aqueles que menos ofendidos podem estar com o cartoon. A insinua��o pode, quando muito, indignar aqueles mu�ulmanos que repudiem o terrorismo e que n�o aceitem as in�meras insinua��es de liga��o do islamismo ao terror, mas nunca aqueles que se mandam embombados contra as paredes de edif�cios p�blicos. Esses devem, isso sim, sentir-se justamente representados pelo cartoon, e na figura de um inexistente Maom� bombista.

Aquilo que envergonha o islamismo e os maometanos, como referia recentemente uma edi��o jordana, s�o as not�cias de palestinianos a explodir com autocarros, em Israel e na Palestina.

Todos temos o direito � indigna��o, por tudo aquilo que, na imprensa ou na rua, nos ofenda, e que consideremos despropositadamente agressivo. � essa a contrapartida v�lida da liberdade de imprensa, de express�o e de opini�o. Se algu�m tem o direito de defender ideias que nos ofendam, tamb�m n�s temos o direito de, nos mesmos moldes, as repudiar. O �nico limite � liberdade de express�o � a difama��o, e a� existem os tribunais para a julgar.

� triste vermos que o continente onde estas conquistas custaram tanto sofrimento - e o pa�s onde estas conquistas s�o t�o recentes - a vergar-se rapidamente ao medo do fundamentalismo, e a p�r descaradamente na gaveta tudo aquilo que torna a vida na Europa em algo minimamente viv�vel.

(Artur Vieira)

*

Toda esta quest�o relativa aos cartoons dinamarqueses deu-me uma enorme vontade de reler "O Nome da Rosa". Se bem se lembra, nessa obra not�vel de Umberto Eco disserta-se, entre outros temas, sobre os nefastos efeitos da com�dia e do riso, supostamente contr�rios aos desejos e ensinamentos de Deus. A personagem do "vener�vel Jorge" recorre mesmo a v�rios assassinatos para evitar a dissemina��o de textos e iluminuras de cariz sat�rico e c�mico que n�o seriam do agrado da sua ortodoxa doutrina crist�.

Estava-se, ent�o, na Idade M�dia e no tempo dos hereges quando muitos corpos humanos alimentavam fogueiras em nome da f� crist�. Felizmente, nestas terras europeias, tais tempos desapareceram e existe, hoje, uma cultura de toler�ncia e liberdade que em muito veio beneficiar a vida e a consci�ncia dos homens. Infelizmente, passados oito s�culos, ainda existem pessoas de outras terras e culturas que ainda pensam que a censura, a ignor�ncia e o medo s�o o melhor para as pessoas que para elas olham com venera��o e respeito.

(Uma pequena interroga��o: N�o ser� precisamente para manterem esse poder e estatuto, baseado apenas na f�, que certos l�deres religiosos guardam para si toda a informa��o, verdade e interpreta��o teol�gica e condenam quaisquer manifesta��es de d�vida ou de evolu��o doutrin�ria?)

Os l�deres cat�licos tamb�m foram respons�veis pelo atraso intelectual dos fi�is, mas isto passou-se h� mais de sete s�culos. Por alguns senhores fundamentalistas ainda quererem viver e manter os seus povos na Idade M�dia, teremos tamb�m n�s, ocidentais, que retroceder no tempo e abandonar princ�pios que se tornaram, para n�s, inviol�veis e que tanto custaram a conquistar?

Se esses fundamentalistas preferem viver sem liberdade de pensamento e express�o, sem margem para cr�ticas e sob o jugo de uma lei religiosa arcaica e draconiana que tudo v� e controla com os olhos da f� isl�mica, muito bem. Agora, n�o nos venham obrigar a partilhar essa mesma vis�o do Mundo. Meus caros amigos: J� passamos por l�! N�o gost�mos e felizmente evolu�mos! A Liberdade � um bem do qual n�o estamos dispostos a abdicar ou a fazer concess�es, por muito que vos incomode!

P. S.: Acabei de ler o comunicado do ministro dos Neg�cios Estrangeiros e como deve de adivinhar discordo frontalmente. Se alguma posi��o oficial deveria de ter sido tomada seria exacatamente a contr�ria. Qualquer coisa como: "Lamentamos muito que ficassem ofendidos mas, devido a uma coisa chamada liberdade de express�o, nenhum Estado � respons�vel ou controla as opini�es emitidas pelos seus cidad�o. Por esta raz�o, lamentamos, ainda, as col�ricas manifesta��es e os violentos ataques despropositados e gratuitos a embaixadas de pa�ses europeus cujo �nico crime � o de n�o possu�rem censura. Se desejarem, enviaremos os necess�rios diplomas legais para que possam protestar e contestar no local e modo adequados: um processo judicial no tribunal!"

(Tiago Rodrigues Alves)

*

As caricaturas publicadas de Maom� levantam, al�m das diversas quest�es j� vistas no seu blog, pelo menos uma outra que julgo merecer alguma reflex�o. Antes de a referir devo esclarecer que simpatizo com muito do que tem sido dito acerca da intoler�ncia dos mu�ulmanos e at� de alguns aspectos da religi�o isl�mica.

Mas quero falar da liberdade de imprensa. Contrariamente ao que muitos afirmam, n�o tem um valor absoluto. E a� est�o as leis que regulam essa liberdade em todos os pa�ses democr�ticos. Em geral, e isto decorre do exerc�cio mais geral da liberdade c�vica, n�o � poss�vel, e os prevaricadores suscept�veis de serem penalisados, insultar outrem. Os exemplos de indiv�duos que se sentem insultados pela imprensa portuguesa s�o in�meros, e com frequ�ncia os tribunais aplicam multas aos jornalistas e directores de jornais por esses factos.

Se um indiv�duo n�o pode ser insultado, � um facto, eu pelo menos n�o conhe�o, que se pode insultar um grupo de pessoas sem qualquer perigo de o jornalista ser penalisado. Foi exactamente isto que aconteceu agora. Com ou sem raz�o, � indiferente para o argumento, os mu�ulmanos sentiram-se ofendidos e reagiram em consequ�ncia. N�o sou ing�nuo quanto a essas formas de indigna��o. O que quer apenas afirmar, ou melhor questionar, � saber porque raz�o n�o se pode insultar um indiv�duo, mas se pode insultar um grupo de pessoas?

De resto veja-se que a imprensa em geral � muito cuidadosa com certos grupos, que procura n�o ofender, p.e. os homossexuais, o que ali�s me parece bem. Haver� algu�m que afirme existir alguma esp�cie de autocensura? Penso que n�o. Mas � um facto que este grupo em especial n�o � vilipendiado, como n�o s�o outros grupos ( professores, ju�zes, estudantes, funcion�rios p�blicos, militares, empres�rios, etc). E no entanto as not�cias dos �ltimos dias poderiam ser uma fonte inesgot�vel de caricaturas. Se n�o existem � porque provavelmente h� um certo consenso social em rela��o a estes grupos que restringe efectivamente o uso da tal liberdade de imprensa.

Neste contexto os mu�ulmanos parecem n�o beneficiar deste privil�gio. Eu penso que seria prefer�vel que o fossem.

(Calado Lopes)

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As respostas publicadas nos seu blog t�m sido interessantes a v�rios n�veis. Noto contudo que mesmo os coment�rios mais s�brios insistem demasiado nos aspectos do confronto do n�s contra o eles. Os desenhos est�o a ser atacados pelo mundo fora n�o por serem racistas mas sim por serem blasfemos. N�o h� n�s nem eles, apenas liberdade ou falta dela.

O impacto na cultura desta submiss�o dos governos � um dos pontos que me toca mais, quem se atreveria hoje em dia a representar "Le fanatisme, ou Mahomet le proph�te" de Voltaire?

Eu n�o quero ter que ler o Inferno de Dante, ou o Para�so perdido de Milton, ou ver os quadros de Bacon, �s escondidas, s� porque s�o blasfemos. Basta ver os problemas que a ci�ncia enfrenta no outro lado do oceano com o fundamentalismo religioso (o mais recente � a celeuma do Big-Bang na pr�pria NASA).

(Jorge Filipe)


(Continua)

8.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM ISTAMBUL, TURQUIA


Limpeza de cabines telef�nicas / Venda de bandeiras.

(Paula Alexandra Almeida)

7.2.06
 


DEZ ANOS DE COMMAND & CONQUER












Saiu hoje. � pena n�o ser um jogo novo, mas a compila��o de dez anos de Command & Conquer, o meu jogo favorito, ser� bem-vinda.
 


NOT�CIA TRISTE

O encerramento da Sampaio Ferreira & C� de Riba de Ave, uma f�brica que conheci bem dos meus tempos de antigamente.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
CONCORD�NCIAS, DISCORD�NCIAS E OUTRAS D�NCIAS
(Actualizado)



NOTA: alguma correspond�ncia enviada de fora de Portugal n�o tem acentos. Corrigi um ou outro caso, mas continua a haver missivas n�o acentuadas.

Ontem no pr�s e contras a meu ver foram ditas por verdades tamanhas mentiras.
Vamos aos argumentos.
Quando se afirma que a liberdade de express�o est� acima de qualquer (direito de) indigna��o pelo o que � publicado, estamos a inverter o sentido da liberdade.
Quando se afirma que a liberdade de express�o custou muito sangue, estamos afirmar que a partir desta conquista tudo � vi�vel...
O meu problema e, o nosso problema � limitar a liberdade. Ao dizermos que a minha liberdade termina onde come�a a liberdade do outro � dizer que nas nossas sociedades ocidentais a liberdade conquistou-se � custa da afirma��o do ego e do alter e, acima de tudo, pelo respeito do outro.
Porque se afirmamos que podemos usar a liberdade, mesmo que isso provoque sofrimento ao outro (falta de respeito pelas suas convic��es) em nome do valor da liberdade ent�o, no limite, a indigna��o dos �rabes para com as embaixadas ocidentais, pode ser uma express�o da sua liberdade.
Isto para dizer que todo valor terreno (liberdade) tem limites. Estes est�o quando o projecto que cada um faz ou uma sociedade em direc��o ao bem
(liberdade) provoca sofrimento no outro.
Assim, n�o compreendo como poderei ser livre se o queme possibilita ser livre atenta contra o alter.

(Jos� Carlos Lima)

*

Uma coisa � a defesa do multiculturalismo e a especificidade de cada cultura/religi�o. Outra � a aceita��o de fundamentalismos. E multiculturalismo, neste caso, n�o � apenas a aceita��o de valores culturais mu�ulmanos por parte dos ocidentais, como muitas vezes se coloca a quest�o para n�o ferir susceptibilidades e para dar o ar de que somos tolerantes. E h� que meter na cabe�a que a religi�o mu�ulmana - ou os estados religiosos mu�ulmanos - n�o se pode sobrep�r a uma garantia que j� existe h� algum tempo no mundo ocidental, independentemente do que � dito sobre essa mesma religi�o. No entanto, o direito a defenderem-se e mostrar o seu desagrado tamb�m existe e est� consagrado institucionalmente, e se o quiserem fazer, podem-no fazer. Mas n�o � isso que est� a acontecer.

E se h� coisa que por vezes muita gente n�o quer perceber � que existe liberdade de express�o, ponto. E aqui n�o pode haver ced�ncias, independentemente de que se ache de mau gosto os cartoons. Pessoalmente, acho que alguns desses cartoons s�o de uma falta de senso e perfeitamente rid�culos. E sou da opini�o que da primeira vez que foram editados no jornal dinamarqu�s, houve um prop�sito pol�tico bem claro.
Contudo, independentemente de gostar ou n�o, de estar de acordo ou n�o, o que n�o posso criticar � um aspecto fundamental, que � o direito de publicarem aquilo que quiserem. Lembro-me da famosa frase de Voltaire: "Senhor, sou contra tudo o que vossa senhoria disse, mas defenderei at� a morte o seu direito de dize-la"

Finalmente, pode-se discutir a forma de resolver este problema. Se por um lado temos a resolu��o atrav�s do apelo ao bom senso e a diplomacia como forma de apaziguar a f�ria fundamentalista, por outro - e se estivermos dispostos a pagar um poss�vel pre�o (ocorre-me de momento um aumento do petr�leo e um ou outro atentado terrorista) - a solu��o passa pela publica��o maci�a dos cartoons em todos os jornais ocidentais durante um certo tempo, como forma de protesto e mostrar que a liberdade de express�o existe. Ser� uma provoca��o, sem d�vida. Mas ambas as vias s�o poss�veis e aceit�veis.

(Tiago Andr� Pereira)

*


O tema j� � velho mas, numa sociedade globalizada como � a nossa actualmente, o problema desencadeado pelas caricaturas de Maom� (que incendiaram o mundo isl�mico - qualquer coisa como 1300 milh�es de pessoas!) faz-nos recordar que h� certos temas que devem ser objecto de cuidados acrescidos, especialmente quando se pretende us�-los para fazer humor.

Ali�s, foi precisamente essa a opini�o manifestada h� dias por Ra�l Solnado na TSF quando, juntamente com Ant�nio Feio e Ricardo Ara�jo Pereira respondeu � quest�o que Carlos Pinto Coelho colocou: �Pode fazer-se humor com tudo?�.
Enquanto os dois mais jovens defenderam que sim, Solnado foi prudente e socorreu-se de um exemplo que - mal ele sabia! - pouco depois viria a revelar-se perfeitamente apropriado: �Com a religi�o � preciso cuidado...� - pois � algo que mexe com o �sagrado�, terreno altamente melindroso em que o nosso direito de fazer humor pode facilmente esbarrar com o direito que os crentes t�m de n�o ser agredidos nos seus sentimentos mais profundos.
Tudo depender�, tamb�m, da assist�ncia, pois uma gra�ola que, contada � mesa do caf�, faz rir tr�s pessoas, pode, se publicada num �rg�o de informa��o de grande audi�ncia, revelar-se explosiva.

H� uns anos, e devido ao excesso de alum�nio na �gua, v�rios diab�ticos morreram num centro de hemodi�lise em �vora, facto esse que inspirou Carlos Borrego, � altura ministro do Ambiente, a contar em p�blico uma anedota segundo a qual se podia obter alum�nio reciclando os mortos.
Foi demitido, mas � bem poss�vel que tenha pensado (como agora oi�o dizer em rela��o ao caso que est� a dividir o mundo) que apenas estava a exercer o seu sagrado direito de liberdade de express�o de pensamento. Imagino que tenha sido tamb�m o que pensavam os adolescentes que h� dias, em Lagos, andavam a fazer graffitis em resid�ncias, lojas e monumentos... at� serem detidos pela PSP.

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Nota 1- O nosso C�digo Penal prev� pena de pris�o para quem cometa �ultraje por motivo de cren�a religiosa, quem PUBLICAMENTE ofender pessoa ou dela escarnecer em raz�o da sua cren�a ou fun��o religiosa por forma adequada a perturbar a paz p�blica�. No entanto, no caso em apre�o, o recurso aos tribunias n�o teria qualquer efeito, visto que o pretenso crime n�o parece s�-lo no pa�s onde foi "cometido".

Nota 2 - O jornal dinamarqu�s em causa recusou-se em tempos a publicar caricaturas de Cristo... porque seriam ofensivas.

Nota 3 - Neste caso n�o � poss�vel o velho argumento �Gostavas que te fizessem o mesmo?� porque a nossa no��o de "valores" est� de rastos.
Veja-se, em Portugal, o achincalhar do Hino e da Bandeira - neste caso, at� M�rio Soares se permitiu "martelar" o Escudo, para fazer dele um cora��o foleiro - perante a total passividade do povo...

C. Medina Ribeiro

*

O
El Pais d� conta de que um di�rio Iraniano vai publicar cartoons sobre o Holocausto. Isto sim � uma provoca��o, porque n�o se trata de retratar a actualidade, mas sim enveredar numa l�gica pueril de contra ataque. J� para n�o falar da manobra pouco subtil para meter Israel ao barulho.

De qualquer forma, como seria de esperar, nada que n�o estivesse j� feito em pa�ses em que a liberdade de express�o � um direito consagrado, e que uma simples pesquisa no google images pode facilmente desvendar. Entre muitos outros aqui est� um exemplo.

(Jorge Gomes)

*

Um testemunho da Dinamarca (sem acentos):

Eu resido na Dinamarca (...) Em rela��o a pol�mica do Cartoon: esta situa��o � ainda mais inaceit�vel para quem conhece essas minorias �rabes, nao-integradas, sem desejo nenhum de o fazerem e com a sua arrog�ncia alimentada pela intransig�ncia religiosa e a humilha��o que sentem por, l� no fundo, se sentirem inferiores.


Esta quest�o veio levantar uma s�rie de quest�es sobre n�s pr�prios e sobre os mu�ulmanos:


1)H� uma ideia, de g�nese anti-americana, dos �rabes serem vitimas. N�o s�o. S�o sociedades improdutivas que se sustentam do petr�leo, que Al� foi t�o generoso em lhes dar a quase exclusividade, n�o lhes dando no entanto o engenho de inventar o autom�vel. Sem Ocidente, a "Ar�bia" n�o seria a sociedade desenvolvida que nos vendem, seria sim algo muito primitivo. A Palestina ser pobre e Israel rico nao � prova de explora��o mas sim de diferen�as entre as duas culturas.


2)As recentes manifesta��es, tanto em Franca, como as de agora, v�em mostrar que a religi�o n�o s� n�o permite o desenvolvimento das sociedades, com impede a integra��o destas pessoas quando emigrantes, criando tens�es ainda maiores. Veja-se que s�o alguns dos mu�ulmanos emigrados na Dinamarca que promovem o actual conflito. A Dinamarca � dos, sen�o o, pais no mundo mais generoso para emigrantes, dando-nos possibilidades, apoio e oportunidades diferenciadas. Um exemplo: como emigrante tenho aulas (de qualidade) de dinamarqu�s de gra�a, a sala ao lado est� cheia de dinamarqueses aprendendo italiano ou portugu�s � sua custa (e � bem caro).


3)A nossa liberdade de express�o, qu�o fundamental �? Se � t�o fundamental assim, porque continuamos a n�o permitir escritos que mencionem diferen�as entre povos, entre sexos, ou generalizadoras? Porque n�o permitimos a livre express�o ideologias a que chamemos "nazis"? Apesar de entender o ideal humanista que limita a liberdade de express�o, toleramos o comunismo, e n�o foi por isso que fic�mos comunistas e que a revolu��o aconteceu. Se calhar estar� na altura de revogar estas limita��es.


4)O que � um cartoon? Bem, a verdade � que um cartoon � uma inven��o ocidental para satirizar subjectivamente e assim fugir aos mecanismos de controle objectivos (leis) que n�s implementamos na nossa sociedade. Suponho que ter� nascido para fugir � censura. N�o faz o mesmo sentido para um mu�ulmano, onde um l�der pode decidir subjectivamente o que � mau ou n�o. Tomemos por exemplo o cartoon do Maom� de turbante explosivo. Por palavras, seria algo que relacionaria concerteza Maom� com atentados, os mu�ulmanos com terroristas. Na realidade, a descri��o do dito cartoon poderia ser contra as nossas pr�prias leis que limitam a liberdade de express�o. Ja para a sociedade isl�mica, um desenho � pior que as palavras.
No entanto, e embora isto tenha que ser levado em conta, este argumento n�o serve para desculpar os �rabes, porque nos pedem que usemos a nossa "bondade" para eles, enquanto as suas sociedades usam de maldade para n�s (vejam os cartoons abaixo, publicados em pa�ses �rabes).

� o velho argumento de mulher ocidental que ande de calcoes e cabelo descoberto num pais arabe est� a violar os costumes dos locais e dever� por isso ser violada vs a �rabe que tem o direito de nao mostrar a cara num pa�s ocidental. Temos de ter cuidado e n�o dar tiros no p�.

5) Este �ltimo ponto � mais distante da pol�mica, mas parece-me extremamente importante. � acerca do que define a boa integra��o de emigrantes, que n�o � um tema lateral, mas sim central nesta pol�mica.
Postulo sem provas mas da observa��o que o que define a boa integra��o de um novo povo � a quantidade de elementos negativos no povo hospedeiro. Visualizando o que digo, imaginemos que desenhamos uma curva, de forma gaussiana, que representa a "boa cidadania", crescendo esta da esquerda para a direita. Um grupo de emigrantes �rabes tem bons e maus, e se o desenharmos neste gr�fico vai tamb�m gerar uma curva gaussiana ou parecida. Imaginemos agora dois povos hospedeiros, podendo estes ser o Ingl�s e o Dinamarqu�s. No povo ingl�s, h� muitos alco�licos, homens que n�o trabalham, vivem da seguran�a social, batem na mulher, berram com outros, e se envolvem em cenas de pancadaria com regularidade. Esta � a cauda da curva do povo ingl�s, do lado esquerdo da curva. Entram agora os imigrantes. A curva destes estar� compreendida na do povo ingl�s. Os piores dos imigrantes talvez sejam t�o maus cidad�os como os locais que referi, os melhores tamb�m n�o ultrapassar�o o povo hospedeiro. Assim, n�o h� razoes para grande discrimina��o, nem diferencia��o econ�mica, e n�o h� tanta tens�o entre locais e imigrantes.

Olhando agora para a Dinamarca, temos uma situa��o diferente. Comparada com a curva do povo ingl�s, a da Dinamarca est� deslocada para a direita. Pelo menos na cauda da m� cidadania. Na realidade, nao ha maus cidad�os neste pais. N�o h� viol�ncia. N�o h� crime. Assim, quando os imigrantes chegam, embora muitos se comportem como os locais, todos os novos maus cidad�os ser�o imigrantes. Isto gera ressentimentos justificados.
� verdade que nem todos os �rabes s�o maus cidad�os, mas tamb�m � verdade que se n�o houvesse �rabes, n�o haveria maus cidad�os (tal ja n�o � verdade em Inglaterra. Assim, sou de opini�o que n�o s�o nem as politicas de esquerda, nem a generosidade do povo hospedeiro que dita a boa ou m� integra��o. Muito pelo contr�rio, � a quantidade de maus elementos no povo hospedeiro).
Da mesma forma, vai haver um fosso econ�mico entre os referidos "maus cidad�os" e o resto da popula��o. Junte-se a isto os dinamarqueses serem dos povos mais evolu�dos no mundo, e as suas qualidades n�o serem f�ceis de perceber, para gerar entre os �rabes uma grande humilha��o e ressentimento, que vai alimentar a conversa da "discrimina��o" e os sentimentos religiosos.
A �nica forma de um �rabe tem de se sentir "importante/superior" num destes pa�ses �, ou abandonar os ensinamentos dos seus pais e tentar imitar a civiliza��o superior onde est�, ou acreditar na religi�o que lhe garante ser superior por n�o beber �lcool, bater na esposa, e afins...

(Rodrigo Gouveia de Oliveira)

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Se por um lado � compreens�vel a reac��o do lado de l� quanto �s caricaturas publicadas num jornal dinamarqu�s, do lado de c� s� � compreens�vel esta reac��o se usarmos na nossa an�lise a palavra MEDO. E se me pedissem para escrever um t�tulo que representasse os �ltimos acontecimentos, parafraseava Jos� Gil e imediatamente escrevia Ocidente, hoje: O medo de existir, o medo de falar, o medo de ser livre.

H� duas an�lises poss�veis em espa�os diferentes. Do lado de l�, este foi um pretexto para encetar uma esp�cie de guerra religiosa entre dois lados profundamente antag�nicos quanto ao modo de ver o mundo. Por�m, o motivo n�o � puramente religioso mas sobretudo (ou talvez unicamente) pol�tico. Mas o modo de ac��o � que � religioso, primeiro porque lhes d�, na sua perspectiva, uma causa. Segundo, porque nessa causa tem de haver um inimigo e n�s cumprimos quase na perfei��o esse papel. Do lado de c�, as reac��es dividiram-se entre aqueles que teorizam e filosofam sobre o conceito abstracto de liberdade de express�o e, dessa forma condenam a publica��o dos cartoons, e aqueles que mant�m a sua convic��o de um mundo livre de censura, livre de fantasmas, simplesmente livre. Se por um lado devemos preocupar-nos com as reac��es do lado de l�, � do lado de c� que precisamos de fazer um esfor�o muito grande de forma a compreendermos o que se passa nesta Velha Europa. E eu, muito honestamente, talvez pela minha tenra idade, n�o o consigo fazer sozinho.

Por outro lado, n�o deixa de ser curioso que, talvez culpabilizada pelo seu passado igualmente fan�tico e sanguin�rio, a Igreja Cat�lica n�o tenha tido qualquer pudor em condenar a publica��o dos cartoons. E talvez tenha sido a op��o mais respons�vel, como gostam agora de dizer. Mas isso n�o implica que tenhamos de nos vergar perante o dogma. E j� que falei em dogma, permita-me que diga que o conceito de liberdade religiosa �, per si, discriminat�rio. Sen�o vejamos. Eu sou ateu. N�o acredito nem milito qualquer religi�o. Logo, para mim, a minha liberdade � desprovida de qualquer conspurca��o dogm�tica. Partir do princ�pio que a liberdade religiosa se sobrep�e � liberdade de express�o, � discriminar-me, � discriminar todos aqueles que s�o ateus ou agn�sticos, como preferirem.

O dogmatismo leva os homens a matarem-se mutuamente. Fran�ois Jacob dizia que nada � t�o perigoso como a certeza de se ter raz�o, que nada causa tanta destrui��o como obsess�o duma verdade considerada absoluta. F. Jacob tem raz�o quando diz que, historicamente, todos os massacres foram cometidos por virtude, em nome da verdadeira religi�o, do nacionalismo leg�timo, da pol�tica id�nea, da ideologia justa; em suma, em nome do combate contra a verdade do outro. Tudo estaria bem se nos confort�ssemos com as nossas verdades e n�o fiz�ssemos quest�o de imp�-las uns aos outros a qualquer pre�o. Tudo estaria bem se, do lado de l�, rezassem a Al� e do lado de c� rezassem ao Deus crist�o. Tudo estaria bem se viv�ssemos num mundo perfeito.

Mas n�o vivemos num mundo perfeito. E esta retrac��o do ocidente serviu apenas para mostrar o medo que revolve as nossas entranhas desde o 11 de Setembro e serviu tamb�m para mostrar que nos torn�mos submissos e incapazes de lutar pela nossa liberdade. Perdemos esta batalha e devemos envergonhar-nos disso. Desta vez, o terrorismo n�o precisou de sair de casa. E o efeito foi precisamente o mesmo. O MEDO.

Vale a pena citar Agustina Bessa-Lu�s, in Antes do Degelo:

�O medo � o que impede que tudo o que chega �s m�os dos homens n�o se torne em sua propriedade. Basta produzir uma impress�o que n�o se pode explicar, inserindo no medo o desconforto da culpa. � assim que milh�es de pessoas podem ser pastoreadas nas ribeiras da paz por muito poucas. E nas trincheiras da guerra por outras tantas, sen�o as mesmas.�

(Ricardo S. Reis dos Santos)

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(sem acentos)

Tive acesso ao seu blog e li algumas considera��es sobre o assunto das caricaturas do jornal dinamarques. Sou filha de portugueses emigrados e vivo em Paris onde nasci. Em Franca sou sem duvida francesa, em Portugal sou uma portuguesa diferente. Gracas ao imenso esforco de meus pais consegui licenciar-me � ENST e tenho um emprego ainda provisorio como muitos estudantes aqui em Franca. O primeiro emprego esta dificil por todo o lado.
O que lhe queria exprimir da minha visao do que representa o Islao para quem, como eu, viveu durante muitos anos lado a lado com musulmanos e beurs. O que eu vivi nunca esquecerei, sei da forma de vida das minhas amigas musulmanas sempre reprimidas, das m�es delas, pessoas de segunda categoria porque tiveram a infelicidade de nascerem mulheres e ainda sei dos apoios do estado frances as familias musulmanas. Meus pais nunca tiveram um apoio que fosse e minha educacao foi paga com o trabalho dos dois.
Ha um todo pequeno detalhe que todo o mundo parece nao ver ou nao querer ver, mesmo os que agora acham mal que alguem caricature o Islao sem perceber como se faz o Islam dos nossos dias. A leitura estreita do Islao a situacao das mulheres musulmanas est, para dar um exemplo, medieval.

Vou tentar traduzir bem algumas passagens do livro da musulmana Irshad Manji "Musulmane mais Libre": " Em Franca, os Musulmanos perseguiram na justica um escritor que declarou que 'O Islam era a religiao mais estupida do mundo'. Aparentemente tratava-se de uma incitation ao odio racial. Estamos aqui capazes de fazer valer os nossos direitos - coisa que na maioria dos pa�ses islamicos nunca poderiamos fazer. Mas este frances fez mal em escrever que o Islam precisava de crescer? Que pensar do incitamento ao odio aos judeus no Corao? Os Musulmanos que invocam o Coran para justificar o antisemitismo n�o deveriam, tamb�m, serem perseguidos pela justice? Ou seria ainda 'repression violenta'? O que faz que nos estamos no nosso bom direito de o que o resto do mundo seja racista? Com a nossa piedade sobre nos mesmos e os nossos silencios ostentatorios, nos, Musulmanos, conspiramos contra nos mesmos. Estamos em crise e queremos arrastar o mundo inteiro com a nossa crise." mais adiante: "Mesmo no Ocidente ensina-se correntemente aos Musulmanos que o Corao est a ultima manifestacao da vontade de Deus, que suplanta a da Torah e a do Novo Testamento. Como manifestacao ultima, o Corao est o texto 'perfeito' - que nao pode ser questionado, analisado ou interpretado. Ele nao pode ser senao acreditado." agora repare nesta parte: "O Corao lembra aos Musulmanos que eles nao sao Deus. E por consequencia os homens e as mulheres fariam bem de serem justos nos direitos que exigem uns a outros: (...) 'Honrem as vossas maes que vos carregaram. Deus observa-vos sempre.' O que parece estranho est que no mesmo capitulo - algumas linhas na frente - o Corao inverte completamente a corrente: 'Os homens tem autoridade sobre as mulheres porque Deus fez os homens superiores as mulheres e porque os homens gastam as suas riquezas para as sustentar. Deus fez as mulheres obedientes... Quanto as mulheres de quem duvidem da obediencia, castiguem-nas, ponham-nas a dormir em camas separadas e espanquem-nas.'"

Por mais incredulos que fiquemos, estas passagens do Coran nao sao inventadas. E isto que as mulheres e os homens Musulmanos aprendem nas suas vidas religiosas. Muito mais poderia eu aqui deixar sobre o Islao tal como ele e vivido no dia a dia. Seja no Ocidente, seja no Oriente.

Nao me ficara bem dizer o que lhe vou dizer: mas esta religiao n�o me merece respeito nenhum.

Desculpe ter-lhe tomado tanto tempo e ainda desculpe mais o meu mau portugues mas os portugueses de Portugal nao sabem do que falam, a maioria, quando fala do Islao. Essa realidade nao a vivem no dia a dia. Os que vivemos na Europa, sobretudo em Franca ou Belgique ou Alemanha sabemos bem do que falamos.

Recomendo a todos o site desta Musulmana escritora Irshad Manji.

(Guiomar Almeida)

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A ver se percebo...
Certa esquerda quer discutir e investigar o holocausto?!
Certa esquerda at� tenta compreender as atitudes dos radicais extremistas mu�ulmanos que, entre outras coisas, proibem as mulheres de ter acesso a carta de condu��o e andar de cara destapada?!
Certa esquerda coloca em causa a liberdade de publica��o livre de cartoons sejam eles sobre que tema for?!
Certa esquerda tenta explicar, � luz de anacronismos sociais, o que � fanatismo puro e simples?!
Certa esquerda ao tentar explicar que at� pode haver raz�es e tal para o fanatismo tresloucado, coloca-se inevitavelmente numa discuss�o que, logo � partida, � desculpabilizante de comportamentos fascisantes?!

Mas isto � esquerda?!!

Pensei que era extrema direita...

(Paulo Duarte)

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Na maioria dos casos, as pessoas teem-se limitado a debater aquilo em que o Ocidente tem razao e uma evidente superioridade: a liberdade de imprensa e de expressao; e as liberdades democraticas, em geral.

Aquilo de que se fala menos e' o seguinte: que a actuacao (politica, economica e militar) dos paises ocidentais no Medio Oriente e na Asia Central e' tudo menos consentanea com esses valores que inventamos e que sao, na minha opiniao convicta, universais.

Agora, se o que esta' de facto em causa nesta cacofonia mediatica e' a liberdade de expressao e de imprensa, entao parte da solucao comecaria pela realizacao de um debate livre. Nesse debate, os muculmanos ou os emigrantes oriundos daquela regiao do Mundo, teriam a oportunidade de expor livremente os seus pontos de vista, explicar as suas razoes de revolta (se for esse o caso) em relacao ao Ocidente, e poderiam ver as suas opinioes testadas e confrontadas de modo critico e veemente por outros (ocidentais ou nao); e' evidente que as nossas razoes, ambiguidades e inconsistencias tambem seriam criticadas. Assim, sim, estariamos a considerar de forma seria o problema da liberdade de expressao e de imprensa, as dificuldades e as oportunidades relativas 'a coexistencia pacifica entre as civilizacoes.

Caso contrario, podera' ficar a suspeita que se esta' a assistir a uma mera encenacao... mesmo nas vesperas do seguimento da questao nuclear do Irao ao Conselho de Seguranca.

(Miguel Preto)

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Mas a publica��o dos desenhos n�o foi um acto oficial de algum pa�s. Os desenhos foram publicados por jornais independentes de distribui��o nacional. � uma extrapola��o imensa querer analisar esse acto fora do contexto pr�prio. Os protestos surgem na alega��o de que esses desenhos violam o que est� nos textos sagrados mu�ulmanos. Mas podemos imaginar o direito rec�proco de um dinamarqu�s, � luz dos textos dos direitos do Homem, de se revoltar com os maus tratos infligidos �legalmente� �s mulheres mu�ulmanas.

A revolta incide sobre a particularidade de se ter representado o profeta (acto proibido pelo alcor�o) mais do que qualquer outra infer�ncia politica. Se em vez da imagem se tivesse publicado, no mesmo jornal, um artigo de opini�o em que a certa altura o autor dissesse �o profeta Mahomet instiga o terrorismo� (em dinamarqu�s) ningu�m daria por nada. O absurdo � algu�m querer que o resto do mundo funcione pelas suas regras.
Imaginando que na minha religi�o eu tinha a forte convic��o de que me era permitido amar e servir um s� Deus. Estariam por isso todos os mu�ulmanos, por respeito � minha cren�a, proibidos de ter a sua vida normal e amarem o Deus deles? A vida normal de um dinamarqu�s passa pela sua liberdade de express�o. Faz sentido que algu�m de um pa�s long�nquo venha ditar-lhe novos costumes?

O que faz sentido � se algum dinamarqu�s mu�ulmano (ou n�o) se sentir ofendido instruir um processo por abuso da liberdade de express�o ao outro dinamarqu�s. O que faz sentido � qualquer dinamarqu�s mu�ulmano (ou n�o) compreender que vive num pa�s onde � poss�vel ridicularizar qualquer religi�o, incluindo a sua. Se n�o gosta s� tem duas hip�teses: ou muda de pa�s ou espera mais um pouco que os mu�ulmanos invadam a Dinamarca.

(Nuno Galv�o)

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Estou fascinado pela quantidade de pessoas eminentes que t�m escrito nos �ltimos dias, no �mbito do caso dos cartoons dinamarqueses, que n�o se deve caricaturar o sagrado. N�o me tinha apercebido de que tal ideia est� t�o espalhada na nossa sociedade e, em particular, nas nosas elites. S� me resta saber onde estavam essas pessoas quando o cartoonista Sam publicou o livro �Ai Jesus�, inteiramente constitu�do por caricaturas de Jesus crucificado. Ou quando esteve em exibi��o a com�dia �Dogma�, onde Deus era caricaturado (e representado por Alanis Morissette!). Ou quando esteve em exibi��o o filme �Bruce, o todo poderoso�, onde Jim Carey caricaturava a abertura do Mar Vermelho por Mois�s... �abrindo� uma tigela de sopa de tomate! Ou, � claro, quando Jos� Saramago publicou �O evangelho segundo Jesus Cristo�.

Ou ser� que s� podemos caricaturar os valores sagrados da nossa cultura mas n�o os das outras?

(Jos� Carlos Santos)

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Exmo. Sr. Eng�. �ngelo Correia,

Acabei neste preciso momento de ver o programa "Pr�s e Contras" em que o Sr. participou e n�o posso deixar de lhe manifestar a mais profunda indigna��o pela sua atitude, que n�o podendo acreditar que se deva a superficialidade ou ignor�ncia, s� posso considerar profundamente manipuladora, tentando evitar uma discuss�o, assaz pertinente e urgente, sobre a natureza do Isl�o, o que quer que isso seja e quaisquer que sejam as suas multiplicidades, que existe na pr�tica e � invocado como legitima��o dos maiores actos de desumanidade, a par com a famigerada solu��o final nazi, alguma vez vistos.

Neste sentido h� alguns coment�rios que tenho de lhe fazer chegar:

- J� pondo de parte o rid�culo de tentar fazer crer que os mu�ulmanos chegaram � pen�nsula com Averr�is e outros homens s�bios de igual e inquestion�vel valor, a recitarem os cl�ssicos da antiguidade e n�o pela for�a das armas, acho lament�vel que o Sr. que o invocou e muito bem, como uma figura patrim�nio da cultura universal do Homem, n�o tenha referido as persegui��es que ele sofreu na Andaluzia, feitas n�o por crist�os muito pouco instru�dos, mas precisamente por isl�micos fundamentalistas religiosos que o perseguiram e o impediram de continuar, de desenvolver e de difundir a sua obra.

Mais, esta obra, aquando das persegui��es que ele e a sua fam�lia sofreram e que os obrigaram a fugir, sobreviveu �s fogueiras em que os seus livros foram queimados, apenas pelas c�pias feitas e contrabandeadas, a tempo, pelos seus disc�pulos.

Ou seja, Averr�is � um exemplo de um mu�ulmano, homem de paz, de saber e de cultura, que foi perseguido (por mu�ulmanos), apenas por ter essas ideias de toler�ncia, de desenvolvimento e de busca do saber, pelo mesmo tipo de fan�tico religioso que est� na origem do que hoje faz os apelos ao assassinato por delito de opini�o, aos atentados e as manipula��es de massas que estivaram na origem do programa em que o Sr. participou.

Se ainda hoje encontramos os fan�ticos � muito pertinente perguntarmo-nos, ao n�o encontrarmos �os Averr�is�, se foram ou n�o os fan�ticos, que ganharam a guerra, que existe desde o in�cio, dentro do Isl�o, pelo seu controlo. Se um conjunto de povos ou de culturas, que em dada �poca foram fonte de desenvolvimento cultural e cient�fico da Humanidade, ao preservarem e desenvolverem (!) o conjunto de saberes em que se alicer�aram as revolu��es intelectuais que est�o na origem do que de melhor e de mais desenvolvido hoje existe no mundo, da democracia � ci�ncia, se estes povos e estas culturas se tornaram e s�o hoje em dia t�o pr�ximas do cultural e cientificamente est�reis, t�o violentas e t�o contr�rias ao desenvolvimento individual e colectivo, onde o que se faz � feito quase sempre com o risco da pr�pria vida de quem o faz, onde mesmo sobre esses seus grandes homens do passado se podem encontrar �coment�rios oficiais� sobre o valor da sua obra mas muito mais dificilmente a obra em si, � extraordinariamente pertinente perguntarmo-nos se �os Averr�is�, de h� muito a esta parte, n�o ser�o, internamente, impedidos de existir no Isl�o.

O cineasta eg�pcio Youssef Chahine, em 1997, em �O Destino� (uma obra de arte e n�o um documento hist�rico, concedo-lho), ao usar precisamente estes factos da vida de Averr�is como uma met�fora para o que se passa hoje em dia nos mais moderados pa�ses do Isl�o, levanta precisamente esta quest�o (e durante quanto tempo mais e onde poder� levant�-la?).

Devo acrescentar que desculpabiliza��o grosseira que fez destes povos e destas culturas, ao faz�-los objectos inocentes de perf�dias externas que os ultrapassam sempre e impedem de agir como a todos os outros se exige, por ser simultaneamente um atestado de menoridade intelectual e civilizacional, deveria ser, como a Dra. F�tima Campos Ferreira lhe tentou fazer ver, a maior das ofensas. Muito maior do que quaisquer caricaturas. Concedo-lhe tamb�m que assim o n�o sentir�o os visados, mas ent�o tamb�m isso deve ser motivo de preocupa��o e reflex�o. Haver� um qualquer conjunto de povos disposto a, auto-desculpabilizando-se permanentemente, agir como um qualquer adolescente borbulhoso, achando que tudo lhe pertence, a tudo tem direito, tudo lhe tiram e de nada � respons�vel?

Para al�m de os l�deres religiosos mu�ulmanos dinamarqueses terem levado n�o as doze caricaturas publicadas mas quinze, de ter sido uma das n�o publicadas que, apresentada como tendo sido publicada, levantou mais do que todas pol�mica (a de Maom� com cabe�a de porco a que eu nunca consegui ter acesso, precisamente por n�o ter sido publicada), para al�m de ser passados meses e quando se passa o que se passa no Ir�o e na Palestina, que os l�deres locais fazem aparecer esta quest�o, para al�m da coniv�ncia de estados isl�micos com os dist�rbios, as caricaturas em si, podem e devem ser discutidas.

Em particular gostaria de discutir duas:

-a das virgens que se acabaram no c�u, alus�o � cren�a completamente abstrusa de que por se matarem assassinando outros, seriam, aqueles rapazinhos a quem as regras da sua sociedade em geral e a pr�tica da poligamia em particular, impede uma saud�vel viv�ncia da sexualidade, recompensados com 70 virgens, cada um, no c�u. Recuso-me a discutir muito a ideia de fazer os outros crerem que ter�o no c�u aquilo que lhes negamos na Terra, se se matarem por n�s, assassinando outros e dando-nos com isso poder. Sinto como demasiado abstruso sequer equacion�-lo seriamente (e no entanto nunca vi que essa ideia invocada em nome do Isl�o gerasse manifesta��es de indigna��o, mais do que circunstanciais coment�rios, no mundo isl�mico).

A raz�o por que a quero discutir � porque eu pr�prio j� fiz esse coment�rio in�meras vezes, perante a risada geral dos conversados. Diga-me uma coisa: Tamb�m eu devia ter pensado melhor? Tamb�m eu n�o tinha o direito de o dizer? Tamb�m eu tinha de me calar? E os conversantes? Poder-se-iam rir ou n�o?

- mais significativamente gostaria de discutir a caricatura de Maom� com turbante em forma de bomba. N�o diz que todos os mu�ulmanos s�o terroristas, mas acho muito dif�cil interpret�-la sem admitir que os h� que o s�o e que o s�o em nome do Isl�o. Mas isso � inquestion�vel porque de facto, actos terroristas inqualific�veis foram cometidos por mu�ulmanos reivindicando faz�-lo em nome da sua f�.

Se o islamismo se advoga ser uma religi�o de paz, porque n�o suscitaram estes actos imensa indigna��o entre os mu�ulmanos? E porque n�o h�-de haver moderados que interpretem esta caricatura n�o como uma ofensa gratuita a todos os mu�ulmanos mas como havendo outros mu�ulmanos que apresentam o Isl�o, mesmo que contradizendo-o com a sua pr�tica, como terrorista?

Por honestidade digo-lhe j� que esta caricatura n�o suscitou um mim interpreta��o t�o ben�vola para com o islamismo, mas por que carga de �gua isto n�o � uma possibilidade admiss�vel? Ser� que o islamismo � t�o moralmente superior que nada do que seja feito em seu nome, pelos seus crentes, o poder� alguma vez manchar?

Mais porque � que as caricaturas provocam muito mais manifesta��es de indigna��o aos moderados do que os assassinatos em massa feitos em nome da sua f�? Ser� o assassinato dos outros menos relevante do que as ofensas a mim? Para os mu�ulmanos o mundo divide-se entre mu�ulmanos e n�o mu�ulmanos e a uns e a outros aplicam-se leis diferentes? Um moderado, como o im� da mesquita de Lisboa sente-se mais pr�ximo do caricaturista ou do que apela � morte deste? N�o estou a dizer que n�o condene o apelo � morte, estou a perguntar se, por absurdo, se visse obrigado a ter de escolher entre cometer uma daquelas que certamente considera serem duas indignidades, qual delas seria, para ele, menos grave?

D� sempre a ideia de que o que quer que se entenda que se tenha feito a um mu�ulmano � sempre mais grave do que o que quer que se fa�a a um n�o mu�ulmano. E isso por a diferen�a na manifesta��o de indigna��o por parte dos moderados, aparecer como desculpabilizante para com os actos dos radicais, que matam em nome da f� que se diz comum a ambos.

Assim faz todo o sentido perguntar-se, uma vez que o Isl�o faz a hierarquiza��o das pessoas face � sua cren�a religiosa (1� os mu�ulmanos, depois os crentes no Livro, dos quais primeiro v�m os crist�os e depois os judeus, depois os animistas e penso que depois os que n�o professam qualquer religi�o), se isto � ou n�o assim? Se � ou n�o �mais grave incomodar um crente do que matar um infiel�? Se mesmo repudiando os fan�ticos, os moderados se sentem ou n�o mais pr�ximos deles do que das suas v�timas, sejam elas quem forem, precisamente por partilharem religi�o mu�ulmana com os agressores?

� meu desejo e esperan�a que n�o, mas desejos s�o desejos, esperan�as s�o esperan�as e as realidades constroem-se e se se discutirem talvez se construam realidades melhores.

Estas quest�es podem p�r-se, devem-se p�r-se face a tudo o que tem acontecido e a caricatura faz todo o sentido ao suscit�-las. Ela � pelo menos uma interroga��o e se ser� ou n�o uma afirma��o, depende da resposta a quest�es como as acima e duma discuss�o que se pode fazer, precisamente com os moderados como o Sr. im� da mesquita de Lisboa e que o Sr. quis impedir. Sentir-me-ia muito mais tranquilo hoje se tivesse ouvido finalmente sem rodeios a discuss�o destas quest�es e n�o evit�-las, transferindo responsabilidades, desculpabilizando, como o Sr. hoje fez e como ontem fez o prof. Marcelo Rebelo de Sousa, no seu exerc�cio semanal de tirar m�dias para tentar agradar sempre a todos (mostrando mesmo ignor�ncia ao afirmar que Maom� � deus para os mu�ulmanos!).

Como se n�o bastasse ainda teve de ir buscar Israel e de fazer afirma��es que intelectualmente o deveriam envergonhar (que fique j� esclarecido que tenho tanto sangue judeu - e mu�ulmano - como qualquer outro, an�nimo, portugu�s).

Comparar Israel com o Ir�o, com um Ir�o que tem uma ditadura fanatizante como aquela, que tem um presidente que afirma para todo o mundo o ouvir, que quer riscar o estado de Israel do mapa, � indesculp�vel.

Israel �, desde logo, uma democracia, na terra milenar de um povo, um pa�s com todo o direito a existir, onde uma parte significativa dos cidad�os � mu�ulmana (cidad�os, t�m os mesmos direitos!), criado em 1948 por resolu��es da ONU, reconhecido internacionalmente com excep��o dos pa�ses vizinhos mu�ulmanos que o tentaram aniquilar, que sofreu j� nestes 57 anos, tr�s tentativas de destrui��o e de invas�o.

Tem armas nucleares (originalmente fornecidas pelos franceses contra a vontade dos americanos) como parte fundamental da defesa dum povo, cercado por outros, apostados e, na pr�tica comprometidos, em destru�rem-no e que nunca as usou para iniciar qualquer agress�o. Nada compar�vel com um estado fan�tico, fanatizante, suporte moral e log�stico de v�rios movimentos terroristas, cujo presidente entende como auto-promo��o a nega��o do holocausto e o an�ncio da inten��o da utiliza��o de armas nucleares para a destrui��o de Israel. A compara��o � completamente abstrusa.

Mas se quiser envolver a quest�o entre Israel e os pa�ses mu�ulmanos pelo menos aprofunde o assunto e n�o o fa�a duma forma que sugere o acto de quem sacrifica outro, pensando assim ficar de bem com o agressor.

Ou seja, falemos da Palestina. Simultaneamente com a cria��o do estado de Israel, foi pela ONU criado um estado palestiniano. Estranhamente (ser�?) esta solu��o foi recusada pelos pa�ses �rabes tentando negar a exist�ncia a Israel. Quanto mais n�o fosse por Arafat ter, na pr�tica, rejeitado o �ltimo acordo de paz, em que todas as suas reivindica��es eram atendidas, com excep��o do controlo total sobre Jerusal�m (tamb�m era o que mais faltava!), mas em que ainda assim esta cidade ficava com um controlo dividido pelos dois estados, se v� que � precisamente aqui que reside o cerne da quest�o (Arafat ambicionava ficar conhecido na Hist�ria como o conquistador de Jerusal�m).

Jerusal�m � a terceira cidade mais sagrada para os mu�ulmanos. Porqu�? Meca, Medina � f�cil ver que fazem todo o sentido. Mas Jerusal�m? Porqu�? A mais de 2000 kms de Meca�Porque a tradi��o mu�ulmana pretende que Maom�, depois de morrer e antes de ascender aos c�us ter� ido a Jerusal�m, encontrar-se com Mois�s e Cristo, para que estes lhe dissessem que a religi�o dele era a religi�o verdadeira e que eles teriam apenas preparado a sua vinda.

� com base nisto que Jerusal�m � sagrada para os mu�ulmanos, o que � uma cren�a leg�tima como qualquer outra, desde que permane�a no dom�nio da f�. A partir do momento em que pretenda ser raz�o de legitima��o de apropria��o territorial do cora��o de outras religi�es �, completamente, indefens�vel. Imagine-se o que seria se uma qualquer nova religi�o invocasse o mesmo relativamente a Meca e a Maom�.

Em face disto � ou n�o leg�timo pensar-se que o Isl�o, que mais uma vez trata esta quest�o em bloco, v� na posse de Jerusal�m, uma quest�o de supremacia da sua religi�o? E que os judeus s�o um alvo a eliminar por se recusarem a ceder a terra onde j� h� milhares de anos estavam as suas ra�zes?

� isto inevit�vel? Pa�ses mais moderados como o Egipto (onde um presidente foi por isso assassinado), ou a Jord�nia, depois de lhe terem feito a guerra, assinaram a paz e estabeleceram rela��es com Israel, mas a quest�o palestiniana, em que os palestinianos j� v�rias vezes preferiram continuar a guerra a poder construir o seu estado em paz e lado a lado com Israel, continua a ser tratada em bloco pelo mundo isl�mico e apresentada como algo que os une e tantas vezes como justifica��o do terrorismo.

E agora? Um mu�ulmano, um moderado, sente-se mais pr�ximo do presidente do Ir�o, que ambiciona riscar Israel do mapa, ou dos israelitas amea�ados por tarados como esse? (ser� aceit�vel que qualquer um de n�s se sinta mais pr�ximo dos nazis do que dos judeus, por ser o povo alem�o maioritariamente crist�o? Ou chama-se a isso xenofobia?).

E qual a posi��o dos moderados face a tudo isto, quando os radicais que cometeram actos terroristas como os 11 de Setembro e de Mar�o (e muitos outros, mesmo em pa�ses mu�ulmanos e contra mu�ulmanos) apregoam nos textos que publicam que pretendem que o Isl�o domine o mundo? (certamente na forma de Isl�o que lhes conv�m).

N�o ser� altura de tudo isto indignar muito mais os moderados do que as caricaturas? Gerarem muito mais protestos os actos assassinos dos que professam a mesma religi�o do que as opini�es dos que professam outras ou nenhumas?

O Sr., ao ir demagogicamente invocar e embrulhar Israel no triste epis�dio das caricaturas, ao aceitar que a suposta retalia��o caricatural da liga �rabe seja como foi e tendo como alvo os judeus (querem ver que a Dinamarca e os seus caricaturistas s�o judeus israelitas?) prestou um p�ssimo servi�o � verdade e � seriedade e tentou mais uma vez culpabilizar Israel e os judeus pelos problemas que existem com o fundamentalismo mu�ulmano. Atitude t�o frequente (e que nos devia envergonhar a todos) na Europa.

Considero que todo o seu discurso e atitude foi esta noite uma manipula��o, uma tentativa de n�o discutir a realidade, uma tentativa de ocultar diverg�ncias e problemas. Diverg�ncias e problemas que se n�o forem assumidos, mais tarde ou mais cedo, se nos impor�o e nesse caso isso significar� a mais cruel, desumana, brutal e extensa guerra jamais vista.

S�o precisos dois para dan�ar o tango e para fazer amor, mas basta um para come�ar a guerra. Os radicais mu�ulmanos h� muito que a fazem, primeiro aos outros mu�ulmanos que consideram traidores ao Isl�o e depois a todos os n�o mu�ulmanos. Ultimamente declararam guerra total a todos os infi�is. Nesse sentido pode passar-se muito bem sem as caricaturas, mas n�o sem a discuss�o e a reflex�o que a reac��o � sua publica��o est� a gerar.

(V�tor Paulo Vaj�o)

*

"A hist�ria das caricaturas dinamarquesas � extremamente simples e come�a e acaba numa linha: � uma quest�o de liberdade. Ou h�, ou n�o h�.

O que � novo e precupante s�o as toalhas de palavras e justifica��es que come�am a ocultar o que devia ser absolutamente simples e onde qualquer palavra a mais � demais."

Antes de mais, a liberdade deveria ser tamb�m bom senso.

(Jos� Von Barata)

*

Juro que adorava saber qual foi a sua reac��o quando surgirem problemas parecidos com estes em Portugal.

Gostava de saber se o seu racioc�nio na altura foi t�o esquem�tico quando os cat�licos se insurgiram, por exemplo, contra O Evangelho segundo Jesus Cristo ou a r�bula que o Herman Jos� fez da �ltima ceia de Jesus Cristo. H� muita gente agora indignada contra os mu�ulmanos que na altura tomaram partido da Igreja.

(M�rio Azevedo)


*

Ainda a prop�sito das caricaturas de Maom� e da generalidade dos coment�rios que li no "Abrupto", o que me parece � que n�o est� em causa o querermos manter e at� lutar pela liberdade de express�o - conquista n�o definitiva, como se sabe. Ningu�m de senso defender� que ela ceda perante interesses menores. Mas n�o devemos ser t�o arrogantes na preserva��o desse direito que o queiramos "impor" �s massas do isl�o. E � isso que julgo que transparece nalgumas das observa��es a esse prop�sito. A nossa civiliza��o (ainda t�o novinha...!) n�o � transpon�vel por nosso desejo para todo o mundo por muito vantajosa que se possa apresentar.


(Fernando Barros)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM VILA NOVA DE GAIA, PORTUGAL


Enchendo um molde de uma escultura na Fundi��o Lage.

(Ana Carvalho)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM HAVANA, CUBA


Corte de cabelo, Fevereiro de 2005.

(Joana Marques)
 


INTEND�NCIA

Continuo a receber muito correio com CONCORD�NCIAS / DISCORD�NCIAS. Ser� publicado em breve, com base no �nico crit�rio habitual nesta casa, o de ter argumentos, o de contribuir para a discuss�o, independentemente do "lado". No Abrupto a opini�o dos leitores vai para a primeira p�gina, n�o vai para os coment�rios e � editada pelo autor. � um crit�rio, haver� outros.
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(7 de Fevereiro de 2006)


___________________________

Querem um exemplo pelo absurdo do mundo em que estamos, nem por isso t�o absurdo como parece? Um exemplo de como daqui resulta censura e medo? Vamos admitir que um dos dois participantes no Pr�s e Contras de ontem, que disseram o que havia a dizer (Ant�nio e Vasco Rato), face ali�s a uma coliga��o de interesses, confusionismo, multiculturalismo que infelizmente � hoje o p�o nosso de cada dia (n�o � blasf�mia dizer isto?), o caricaturista Ant�nio se lembra de fazer uma caricatura do Profeta, a pretexto dos eventos actuais. Ali�s, a caricatura de Maom� com um turbante-bomba � o mesmo tipo de estrutura metaf�rica dos desenhos de Ant�nio, s� que pior desenhado. O Ant�nio chega ao Expresso e entrega a caricatura. Soam sirenes de alarme, porque o jornal se sente �respons�vel�, o que, dito em linguagem terra a terra, significa que o jornal tem medo das consequ�ncias. O Expresso � mais importante do que o obscuro jornal dinamarqu�s e pode sempre haver algu�m que se lembre de singularizar a caricatura de Ant�nio como um exemplo de blasf�mia infiel. O que � que o Henrique Monteiro faz? N�o est� em causa a qualidade da caricatura. Publica-a, censura-a porque os tempos est�o dif�ceis? O governo desaconselhar�, discretamente. E se a publica, vamos ter a bandeira portuguesa no ch�o e o Ant�nio a ter que se esconder como os caricaturistas dinamarqueses, a que uma comunica��o habitualmente t�o solid�ria, deixa sozinhos nos seus riscos?

� exactamente por estas coisas que o que est� em causa � a liberdade de express�o, a nossa, como a entendemos, a �nica que existe no mundo, a que nos custou muito sangue, aquela sem a qual perdemos a identidade e os valores. E est� em causa pelo mesmo mecanismo que no passado dizia que mais vale sermos �vermelhos do que mortos�.

*

Que a comunica��o social precisa de pensar a sua �responsabilidade�, estamos todos de acordo. Que quase sempre se recusa a faz�-lo, bradando � censura e ao interesse p�blico ou do p�blico, tamb�m � habitual. Que nunca teria esse discurso �respons�vel�, com a veem�ncia com que tem agora, se do outro lado estivesse a Igreja, ou uma qualquer institui��o ocidental, tamb�m me parece sustent�vel, por aus�ncia de exemplos a contrario. Por tudo isto, agora que se est� inteiramente no dom�nio da liberdade de express�o, num quadro cuja legitimidade me parece inquestion�vel (olhem para as caricaturas, gostem ou n�o delas como caricaturas, e vejam se elas n�o s�o o mesmo tipo de humor que Deus-Pai, Deus-Filho, Papas, governantes, emin�ncias, s�o sujeitos todos os dias?), a conversa sobre a �responsabilidade� � , para n�o dizer outra coisa, sinistra.

*

No meio de uma imprensa que se descobriu "respons�vel" (*) e que directa ou indirectamente culpa os caricaturistas e o jornal dinamarqueses, salomonicamente colocando no outro prato da balan�a os excessos da "rua �rabe", (o que traduzido do politicamente correcto significa que s� culpa os dinamarqueses), valha-nos o artigo de hoje no P�blico de Teresa de Sousa:
"H� um problema s�rio no mundo isl�mico de percep��o do mundo ocidental, que a globaliza��o e o terrorismo islamista, com a resposta da "guerra ao terror", vieram agravar. H� um sentimento real de frustra��o e de humilha��o em rela��o ao Ocidente e essa � uma quest�o que preocupa muito justamente a Europa, onde vive hoje uma larga minoria isl�mica. Essa preocupa��o est� na base dos seus esfor�os para promover a toler�ncia e a compreens�o entre civiliza��es, bem como das suas pol�ticas de coopera��o e de ajuda ao mundo �rabe. Mas ceder � chantagem e � amea�a, contemporizar e justificar a dem�ncia fundamentalista antiocidental ou o arb�trio e a brutalidade de alguns regimes �rabes ser� sempre a melhor forma de alimentar as suas ideologias e de manter aprisionadas as sociedades que dominam.
Haver� uma forma de racismo mais ultrajante do que a nossa complac�ncia? A aceita��o de que os valores que entendemos como universais s�o afinal fruto exclusivo da nossa cultura e da nossa riqueza, n�o s�o valores a que podem aspirar e pelos quais t�m o direito de lutar todos os povos do mundo? Haver� melhor forma de alimentar a islamofobia no Ocidente do que considerar justific�veis os actos dementes e de viol�ncia contra o Ocidente?
� preciso mudar os termos da discuss�o e p�r fim de uma vez por todas ao politicamente correcto."

(*) Exemplos de hoje, com sublinhados meus:

Jos� Luis Ramos Pinheiro no Correio da Manh� (sem liga��o).

Ant�nio Jos� Teixeira no Di�rio de Not�cias:
"N�o h� d�vida de que a democracia suporta a falta de sensibilidade e de bom senso e que a liberdade de express�o "� absoluta e n�o � negoci�vel", como disse o primeiro-ministro dinamarqu�s. Tal como devem ser absolutamente conden�veis as reac��es violentas do mundo isl�mico. N�o podemos ainda ignorar que alguns im�s aproveitaram as caricaturas para internacionalizar o conflito e criar ambiente de resposta ao "�dio" ocidental. O Ir�o e a S�ria agradecem o pretexto. Mas estas verdades exigem tamb�m que se tenha a lucidez de criticar com veem�ncia todos e quaisquer actos humilhantes ou xen�fobos. N�o podem proibir-se para n�o nos igualarmos ao obscurantismo desp�tico, mas devem merecer cr�tica frontal. O combate da liberdade exige intelig�ncia. A humilha��o em nome da liberdade � uma caricatura tr�gica da nossa civiliza��o."
Eduardo Prado Coelho no P�blico:
"Quando os caricaturistas dinamarqueses deformam a imagem de Maom� est�o, em primeiro lugar, a p�s em causa a dimens�o do sagrado. Independentemente do facto de ser Maom�, devemos p�s a quest�o: � leg�timo caricaturar o sagrado?
Em princ�pio, o sagrado est� acima de tudo o mais, e em particular acima das caricaturas, sejam elas quais forem. Aquilo que � sempre uma degrada��o dos tra�os poder� estar sujeito � arma visual? Estou convencido de que n�o, e, mesmo sem ser crente, acredito que o religioso � demasiado importante para que as pessoas fa�am sobre ele caricaturas. E isto envolve Maom�. Estamos perante quest�es que p�e problemas essenciais. As imagens matam e e o religioso n�o pode morrer. Pelo menos, n�o deve."

6.2.06
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL



Pesca da sardinha, ao largo de Vila do Conde.
 


ESTES DIAS


Estamos banhados em dias bel�ssimos, claros, frios, luminosos. N�o h� detalhe que n�o se destaque, e uma esp�cie de prematura primavera percorre as �rvores, as grandes percursoras. Bem sei que h� muito ru�do, muita f�ria, muito sturm und drang, uma enorme nuvem de palavras por todo o lado.

J� olharam l� para fora, l� para cima, l� para o lado, onde tudo � recorrente, menos o tempo que nos faz a n�s? J� olharam para a luz destes dias, fora do tumulto dos notici�rios, da zanga e do azedume dos blogues, fora da escravid�o dos ecr�s? Vale a pena. Aproveitem, n�o vai durar muito. Cada vez se percebe mais que, tamb�m n�s, estamos de novo em guerra. Nas trincheiras da Flandres era assim, nas margens do Bug, a caminho de Treblinka, eram belos os dias.

Fico-me pela simplicidade, como os simples. � que tudo � verdadeiramente simples, n�s � que complicamos. Vou ler Thoreau. Escapismo? N�o, comprometimento com as coisas simples.
 


COISAS QUE FORAM SIMPLES


Inscri��o na fachada do Liceu (agora Escola Secund�ria) Alexandre Herculano no Porto, que comemora o seu centen�rio.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MAIS SOBRE OS PARTIDOS



A prop�sito da �lenta dissolu��o dos partidos� gostaria de deixar alguns coment�rios. Para que se entendam algumas das coisas que digo em seguida informo que tenho 42 anos, tinha portanto 11 anos no 25 de Abril.

Num regime democr�tico os partidos s�o inevit�veis. De facto, os partidos s�o a forma organizada de grupos de cidad�os, partilhando refer�ncias ideol�gicas comuns, intervirem na sociedade. S�o as �corpora��es da cidadania�, na medida em as restantes formas de organiza��o colectiva t�m fatalmente uma base que n�o � partilh�vel pelo universo de todos os cidad�os. Os partidos s�o o f�rum correcto para reunir no seu seio pessoas com interesses e origem diferentes, mas com uma vis�o comum da sociedade e da forma de a organizar e gerir. Repare-se que os pr�prios movimentos de cidadania mais n�o s�o do que partidos em estado embrion�rio e que, para terem efectiva capacidade de interven��o na sociedade ter�o, mais cedo ou mais tarde, que se constituir formalmente como tal. Nesta perspectiva o problema n�o s�o os partidos. O problema em Portugal � um problema de qualidade, qualidade dos protagonistas.

A gera��o que actualmente lidera os partidos de poder (PS e PSD) fez-se adulta nos 10 a 15 anos subsequentes ao 25 de Abril. Os membros activos e l�deres dos partidos foram formados no p�s 25 de Abril no seio das juventudes partid�rias, dedicando grande parte do seu tempo e empenho � actividade pol�tica em detrimento da actividade escolar e do empenhamento na obten��o de forma��o superior de qualidade. Estamos pois em presen�a de uma gera��o muito experiente no mundo da �pol�tica partid�ria�, no pior sentido da express�o, mas, de forma geral, muito mal preparada acad�mica e profissionalmente. Se este problema � evidente nas estruturas partid�rias nacionais � ent�o gritante e perfeitamente confrangedor nas estruturas regionais.

Mas ent�o e os outros? Os espertos e aplicados que andaram a estudar toda a vida em vez de organizarem festas na Associa��o de Estudantes para angariar fundos para a concelhia? Bem, esses acharam que valia mais a pena investir em carreiras profissionais s�lidas e est�o agora no topo do nosso tecido empresarial. E est�o tranquilos. Est�o tranquilos porque por um lado a democracia n�o tem alternativa e, por outro lado � sabido que h� um pre�o a pagar por ela. O pre�o a pagar � admitir um n�vel razo�vel (entenda-se suport�vel economicamente) de corrup��o e alguma inefic�cia de funcionamento do sistema. E assim, como n�o h� riscos �bvios e imediatos para o regime e o pre�o tem sido suport�vel, n�o houve at� aqui raz�es ponderosas que levassem os melhores desta gera��o a intervir, tanto mais que a interven��o necess�ria ter� que ser feita atrav�s dos partidos e implica necessariamente correr riscos e sujar as m�os. Os riscos fundamentais s�o os que est�o associados � exposi��o medi�tica e o sujar das m�os � a necessidade de expurgar o partido em que se intervenha.

A d�vida que se coloca � saber se saberemos reconhecer os sinais de perigo para o regime, a tempo de intervir. De facto, a degrada��o sucessiva do desempenho dos partidos de poder, pode levar ou ao colapso econ�mico, o que est� obviamente longe de se antever de imediato, ou, muito mais grave, � cria��o de condi��es para o florescimento de tend�ncias extremistas e populistas que, aproveitando as regras do pr�prio regime democr�tico, poder�o p�-lo directamente em causa. Veja-se o que se est� a passar em It�lia, em que claramente a democracia, n�o a formal mas a substancial, est� em risco.

O que h� a fazer � pois aderir aos partidos, reunindo grupos de cidad�os dispon�veis para, partindo das estruturas locais, promover uma melhoria global do n�vel m�dio do militante partid�rio. Leva tempo, � dif�cil, mas brevemente ser� inadi�vel ...

(Alexandre Candeias Portugal)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM VENEZA, IT�LIA


Trabalhos de constru��o civil em Veneza.

(Marco da Cruz)
 


EARLY MORNING BLOGS 715

Siren


I became a criminal when I fell in love.
Before that I was a waitress.

I didn't want to go to Chicago with you.
I wanted to marry you, I wanted
Your wife to suffer.

I wanted her life to be like a play
In which all the parts are sad parts.

Does a good person
Think this way? I deserve

Credit for my courage--

I sat in the dark on your front porch.
Everything was clear to me:
If your wife wouldn't let you go
That proved she didn't love you.
If she loved you
Wouldn't she want you to be happy?

I think now
If I felt less I would be
A better person. I was
A good waitress.
I could carry eight drinks.

I used to tell you my dreams.
Last night I saw a woman sitting in a dark bus--
In the dream, she's weeping, the bus she's on
Is moving away. With one hand
She's waving; the other strokes
An egg carton full of babies.

The dream doesn't rescue the maiden.


(Louise Gl�ck)

*

Bom dia!
 


S� PARA SE PERCEBER AS DIFEREN�AS: A CONTROV�RSIA DO "PISS CHRIST"





Na Wikipedia:
"Piss Christ is a controversial photograph by American photographer Andres Serrano. It depicts a small plastic crucifix submerged in a glass of the artist's urine. Some have suggested that the glass may also contain the artist's blood. The piece was underwritten by the National Endowment for the Arts, which offers support and funding for projects that exhibit artistic excellence.

The piece caused a scandal when it was exhibited in 1987, with detractors accusing Serrano of blasphemy and others raising this as a major issue of artistic freedom. On the floor of the United States Senate, Senators Al D'Amato and Jesse Helms expressed outrage that the piece was supported by the National Endowment for the Arts, since it is a federal taxpayer-financed institute.

Serrano produced other similar works to much less controversy; Madonna and Child II (1989), for example, in which the subject is similarly submerged in urine, is not nearly so well known as "Piss Christ".

Piss Christ is often used as a test-case for the idea of freedom of speech, and was described in the journal Arts & Opinion as "a clash between the interests of artists in freedom of expression on the one hand, and the hurt such works may cause to a section of the community on the other."
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONCORD�NCIAS



Depois de ter publicado o conjunto de cartas, mensagens e coment�rios de discord�ncia, que, insisto, foram a esmagadora maioria de missivas recebidas, desde ontem tenho vindo a receber correspond�ncia noutro sentido. Aqui ficam as "concord�ncias".

*

O grande problema, o problema suicid�rio do Ocidente � ele mesmo n�o querer entender que a democracia e a liberdade foram inven��o sua, que a relativa��o, o escrut�nio e o respeito pela diferen�a foram inven��o sua e que o metadiscurso no plural assim como a supera��o de uma estrita teo-semiose tamb�m foi inven��o sua (como sabemos, o Mu�tazilismo e outras escolas reformadoras do Kal�m, i.e. da filosofia escritural isl�mica do s�c. IX, duraram muito pouco tempo e n�o chegaram sequer a esbo�ar o que, a partir de final de seiscentos, viria a ser modernidade a Ocidente). Hoje em dia, a sobreposi��o massificadda e medi�tica de planos e a relativa��o sem limites (nem valores) conduz a infer�ncias em que o sentido acaba por diluir-se. Da� que muita gente diga, com se repetisse a mais pura invisibilidade de um slogan: se os EUA t�m poder nuclear, por que n�o o h�-de ter o Ir�o? Tenho dito: apoio a sua sucinta mas clara posi��o.

(Luis Carmelo)

*

Temos de ter cuidado com as susceptibilidades mu�ulmanas porqu�? Quero dizer "n�s" enquanto sociedade.
Porque eu posso chocar-me com os desenhos, posso ach�-los horr�veis, posso querer chamar nomes ao autor - mas � essencial que ele possa public�-los e que eu possa dizer sobre eles o que entendo - essa � a quest�o fundamental.
Como � que se pode comparar caricaturas publicadas numa sociedade democr�tica com propaganda anti-semita? De resto, talvez fosse bom come�ar a lembrar que o problema da Alemanha nazi n�o foi a propaganda anti-semita, foi o Holocausto. N�o � a mesma coisa. A menos, claro, que se ache tamb�m que o Mein Kampf devia ter edi��o proibida. H� quem ache...

Tr�s notas finais.
Uma. O que pretende Rosa Barros da Costa dizer com "Se os Judeus, nessa altura tivessem reagido como agora o fizeram os mu�ulmanos, talvez se tivesse evitado o Holocausto"? Acha que os judeus deviam ter feito atentados suicidas nas ruas de Berlim?
Duas. H� um ror de anos, a senhora Tatcher mobilizou os dinheiros p�blicos que odiava gastar para proteger da ira religiosa Salman Rushdie.
Evidentemente, h� quem tenha achado o gesto da senhora Tatcher uma rematada estupidez.
Tr�s. H� alguns anos, a prop�sito de contracep��o e preven��o da SIDA, Ant�nio publicou no Expresso uma caricatura de Jo�o Paulo II com um preservativo no nariz. Haver�amos n�s de ver os crist�os queimarem embaixadas portuguesas por esse mundo fora, e at�, quem sabe, Pinto Balsem�o tamb�m? (E note-se: eu compreendo e partilho a ideia do Papa - mas da� a achar que o Papa n�o � caricatur�vel vai uma enorme dist�ncia.) Nestes dias tenho recordado as palavras de Kennedy em Berlim, h� 40 anos. A �nica resposta decente a este assunto � dizermos: TAMB�M N�S SOMOS DINAMARQUESES.

(Luis Teixeira Rodrigues)

*

Pegando em MRS ontem � noite e no leitor que refere o caso da chamin� em Fran�a, num estado de direito quem se sente ofendido tem a via dos tribunais para ver reparada a ofensa e n�o a via de queimar bandeiras, atacar embaixadas e amea�ar de morte tudo e todos. E VPV j� relembrou a quantidade de �ofensas� que t�m sido escritas sobre Cristo e Deus. Eu sou ainda mais radical. Quem n�o promove o estado de direito, quem apoia terroristas, etc. n�o tem o direito de exigir seja o que for dos estados direito. E independentemente da f� em si � bom n�o esquecer que a maioria dos lideres Isl�micos em pa�ses Isl�micos n�o t�m promovido a democracia, mas sim as ditaduras religiosas. O pedido de desculpas da governo dinamarqu�s � rid�culo. Num estado de direito o governo n�o � respons�vel pelas atitudes dos jornais publicado no pa�s, isso � nas ditaduras, incluindo as mu�ulmanas. Mas toda a esta subservi�ncia tem uma causa: A DEPED�NCIA DO PETR�LEO. Tudo o resto � acess�rio.

(Miguel Sebasti�o)

*

Onde est�o as vozes todas de indigna��o quando se goza repetidamente com a imagem de Buda, de Krishna e at� do pr�prio Cristo?
Liberdade significa a possibilidade de se dizer, escrever e mesmo, porque n�o, desenhar o que se pense e se sinta, sem qualquer censura de l�pis azul ou de qualquer outra cor. N�o me surpreende que o fundamentalismo isl�mico se insurja, pela sua POL�TICA e n�o pela sua F� - devo frisar -, mas surpreende-me que num continente onde tanto se luta pelas liberdades individuais de cada um se tenha este estilo de reac��es como vi dos seus car�ssimos leitores.
Indigna-me, espanta-me, surpreende-me que n�o se perceba que n�o h� inten��o no cartoon de ofender f� alguma, apenas de salientar um facto pol�tico.

(Jorge Vassalo)

*

Eu confesso que a reac��o dos seus leitores n�o me surpreendeu. Muitas pessoas acreditam que se pode manter um regime democr�tico impondo limites � liberdade de express�o. Para um europeu estes s�o dias muito tristes, mesmo o governo dinamarqu�s aparenta ceder. Que raio de democracias s�o as nossas?

Confesso que me envergonha o facto de os governos ocidentais apresentarem desculpas e reiterarem o respeito pela religi�o ou religi�es. Os governos n�o t�m nada que respeitar religi�es, devem tolerar aquelas que s�o compat�veis com os direitos humanos, e sobretudo zelar para que elas se mantenham fora das pr�ticas governativas. N�o me espantava nada que algu�m viesse a propor leis anti-blasf�mia na UE.
Esta ced�ncia dos governos ocidentais � curiosa, estou a ver a Divina Com�dia a ser afastada das salas de aula, e sobretudo as pinturas que mostram detalhes do Inferno de Dante a serem escondidas.

ps Pode parecer paradoxal, mas incomoda-me muito mais o email daquela sua leitora que compara estas caricaturas � campanha anti-semita na Alemanha dos anos 30. � obsceno e monstruoso. Sobretudo quando se constata que o que se passa � exactamente o oposto, estes grupos est�o a perseguir activamente aqueles que discordam com eles e a querer abafar a liberdade de express�o noutro pa�s atrav�s de manifesta��es que incluem amea�as de morte e actos de viol�ncia. A maioria daqueles que se manifestam n�o s�o v�timas de nada, s�o potenciais algozes.

(Jorge Filipe)

*

Quero dizer-lhe que apoio totalmente as suas palavras. � uma quest�o de liberdade, neste caso de imprensa.

Posso perceber alguns coment�rios mais desludidos e amargurados, mas n�o posso aceitar de todo duas coisas :

� Que a minha liberdade de express�o seja posta em causa. Os mais velhos no nosso pais lembram-se do que era isso, e � normamente o principio do fim da liberdade de uma na��o de um povo ou de um pa�s.

� A resposta por parte dos paises/popula��es a estas caricaturas � um pouco exagerada. E parece-me ser motivada politicamente, n�o sei com que intuito.

(M�rio Coimbra)

*

Tamb�m a mim me doeu o est�mago quando li o correio dos seus leitores.

Tamb�m eu acho, ou melhor isto n�o � uma quest�o de opini�o, � uma quest�o de cerne da democracia, tamb�m eu sei que a liberdade de express�o � fundamental.

Qualquer limita��o a esta liberdade s� pode vir do indiv�duo, mas n�o pode e n�o deve existir qualquer limita��o exterior ao indiv�duo � a limita��o � a boa consci�ncia ou civismo de cada um.

As caricaturas n�o sa�ram (parece-me) na 1� p�gina do jornal dinamarqu�s, o assunto remete-se a Setembro passado, os cat�licos j� n�o incendeiam nem embargam produtos de outros pa�ses por motivos religiosos e sim est�o no seu direito, como ali�s os mu�ulmanos, de irem para a frente de qualquer assembleia nacional manifestarem o seu desagrado. Seria grossa sobranceria queremos que os mu�ulmanos modificassem as suas cren�as, mas n�o podemos n�s modificar as nossas para lhes agradar, degradando pelo caminho aquilo a que demor�mos s�culos a chegar � uma democracia avan�ada � espero eu.

Parafraseando Max Bickford (Richard Dreyfuss na fabulosa s�rie que passou h� cerca de 2 anos no 2� canal) � praticamos democracia avan�ada quando toleramos que se manifestem publicamente grupos de pessoas cujas opini�es nos revolvem o est�mago, cujas opini�es s�o contr�rias ao pr�prio cerne da democracia que lhes permite manifestarem essas opini�es.

Devemos ser firmes nesta convic��o, n�o vacilar.

(Maria Baldinho)

*

Primeiro trata-se logo de um jornal europeu e dinamarqu�s (uma daquelas democracias que nos est�o sempre a dizer que s�o quase perfeitas). Se o jornal tivesse sido americano, haveria mais gente a justificar a n�o publica��o dos desenhos do que o contr�rio.
Depois, uma coisa � sentir-se ofendido, outra � amea�ar tudo em todos em nome dessa ofensa. Eu entendo perfeitamente que qualquer pessoa se possa sentir ofendida no que respeita aos seus credos. J� n�o acho legitimo ( inadmiss�vel) que se possa incendiar, partir, querer matar tudo e todos que n�o concordem com isso. Mas imaginemos que tinha sido caricaturado Jesus Cristo. E a igreja tivesse dito que ofendiam a igreja e os seus ac�litos. Apenas com estes actos l� teriamos n�s os artigos da esquerda bem pensante que a Igreja era intolerante, fundamentalista, que tinha saudades do Torquemada, do Salazar, etc etc etc. Mas n�o, como foram os "coitadinhos" dos mu�ulmanos, j� tudo � permitido...
Pior ainda � o medo. A sensa��o que tenho de medo colectivo � bastante grande. Parece-me que os jornais portugueses que mostraram as imagens fizeram-no num misto de coragem com medo. Sinto que reflectiram muito, muito mesmo se as deviam publicar ou n�o. Posso estar enganado, mas pelo menos esse misto de medo-coragem reflecte-se pelos jornais e televis�es.
O pior de tudo � este relativismo: se justificarmos, se legitimarmos actos como invas�es e queima de embaixadas, amea�as ao nosso mundo ocidental como o vivemos hoje, estamos cada dia a alimentar o monstro. At� que um dia....

Apenas um epis�dio: o meu av� � uma pessoa profundamente cat�lica. Quando um dia o jornal "expresso" publicou o c�lebre cartoon do Papa com o preservativo, deixou de comprar o seman�rio e escreveu uma carta a protestar. At� hoje. � esta a diferen�a entre dois mundos. Uma em que nos podemos sentir ofendidos e respondemos civilizadamente, e outra em que n�o h� espa�o para a critica. Pacheco Pereira tem raz�o. Ou h� ou n�o h� liberdade. O resto � ret�rica, demagogia e populismos.

(Filipe Figueiredo)

*

Como sou um leitor seu � muitos anos gostaria de lhe transmitir em rela��o ao caso das caricaturas um ponto de vista n�o referido:- Os desenhos t�m piada.
N�o percebo porque � que o argumento do m�rito artistico n�o � colocado, n�o s�o propriamente rabiscos sem o m�nimo sentido est�tico.
T�m sentido de humor, acutil�ncia, tra�o, nervo...s�o arte.
Se perdemos o nosso sentido de humor e capacidade de rirmos com cat�licos, islamitas, xintoistas, budistas e todos os da�stas estamos a capar a nossa liberdade.

PS: Coloque um imagem do Jos� Vilhena para chatear os moralistas.(*)

(Gon�alo Carvalho)
(NOTA de JPP: Vilhena tem muitas caricaturas de Deus-Pai e de Cristo.)

5.2.06
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DISCORD�NCIAS



Estas s�o algumas das mensagens que leitores do Abrupto me enviaram sobre a quest�o das caricaturas dinamarquesas. S�o representativas da esmagadora maioria da correspond�ncia recebida. Raras vezes comento o que os leitores, que comigo "fazem" o Abrupto, entendem dizer, em particular quando exprimem opini�es diferentes da minha. Neste caso, discordo, discordo de todo, com o que dizem. Anoto apenas a minha surpresa com a facilidade com que s�o postos em causa valores que sempre pensei serem parte fundamental da nossa vis�o civilizacional da sociedade, aceitando-se uma relativiza��o que, penso, p�e em causa o cerne desses valores. O nosso entendimento de liberdade, de express�o e opini�o, tem no centro o direito de os outros se exprimirem com toda a liberdade, mesmo que isso nos ofenda. � o direito de os outros dizerem aquilo que mais nos choca, que quem ama a liberdade defende acima de tudo. N�o h� relativiza��o poss�vel para este crit�rio, o �nico que est� em causa face a desenhos sat�ricos que s�o, em �ltima raz�o, desenhos pol�ticos. A maior das mistifica��es est� em se pensar que estamos perante uma quest�o religiosa, quando se est� perante uma quest�o pol�tica.

*
Relativamente ao seu post no Abrupto, do passado dia 3 de Fevereiro do corrente,(o post das 14.32) permita-me discordar, vivamente de si, quando afirma, relativamente � quest�o das caricaturas dinamarquesas que e passo a citar"� extremamente simplese come�a e acaba numa linha: � uma quest�o de liberdade. Ou h� ou n�o h�".
Confesso-lhe que me senti absolutamente desiludida por esta afirma��o vinda de uma pessoa com a sua forma��o filos�fica, quando conhece o estatuto �ntico da liberdade. Como sabe esta quest�o ultrapassa qualquer questi�ncula filos�fica, porque afecta algo que est� para al�m do bem e do mal, do certo e do errado, do verdadeiro e do falso. O que est� em causa s�o princ�pios e valores, abra�ados por um bili�o e meio de pessoa, que traduzem uma absoluta F� em Deus. Al�m disso, qualquer meio de comunica��o social cred�vel tem um estatuto editorial, em que fundamenta as linhas orientadoras das suas publica��es. Quando se insinua algo de falso num org�o de comunica��o social, quem � visado tem o direito de recorrer �s vias legais para defender o seu bom nome.
O que acontece aqui � que o bom nome do profeta (saw) foi posto em causa, assim como os princ�pios e fundamentos do Isl�o, situa��o perigos�ssima, associada a uma absoluta falta de informa��o sobre o que � ser-se mu�ulmano/a. Perante a publica��o de inj�rias e difama��es, camufladas de s�tira inocente, s� se poderia assistir ao levantamento das popula��es mu�ulmanas contra o que se passou, com todas as situa��es perigosas e conden�veis que surgem associadas a estas situa��es.
A publica��o destes cartoons s� � compar�vel � propaganda anti semita perpetrada pelo regime nazi, na Alemanha, nos passados anos 30, do s�culo XX, que culminou no Holocausto. Se os Judeus, nessa altura tivessem reagido como agora o fizeram os mu�ulmanos, talvez se tivesse evitado o Holocausto.

Como mu�ulmana, como cidad� portuguesa, como europeia, sinto-me ultrajada por se conotar liberdade com tais pr�ticas.

(Rosa Barros da Costa)
*
Relativamente a este tema, discordo profundamente de si. � evidente que o direito de livre express�o e o direito de imprensa s�o, em qualquer Estado democr�tico que se preze, fundamentais e n�o devem ser tocados. Mas isso significa abuso? Se me permite uma analogia com o mundo jur�dico, se algu�m tem um direito � qualquer que ele seja � tal n�o significa que possa us�-lo conforme queira e bem lhe apete�a. Se o fizer, deixa de ser um uso leg�timo e passa a ser um abuso de direito. Porventura, saber� como esta figura nasceu e come�ou a ser aplicada: em Fran�a, no s�culo XIX, a prop�sito do uso da propriedade privada e das rela��es de vizinhan�a. O Sr. A n�o gostava do seu vizinho, B, e decidiu �prejudic�-lo� construindo uma chamin� t�o alta que lhe fazia sombra o dia inteiro, impedindo-o assim de gozar o sol. Alegadamente, f�-lo no uso leg�timo de um direito � o de propriedade � at� a� de forma indiscut�vel. S� que os tribunais consideraram que tal uso era ileg�timo, porquanto lesava um direito alheio.

Ora, na quest�o das caricaturas, h� uma coisa que me faz profunda esp�cie: que sobranceria � a nossa (cat�licos, agn�sticos, ateus, etc.) para tentarmos impor os nossos valores a uma cultura por sinal milenar que deveria, no m�nimo, merecer-nos respeito? Ontem mesmo o Jos� Manuel Fernandes deu a resposta quando deu o exemplo de n�o se fazer uma 1.� p�gina de um jornal com uma imagem pornogr�fica. Porqu�? Porque ofende os nossos valores e a nossa sensibilidade. N�o se passar� a mesma coisa com a publica��o de imagens do Profeta Maom�? Se para si ou para mim a sua publica��o n�o � ofensiva, tamb�m ter� que o n�o ser para os mu�ulmanos? Que direito � livre express�o se sobrep�e ao respeito que nos deve merecer outras cren�as e formas de vida?

O problema � que hoje em dia n�o se acredita em nada. Ao ver na SIC-N a entrevista do Jo�o Adelino Faria e da Ana Louren�o ao Sheik Munir, fiquei chocado quando o primeiro, a certa altura, perguntou se o Sheik n�o considerava desmedida esta reac��o do mundo isl�mico, vista que se tratavam apenas de �desenhos� (sic)!!

Sem discutir que os mu�ulmanos devem, em muitos aspectos, �abrir� a actualizar as suas cren�as, considero que esta iniciativa do mundo ocidental apenas tem o efeito contr�rio e n�o ajuda a pacificar a coexist�ncia entre os dois mundos.

(Rui Esperan�a)

*

Basta ler a Constitui��o, o C�digo Penal e Lei de Imprensa, sem mencionar uma infinidade de literatura jur�dica sobre o assunto, para compreender que a liberdade de imprensa, a liberdade de express�o, a liberdade art�stica e todas as liberdades t�m limites. T�m limites jur�dicos, t�m limites morais e t�m limites de bom senso.
Mas, para compreender isto, � preciso n�o ser t�o fundamentalista como os outros fundamentalistas. Ser fundamentalista � recusar o outro, recusar ouvir, recusar pensar, recusar conceder.
O que h� entre o Isl�o e o Ocidente n�o � um conflito de culturas, nem um conflito de religi�es: � um conflito de estupidezes.
Todas as terras, todos os povos, todas as religi�es t�m os seus est�pidos. Quando eles dominam, � uma estupidez.
� um estupidez provocar e agravar uma situa��o que j� n�o � boa.
Que Deus - o mesmo Deus dos judeus, dos crist�os e dos mu�ulmanos - nos acuda, e fa�a cair do C�u, como o man� na Biblia, um bocadinho de intelig�ncia.

(Pedro Pais de Vasconcelos)

*

Li o seu post sobre a publica��o das fotos dinamarquesas e eu, que muito gosto de o ouvir e ler, n�o o comprendi. Acha que a liberdade existe em absoluto?

(M.J. C. Moreira)

*

Parece-me que a quest�o n�o � t�o simples como a p�e. A liberdade tem o seu pendant, como o direito: acaba aonde come�a o do outro.

(Monika Kietzmann)

*

Juro que adorava saber qual foi a sua reac��o quando surgirem problemas parecidos com estes em Portugal.

Gostava de saber se o seu racioc�nio na altura foi t�o esquem�tico quando os cat�licos se insurgiram, por exemplo, contra O Evangelho segundo Jesus Cristo ou a r�bula que o Herman Jos� fez da �ltima ceia de Jesus Cristo. H� muita gente agora indignada contra os mu�ulmanos que na altura tomaram partido da Igreja.

(M�rio Azevedo)

*

"A hist�ria das caricaturas dinamarquesas � extremamente simples e come�a e acaba num linha: � uma quest�o de liberdade. Ou h�, ou n�o h�."
No contexto actual � mais do que "uma quest�o de liberdade" � tamb�m uma quest�o de bom senso. Num clima "conflituoso" como aquele em que vivemos (Ocidente) com o mundo isl�mico (mais fundamentalista) era de esperar. Ou � ignor�ncia ou insensatez.

(Concei��o Soares)

*

Acho que toda a gente j� se esqueceu dos casos equivalentes c� no Burgo. Lembram-se das manifs de cat�licos � porta das amoreiras por causa da Sagrada Fam�lia com uma alface no lugar do menino? � certo que n�o se incendiaram bandeiras nem se dispararam tiros, mas seria bom que todos tivessemos a no��o que se trata de um tema que n�o � simples, ao contr�rio do que voc� diz. E que todos pensassemos um pouco na velha m�xima "n�o fa�as aos outros o que n�o gostas que te fa�am a ti"

(Jo�o Paulo Telo)

*

�A hist�ria das caricaturas dinamarquesas � extremamente simples e come�a e acaba NUMA LINHA: � uma quest�o de liberdade. Ou h�, ou n�o h�.

A realidade n�o � assim t�o simples pois, nas rela��es humanas, h� OUTRAS LINHAS, que n�o s�o PARALELAS mas sim CONCORRENTES:

Toda a gente sabe que �a nossa liberdade termina onde come�a a dos outros�, e �a liberdade de n�o ser insultado� � - algu�m tem d�vidas? - uma delas.

Acresce que, normalmente, um conflito desses se resolve nos tribunais mas, neste caso, isso n�o ser� poss�vel.

NOTA: Eu vivi de perto a realidade de tr�s pa�ses mu�ulmanos (Marrocos, Tun�sia e Arg�lia) e vejo que, neste caso, h� uma dose de insensibilidade que ultrapassa (em quantidade e qualidade) o que eu julgaria ser poss�vel hoje em dia.

(C. Medina Ribeiro)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL HOJE, DOMINGO, DIA DE DESCANSO





Pequeno almo�o dos feirantes em S. Jo�o da Corveira, Carrazeda de Montenegro, Tr�s-os-Montes. Hoje de manh�, � primeira luz, num ch�o coberto de gelo.

4.2.06
 


COISAS SIMPLES


Edward Ruscha, Us
 


EARLY MORNING BLOGS 714

Samuel Gardner

I who kept the greenhouse,
Lover of trees and flowers,
Oft in life saw this umbrageous elm,
Measuring its generous branches with my eye,
And listened to its rejoicing leaves
Lovingly patting each other
With sweet aeolian whispers.
And well they might:
For the roots had grown so wide and deep
That the soil of the hill could not withhold
Aught of its virtue, enriched by rain,
And warmed by the sun;
But yielded it all to the thrifty roots,
Through which it was drawn and whirled to the trunk,
And thence to the branches, and into the leaves,
Wherefrom the breeze took life and sang.
Now I, an under-tenant of the earth, can see
That the branches of a tree
Spread no wider than its roots.
And how shall the soul of a man
Be larger than the life he has lived?


Dow Kritt

Samuel is forever talking of his elm --
But I did not need to die to learn about roots:
I, who dug all the ditches about Spoon River.
Look at my elm!
Sprung from as good a seed as his,
Sown at the same time,
It is dying at the top:
Not from lack of life, nor fungus,
Nor destroying insect, as the sexton thinks.
Look, Samuel, where the roots have struck rock,
And can no further spread.
And all the while the top of the tree
Is tiring itself out, and dying,
Trying to grow.


(Edgar Lee Masters)

*

Bom dia!
 


OBSERVA��ES P�S-PRESIDENCIAIS



N�o se ouviu at� agora uma �nica palavra de cr�tica, reflex�o, an�lise, seja l� o que for, por parte daqueles que patrocinaram ou deram cobertura � aventura de M�rio Soares. O que todos eles est�o a fazer � a bater em Alegre numa �ltima manifesta��o de mau perder. O tardo-soarismo acha que n�o tem qualquer responsabilidade no que aconteceu, mesmo no resultado de Alegre.

3.2.06
 


UMA DAS MINHAS CASAS FAZ CEM ANOS


l� estarei para comemorar.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL


Limpador de janelas.

(Afonso Azevedo Neves)
 


BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES
(3 de Fevereiro de 2006)


___________________________

A hist�ria das caricaturas dinamarquesas � extremamente simples e come�a e acaba numa linha: � uma quest�o de liberdade. Ou h�, ou n�o h�.

O que � novo e precupante s�o as toalhas de palavras e justifica��es que come�am a ocultar o que devia ser absolutamente simples e onde qualquer palavra a mais � demais.

*

Novos problemas (da BBC News) :

"Libraries have warned that the rise of digital publishing may make it harder or even impossible to access items in their collections in the future. Many publishers put restrictions on how digital books and journals can be used. Such digital rights management (DRM) controls may block some legitimate uses, the British Library has said. And there are fears that restricted works may not be safe for future generations if people can no longer unlock them when technology evolves. The British Library spends �2m of its �16m annual acquisitions budget on digital material, mainly reference books and journals. "
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL



Ao ver as fotos que tem colocado do trabalho em Portugal, lembrei-me que aqui, no Arquivo Fotogr�fico Municipal da Figueira da Foz, temos uma quantidade de imagens relativas ao tema muito interessantes.Junto envio uma imagem relativa �s Marinhas de sal de Lavos de 1942.

(Guida C�ndido)
 


CRISTIAN BARBAROSIE / ANCA-MARIA TOADER
POEMAS PROIBIDOS DA ROM�NIA DOS TEMPOS DE CEAUSESCU


1

L� fora est� um gelo,
A minha casa est� um gelo.
Abro a janela e grito:
"Agrade�o ao Partido amado,
por me ter treinado !"

(An�nimo)

NOTA: Poema que circulava na altura de boca em boca.

2

Alexandru Andries - Dr�cula blues

Na corte do voivoda h� grande reuni�o,
Est�o fidalgos sentados, e alguns de p� est�o, Analisam problemas, discutem o que incomoda, o que n�o vai bem; Em lugar de honra, sentado, est� o pr�prio Dr�cula, O fidalgo Velea chama a presen�a e faz a contagem.

Levanta-se Basil e diz: "Meu Voivoda,
Estamos bem com a produ��o de cereais e de carne, Ultrapass�mos a planifica��o na ind�stria de res�duos E fui informado que j� ninguem rouba; "Na produ��o de paus para empalar, Meu Voivoda, somos os primeiros no mundo At� ultrapass�mos os americanos, sem receio, podemos diz�-lo!"

"Mas existem problemas mesmo na industria de paus!"
Levanta-se e diz o fidalgo Sulea Trepe.
"J� n�o temos madeira de pl�tano, a produ��o est� parada desde �ntem, E o carvalho, Dom Empalador, guard�mo-lo para fidalgos, Por isso proponho que se fa�am os paus de madeira de ameixoeira!
Haver� menos b�bados e a madeira � razoavelmente boa ..."

"� uma boa proposta", diz Dr�cula, "Proponho que a partir de amanh� comece a produ��o com madeira de ameixoeira!
Que tudo corra bem, o pau de empalar que fique bom Que n�o desprezem o projecto de design, Que o pau seja esbelto, que satisfa�a o cliente Que fique a condizer com o clima e o ambiente, Que enviem elementos do quadro para especializa��o, A poupan�a de madeira que n�o fique esquecida, Por um projecto judicioso que eliminem qualquer sofisma Do modo a que os pau resistem at� em caso de s�smo!"

3

Alexandru Andries - Mercearia blues

Abriu a mercearia ao lado da minha casa ...
As prateleiras est�o todas vazias,
A loja est� cheia de gente !

Passada meia hora chega a carrinha,
N�o sabemos o que trouxe, pois entretanto faltou a luz.

Ficamos todos na bicha duas horas e meia, N�s temos BIs, eles pedem passaportes !


NOTA - Nos anos 80, a capital Bucareste era melhor abastecida do que o resto do pa�s. Como consequ�ncia, muitas pessoas se deslocavam frequentemente para a capital, com o �nico objectivo de comprar comida. Para contrariar este fen�meno, as autoridades introduziram a medida de em Bucareste apenas venderem alimentos a pessoas com resid�ncia na capital, pelo que era exigida a apresenta��o do BI. Quanto a passaportes, ningu�m tinha, claro.

(Tradu��es originais)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM BUDAPESTE, HUNGRIA


A caminho do trabalho, Budapeste, 2002

(Paulo Azevedo)
 


EARLY MORNING BLOGS 713

La passe




Deux mondes s�abouchent ici. Pour ici monter, quels obstacles ! quelle refoul�e des caravanes ! quels gains r�p�t�s ! quels espoirs !

M'y voil�, dis-tu ? Souffle. Regarde : � travers l'arche de la Longue-Muraille, toute la Mongolie-aux-herbes d�ploie son van au bord de l'horizon.

C'est toutes les promesses : la randonn�e, la course en plaine, l'ambleur � l'�tape infinie, et l'�vasement sans bornes, et l'envol�e, la dispersion.

*

Tout cela ? Oui. Mais regarde une fois en arri�re : l'�pre mont�e, le rocailleux d�sir, l'effort all�gre et all�geant.

Tu ne le sentiras plus, la Passe franchie. Ceci est vrai.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!
 


BIBLIOFILIA: CAPAS DE POLICIAIS


2.2.06
 


A LENTA DISSOLU��O DOS PARTIDOS - FIC��ES DE BAIXO



Era uma vez um partido pol�tico no Reino do Volfr�mio. Era e n�o era. Era porque era, mas tamb�m n�o era. Confuso, n�o �? Era um h�brido, meio partido pol�tico, meio outra entidade nova que se estava a formar, mutante. Um monstro pois, mas um monstro que n�o era �nico. Todos os partidos pol�ticos do chamado Arco Constitucional do Reino eram id�nticos, mais coisa, menos coisa.

Comecemos por analisar o que acontece "em baixo", no rank and file partid�rio, para depois irmos "para cima". Imaginem um dirigente de segunda linha desse partido, o chefe da organiza��o num distrito, numa "prov�ncia", numa regi�o. � sua frente tinha uma d�bil m�quina eleitoral, e uma corpora��o, agrupando os respons�veis pol�ticos cujas carreiras eram reguladas pelas regras internas do partido, quase todas n�o escritas, e que se relacionavam num sindicato de interesses, esse sim poderoso.

A parte da m�quina eleitoral era cada vez menos importante e a organiza��o era mais eficaz para outros fins e objectivos do que para obter votos numa elei��o. Funcionava para garantir a prova de vida do partido, como factor de identidade para meia d�zia de velhos militantes que tinham "amor � camisola" e j� estavam por tudo. Os "idealistas", os que estavam "passados", os que era preciso "renovar" como diziam os "jovens", que tinham normalmente como programa garantir a "renova��o geracional", ou seja, retirar aos mais velhos todos os cargos que eles ainda podiam manter, ou todos os obst�culos que colocassem a serem eles sozinhos a mandar.

O que era fundamental numa elei��o eram as campanhas eleitorais, para que, gastando-se dinheiro, se alimentasse parte da corpora��o, que obtinha assim, em per�odos de campanhas eleitorais, lucros excepcionais. Obtinha-os do lado dos financiamentos, quase todos feitos por debaixo da mesa e fora do controlo das leis, e que permitiam que alguma coisa ficasse pelo caminho. Mas igualmente importantes eram as oportunidades de despesas eleitorais, sempre exigidas como necess�rias, mesmo quando era evidente que n�o havia qualquer correla��o entre o dinheiro que se gastava e os resultados eleitorais. As despesas alimentavam muitos burocratas da corpora��o, que eram intermedi�rios para compras de bens e servi�os, "brindes", marketing, publicidade, tipografias, cartazes, fotografias, salas, cantores, grupos rock, carros e camionetas. Antigos funcion�rios do partido tinham sa�do dessa condi��o para criarem "empresas amigas" que obtinham essas contrata��es em per�odos eleitorais e n�o s�, e que forneciam, a pre�os acima do mercado e com qualidade inferior, os mesmos servi�os que antigamente eram oferecidos ou pela milit�ncia gratuita ou pela actividade profissional. Pelo caminho ficava muita coisa: "jovens" que recebiam uma "gratifica��o" pela milit�ncia, paga por outros "jovens" que nunca tinham tido na m�o tanto dinheiro para pagar a "equipas" cuja exist�ncia e actividades n�o eram controladas por ningu�m. "Pais" que apareciam � porta das sedes para receber o "trabalho" dos filhos que tinham "andado na campanha com o compromisso de serem pagos", e entretanto desaparecera o dinheiro. Numa campanha distrital em que se gastou uma grande fortuna, no fim nem um prego sobrou. Por singular coincid�ncia, todos os bens comprados eram perec�veis, ou desapareceram por milagre no dia seguinte: computadores, impressoras, telem�veis, etc., etc.

O que � que se esperava desse dirigente de segunda linha? Que ganhasse elei��es? Longe disso, ganhar elei��es era um resultado superveniente, que muitas vezes trazia complica��es refor�ando a independ�ncia do dirigente em causa, fazendo-o escapar ao controlo da burocracia corporativa. Esperava-se que actuasse da melhor maneira para gerir as carreiras pol�ticas que dele dependiam, que alargasse o campo da empregabilidade para cada um e a sua fam�lia, fizesse um upgrade dos empregos e, em tempos infaustos, que n�o os perdesse. Esperava-se que fosse o chefe do sindicato de dentro, n�o o int�rprete das esperan�as de fora.

Havia nos livros do partido uns milhares de militantes, mas efectivamente estes n�o existiam como tal. Em cada sec��o do partido existiam cem, duzentos, mil inscritos, de que nem dez por cento frequentavam as sedes e as reuni�es, e metade destes eram membros da nomenclatura partid�ria. A esmagadora maioria dos membros que apareciam como pagando cota efectivamente n�o as pagavam, mas sim o presidente da sec��o ou o presidente dos "jovens" que os tinham como massa de manobra eleitoral. O pagamento colectivo de cotas era uma maneira de manter o controlo pol�tico de sec��es, federa��es e distritais, ou de inflacionar o n�mero de militantes para garantir mais poder de negocia��o e mais delegados em congresso. Numa sec��o, o n�mero dos militantes habitual eram oitenta, mas na v�spera de cada acto eleitoral duplicava pela m�o do presidente, que depois os fazia desaparecer at� � pr�xima vez. Assim poupava nas cotas e garantia a reelei��o, ao mesmo tempo que atrasava as filia��es novas, que metia numa gaveta.

Havia casos em que os militantes nem sequer existiam, eram "fantasmas". Moravam todos numa �nica casa, para terem uma concentra��o numa sec��o quando era �til em termos de sindicato de voto "ganhar" a� as elei��es. Falava-se de um talho, ou de um n�mero numa rua que era um tapume, e onde "moravam" dezenas de militantes. O controlo dos cadernos eleitorais e dos registos de filia��o, das listas de mailing e outras, eram essenciais para manipular elei��es. Havia m�todos sofisticados e primitivos. Uma vez um respons�vel dos "jovens" foi descoberto a assinar delega��es de voto em s�rie, cometendo o pequeno erro de o fazer em rela��o a um militante que entretanto tinha ido para a Austr�lia e deixado de dar not�cias. Foi apanhado na falsifica��o, mas essa pequena circunst�ncia n�o lhe impediu continuar uma carreira dentro do partido sem qualquer sobressalto. Ali�s, nenhuma destas malfeitorias, conhecidas de todos e comentadas ao sabor das amizades e inimizades, tinha qualquer papel nas carreiras militantes.

Embora o partido fosse �nico, havia uma feroz competi��o entre tr�s grupos organizados, que se aliavam, se separavam, se fundiam e distinguiam conforme as circunst�ncias: os "jovens", os "trabalhadores" e os adultos. Atrav�s de mecanismos de iner�ncias de voto, era poss�vel potenciar a representa��o. Os adultos eram na sua maioria os que estavam l� como se aquela fosse a sua fam�lia, eram os do "amor � camisola", ou outros nunca l� iam a n�o ser quando se lhes pedia para ir votar no amigo, no familiar, no colega. Alguns eram antigos "jovens" e mantinham mecanismos a que chamavam de "solidariedade geracional", ou seja, organizavam-se entre si para manter uma transum�ncia do poder � medida que iam dos "jovens" para adultos.

(Continua)

*

Sem partidos pol�ticos, sem representa��o das "partes" pol�ticas e ideol�gicas, n�o h� democracia representativa, a �nica que conhe�o que existe como democracia. Mas destas m�quinas de interesses e carreiras n�o precisamos. O autor � ing�nuo e pensa que h� partidos fora deste estado dos partidos no Reino do Volfr�mio? Pensa, o que pode ser a maior das ingenuidades.

(No P�blico)

*
Depois de ler o seu artigo lembrei-me, ainda, do livro de Anthony Sampson, Who runs this place?
"...(hoje) entram nos partidos como numa associa��o e v�o subindo na hierarquia, sem necessitarem de outros conhecimentos. O resultado � um "paradoxo": quanto mais profissionais s�o os pol�ticos menos representam os comuns eleitores. Os partidos deixam de representar ideais fixos, antes s�o uma coliga��o tempor�ria de interesses...
"

Anthony Sampson, Who runs this place?: the anatomy of Britain in the 21st century, Ed. John Murray, 418 pg, 2004

(Nuno de Matos)

*

1.A realidade estatut�ria ao atribuir aos Presidentes das Distritais o poder de indicar os candidatos para deputados, para org�os aut�rquicos, para empresas p�blicas, aut�rquicas e mesmo lugares da administra��o p�blica apurou uma ra�a que luta pela vida. Pela sua vida. Obviamente vencedora sobre os que trabalham e est�o na politica por contributo civico e ideol�gico.

2. Assim a vida partid�ria reduziu-se � luta pelas distritais. Esta luta come�a no controle das Sec��es. Apoia-me que eu te apoio agora e no futuro. Na lista do Eng.Carmona est�o todos os Presidentes das sec��es de Lisboa do PSD.

3. Assim uma revis�o estatut�ria para promover a regenera��o do Partido precisa de retirar aqueles poderes �s distritais.

4. Quanto �s quotas � muito simples. Que o ter as quotas pagas deixe de ser uma exig�ncia para se poder votar. Em contrapartida quem tiver as quotas por pagar ao fim de dois anos deve receber um aviso para as pagar em quinze dias, passados os quais deixar� de ser, administrativamente, militante do partido.(Podendo eventualmente ser colocado num ficheiro de simpatizantes)

(Ant�nio Alvim)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MAU AMBIENTE



No seguimento de seu pertinente coment�rio de ontem na SIC-N relativo a eventuais contrapartidas ambientais para os previstos novos projectos que se avizinham para o Pais, penso ser extremamente oportuno que tome conhecimento da situa��o relativa ao controlo das emiss�es atmosf�ricas em fontes fixas industriais. De facto partir o passado dia 23 de Janeiro de 2006 uma portaria (em anexo) isenta cerca de 95% das empresas do Pais do cumprimento dos valores limites de emiss�o (VLE) e do autocontolo das suas emiss�es, dado o exagero que os caudais massicos minimos admissiveis passaram a ser .Embora provavelmente seja leigo nestas quest�es poder� verificar que com esta nova Portaria as empresas podem emitir sem qualquer tipo de problema e sem necessidade de autocontole (apenas um vez de 3 em 3 anos, que obviamente v�o dar bem...) os seguintes valores:

Monoxido de carbono .120 Kg/dia por fonte(chamin�)
Particulas 12 Kg/ dia. chamin�
Dioxido de enxofre: 48 Kg/dia.chamin�
Oxidos de azoto: 48 Kg/dia .chamin�
Compostos organicos volateis: 48kg/dia. chamin�
etc.

E n�o, n�o me enganei ao referir kilos/dia, sendo que o que talvez seria de esperar nestes �reas seriam gramas ou miligramas/dia !......
Mais grave � o facto desta portaria ter sido elaborada (encomendada?) no governo de Nobre Guedes e um ano depois e embora alvo de contesta��es de empresas do sector com conhecimentos das reais e graves implica��es da sua aplica��o, nada tenho sido alterado nem nos tenha sido sequer dada a possibilidade de expormos o nosso ponto de vista neste claro retocesso ambiental contra tudo o que seria de esperar neste momento!


(Pedro Silva)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota OS NOVOS CONSERVADORES.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL


Trabalho na constru��o da Seca do Bacalhau em Lavadores V. N. de Gaia, nos anos quarenta.

(Francisco Bernardo)
 


LENDO / VENDO /OUVINDO
(BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�ES, IMAGENS, SONS, PAP�IS, PAREDES)
(2 de Fevereiro de 2006)


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Manuel Pinto no Jornalismo e Comunica��o sobre o "caso Teresa e Lena":
"Desenvolvimentos desta linha de pesquisa vieram chamar a aten��o para o facto de que, tamb�m a montante, o poder de agendamento se pode exercer. Ou seja, as fontes, por efeitos da sua crescente organiza��o e profissionaliza��o, ou em consequ�ncia de se terem socializado nos valores-not�cia do jornalismo dominante, encontrariam, cada vez mais, formas de influenciar e marcar a agenda medi�tica.
O "caso Teresa e Lena" constitui, nos tempos mais recentes, um dos melhores exemplos desse poder de agendamento. E tem todos os ingredientes para p�r um certo jornalismo a salivar. Foi pensado para isso e vai seguramente conseguir o que projectou. Veremos."

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Vidas e obras (neste caso obra): Harper Lee que escreveu To Kill a Mockingbird e que, gregarious for a day, aparece uma vez por ano.

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As rela��es (ou a aus�ncia delas) entre a filosofia ocidental e a oriental neste muito interessante artigo da Prospect:
"Kumarila claims that something that is called an "I" exists, established by the fact that an I is constantly present in thinking. Sankara, however, argues that this only shows that there is subjectivity �the presence of consciousness�not that there is an object named "I." The apparent existence of an objective self is an illusion, created by the logic of the grammatical use of "I" in language.

Strange names, certainly. Strange thoughts? Anybody who has read philosophy in the west will not think so�provided that Kumarila (7th century) is replaced with Descartes (17th) and Sankara (8th) with Kant (18th). The point is not the polemical one about whether it was Indians or Europeans who had these thoughts first (the ancient Greeks and early Islamic thinkers are also in the running). The point is not that the Indians deserve study because they thought like Europeans. The point is simply that, for many reasons, the Indian thinkers are unknown to contemporary western philosophy, and are likely to remain so. The same is true of Chinese thinkers."
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Mist�rio dos blogues: estes dois, que apareceram a saudar a neve, continuam l� em baixo divertidos, ou param quando n�o os vemos? E nunca se cansam?

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Bom, bom:
Post parido a meias com o JPH ( e mais uma data de gente)

-Com quantas mulheres j� estiveste?
-Visits ou page views?
(No Mau Tempo no Canil, e com Mozart)
 


RETRATOS DO TRABALHO NO BANGLADESH



No passado m�s de Novembro tive a oportunidade de regressar um m�s � �ndia e ao Bangladesh como bolseiro da Funda��o Oriente para fotografar e registar os "desmantelamentos de barcos" de grande porte nas praias. � um problema grav�ssimo a dois n�veis: social e ambiental. Neste momento preparo um artigo para ser publicado na revista da Funda��o Oriente que descreve exactamente toda esta problem�tica, ou melhor, o trabalho publicado ser� fotogr�fico - o artigo ser� complementar para a percep��o das imagens.

Junto envio fotografias minhas referentes a este trabalho, que fazem parte do "lote" revelador do fen�meno socio-ambiental do shipbreaking [mais especificamente nas praias de Chittagong, no Bangladesh] t�o desconhecido por estes lados. Estas fotos j� foram apresentadas na televis�o [na :2] em Janeiro, num programa sobre os bolseiros da F. O. e para al�m disso tamb�m est�o online no meu blog nos arquivos do mesmo m�s.

Ver tamb�m
Post publicado no meu blog de arquitectura.

(Pedro Duarte Bento)
 


RETRATOS DO TRABALHO EM MO�AMBIQUE



Ntaluma, um escultor Makonde (Norte de Mo�ambique).

As esculturas Makonde s�o bastante elaboradas e interessantes e s�o normalmente vendidas a turistas e coleccionadores.

(Jaime Machado)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TUDO � NOME DE BLOGUE

- M�e, M�e como � que � o pret�rito mais que perfeito do verbo CUMPRIR?

- N�o sei. Deixa-me pensar, o pret�rito perfeito � eu cumpri, o imperfeito eu cumpria ... mas o mais que perfeito n�o estou a ver ....

- E eu esqueci-me da gram�tica na escola.

- Huuummm e se f�ssemos ao Google?

- Aposto em como n�o d� nada. Ou � um nome de um blogue.

- Vamos ver ....

... dez segundos: olha, olha: � "Eu cumprira"!

- V�s? A internet � o m�ximo, podemos aprender TUDO!

- � M�e pod�amos fazer um blogue os dois, chamado "Pret�rito mais que perfeito", um blogue para mi�dos e gra�dos! Eu escrevia palavr�es e a M�e escrevia sobre o S�crates! E ganh�vamos imenso dinheiro!

(R.)
 


COISAS SIMPLES


David Smith, Carta
 


EARLY MORNING BLOGS 712

Class-Mates

Bob Briggs went in for Government,
And helps to run the State;
Some day they say he'll represent
His party in debate:
But with punk politics his job,
I do not envy Bob.

Jim Jones went in for writing books,
Best sellers were his aim;
He's ten years younger than he looks,
And licks the heels of Fame:
Though shop-girls make a fuss of him
I do not envy Jim.

Joe Giles went in for grabbing gold,
And grovelled in the dirt;
He, too, looks prematurely old,
His gastric ulcers hurt:
Although he has a heap of dough.
I do not envy Joe.

I've neither fame nor power nor wealth,
I fish and hunt for food;
But I have heaps of rugged health,
And life seems mighty good.
So when my class-mates come to spend
A week-end in my shack,
With lake and wood at journey's end
--They envy Jack.


(Robert William Service)

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Bom dia!

1.2.06
 


OS NOVOS CONSERVADORES



�-me bastante indiferente esta pol�mica sobre o casamento para homossexuais, que n�o penso que toque nada de importante quer no que se adquiriu de toler�ncia na sociedade, quer no que n�o se adquiriu. E aqui toler�ncia � o direito de cada um viver como entende.

Mas, poucas coisas conhe�o mais conservadoras do que reivindicar o �casamento� para os homossexuais. Nem mais nem menos do que o �casamento�, essa sobreviv�ncia na lei do mandamento crist�o-cat�lico. Se a reivindica��o fosse feita � Igreja, para um acto religioso por parte dos crentes, ainda se entendia. Mas exigi-lo ao Estado, d� como resultado refor�ar-se ainda mais a centralidade da institui��o �casamento� nas rela��es afectivas, e isso parece-me conservador, para n�o dizer outra coisa. O que � que se espera no �casamento� que n�o se tem na uni�o de facto? A obriga��o contratual de �fidelidade�?

Sou avesso a que o Estado legisle muito sobre intimidades, afectos e modos de vida. Isto de se valorizar a diferen�a, de se andar a dizer �todos diferentes, todos iguais�, s� tem sentido quando de facto valorizamos a diferen�a e n�o quando queremos que se normalize a sociedade, se mate a diversidade. E quanto aos argumentos legais, se � assim, ent�o por que n�o se aceita a poligamia na ordem jur�dica? Mormons e mu�ulmanos n�o t�m direito � sua vis�o do mundo? Podem ser discriminados por raz�es religiosas? N�o � contra a Constitui��o?

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H� dias, as duas l�sbicas que pretendem casar-se foram entrevistadas por um canal de televis�o e, no decorrer da entrevista, uma delas deu como motivo para se quererem casar o desejo de terem os mesmos direitos que os casais heterossexuais. Por sua vez, a sua leitora Ana Mouta enviou-lhe um e-mail com uma lista de direitos dos casais que n�o est�o em vigor no caso das uni�es de facto.

O que me impressiona nestes dois casos � que s� se discutam os direitos ao mesmo tempo que se ignoram totalmente os deveres. Mas num casamento tamb�m h� deveres. Com efeito, o C�digo Civil declara que �[o]s c�njuges est�o reciprocamente vinculados pelos deveres de respeito, fidelidade, coabita��o, coopera��o e assist�ncia�. Ou ser� que o que se pretende aqui � que as uni�es de facto tenham os mesmos direitos que o casamento mas nenhuns deveres?

Nada tenho contra o casamento entre homossexuais, desde que se trate efectivamente de um casamento, ou seja, com os mesmos direitos e deveres que o casamento entre heterossexuais.

(Jos� Carlos Santos)
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Parece-me completamente errado atribuir �s uni�es de facto uma quase equival�ncia ao casamento. O que � que fazem duas pessoas que querem viver juntas sem os compromissos, direitos e deveres inerentes ao casamento? Por este andar j� nem sequer podem optar por uma uni�o de facto, pois ficam automaticamente quase casados! N�o se podem tratar aos adultos como crian�as. Quem n�o se casa tem obriga��o de saber que a sua situa��o �, por defini��o e segundo a lei, menos "est�vel" do que quem resolve "assinar os pap�is". Tal como num contrato de outra esp�cie qualquer, a informalidade tem vantagens e inconvenientes. Deixemos as pessoas escolherem o que querem para si, sem lhes tentarmos impingir um quase-casamento � for�a de uma lei super-protectora.

(Tiago Fernandes)
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Quando diz, no post "Os novos conservadores", "O que � que se espera no �casamento� que n�o se tem na uni�o de facto? A obriga��o contratual de �fidelidade�?", posso dar-lhe alguns exemplos:
-O direito de visita, enquanto familiar, nos hospitais e nas pris�es; -Direitos sucess�rios, nomeadamente a possibilidade de herdar patrim�nio comum; -As actuais leis de imigra��o portuguesas s�o restritivas dos direitos. A Uni�o de Facto n�o � �til, pelo menos de forma directa, para os processos de legaliza��o, visto que a Lei das Uni�es n�o prev� o direito ao reagrupamento familiar; -Da mesma forma n�o est� previsto o reconhecimento em Portugal de uni�es de facto celebradas noutros pa�ses, nem sequer no �mbito da UE; -A forma de p�r fim � Uni�o de Facto n�o est� regulamentada.
(Fonte: Portugal Gay)

O conceito de "casamento civil" n�o � mais do que uma "uni�o de facto" com todos os direitos, n�o tem nada de conservador.

(Ana Mouta)
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J� Foucault defendia que os homossexuais deviam aproveitar a situa��o em que se encontravam para constru�rem "rela��es outras", em que as rela��es de poder/resist�ncia encontrassem novas din�micas. Poderiam assim criar transformar uma limita��o que sobre eles pesava numa oportunidade mais ou menos revolucion�ria. A ideia � apelativa e tem muitos seguidores no seio do que hoje se chama "queer theory".

Mas nem todos os gays ser�o assim t�o revolucion�rios. A maioria ser� at� t�o conservadora quanto aqueles que os cercam, pois � nessa comunidade que a sua felicidade �, ou n�o, poss�vel. N�o admira portanto que queiram aceder de pleno direito �s mesmas institui��es que lhes s�o apresentadas como normativas. Ora em Portugal ningu�m quer aceder ao direito de ser polig�mico, pela simples raz�o de que esse direito n�o existe para ningu�m, logo o princ�pio da igualdade n�o � violado.

(Oct�vio Gameiro)
 


RETRATOS DO TRABALHO NA INDON�SIA


Estivadores em Jacarta. "O descarregamento de teca do Born�u no velho porto de Sunda Kelapa, onde ainda abundam estas fant�sticas "escunas de Macassar".

(Madalena Ferreira �hman)

 


OUVINDO GATES



hoje de manh�. Gates demorou quinze segundos a chegar ao tema principal. O tema foi a propaganda da Microsoft, precedida de um an�ncio publicit�rio em filme. Ele faz muito bem, vende o que tem para vender. N�s � que somos muito provincianos, tratando a sess�o de publicidade como uma confer�ncia.
 


RETRATOS DO TRABALHO EM PORTUGAL





Trabalho na oficina de restauro do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, actualmente encerrada para remodela��o mas sempre em trabalho de manuten��o. (2005)




Oper�rias da Medinfar, em Condeixa-a-Nova. (2006)

(Paula Alexandra Almeida)
 


DE REGRESSO

muito em breve. A caminho.

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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