ABRUPTO

30.11.05
 


DE REGRESSO

Em breve, not�cias russo-francesas, venezianas e luso-portuguesas.

24.11.05
 


JUDEU ERRANTE


Mais uma corrida, mais uma viagem.
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(24 de Novembro)



Sobre as leituras de sondagens aparentemente contradit�rias e outras prud�ncias e rigores a acautelar, veja-se Ponto de situa��o e Numeracia, precisa-se no Margens de Erro.

*

Muitas e interessantes sugest�es tem vindo a ser-me enviadas para um t�tulo do LENDO / VENDO. Como vou de novo fazer de judeu errante durante uns dias s� poderei trata-las em breve.
 


COISAS COMPLICADAS


Edward Ruscha
 


EARLY MORNING BLOGS 652

Homenagem a Ces�rio Verde


Aos p�s do burro que olhava para o mar
depois do bolo rei comeram-se as sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um �ltimo cigarro
um feij�o branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha
Chegou a noite e foram todos para casa ler Ces�rio Verde
que ainda h� passeios ainda poetas c� no pa�s!

(M�rio Cesariny)

*

Bom dia!

23.11.05
 


VER



o Primeiro-ministro a responder aos blogues da micro-causa, no discurso de apresenta��o propagand�stica da OTA, como ali�s j� tinha feito na Assembleia com a cena dos CDs, � um bom retrato dos tempos de hoje, que muitos continuam a n�o querer perceber. Ele f�-lo por arrog�ncia, convencido que ganha uns pontinhos, mas est� muito enganado.

A controv�rsia da OTA s� come�ou e come�ou mal. Como se pode ver pelos estudos que j� est�o dispon�veis, (e conv�m lembrar aos propagandistas socialistas que o governo n�o est� a fazer favor nenhum em divulga-los, nem tem que ser louvado por isso), a decis�o tem pouco a ver com os estudos. Percebe-se isso muito bem fazendo uma antologia das contradi��es governamentais sobre uma mat�ria t�o importante como a rede de transportes que servir� o aeroporto.

Voltarei ao assunto em breve.

NOTA: o assunto vai ser discutido na Quadratura do C�rculo de hoje.

22.11.05
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(22 de Novembro)



Entre as sugest�es recebidas para o nome desta "coluna" est�o: "mirando" (A. Matos Rodrigues), "perscrutando" ou "perscrutando a rede" (Rodrigo Costa), "mediando" (Tiago Azevedo Fernandes). Cla�dia Silva sugere: "por este rio acima: papel e sil�cio", explica��o (�bvia, mas imp�e-se): por este rio acima: roubado a Fausto, d� a id�ia de stream (na minha modesta opini�o, papel: jornais e livros arrumados, sil�cio: arrumados os restantes media que usem circuitos electr�nicos (sejam eles anal�gicos ou digitais)".

A quest�o tamb�m � entre isto e isto .

*

A exibi��o de loucura mansa que � a nova coliga��o alem�, mostra como a vontade dos pequenos poderes � hoje t�o apetecida que faz esquecer o mais elementar bom senso. Talvez porque j� n�o haja grandes poderes, e s� sobrem os pequenos. Mas esta coliga��o nunca pode dar resultado pelas melhores raz�es, s� pode subsistir pelas piores. Ser� um bom exemplo de como os "blocos centrais" s�o p�ssimas solu��es de governo, a n�o ser que se esteja em guerra. Teria sido muito melhor ter feito elei��es de novo. Mesmo contra a vontade dos alem�es que parecem desejar esta mistura mals�. � aqui que a pol�tica devia ser uma ultima ratio e n�o �.

*

Temas e m�sica de fundo para o Super Mario em marimbas. Podem usar em campanha para n�o andarem t�o s�rios.

*

Um grande Rocketboom como de costume, com luzes de Natal, o computador a manivela para os pobres, e o aumento da robotiza��o na rede com coisas como o Diggdot.us, o equivalente digital da linha de montagem da Ford, produzindo carros baratos para as massas.

*

Traffic flow no kottke.org.

*

A psican�lise de "mon ami Mitterrand" em breve em livro. Isso mesmo, as conversas de Mitterrand com o seu psicanalista. Primeiras revela��es no Sunday Times.
 


COISAS SIMPLES / AR PURO


Edward Henry Potthast, Rushing Stream
 


EARLY MORNING BLOGS 651

Escrito em Verona

As coisas n�o se v�em por metade.
Ou passas e as fitas de repente
pousando um longo olhar de eternidade
que logo vai aos fumos da mem�ria,
ou viver�s com elas, nelas vendo-
te como em espelho que te sobrevive.

Mas o passar como quem visse tudo
e ali ficasse n�o ficando a vida
faz que as coisas se cubram de um cristal
opaco e as diluindo em corpo falso,
aquele que � quanto ent�o mereces.

(Jorge de Sena)

*

Bom dia!

21.11.05
 


PARA A SEMANA


finalmente.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: UMA PEDRA MUITO DIFERENTE DAS OUTRAS


Quem n�o tem c�o ca�a com gato, e os gatos japoneses revelam-se excelentes ca�adores. Eis o aster�ide Itokawa, explorado por um pequeno robot japon�s chamado Hayabusa. J� l� se perdeu um ainda mais pequeno robot, desta vez ocidentalmente chamado Minerva. Esperemos agora que o (ou a?) Hayabusa des�a direito e arranque uns fragmentos do Itokawa para trazer para casa.

(Actualizada aqui.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
"
O EST�PIDO � MAIS PERIGOSO QUE O BANDIDO"

Incluido no livro Allegro Ma Non Troppo de Carlo M. Cipolla (1922-2000), vem a obra Leis Fundamentais da Estupidez Humana, na qual o autor teoriza sobre esse mal que aflige a humanidade.

Aconselhando, desde j�, uma leitura desta interessante obra, que teoriza sobre esse misto de estado e de caracter�stica de efeitos conhecidos mas t�o pouco estudada a que damos o nome de estupidez, deixamos aqui as leis fundamentais que, segundo o autor, regem t�o lament�vel flagelo.

1� - Cada um de n�s subestima sempre e inevitavelmente o n�mero de indiv�duos est�pidos em circula��o.

2� - A probabilidade de uma certa pessoa ser est�pida � independente de qualquer outra caracter�stica dessa mesma pessoa.

3� - Uma pessoa est�pida � uma pessoa que causa um dano a outra pessoa ou grupo de pessoas, sem que disso resulte alguma vantagem para s�, ou podendo at� vir a sofrer um prejuizo.

4� - As pessoas n�o est�pidas subestimam sempre o potencial nocivo das pessoas est�pidas. Em particular, os n�o est�pidos esquecem-se constantemente que em qualquer momento, lugar e situa��o, tratar e/ou associar-se com indiv�duos est�pidos revela-se, infalivelmente, um erro que se paga muito caro.

5� - A pessoa est�pida � o tipo de pessoa mais perigosa que existe.

Corol�rio - O est�pido � mais perigoso que o bandido.

Mesmo parecendo fora do contexto dos assuntos que habitualmente abordamos (...), n�o queremos deixar de lembrar que Carlo M. Cipolla teria encontrado um inesgot�vel campo de estudos caso tivesse tido a oportunidade de visitar o nosso Pa�s durante os meses em que este � assolado pelos fogos florestais.

(Nuno Miguel Cabe�adas)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
"TOUT VA TR�S BIEN MADAME LA MARQUISE"


N�o � todos os dias que tenho o prazer de ler not�cias sobre Lisboa ao pequeno-almo�o, quando abro o meu jornal, o G�teborgs Posten. Mas hoje tive essa sorte. � certo que n�o era uma not�cia enorme, nem estava nas rubricas mais s�rias e honrosas do jornal. Estava no quadradinho �God morgon�, onde cada manh� somos brindados com um �fait divers� que nos fa�a sorrir (um dia destes li a� que em Roma foram agora proibidos, por decreto municipal, os aqu�rios redondos, por serem traumatizantes para os peixes, e que o mesmo decreto assegura o direito dos c�es a exerc�cio di�rio).

Hoje a not�cia era esta:

A capital de Portugal, Lisboa, vai este ano ser iluminada pelo que se afirma ser a mais alta �rvore de Natal artificial da Europa. Levou 44 dias a montar esta alegria para os olhos de 72 metros de altura, na Pra�a do Com�rcio.�

� fant�stico! Lisboa a destacar-se com um record t�o honroso! E como calculo que esta monumental gl�ria custa dinheiro, s� pode ser sinal de que a crise do pa�s n�o � assim t�o grave quanto dizem as m�s-l�nguas... Afinal, como se dizia numa famosa can��o francesa dos anos trinta, �tout va tr�s bien, Madame la Marquise�!

(Madalena Ferreira �hman)

*
N�o sei se tem conhecimento que a dita �rvore, que por sinal � uma beleza de efeito de Natal, e uma forma de alegrar as hostes portuguesas,� de patrocinio de algumas empresas portuguesas, tais como a SIC, BCP MILLENIUM,etc, o que � de louvar.Por outro lado, como j� mencionei � uma forma de alegrar as hostes portuguesas(que andam muito por baixo) e faz alguma publicidade da nossa cidade para ser visitado por estrangeiros, que por consequ�ncia � bom para a nossa economia(que anda t�o pobre). Sejam mais positivos para com as iniciativas que se processam no nosso Pa�s e que o valorizem.

(Manuel Beir�o)

*

O texto versando a aten��o escandinava � majestosa �rvore de Natal �plantada� na Pra�a do Com�rcio, sugere-me outro coment�rio. E ele vai no sentido de manifestar o inc�modo (irrita��o?) com que assisto � chegada cada vez mais precoce dos fi�ricos enfeites natal�cios �s ruas das nossas cidades. � o banalizar por dilata��o de um tempo que dantes se resumia a quinze dias antes da festa. Perde-se aquela expectativa que se sentia quando eu era pequeno. Aquela coisa do �j� falta pouco!�, do �nunca mais chega!�, at� que um dia, j� com Dezembro adiantado, finalmente as ruas se enchiam de luzes, desenhando velas, Pais Natais, tren�s e renas. E havia at� aquele quase ritual das fam�lias que, como a minha, n�o moravam na Baixa do Porto, de ir at� l� para ver as ilumina��es. Mas esse tamb�m era o tempo em que durante meses se namorava um brinquedo, um s�, que nos desafiava da montra do Bazar Paris, do Londres ou dos Tr�s Vint�ns. Pass�vamos e pens�vamos: no Natal talvez sejas meu. N�o perdes pela demora: quando chegar a hora, hei de namorar-te com outro empenho. Espera e ver�s. E essa altura chegar� quando for o tempo m�gico, t�o ansiado, das luzes a cruzarem as ruas de passeio a passeio. Agora, coisa estranha, o Natal chega no dia a seguir ao �ltimo saldo de cal��es de banho e camisas de manga curta. Suspeito que ainda havemos de consoar na praia.

(Artur Carvalho)
 


AR PURO


Feodor Vasilyev
 


EARLY MORNING BLOGS 650

ROMANCE DE ABEN�MAR

��Aben�mar, Aben�mar, moro de la morer�a,
el d�a que t� naciste grandes se�ales hab�a!
Estaba la mar en calma, la luna estaba crecida,
moro que en tal signo nace no debe decir mentira.

All� respondiera el moro, bien oir�is lo que dir�a:
�Yo te lo dir�, se�or, aunque me cueste la vida,
porque soy hijo de un moro y una cristiana cautiva;
siendo yo ni�o y muchacho mi madre me lo dec�a
que mentira no dijese, que era grande villan�a:
por tanto, pregunta, rey, que la verdad te dir�a.
�Yo te agradezco, Aben�mar, aquesa tu cortes�a.
�Qu� castillos son aqu�llos? �Altos son y reluc�an!

�El Alhambra era, se�or, y la otra la mezquita,
los otros los Alixares, labrados a maravilla.
El moro que los labraba cien doblas ganaba al d�a,
y el d�a que no los labra, otras tantas se perd�a.
El otro es Generalife, huerta que par no ten�a;
el otro Torres Bermejas, castillo de gran val�a.
All� habl� el rey don Juan, bien oir�is lo que dec�a:
�Si t� quisieses, Granada, contigo me casar�a;
dar�te en arras y dote a C�rdoba y a Sevilla.
�Casada soy, rey don Juan, casada soy, que no viuda;
el moro que a m� me tiene muy grande bien me quer�a.

(An�nimo)

*

Bom dia!

20.11.05
 


HOJE

 


COISAS DA S�BADO: CAVACO E OS PARTIDOS



A candidatura de Cavaco precisa de encontrar o tom certo quanto aos partidos, o sistema partid�rio, e a pol�tica em democracia. N�o � que o tenha perdido, � que ainda n�o o achou Os partidos t�m um menor papel nas campanhas unipessoais como s�o as presidenciais. Isso � natural e tem a ver com o nosso sistema constitucional. S� que as coisas deveriam ficar por a�, mas n�o ficam. As candidaturas, em particular a de Cavaco, tende a ser supra-partid�ria, tanto no bom sentido, como no mau.

Explico-me. O afastamento dos partidos � mau sinal para a sa�de da democracia, mas h� que convir que os partidos t�m muita culpa em que se criasse uma situa��o em que quase que s� se pode ganhar contra eles, ou pelo menos sem eles. Esta situa��o mals� em que vivem os partidos portugueses, leva a que os candidatos (em particular Cavaco e Alegre, por raz�es diferentes) se afastem do terreno partid�rio como se este fosse pest�fero. Este tipo de fuga � conviv�ncia partid�ria �, no nosso sistema constitucional e na realidade da nossa democracia, um contributo para agravar a crise das institui��es. O futuro presidente vai precisar de um Governo forte e est�vel, mas precisa tamb�m de um sistema partid�rio mais equilibrado, em particular que favore�a os instrumentos de ac��o pol�tica e de vigil�ncia democr�tica da oposi��o atrav�s da Assembleia. Resumindo e concluindo: precisa de estabilidade, conseguida n�o apenas pelo Governo, mas pela ac��o da oposi��o.

Um supra-partidarismo que v� para l� do natural centramento da candidatura presidencial numa l�gica unipessoal e que possa, por ac��o ou omiss�o, minimizar o papel dos partidos n�o favorece a estabilidade pol�tica.

(Publicado na S�bado h� uma semana.)
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(20 de Novembro)



Em breve, mais sugest�es para o nome alternativo ao LENDO/VENDO.

*

Contrastes: uma p�ssima reportagem sobre se h� m�dicos a mais ou a menos nos hospitais, no notici�rio principal da RTP1. Tudo feito em cima do joelho e dominado por um directo em que uma menina perguntava aos doentes numa urg�ncia se estavam a ser bem atendidos ou n�o. Tudo sem uma ideia, sem um fio condutor, sem qualquer profissionalismo, enchendo o tempo com banalidades e ouvindo as pessoas que estavam na sala de espera a dizer coisas completamente diferentes do esperado. Algu�m me explica qual a raz�o de um directo desta natureza, casu�stico, confuso, ca�tico, na parte mais nobre do telejornal? Ah! Controlo de qualidade que n�o existe, neglig�ncias que ningu�m corrige, mau uso do nosso dinheiro. Logo que esteja em linha, vale a pena ver como � um p�ssimo trabalho.

Contrastes: pelo contr�rio, magn�fica reportagem da SIC sobre o Martim Moniz como "lugar" de diferentes culturas, civiliza��es, religi�es. Em poucos minutos, um retrato como deve ser das comunidades, com personagens certas e t�picas e com a c�mara dentro do mundo delas: o altar hindu; o angolano que fez a guerra dos dois lados (deve ter come�ado na UNITA e depois ter sido integrado no ex�rcito governamental), uma personagem viva e a merecer ter as oportunidades de estudo que procura (contou como noticiou � fam�lia que j� n�o estava em Angola: mandou uma foto com os pombos do Rossio, e como em Angola, os pombos comem-se, tinha que ser noutro s�tio...); uma cabo-verdiana cabeleireira a falar sentidamente das "saudades"; uma fam�lia chinesa a explicar, num portugu�s sincopado, por que � que n�o percebia a incapacidade da pol�cia em prender os ladr�es da sua loja e a dizer que os pol�cias s� gostavam de papelada; o indiano a contar com pena que os filhos j� n�o percebiam o Diwali e n�o queriam voltar � �ndia; a jovem chinesa a dizer que n�o tinha gostado de Lisboa, porque lhe parecia �velha� �. Tudo na primeira pessoa dito por pessoas.

*

J� tinha anotado aqui este livro de Joachim K�hler/Stewart Spencer, Richard Wagner. The Last of the Titans, mas agora, que j� o li , insisto porque vale mesmo a pena. A narra��o da vida de Wagner, entrela�ando os fios da sua permanente agita��o interior, mulheres, leituras, ego, pol�tica, lugares, com o seu programa est�tico resulta num quadro que nos d� a respira��o wagneriana quase sem f�lego. Vemos as cenas: Wagner, no seu palazzo veneziano, frio, h�mido, quase sem dinheiro, sofrendo de um quisto numa perna, tendo acabado de romper com Mathilde Wesendock, lendo Schopenhauer e come�ando o Trist�o e Isolda. Ou a morte de Wagner, que K�hler trata quase sem pormenores, nem drama, com Wagner contorcendo-se subitamente com falta de ar, perante uma aterrorizada criada e depois morrendo diante de Cosima, que o mandou enterrar na parte de tr�s da casa, onde j� estavam enterrados os seus c�es, �para o manter sempre debaixo dos seus olhos�.
 


EARLY MORNING BLOGS 649

ROMANCE IX LA RESPUESTA DEL REY

Pidiendo a las diez del d�a papel a su secretario,
a la carta de Jimena responde el rey por su mano;
y despu�s de hacer la cruz con cuatro puntos y un rasgo,
aquestas palabras pone a guisa de cortesano:

�A vos, la noble Jimena, la del marido envidiado,
vos env�o mis saludos en fe de quereros tanto.
Que est�is de mi querellosa, dec�s en vuestro despacho,
que non vos suelto el marido sino una vez en el a�o,

�y que cuando vos le suelto, en lugar de regalaros,
en vuestros brazos se duerme como viene tan cansado.
Si supi�rades, se�ora, que vos quitaba el velado
para mis namoramientos, fuera bien el lamentarlo;

�mas si s�lo vos lo quito para lidiar en el campo
con los moros convecinos, non vos fago mucho agravio;
que si yo no hubiera puesto las mis huertas a su cargo,
ni vos fuerais m�s que due�a, ni �l fuera m�s que un hidalgo.

�A no vos tener encinta, se�ora, el vuestro velado
creyera de su dormir lo que me habedes contado.
M�s pues el parto esper�is... si os falta un marido al lado,
no importa, que sobra un rey que os har� cien mil regalos.

�Dec�s que entregue a las llamas la carta que hab�is mandado;
a contener herej�as, fuera digna de tal caso;
mas pues razones contiene dignas de los siete sabios,
mejor es para mi archivo que non para el fuego ingrato.

�Y porque guard�is la m�a y no la fag�is pedazos,
por ella a lo que pari�redes prometo buen aguinaldo:
si fuere hijo, dar�le una espada y un caballo
y cien mil maraved�s para ayuda de su gasto;

�si fija, para su dote prometo poner en cambio
desde el d�a en que naciere de plata cuarenta marcos.
Con esto ceso, se�ora, y no de estar suplicando
a la Virgen vos ayude en los dolores del parto�.

(An�nimo)

*

Bom dia!

19.11.05
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(19 de Novembro)



Para os admiradores da Blue Ball Machine, o Rocketboom de hoje. No mesmo fil�o h� outras coisas bem divertidas: Paris Hilton doesn't change facial expressions, um exemplo para os blogues ca�adores de incoer�ncias em tempo real; um Batman: ualuealuealeuale ; um hino para os blogues que trabalham muito para as audi�ncias ; um George Costanza sei l� para qu�; e um para os blogues justiceiros. A febre de s�bado de manh� vai alta.
 


AR PURO


Alexei Savrasov
 


EARLY MORNING BLOGS 648

Child Of The Romans


The dago shovelman sits by the railroad track
Eating a noon meal of bread and bologna.
A train whirls by, and men and women at tables
Alive with red roses and yellow jonquils,
Eat steaks running with brown gravy,
Strawberries and cream, eclaires and coffee.
The dago shovelman finishes the dry bread and bologna,
Washes it down with a dipper from the water-boy,
And goes back to the second half of a ten-hour day�s work
Keeping the road-bed so the roses and jonquils
Shake hardly at all in the cut glass vases
Standing slender on the tables in the dining cars.


(Carl Sandburg)

*

Bom dia!

18.11.05
 


COM ELES


 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(18 de Novembro) - 2� s�rie




De um leitor:
"Enquanto por c� andamos (pais, professores e acad�micos) preocupados por os nossos alunos escreverem em provas escritas recorrendo a linguagem SMS e discutimos o uso de "sitio" em alternativa a site ou wireless em vez de "sem fios" pois h� quem n�o perca tempo e se ajuste aos tempos. J� imaginou os Lusiadas ou Os Maias em linguagem SMS?
Pois agora imagine isto.

(Carlos Br�s)
Um fragmento daquilo:
"As principais obras da literatura brit�nica foram traduzidas para linguagem de SMS, como forma de ajudar os estudantes do Reino Unido a rever a mat�ria para os exames. O servi�o condensa cl�ssicos como �Orgulho e Preconceito� ou as pe�as de Shakespeare. Frases emblem�ticas como o cl�ssico �Ser ou n�o ser, heis a quest�o� (�To be or not to be, that is the question�), de Hamlet, foram transformados em �2b? Nt2b? ???�. Uma tradu��o que, de acordo com o professor John Sutherland, da Universidade de Londres, demonstra a capacidade dos SMS de apreender os principais pontos de uma hist�ria�
*

Os "an�is de Einstein" no Jet Propulsion Laboratory.

*

Recordado por Paulo Almeida:

"The Federal Election Commission today issued an advisory opinion that finds the Fired Up network of blogs qualifies for the 'press exemption' to federal campaign finance laws. The press exemption, as defined by Congress, is meant to assure 'the unfettered right of the newspapers, TV networks, and other media to cover and comment on political campaigns.'
The full ruling is available at the FEC site. A noteworthy passage: '...an entity otherwise eligible for the press exception would not lose its eligibility merely because of a lack of objectivity...'" ( aqui.)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota TEMAS PRESIDENCIAIS (3� S�RIE).
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
ATEN��O AOS IDOS DE MAR�O (QUE EM PORTUGAL S�O EM JANEIRO)




Existe algum perigo de um atentado terrorista em Portugal nos pr�ximos tempos? Existe, claro: na v�spera das elei��es - como foi o assassinato de Gaspar Castelo Branco em 86, como foi o massacre de Madrid em 2004. Ainda mais que os terroristas podem querer evitar a elei��o de Cavaco Silva e ajudar Soares como conseguiram em Madrid levar � derrota o Governo do PP, um bom Governo, como dois dias antes todas as sondagens confirmavam largamente.

A Espanha participou na Guerra do Iraque e n�s n�o? Mentira: a Espanha n�o participou na Guerra, limitou-se a enviar um barco-hospital que chegou ao Golfo m�s e meio depois dos combates terem terminado.

Aznar esteve na cimeira dos A�ores com Bush e Blair? Tamb�m Dur�o Barroso. A cimeira n�o declarou a guerra ao Iraque, tratou da mo��o no Conselho de Seguran�a que previa o uso da for�a contra Saddam e acabou por ser retirada antes da vota��o. Mas Zapatero fez toda a sua campanha a proclamar que era preciso retirar a Espanha da "fotografia dos A�ores"? A mesma da "fotografia dos A�ores" e a mesma am�lgama alimentaram em Portugal a campanha da Bloco de Esquerda com bom proveito.

Ainda assim, que a Espanha fizera a guerra e e isso justificava o massacre de 192 passageiros civis �quela hora da manh� num comboio suburbano (como se houvesse justifica��es!) - foi a palavra de ordem dos manifestantes socialistas, convocados por SMS ou alertados pela Cadena Ser e pla CNN espanhola, que cercaram as sedes do PP de Aznar at� �s primeiras horas do dia da vota��o. E foi tamb�m o que afirmaram nesse dia as televis�es portuguesas, a maioria das r�dios e dos jornais. Prova que em Portugal � neste momento extremamente f�cil criar factos pol�ticos ao sabor dos ventos e das ondas: veja-se o arrast�o "informativo" que varreu a praia de Carcavelos este Ver�o.

Mas Cavaco Silva n�o apoiou a guerra do Iraque, at� considerou que os Estados Unidos se precipitaram e n�o fizeram o que deviam, previamente, nas Na��es Unidas e no campo diplom�tico? Tamb�m o Rei Abdullah n�o apoiou a guerra do Iraque muito pelo contr�rio, limitou-se mais tarde a apoiar a reconstru��o das for�as armadas daquele Pa�s, segundo a letra e o esp�rito das mais recentes decis�es do Conselho de Seguran�a.

Nem os terroristas - que s�o os �nicos respons�veis dos seus actos - precisam de pretextos, ou, melhor dizendo, tudo lhes serve. A Fran�a, de Chirac e Villepin, liderou a oposi��o aos Estados Unidos, desmultiplicou-se em iniciativas anti-americanas, arvorou-se em campe� do mundo mu�ulmano, foi aplaudida pelas massas populares pr�-Saddam, de Rabat a Jacarta. Pois quem duvida que haja dedo islamista nas revoltas dos sub�rbios parisienses que alastraram e continuam? O odiado (pela esquerda bem pensante!) Sarkozy, criador do conselho mu�ulmano de Fran�a na sua anterior passagem pelo Governo, acaba de lan�ar um alerta vermelho: "� real"... o risco de atentados em Fran�a nos pr�ximos tempos. Villepin confirma.

E do risco de atentados em Portugal ningu�m fala? Desde que os terroristas conseguiram alterar o sentido do voto em Espanha com os atentados de 12 de Fevereiro de 2004, todos estamos expostos. Portugal, em primeiro lugar, que t�o parecidos somos com os espanh�is, t�o perme�veis a qualquer arrast�o informativo, como bem se viu. Nem � preciso um grande atentado: ao menor incidente, a qualquer boca foleira de um canidato, e a comunica��o social sai para a rua desembestada.

Ningu�m gosta de ser profeta de qualquer desgra�a. Mas como diria Almeida Santos "por favor preocupem-se".

(Jos� Teles)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: UMA BIBLIOTECA ROLANTE


(Pedro Filipe da Silva Gaspar)
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(18 de Novembro)



No P�blico, o artigo de Miguel Sousa Tavares, Desencontros, (sem liga��o) que far� correr muita tinta:

"Esta teoria do primado absoluto do "direito � orienta��o sexual" est�-se a tornar uma esp�cie de ditadura bem-pensante, que funciona por um m�todo "terrorista" de silenciamento dos discordantes: quem n�o reconhece este sagrado direito constitucional, com todas as suas consequ�ncias, s� pode ser uma abecerragem, ao estilo do dr. Jo�o C�sar das Neves."

a contrapor �s notas habitualmente assinadas f. (Fernanda C�ncio) no Gl�ria F�cil.

*

No Bloguitica AFINAL N�O S�O APENAS OS BLOGUES (I de II) e A OSCILA��O, a viagem asi�tica dos autores do kottke.org, as not�cias portuguesas e brasileiras do Google, que todos os dias faz uma coisa diferente. E por falar no Google vale a pena ver este filme com os diferentes logotipos usados pelo motor de busca, em cima de m�sica de Elvis.

*

Mecanismos da informa��o: no dia da greve dos professores, a divulga��o dos n�meros do absentismo docente. A muito governamental RTP abre com os n�meros do absentismo, dados ali�s da forma mais conveniente, para, a seguir, noticiar a greve. � assim que se fazem as coisas.

*

Os leitores do Abrupto est�o a enviar sugest�es para um nome alternativo a estes LENDO / VENDO... que d� melhor a ideia do stream digital. Algumas sugest�es recebidas: �Audio, video, disco - I hear, I see, I learn� (Paulo Almeida); �Correnteza�, �Na correnteza dos media� (Jos� Nunes); "MediaPlaning", �por vezes, tal como o "AquaPlaning", tamb�m o "MediaPlaning" pode provocar despistes!" (SBC); "Regato medi�tico", "C�rrego medi�tico", "O fio de Ariadne", "Leituras no �ter" (Leonel Morgado), etc. Vasco Godinho escreve:
"Notas sobre o fluxo electr�nico", "Notas sobre o fluxo" ou "Fluxografia" foram as minhas primeiras ideias, mas s�o um pouco imediatas e nenhuma responde inteiramente ao que procura, e nem sequer t�m a eleg�ncia que decerto procura. Se toda a gente soubesse quem foi o inventor do ensaio e da escrita-�-medida-do-que-se-pensa-e-se-v�, eu tomaria a liberdade de sugerir que se invocasse algures Montaigne. No fundo, a culpa disto tudo � dele.
 


COISAS SIMPLES


John Pilson, St. Denis (Stairwell and Elevators)
 


EARLY MORNING BLOGS 647

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair
sobre v�rios solos
desde perder o ch�o repentino sob os p�s
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda aus�ncia excede

at� � queda vinda
da lenta vol�pia de cair,
quando a face antige o solo
numa curva delgada subtil
uma v�nia a ningu�m de especial
ou especialmente a n�s uma homenagem
p�stuma.

(Luiza Neto Jorge)

*

Bom dia!

17.11.05
 


TEMAS PRESIDENCIAIS (3� S�RIE)

UMA CAMPANHA DECLARATIVA


A campanha de Cavaco Silva � diferente de todas as outras. � feita para um candidato cujas caracter�sticas pol�ticas e psicol�gicas s�o muito diferentes do habitual na "classe pol�tica" portuguesa. � feita em circunst�ncias tamb�m sui generis: Cavaco Silva parte com patamares de apoio superiores aos dos outros candidatos todos juntos, o que � pouco comum em elei��es muito contestadas e personalizadas. Esta �ltima caracter�stica aparece pela primeira vez na nossa hist�ria eleitoral presidencial. Nem Eanes, nem Soares Carneiro, nem Freitas do Amaral, nem M�rio Soares, nem Jorge Sampaio alguma vez estiveram numa situa��o deste tipo. Ou tinham um favoritismo esmagador, e os outros candidatos estavam apenas a "marcar presen�a", ou havia uma forte bipolariza��o com dois candidatos igualados.

Deixo aqui de lado o m�rito relativo da mensagem de cada um, minimizando o papel de manifestos e programas, dado que mais do que as palavras � o interlocutor que lhes d� sentido. As mesmas coisas ditas por Cavaco e Soares s�o muito diferentes e os eleitores sabem disso muito bem, visto que ambos s�o conhecidos como pol�ticos. Este efeito de conhecimento � um elemento essencial desta campanha. O julgamento do eleitorado parte de um princ�pio de necessidade: precisa, ou acha que precisa, de uma pessoa com determinadas caracter�sticas e hist�ria, e n�o de outra. Esta � hoje a for�a de Cavaco e a fragilidade de Soares.

Num mundo em que n�o houvesse ru�do, ou seja no Para�so ou no Inferno, vale o mesmo, esta escolha seria l�mpida. Acontece que existe um conjunto de pr�ticas que correspondem ao que se pensa serem (ou deverem ser) as campanhas eleitorais, umas impostas pelas nossas tradi��es pol�ticas, outras pelo sistema medi�tico. E estas pr�ticas moldam, durante tr�s meses, a imagem dos candidatos num contexto de sobreexposi��o que tem todos os riscos ou vantagens, dependendo do tipo de campanha.

Veja-se, por exemplo, como a primeira entrevista presidencial de Cavaco Silva na TVI revelou o melhor e o pior da face medi�tica de Cavaco, o candidato cuja face medi�tica cola menos com a sua exposi��o "p�blica". Quando vi a entrevista, Cavaco pareceu-me tenso, r�gido, um pouco ansioso, mas convincente. Atenho-me � �ltima classifica��o, a que mais depende da vontade pr�pria, porque admito que as outras surgem contra a vontade do candidato. A tens�o de Cavaco prejudica a mensagem, porque h� sempre um ru�do psicol�gico de instabilidade e inseguran�a na tens�o. No entanto, como ele s� fala de coisas "s�rias", acaba por favorec�-lo, gerando um efeito de veracidade. Aquele homem est� nervoso porque est� preocupado e est� preocupado por n�s. � muito interessante verificar que, se me pareceu que na entrevista havia rigidez a mais e incomodidade face a algumas perguntas, que Cavaco podia responder de forma simples e de bom senso sem dificuldades, j� quando a entrevista � reduzida aos excertos que s�o transmitidos nos notici�rios, estes resultam muito eficazes.

Cavaco � pouco pl�stico e por isso tende a seguir uma linha pr�-estabelecida com muita rigidez e isso, numa entrevista mais longa, prejudica-o. J� em fragmentos, o que � valorizado � o grau de convencimento pessoal, de dedica��o �s suas causas, que � muito dif�cil um pol�tico dos nossos dias transmitir e ele consegue-o. Por isso, n�o h� frases engra�adas nem soundbites para reproduzir no dia seguinte, como acontece com Soares, que � sempre um must televisivo, mas uma mensagem limpa e convincente de dedica��o � causa p�blica. Cavaco n�o consegue o mais f�cil, mas consegue o mais dif�cil, como ali�s revelam as sondagens que os seus advers�rios acham que ca�ram injustamente do c�u, sem qualquer raz�o.

Pela entrevista, percebe-se que o que � essencial na campanha de Cavaco � a sua natureza de campanha declarativa, afirmando determinadas coisas e s� essas, e n�o "conversando" com as outras campanhas. � isso que exaspera Soares, que precisa de interlocutor para o seu tipo de interven��o discursiva, e n�o o encontra. Como o candidato Cavaco � cred�vel e gera um efeito de confian�a, o que diz � muito eficaz. Sofrer� alguma eros�o, em particular face ao estilo mais comunicativo de Soares, mas pode ter resultados surpreendentes. J� os tem, porque as sondagens revelam uma excep��o, n�o uma normalidade.


UMA CAMPANHA PROVOCAT�RIA


M�rio Soares seria um excelente candidato para o Bloco de Esquerda, ou melhor, para a �rea do Bloco de Esquerda, e digo-o sem qualquer inten��o de minimizar a campanha e o candidato. Tivesse ele sido um candidato com uma l�gica exterior aos conflitos internos do PS e centrado nas �reas onde conquistou influ�ncia nos �ltimos anos, que podia n�o ganhar, como tudo indica que n�o vai ganhar, mas faria uma campanha muito mais animada e que lhe seria menos penosa.

Soares estaria mais pr�ximo do que realmente pensa, e seria mais convincente, pelo menos para uma parte do eleitorado. Um Soares solto, apoiado por uma franja consider�vel da nossa esquerda mais radical e activista, fazendo uma campanha na base dos seus temas favoritos, o antiamericanismo, a cr�tica � globaliza��o, o ataque ao "neoliberalismo", em defesa dos "direitos sociais" contra o "economicismo" do Governo, sem receio de confrontar S�crates, traria um incremento de for�a e unificaria mais a esquerda do que a actual campanha h�brida e pouco convincente.

O Bloco percebeu isso e hesitou. Fernando Rosas foi ao lan�amento de Soares, um gesto politicamente simb�lico, e a mandat�ria da juventude veio do BE. Quando a campanha endurece, vemos uma comunidade de temas em un�ssono, com a mandat�ria da juventude de Soares e Francisco Lou�� a usar contra Cavaco, por exemplo, a desgra�a do jovem baleado na Ponte 25 de Abril. As sondagens revelam essa fluidez entre Soares e a esquerda radical quando mostram que se o BE n�o tivesse candidato, seria Soares e n�o Alegre nem Jer�nimo, o verdadeiro recept�culo dos votos radicais.

O que prende Soares numa redoma fechada � que ele se convenceu de que, aparecendo do nada, depois do seu sonoro "basta!", podia reproduzir uma campanha como a de 1985 ou de 1991, num tom unanimista e mobilizador, levando tudo atr�s do "animal pol�tico" por excel�ncia. Ele ainda n�o percebeu que nada disso aconteceu, nem vai acontecer, e est� penosamente a tentar chegar � segunda volta. Apanhado na sua armadilha, Soares est� a fazer uma campanha que Lou�� n�o desdenharia: provoca��es, picardias, frases assassinas, que s�o sempre um sucesso comunicacional, mas que o reduzem � situa��o do candidato menor anti-sistema que pretende crescer apenas no confronto com o maior. Soares faz isso muito bem, porque ele � bom nisso, mas tamb�m porque este tipo de campanha encaixa bem no tom habitual da pr�pria comunica��o social. S� que este tipo de campanha dificilmente lhe dar� o estatuto de um candidato com sentido de Estado e a gravidade pol�tica que as pessoas associam � fun��o presidencial.

Soares tenta bipolarizar a todo o custo, mas tem muita dificuldade em usar o armamento pesado que, numa segunda volta, n�o ter� pejo em utilizar. Esse armamento assenta num antifascismo for�ado, recorrendo a todas as met�foras dos perigos de Cavaco e do cavaquismo como subvers�o da democracia. S� que Soares n�o est� na segunda volta e candidatos como Alegre, ao serem o seu contraponto, tiram-lhe o tapete e diminuem-lhe a dramatiza��o. Quando Soares diz que com ele podem dormir descansados, Alegre vem dizer que com Cavaco tamb�m podem dormir descansados, quando Soares se gaba da sua superioridade cultural face a Cavaco, a mera exist�ncia de Alegre o diminui, onde Soares faz um cont�nuo de provoca��es, Alegre aparece como um factor de calma e seriedade.

Vamos ver como evolui o confronto entre a campanha provocat�ria e a campanha declarativa, porque � no confronto entre ambas que se vai jogar o que parece ainda em aberto na campanha eleitoral: se Cavaco ganha � primeira volta, e, se houver uma segunda volta, se � Soares ou Alegre que passar�o.

(Hoje no P�blico.)

*
Lido o seu artigo sobre as campanhas de Cavaco e de Soares, concordando na generalidade com o que diz e em absoluto no que se refere a Cavaco, gostaria no entanto, de deixar uma interpreta��o diferente da atitude de M�rio Soares.

Tenho para mim que este � o verdadeiro Soares, contradit�rio prisioneiro entre princ�pios e car�cter. N�o simpatizando com a pessoa, acredito firmemente na sinceridade e boa f� dos seus princ�pios e da sua capacidade mobilizadora. Contudo, creio que os princ�pios p�blicos de Soares se circunscrevem a uma esfera pol�tica, em grande parte liter�ria, te�rica e essencialmente abstracta. No plano das suas rela��es pessoais, Soares aparenta agir regulado por motivos de decis�o e ac��o muito diferentes e menos agrad�veis que apenas a sua dimens�o pessoal revela, nunca a sua dimens�o p�blica. Foram estes diferentes motivos de ac��o que determinaram, entre outras, as ruturas com Manuel Alegre, em parte, com Salgado Zenha, a sua reac��o ap�s a derrota no Parlamento Europeu e, quanto a mim, a actual candidatura.

Soares vai perder estas elei��es pela simples e comezinha raz�o de que, talvez pela primeira vez na vida, ele concorre a algo n�o por convic��o pol�tica profunda, mas por raz�es de car�cter. A quase total aus�ncia de conteudo pol�tico relevante da sua campanha e a concentra��o quase exclusiva e hostil na pessoa de Cavaco, mais do que na campanha, v�m demonstrar, creio, este ponto de vista. Supor� talvez que j� tudo lhe � permitido e esta suposi��o � uma quest�o de car�cter.

(Fernando Calado Lopes)
*
...quando Soares se gaba da sua superioridade cultural face a Cavaco, a mera exist�ncia de Alegre o diminui, onde Soares faz um cont�nuo de provoca��es, Alegre aparece como um factor de calma e seriedade...

A l�gica desta sua frase parece-me muito correcta.

A verdade isenta, parece-me, � que Manuel Alegre ter� arriscado candidatar-se numa perspectiva ofendida, sem d�vida com um tom tranquilo e com um tom que toca a muitos, mas que tamb�m n�o toca a generalidade de um Pa�s em crise e desesperado e que est� urgentemente precisado de um salvador supra-dotado. N�o sei se Alegre, como Cavaco Silva, interpreta esse papel. Sinceramente, creio que Manuel Alegre, como s�mbolo de esquerda e provavelmente como um bom Presidente da Rep�blica (porque tem um perfil melhor que os outros), tem o problema de ter a credibilidade que lhe falta; ou seja, nunca ter errado porque nunca esteve em s�tio nenhum (ao contr�rio dos outros).

Manuel Alegre surge como uma esp�cie de p�ssaro ganhador da consci�ncia de toda a gente, mas n�o tem a fibra que estamos habituados a ver nas pessoas aparentemente dotadas para o governo do Pa�s e ter� o azar de n�o ser tempo para brincadeiras e frases gen�ricas de combate. O que n�s precis�vamos todos era de um Presidente fundador de qualquer coisa nova, e se bem que Manuel Alegre crie essa expectativa, tamb�m n�o possui o estatuto exemplar para uma coisa dessas. A n�o ser que por uma recusa visceral a Cavaco as elei��es d�em por esse lado inventor. Seria engra�ado que no fundo do po�o os portugueses arriscassem o tudo ou nada.

Apesar de ter toda a minha simpatia (e apesar de eu gostar que ele ganhasse como elemento tra�do e v�tima da m�quina partid�ria que ningu�m, no fundo, percebe -- numa esp�cie orineta��o para o futuro), � situa��o de Manuel Alegre falta qualquer coisa que ningu�m pode explicar ou arriscar inteiramente sem ser por um "vamos a isto, caramba!". Se calhar � isso que nos falta a todos. Se calhar � este o desafio que, se for devidamente identificado, pode dar numa boa campanha -- mas para isso era necess�rio que os meios de comunica��o social n�o perdessem tempo com o espect�culo estranho que Soares inventou contra o candidato essencial e autom�tico que � Cavaco Silva. Digo estranho porque Soares optou por uma campanha que sabe que n�o vence, e portanto h� aqui um fen�meno que ningu�m entende e nos anda a ocupar todos. Mas num plano de banda-desenhada que mimetiza a verdade e, pior, aquilo que realmente precisamos.


N�o fosse este pormenor de Soares ter aparecido sabe-se l� porqu�, ter�amos umas presidenciais "� antiga", entre a direita pragm�tica e a esquerda fundadora. Se calhar, j� ningu�m pensa entre um lado e outro sem avaliar a validade das pessoas em si, e depois o excesso de informa��o-espect�culo (n�o da baixa-pol�tica, como se pretende fazer passar normalmente) est� a baralhar o essencial do problema e a turvar a quest�o que se nos apresenta: a de decidir entre o pr�tico Cavaco e o potencial Alegre. S�o dois termos muito claros que confundem qualquer simpatia.

(Vasco Godinho)
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(17 de Novembro)



Sugest�es para mudar o nome ao LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA? Qualquer coisa como em ingl�s Stream, fio, fluxo, para cobrir o cont�nuo digital (e ainda anal�gico, cada vez menos) que faz estas notas?

*
Mais um novo Google, o Google Base e o Google Print chama-se agora Google Book Search.

*

Um saud�vel ant�doto � mania acusat�ria, zangada, apressada e superficial, infelizmente t�pica de alguns blogues, na nota "Atirar pedras ao ar na Ota" no Adufe. Cito:

"Obviamente, nem todos os bloggers que exigiram os estudos que agora "come�am" a ser publicados s�o especialistas, logo n�o s�o os cr�ticos mais competentes para apreciar a informa��o. Ter�o seguramente a sua palavra a dizer e � do interesse de todos que os argumentos sejam suficientemente fortes e claros que permitam convencer a maioria da bondade das decis�es, mas o fundamental era/� que estes mesmos estudos fossem divulgados para que todos, incluindo t�cnicos especializados alheios � realiza��o dos estudos, os podessem avaliar e comentar. A l�gica de facto consumado sem justifica��es foi em si um erro crasso nesta mat�ria que tem andado literalmente ao sabor dos caprichos de cada ministro da tutela."

*

Quando, muitas vezes, alguns jornalistas fazem, irritados, a pergunta ret�rica de quando � que "protegeram" Soares, uma das respostas est� dada hoje. Soares entrou numa campanha quase de insulto pessoal, fazendo a psican�lise do seu advers�rio, a quem chama "complexado", ou melhor ainda, dizendo que � "complexado com ele pr�prio". Todo o discurso de Soares � de uma insuport�vel jact�ncia e arrog�ncia pessoal, pol�tica, mas tamb�m cultural e social. N�o � muito distinto do ataque que o Independente em tempos fez a Mac�rio Correia por ser filho de pobres. Soares n�o � um analista, n�o � um comentador, � um candidato a Presidente da Rep�blica, a dita "mais alta magistratura da na��o". Ora ainda n�o vi um �nico editorial de protesto contra quem est� claramente a baixar o n�vel da campanha, editorial a que n�o escaparia qualquer outra personagem da pol�tica se n�o fosse Soares. Ou ent�o ter� o seu editorial cr�tico quando se encontrar qualquer coisa que permita um exerc�cio salom�nico, que, como � costume, protege o principal prevaricador. � verdade que Soares n�o tem tido boa imprensa ao contr�rio de Cavaco, mas a sua campanha tamb�m tem sido t�o m� que n�o espanta. Mas continua a beneficiar de uma enorme complac�ncia.

*

E nos jornais v�-se tamb�m como um dos grandes m�ritos da discreta campanha de Alegre tem a ver com o que disse acima. Alegre fala de igual para igual com Soares, e n�o lhe reconhece um �tomo da superioridade que Soares pensa que tem. Pode por isso responder com eleg�ncia ao "mau gosto" de Soares, como fez a prop�sito do boletim cl�nico que este anda a prometer exibir.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A PEDRA DE PANDORA



Mais uma pedra que conhecemos melhor. A primeira mulher. A de todas as qualidades. A que trazia a caixa com o mal. Agora vemos que n�o � uma caixa � uma pedra. Ser� que se pode abrir? Ser� que a Esperan�a continua no fundo da caixa, a �nica a n�o fugir?
 


AR PURO


Richard Estes, Urban Landscapes II, Allied Chemical
 


EARLY MORNING BLOGS 646

La Grenouille qui se veut faire aussi grosse que le Boeuf

Une Grenouille vit un boeuf
Qui lui sembla de belle taille.
Elle qui n'�tait pas grosse en tout comme un oeuf
Envieuse s'�tend, et s'enfle, et se travaille
Pour �galer l'animal en grosseur,
Disant : Regardez bien, ma soeur ;
Est-ce assez ? dites-moi ; n'y suis-je point encore ?
- Nenni. - M'y voici donc ? - Point du tout. - M'y voil� ?
- Vous n'en approchez point. La ch�tive p�core
S'enfla si bien qu'elle creva.
Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages :
Tout Bourgeois veut b�tir comme les grands Seigneurs,
Tout petit Prince a des Ambassadeurs,
Tout Marquis veut avoir des Pages.

(Jean de La Fontaine)

*

Bom dia!

16.11.05
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SOBRE O "ALMOCREVE DAS PETAS", VERS�O EM PAPEL



Lendo, como sempre o �abrupto�, encontrei uma refer�ncia ao �Almocreve das Petas�. � interessante lembrar que a primeira refer�ncia bibliogr�fica a este nome � do Andr� Brun, em A malta das trincheiras (guerra de 14/18). O nome era aplicado �s not�cias oficiais do Estado-Maior, sobre o andamento da guerra. Passou, quase de imediato, a aplicar-se aos rumores e panfletos que circulavam entre a nossa tropa. Tinha tamb�m o simp�tico �nickname� de �Daskpeten Almokreven�!

� um livro de leitura obrigat�ria, de um humor excepcional, onde se podem encontrar p�rolas como a da origem do voc�bulo �cavar�, aplicado a �fugir�; e muitos outros; e onde se podem encontrar elementos preciosos para a compreens�o (sociol�gica) do nosso Povo. Estou a citar de mem�ria, pois h� anos que n�o releio o autor da Maluquinha de Arroios. E cuja obra recomendo vivamente a todos.

Quem n�o perceber o Brun de antes da guerra (de 38/45), ent�o � como diria o Vasco Pulido Valente � � porque n�o percebe nada do que se passa hoje em Portugal.

Ontem, como hoje, �o Mundo est� perigoso��

(Luis Rodrigues)
 


DE REGRESSO

daqui. E est� diferente!!!

15.11.05
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(15 de Novembro)



Mais um "google", Google Analytics.

*

Padr�es: dois blogues sobre comunica��o social, o IND�STRIAS CULTURAIS e o Jornalismo e Comunica��o s�o actualizados regularmente pela manh�. Blogues kantianos, seguros. O Almocreve das Petas costumava ser o mais regular blogue nocturno, sinal de bons e cl�ssicos v�cios antigos, mas est� um pouco err�tico.

O n�mero de blogues nocturnos (nos Frescos) est� a diminuir. Sinal de uma crise do umbiguismo? N�o sei. O umbigo tende a falar mais � noite, a irrita��o, a quez�lia, a mesquinhez, a inveja mais de dia. Ter� o Diabo dado ritmos circadianos aos blogues?

*

Um bom artigo de Teresa de Sousa, "M�s not�cias", no P�blico (sem liga��es):

"Se a Uni�o Europeia vier a ser responsabilizada pelo fracasso das negocia��es para a liberaliza��o do com�rcio mundial - gra�as � teimosia cega de alguns dos seus membros no que respeita preserva��o da PAC -, a sua credibilidade internacional ficar� reduzida a p�."

Ainda estou para saber se o pagamento dos conte�dos no P�blico compensa a perda de influ�ncia real do jornal no debate p�blico. � que, para um jornal que se pretende de refer�ncia, a circula��o dos seus artigos na rede � um multiplicador natural de influ�ncia, e a influ�ncia (nas elites em particular) est� no centro da "refer�ncia".

*
Partilho da sua d�vida em rela��o ao pagamento de conte�dos do P�blico: ser� que o actual pagamento "compensa a perda de influ�ncia real do jornal no debate p�blico"? A minha d�vida est� inclinada para uma resposta, que penso ser� tamb�m a sua - parece-me que o P�blico tem perdido influ�ncia no debate. E, de facto, perder influ�ncia � ir deixando de ser refer�ncia...

Tenho para mim que, se fizessemos uma an�lise quantitativa ao n�mero de cita��es de artigos, na Internet, o P�blico seria, at� h� pouco tempo, o jornal mais citado. Basta ver o mundo dos blogs "de refer�ncia": o seu Abrupto, o Causa Nossa, entre muitos outros, que continham cita��es quase di�rias, e que se t�m reduzido agora - passando a surgir cita��es de outros jornais, como o DN e JN, entre outros.

Eu pr�prio tenho um exemplo concreto. Sou dinamizador de um f�rum de discuss�o (uma mailing list, que d� origem a um blog ), com not�cias que normalmente retiro da minha leitura di�ria do jornal P�blico. Ora, desde que as liga��es para a p�gina passaram a estar apenas dispon�veis para assinantes, o debate tem-se ressentido - nota-se uma clara diminui��o. Hoje em dia, porque gosto muito de ler o P�blico, tenho continuado a "recortar" as not�cias deste jornal, mas � prov�vel que no futuro comece a escolher hiper-liga��es doutros jornais, de forma a procurar fomentar o debate.

(Fernando Ramos)
 


COISAS COMPLICADAS


Hiroshi Sugimoto, Stanley Theater
 


EARLY MORNING BLOGS 645

M�lange adult�re de tout

En Amerique, professeur;
En Angleterre, journaliste;
C'est � grands pas et en sueur
Que vous suivrez � peine ma piste.
En Yorkshire, conferencier;
A Londres, un peu banquier,
Vous me paierez bien la t�te.
C'est � Paris que je me coiffe
Casque noir de jemenfoutiste.
En Allemagne, philosophe
Surexcit� par Emporheben
Au grand air de Bergsteigleben;
J'erre toujours de-ci de-l�
A divers coups de tra la la
De Damas jusqu'� Omaha.
Je celebrai mon jour de f�te
Dans une oasis d'Afrique
V�tu d'une peau de girafe.

On montrera mon c�notaphe
Aux c�tes br�lantes de Mozambique.

(T. S. Eliot)

*

Bom dia!

14.11.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: QUEM FOI EDUARDO MOREIRA?

Por gentileza de Ana Cla�dia Vicente, publica-se aqui a biografia que fez de Eduardo Moreira na sua disserta��o de mestrado A Introdu��o do Escutismo em Portugal. 1911-1942.

Eduardo Henriques Moreira (1886 - 1980)

Natural da cidade de Lisboa, foi disc�pulo do professor Erasmo Braga. Fez estudos teol�gicos e hist�ricos. Tornou-se pastor da Igreja Evang�lica Presbiteriana em 1913; encetou profissionalmente, dois anos depois, carreira na fun��o p�blica. Desde o primeiro momento esteve envolvido na cria��o da Associa��o dos Escoteiros de Portugal (AEP), fundada em Setembro de 1913. Foi Secret�rio-Geral da AEP at� 1922, e Comiss�rio da Zona do Porto at� 1926, onde deu in�cio ao �Dia do Gaiato� (1923).
Em 1917, foi aceite pelo ministro de Guerra, Norton de Matos, como capel�o evang�lico do Corpo Expedicion�rio Portugu�s, miss�o que n�o chegou a cumprir devido ao golpe sidonista. Em 1920 foi eleito vereador do munic�pio de Lisboa, e no ano seguinte exerceu as fun��es de Vice-Presidente do Senado Camar�rio. Nessa altura foi aprovada, por proposta sua, a restaura��o da bandeira da cidade, e iniciados estudos topon�micos sobre a capital. Ap�s ter desempenhado fun��es de secret�rio ministerial do Coronel Ant�nio Maria Baptista, cessou em 1922 toda a sua participa��o pol�tica e carreira na fun��o p�blica, dedicando-se exclusivamente � vida religiosa.

Professor no Semin�rio Evang�lico e historiador do fen�meno protestante portugu�s (pertenceu ao Instituto Hist�rico do Minho e de Coimbra), preparou em 1928 uma colect�nea de leis que respeitavam aos evang�licos portugueses; foi poeta e periodista. Tomou a cargo a funda��o de v�rios �rg�os de comunica��o protestantes, nomeadamente a revista Tri�ngulo Vermelho, da Associa��o Crist� da Mocidade, sendo Secret�rio-Geral desta associa��o de 1922 a 1928. Primeiro Secret�rio da Alian�a Evang�lica Portuguesa (1922-25), assumiu a presid�ncia da institui��o pelo menos at� 1948. Representou Portugal em in�meras reuni�es internacionais, entre as quais os congressos pedag�gicos protestantes de Nimes (Fran�a), em 1922 e Poertschach (�ustria), em 1924; o Congresso Evang�lico Espanhol de Barcelona, 1929; ou o Congresso Mundial das Escolas Dominicais (Brasil), em 1932. Na qualidade de procurador das miss�es evang�licas em �frica, visitou durante o ano 1934 cinquenta esta��es mission�rias em Cabo Verde, Angola e Mo�ambique. Aderiu � Igreja Lusitana Cat�lica Apost�lica Evang�lica, tendo sido ordenado (primeiras ordens) em Outubro de 1947, pelo arcebispo Armagh, primaz da Irlanda. Com o bispo protestante Santos Figueiredo, participou na revis�o da vers�o seiscentista da B�blia, da autoria de Jo�o Ferreira de Almeida. Colaborou na Grande Enciclop�dia Portuguesa e Brasileira, editada nessa mesma d�cada, bem como na publica��o de v�rios artigos na imprensa (n� O S�culo, entre outros), sobretudo de divulga��o econ�mica.

(Ana Cl�udia Vicente)
 


HORA PIMBA 5
OU O REFRIG�RIO DOS AFECTOS PELAS EXCITA��ES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)
(Continua��o)

O Sim�es n�o percebe o Nuno : o rapaz do Nietzsche achava o vinho um "v�cio porco", mas apreciava "alguma companhia feminina que lhe animava um pouco as artes". O que � que lhe tinha dado? Trabalhava? O Nuno era um pequeno intelectual:
. O Sim�es, que tinha sa�do da loja para passsar pelo Centro Republicano, e n�o encontrara ningu�m de fei��o, tinha-se resignado � conversa com o "selvagem do Nuno". O que � que o Nuno lia?. Estranho.

E de repente lembrou-se:.
(Continua)
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(14 de Novembro)




Miser�vel o aproveitamento que Lou�� e Joana Amaral Dias (mesma tradi��o, mesmos m�todos) est�o a fazer da desgra�a do jovem baleado na ponte 25 de Abril. T�o miser�vel como aqueles que atacavam M�rio Soares de ser respons�vel pelos suic�dios de trabalhadores com sal�rios em atraso. Aqui est� um verdadeiro exemplo de como enterrar a campanha na lama.

*

O que est� por cima sobrep�e-se ao que est� por baixo, � a lei temporal dos blogues. A prop�sito do que est� por baixo, vale a pena ler Roger Sandall, "Tribal Yearnings. The enemies of the open society today" no The Culture Cult.

*

Tenham medo, tenham muito medo da s�rie de ideias ultra-politicamente correctas do pomposamente chamado Alto Comiss�rio para a Imigra��o e Minorias �tnicas (eu a pensar que num mundo "multicultural" n�o havia "minorias �tnicas"), expostas no estilo da Raposinha do Aquilino, "com muita treta", no Programa "Diga l� Excel�ncia" e reproduzidas no P�blico de hoje. Aqui vai uma pobre amostra do discurso cheio de certezas do Alto-Comiss�rio:

S� n�s:
"A Europa est� a viver um tempo triste em que se est� a fechar numa concha, erguendo muros e barreiras � sua volta. A opini�o p�blica espanhola era das poucas que se mantinham abertas, agora restamos praticamente s� n�s, os portugueses."
Onde est�o "talheres" coloquem coisas como o estado de direito, a democracia, valores civilizacionais como a igualdade das mulheres e dos homens, rep�dio da viol�ncia "cultural" (excis�o do clitoris, etc.):
"Quando eu convido algu�m para almo�ar comigo n�o � normal que eu exija que todos comam com talheres?

N�o � obrigat�rio. Eu acho poss�vel sentar � mesma mesa pessoas com registos culturais, hist�ricos e religiosos completamente diferentes.

Com pratos diferentes, instrumentos diferentes?

Exactamente. Em contexto global, � isso mesmo que temos que fazer. O grande perigo que corremos � querer que toda a humanidade se sente � nossa mesa comendo com os nossos talheres e com a nossa culin�ria."
Preconceitos:
"Vamos ent�o a um caso concreto. Defende escolas s� para algumas comunidades imigrantes, com curr�culos especiais?

N�o, a interculturalidade n�o � isso. Isso s�o vers�es suaves de multiculturalismo, vers�es de segrega��o, de separa��o de diferentes comunidades.

Mas parece que a escola portuguesa n�o interessa muito aos filhos dos imigrantes...

� um preconceito.

O insucesso escolar nestas comunidades � um preconceito?

Mas o insucesso escolar n�o tem que ver com o interesse na escola portuguesa. Temos todos a ganhar com a aceita��o da diversidade. De ver a realidade a partir do ponto de vista do outro."
As certezas enfatuadas e o tom dogm�tico eram t�o evidentes que at� os jornalistas habitualmente calmos estavam irritados.
 


COISAS SIMPLES


Norman Rockwell, The Connoisseur, 1962
 


EARLY MORNING BLOGS 644

Segredo

A poesia � incomunic�vel.
Fique torto no seu canto.
N�o ame.

Ou�o dizer que h� tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
� a revolu��o? o amor?
N�o diga nada.

Tudo � poss�vel, s� eu imposs�vel.
O mar transborda de peixes.
H� homens que andam no mar
como se andassem na rua.
N�o conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perd�o.
N�o pe�a.

(Carlos Drummond de Andrade)

*

Bom dia!

13.11.05
 


HORA PIMBA 4
OU O REFRIG�RIO DOS AFECTOS PELAS EXCITA��ES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)
(Continua��o)

Estava o nosso jovem a ler Nietzsche como um verdadeiro pluralista

quando o Sim�es o interrompe.

E l� subiu para a mansarda do Nuno (era em Alfama), o "da alma sincera", com a "mesa cheia de brochuras", um guarda-chuva, o catre mal feito, a luz do petr�leo.

(Continua)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FIM DAS ESP�CIES.
   


HORA PIMBA 3
OU O REFRIG�RIO DOS AFECTOS PELAS EXCITA��ES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)


De Eduardo Moreira, Duas Revolu��es. Hist�ria Veros�mil da Actualidade, Lisboa, Livraria Evangelica, 1925

O jovem que "n�o v� claro no meio da confus�o das doutrinas":



O "nosso amigo" estava a ler Nietzsche, em franc�s(� uma hist�ria "veros�mil"), e quer fazer a "instru��o contradit�ria" do cristianismo.



(Continua)
 


HORA PIMBA 2
OU O REFRIG�RIO DOS AFECTOS PELAS EXCITA��ES CULTURAIS
(OU VICE-VERSA)




O artista olha para o quadro e diz: "Outra vez comigo, querida fugitiva. Agora tenho duas: a inspirada e a real, a que amo...Existe a terceira que n�o vir�..."

Vir�, vir�, est� atr�s do sr. Costa:



Conclus�o: "a partir de ent�o, Xavier Costa compreeendeu o que faltava � sua arte: o toque maravilhoso do amor..."

(Continua na Hora Pimba 3)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
IDOSA ATACADA POR UM C�O NO PRIME TIME



(...) Envio-lhe outra reliquia. Daquelas que apenas por acaso e por ter a m�quina fotogr�fica na m�o tive o discernimento de captar o momento. Quantos me ter�o escapado?

(Carlos Br�s)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FIM DAS ESP�CIES

"Manuais escolares do estado do Kansas v�o poder por em causa a teoria da evolu��o" - P�blico.

H� uns anos atr�s, n�o teria acreditado, se me tivessem dito que estas seriam not�cias de 10 de Novembro de 2005. Teria pensado em fic��o de m� qualidade, em devaneios irrealistas sobre a decad�ncia ocidental, em cen�rios desviantes, marginais, em baterias mal apontadas... (Artur Furtado)

Um Portugal que n�o se v� todos os dias atravessa neste momento Lisboa

Fora de F�tima, claro. Mas F�tima � um ecossistema. (JPP)

Abrupto


Porque visito regularmente o Abrupto a leitura dos post atr�s transcritos suscitaram-me os coment�rios seguintes:

A forma desinformada como muitas vezes se retrata a sociedade norte-americana leva a uma generalizada convic��o na Europa que os norte-americanos s�o geralmente pouco esclarecidos

Vem isto a prop�sito das not�cias que, de vez em quando, aparecem na nossa Imprensa e que, propositadamente ou n�o, sublinham alguns aspectos aparentemente inintelig�veis do comportamento da sociedade norte-americana. Um dos mais batidos � a quest�o � volta do evolucionismo versus criacionismo.

N�o pretendo divagar sobre o assunto que, ali�s, n�o � suscept�vel de discuss�o cient�fica, mas apenas referir o seguinte:

1 � Cerca de 50% dos norte-americanos est� consciente que a esp�cie humana � resultado de um processo de evolu��o natural, tendo os desenvolvimentos cient�ficos mais recentes conclu�do que existe uma similaridade gen�tica da ordem dos 98,4% entre humanos e chimpanz�s. O pr�prio Darwin, certamente, se espantaria com t�o elevado grau de proximidade.

2 � Darwin, contudo, ficaria n�o menos espantado se soubesse que, passados 146 anos sobre a publica��o da �Origem das Esp�cies�, cerca de 50% dos norte-americanos e uma percentagem id�ntica de europeus ainda, intransigentemente, rejeita a sua teoria. Em Portugal, quantos? N�o sabemos, mas a avaliar pelo que se v� � nossa volta, o n�mero � seguramente muito superior.

3 � A principal raz�o pela qual o assunto � objecto de discuss�o, t�o badalada, nos Estados Unidos decorre do facto da pol�tica tradicional de decis�o dos conte�dos de ensino serem votados ao n�vel dos �town councils� e dos �local school boards�, encorajando uma larga variedade de opini�es que, naturalmente, tendem a competir entre si no sentido de ganhar influ�ncia e poder de decis�o. Esta descentraliza��o extrema n�o se faz sentir apenas ao n�vel do ensino e decorre do modo com os Estados Unidos se formaram.

4 � Tendo sido rejeitadas pelo Supremo Tribunal de Justi�a diversas tentativas de validar o Criacionismo como Ci�ncia, os adeptos do Criacionismo (e existem diversos ramos com diferentes perspectivas e diferentes nomes) evolu�ram para uma plataforma que consiste grosso modo em afirmarem-se utilizando como contra-argumentos alguns aspectos cient�ficos da teoria que ainda se encontram por confirmar.

5 � Em resumo: O criacionismo n�o � ensinado nas escolas norte americanas como ci�ncia (por n�o ser legalmente consentido, enquanto tal) mas em algumas escolas de alguns Estados, o criacionismo � indicado como uma proposta que tem os seus defensores.

N�o penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controv�rsia pode e est�, ali�s, a promover o avan�o da confirma��o da teoria da evolu��o natural.

E por c�? Quantos � que se preocupam com isto?
E j� agora: Quantos se preocupam com o fim das esp�cies?

(Rui Fonseca)

*
O que est� em causa com a pol�mica � volta da introdu��o do conceito de "Intelligent Design" no programa da disciplina de Ci�ncias (Science, na terminologia commun nos US) de algumas escolas p�blicas Americanas, � uma quest�o bem menos inocente do que o simples desejo motivado pela especula��o intelectual, que dever�, sim, ter lugar na classe de Filosofia.

� sim o sinal de uma persistente corrente de opini�o, religiosamente motivada que, derrotada no Supremo Tribunal, encontrou na caracteriz��o da do conceito da cria��o como um acto de "intelligent design", o subterf�gio para o fundamentalismo religioso que a move. � a mesma corrente que substitui as ora��es no in�cio da actividade escolar por um momento de "sil�ncio e reflec��o" e que conduz energicamente uma agenda socio-comportamental que, se implementada, transformaria os US, provavelmente, de forma irremedi�vel. Portanto, quando RF escreve - "N�o penso que venha grande mal ao mundo por isso. Uma vantagem da controv�rsia pode e est�, ali�s, a promover o avan�o da confirma��o da teoria da evolu��o natural" - est� a evidenciar uma grande dose de ingenuidade ou cinismo.

A discuss�o sobre o criacionismo ou "intelligent design" n�o deve ter lugar nas classes de Science, onde o m�todo cient�fico e a experimenta��o s�o ensinados. E, enquanto princ�pio, (n�o como hip�tese), religiosamente motivado, n�o deve ter lugar na escola p�blica. Esta opini�o � quase un�nime na comunidade cient�fica e merece largo concenso na sociedade americana. E se o exemplo recente do Kansas mereceu refer�ncia no jornal P�blico, � pena que id�ntica nota n�o tenha merecido a cidade de Dover na Pensilv�nia que, em elei��o na passada ter�a feira, votou democraticamente fora do School Board todos os representantes que advogavam a introdu��o do coceito no curricula do respectivo distrito escolar.

Para os interessados na discuss�o, sugiro um salto ao programa "This Week", com George Stephanopoulos, transmitido esta manh� (o atalho para o programa de hoje deve estar dispon�vel amanh�), onde a quest�o foi debatida com Sam Donaldson, Cokie Roberts e George Will.

(Arnaldo J Costeira, AJC, Houston, Texas)
 


A HORA PIMBA

Um dos efeitos disto... � acabar nisto, nestas maravilhas cl�ssicas. Ler alguns blogues portugueses tamb�m tem o mesmo efeito e n�o � t�o divertido.



Dois cl�ssicos. O de Jorge Martins tem um hino magn�fico para o Bloco de Esquerda, os "Pobres e os Ricos". O de Quim Gouveia � pr�-gripe das aves, mas tudo se esquece ao ouvir o "Viagra p'ra Mulher".



O dueto Irene Passsos / Nelo Junqueira, acompanhado � concertina por Quim Gon�alves, ainda n�o me convenceu a ouvir o disco "Quadras Picantes", pelo que fica s� a capa para a amostra. Quanto ao "M�e Querida 2" estamos perante um verdadeiro Diamante do Amor, como se diria no s�culo XVIII, neste caso materno-infantil. H� a �gata, a "sobrinha da D. �gata", a Romana, a Ruth Marlene e o Jos� Malhoa, e nenhuma m�e sai indiferente deste disco. E nenhum filho/a, presumo. Depois n�o se admirem se as criancinhas se divertem a queimar carros.

 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(13 de Novembro)



Todo o mundo c� dentro. Sinal dos sem�foros de Hong Kong, para quem tem saudades. O pequeno almo�o dos Googlers. Conversas de rua em Nova Iorque:

Hispanic man #1: Fucking wind. It's fucking cold up here, Holmes.
Hispanic man #2: People complain about New York too much, man. Remember how we had them killer bees...
(--120th between 1st & Pleasant Overheard by: Patrick Stegall)

Ah! e ainda h� isto...

 


APRENDENDO COM DOSTOIEVSKY:
"D�-LHES P�O SE QUERES QUE ELES SEJAM VIRTUOSOS"




"O sentido, se n�o o texto da primeira pergunta [das tenta��es do deserto], � o seguinte:

- �Queres apresentar-te ao mundo com as m�os vazias, anunciando aos homens uma liberdade, que a sua loucura e a sua maldade naturais n�o lhes permite compreender; uma liberdade espantosa - pois que, para o homem e para a sociedade, nunca houve nada t�o espantoso como a liberdade - quando, afinal, se convertesses em p�o todas estas pedras nuas, espalhadas � tua volta, verias a Humanidade correr atr�s de ti, como um rebanho, agradecida, submissa, receosa apenas de que a tua m�o suspendesse o gesto taumaturgo e os p�es se tornassem a volver em pedras.�

Mas tu n�o quiseste privar o homem da liberdade e repeliste a tenta��o; horrorizava-te a ideia de comprar com p�o a obedi�ncia da Humanidade, e respondeste que �nem s� de p�o vive o homem�, sem saber que o esp�rito da terra, exigindo o p�o da terra, havia de levantar-se contra ti, combater-te e vencer-te, e que todos haveriam de segui-lo, gritando �Deus deu-nos o fogo celeste!� Os s�culos passar�o e a Humanidade proclamar�, pela boca dos seus s�bios, que n�o h� crime e que, por conseguinte, n�o h� pecado: o que h� � apenas famintos: �D�-lhes p�o se queres que sejam virtuosos.�

Ser� esta a divisa dos que se levantar�o contra ti, esse ser� o lema que inscrever�o nas suas bandeiras; e o teu templo ser� destru�do, e em seu lugar erigir-se-� uma nova Torre de Babel, que n�o ser� mais firme do que a primeira; quando, afinal, poderias ter poupado ao homem o esfor�o da sua constru��o e mil anos de sofrimento.

Depois, ao cabo de mil anos de trabalho e dor, voltar�o para n�s, buscar-nos-�o nos subterr�neos, nas catacumbas, onde nos hav�amos escondido - fugindo ainda �s persegui��es, ao mart�rio, - e h�o-de gritar-nos: �P�o! Aqueles que nos haviam prometido o fogo do c�u n�o no-lo deram!� E n�s, ent�o, acabaremos a sua Babel, dando-lhes a �nica coisa de que ter�o necessidade. E f�-lo-emos em teu nome.
"

[Fala do Grande Inquisidor a Cristo, depois de o reconhecer e mandar prender, durante uma sua visita � Humanidade em Contos de Tostoi, Dostoievski, Gogol, Surguchov, Tasin, Korolenko e Garin, Lisboa, Ulmeiro, 2000, por gentileza de S.]
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
F� OU CULTURA? OU F� E CULTURA? OU OUTRA COISA?



O Peixe da Eucaristia nas Catacumbas de S. Calisto

Hoje, com os acontecimentos recentes em Fran�a, com a prociss�o em Lisboa que ontem encheu avenidas, uma ideia n�o me tem sa�do da cabe�a. Quando era mais nova e andava em grupos de jovens cat�licos lembro-me de, um dia, um padre com algum zelo mission�rio dizer que a religi�o, (neste caso o cristianismo cat�lico) era uma quest�o de f� e n�o uma quest�o cultural. Claro que esta frase deve ter sido dita num contexto espec�fico, mas mesmo assim ela nunca me deixou confort�vel e nunca consegui concordar com ela. Se � ineg�vel que a religi�o � uma quest�o individual de f�, ou de n�o f�, ela acaba por extravasar claramente esse dom�nio �ntimo da forma como cada indiv�duo vive a sua f� para se afirmar como uma forma de cultura e uma base civilizacional inescap�vel. Foi assim ao longo dos s�culos e assim continuar� a ser.

Talvez a nossa especificidade europeia actual seja a tentativa de esquecimento e nega��o dessa base cultural e civilizacional que nos � dada pela religi�o, atrav�s de conceitos modernos, alguns sa�dos daquele acontecimento �nico que mudou a Europa e cuja hist�ria completa e isenta ainda est� por fazer, que � a Revolu��o Francesa, tipo liberdade, igualdade, laicismo e de outros conceitos mais actuais sa�dos do boom p�s guerra, da descoloniza��o, da guerra do Vietname e marginalmente do esp�rito Maio de 68, tipo liberdade de express�o, minorias, autodetermina��o dos povos, perd�o de d�vida, multiculturalismo. N�o quero questionar o valor ou n�o de tais conceitos, quero somente frisar o aspecto de que a sua valoriza��o permitiu o esquecimento e a desvaloriza��o de outros que sustentaram a nossa Europa durante s�culos. Como diz JPP no P�blico desta semana: "uma Europa em cujo espelho a antiga Europa greco-latina e judaico-crist�, a �nica que h�, n�o se reconhece", e "o modo como se est� a ser complacente com os tumultos franceses mostra que onde dev�amos ter orgulho passamos a ter vergonha, e passamos a ter culpa".

As avenidas de Lisboa cheias de pessoas que participaram activamente ou que meramente assistiram � Prociss�o em Lisboa, mostra talvez que, afinal a religi�o n�o � s� uma quest�o do foro �ntimo da f�: � tamb�m talvez e ainda, apesar de tudo, uma forma de cultura. Nossa muito nossa. E o catolicismo do Sul, porque mais fadado para manifesta��es exteriores do que o protestantismo do Norte, de vez em quando ainda nos surpreende pela sua imensa for�a.

� dif�cil n�o querer ver o que realmente est� em causa, muito para al�m da "sociologia" e do "estado social", nos tumultos em Fran�a.

(J.)
*

O que eu vi, na prociss�o de ontem, (e vi pouco, e vi pela televis�o), para al�m da multid�o que n�o me impressiona, foram pessoas (mulheres) do povo, com mais de sessenta anos a chorar e a suplicar: Ajuda o meu filho! D�-me sa�de nas pernas! Faz-me ver, d�-me a vista! N�o estou a ridicularizar nem a diminuir, nem a generalizar, n�o eram milhares de pessoas nesta atitude. Mas foram as que a televis�o me mostrou.

F�? Cultura? F� e cultura? Outros mais habilitados do que eu para essa complexa discuss�o podem t�-la (e t�m-na). No entanto, e era isso que vinha dizer, tem mais a ver com civiliza��o do que com cultura propriamente dita. Mas o que n�o h� d�vida nenhuma � que as religi�es est�o na matriz das civiliza��es e isso � que, paradoxalmente, � um dos principais catalizadores de conflitos (e nem estou a falar de conflitos actuais).

(RM)
 


COISAS COMPLICADAS


Edward Hopper, The Lonely House
 


EARLY MORNING BLOGS 643

Soneto Fiel

Voc�bulos de s�lica, aspereza,
chuva nas dunas, tojos, animais
ca�ados entre n�voas matinais,
a beleza que t�m se � beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
as ondas de madeira artesanais
deixando o seu fulgor nos areais,
a solid�o coalhada sobre a mesa.

As s�labas de cedro, de papel,
a espuma vegetal, o selo de �gua,
caindo-me nas m�os desde o in�cio.

O abat-jour,o seu luar fiel,
insinuando sem amor nem m�goa
a noite que cercou o meu of�cio.

(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

12.11.05
 


UM PORTUGAL QUE N�O SE V� TODOS OS DIAS 3

Fora de F�tima, claro. Mas F�tima � um ecossistema.
 


UM PORTUGAL QUE N�O SE V� TODOS OS DIAS 2

Um Portugal �org�nico� que responde a velhas palavras. Uma voz que enumera nomes antigos:

Rainha dos Patriarcas
Rainha dos Confessores
Rainha do Sant�ssimo Ros�rio
Rainha da Paz
M�e do C�u

Falando para que mundo? Patriarcas? Confessores? Ros�rio?

Uma cruz de n�on, um Cristo que parece bizantino, escuteiros, muitas crian�as, milhares de pessoas por detr�s de uma est�tua de uma mulher jovem e bela, com um manto branco, de m�os postas. Dois mil anos de cultura europeia, mas nem por isso menos estranho. Realmente estranho. J� n�o temos um espelho f�cil para nos vermos.

*

Falando para que mundo? Patriarcas? Confessores? Ros�rio?

E acredite (...) era tudo t�o simples. Desconfio que n�o encontra ninu�m que lhe explique as l�grimas na intimidade daqueles momentos.

Consoladora dos aflitos,
Aux�lio dos crist�os

(Isabel G.)
*

N�o percebi o seu post sobre a prociss�o ontem em Lisboa. Estranho? Porqu�? O que eu vi ontem foi uma manifesta��o feita por um conjunto enorme de pessoas que t�m, pelo menos, uma coisa em comum: a devo��o por Nossa Senhora. Como ouvi v�rias vezes ontem, �o �Tuga� tem destas coisas�. E � verdade. Haja coragem para reconhecer que muito poucas coisas para al�m da Igreja Cat�lica movimentam tanta gente.

N�o � estranho. � bonito. E ao mesmo tempo comovente.

(Rui Esperan�a)

*
Agustina Bessa Lu�s num do seus �ltimos romances, numa daquelas frases perturbadoras que nos fazem parar a leitura, dizia que o sec. XXI vai ser o s�culo do misticismo. H� vinte anos t�nhamos todas as certezas e agora n�o temos nenhuma.
Ser� isso?

A minha M�e h� uns tempos disse-me: quando tu eras pequeno, quando a vida era mais doce... N�o estaremos todos tomados por uma amargura procurando, por uma via ou outra, o rem�dio que a adoce? O Mundo perdeu o Esp�rito? Ou ser� apenas aus�ncia de Reflex�o numa Sociedade em que nos querem dar tudo pronto?

(Miguel Geraldes Cardoso)
 


UM PORTUGAL QUE N�O SE V� TODOS OS DIAS

atravessa neste momento Lisboa.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A JOANA TEVE APENAS AZAR

E se Cristo morresse hoje? Ser� que a TV o entrevistava em directo?
Talvez, se fosse em hor�rio nobre.
O jogo das emo��es � o mesmo.
A morte da Joana tem mais interesse televisivo do que a sua vida.Stop.
A morte da Joana � apenas um mero epis�dio da vida dela.
A morte da Joana era um facto pr�-anunciado.
E ningu�m reagiu, nem tribunais, nem Institutos daqui e de acol�.
A nossa dist�ncia ao Burkina Faso � uma mera quest�o televisiva.
Todos os anos cerca de 17 000 crian�as ficam orf�s de pai.Ou porque o pai n�o quer ou por decis�o dos tribunais que empurram estas crian�as para a orfandade.Legal, racional, sem espinhas para a sociedade. Mandatos de captura em branco.Perdem a heran�a do pai e de tudo o que est� a jusante e a montante do mesmo.
Quem nos protege dos nossos protectores?
A vida da Joana � muito mais televisiva.
A Joana teve apenas azar

(Fernando Sequeira)
 


BIBLIOTECA


Ant�nio Leal, Biblioteca da M. 22
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO com a publica��o da nota introdut�ria do III Volume da minha biografia pol�tica de Cunhal.

Actualizadas as notas O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DIA DO ARMIST�CIO e O RETORNO DA VIOL�NCIA POL�TICA DISFAR�ADA DE "REVOLTA SOCIAL".
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A FORTALEZA EUROPA

Quais s�o os Continentes que rodeiam a Europa? Pergunta de f�cil resposta, logo aqui ao p� est� Africa e depois da Europa de Leste fica a �sia e a P�rsia� Os Europeus fundamentalmente desde o Sec. 15 que n�o tiveram pejo em sair dos seus respectivos pa�ses e confortavelmente (na maioria dos casos) instalarem-se nos pa�ses de outros continentes � �poca menos desenvolvidos.

Mais de quinhentos anos volvidos, algumas antigas ex-col�nias s�o hoje verdadeiras potencias em franco desenvolvimento (�ndia, Africa do Sul, Brasil, Tail�ndia), no entanto, a grande maioria dos pa�ses Africanos e alguns do Leste Europeu ainda se encontram em verdadeiro estado de subdesenvolvimento e precariedade social. � esta diferen�a de desenvolvimento e de condi��es de vida que leva a que milhares de pessoas oriundas do Magrebe, da Africa Central e do M�dio Oriente a tentem agora a sua sorte na Europa. A quest�o que se levanta �: Apesar de, conscientemente, sabermos que esses povos nos receberam � mais de quinhentos anos e que de l� trouxemos fortunas e riquezas, pode a Europa receber hoje tanta gente oriunda desses (e de outros) locais?

A Fran�a, pa�s de s�lidos princ�pios de igualdade e fraternidade recebeu-os aos milhares mas tamb�m, Alemanha, Espanha e at� Portugal constam da rota da imigra��o, agora a Europa social est� em crise� n�o h� emprego para ningu�m, no entanto a situa��o dos n�o Europeus � mais grave ainda, pois n�o se encontram ainda instalados nem t�m as condi��es m�nimas de conforto. A Utopia tem um pre�o, nem a Europa � um inesgot�vel �den, nem � uma inexpugn�vel fortaleza, algures no meio andar� a verdade das coisas. Quanto mais realistas formos e quanto mais nos aproximarmos da verdade dos factos, melhor poderemos compreender o que motiva a pr�tica destes actos desesperados e talvez at� inconsequentes, para j�, tal como j� sucedeu no �Projecto para uma Constitui��o Europeia�, h� que parar para reflectir.

(Pedro Bet�mio de Almeida)
 


COISAS SIMPLES


Alex Katz, Grey light
 


EARLY MORNING BLOGS 642

Pastelaria

Afinal o que importa n�o � a literatura
nem a cr�tica de arte nem a c�mara escura

Afinal o que importa n�o � bem o neg�cio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de �cio

Afinal o que importa n�o � ser novo e galante
- ele h� tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa � n�o ter medo: fechar os olhos frente ao precip�cio
e cair verticalmente no v�cio

N�o � verdade rapaz? E amanh� h� bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa n�o � haver gente com fome
porque assim como assim ainda h� muita gente que come

Que afinal o que importa � n�o ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao p� de muita gente:
Gerente! Este leite est� azedo!

Que afinal o que importa � p�r ao alto a gola do peludo
� sa�da da pastelaria, e l� fora � ah, l� fora! � rir de tudo

No riso admir�vel de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos � mostra

(M�rio Cesariny)

*

Bom dia!

11.11.05
 


DAQUI A DIAS


estar� c� fora.
 


O PO�O

Construir um po�o � um trabalho hegeliano, cheio de futuro, feito pela dial�ctica, teleol�gico. Depois, trabalha a nega��o da nega��o, ou seja, o tempo. O po�o � muito antigo, enorme, profundo, escavado directamente na rocha calc�ria, mais um abismo do que um po�o se n�o fosse o seu formato de c�rculo perfeito. Que campos regaria? N�o sei, desapareceram cercados por casas, por ruas. Em 1945, com as esperan�as do p�s-guerra, foi-lhe feita um cobertura de cimento armado, rudimentar, cobrindo o seu enorme arco e deixando sobre a terra uma pequena abertura, um po�o que parecia um tanque de lavar, com um guincho para tirar �gua.

Com o tempo, a nega��o de novo, a cobertura foi sendo tapada por terra e ningu�m sabia da dimens�o do po�o, a n�o ser pelo humilde tanque. Ra�zes estriaram as paredes procurando sempre cada vez mais fundo a �gua. O po�o deixou de ser preciso, os ferros enferrujaram, o balde substitu�do por um regador que se desfez nas suas partes de ferro. Terra, ervas, silvas taparam quase tudo. Um dia, metade foi abaixo fazendo o abismo comunicar com as partes superiores do mundo. A ordem quebrou-se.

Para a repor tentou-se evitar que o que sobrava, uma laje ferida, perigosa, ca�sse para dentro. Imposs�vel. A m�quina azul que veio ficou com um dilema: ou se agarrava aos fragmentos superiores e corria o risco de mergulhar atr�s deles, se o seu peso fosse o bastante para levar tudo atr�s, ou tentava parti-los de forma ordenada. O po�o mandou mais e � mais pequena tentativa caiu tudo dentro. A m�quina n�o chegou a prender-se, felizmente, bastou tocar nas velhas paredes e foi tudo por ali abaixo. A terra tem este modo peculiar de nos engolir.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FIC��O DE M� QUALIDADE


"
Depuis 0 heure, mercredi 9 novembre, l'�tat d'urgence s'applique donc en France" - Le Monde.


"
Manuais escolares do estado do Kansas v�o poder por em causa a teoria da evolu��o" - P�blico.

H� uns anos atr�s, n�o teria acreditado, se me tivessem dito que estas seriam not�cias de 10 de Novembro de 2005. Teria pensado em fic��o de m� qualidade, em devaneios irrealistas sobre a decad�ncia ocidental, em cen�rios desviantes, marginais, em baterias mal apontadas...

(Artur Furtado)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DIA DO ARMIST�CIO



Hoje � dia 11 de Novembro. Um pouco por toda a Europa e em v�rios pa�ses do resto do mundo celebra-se o Dia do Armist�cio. Celebra-se o fim da Grande Guerra e homenageia-se os que nela morreram. Tanto quanto sei, em Portugal n�o se fala sequer disso. E, no entanto, tamb�m n�s l� estivemos. Tamb�m morreram portugueses nos campos da Flandres. E ningu�m sequer lembra o que este dia representa. Apesar de novo, j� me habituei a este tipo de coisas em Portugal. Gostava era de saber porque � que � assim.

Lembro-me de ouvir a minha av� dizer, quando se falava na Grande Guerra, que o seu pai tinha estado "na Fran�a" nessa altura. N�o sei se o meu bisav� esteve ou n�o a combater na Fran�a, e a mem�ria da minha av� (j� falecida) n�o permitia tirar conclus�es definitivas. Ser� que em Portugal se pode obter os nomes dos que foram enviados para combater? Essa informa��o existe de todo?

Acho triste n�o se falar deste dia em Portugal. Sei que no Reino Unido � um dia de grande significado. Basta sintonizar a BBC e ver os apresentadores com as papoilas vermelhas da Flandres ao peito. Acho que numa altura em que a Europa enfrenta crises de maturidade � apropriado que se lembre a guerra que acabou com a sua inoc�ncia.

(Jorge Pereira)

Uma vez que "lan�ou" o meu e-mail (...) talvez n�o sem importe de colocar este poema como forma de lembrar os mortos da Grande Guerra, incluindo os nossos. Trata-se do poema "In Flanders fields" do m�dico canadiano John McCrae, que morreu em Fran�a.

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly,
Scarce heard amid the guns below.
We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved, and were loved, and now we lie,

In Flanders fields.
Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.


*

A msg de Jorge Pereira (DIA DO ARMIST�CIO), sugere-me uma outra observa��o sobre a mem�ria colectiva. Que, no caso, at� se reporta bastante � sua �rea de investiga��o (e de viv�ncia...), e bem demonstra o apagamento presente de um passado que naturalmente nos conformou e cuja relev�ncia n�o soubemos, afinal, reter:
Por alturas do PREC, numa vila do Alentejo Litoral, falando com gente oper�ria/artes� (sapateiros, carpinteiros, gentes assim) de gera��o anterior (que ent�o teria 45/70 anos, para os meus 20), era comum dizerem-me terem lido Vitor Hugo, Zola, Kropotkin, tudo amalgamado numa literatura/pedagogia revolucion�ria que teria sido usual (?) no seu meio social e profissional e na sua juventude, isto �, l� para os anos de 30/40/50. Mas acrescentavam mais: que essa literatura vinha desde os tempos de outra gera��o - a que imediatamente os antecedera, ou seja, a que fora coet�nea da Grande Guerra e da Revolu��o Russa.

Da�, dava-se o caso, pelo que me transmitiam, que aquelas leituras e influ�ncias tinham vindo de Fran�a trazidas pelos soldados portugueses expedicion�rios.
E mais, ocorreria uma jun��o �s�cio-cultural� entre a influ�ncia daqueles soldados e das suas experi�ncias �franco-socialistas� e a influ�ncia que, pela altura, exercia a Revolu��o Russa, de tudo resultando uma gera��o oper�ria (ou, talvez melhor, dos artes�os locais) que, no meio local, na Vila, veio a ficar conhecida como a d' �os camaradinhas�, gente que ainda em 1974 era conhecida de toda a sociedade local, a qual teria desempenhado com algum vigor oposi��o ao Estado Novo e era o contraponto, no mundo do trabalho, aos homens �da Legi�o�.
Como � bom de ver (e aqui volto � msg �DIA DO ARMIST�CIO�), a transmiss�o da mem�ria - que a historieta que relato demonstra que se manteve naturalmnete at�, pelo menos, aos anos 70, at� �s transforma��es sociais que vivemos nas nossas vidas - deixou de se efectuar. Com que custos e perdas de valores sociais?

(Ant�nio Marques)
*
Diz o leitor Jorge Pereira, e com raz�o, que em Portugal ningu�m se lembra de comemorar o armist�cio da Grande Guerra. E dos mortos na Flandres.

E eu acrescentaria: e poucos sabem que em �frica, em Mo�ambique e em Angola, onde os portugueses defrontaram os alem�es do Tanganica e da Nam�bia (ent�o col�nias deles), morreram tantos portugeses (2500, sem contar os �ind�genas�) como em Fran�a (2400)! De facto, proporcionalmente � popula��o nacional das �pocas, morreram quase tantos portugueses ent�o, nessa interven��o militar de 2,5 anos que visava garantir o direito portugu�s ao seu quinh�o colonial, como na pr�pria Guerra colonial (8300, incluindo os �ind�genas�?)!

(Pinto de S�)
*
Ja' que os mortos aliados da Grande Guerra se est�o a manifestar no seu blogue, sugiro que conceda algumas linhas ao Wilfred Owen, morto uma semana antes do Armisticio.

THE NEXT WAR

War's a joke for me and you,
While we know such dreams are true.
SIEGFRIED SASSOON

Out there, we've walked quite friendly up to Death;
Sat down and eaten with him, cool and bland, -
Pardoned his spilling mess-tins in our hand.
We've sniffed the green thick odour of his breath, - Our eyes wept, but our courage didn't writhe.
He's spat at us with bullets and he's coughed
Shrapnel. We chorused when he sang aloft; We whistled while he shaved us with his scythe.

Oh, Death was never enemy of ours!
We laughed at him, we leagued with him, old chum.
No soldier's paid to kick against his powers.
We laughed, knowing that better men would come, And greater wars; when each proud fighter brags He wars on Death - for lives; not men - for flags.

Muito melhor ainda do que as evoca��es de poetas mortos, seria a comemora��o da intelig�ncia que resta. A minha recomenda��o seria a leitura do cl�ssico T�moins, essai d'analyse et de critique des souvenirs de combattants �dit�s en fran�ais de 1915 � 1918 de Jean Norton Cru, publicado pela primeira vez em 1929. Melhor exposi��o da grande mentira (Dulce et decorum est pro patria mori) de que falava o Owen, bem como das legi�es de pequenos mentirosos, n�o conhe�o.

(A.S.M.)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: SATURNIANO TRIO


Dione, Tetis e Pandora dan�ando no vazio, no sil�ncio, no frio.
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(11 de Novembro)



Nunca, jamais , em tempo algum, v�o a este s�tio . Depois queixem-se. O Rocketboom foi l� e viu-se o resultado.

*

Rocketboom vai longe, vai, vai.

*

Na blogosfera um dos objectivos de M�rio Soares foi conseguido: a discuss�o est� bipolarizada entre Soares e Cavaco. Alegre, Lou�� e Jer�nimo n�o existem no debate, o que � significativo e premonit�rio.

*

A maioria dos jornalistas n�o consegue falar dos blogues a n�o ser de uma forma defensiva e reservada. A maioria dos defeitos que lhes assacam, j� sabemos que n�o existe nos jornais... Mas uma coisa eu tenho nos blogues que n�o encontro nos jornais, e, quando encontro, n�o encontro melhor do que nos blogues - informa��es, coment�rios e transcri��es sobre eventos, debates, confer�ncias, col�quios que alargam o espa�o p�blico de informa��o. Disse informa��o, n�o opini�o. Tamb�m h� muita inforopini�o, como quase tudo nos jornais, com a vantagem de se perceber o que � e n�o estar disfar�ada de not�cia. Posso seguir, por exemplo, o debate de ontem sobre blogues na Almedina a partir da Engrenagem, do Ind�strias Culturais, e haver� hoje certamente mais.

*

Pergunta que precisa de ser respondida: "Isto � para os blogues ou para a confus�o?", no ContraFactos & Argumentos. S� faltava mais esta, uma entidade reguladora para os blogues, com uma composi��o pol�tica (tenho ali�s sobre esta Entidade as mesmas enormes reservas que tive sobre a Alta-Autoridade). A �nica regula��o que os blogues precisam � a da lei comum, adaptada minimalisticamente sempre que for necess�rio �s caracter�sticas do meio.

*

Sobre a RTP Mem�ria, de um leitor :
Uma das �rubricas� deste canal � uma sequ�ncia de excertos de telejornais de datas v�rias, interessante, ali�s, justapondo reportagens pol�ticas, culturais, desportivas, de import�ncia diversa. H� no entanto uma diferen�a na forma de apresenta��o, entre as imagens de antes e depois de 25 de Abril de 1974.

As do �depois�, s�o integralmente apresentadas. As do �antes�, sem o som original. De in�cio, desatento, n�o reparei, at� reconhecer uma melodia, sempre a mesma. Os telejornais do �antes� est�o narcotizados numa long�nqua m�sica �ambiente�, algo nost�lgica, que n�o destoa da data das imagens. Por gostar da �pequena hist�ria�, seria delicioso saber do meandro desta decis�o editorial. Mas j� basta a ironia da coisa.

(Lu�s Abel Ferreira)
 


EARLY MORNING BLOGS 641

Escolha

Entre vento e navalha escolho o vento
entre verde e vermelho aquele azul
que at� na morte servir� de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra

Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as m�os que se d�o a que se oculta
Entre o que nunca soube o que j� sobra
Entre a relva um mil�metro de bruma.

(David Mour�o Ferreira)

*

Bom dia!

10.11.05
 


O RETORNO DA VIOL�NCIA POL�TICA DISFAR�ADA DE "REVOLTA SOCIAL"



(No P�blico de hoje)


Se se pensa que est� consolidada nas democracias a condena��o da viol�ncia como instrumento pol�tico, pensa-se mal. Desde que os movimentos radicais da extrema-esquerda e extrema-direita, que defendiam a viol�ncia "revolucion�ria", perderam influ�ncia e se desintegraram nos anos 80, com o fim do surto terrorista que das Brigadas Vermelhas italianas, �s FP portuguesas, atravessou toda a Europa, que parecia haver um consenso pol�tico de intransig�ncia quanto ao uso da viol�ncia nos sistemas democr�ticos. O caso da ETA e do IRA eram excep��es que confirmavam a regra de que em democracia a viol�ncia estava de todo exclu�da.

Mas desenganemo-nos. Bastou surgir uma nova viol�ncia, com novos actores e novas causas, ocupando, mesmo que ilusoriamente, o local e a mem�ria dessa viol�ncia radical do passado, para se verificar que importantes sectores pol�ticos da nossa sociedade democr�tica mostram uma enorme complac�ncia com a sua utiliza��o como instrumento pol�tico. Nos sectores tradicionalmente da "esquerda", e numa "direita" complexada e temerosa, volta de novo a haver um caldo cultural para que a viol�ncia pol�tica surja como aceit�vel, como "justificada".

O mecanismo fundamental de aceita��o da viol�ncia nos nossos dias � uma esp�cie de sociologia de pacotilha, mais herdeira do marxismo do que parece, que explica a "revolta dos jovens" (bem-aventurado eufemismo) pelas condi��es sociais da sua vida. � uma "explica��o" que tem muito de voluntarismo pol�tico e pouco de ci�ncia, embora, como tamb�m acontecia com o marxismo no passado, pretenda fornecer uma inevitabilidade causal. Antes, os prolet�rios deveriam fazer a revolu��o violenta porque eram explorados e a sua "mais-valia" apropriada pelos capitalistas, agora os jovens revoltam-se porque n�o t�m "esperan�a no futuro" e s�o marginalizados. Em ambos os casos h� sempre uma explica��o social �til, que ilude o adquirido pol�tico do pensamento democr�tico, dissolvendo-o nas mesmas perigosas ideias sobre a "justifica��o" da viol�ncia pela causalidade social.

De novo, aqui se est� num terreno de dupla ilus�o: nem a "revolta" � t�o "social" como parece, e inclui dimens�es criminais, de vandalismo juvenil, de "mentalidade", que n�o s�o redut�veis � economia, como s�o deliberadamente minimizadas as motiva��es de ordem cultural, religiosa e civilizacional, bastante mais importantes do que parecem. � evidente que h� factores "sociais" que explicam o que se passa, mas n�o � por aqui que se vai longe. H� desemprego, guetiza��o, marginalidade, exclus�o e racismo, mas h� tamb�m outras causas de que se evita falar, t�o "sociais" como as anteriores, como seja o efeito em popula��es deprimidas da intensa subsidia��o do providencialismo do Estado, gerando expectativas artificiais e um direito permanente de reivindica��o, cada vez mais incomport�vel numa Europa em decl�nio, da recusa do trabalho por uma "vida de rua" sem controlo, nem "patr�o", de discrimina��es sexuais de origem cultural e religiosa que t�m a ver com a ideia patrimonial da mulher mu�ulmana pelos homens da sua fam�lia. O urbanismo dos HLM � culpabilizado, mas cada uma das cit�s que agora se inflama - e pouco sabemos, porque ningu�m nos quer dizer, se � significativo o n�mero de "jovens" envolvido - � um verdadeiro para�so comparado com os bidonvilles onde os emigrantes portugueses viveram.

Que a explica��o "social" circulante � um passe-partout simplista, torna-se evidente quanto ela se centra na condena��o da ac��o policial, na recusa da criminaliza��o dos actos de destrui��o e viol�ncia, na �nfase na culpabiliza��o do Estado, do Governo e dos pol�ticos, na sucess�o at� ao infinito das desculpas para o que acontece, como se fosse inevit�vel que acontecesse. Abra-se um jornal, ou�a-se uma r�dio ou uma televis�o, assista-se a um debate e � desculpa sobre desculpa, tudo isto culminando com a conclus�o que os "jovens" t�m raz�o em "revoltar-se". Ora isto tem mais a ver com a pol�tica do que com a sociologia.

� por isso que nenhuma desta mec�nica explicativa se usaria se os tumultos tivessem origem em grupos racistas da extrema-direita, ou de grupos neonazis. A�, o que se ouviria de imediato era o apelo � repress�o, a criminaliza��o ideol�gica, a exig�ncia de ac��es punitivas dr�sticas. Ora, tanto quanto eu saiba, a prolifera��o de grupos neonazis, na Alemanha de leste, por exemplo, tamb�m traduz a mesma "falta de esperan�a" de uma juventude que tem elevadas taxas de desemprego. S� que a� ningu�m avan�a ou aceita explica��es "sociais", e ai de quem minimizasse qualquer viol�ncia desses "jovens" que nunca teriam direito a este tratamento t�o simp�tico, mesmo quando tamb�m s�o jovens...

Outra variante da desculpa "social" para a viol�ncia � o factor identit�rio, a crise da segunda gera��o entre dois mundos culturais muito diferentes. S� que tamb�m muito voto para Le Pen e muito da viol�ncia racista alem� traduz igualmente a crise de identidade dos nacionais, quase sempre mais velhos e encurralados, face a um mundo que lhes parece estrangeiro, agressivo e hostil.

O que est� em jogo n�o � o pastiche sociol�gico carregado de culpa que nos querem vender, num daqueles sobressaltos de unanimismo explicativo, a que estamos a assistir cada vez mais desde a guerra do Iraque, feito de pouco pluralismo, simplismos brutais e ideologia dominante do politicamente correcto. O que est� em jogo � o primado do Estado de direito - contam-se pelos dedos de uma m�o as pessoas que tiveram a coragem de falar das leis - e, com ele, as nossas liberdades e direitos adquiridos. Sim, s�o as nossas liberdades e a nossa democracia que ardem nos arredores das cidades francesas, n�o � Sarkozy, que, se fosse demitido, seria o melhor atestado da fragilidade do Estado franc�s e a receita para muitos mais tumultos em que ningu�m teria m�o. A oposi��o socialista em Fran�a e a ciz�nia dentro da maioria andam aqui a brincar com o fogo.

A minha gera��o namorou o suficiente com a viol�ncia pol�tica para a conhecer bem. Tinha as melhores das raz�es para esse namoro, havia um Estado ditatorial que conduzia uma guerra in�qua. Mas, como muitas vezes acontece, h� uma mistura entre as melhores das raz�es e as piores das ideias, e h� que reconhecer que o impulso terrorista que levou aos crimes das Brigadas Vermelhas tamb�m existia por c�. Se o 25 de Abril n�o se tivesse dado em 1974, v�rios grupos da extrema-esquerda portuguesa teriam caminhado para o terrorismo pol�tico que se prolongaria mesmo em democracia. Felizmente, a alegria e a for�a da liberdade reconquistada varreu tudo e todos e essa mesma gera��o tornou-se um pilar da democracia portuguesa, a que trouxe outras experi�ncias de vida e luta.

Por isso, podemos perceber bem o que se est� a passar na Europa. Os "jovens" s�o de facto os filhos dos imigrantes, cuja demografia salva e condena a Europa ao mesmo tempo, salva-a da extin��o demogr�fica e condena-a a ser uma Europa em cujo espelho a antiga Europa greco-latina e judaico-crist�, a �nica que h�, n�o se reconhece. Este dilema n�o est� apenas a fazer arder os carros, est� tamb�m a incendiar a democracia pol�tica com ideias que lhe s�o alheias e hostis.

Este dilema s� pode ser superado com intransig�ncia na defesa da lei e do direito e na proclama��o, sem d�vidas, de que n�o � leg�tima em qualquer circunst�ncia, insisto, em qualquer circunst�ncia, o uso da viol�ncia para obter objectivos pol�ticos quando se vive em liberdade. Este � um adquirido de muitos anos de luta, que custou muito sacrif�cio e muito sangue, mas � das coisas em que a Europa deve ter orgulho e n�o culpa. O modo como se est� a ser complacente com os tumultos franceses mostra que onde dev�amos ter orgulho passamos a ter vergonha, e passamos a ter culpa.

Estamos velhos e com medo, este � o estado da Europa.

*
Pensar sobre os acontecimentos em Fran�a requer desde logo a enuncia��o clara de uma preven��o: enveredar pelo discurso exprobat�rio e fazer compara��es temer�rias sobre a viol�ncia urbana n�o � prudente e indicia a useira e vezeira a pregui�a do pensamento (o menosprezo aprior�stico das interpreta��es da "pseudo-sociologia" n�o � atitude avisada, embora seja uma atitude que, entre n�s, tenha um longu�ssimo passado mas uma curt�ssima hist�ria.). Recusar a explica��o ou, melhor, recusar alguns conceitos que, tentativa e lacunarmente, concedem inteligibilidade aos acontecimentos � inaceit�vel do ponto de vista racional e � uma recusa ris�vel do pensamento cr�tico (o que nos faz, tamb�m, recordar algumas reac��es ao 11 de Setembro).

Em estupor, muitos descobrem agora que a Vieille France j� n�o existe e apressam-se a apresentar agora uma vers�o Mad Max dos acontecimentos - dist�pica e apocal�ptica. Outros, culpam o Welfare State e, perante o sofrimento social pand�mico, pregam a self help e o fim do garantismo social do estado, visto como bloqueio inercial ao desenvolvimento econ�mico. A "m�o esquerda do estado" - , os "trabalhadores sociais" dos minist�rios ditos despesistas (professores, pol�cias, assistentes sociais, m�dicos de fam�lia) - sabiam que o sofrimento social era pungente e a explos�o social eminente, enquanto a "m�o direita" - respons�veis do minist�rios da economia e finan�as, da banca ( a "alta nobreza de estado") - prosseguia a pol�tica consabida de estrito autismo e equilibrismo financeiro .

O recalcamento do sofrimento social retorna sempre. N�o raras vezes, de forma conflitual e ag�nica. Recusar pensar este sofrimento � remet�-lo � invisibilidade, suplantando-o com o fulgor medi�tico das suas terr�veis consequ�ncias.
Quem tem medo da sociologia?

(D.)
*
Sobre um post no Abrupto, de 7.11.05, gostaria de perguntar o seguinte:

- Quanto � que essa "enorme rede de subs�dios e financiamentos estatais"
pesa realmente no or�amento de estado franc�s?

- Quanto � que "a enorme quantidade de pessoas que trabalha nestes programas, associa��es, ONGs" pesa no mesmo or�amento?

- Do conjunto de subs�dios atribu�dos na Fran�a, qual � a percentagem entregue �s empresas e qual � a percentagem entregue a pessoas ou projectos sociais? (e, j� agora, o mesmo para os EUA, porque ouvi l� dizer que os custos das ajudas a pessoas necessitadas � uma parte �nfima das ajudas estatais para as empresas)

N�o escondo que este post me chocou pelo modo como desprestigia o sistema social europeu, que considero fundamental. Vivi alguns anos nos EUA, e vi algo completamente diferente desse "modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes d� oportunidades de emprego e ascens�o social". Vi um quadro de leis laborais t�o incipiente (ou desconhecido?) que permitia fen�menos pr�ximos da escravatura; imigrantes ilegais a viver em caves insalubres; acesso a um ensino com um m�nimo de qualidade apenas para quem tem os meios para o pagar; escolas p�blicas com detectores de metais � porta; uma enorme mobilidade social para baixo (no espa�o de semanas pode-se passar de classe m�dia para homeless).

Tamb�m achei interessante o coment�rio sobre a fuga de c�rebros. O estado social europeu garante ensino praticamente gratuito e at� d� bolsas de estudo para os melhores irem para o estrangeiro aprender mais. Vi como isso se passa nos EUA: o pessoal chega, trabalha v�rios anos sem grandes custos para o laborat�rio que os recebe, e no fim o laborat�rio oferece propostas irrecus�veis aos que considera realmente bons. O "descontentamento destes c�rebros em rela��o ao funcionamento da sociedade e ao sistema de impostos" � um caso de morder na m�o que d� de comer - sem o estado social, a maior parte deles nunca teria tido a possibilidade de passar por uma universidade estrangeira, ou sequer estudar.

(Helena Ara�jo)
*
(...) a prop�sito deste seu artigo sobre a viol�ncia gostaria de lhe contrapor o seguinte:

Que embora concorde totalmente consigo existem culpados. Tanto � esquerda como � direita nunca lhes incomodou a explora��o que foram alvo estes emigrantes. Uns com subs�dios adiaram o inevit�vel os outros n�o tiveram a coragem para alterar as coisas. Porque se uns d�o p�o para n�o serem incomodados os outros n�o se incomodam e usam a sua supremacia econ�mico-social para esmagar o pr�ximo.

(Carlos Br�s)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: P� E LUZ



N�s que nascemos do p�, e voltamos ao p�, respeitamos pouco o p�. At� a palavra, olhando bem para ela, � um pouco rid�cula. Em latim � melhor, pulvis como nas campas; em ingl�s tamb�m, dust, powder � bem melhor que p�. Mas olhando estas montanhas de p� a palavrinha pequena ganha outra dimens�o. Como em tudo, est� no olhar. H� quem veja grande, e h� quem sempre veja pequenino, baixinho, rente aos �caros. Verdade seja que Deus d� por ela de todos.
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o as notas e bibliografias dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(10 de Novembro)




Cada vez melhor o Rocketboom.

*

Diferen�as, recenseamento. No La R�publique des Livres

"Puisque tout s�enseigne, pourquoi n�apprendrait-on pas � �crire des textes, voire des livres ? Pas une universit� am�ricaine digne de ce nom qui n�ait son workshop of creative writing. Raymond Carver, Philip Roth, Jay MacInerney, John Irving, William Styron, EL Doctorow, Richard Ford, Joyce Carol Oates et d�autres y ont �tudi� avant d�y enseigner � leur tour. Rien de tel en France o� l�id�e fait encore hurler. On n'en voit que l'aspect n�gatif : le risque de standardisation de l'�criture et d'uniformisation du go�t litt�raire. "

*

No Bicho Carpinteiro um esconjuro de Medeiros Ferreira: "� mesmo o �nico candidato [Soares] no terreno. Os mais novos devem estar a poupar-se. A ver se aguentam."

No Ritual da Celebra��o dos Exorcismos vem explicado que "esconjuro" � "uma forma imperativa usada pelo exorcista para que Satan�s deixe o possesso."

*


No BoingBoing este SuperChe da fam�lia do SuperMario e a pergunta: "This t-shirt mashes up the canonical Che Guevara image with Mario -- sure, Che helped liberate Cuba and Bolivia, but what did he ever do to save Mushroom Princesses?"

*

No Overheard in the Office, uma nova categoria "Friday brain": "Worker: Crap. It's Wednesday afternoon and I already have Friday brain."
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: NAUTICAL SLANG

Quando abro um dicion�rio para procurar uma palavra acabo sempre por ser levada a muitas outras (ao ponto de �s vezes me esquecer o que me levou a abrir o dicion�rio). No Shorter Oxford English Dictionary - que �, de resto, o meu dicion�rio favorito, e um modelo exemplar daquilo que um bom dicion�rio deve ser - encontrei, por mero acaso, a seguinte express�o:

Portuguese parliament Nautical slang a discussion in which many speak at once and few listen; a hubbub.

A fama da Assembleia da Rep�blica chega longe!

(Madalena Ferreira �hman)
 


COISAS COMPLICADAS


Edward Ruscha, Etc.
 


EARLY MORNING BLOGS 641

Gato


Que fazes por aqui, � gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avan�as, cauto,
meio agastado e sempre a disfar�ar
o que afinal n�o tens e eu te empresto,
� gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no p�lo, frio no olhar!

De que obscura for�a �s a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta m�o, aquela cara?
Gato, c�mplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos n�s, teus donos ou teus servos?


(Alexandre O�Neill)

*

Bom dia!

9.11.05
 


BIBLIOTECA


Ant�nio Leal, Biblioteca da M. 21
 


DE REGRESSO

de mais uma corrida, mais uma viagem, mais uns livros, mais uns jornais, mais uns pap�is. Como um selvagem ca�ador-recolector.

7.11.05
 


BIBLIOTECA


Ant�nio Leal, Biblioteca da M. 20
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(7 de Novembro)



Not�cias do MyLifeBits um dos mais interessantes projectos de investiga��o da Microsoft e que um dia chegar� a uma "janela" junto de si. O MyLifeBits, sobre o qual j� escrevi v�rios textos, � uma esp�cie de backup da vida toda. Gordon Bell, o seu principal animador, anda h� j� v�rios anos a registar a sua vida em bits. Como se v� pelo gr�fico junto, uma vida inteira n�o ocupa muito espa�o num disco duro:




*

Num artigo de hoje do Lib�ration , que se queixa de que o �Estado abandonou os bairros sociais (as �Cit�s�)�, percebem-se tr�s coisas:

a enorme rede de subs�dios e financiamentos estatais t�picos do �modelo social europeu�. O artigo cita a crise das ac��es de alfabetiza��o, financiamentos do Fasild (antigo Fundo de Ac��o Social), ac��es de preven��o com adolescentes, programa de empregos-jovem, ac��es com mulheres, associa��es subsidiadas (o exemplo � uma intitulada Sable d�Or Mediterran�e) que fazem ac��es de inser��o, acolhimento dos rec�m emigrados, acesso � cultura, teatro de adultos, inicia��o ao cinema, v�rios projectos art�sticos e culturais, etc., etc.;

a enorme quantidade de pessoas que trabalha nestes programas, associa��es, ONGs, que s�o elas pr�prias um grupo de press�o para o aumento dos subs�dios e o alargamento dos apoios estatais, e que, n�o � por acaso, aparecem nesta crise como as principais vozes �justificando� a �revolta dos jovens�;

e, por �ltimo, o enorme contraste entre o modo europeu de �receber� e integrar os emigrantes envolvendo-os em subs�dios e apoios, centrado no estado e no or�amento, hoje naturalmente em crise; e o modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes d� oportunidades de emprego e ascens�o social.

*
A prop�sito da nota sobre o artigo do "Lib�ration", e do peso do "modelo social europeu" que se sente, gostaria de acrescentar um facto de que pouco se fala: � que a Fran�a, tal como Portugal, tamb�m atravessa um momento de "fuga de c�rebros": jovens com forma��o acad�mica superior que, descontentes com o tipo de sociedade, emprego, impostos, v�o � procura de melhores oportunidades de realiza��o profissional e de cria��o de riqueza, nomeadamente em Inglaterra, EUA, Canad�, Suissa. Pelos vistos j� n�o s�o s� os jovens de 2� gera��o de origem africana e magrebina que andam descontentes: t�m � formas diversas de o manifestar.

(J.)
 


AR PURO


James B. Abbott, Winter Dune
 


EARLY MORNING BLOGS 640

A City Winter 5


I plunge deep within this frozen lake
whose mirrored fastnesses fill up my heart,
where tears drift from frivolity to art
all white and slobbering, and by mistake
are the sky. I'm no whale to cruise apart
in fields impassive of my stench, my sake,
my sign to crushing seas that fall like fake
pillars to crash! to sow as wake my heart

and don't be niggardly. The snow drifts low
and yet neglects to cover me, and I
dance just ahead to keep my heart in sight.
How like a queen, to seek with jealous eye
the face that flees you, hidden city, white
swan. There's no art to free me, blinded so


(Frank O'Hara)

*

Bom dia!

6.11.05
 


BIBLIOTECA


Ant�nio Leal, Biblioteca da M. 19
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA 2 (Actualizado) de ontem.
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA
(6 de Novembro)




Sobre os comentadores an�nimos e os seus coment�rios divirtam-se no Rocketboom... (Ou v�o l� hoje, ou s� no arquivo.)

O Sol brilhando como o milho no ch�o da eira, no Astronomy Picture of the Day. (Ou v�o l� hoje, ou s� no arquivo.)
 


AR PURO


Ansel Adams, Sunrise Mt. Tom, Sierra, NV
 


EARLY MORNING BLOGS 639

A vazia sand�lia de S. Francisco


A gratid�o da macieira e a amn�sia do gato
nunca pautaram o curso dos meus dias.
�Fiquem onde est�o!�,
foi a minha ordem para a macieira e para o gato,
ainda bem exteriores ao meu fraco por eles.

Salvei-os (e salvei-me!) de uma f�bula
cuja moral necessariamente devia ser eu, o parlante
amigo de macieiras e conhecido de gatos.

D� um certo desconforto malbaratar assim amigos
em dois reinos da natureza.
Mas tamb�m d� liberdade.

H� uma gente que desponta do outro lado do vale.
Est� a correr para c�.
S�o os meus semelhantes.
Com eles vou desentender-me (mais que certo!),
mas a ideia que deles fa�o
� ainda um la�o.

Repousem em paz as macieiras e os gatos.

(Alexandre O�Neill)

*

Bom dia!

4.11.05
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA 2
(Actualizado)




De novo, o notici�rio das 13 horas da RTP1 transformou-se numa vers�o "noticiosa" de um panfleto do Bloco de esquerda, a prop�sito dos incidentes de Paris. De novo, � pena que o texto das not�cias n�o esteja dispon�vel em linha, para que todos possam julgar. J� n�o basta o modo como se tratou o Katrina, nunca rectificando as informa��es falsas que foram dadas, coisa que todos pediram (e bem) para ser feito com o "arrast�o", mas que ningu�m exige quanto ao Katrina. Agora � uma "interpreta��o" do que acontece em Paris inteiramente conducente � justifica��o da viol�ncia. Preto no branco, uma justifica��o da viol�ncia, que nada tem a ver com not�cias ou com jornalismo, mas com um digest de pseudo-sociologia politizada e grosseira. Por que raz�o � que eu tenho como contribuinte que pagar os exerc�cios de propaganda pol�tica de um grupo de senhores jornalistas que s�o maus profissionais e que nos querem apascentar?

Os que est�o sempre a pedir exemplos concretos e que depois nunca os querem discutir, t�m aqui um exemplo mais que preciso - notici�rio das 13 horas da RTP1. Coloquem-no no papel para lermos com distancia��o e vejam l� se o que resulta � jornalismo ou � opini�o pol�tica disfar�ada de not�cias.

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Aqui vai a transcri��o da pe�a do Jornal da Tarde de ontem acerca dos dist�rbios de Paris. A grava��o v�deo desse programa est� integralmente dispon�vel aqui (toc�vel com o Real Player)

(Jo�o Fraga)
"O ataque pelo ataque. A viol�ncia pela viol�ncia. Um dos alvos da �ltima noite foi um infant�rio. �Porqu� um infant�rio? Porqu� um carro, porqu� uma escola? N�o h� resposta. � a viol�ncia cega� (depoimento de um cidad�o)

� a resposta de uma juventude que se sente marginalizada, discriminada, remetida para guetos de cimento e, muitas vezes, tratada de forma diferente s� por uma quest�o de preconceito r�cico.

Quando vemos os automobilistas que s�o interpelados, se virmos a cor de pele, podemos fazer certas perguntas... A cor de pele, a idade, tamb�m...� (depoimento de uma cidad� politicamente engag�)

Pergunta-se, tamb�m, como foi poss�vel, por exemplo, entrar numa mesquita numa altura t�o sens�vel como esta. Samir (?) � uma pe�a nos meios mu�ulmanos e considera que esse foi um tiro no p� por parte das autoridades. O epis�dio incendiou ainda mais os �nimos. Trouxe para o terreno o factor religioso, mesmo que mal interpretado. Assim, noite ap�s noite, grupos de jovens v�m para a rua e desafiam a Pol�cia quase cara a cara. Nunca s�o mais do que dez a quinze elementos por bando, e escapam facilmente por labirintos que conhecem como ningu�m. Um agente comentava mesmo que chegam a divertir-se com a atrapalha��o policial. Os preju�zos, esses v�o se agravando. Mais de 300 carros queimados. O medo instalado. �Podemos recear que a propaga��o deste tipo de reac��o intoler�vel chegue a outras cidades.� (depoimento de um respons�vel pol�tico n�o identificado na reportagem)

Dijon, na regi�o de Burgundy, Sudeste da Fran�a, viveu tamb�m horas de verdadeiras loucura. E os cidad�os exigem do governo uma resposta eficaz.

Vamos destacar, a partir de agora, duas mil pessoas para refor�ar a seguran�a nos nossos bairros. Aplicaremos a lei, senhoras e senhores senadores, em toda a parte� (declara��es de um pol�tico, uma vez mais n�o identificado na reportagem, no Senado)

Os franceses percebem a toler�ncia zero, mas sabem que o problema n�o se resolve apenas com a repress�o. Por isso, Governo e munic�pios apostam, no imediato, no di�logo com os l�deres das comunidades imigrantes."
(Sublinhados meus nas frases que considero inadm�ss�veis numa not�cia e que induzem o telespectador a favor de uma opini�o preconcebida.)

*

Reparei apenas agora na transcri��o: "Dijon na regi�o de Burgundy" (que o locutor l� com sotaque franc�s). Burgundy � o nome ingl�s da Borgonha (Bourgogne), o que tamb�m mostra a neglig�ncia com que tudo isto � feito e a real ignor�ncia de quem o faz. Deve ter utilizado uma fonte em ingl�s e nada sabe da Fran�a.

*

Contr�riamente a JPP creio que o que mais sobressai nos notici�rios das v�rias esta��es de TV em Portugal n�o � tanto o alinhamento pol�tico ou ideol�gico (embora este tamb�m exista), mas sobretudo a pregui�a intelectual e a ignor�ncia dos redactores. Na maior parte dos casos as not�cias limitam-se a transcrever o conte�do dos notici�rios internacionais. Muitas vezes mal (como mostra a nota de JPP sobre a refer�ncia � regi�o "Burgundy").

O notici�rio da SIC abria hoje com a not�cia sobre mais uma noite de incidentes retomando a alegoria da "escumalha". Curiosamente algumas horas antes no canal 5 da TV francesa ficava-se a saber atrav�s de algumas testemunhas oculares que as afirma��es do ministro tinham sido retiradas do contexto (na realidade o ministro respondia a uma interpela��o duma habitante que reclamava contra a impunidade de que beneficiava a "escumalha"). Embora fazendo eco dos protestos da oposi��o contra o ministro do Interior (Sarkozy) o notici�rio da SIC ignorou a luta intestina que atravessa o governo (e o partido de Jacques Chirac) e que tem como principais protagonistas Sarkozy e o actual primeiro ministro (Villepin).

(Carlos Oliveira, Luxemburgo)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: POL�TICA NOS C�US



Nos arredores de Saturno n�o h� esquerda nem direita, h� os de cima (Tetis) e os de baixo (Dione).

Um f� da luta de classes: "... � o que chega, os de cima s�o da direita, os de baixo, os da esquerda."

Simplicius: "... h� um pequeno problema..."

O f� da dita: "qual problema, qual qu�. Os de baixo v�o-se revoltar e deitar os de cima para baixo e subir para cima."

Simplicius: " ... h� dois pequenos problemas..."


O f�: "diz j� quais s�o, j� me est�s a irritar e os de baixo quando se irritam fazem estragos..."

Simplicius: " ... h� tr�s pequenos problemas..."

O f�: [impr�prio num blogue bem educado]

Simplicius: "O primeiro � que n�o vais gostar da resposta, o segundo vem em Hegel e � o da "nega��o da nega��o", e o terceiro � que de vez em quando Dione fica em cima, e Tetis em baixo, porque a sociedade dos arredores de Saturno � muito bem ordenada, segue as leis de Kepler e n�o as da luta de classes..."

O f�: "... e eu sou um revolucion�rio, n�o quero saber das leis..."
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota A ESPANTOSA COMPLAC�NCIA.
 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA



H� pequenas coisas que revelam tudo. Uma � o que se inclui ou n�o, em que sec��o do jornal, em particular o que se deixa para a pol�tica, agora intitulada no Di�rio de Not�cias e no P�blico como "nacional", e o que se coloca fora dela, em mais pac�ficas sec��es como "Media" ou "Sociedade".

O problema n�o � s� de c� e espelha as background assumptions dos jornalistas, que na Europa tendem a uniformizar-se pelo politicamente correcto (ah! sim, o politicamente correcto existe mesmo e est� de boa sa�de...) No Lib�ration de hoje est� um bom exemplo, com a inclus�o do notici�rio sobre os casseurs de Paris na sec��o "sociedade". Ent�o o que fez essa parte da "sociedade" francesa ontem � noite: "Quelque 400 voitures br�l�es, un d�p�t de bus incendi�, les voyageurs d'un RER d�pouill�s� " Os "voyageurs d'un RER" s�o eles pr�prios gente pobre e de vida dif�cil, mas foram roubados pelos "jovens em revolta" e n�o contam como exclu�dos porque trabalham duramente, n�o pegam fogo aos carros e querem ordem nas ruas . Este � o caldo de cultura a que Le Pen vai buscar votos.

Sobre isto um duro e certeiro editorial de Jos� Manuel Fernandes (que n�o est� em linha...) contrasta com um t�pico produto do politicamente correcto, neste caso das piores ideias da esquerda, de Eduardo D�maso no Di�rio de Not�cias. Nele n�o h� uma �nica nota de distancia��o face �s viol�ncias,poupando os "jovens marginalizados pela crise econ�mica e por uma sociedade em crise de valores" a qualquer censura (se fossem membros de uma claque de futebol ou neo-nazis teriam certamente outro tratamento), que sobrou, como � evidente, para Sarkozy:

"A �nica resposta que Sarkozy consegue dar � a da repress�o pura. Nada conseguir�, como nunca nenhum antes dele conseguiu. Nada se consegue neste campo estigmatizando o protesto e instrumentalizando a pol�cia. Nada se consegue desinvestindo na integra��o social ou entregando-o apenas � velha l�gica misericordiosa da piedade cat�lica."

Assino por baixo do que escreve Jos� Manuel Fernandes:

"Na mesma noite em que dois jovens morreram electrocutados em circunst�ncias que permanecem nebulosas (mas de que logo se responsabilizou a pol�cia), um homem de 50 anos era morto ao pontap� por delinquentes perante a passividade de dezenas de pessoas. O presidente da c�mara local entendeu dever acorrer ao funeral dos jovens, mas ignorou o da v�tima do banditismo. Este gesto cont�m uma clara mensagem pol�tica que valoriza a suspei��o, n�o provada, sobre um eventual exagero da pol�cia, e desvaloriza o vandalismo mais b�rbaro.

O imenso falhan�o da "integra��o" reside exactamente nestes tipo de equ�vocos, nesta total confus�o de valores. Se se aceita e justifica os que vivem desafiando a lei, acaba-se no caos. E se n�o se promovem os valores da toler�ncia e do trabalho, acaba-se na segrega��o. Pior s� acrescentando um clima pol�tico inquinado, como aquele que a Fran�a vive."

Acrescentaria � "crise de valores" a que Jos� Manuel Fernandes atribui (na sequ�ncia de teses que t�m sido muito divulgadas por Jo�o Carlos Espada), uma import�ncia central e que n�o � o meu cup of tea, um outro elemento mais terra � terra, o papel do islamismo radical como factor de diferencia��o cultural e civilizacional, que o "multiculturalismo" dominante impede de combater.
 


COISAS COMPLICADAS


Helena Almeida, Seduzir
 


EARLY MORNING BLOGS 638

SIRVENT�S

Do que sabia nulha r�n non sei,
polo mundo, que vej�assi andar;
e, quand�i cuido, ei log�a cuidar,
per boa f�, o que nunca cuidei:
ca vej�agora o que nunca vi
e ou�o cousas que nunca o�.

Aqueste mundo, par Deus, non � tal
qual eu vi outro, non � gran sazon;
e por aquesto, no meu cora�on,
aquel desej�e este quero mal,
ca vej�agora o que nunca vi
e ou�o cousas que nunca o�.

E non receo mia morte poren,
e, Deus lo sabe, queria morrer,
ca non vejo de que aja prazer
nen sei amigo de que diga ben:
ca vej�agora o que nunca vi
e ou�o cousas que nunca o�.

E, se me a min Deus quisess�atender,
per boa f�, a pouca razon,
eu post�avia no meu cora�on
de nunca j� mais neun ben fazer,
ca vej�agora o que nunca vi
e ou�o cousas que nunca o�.

E non daria ren por viver i
en este mundo mais do que vivi.

(Pero Gomez Barroso)

*

Bom dia!

3.11.05
 


BIBLIOTECA


Ant�nio Leal, Biblioteca da M. 18
 


TEMAS PRESIDENCIAIS (2� S�RIE)



(No P�blico.)

Deriva presidencialista
- A exist�ncia de uma "deriva presidencialista" da "direita" � o mais presente fantasma desta campanha. Criado por Vital Moreira, que aparece como um dos principais ide�logos desta campanha de Soares (juntamente com Medeiros Ferreira e M�rio Mesquita, nenhum um t�pico socialista), tem sido por ele alimentado com desvelo. Vital passa todo o tempo a denunciar uma "deriva presidencialista", que encontra essencialmente em dois autores que pouco t�m a ver com a campanha de Cavaco (artigos de Rui Machete e uma entrevista de Nuno Morais Sarmento, ali�s de natureza bem diferente), e depois, referindo-se ao que ele pr�prio escreve e aos seus ecos, pergunta: "Mas por que raz�o se est� agora a discutir pela primeira vez os poderes do Presidente?" E responde, fazendo o mal e a caramunha, porque a "direita" tem um plano conspirativo para a presid�ncia Cavaco. Assim n�o adianta discutir, porque o mero facto de se citar que o candidato Cavaco nada disse que justificasse tal "deriva", bem pelo contr�rio, j� � contribuir para a discuss�o, cuja mera exist�ncia alimenta a suspeita de Vital Moreira. � um c�rculo vicioso, � volta de um fantasma.

Deriva presidencialista 2 - Claro que h� uma vaga forma humana no fantasma da "deriva", mas essa est� nos olhos dos que a v�em: percebe-se medo, n�o de qualquer deriva presidencialista, mas de uma presid�ncia forte, legitimada por um resultado eleitoral inequ�voco, que se far� sobre a quebra da hegemonia socialista, e, no caso de Soares, de uma frac��o de socialistas, sobre uma parte do establishment nacional onde dominam, quase incontest�veis, h� mais de duas d�cadas. Mas isso � do dom�nio do pol�tico, dos efeitos pol�ticos inevit�veis pela forma como foi lan�ada a candidatura Soares e pouco tem a ver com os poderes presidenciais. A pol�mica da "deriva presidencial" preenche o desejo imagin�rio de esconjurar esta realidade, de n�o querer perceber que os tempos mudaram.

A melhor frase da campanha vinda do lado de Soares - Se eu raciocinasse como Vital Moreira faz a prop�sito da "deriva presidencialista", encontraria na frase insuspeita de M�rio Mesquita - Cavaco despertar� o "pior" de S�crates e Soares o "melhor" - uma interessante demonstra��o de como � de Soares que vir� a instabilidade pol�tica para o Governo e n�o de Cavaco. Porque o que Mesquita est� a dizer, preto no branco, � que Cavaco ajudar� S�crates a prosseguir uma pol�tica de austeridade, com medidas dif�ceis, e que Soares o "moderar�".

Comiss�es de honra - Entre Soares e Cavaco h� mais de mil nomes nas comiss�es de honra, o retrato da elite portuguesa, os financeiros, os empres�rios, o alto funcionalismo, os embaixadores, os militares de alta patente na reforma, os gestores p�blicos, os advogados de neg�cios, os respons�veis pelas funda��es, os "patr�es" universit�rios, da medicina, da investiga��o, os pequenos, m�dios e grandes intelectuais, as "figuras da cultura", os desportistas, por a� adiante. A compara��o que tem sido feita entre ambas vai no sentido de contrastar o apoio dos meios econ�micos a Cavaco e dos meios da cultura a Soares. Admitamos que assim �, embora seja j� bastante menos evidente a hegemonia absoluta que Soares tinha nesses meios, perdendo para Alegre e Cavaco.

O que � politicamente mais interessante � a efectiva redu��o do espa�o pol�tico de Soares ao centro e no centro-esquerda. O MASP III � mais socialista, quase nada social-democrata, e as candidaturas de Alegre e Lou�� impediram-no de ser mais esquerdista, O que as sondagens revelam mostra-o as muitas centenas de nomes da comiss�o de honra de M�rio Soares: um acantonamento da influ�ncia.

Pol�tico profissional -- � a mais est�ril das pol�micas, mas menos fastasm�tica do que a da "deriva presidencialista". De facto, h� elementos do discurso de Cavaco que abrem caminho para uma ambiguidade sobre o car�cter da ac��o pol�tica em democracia. � a percep��o dessa ambiguidade que levou M�rio Soares a dar as melhores das suas respostas na apresenta��o do seu manifesto de candidatura (a resposta sobre a nega��o do "suprapartidarismo" e sobre a entrega ou n�o entrega do cart�o de militante). Aqui h� de facto um choque entre duas culturas pol�ticas, que reproduz em parte o choque com o "eanismo".

Pol�tico profissional 2 - Se entendermos que um "pol�tico profissional" significa que se dedica � pol�tica uma interven��o continuada, tendo-se ou n�o cargos, Soares e Cavaco s�o ambos "pol�ticos profissionais". Se se entende que ser "pol�tico profissional" � fazer pol�tica com uma dedica��o "profissional" e n�o amadora, Soares e Cavaco s�o ambos "profissionais". Ambos manejam os instrumentos simb�licos e de poder da pol�tica, com destreza. Ambos utilizam mecanismos de convencimento espec�ficos da pol�tica, ambos recorrem a profissionais de t�cnicas modernas como o marketing e a publicidade, a organiza��o de eventos, especialistas de imagem, mostrando em plenitude o seu profissionalismo.

Se se entende que ser "pol�tico profissional" � ter como "profiss�o" a pol�tica e nada mais, Soares � mais um "pol�tico profissional" do que Cavaco. O papel da profiss�o em Cavaco � maior do que em Soares, e pode com mais facilidade entrar e sair da pol�tica activa, tanto mais que n�o tem o envolvimento partid�rio de Soares.

Registe-se que, de todos, no seu envolvimento com a pol�tica, s� Lou�� rivaliza com Soares, seguindo-se Jer�nimo de Sousa (cuja profiss�o � ser funcion�rio de um partido) e Alegre, que "ganha" mais como escritor do que como pol�tico. Se fizermos esta hierarquia, percebemos que � o envolvimento no quotidiano partid�rio, mais do que o exerc�cio de cargos pol�ticos, que faz a diferen�a de Cavaco. Cavaco parece menos comprometido com a pol�tica "profissional", porque as suas rupturas com a ac��o pol�tica o afastam dos cargos e do partido.

Linhas de ataque (Cavaco contra Soares) 3 - A linha de ataque de Cavaco � n�o haver linha de ataque. Esta linha de ataque � favorecida pelo facto de M�rio Soares ter apresentado como explica��es gen�ticas da sua candidatura o "impedir o passeio na avenida" de Cavaco, nesta ou noutra variante, o que tornou a sua candidatura muito redutora.

Linhas de ataque (Cavaco contra Soares e vice-versa) 4 - Esta linha de ataque resulta enquanto as quest�es permanecerem fantasm�ticas - como � o caso da "deriva presidencialista" - ou ficarem circunscritas ao universo interno da agenda das outras candidaturas. Mas a quest�o das reformas recebidas por Cavaco � um exemplo de linhas de ataque (de Soares) mais eficazes, porque se situam no universo interior da pr�pria candidatura e da sua imagem, que nunca sofreu o desgaste do ataque populista e demag�gico.

Soares j� tem todos os anticorpos a esse tipo de ataques, Cavaco n�o tem e confia na sua robustez, na sua imagem de homem impoluto e honesto, que n�o beneficia da actividade pol�tica para proveito pr�prio. Mas � falha de outras quest�es, haver� sempre a tenta��o de mergulhar Cavaco no mesmo caldo de cultura de suspei��es e desprest�gio em que est� o grosso da pol�tica portuguesa. Isso far� resvalar a campanha para um terreno feio, mas o desespero � mau conselheiro.

Manuel Alegre - Posso estar enganado, mas tenho muita dificuldade em raciocinar como sendo Manuel Alegre o outro p�lo da bipolariza��o presidencial. � verdade que as sondagens lhe d�o marginalmente esse papel; no entanto, se elas forem tomadas � letra, ent�o ter� que se concluir que o que acontece � que n�o h� mesmo p�lo nenhum, porque est�o todos t�o abaixo dos n�meros de Cavaco, que n�o h� verdadeira bipolariza��o. Por muitas raz�es, de que exponho apenas algumas, penso que � o confronto Cavaco-Soares o confronto central destas elei��es e que s� esse pode impedir Cavaco de passar � segunda volta. Se ele n�o se verificar, n�o me parece que haja segunda volta.

O apoio do PS a M�rio Soares pode ser renitente e for�ado, mas, mesmo assim, ser� um factor decisivo a favorecer Soares versus Alegre. Depois vir� a pol�tica, a hist�ria e a afectividade, em particular a negativa, a antipatia entre os dois. Ambos t�m uma hist�ria conflitual comum, que � relevante para a contenda presidencial, em particular a experi�ncia do segundo mandato de Soares. Por fim, os dois, Cavaco e Soares, s�o o verdadeiro contradit�rio, afastados pela mundivid�ncia, gostos, vida, irrita��es, feitio. Como tudo isto � bem conhecido dos portugueses, favorecer� na primeira volta a bipolariza��o Cavaco-Soares, marginalizando Alegre. Vamos ver.

(Continuaremos com outras quest�es: partidos pol�ticos e candidaturas presidenciais, "suprapartidarismo", "eanismo" e "cavaquismo", Portas, PSD e PS, etc.)
 


A ESPANTOSA COMPLAC�NCIA



Basta haver um ar de revolta social contra o �sistema�, um ar de �multiculturalismo� revolucion�rio dos �deserdados da terra� contra os ricos (os que t�m carro, os pequenos lojistas, os stands de autom�veis, os pequenos com�rcios), para a velha complac�ncia face � viol�ncia vir ao de cima. Fossem neo-nazis os autores dos tumultos e a p�tria e a civiliza��o ficavam em perigo, mas como s�o jovens mu�ulmanos da banlieue, j� podem partir tudo. N�o s�o v�ndalos, s�o �jovens" reagindo � �viol�ncia policial�, s�o �v�timas� do desemprego e do racismo dos franceses, justificados na sua "revolta", e t�m que ser tratados com luvas verbais e delicadeza politicamente correcta. Os maus s�o as for�as da ordem, os governantes, os pol�cias, os bombeiros e todos os que mostram uma curiosidade indevida pelos seus bairros de territ�rio libertado.

No fundo, n�o � novidade nenhuma. H� muitos anos que � assim, que estas quest�es s�o tratadas com imensa v�nia, n�o v�o os �jovens� zangarem-se e vingarem-se. A culpa � nossa, n�o �?

*

Os media europeus sao horr�veis. Absolutamente horr�veis, quem ouvir ou ler um notici�rio europeu fica com a impress�o que os policias sao uns malandros, que perseguiram dois pobres inocentes desgra�ados e que os encostaram aos cabos el�ctricos e os mataram propositadamente�

Estas s�o as mesmas pessoas que culpam Bush pelo atentados em Londres, que culparam Aznar e Bush pelos atentados em Madrid, que querem que os EUA negoceiem com Bin Laden (Soares e outros), s�o pessoas que passeiam as suas opini�es de �peace and love� mas que n�o oferecem alternativa quando algo de errado acontece. Para eles a pobreza desculpa tudo, as pessoas sao pobres por isso organizam-se em gangs, pegam em armas, roubam, saqueiam, destroem, cometem actos de terrorismo, etc. N�o tem outra alternativa, s�o desgra�ados, descriminados, e tem de cometer crimes para sobreviver. Mas ent�o e as pessoas que s�o pobres e que trabalham honestamente para que os seus filhos possam estudar e ter um futuro melhor? E os portugueses em Franca e noutros locais do mundo que abrem pequenos restaurantes, que trabalham na constru��o civil que comem o p�o que o diabo amassou para que os seus filhos tenham um futuro melhor? Algu�m os ve cometer crimes? Ser� que porque algu�m faz parte de uma minoria isso e� um bilhete directo para a viol�ncia e roubo?

Revolta-me isto que eu gosto de chamar a �cultura do pobrezinho e do desgra�adinho�. E� revoltante! As regras de sociedade sao para cumprir, e sao para cumprir por todos, minorias inclusive�.

(Carlos Carvalho, Ottawa, Canad�)
*


... tamb�m na banlieue h� poesia.
(S.)
*

A culpa � nossa, n�o �?

Claro! E o jornalista da RTP n�o se esqueceu de rematar a reportagem no local com uma patacoada em que a ideia era: �As for�as policiais tamb�m s�o acusadas dos dist�rbios por aparecerem ostensivamente�.

(C. Medina Ribeiro)
*

Acabei de ver o notici�rio das 24h na SIC Not�cias, onde o jornalista chamava aos vandalizadores "manifestantes". O que � espantoso � que um acontecimento destes, que se prolonga h� mais de uma semana num dos maiores centros da Europa, n�o mere�a sequer que um jornalista se desloque ao local. Estamos a 2h30 da not�cia e temos que aturar um "locutor" sentado numa redac��o em Carnaxide a comentar as imagens que passam da TF1, da BBC ou da France Press.
J� n�o falo na p�ssima an�lise jornalistica, t�o influenciada pela complac�ncia sociol�gica, o que me repugna neste jornalismo � que uma pessoa que pretende transmitir uma not�cia j� nem sequer se desloca ao local para saber esta coisa simples: o que se passa? Porqu�? E isto passa-se aqui no "centro", como confiar nestes profissionais para transmitir o que quer que seja sobre o Iraque, o Afeganist�o ou os EUA?

(Jo�o Lopes)
*

Parece-me que num caso ou no outro h� excessos. N�o podemos partilhar de extremos que, por um lado culpabilizam a pol�cia e, por outro lado, culpabilizam aqueles jovens. Se h� necessidade de um culpado, de algo ou algu�m que assume todas as culpas, tem que se procurar na Hist�ria da Arg�lia, Tun�sia, Marrocos, tem que se procurar na f�ria da constru��o das cidades nos arredores de Paris nos anos 70, para eliminar os chamados "Bidons-ville" que tamb�m existiram na cidade das luzes. Cometem-se sempre erros. Algu�m alguma vez visitou os sub�rbios de Paris? as tais "Banlieues", como s�o referidas ( e bem! posto que n�o t�m nada que ver com os nossos sub�rbios.)..La Courneuve...Blanc-Mesnil... Aulnay-sous-Bois... Clichy-sous-Bois... Montfermeil. N�o vejo televis�o, recuso essas imagens de que todos falam. Desejo um olhar que seja apenas meu, um olhar que n�o esteja contaminado, o que � praticamente imposs�vel, posto que quer queiramos, quer n�o, estamos sempre submetidos �s imagens divulgadas pelas televis�es que fazem parte do mobili�rio estetizante de todos os caf�s e restaurantes, pela imprensa, etc., presumo que s�o quase as mesmas. Apesar de ter sido privilegiada e ter sempre vivido em Paris, quer na prestigiada "Rive Gauche", quer na mais popular Goutte D'or, conheci os sub�rbios de Paris e de outras cidades francesas de passagem, assim como alguns dos seus habitantes, e acreditem que n�o � um sitio onde se pode viver, n�o � um s�tio onde se deseja viver. S�o s�tio chamados "cit�s", cidades? N�o me parece serem estas as cidadesdesejadas.... assemelham-se mais a guetos, dormit�rios, capoeiras constru�das para amontoar os menos integrados, os mais pobres, os que n�o pertencem ao modelo dos 3 Bs, aqueles que n�o s�o nem Belos, nem Brancos, nem Bons...

Quanto � compara��o entre estes jovens mu�ulmanos, nascidos em Fran�a, e os portugueses, temos que ter em conta que a vida social e a postura dos portugueses em Fran�a � muito diferente da dos mu�ulmanos. N�o podemos comparar. Em primeiro lugar porque os portugueses imigrantes, ou filhos de imigrantes com a nacionalidade francesa ocupam espa�os f�sicos e sociais espec�ficos e depois, porque a diferen�a est� definitivamente marcada na pele, na cor da pele, nos cabelos, na linguagem que desenvolveram nas mesmas "cit�s", na Hist�ria de ambos os povos e no que motivou a sua migra��o . Por outro lado, se os pol�ticos franceses t�m esta postura � porque desejam acalmar uma situa��o previs�vel, que t�m vindo a degradar-se desde Dezembro 2004. A �nica solu��o imediata, mas n�o permanente, � fazer exactamente o que est�o a fazer.

Dizer que h� por um lado os maus e por outro lado os bons, "os coitadinhos", n�o me parece ser a melhor forma de perceber o profundo mau estar social que tem vindo a instalar-se em Fran�a (e em vias de acontecer noutros pa�ses). Este mau estar � o espelho dos espa�os constru�dos para os homens sem serem � imagem dos homens. Parece-me que isto levanta uma quest�o de dignidade. Haver� dignidade poss�vel para todos neste mundo?

(Ana da Palma)
 


BIBLIOFILIA: LUTA DE CLASSES

 


LENDO / VENDO BLOGUES, JORNAIS, TELEVIS�O E OUTROS MEDIA



Uma an�lise "autom�tica" da imprensa, imediatamente antes e durante o per�odo eleitoral de Fevereiro de 2005, feita pela Cyberlex "uma empresa editora que se dedica � Gest�o da Informa��o e do Conhecimento e � Gest�o Electr�nica de Documentos e Pastas".

*
Democracia por editorial, uma nota sensata no Ret�rica e Persuas�o.

*
A entrevista de M�rio Soares � TVI foi muito interessante, porque revela o melhor e o pior de Soares. O melhor � a naturalidade, com os �dios � flor da pele, o movimento todo de uma pessoa sem censura, que impulsionado pelo que realmente pensa, chama a S�crates o "anti-Guterres", trata Cavaco de ignorante e preparava-se para continuar a fazer aquilo que faz muito bem, a contar hist�rias. Foi pena que a entrevista terminasse no momento em que Soares ia por si dentro, pelas suas mem�rias, pelos seus gostos e antipatias. Soares n�o pode hoje ser entrevistado a correr, precisa de tempo, e nele o tempo gasto vale a pena. N�o h� muitos pol�ticos assim, a falar pr�ximo do que pensam. Expondo-se.

O reverso � o que Soares pensa, a sua agressividade de castel�o que v� o rendeiro comprar as terras que teve que vender porque esbanjou os seus bens, a sua superioridade cultural face aos parvenus que n�o sabem comer � mesa, ou distinguir Pomar de uma Menez (aqui engana-se porque Cavaco tem um belo quadro da Menez) um quase direito natural a ser superior, a mandar, a classificar o mundo, que, tenho insistido nisso, � tipicamente uma marca social. Na sua vida turbulenta e corajosa, ele ficou sempre o menino bem e mimado, que entende ter um direito natural a mandar, que trata Portugal e os portugueses como se lhe pertencessem. O drama que o atravessa nestes dias � perceber que, afinal, j� n�o s�o dele, s�o doutro. E, humanamente, responde sendo agressivo e subindo a parada e perdendo ainda mais o "ar do tempo" que j� n�o compreende.
 


EARLY MORNING BLOGS 637

Nevoeiro


A cidade ca�a
casa a casa
do c�u sobre as colinas,
constru�da de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do ch�o com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destru�a
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.


(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

2.11.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: LIVROS, BIBLIOTECAS



� a biblioteca do Trinity, em Dublin, na Irlanda, pa�s que gosta de ser visitado e referido como algo a comparar. E sem duvida que �. Limpa, asseada, e bonita, merece uma visita quanto mais n�o seja pelo book of Kells.

Manuel Santos



Diogo Lopes, um alfarrabista de Lisboa
 


COMUNICA��O SOCIAL E CANDIDATURAS



Cavaco tem sido beneficiado por um melhor tratamento comunicacional, mas tem feito por isso. Soares tem-se exposto demasiado nas suas fragilidades, mas, mesmo assim, beneficia de velhos sil�ncios e cumplicidades. O que joga hoje mais contra Soares, � infelizmente uma velha pecha da nossa comunica��o social: gosta de estar com quem ganha e tende a diminuir quem est� na m� de baixo. Antes, Soares beneficiou deste factor, hoje � prejudicado por ele.

1.11.05
 


COISAS SIMPLES


Peter Henry Emerson, Gathering Water Lilies, 1885
 


EARLY MORNING BLOGS 636

A M�o no Arado



Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltar�

Oh! como � triste envelhecer � porta
entretecer nas m�os um cora��o tardio
Oh! como � triste arriscar em humanos regressos
o equil�brio azul das extremas manh�s do ver�o
ao longo do mar transbordante de n�s
no demorado adeus da nossa condi��o
� triste no jardim a solid�o do sol
v�-lo desde o rumor e as casas da cidade
at� uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede �s unhas
Mais triste � termos de nascer e morrer
e haver �rvores ao fim da rua

� triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
� triste no outono concluir
que era o ver�o a �nica esta��o
Passou o solid�rio vento e n�o o conhecemos
e n�o soubemos ir at� ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
atrav�s de palavras de uma �gua para sempre dita
Mas o mais triste � recordar os gestos de amanh�

Triste � comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atr�s a vida sem nenhuma inf�ncia
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
� muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, � poeta, administra a tristeza sabiamente


(Ruy Belo)

*

Bom dia!

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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