ABRUPTO

31.8.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SOARES VISTO POR ALEGRE
IN ILLO TEMPORE




A prop�sito de candidaturas presidenciais, n�o deixa de ser interessante o retrato de M�rio Soares por Manuel Alegre no livro Retrato, da Livraria Cl�ssica Editora, 1990. Passo a citar os �ltimos tr�s par�grafos do artigo com o t�tulo "RETRATO DE M�RIO ENQUANTO M�RIO":

" E talvez seja a grande revolu��o que ele fez num pa�s cansado de crispa��o: trazer a afectividade para a pol�tica. �, a par da coragem, a sua arma mais eficaz. E por isso ele � de facto, irresist�vel. E tamb�m imprevisto. Com o M�rio, o inesperado pode sempre acontecer. Desenganem-se os que o julgam sentado sobre uma por vezes aparente lassid�o. De repente ele salta. Para sacudir o marasmo e de novo for�ar o destino. Sempre que tal acontece, o telefone toca em casa de alguns amigos. Fica-se ent�o a saber que h� uma nova caravela e uma nova partida. �s vezes um combate. �s vezes um des�gnio, um sonho, uma inquieta��o, o que � tamb�m uma forma de poesia."

(Pedro Souto)
 


PAISAGEM ELECTRIFICADA



Num arco de vis�o de 60�, cobrindo um horizonte de cerca de vinte quil�metros, � vista, n�o contando o que est� escondido pela ondula��o dos montes: catorze candeeiros de ilumina��o p�blica, banhando parte de um aldeia com luz que d� para se ver em Marte; nove ou dez postes de retransmissores de telem�veis, colina sim, colina sim; centenas de postes para as linhas el�ctricas e telef�nicas; e, ao longe, quase cinquenta ventoinhas e�licas em fila.

Cada vez menos �rvores, um ou dois campos de cultivo com tomate, a pouca terra agr�cola abandonada �s ervas, restos do que foram vinhas, e marcas de terrenos esventrados � espera n�o se sabe de qu�, porque est�o classificados como terrenos agr�colas, mas sou capaz de jurar que v�o produzir casas e armaz�ns e n�o tomates, vinho ou frutas. Tudo isto, naquilo que um citadino chamaria �campo�.

*
� a voragem do "desenvolvimento" para as zonas rurais , desoladoramente um mundo que acaba.Um outro que come�a selv�ticamente fundado na mis�ria, na destrui��o , e na ilus�o das novas oportunidades de neg�cio... apenas para alguns...um Pa�s a saque , uma Alma que acaba.

Reduzidos a viver em T1`s,nas grandes cidades os portugueses tornaram-se escravos dos encargos dos seus empr�stimos a 40 anos.Calmamente sem alaridos assistimos � destrui��o de um Pa�s profundo, pela ilus�o das luzes da cidade.

(Ant�nio Carrilho)
*
S� pode ser cinismo, ou se � brincadeira � de mau gosto. � daquele tipo de mau gosto que faz com que boas ideias como a que soube aqui h� tempos de se aproveitar a lenha da limpeza das florestas para gerar energia atrav�s da biomassa e assim diminuir-se a factura energ�tica e criar emprego, ou de por exemplo a de convencer os construtores por norma a colocar circuitos duplos de �guas nos pr�dios para aproveitamento das �guas de limpeza, que v�o logo pelo cano abaixo no cinismo de quem, como voc�, pode determinar inicitivas e politicas. Ent�o preferia que as aldeias n�o tivessem ilumina��o p�blica, telem�veis ou qualquer tipo de energia el�ctrica? Deve estar a brincar. S� pode. Se n�o est� agradecia que pelo menos, como seu leitor, que publicasse esta mensagem.

(Ant�nio Fonseca)
 


PERGUNTA



Eu tenho a maior das simpatias pelo projecto do Ciberd�vidas, seu m�rito, seu interesse, seu valor. Mas escapa-me de todo por que raz�o � que tem que ser subsidiado pelo estado. N�o h� um grupo m�nimo de volunt�rios que o possam fazer? N�o h� meios para particulares, que usam o servi�o, ajudarem aos seus custos, mesmo que de uma forma quase simb�lica? N�o � poss�vel contratar com jornais, r�dios e televis�es um pagamento que sustente o lugar? � assim t�o caro?

*
V�-se bem que n�o teve experi�ncia de procurar vender servi�os ou obter patroc�nios privados para projectos online que n�o sejam encabe�ados por figuras p�blicas ou por "boys" do poder na altura. O povo portugu�s � pobre e/ou invejoso e/ou desinteressado. Tudo o que seja pagar por servi�os � considerado mau � partida, especialmente se "uns pagarem e outros n�o".

O 7arte.net, por exemplo, j� teve online a programa��o actualizada diariamente de cerca de 500 salas de cinema em todo o pa�s. N�o conseguimos vender conte�dos a quem os comprava mais caros e de pior qualidade noutras fontes (ou os roubava do nosso site). N�o conseguimos parcerias que evitavam duplica��o de esfor�os mesmo quando os nossos interlocutores reconheciam que o nosso produto era melhor e lhes trazia poupan�as. N�o conseguimos que os utilizadores contribuissem em montantes minimamente significativos, mesmo sabendo que os visitantes regulares do site eram muitos milhares. N�o conseguimos vender publicidade a quem sabemos que pagava muito mais caro em locais com menor visibilidade e muito menor prest�gio. Como este caso h� v�rios outros.

Porqu� este insucesso? N�o sei. Nunca cheguei a perceber. Acho que faltou subornar algu�m ou encontrar algum gestor competente que decidisse sem ser em fun��o das "conveni�ncias" nublosas que s� se verificam porque a nossa (micro-)economia � pouco saud�vel. E que decidisse em tempo �til: tivemos decis�es (todas "n�o") que os nossos ex-potenciais parceiros demoraram v�rios anos a tomar, isto quando acabaram por decidir. Ainda h� agora quem nos diga que "est� a pensar"...

Subs�dios ao Estado nunca pedimos. Nem vamos pedir.

(Tiago Azevedo Fernandes)
*

Desde que existe (vai fazer nove anos em Janeiro), nunca o Ciberd�vidas contou sen�o com apoios residuais do Estado. O �ltimo, se de apoio se tratou, foi (e gra�as � interven��o directa do ent�o primeiro-ministro Dur�o Barroso) a habilita��o ao POSI, durante um ano, que, ao abrigo do relan�amento do Ciberd�vidas, depois do falecimento do saudoso Jo�o Carreira Bom, financiou em 80% parte das despesas, pagas sempre a m�s e tardias horas (a �ltima "tranche", veja l�, h� um a ano que estou � espera!..).Ou seja: o Ciberd�vidas existe, primeiro, por via da generosidade do Jo�o Carreira Bom (que tinha bolsa para isso) e, depois, por via do meu endividamento at� ao limite do insustent�vel.
Refiro-lhe isto para dizer que um projecto da natureza do Ciberd�vidas � como n�o h� outro no espa�o da lusofonia, no seu �mbito e concep��o, e que faz o que o Estado n�o faz nem nunca far� (o Estado nem nenhuma outra entidade de esp�cie nenhuma em Portugal, a come�ar pelas universidades, p�blicas ou privadas) � nunca viveu da subsidiodepend�ncia, para fazer o que faz. Com a qualidade, o prest�gio e a notoriedade reconhecidos unanimemente (a come�ar no Brasil que, como sabe, olha-nos bem por cima, e com raz�o, em tudo que seja mat�ria de l�ngua em geral, e de dicion�rios, gram�ticas, gloss�rios e livros de toda a ordem, em particular).
Como n�o vale a pena argumentar consigo sobre servi�o p�blico e os deveres correlativos do Estado para quem, na sociedade civil, o faz por ele � e muito menos contrapor-lhe o que aqui ao lado, em Espanha, se acaba de fazer com a cria��o da Funda��o para o Espanhol Urgente, envolvendo entidades p�blicas (a Academia Real de Espanha, o Instituto Cervantes, a ag�ncia Efe, a r�dio e televis�o nacionais) e privadas (o BBVA, como patrocinador), qualquer delas entendendo a import�ncia estrat�gica da sua l�ngua oficial no mundo actual �, termino dando-lhe a lista de empresas e bancos de quem tenho levado sistematicamente com a porta na cara: Portugal Telecom, Galp Energia, CTT, Caixa Geral de Dep�sitos, C�mara Municipal de Lisboa (a quem em v�o propus conte�dos de l�ngua portuguesa nos seus pain�is que passam coisas da noite e informa��es afins), "Jornal de Not�cias" (n�o viu interesse numa coluna sobre l�ngua portuguesa, olhe, como qualquer jornal brasileiro tem...), Readers Digest, C�rculo de Leitores, Montepio Geral, Millenium, BPI, Banesto, etc., etc., etc. E escuso-me de lhe referir as v�rias propostas que tive para vender o Ciberd�vidas a interesses meramente comerciais � via verde, obviamente, para sua descaracteriza��o.
Portanto, se lhe ocorrer uma qualquer outra entidade das que mencionou, que troque os milhares que d� pelo patroc�nio do futebol ou de um concerto de "rock" pela insignific�ncia que eu preciso para manter o Ciberd�vidas, fico-lhe imensamente grato. Ah!, a insignific�ncia que o Ciberd�vidas precisa (os custos da manuten��o s�o na ordem dos cinco mil euros mensais) viria sempre ao abrigo da lei do mecenato, com as inerentes facilidade fiscais e, j� agora, a associa��o p�blica a um projecto, repito a imod�stia, como n�o h� outro no espa�o que fala a l�ngua portuguesa.

(Jos� M�rio Costa)
 


COISAS SIMPLES


Joahim Patinir, Paisagem com S. Jer�nimo




 


EARLY MORNING BLOGS 591:
" I WONDER HOW WE LOOK TO HIM"


THE HIPPOPOTAMUS

Behold the hippopotamus!
We laugh at how he looks to us,
And yet in moments dank and grim,
I wonder how we look to him.
Peace, peace, thou hippopotamus!
We really look all right to us,
As you no doubt delight the eye
Of other hippopotami.

(Ogden Nash)

*

Bom dia!

30.8.05
 


QUANDO N�S FAZEMOS DE CHINESES PARA OS OPER�RIOS ALEM�ES



De uma not�cia da Lusa:

A comiss�o de estrat�gia de produto da alem� Volkswagen recomendou que o novo modelo da gama Golf seja produzido na f�brica de Palmela, em Portugal, a partir de 2007, anunciou hoje a marca. Em comunicado, o construtor germ�nico diz que a comiss�o estima que, nas actuais condi��es, a empresa poder� poupar mais de mil euros por ve�culo se produzir o autom�vel em Portugal comparado com a produ��o em Wolfsburg.

Por que raz�o � mais barato? Sal�rios mais baixos. Ser� interessante ouvir a nossa "esquerda" anti-globalizadora sobre esta deslocaliza��o. E os oper�rios de Wolfsburg.
 


COISAS COMPLICADAS / FIC��O CIENT�FICA


Sylvie Fleury, Nail Note
 


EARLY MORNING BLOGS 590:
"MAS NISTO, COMO EM MUITAS OUTRAS COISAS, ME ENGANEI EU."


Menina e mo�a me levaram de casa de meu pai para longes terras; qual fosse ent�o a causa daquela minha levada, era pequena, n�o na soube. Agora n�o lhe ponha outra, sen�o que j� ent�o parece havia de ser o que depois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necess�rio para n�o poder viver em outra parte. Muito contente fui eu naquela terra; mas coitada de mim, que em breve espa�o se mudou tudo aquilo que longo tempo buscou e para longo tempo buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste, ou que pela ventura me fez ser leda. Mas depois que eu vi tantas cousas trocadas per outros e o prazer feito m�goa maior, a tanta paix�o vim, que mais me pesava do bem que tive que do mal que tinha.

Escolhi para meu contentamento (se entre tristezas e saudades h� algum) vir-me viver a esta monte, onde a lugar e m�ngua da conversa��o da gente fosse como para meu cuidado cumpria � porque grande erro fora depois de tantos nojos, quantos eu com estes meus olhos vi, venturar-me ainda esperarar do mundo o descanso, que ele nunca deu a ningu�m � estando eu aqui s�, t�o longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe, donde n�o vejo sen�o serras de um cabo, que se n�o mudam nunca, e de outro �guas do mar, que nunca est�o quedas, onde cuidava eu j� que esquecia � desaventura, porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, n�o leixamos em mim nada em que pudesse nova m�goa ter lugar.

*Antes havia muito tempo que � povoado de tristezas, e com raz�o. Mas parece que em desaventuras h� mudan�as para outras desaventuras, porque do bem n�o na havia para outra bem. E foi assim que, por caso estranho, fui levada em parte onde me foram ante os meus olhos apresentadas em cousas alheias todas mes ang�stias; e o meu sentido de ouvir n�o ficou sem sua parte de dor. Ali vi ent�o na piedade que houve doutrem, tamanha a devera ter de mim, se n�o fora t�o demasiadamente mais amiga de minha dor do que parece que foi de mim quem me � causa dela; mas tamanha � a raz�o porque sou triste, que nunca me veio mal nenhum, que eu n�o andasse em busca dele. Daqui me vem a mim a paracer que esta mudan�a, em que eu vi, j� ent�o come�ava a buscar, quando me este terra, onde me ela aconteceu, aprouve mais que outra nenhuma para vir aqui acabar os poucos dias de vida que eu cuidei me sobejavam,

Mas nisto, como em outras cousas muitos, me enganei eu. "

(Bernardim Ribeiro)

*

Bom dia!

29.8.05
 


SER� QUE VAMOS DEIXAR DE TER HORIZONTES QUE N�O SEJAM ARTIFICIAIS?



Este documento, a EUROPA NOSTRA DECLARATION ON THE IMPACT OF WIND POWER ON THE COUNTRYSIDE � de leitura obrigat�ria para quem assiste � prolifera��o r�pida, rapid�ssima, e bastante indiscriminada de e�licas por tudo quanto � monte, serra , cumeada. � ainda de leitura mais obrigat�ria porque muitos ecologistas est�o hoje no neg�cio das e�licas e fazem press�o para que n�o se cumpram as determina��es ambientais. Nada tenho contra as e�licas, tenho at� quase tudo a favor, s� que vejo todos os dias o que se est� passar nos restos de paisagem que ainda havia. N�o me custa tamb�m perceber que se passou de colocar todos os entraves, para abrir todas as facilidades. Sei tamb�m que muita gente, no poder local, nos grupos ecologistas, nas grandes empresas, percebeu que as e�licas s�o hoje um dos grandes neg�cios em curso em Portugal e isso � uma combina��o explosiva.

Por isso vale a pena ler (cito em ingl�s, mas o texto existe em portugu�s na revista Pedra e Cal n� 26, 2005) :

7. Whilst the Council fully supported the drive for renewables, including wind-power, it considered that wind-turbines must be sited in appropriate places.

8. The Council also considered that many countries have so far tended to focus too heavily on wind-power, whether on or off shore. They have provided heavy incentives for its development, relaxed planning legislation, and failed to make a balanced assessment of its merits and demerits, with the consequence that vast areas of beautiful landscape throughout Europe are now dominated by groups of ever larger wind-turbines - every one of which constitutes a small power station - and are thus being effectively industrialised, with consequent serious damage to the natural heritage.

9. The Council held that, in many European countries, a situation is being created in which social, economic, tourism, historical, cultural, wildlife and landscape impacts are being insufficiently addressed in the decision making process relating to wind-power.


Mais:

c) The degree of visual intrusion, relating this to the character and quality of the surroundings, bearing in mind that modern wind-turbines are eye-catching because they are very large (over 100 metres high and growing), usually prominently placed.

d) The supplementary damage to the landscape, sensitive habitats, water courses, and other aspects of the environment, caused by the construction process, including the provision of access roads, additions to electricity networks, pylons, and buildings necessary for electricity generation and transmission.

e) The degree to which restoration of the site to its original condition at the end of the working life of the wind-turbines can be guaranteed.

f) The impact on, and proximity to, sites designated internationally, nationally, regionally or locally as protected areas.

g) The impact, on communities in the vicinity of wind-turbines, of noise and infra-sound nuisance, light interception, and/or reduction of property values.


E se evit�ssemos, desde o in�cio, pelo menos uma vez, fazer uma coisa mal, por gan�ncia e desleixo?
 


A LER

Jo�o de Almeida Santos, A pol�tica �online�, no Di�rio Econ�mico.
 


AR PURO / COISAS SIMPLES


Alfred Stieglitz, Icy Night
 


EARLY MORNING BLOGS 589: VOICI LE TEMPS DES ASSASSINS

Matin�e d'ivresse


� mon Bien ! � mon Beau ! Fanfare atroce o� je ne tr�buche point ! Chevalet f�erique ! Hourra pour l'oeuvre inou�e et pour Ie corps merveilleux, pour la premi�re fois ! Cela commen�a sous les rires des enfants, cela finira par eux. Ce poison va rester dans toutes nos veines m�me quand, la fanfare tournant, nous serons rendus � l'ancienne inharmonie. � maintenant nous si digne de ces tortures ! rassemblons fervemment cette promesse surhumaine faite � notre corps et � notre �me cr��s: cette promesse, cette d�mence ! L'�l�gance, la science, la violence ! On nous a promis d'enterrer dans l'ombre l'arbre du bien et du mal, de d�porter les honn�tet�s tyranniques, afin que nous amenions notre tr�s pur amour. Cela commen�a par quelques d�go�ts et cela finit, - ne pouvant nous saisir sur-le-champ de cette �ternit�, - cela finit par une d�bandade de parfums. Rire des enfants, discr�tion des esclaves, aust�rit� des vierges, horreur des figures et des objets d'ici, sacr�s soyez-vous par le souvenir de cette veille. Cela commen�ait par toute la rustrerie, voici que cela finit par des anges de flamme et de glace. Petite veille d'ivresse, sainte ! quand ce ne serait que pour le masque dont tu as gratifi�. Nous t'affirmons, m�thode ! Nous n'oublions pas que tu as glorifi� hier chacun de nos �ges. Nous avons foi au poison. Nous savons donner notre vie tout enti�re tous les jours. Voici le temps des Assassins.

Arthur Rimbaud

*

Bom dia!

28.8.05
 


NUM CEMIT�RIO ALENTEJANO AO CAIR DA TARDE

Um primeiro vento fresco anuncia levemente o Outono. S� um pouco fresco, tornando o ar t�pido, ligeiro. O cemit�rio � muito pequeno, � volta de uma capela com portas de madeira carcomidas, a pintura j� se foi h� muito. O muro de tr�s foi derrubado para ampliar o cemit�rio para o dobro. Quantas campas? Cinquenta, oitenta? N�o mais.

Sil�ncio. O vento. Os muros caiados com aquele branco obsessivo do Alentejo, parecem ter sido feitos uma m�o abaixo dos campos em volta, uma plan�cie ondulada, castanha, com as �rvores solit�rias aqui e ali. Junto �s campas o muro n�o deixa ver mais do que o tra�o castanho, o verde-escuro das copas. Os mortos n�o podem ver nada, deitados. Devem ter desejado ser assim, descansarem da terra que os roeu em vida e comeu em mortos. N�o querem ver nada. Ficam com o Sol de dia e com aquelas estrelas que brilham com cores nos c�us intactos de luz.

Nos cemit�rios pensam-se coisas estranhas. Nos cemit�rios, nos quartos de hotel. Pensamentos de plan�cie, neste caso, diferentes dos pensamentos de montanha, mais agressivos. Pensei: est�o aqui enterrados aqueles sobre os quais tanto escrevi. Estavam, com nomes que n�o enganam ningu�m: Cardador, Pisco, Bicho, Salsinha, Piteira, Ganh�o. Trabalhadores. Trabalhadores rurais. Trabalhadores rurais alentejanos. Gente dura, fechada, teimosa, perigosa. Bons soldados na guerra colonial, corajosos e cru�is. Gente de quem os patr�es desconfia. Gente de navalha. Poucas falas, canto em coro. Compactos pela fome ancestral e pelo trabalho pouco e duro. Gente que anda a p�, pensa poemas, que dita aos outros para escrever. Coisas simples.

Pensei: est�o aqui enterrados aqueles sobre os quais tanto escrevi. Ser� que os mere�o?
 


O ESTADO ORDENADOR DO MUNDO:
C�ES E GATOS CLASSIFICADOS EM FUN��O DAS TAXAS, IMPOSTOS E LICEN�AS




De uma TABELA DE TAXAS PARA ANO 2004 duma autarquia, igual a tantas outras:

Designa��o Valor

1 Registo e licenciamento de C�es e Gatos
1.1 Registo 2,50�
1.2 Licen�as
1.2.1 A � C�o de Companhia 5,00�
1.2.2 B � C�o com fins econ�micos 7,00�
1.2.3 C � C�o para fins militares, policiais e de seguran�a p�blica Isentos
1.2.4 D � C�o para investiga��o cient�fica Isentos
1.2.5 E � C�o de Ca�a 7,00�
1.2.6 F � C�o-guia Isento
1.2.7 G � C�o potencialmente perigoso 11,00�
1.2.8 H � C�o perigoso 11,00�
1.2.9 I - Gato Isento

1.3 Imposto de selo

1.3.1 A � C�o de Companhia 1,00�
1.3.2 B � C�o com fins econ�micos 1,40�
1.3.3 E � C�o de Ca�a 1,40�
1.3.4 G � C�o potencialmente perigoso 2,20�
1.3.5 H � C�o perigoso 2,20�
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
INC�NDIO / FLORESTA��O / INC�NDIO




Lembram-se dos fogos que em 2003 devastaram o concelho de Vila de Rei deixando- o coberto de negro? Lembram-se dos discursos sofridos de autarcas locais e governantes cheios de urg�ncias interventivas e condena��es consensuais � praga da eucalipiza��o? Se n�o se lembram, n�o faz mal, eram iguaizinhos aos que se ouvem agora. Mas, hoje, j� viram Vila de Rei? Est� de matos renascidos, e at� j� tem �reas reflorestadas: De eucaliptos, pois ent�o. Com um bocado de sorte, s� arder�o daqui a cinco ou seis anos.

(Alice Fernandes)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
PROPRIEDADE




"Eu fa�o parte do vasto grupo de pequenos propriet�rios florestais que jamais ir� limpar as suas propriedades, mesmo com leis sobre limpeza coerciva. Vivo a muitos quil�metros de dist�ncia de nem-sei-quantas pequenas propriedades que herdei. Possuo 1 n�o-sei-quantos-avos dessas propriedades das quais n�o retiro qualquer benef�cio econ�mico." Cito um post de um outro leitor aqui no Abrupto.

E muitos perguntar�o: Sendo assim, porque n�o vende, ou d�, enfim se desfaz do que n�o lhe interessa ter e conservar? N�o est� expl�cita no post, mas a resposta � simples: Porque n�o consegue. Pode aparecer-lhe um promitente interessado em l� se instalar e adquirir courelas adjacentes a outros fragmentados propriet�rios, de modo a obter uma �rea m�nima vi�vel em termos de sa�de florestal. Mas ent�o uma fiada de �bices, desacertos de registos e matrizes, requisitos notariais, bitolas de conservadores e ajudantes, enquadramentos legais contradit�rios se juntar�o �s dificuldades de entendimento dos detentores dos avos, herdeiros e procuradores... quando se encontram. Nem com recurso a tribunal, pois a coisa prescreve sem grande espa�o para reclama��es: Ao fim ao cabo, se processos por crimes de sangue prescrevem, que lata tem um cidad�o para se queixar de ser propriet�rio � for�a?

(M�rio J. Heleno)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
LISBOA EM CAMISA




Lisboa, S�bado, Agosto, final da manh�. Saio de uma loja e decido descer a Avenida da Liberdade, que se apresenta calma e prazenteira, a p�. (...) A avenida at� � bem bonita apesar de haver ali um cidad�o a aliviar-se junto de uma �rvore. E pode-se dar um salto � Loja dos Museus no Pal�cio Foz a ver se se arranja um presente (...) . Descendo, chega-se ao Pal�cio Foz, aquele que tem v�rias montras, viradas para uma das principais pra�as de Lisboa, onde passeiam os turistas, sabes? Em Agosto, ao S�bado, em Lisboa? Pois bem, nessas �janelas/montras� poder�s observar o mais fino p� lisboeta em quantidades admir�veis, in�meros insectos mortos e os efeitos do sol no papel que forra as paredes. Tudo vazio. Mas estou a ser injusta: uma das montras n�o est� vazia, tem uma fotografia encarquilhada de um dos sal�es do Pal�cio. N�o me interessa, quero � a Loja. Que, por acaso, Estimado Cliente, lamentamos o inc�modo, mas hoje S�bado, m�s de Agosto, Lisboa cheia de turistas, excepcionalmente, estamos fechados entre as 12 e as 14. Por outro lado, se olhar para as nossas montras, Estimado Cliente, rapidamente perceber� que n�o estamos interessados em lhe vender nada. Vire-se e olhe antes para a Pra�a dos Restauradores, uma das maiores e mais importantes de Lisboa, e aprecie os pr�dios em decomposi��o.

Ou des�a mais um pouco e aprecie o �den que, na sua forma original n�o tinha as portas todas fechadas e os degraus imundos que hoje apresenta. N�o, n�o parecia uma lixeira, que ali�s se estende ao ch�o do restaurante cont�guo e �s portas fechadas da Esta��o do Rossio.

Recomecemos, nada de irrita��es, vamos at� ao Chiado. O Rossio at� nem est� nada mal. J� no meio da Rua do Carmo um estaleiro de obras (j� nem me lembro da Rua do Carmo sem estaleiro de obras...) e lojas fechadas. Um homem sem metade da pernas deitado no ch�o pede esmola.

P�ro a ver a montra de uma livraria, a �nica que tem apenas obras de autores portugueses (E�a, Pessoa, Ces�rio) e vejo um livro que me faz sorrir: de Gerv�sio Lobato, Lisboa em Camisa.

S�o sempre os livros que nos salvam.

(RM)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FALTA DE RESPEITO PELO TRABALHO DOS OUTROS.

26.8.05
 


AR PURO


Ivan Shishkin
 


EARLY MORNING BLOGS 588

L�MITES


De estas calles que ahondan el poniente,
una habr� (no s� cu�l) que he recorrido
ya por �ltima vez, indiferente
y sin adivinarlo, sometido

a quien prefija omnipotentes normas
y una secreta y r�gida medida
a las sombras, los sue�os y las formas
que destejen y tejen esta vida.

Si para todo hay t�rmino y hay tasa
y �ltima vez y nunca m�s y olvido
�Qui�n nos dir� de qui�n, en esta casa,
sin saberlo, nos hemos despedido?

Tras el cristal ya gris la noche cesa
y del alto de libros que una trunca
sombra dilata por la vaga mesa,
alguno habr� que no leeremos nunca.

Hay en el Sur m�s de un port�n gastado
con sus jarrones de mamposter�a
y tunas, que a mi paso est� vedado
como si fuera una litograf�a.

Para siempre cerraste alguna puerta
y hay un espejo que te aguarda en vano;
la encrucijada te parece abierta
y la vigila, cuadrifonte, Jano.

Hay, entre todas tus memorias,
una que se ha perdido irreparablemente;
no te ver�n bajar a aquella fuente
ni el blanco sol ni la amarilla luna.

No volver� tu voz a lo que el persa
dijo en su lengua de aves y de rosas,
cuando al ocaso, ante la luz dispersa,
quieras decir inolvidables cosas.

�Y el incesante R�dano y el lago,
todo ese ayer sobre el cual hoy me inclino?
Tan perdido estar� como Cartago
que con fuego y con sal borr� el latino.

Creo en el alba o�r un atareado
rumor de multitudes que se alejan;
son los que me ha querido y olvidado;
espacio, tiempo y Borges ya me dejan.


(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

25.8.05
 


A PROP�SITO



Acaso se tem reparado na enorme dificuldade que as pessoas que s�o entrevistadas na rua pela televis�o, seja sobre que mat�ria for, mostram em enunciar um fragmento de uma ideia, uma resposta com os verbos certos, com sentido, que tenha a ver com a pergunta? N�o me refiro a ocasionais lapsos, ou ao mau portugu�s. Refiro-me a falar, dizer, explicar.

E n�o s�o os velhos encurralados pelos fogos, mas os veraneantes num carro para o Algarve entrevistados numa portagem, umas senhoras nuns saldos, uns jovens num festival entre a m�sica e a cerveja.
 


GRANDES CAPAS: A LOUCURA DA EUROPA

 


APRENDENDO COM EUG�NIO DE CASTRO

"Com duas ou tr�s luminosas excep��es, a Poesia portuguesa contempor�nea assenta sobre algumas dezenas de co�ados e esmaiados lugares-comuns.

Tais s�o:

olhos cor do c�u, olhos comparados a estrelas, l�bios de rosa, cabelos de ouro e de sol, crian�as t�midas, t�midas gazelas, brancura de luar e de neve, m�os patr�cias, dentes que s�o fios de p�rolas, colos de alabastro e de cisne, p�s chineses, rouxin�is medrosos, brisas esfolhando rosas, risos de cristal, cotovias soltando notas tamb�m de cristal, luas de marfim, luas de prata, searas ondulantes, melros far�olas assobiando, pombos arrulhadoras, andorinhas que v�o para o ex�lio, madrigais dos ninhos, borboletas violando rosas, sebes orvalhados, �rvores esquel�ticas, etc..

No tocante a rimas, uma pobreza franciscana: l�bios rimando sempre com s�bios, p�rolas com c�rulas, sol com rouxinol, caminhos com ninhos, nuvens com Rubens (?),noite com a�oite; um imperdo�vel abuso de rimas em ada, ado, oso, osa, ente, ante, �o, ar, etc..

No tocante a vocabul�rio, uma n�o menos franciscana pobreza: talvez dois ter�os das palavras que formam a l�ngua portuguesa, jazem absconsos, desconhecidos, inertes, ao longo dos dicion�rios, como tarecos sem valor em lojas de arruma��o.

Tais os rails por onde segue, num mon�tono andamento de prociss�o, o comboio misto que leva os Poetas portugueses da actualidade � gare da POSTERIDADE,
"

(Do pref�cio a Oaristos, 1899)
 


OUVINDO MILES DAVIS

 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
UMA "PEQUENA" (R)EVOLU��O ...


A solu��o para o problema da limpeza das matas � simples. Basta uma "pequena" (r)evolu��o na mentalidade dos portugueses.

A EDP possui, em Mort�gua, uma central termoel�ctrica de res�duos florestais. A descri��o que se segue foi retirada do s�tio da Ci�ncia Viva:

" A floresta foi e ser� sempre uma grande fonte de energia. Desde os prim�rdios da humanidade que � ela que fornece lenha para o Homem se aquecer e cozinhar os seus alimentos. Hoje em dia, esta energia que prov�m das florestas, a biomassa, representa 15% da energia prim�ria consumida no mundo inteiro. Em Portugal, existe apenas uma instala��o de produ��o de electricidade utilizando como principal combust�vel a biomassa. Esta central � a Central Termoel�ctrica de Mort�gua, localizada na zona Centro do Pa�s, na margem direita da albufeira da Aguieira.

Esta central utiliza os res�duos florestais, muito abundantes naquela zona, para produzir electricidade, criando assim, al�m da energia que nos � indispens�vel no nosso dia-a-dia, condi��es que permitam aos propriet�rios florestais sentirem-se motivados para manterem as matas e florestas limpas. Desta forma, a Central de Mort�gua contribui para a diminui��ou do n�mero de inc�ndios e para o ordenamento florestal da zona Centro do Pa�s, que produz anualmente um valor estimado de perto de 500 mil toneladas de res�duos florestais (biomassa).

A Central Termoel�ctrica de Mort�gua come�ou a operar em Agosto de 1999 e permite o escoamento de 100 000 toneladas ano res�duos florestais queimados numa caldeira de 33MWth. A Central tem uma pot�ncia instalada de 10MVA � 9MW e foi projectada para entregar � rede de distribui��o de energia el�ctrica cerca de 63GWh por Ano. "

Ou seja: o aproveitamento da biomassa n�o s� � desej�vel, como rent�vel. E se o era com o petr�leo a 20 d�lares o barril, obviamente que tamb�m o � com o petr�leo a 65 d�lares por barril e mais ser� quando o petr�leo atingir, brevemente, os 100 d�lares o barril.

Eu fa�o parte do vasto grupo de pequenos propriet�rios florestais que jamais ir� limpar as suas propriedades, mesmo com leis sobre limpeza coerciva. Vivo a muitos quil�metros de dist�ncia de nem-sei-quantas pequenas propriedades que herdei. Possuo 1 n�o-sei-quantos-avos dessas propriedades das quais n�o retiro qualquer benef�cio econ�mico. Se algu�m quiser limpar, desbastar, ordenar e disso retirar algum benef�cio econ�mico, por mim �ptimo.

A solu��o: deixarmos de idolatrar a propriedade privada como algo intoc�vel, na qual ningu�m tem o direito de entrar nem interferir. � uma quest�o de cidadania, de colocar o interesse p�blico, comunit�rio, acima do interesse privado, beneficiando por consequ�ncia tamb�m o que � privado. Lembram-se do filme "Mentes brilhantes", sobre a obra e vida de John Nash, que ganhou o pr�mio Nobel da Economia? Ele acrescentou a uma teoria que j� existia algo que os portugueses precisam de interiorizar: o interesse do grupo. � teoria que dizia "Numa organiza��o, o benef�cio m�ximo � atingido quando todos os membros trabalham em prol dos seus objectivos particulares", John Nash acrescentou: " e dos do grupo".

A solu��o: legislar no sentido de atribuir poder e responsabilidade (� EDP, �s autarquias, a quem quiser) para limpar, desbastar, ordenar (no sentido de abrir caminhos e corta-fogos, n�o no sentido de cortar a direito e replantar) toda e qualquer propriedade florestal, privada ou do estado (exceptuando aquelas cujos propriet�rios declarassem que o fariam por sua conta). O aproveitamento da biomassa para produ��o de electricidade tornaria a actividade rent�vel e mais centrais como a de Mort�gua poderiam ser construidas. Limpavam-se as matas e florestas, produzia-se emprego e riqueza, diminuia-se a importa��o de petr�leo para a produ��o de electricidade. Haja coragem pol�tica.

(Jorge Carvalho Silva)

*
H� alguns anos, mais precisamente, 2002, no �mbito de uma visita de estudo � referida central termoelectrica, a certo ponto, somos informados dos longos e frequentes tempos de paragem na produc�o de energia electrica.

Pelo que nos explicaram, o processo era simples: Cami�es carregados com bio-massa eram pesados � entrada, descarregavam o seu material, e recebiam o pagamento correspondente. Infelizmente, a grande maioria, talvez por omiss�o, n�o limpava o carregamento dos in�meros pregos e outros materiais pesados como barras de ferro que se encontram frquentemente em florestas.

Ironias � parte, estes materiais, utilizados pela valorizada "esperteza saloia" do portugu�s, bloqueavam obviamente a produc�o, estragavam algumas m�quinas, enfim, trucidavam o valor da pr�pria central.

� o enraizamento destas atitudes que mata o progresso. E � uma atitude que n�o se resolve com financiamentos p�blico ou privados, com uma organizac�o social ou liberal. Como resolver, n�o sei. Mas creio que a desmistificac�o de alguns valores como a �tica e a honra, e o incentivo di�rio da bocalidade e �xito f�cil nos meios de comunicacao social, � o que mais tem impedido a invers�o destas mesmas atitudes.
(Daniel Rodrigues)
 


INTEND�NCIA

Actualizadas as notas UMA MEDIDA COMPLETAMENTE IRREALISTA E INAPLIC�VEL e O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VISTO / N�O VISTO NA TELEVIS�O.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: DEM�NIOS PASSANDO

 


COMO PORTUGAL ERA


M�rio Vasconcelos e S�, Geografia Prim�ria, Porto, Livraria Chaddon, 1931


Ant�nio Branco, Geografia, Porto Editora, s.d.
 


UMA MEDIDA COMPLETAMENTE IRREALISTA E INAPLIC�VEL



A medida governamental sobre a limpeza coerciva das matas � neste momento uma t�pica manobra de desresponsabiliza��o do estado, mostrando um governo que, n�o tendo coragem pol�tica nem vontade de fazer o que pode fazer, nos distrai prometendo o que n�o pode fazer. S� quem desconhe�a a realidade do nosso pa�s � que pode acreditar que a limpeza coerciva da mata tem um �tomo de realismo e n�o � puro engano, s� eficaz para quem nunca saiu da cidade.

A legisla��o portuguesa est� cheia destas medidas feitas nos gabinetes de Lisboa, ou por engenharia ut�pica e perfeccionismo jur�dico, ou, como � o caso, para dar uma falsa resposta desresponsabilizadora a um problema que entra pelos olhos dentro - em Portugal, n�o h� capacidade, por m�ltiplas raz�es, umas estruturais outras conjunturais, para controlar inc�ndios no Ver�o. Entre essas raz�es muitas exigiriam a aten��o e medidas do estado, certamente mais realistas e eficazes, mas estas n�o s�o tomadas porque afectam interesses instalados.

N�o me venham dizer que a limpeza coerciva das matas atinge qualquer �interesse�, ou que apenas se lhe resiste por uma vis�o da defesa da propriedade privada, naturalmente mal�fica dada a natureza da dita �propriedade�. N�o h� nenhum �interesse� atingido na medida, porque pura e simplesmente ela �, insisto, completamente abstracta e irrealista e, como � obvio, n�o � aplic�vel, nem para aplicar. Como milhares de outras, como seja a legisla��o que obriga as Juntas de Freguesias a fazer um cadastro e a controlar a vacina��o dos animais dom�sticos. Algu�m imagina um Presidente da Junta a ter que andar atr�s dos seus vizinhos para eles registarem os gatos e os c�es, num meio rural, pequeno e denso de conflitos como s�o as aldeias?

Algu�m acredita que um estado, um governo, que assiste indiferente ao lan�amento proibido de foguetes, com completa impunidade, uma actividade pela sua natureza imposs�vel de esconder, em distritos com risco m�ximo de inc�ndios, e com quarenta graus de temperatura, pode obrigar algu�m a uma actividade t�o cara, - sim meus senhores, porque � cara, - como seja ter as matas limpas? Algu�m acredita que um estado, um governo, que permite, de uma ponta � outra do pa�s, a actividades ilegais na explora��o de inertes, e que n�o fecha uma pedreira, pode obrigar � �limpeza coerciva�, sem ter uma pol�cia pr�pria para os matos e brigadas de limpeza com mais gente do que todo o pessoal municipal hoje existente? Sem outra economia, sem outro ordenamento, sem outra pol�tica local?

S� para se perceber porque raz�o � que o problema � em primeiro lugar de autoridade do estado, podemos ir aos exemplos do que podia ser feito e n�o se faz. J� algum director de um Parque Natural foi demitido porque o seu Parque n�o estava limpo? N�o, por duas simples raz�es: uma, porque em muitos casos a sua nomea��o � pol�tica e � intoc�vel pelo partido que l� o colocou; noutra, porque ele dir� que n�o tem meios, nem dinheiro para o fazer e provavelmente est� certo. J� alguma Comiss�o de festas foi responsabilizada pelo lan�amento proibido de foguetes, apesar de isso ter acontecido por todo o lado nas festas deste Ver�o? N�o, porque o lan�amento de foguetes � popular, estamos em v�speras de aut�rquicas, e sem foguetes, dezenas de fabriquetas de pirotecnia entrariam na fal�ncia na nossa fr�gil economia. Fecha-se os olhos. Todos sabem, ningu�m actua.

Vamos ter mais legisla��o perfeita e inaplic�vel, para boa consci�ncia dos governantes. Somos o pa�s da legisla��o perfeita (j� leram a legisla��o sobre pedreiras? � aplicada nalgum s�tio? Onde est� uma pedreira recuperada depois do fim do per�odo de extrac��o? Onde o estado (e o governo) n�o faz o que j� pode fazer, para nos enganar, promete o que n�o pode fazer.

*
Segundo o Presidente da Rep�blica, deveria haver uma lei que obrigasse � limpeza coerciva das matas (a qual, segundo Ant�nio Costa, at� j� existe...), � semelhan�a do que acontece com os pr�dios nos meios urbanos(?). Existe uma lei que obriga � realiza��o de obras de conserva��o nos pr�dios urbanos, com um intervalo m�nimo de dez anos. Desde logo, esta lei esbarra na dificuldade de se definir o que s�o obras de conserva��o. Basta pintar o pr�dio? Ou lavar a fachada? � obrigat�rio intervir no telhado?

Mais importante, basta algu�m passear-se pelo centro de qualquer cidade do pa�s (nem � preciso falar do Porto ou de Lisboa), para se perceber a inefic�cia dessa lei. � assustadora a quantidade de pr�dios devolutos que se podem encontrar, os quais manifestamente n�o cumprem essa lei. S�o por todos conhecidas as not�cias de derrocadas em alguns desses pr�dios.

Ao fazer esta analogia feliz, o Presidente da Rep�blica deu logo a perceber qual ser� a efic�cia dessa lei. Se n�o h� fiscaliza��o sobre o estado de conserva��o de pr�dios urbanos, � vista de toda a gente, que fiscaliza��o haver� em rela��o �s matas?

Adicionalmente, muito se tem falado da limpeza das matas privadas. Segundo o Presidente, estas ser�o 90% da nossa floresta. No entanto, este ano arderam zonas de reserva natural, como na Serra da Estrela, no Alv�o ou Montezinho (apenas para dar alguns exemplos). De toda a �rea ardida, que percentagem pertence ao Estado? Este s� poder� dar-se como exemplo se essa percentagem for muito menor do que a propor��o que det�m da nossa floresta. Gostaria de conhecer esse n�mero, que ainda n�o vi na comunica��o social.
(Ricardo Prata)
*

L�-se no EXPRESSO-online: �O Presidente da Rep�blica, Jorge Sampaio, defendeu hoje (...) a possibilidade de tornar coerciva a limpeza das florestas�

L�-se na TSF-online: �O ministro da Administra��o Interna afirmou, esta quarta-feira, que j� existe legisla��o sobre limpeza coerciva de matas�

II

NO fim-de-semana passado visitei algumas aldeias em zonas pobres, flageladas pelo fogo. A prop�sito da limpeza das matas, aqui fica um apontamento para reflex�o, que vem no seguimento de uma demorada conversa que tive com uma pessoa que est� longe de ser caso-�nico:

Uma senhora de 82 anos (a m�dia de idades, nessa e noutras aldeias em redor, � superior a 70), vi�va, vive sozinha e tem 18 pequenas parcelas espalhadas por MUITOS quil�metros em redor: cinco oliveiras aqui, 20 pinheiros ali...

Dantes, s� para ir e vir, de burro, a algumas delas, demorava um dia inteiro. Hoje, nem sequer l� vai, pois n�o tem carro, nem burro, nem idade nem sa�de para isso.
Ou seja: se, neste momento, arderem essas propriedades (e a maioria j� ardeu), ela s� sabe disso um ou dois dias mais tarde... e se souber.

Pessoas como ela (a maioria das quais vive sozinha) n�o t�m for�as nem dinheiro para fazer limpezas nenhumas - e garanto que bem gostariam, n�o precisariam de as obrigar!

Mesmo que pudessem pagar (com ou sem subs�dios), n�o h�, na regi�o, gente para isso, como tamb�m n�o h� para as vindimas, para a apanha-da-azeitona, para o pastoreio, etc.

Entretanto, Governo e PR h�o-de, talvez, chegar a acordo sobre as leis... que j� existem.
(C. Medina Ribeiro)
*

� a fuga em frente.J� se estava � espera desta imputa��o.� f�cil, � indistinta, porque os propriet�rios s�o muitos, desorganizados,sem voz,s�o pessoas idosas abandonadas nas suas aldeias...uma imputa��o vergonhosa do PR e do Governo...mas j� se estava � espera,ali�s j� se tinha antecipado em muitos blogs, ( ver Blasf�mias ) o caldo de cultura de resresponsabiliza��o, e a prepara��o para as persegui��es fiscais, as inevit�veis penhoras e as expropria��es de terrenos para outros usos que n�o os agricolas.
Vergonhosa tamb�m a colagem do comentador Vitorino � vers�o governamental dos malandros propriet�rios
Ali�s � muito portugu�s esta tend�ncia, de perseguir os malandros dos propriet�rios, quando d� jeito, s� manifesta a inveja e a mesquinhez , j� foi assim em 75, e est� outra vez na ordem do dia, levanta os piores instintos daqueles que adoram ver o sofrimento dos outros...e que vivem confinados um T1 enrrascados com o emprestimo a 40 anos...e o Governo sabe jogar bem com isso ...ali�s o PS sempre foi genial a gerir essa coisa t�o portuguesa da inveja.
Uma quest�o de falta de preven��o e vigil�ncia ferr�a das florestas degenera em processos de inten��o desresponsabilizantes por parte de alguem que esteve ausente, algures, a ouvir os U2, enquanto os portugueses sofriam...� uma l�stima.
� preciso pois estar muito atento ao futuro , nada surge por acaso.As queimadas de 2003 e 2004 deve ter servido no interior para o desbaste das matas,para a planta��o de ventoinhas em condi��es mais favoraveis de pre�o para compra ou arrendamento dos pr�dios r�sticos, devem ter servido tamb�m para interven��es especulativas em zonas de grande potencial turistico , como o interior algarvio, ou o litoral alentejano...sim porque l� no interior a agricultura � s� para vinha, e o resto s�o potenciais resort`s e spa`s para velhos europeus a fugir � Turquia ou ao Califado de Hamburgo ( ver Vis�o da semana passada).S�o as tais "window oportunitys".
Ainda devem ter servido para enriquecer os vendedores e prestadores de servi�os de combate a fogos.
J� existe disposi��o legal para limpeza � volta dos aglomerados urbanos e isso � perfeitamente exequivel e razo�vel (50 metros). Agora querem que os velhotes, sem posses, v�o dentro das courelas ,limpar os matos ( se calhar arrestar lebres e melros), � coisa de um irrealismo que brada aos ce�s.
Como se isso resolvesse o problema.Ent�o se a esmagadora maioria dos inc�ndios ocorrem �s 2 ou 3 horas da manh� , em locais ermos e em 5 ou 6 s�tios distintos ??.
H� sim uma manifesta incapacidade e bom senso na analise e preven��o da situa��es.E tamb�m uma falta de competencia...bastou ver o ar dos nativos quando os policias-bombeiros da Germania chegaram l� e arrega�aram as mangas e apagaram os fogos, tipica atitude de basbaque tuga.
N�o h� � real interesse em resolver o problema pelos meios mais correctos da preven��o e vigil�ncia mais adequada humana e tecnologica.

(Ant�nio Carrilho)
*
De acordo�as medidas apresentadas relativamente � limpeza coerciva das matas s�o irrealistas no contexto actual e ficar�o encerradas no capitulo das boas inten��es em que somos todos t�o pr�digos a produzir!

E ent�o? Quer dizer que isto � uma quest�o insol�vel?

Fala-se da necessidade da mobiliza��o da sociedade civil, da exig�ncia de medidas exequ�veis por parte dos respons�veis. Diz-se que � tempo de deixarmos de ter esta vis�o dos inc�ndios como uma fatalidade natural de periodicidade anual. Mas...e os t�cnicos desta �rea j� se pronunciaram? Inquieta-me saber que os experts florestais, associados � gest�o e conserva��o, controle de fogos e afins, n�o tenham nada para dizer!...temos v�rias escolas de engenharia florestal, criaram-se ag�ncias, fazem-se estudos sobre as zonas em risco, fazem-se invent�rios do coberto vegetal e nada se conclui sobre a possibilidade de medidas preventivas? que tipo de informa��o produzem estes t�cnicos? Qual a sua validade? N�o deveriam ser estes estudos a base para qualquer ac��o a tomar?
(SMF)
 


EARLY MORNING BLOGS 587:
"POR AQUELE CAMINHO CUJA IDEIA SE N�O PODE ENCARAR DE FRENTE"


Ah o crep�sculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades
E a m�o de mist�rio que abafa o bul�cio,
E o cansa�o de tudo em n�s que nos corrompe
Para uma sensa��o exacta e precisa e activa da Vida!
Cada rua � um canal de uma Veneza de t�dios
E que misterioso o fundo un�nime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, � Ces�rio Verde, � Mestre,
� do "Sentimento de um Ocidental"!

Que inquieta��o profunda, que desejo de outras cousas,
Que nem s�o pa�ses, nem momentos, nem vidas,
Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
Humedece interiormente o instante lento e long�nquo!

Um horror son�mbulo entre luzes que se acendem,
Um pavor terno e l�quido, encostado �s esquinas
Como um mendigo de sensa��es imposs�veis
Que n�o sabe quem lhas possa dar...

Quando eu morrer,
Quando me for, ignobilmente, como toda a gente,
Por aquele caminho cuja ideia se n�o pode encarar de frente,
Por aquela porta a que, se pud�ssemos assomar, n�o assomar�amos
Para aquele porto que o capit�o do Navio n�o conhece,
Seja por esta hora condigna dos t�dios que tive,
Por esta hora m�stica e espiritual e antiqu�ssima,
Por esta hora em que talvez, h� muito mais tempo do que parece,
Plat�o sonhando viu a ideia de Deus
Esculpir corpo e exist�ncia nitidamente plaus�vel
Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

Seja por esta hora que me leveis a enterrar,
Por esta hora que eu n�o sei como viver,
Em que n�o sei que sensa��es ter ou fingir que tenho,
Por esta hora cuja miseric�rdia � torturada e excessiva,
Cujas sombras v�m de qualquer outra cousa que n�o as cousas,
Cuja passagem n�o ro�a vestes no ch�o da Vida Sens�vel
Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

Cruza as m�os sobre o joelho, � companheira que eu n�o tenho nem quero ter.
Cruza as m�os sobre o joelho e olha-me em sil�ncio
A esta hora em que eu n�o posso ver que tu me olhas,
Olha-me em sil�ncio e em segredo e pergunta a ti pr�pria
� Tu que me conheces � quem eu sou...

(�lvaro de Campos)

*

Bom dia!

24.8.05
 


EARLY MORNING BLOGS 586

THE OCTOPUS


Tell me, O Octopus, I begs
Is those things arms, or is they legs?
I marvel at thee, Octopus;
If I were thou, I'd call me Us.


(Ogden Nash)

*

Bom dia!

23.8.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS:
PANDORA PASSA COM A SUA SINISTRA MAJESTADE



por cima de um anel fino.
 


A LER

No Cuidado de Si notas e fotos sobre os inc�ndios em Coimbra.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VISTO / N�O VISTO NA TELEVIS�O




O HOMEM DO PIANO

Sinceramente, todos as noites vou fazendo zapping pelos telejornais e interrogo-me, todas as noites, se o problema � dos jornalistas, ou se � dos editores, ou dos directores de informa��o. Ou simplesmente duma sociedade completamente estupidificada. � verdadeiramente lament�vel e rid�cula a quantidade de disparates por minuto que se consegue dizer em hor�rio nobre. Os inc�ndios n�o s�o caso �nico.

Ainda ontem, a RTP 1 anunciava que o misterioso "homem do piano" encontrado numa praia do sul de Inglaterra era afinal de nacionalidade alem�, afinal vivia em Fran�a onde perdera o emprego, afinal n�o tinha sido v�tima de naufr�gio, afinal tinha as roupas molhadas porque tinha tentado o suic�dio no mar, afinal tinha apanhado o TGV e afinal estaria no m�nimo deprimido, no m�ximo talvez perturbado. At� aqui, a situa��o � sofr�vel.

Pois, qual n�o � o meu espanto quando vejo na SIC que foi finalmente desvendado o mist�rio do mesmo misterioso "homem do piano". Pergunto-me se ser� o mesmo. Sen�o veja-se, segundo a SIC: o jovem homem de 20 anos (tamb�m alem�o, por sinal) � afinal homossexual e foi expulso de casa pelos pais (!); afinal trabalhou com doentes mentais e devido a essa experi�ncia conseguiu imitar na perfei��o (!) certos sintomas de perturba��es psicol�gicas e enganar os psiquiatras e psic�logos (!); estes �ltimos, afinal, est�o muitos indignados por o jovem homem os ter enganado (!) e v�o process�-lo (!) de forma a serem reembolsados (!) das despesas que tiveram com a enxurrada de exames que lhe tiveram de fazer (quando, pobre homem, era apenas um pianista perdido); o jovem afinal n�o sabe tocar piano - afinal tocou umas notas avulsas (!) que foram mal interpretadas (!) pelo pessoal do hospital que o acolheu (semanas depois de termos ouvido como ficaram extasiasados com uma longa pe�a executada magistralmente quando, pobre homem, era apenas um pianista perdido); por �ltimo, o jovem homem que afinal n�o toca piano, afinal desenhou um piano porque afinal quando lhe deram papel e l�pis para a m�o foi a primeira coisa que lhe veio � cabe�a (!).

A pe�a dita "jornal�stica" acaba com um lac�nico "finalmente, foi assim desvendado o mist�rio". � a �ltima pe�a do alinhamento do Primeiro Jornal da SIC. Maria Jo�o Ruela despede-se e oferece-nos um sorriso rasgado, feliz mesmo, de dever cumprido. Eu olho para a minha irm� e estupefactas, exclamamos quase ao mesmo tempo: "O que � isto?". E n�o � s� que Jornalismo � este, que Televis�o � esta, que Pa�s � este (?). � mais: que mundo � este?

N�o aconselharia a prud�ncia e a experi�ncia a n�o dar o mist�rio por desvendado com t�o estapaf�rdias revela��es? N�o aconselharia uma atitude reflectida a n�o propagandear essas mesmas revela��es estapaf�rdias com tanto alarde e um incompreens�vel sentido de dever cumprido, com a alegria t�o jovial de quem acaba um puzzle do Morillo?

VITORINO NO PA�S DAS MARAVILHAS

Ontem � noite a RTP 1 abre o alinhamento do Telejornal, inevitavelmente, com o Pa�s a Arder. Ant�nio Vitorino abre o seu espa�o de coment�rio com: o Papa !!!! Deus me perdoe (se exixtir) e os cat�licos tamb�m. Senti-me t�o indignada que mudei imeditamente de canal. Quando l� voltei para espreitar se a coisa desenvolvia para o Pa�s a Arder, acertei, mas foi sol de pouca dura. Vitorino disse umas patacuadas banais sobre eucaliptos e pinheiros, sobre a necessidade de as pessoas limparem as matas. A �nica coisa que me animou foi que, segundo este senhor, ainda n�o cheg�mos ao n�mero desastroso de hectares ardidos em 2003. Em 2003, sim, � que foi.

Pergunto-me como se ter� sentido Algu�m que perdeu a sua casa, os seus animais, ou at� uma pessoa que amava, ao ouvir tal an�lise dos acontecimentos. Pergunto-me quem valer� a estes Algu�ns? Deus? o Papa?

DESILUS�ES

Se aprendi alguma coisa com o que tenho lido no curso de ci�ncias de comunica��o foi que o esquema circular dos processos comunicacionais faz com que os valores de uma determinada sociedade sejam assimilados, de forma natural, pelos indiv�duos que ser�o mais tarde produtores de informa��o. Para a� os voltarem a dessiminar. E perpetuar. Com pouca ou quase nenhuma resist�ncia por parte de fac��es minorit�rias, mais perif�ricas ou vanguardistas. Como a blogosfera. Porque n�o interessa ouvir essas fac��es. � melhor ignor�-las. Para todos os efeitos n�o existem. Porque a comunica��o social n�o deixa nunca de ser um neg�cio. E para alimentar este neg�cio, � preciso conformidade, � preciso chegar ao maior n�mero de pessoas poss�vel. N�o fazer muitas ondas. Para que o maior n�mero de pessoas compre aquela pasta de dentes. Que n�o patrocina (por imposi��o legal) o telejornal, mas patrocina a novela que vem a seguir.

Antes de pensar a s�rio nestes assuntos e de ler bastante sobre eles, imaginava eu, ingenuamente, que a comunica��o social era o quarto poder e tinha o grande alcance de transformar mentalidades e fazer alguma diferen�a nas nossas sociedades. Mudei muito a maneira de ver a caixinha m�gica. Mudei muito a maneira com que olho para uma profiss�o que sempre ambicionei desempenhar. Desiludi-me.

Mas uma coisa posso afirmar: a nossa televis�o diz muito sobre a sociedade que somos.

(Cla�dia Silva)

*
Ao ler o comentario achei que ja tinha lido aquilo nalgum lado. Aqui esta a noticia do Spiegel-online de 22.08.05.

Ao que parece, a reportagem na SIC e assim uma encenacao deste artigo da AFP, que se baseia em dados publicados do Daily Mirror. Sera que a SIC avisou qual era a fonte do que estava a contar, ou apresentou a noticia como resultado de uma sua investigacao?

Tambem me assusta a AFP fazer noticias baseando-se no Daily Mirror...

Por coisas destas, o mundo inteiro, excepto talvez alguns portugueses atentos, acha que 500 jovens gangsters assaltaram em massa os banhistas na praia de Carcavelos no dia 10 de Junho...

(Ana Aguiar)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
QUANDO TUDO CONTINUA A ARDER




Em visita recente a Espanha, numa incurs�o de pouco mais de 100 km, � evidente o contraste verificado no que respeita a inc�ndios florestais. No nosso pa�s s�o por demais evidentes os sinais de fogo: mata ardida, floresta destru�da, cheiro a queimado, horizonte enegrecido. A paisagem portuguesa revela na sua maior extens�o montes despidos de vegeta��o, desordenamento na pouca floresta��o existente, matas compostas na sua maioria de pinhais, que cresceram � lei da natureza, sem corta-fogos, sujos de arbustos e vegeta��o rasteira e apresentando sinais de abandono e de desorganiza��o.

O primeiro sinal de diferen�a foi-me dado � sa�da de Portugal na fronteira de Quintanilha. Vest�gios recentes de um inc�ndio que lavrou no local e devastou uma grande �rea. Este quadro constitui, logo � entrada, um cart�o de visita pouco digno para quem nos visita.

Nas dezenas de kms que percorri no pa�s vizinho, em direc��o a Zamora, a vegeta��o � constitu�da ainda por abundantes conjuntos de carvalhos, �rvore aut�ctone, abrigo e sustento de variadas esp�cies cineg�ticas, muito menos prop�cias � deflagra��o de fogos de Ver�o. S� a alguns kms das vias rodovi�rias se podem ver, de quando em quando, e, preferencialmente nas encostas das colinas, matas de pinheiros, perfeitamente alinhados, todos do mesmo calibre, denotando uma clara organiza��o e predisposi��o para a sua rentabiliza��o, com largos corredores sem vegeta��o, de modo a haver limita��es a poss�veis inc�ndios. Afastados e protegidos da presen�a humana. Tudo denota uma organiza��o e um planeamento que contrasta de forma gritante com o nosso caos.

No regresso e a cerca de trinta km do nosso pa�s, vislumbro uma coluna de fumo que indiciava um inc�ndio florestal. Tive uma leve esperan�a que seria no pa�s vizinho. Acelerei um pouco mais, na �nsia de saber a sua exacta localiza��o. Pouco depois sa�ram-me frustradas as expectativas. O fogo era novamente em Portugal. Tinha tudo voltado � normalidade!

(Jos� Alegre Mesquita, Carrazeda de Ansi�es)

*

H� efectivamente um aproveitamento feito pelos meios de comunica��o social (sobretudo da televis�o - onde o sentimento tem mais peso do que a raz�o e a explica��o) dos sentimentos da popula��o afectada pelos inc�ndios (desespero, raiva, ang�stia, dor...).
Por�m, a selec��o dos sentimentos tem sido feita de forma bastante interessante. Na noite de ontem estive (porque moro em Coimbra) tamb�m a ajudar pessoas amigas que procuravam travar o avan�o das chamas. Uma multid�o subia e descia a rua, corria com baldes, pedia mangueiras, e ajuda, gritava, chorava... E criticava o governo e a actua��o das entidades p�blicas respons�veis. V�rias vezes o faziam. N�o queriam com isto tirar as culpas que muitos propriet�rios t�m por n�o cuidarem das suas terras, mantendo-as limpas, ou que recusam a ajuda de funcion�rios de limpeza das juntas de freguesia que para isso se disponibilizam (porque tamb�m disso se falou, j� que estava presente um elemento da junta de freguesia em quest�o). Mas n�o esqueciam as responsabilidades que entidades estatais t�m.
Assim sendo, n�o percebo por que motivo nunca se ouve na televis�o, no meio de tantos desabafos da popula��o, cr�ticas ao governo. S� porque s�o desabafos sem fundamento? Porque s�o injustos? Porque s�o apenas isso, desabafos? Mas o Primeiro Ministro tamb�m teve um desabafo quando se sentiu prejudicado pelas cr�ticas que sofreu por n�o ter interrompido as suas f�rias. E esse desabafo (esse sim, sem fundamento) passou na televis�o.

Nota positiva para a TSF, que �s 4h da manh� dava not�cias actualizadas sobre a situa��o dos fogos em Coimbra (entre outras regi�es), e para o Presidente da C�mara, Carlos Encarna��o, que falou a essa hora em directo e mostrou um interesse pela situa��o que o Primeiro Ministro tardou em mostrar.

(Paulo Agostinho)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
FALTA DE RESPEITO PELO TRABALHO DOS OUTROS

Vivo em Coimbra. Numa cidade engolida em fumo e cinza, h�, para a maior parte das pessoas, assuntos justamente mais prementes que aquele que hoje aqui me traz.

Contudo n�o consigo deixar de pensar que � importante discutir-se uma quest�o que surgiu recentemente e que n�o me parece estar a ter o desenvolvimento que merece. Uma companhia de teatro, "Fatias de C�" ter� feito uma utiliza��o abusiva ou pouco acautelada, do texto de Miguel Sousa Tavares. A ser verdade, n�o me surpreende pois houve uma ocasi�o em que uma outra companhia de teatro pretendia encenar "Constantim, guardador de vacas e de sonhos" e no lugar do autor aparecia n�o o nome de Alves Redol, mas da pessoa respons�vel pela adapta��o... a qual n�o acolheu a minha cr�tica, quando confrontado com ela!

Esta falta de respeito pelo trabalho dos outros - e na blogoesfera n�o faltam reparos ao modo como, por exemplo, a imprensa escrita omite as fontes, nomeadamente blogs, onde encontra a informa��o ou sugest�o dos temas que depois desenvolve e publica - n�o ser� o outro lado daqueles que s� falam, s� escrevem, s� se exprimem a coberto do anonimato? Dito de outro modo, quando tanta gente n�o se respeita o suficiente para ter a dignidade de dar a cara por aquilo que pensa, como esperar que possa respeitar o que pertence aos outros?

O que faz a Sociedade Portuguesa de Autores? e a Comiss�o dos Direitos de Autor?

(Ana Pires)

*

Foi tal o entusiasmo com que li o livro "Equador", que, logo aquando da sua publica��o, senti um irreprim�vel impulso a divulg�-lo, recomendando-o a todos como uma obra imperd�vel. Miguel Sousa Tavares tem todos os motivos para sentir orgulho do seu trabalho e pretender preserv�-lo.

A companhia de teatro "Fatias de C�" (criado em Tomar em 1979), grupo de grande humildade, onde "todos fazem de tudo", utilizando de uma forma interactiva o patrim�nio constru�do (de que � exemplo o Convento de Cristo) e paisag�stico, tem j� uma longa hist�ria de labor em prol da descentraliza��o de ac��es culturais, tendo levado � cena, entre muitos outros espect�culos, obras como O Nome da Rosa, T de Lempicka, Rapariga com brinco de p�rola, Di�logo das Compensadas, Tempestade, Sonho de uma noite de Ver�o e A Flauta M�gica, de autores que v�o de Umberto Eco a Mozart, passando por Karl Valentim, Dario Fo, Frati, Gil Vicente, Yourcenar, Lorca e Shakespeare.

Desde h� meses que o grupo desenvolvia o projecto de levar � cena a obra "Equador", teatraliza��o da obra de Miguel Sousa Tavares, o que, necessariamente, seria do conhecimento do autor.

Um m�s antes da estreia, o autor n�o permitiu a adapta��o teatral do seu romance.

Dado o investimento j� realizado, nomeadamente em adere�os e guarda-roupa de �poca, decidiu o grupo criar uma nova hist�ria, passada no mesmo local e �poca � e, obviamente, com uma tem�tica comum � do livro � a que deu o t�tulo "EQUADOR passa em S. Tom� e Pr�ncipe", em cena de 19 de Agosto a 4 de Setembro, �s Sextas, S�bados e Domingos, �s 19h18, no Parque Ambiental de Const�ncia.

Sendo admirador do trabalho de ambas as partes, n�o poderia deixar de expressar o meu sincero lamento por esta situa��o.

� pena que Miguel Sousa Tavares n�o tenha permitido a adapta��o teatral da sua obra; � minha firme convic��o que todos ter�amos a ganhar com isso: autor, leitores, companhia de teatro e espectadores.

N�o ter� agido correctamente o "Fatias de C�"; a adapta��o "for�ada" a que recorreu n�o deixar� de ser apercebida como uma forma de oportunismo, eventualmente com consequ�ncias a n�vel jur�dico, dada a poss�vel alega��o de pl�gio.

Mas tal como considero que o "Fatias de C�" n�o tomou a decis�o correcta, n�o posso tamb�m concordar com aqueles que, ignorando o percurso da companhia e o seu not�vel papel ao n�vel da promo��o do desenvolvimento cultural de uma regi�o, pretendam, mesmo que involuntariamente, arrastar o seu nome para a "lama".

(Leonel Vicente)
 


COISAS SIMPLES / COMPLICADAS


Georgia O'Keeffe, Abstraction
 


EARLY MORNING BLOGS 585

Un lever de soleil


L'Orient jaillit comme un fleuve,
La lumi�re coule � long flot,
La terre lui sourit et le ciel s'en abreuve
Et de ces cieux vieillis, l'aube sort aussi neuve
Que l'aurore du jour, qui sortit du Tr�s Haut.

Et des pleurs de la nuit, le sillon boit la pluie,
Et les l�vres de fleurs distillent leur encens,
Et d'un sein plus l�ger l'homme aspire � la vie
Quand un esprit divin vient englober ses sens.

Notre terre �blouie du rayon qui la dore,
Nage plus mollement dans l'�lastique �ther,
Comme un l�ger nuage enlev� par l'aurore
Plane avec majest� sur les vagues de l'air.

Les pointes des for�ts que les brises agitent,
Bercent l'ombre et la fra�cheur pour le choeur des oiseaux ;
Et le souffle l�ger des ondes pures qui palpitent
Parfume en s'exhalant le lit voil� des eaux.

Celui qui sait d'o� vient l'aurore qui se l�ve,
Ouvre ses yeux noy�s d'all�gresse et d'amour,
Il reprend son fardeau que la vertu soul�ve
S'�lance, et dit " Marchons � la clart� du jour ! "


(Alphonse Lamartine)

*

Bom dia!

22.8.05
 


AINDA BEM! - A TIRINHA QUE PASSA EM BAIXO

"Como seja usar-se a tirinha em baixo, [nos notici�rios] (...) para informar sobre os inc�ndios (...) pelo menos com a identifica��o do concelho e das freguesias, para ser �til �s pessoas que l� vivem. Porque , conv�m lembrar, os inc�ndios s�o mais do que not�cia, para quem vive perto deles, ao lado deles." escreveu-se aqui.

A RTP est� a faz�-lo no seu notici�rio das 20 horas. Ainda bem! M�rito da RTP.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O FOGO QUE ARDE SEM SE VER / O FOGO QUE ARDE PARA SE VER




� de estranhar, ou talvez n�o. Onde estou a ter uma no��o mais real dos inc�ndios que assolam Portugal, � nos meios de comunica��o internacionais - El Pais, CNN, BBC, O Estado de S�o Paulo. Por c�, uma not�cia ou outra, sempre tarde, sempre depois dos jornais online estrangeiros. Fa�o um esfor�o enorme para tentar n�o comparar este caso com um que se passou h� bem pouco tempo: o do Prestige, em Espanha. Tudo o que se sabia, sabia-se primeiro "l� fora". Porqu�?

(Rodrigo Reis)

*

Li o seu post, compreendo a indigna��o mas estou em paz em rela��o ao fen�meno que descreve pelo simples facto de que n�o � suposto haver not�cias nos org�os de informa��o, em especial nos not�ci�rios da televis�o, apenas espect�culo. Infelizmente nem como espect�culo � bom.

A metodologia � sempre a mesma. Est� tudo a arder numa povoa��o da qual nunca ningu�m ouviu falar, e logo o jornalista repete � exaust�o o nome da povoa��o por si descoberta (aquele lugar literalmente apareceu no mapa com a chegada do jornalista, sup�e-se).

Depois h� que filmar muita chama. O que ardeu, onde ardeu, quando ardeu, porque ardeu interessa apenas como fundo sonoro �s chamas, e na medida em que possa ser expresso sobre a forma de lamentos pela riqueza ardida, dos trabalhos de vidas perdidos num segundo, das casas cercadas de chamas.
Meter a c�mara dentro do fogo ou debaixo dos baldes dos helic�pteros. Isso � o mais importante.

Os jornalistas de servi�o aos inc�ndios repetem-se. A sua voz cansa mais que as imagens do inc�ndio. Fazem-me lembrar o Rufino a discursar no Teatro da Trindade, em Os Maias. Tudo muito palavroso, arte nenhuma. Assim os inc�ndios t�m sempre origem criminosa (o jornalista consegue sempre encontrar algu�m disposto a afirm�-lo), os meios nunca chegam (pois se est� tudo a arder!), perdeu-se sempre imensa riqueza, (a mata estava ao abandono, por limpar, preven��o n�o se fez, planos de emparcelamento nunca houve, mas foi o trabalho de uma vida que desapareceu, assim se trata a riqueza em Portugal). An�lise cr�tica da situa��o, do �mbiente, das causas, zero.

As emo��es de quem chora a perda do que era seu s�o exploradas at� ao tutano. Velhinhos a chorar, homens feitos de voz embargada, mulheres est�ricas, o povo a correr de um lado para o outro, algu�m que n�o perdeu nada e s� viu arder a pedir a pena de morte para os incendi�rios! � impress�o minha ou existe preconceito social nas representa��es medi�ticas destes pobres rurais?

Que tenhamos de viver com o infotainment, dever� ser uma daquelas fatalidades geradas pela sociedade em que vivemos. Mas ser� que as televis�es consideram o seu p�blico t�o formatado, t�o igualizado, t�o despersonalizado, a ponto de, em plena �poca de marketing directo, em que as f�bricas de autom�veis n�o produzem dois carros iguais seguidos, os notici�rios sejam todos ... modelo T.

(M�rio Almeida)

*

Se calhar era uma boa altura para atrav�s dos blogs se referenciarem os fogos e sua gravidade. Desde ontem que atrav�s da r�dio ou�o falar em um grande inc�ndio em Viana do Castelo, na mata junto ao monte de Santa Luzia (correm as festas da Agonia�) pela Renascen�a sei que j� foi evacuado um hotel e foi mesma considerada a hip�tese de evacuar o Hospital de Viana (a acontecer creio ser caso raro no nosso pa�s).

Vivo em Braga, da minha janela, h� mais de 24 horas que ao longe tenho um fogo imenso entre os concelhos de Braga e Barcelos� ningu�m d� conta nas not�cias.

Quanto a ministros� um que disse que n�o se passearia junto ao fogo para aparecer na TV (deve haver um registo disso numa qualquer acta da Assembleia da Rep�blica), aparece agora, qual emplastro, no ombro de um primeiro ministro que pelo segundo dia est� na regi�o centro� Creio que muitas leituras pol�ticas se poderiam fazer destes actos�

(Emanuel Ferreira)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota A LER / VER.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O KURSK DE JOS� S�CRATES




RECENTEMENTE, quando um pequeno submarino russo esteve em dificuldades, foi feito um apelo � ajuda internacional e, mesmo em cima da hora, a tripula��o foi salva. Quando o drama se iniciou, todos se recordaram do desastre do Kursk, cujos marinheiros, muito poss�velmente, foram v�timas da arrog�ncia do Poder.

Lembro-me bem de, nessa altura, ter estranhado que Putin, de f�rias nas praias do Mar Negro, n�o as tenha interrompido. Claro que ele n�o era mergulhador (como S�crates n�o � bombeiro) mas, dada a sua posi��o, talvez tivesse podido tomar algumas iniciativas que salvassem as vidas daqueles homens. De qualquer forma, a sua atitude de continuar as f�rias como se n�o fosse nada, foi um �sinal� de frieza e de insensibilidade que caiu mal.

Ora, � nessa �gest�o dos sinais� que os pol�ticos, rodeados de assessores e yes-men que os isolam do mundo-real, s�o muitas vezes extremamente desastrados.

Eles n�o conseguem, pura e simplesmente, aperceber-se de como s�o vistos pelos outros. No nosso caso, s� assim se compreende a displic�ncia com que, ultimamente, o governo de S�crates e ele em pessoa t�m dado sucessivos tiros-nos-p�s como se fosse a coisa mais natural deste mundo. A express�o brasileira �eles n�o se enxergam� tem outro significado, eu sei. Mas �s vezes apetece us�-la, aqui e agora...

(C. Medina Ribeiro)
 


OUVINDO BOB DYLAN

 


COISAS SIMPLES


Alfred Stieglitz, Lake George, Grasses, New York
 


EARLY MORNING BLOGS 584


Une lice �tant sur son terme,
Et ne sachant o� mettre un fardeau si pressant,
Fait si bien qu'� la fin sa compagne consent
De lui pr�ter sa hutte, o� la lice s'enferme.
Au bout de quelque temps sa compagne revient.
La lice lui demande encore une quinzaine ;
Ses petits ne marchaient, disait-elle, qu'� peine.
Pour faire court, elle l'obtient.
Ce second terme �chu, l'autre lui redemande
Sa maison, sa chambre, son lit.
La lice cette fois montre les dents, et dit :
� Je suis pr�te � sortir avec toute ma bande,
Si vous pouvez nous mettre hors. �
Ses enfants �taient d�j� forts.


Ce qu'on donne aux m�chants, toujours on le regrette.
Pour tirer d'eux ce qu'on leur pr�te,
Il faut que l'on en vienne aux coups ;
Il faut plaider, il faut combattre.
Laissez-leur prendre un pied chez vous,
Ils en auront bient�t pris quatre.


(La Fontaine)

*

Bom dia!

21.8.05
 


O PRIMEIRO-MINISTRO E OS FOGOS



Quem disse que ele n�o fazia diferen�a, n�o tem reparado nos detalhes: pela primeira vez, o pedido � UE de meios suplementares; o uso mais intensivo de militares. Mas as �f�rias� v�o sempre inquinar esta quest�o, porque o PM est� inibido de alguma vez admitir a gravidade dos inc�ndios sem se p�r em causa. Vai tentar remediar, mas � tarde. O governo vai sempre minimizar os fogos e a falta de meios, para se justificar.
 


AR PURO


Karl Pierre Daubigny
 


(NOT SO) EARLY MORNING BLOGS 583

She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains, and in her nostrils was the odour of dusty cretonne. She was tired.

Few people passed. The man out of the last house passed on his way home; she heard his footsteps clacking along the concrete pavement and afterwards crunching on the cinder path before the new red houses. One time there used to be a field there in which they used to play every evening with other people's children. Then a man from Belfast bought the field and built houses in it - not like their little brown houses, but bright brick houses with shining roofs. The children of the avenue used to play together in that field - the Devines, the Waters, the Dunns, little Keogh the cripple, she and her brothers and sisters. Ernest, however, never played: he was too grown up. Her father used often to hunt them in out of the field with his blackthorn stick; but usually little Keogh used to keep nix and call out when he saw her father coming. Still they seemed to have been rather happy then. Her father was not so bad then; and besides, her mother was alive. That was a long time ago; she and her brothers and sisters were all grown up; her mother was dead. Tizzie Dunn was dead, too, and the Waters had gone back to England. Everything changes. Now she was going to go away like the others, to leave her home.


(James Joyce, "Eveline", Dubliners)

*

Bom dia!
 


A LER / VER




Na Bomba Inteligente a utiliza��o pioneira em blogues portugueses do som e imagem. S� que talvez fosse bom dar-nos a op��o de ver e ouvir, porque abre-se um blogue e, de repente, o computador est� a cantar ou a falar e a gente s� a querer ler...

No Bloguitica AGENDA-SETTING e WATCHDOGS, UMA VEZ MAIS..., SOBRE O ANONIMATO NA BLOGOSFERA, AINDA OS WATCHDOGS/WATCH BLOGUES, etc.



Acrescento o meu inteiro acordo com tudo o que ali vem escrito, e duas pequenas observa��es (se tiver tempo voltarei a estes assuntos com mais extens�o, em particular � quest�o do anonimato): uma, � que, como era previs�vel, a oculta��o deliberada do movimento dos blogues a favor da divulga��o dos estudos da OTA - e quase nenhum jornal noticiou a sua exist�ncia a n�o ser a posteriori, quase duas semanas depois, e n�o foi porque n�o soubessem ou porque n�o era not�cia - n�o resultou; a outra, � que se o autor do Bloguitica (e por extens�o o leitor habitual de blogues) d� por ela de casos como o do estudo de Marv�o Pereira, no Abrupto abundam m�ltiplos exemplos, muito para al�m das vezes que � citado. J� para n�o falar de quase pl�gios e utiliza��o abusiva do trabalho alheio, sem cita��o. Passemos adiante.

O problema � que at� agora isto escapava ao conhecimento p�blico, e hoje � mais dif�cil faz�-lo pela calada, da� a irrita��o e a tentativa de minimiza��o dos blogues, evidente no caso OTA e noutros casos.

O papel da cita��o nos blogues tamb�m permite perceber o erro fundamental de an�lises como a que Querido faz no Expresso e que mais do que uma verdadeira an�lise � uma opini�o pessoal (ou um desejo) para a qual se procuram fr�geis dados de suporte. Ali�s nem sequer � nova a opini�o, j� foi repetida v�rias vezes no passado como uma esp�cie de wishful thinking. Ser� repetida tantas vezes quantas for preciso at�, um dia, se verificar. Talvez.

� que qualquer an�lise dos blogues, principalmente dos que escrevem sobre pol�tica, que n�o s�o necessariamente blogues pol�ticos, n�o pode deixar de ter em conta outro elemento fundamental para al�m das �audi�ncias�, o sistema de refer�ncias cruzadas de cita��o. � a� que se pode medir melhor a influ�ncia e n�o � por acaso que a Technorati o usa para fazer as suas listas. � por isso que o Bloguitica, o Causa Nossa, o Blasf�mias, ou o Blogue de esquerda, do mesmo modo que os blogues de Mexia e Francisco Jos� Viegas que tem (tinham, ter�o) tamb�m conte�do pol�tico, podem (podiam) ter menos leitores do que o Barnab�, mas s�o (e foram) mais influentes do que este. Essa influ�ncia � tanto mais importante quanto ultrapassa os grupos de afinidade, as coteries de elogio m�tuo, que abundam na blogosfera.

A depend�ncia estrita da agenda comunicacional, que normalmente traduz a intencionalidade pol�tica, n�o � nos blogues uma boa maneira de ter influ�ncia, porque n�o � aqui competitiva nem com a opini�o escrita na comunica��o social, nem com o jornalismo. Os autores de blogues deste tipo,que emigraram para a comunica��o social tradicional, fazem o caminho normal e � natural que se desinteressem dos blogues. H� excep��es como � da regra.

� t�o evidente que este � um elemento crucial na an�lise de qualquer influ�ncia na blogosfera que parece absurdo pretender que blogues que nunca aparecem citados na blogosfera possam ser recordistas de audi�ncia. N�o h� na blogosfera blogues secretos, onde toda a gente vai e ningu�m fala, (nem mesmo os er�ticos e pornogr�ficos), e muito menos o seriam blogues como Poemas de Amor e Dor , � algu�m j� l� foi para ver que �? Vale a pena para se ver o absurdo das conclus�es do Expresso - ou o GatasQB , que n�o � um verdadeiro blogue (como o Belle de Jour �) , mas uma colec��o de fotos de mulheres, que tanto podia ser uma p�gina pessoal ou um site, e usar estes "dados" para argumentar qualquer tese. J� para n�o falar do Hollywood, que tem (at� ontem) uma m�dia de visitas de 258 (46� no Blog�metro), e possa ser apresentado como �o blogue mais lido do espa�o portugu�s�.

O trabalho de Querido n�o tem por isso qualquer valor como an�lise.

*
Acabo de ler (...) uma refer�ncia ao blog Bomba-Inteligente, atribuindo-lhe a "utiliza��o pioneira em blogues portugueses do som e imagem". Porque tal n�o corresponde � verdade, gostaria de deixar aqui o meu reparo. N�o se trata duma quest�o importante, porque de facto n�o o �, mas porque sei que � dado aos rigores pr�prios da ci�ncia hist�rica e porque a autora do Bomba inteligente tamb�m n�o se deu � ma�ada de desfazer essa imprecis�o, eis a raz�o deste meu mail.

Se procurar nos arquivos dos blogues portugueses fundados em 2001 e 2002, talvez encontrar� neles v�rios exemplos de som e imagem. Sem preju�zo de casos mais antigos, a t�tulo de exemplo, deixo-lhe estes links, aqui, aqui e aqui.

Os dois primeiros links s�o relativos a dois posts, onde na �poca, hoje j� n�o, se podia escutar os grupos Adiafa e Da Weasel. O terceiro link, diz respeito a imagem e ainda est� a funcionar. Nos tr�s casos, o processo inform�tico utilizado � diferente daquele que utiliza a autora do Bomba Inteligente, no entanto trata-se duma diferen�a meramente formal, o resultado final traduzia-se em escutar m�sica e ver imagens a partir dum blog.

A grande diferen�a reside no tempo, � que os exemplos que agora dou a conhecer s�o duma �poca anterior � pr�pria funda��o do Bomba Inteligente.

(Bino)
 


LER OS JORNAIS / VER A TELEVIS�O E N�O ENCONTRAR AS NOT�CIAS



1. Experimentem procurar nos �rg�os de informa��o uma not�cia. Uma not�cia necess�ria, �til, para quem est� rodeado pelo fumo e lhe cai cinza em cima. Onde � que h� inc�ndios, qual a sua gravidade? Bem podem procurar que n�o encontram.

Experimentem procurar na televis�o, nos notici�rios, que n�o encontram. Nos notici�rios a informa��o depende das imagens e as imagens s�o quase sempre obtidas sobre os fogos como estavam, quando foram recolhidas as imagens e n�o como est�o. Como est�o, depende da presen�a de jornalistas nos locais para haver directos. Ora os jornalistas quase sempre v�o (foram) para os fogos mais antigos, e n�o para os mais recentes. Por isso, v�rias horas depois de se ver um grande fogo na serra ao lado, ele, quando muito, est� no notici�rio do dia seguinte, a n�o ser que haja mortos e feridos.

2. Com as tecnologias modernas de informa��o ao dispor de uma redac��o e mesmo com meios humanos mais escassos devido �s f�rias, isto � um mau trabalho, um trabalho feito de rotinas que n�o se adaptam a informar, a informar a tempo, para que as not�cias sirvam as pessoas. Os jornais tamb�m n�o s�o muito �teis, mesmo os que t�m actualiza��es em linha, porque as not�cias da Lusa s�o demasiado gen�ricas.

PARA O FUTEBOL TODOS OS MEIOS, PARA OS INC�NDIOS O QUE SOBRA

3. Isto � mau trabalho, porque se aos inc�ndios fossem aplicadas as tecnologias e a vontade, esta � que � a quest�o, a vontade, que se dedica ao futebol, onde o m�nimo sobressalto de um jogador ou treinador, � extensivamente coberto em tempo quase real, j� para n�o falar dos golos, talvez houvesse melhor informa��o sobre uma mat�ria de mais relevante interesse p�blico.

A TIRINHA QUE PASSA EM BAIXO

4. Como seja usar-se a tirinha em baixo, que agora serve para manter a boa consci�ncia editorial de que sempre se d�o as not�cias importantes, pelo menos na tirinha, para informar sobre os inc�ndios, perd�o, as �igni��es�, que n�o est�o �circunscritas�. Pelo menos com a identifica��o do concelho e das freguesias, para ser �til �s pessoas que l� vivem. Porque , conv�m lembrar, os inc�ndios s�o mais do que not�cia, para quem vive perto deles, ao lado deles.

O USO ESCASSO E RUDIMENTAR DE MAPAS

5. Ou rever de vez o uso arqueol�gico dos mapas nos notici�rios, um bom exemplo do desleixo das redac��es na utiliza��o de tecnologias mais que dispon�veis. Os mapas que aparecem nas not�cias para al�m de muito escassos, - mapear informa��o sobre inc�ndios � um upgrade importante no conte�do informativo � s�o rudimentares, e imprecisos. Acaso a sobreposi��o sobre esses mapas de figurinhas com chamas por cima das capitais de distrito � informa��o? As redac��es lisboetas acham que os lisboetas sabem onde � a Pampilhosa da Serra? Ou Valongo? Ou os portuenses sabem onde � Our�m?

NO P�BLICO NADA ACONTECEU ONTEM

6. N�o sei se isso se deve a faltas de texto na edi��o digital ( a �nica que consultei), ou a uma sua arruma��o inesperada, mas n�o encontro no P�blico de hoje qualquer not�cia relevante sobre o que aconteceu ontem, quando o pa�s teve uma das s�ries mais graves de inc�ndios. No �Nacional�, nada; na �Sociedade� (o P�blico noticia habitualmente os inc�ndios na �sociedade�, deve ser uma met�fora), nada. Alguma coisa apenas nos suplementos locais, mas sem actualiza��o.

*

Para ter not�cias em tempo real sobre os inc�ndios, o melhor meio � ainda a r�dio. Tenho ouvido a Antena 1 nos �ltimos tempos, e costumam referir os locais dos inc�ndios. H� depois as fotografias de sat�lite do dia anterior (nem sempre encontro a fotografia da Pen�nsula Ib�rica, pelo que deduzo que a cobertura n�o � completa). A fotografia de ontem mostra um impressionante "enxame" de inc�ndios, especialmente no norte de Portugal.
(A.)
*
� falta de informa��o mais precisa e consistente na comunica��o social sobre a grave situa��o que actualmente devasta o pa�s, julgo que os dois links que abaixo transcrevo poder�o deixar uma imagem clara da trag�dia que actualmente nos atinge, aqui e aqui.

(Leonel Silva)

20.8.05
 


(N�O) VER O DIA


Agora

A toda a volta, um fumo disperso e intenso acabou com o dia. O sol � uma pura esfera vermelha. O cheiro a queimado envolve tudo. Nas ruas, as pessoas, como n�o sabem onde est� o fogo, sentem-se inseguras. Ser� que esta "igni��o" j� estar� "circunscrita"?
 


VIVER NUM PA�S ESTRANGEIRO

Tenho passado os meus �ltimos dias num pa�s estrangeiro: o passado. Mais propriamente em Portugal entre Novembro de 1957 e Junho de 1958. Pensei que sabia tudo, ou quase tudo, sobre esse per�odo da nossa hist�ria, a turbulenta apari��o de Humberto Delgado na vida pol�tica portuguesa. Este � um dos per�odos da hist�ria da oposi��o portuguesa aparentemente mais conhecido. Engano, engano-me. Verdadeiramente n�o sabia at� que ponto estava no pa�s estrangeiro de Hartley (que me fez um dia perder uma aposta�): "The past is a foreign country; they do things differently there.". They do things differently there�. S�o as �coisas diferentes� que me escaparam. Detalhes, pequenos pormenores, palavras, vindas de um passado e que hoje ningu�m diria:

como Costa e Melo num discurso em Aveiro a prop�sito de Delgado ter sido proibido de aparecer fardado nas manifesta��es


- Ouvi ontem, de um pol�cia de Aveiro, quase de l�grimas nos olhos, esta pergunta:
- Ent�o tiraram a farda ao nosso General?
Eu sosseguei-o e disse-lbe que n�o. Que a sua farda de General, n�o se tirava porque n�o havia for�as que o fizessem. Que fora proibido, isso sim, de a usar nas manifesta��es.
Tentei explicar-lhe a raz�o aparente dessa determina��o embora sentisse bem que ele sabia a raz�o verdadeira: a do medo daqueles que o julgaram ou julgam, por assim se julgarem, mero portador dum distintivo categorizado do ex�rcito da P�tria.
A sua farda, General, a sua farda de Homem sem medo, de libertador e de Chefe do Povo que a escolheu, essa farda tem ainda mais estrelas, tem todas as estrelas de todas as esperan�as desse mesmo Povo e foi tecida com os panos ricos dos ricos e com os farrapos pobres dos pobres, numa mescla de f� que a todos une em volta do Homem que lhes falou clara e sem medo e por isso foi compreendido.
General, em nome desse Povo eu a sa�do e lhe pe�o que n�o pare.

ou o mesmo Costa e Melo sobre o �S� das fardas da Mocidade Portuguesa:

0 S e tortuoso como os r�pteis que se deslocam rastejando e destilam veneno e pe�onha com que atingem as vitimas desprevenidas e tantas vezes confiadas. Olha-se um S e v�-se uma serpente ou uma v�bora!
O H de linhas verticais e uni�o nivelada tem naquelas o fio de prumo duma verticalidade, vertebrada e viril, e nesta, o equil�brio duma conduta. H� qualquer coisa de igualdade naquela linha recta e nivelada que a meio e n�o em baixo, marca o equil�brio
Olha-se o H e v�-se honestidade, o equil�brio e a for�a duma posi��o firme e decidida.
N�o brinquem, pois, com letras, Senhores da Uni�o Nacional
Nem essas est�o convosco!!!

ou Cunha Leal dirigindo-se aos jovens

Quando os mo�os de agora se dirigem a pessoas, que, como eu, � semelhan�a de Mois�s est�o destinadas a morrer � vista da terra de promiss�o, sem conseguirem p�r nela os p�s doloridos, sinto em minha alma o desejo veemente de que a juventude, essa sim, venha a pisar esse solo sagrado.
Mas ela tem de preparar-se para ser digna desse destino. Os hodiernos n�o tiveram, como os do meu tempo, actividade rom�ntica e tempestuosa. S�o pessoas amadurecidas prematuramente, que com resulta inquebrantabilidade de car�cter, juraram que n�o haveriam de vender a alma ao diabo. Em todo o caso, quando se convencem de perdurabilidade de t�o indesej�vel estado de coisas, n�o � de admirar que o seu ing�nito dinamismo os leve a desejar o desencadeamento de um terramoto social, que reduza a escombros o presente para constru�rem, mais tarde a cidade do futuro.
A minha velhice induz-me a p�-los de sobreaviso contra a grande periculosidade desses sonhos de destrui��o. Ah, n�o queiram eles subverter uma injusti�a para gerarem outra mais desumanizada e monstruosa ainda! Assisti na minha vida a duas horrorosas carnificinas b�licas. Vi o meu pa�s enredado em mesquinhos conflitos. Tomei conhecimento de um dos tais cataclismos sociais e de escravid�o a seguir imposta durante infind�veis 40 anos a um grande povo, sob a invoca��o de uma sedutora miragem do porvir. Mortes, tiranias, campos de concentra��o, progroms - eis o que venho contemplando durante meio s�culo apocal�ptico da Hist�ria! N�o ter� chegado a altura de tentar gozar a vida e n�o de sacrificar a odiosos Molochs e Quimeres?

Isto � bom. Isto � mesmo bom, diz o blogger que h� em mim. Era bom em 1958, � bom em 2005.

(Continua)
 


COISAS SIMPLES


Georges de La Tour, S. Jer�nimo lendo




 


EARLY MORNING BLOGS 582

Family Reunion

The divorced mother and her divorcing
daughter. The about-to-be ex-son-in-law
and the ex-husband's adopted son.
The divorcing daughter's child, who is

the step-nephew of the ex-husband's
adopted son. Everyone cordial:
the ex-husband's second wife
friendly to the first wife, warm

to the divorcing daughter's child's
great-grandmother, who was herself
long ago divorced. Everyone
grown used to the idea of divorce.

Almost everyone has separated
from the landscape of a childhood.
Collections of people in cities
are divorced from clean air and stars.

Toddlers in day care are parted
from working parents, schoolchildren
from the assumption of unbloodied
daylong safety. Old people die apart

from all they've gathered over time,
and in strange beds. Adults
grow estranged from a God
evidently divorced from History;

most are cut off from their own
histories, each of which waits
like a child left at day care.
What if you turned back for a moment

and put your arms around yours?
Yes, you might be late for work;
no, your history doesn't smell sweet
like a toddler's head. But look

at those small round wrists,
that short-legged, comical walk.
Caress your history--who else will?
Promise to come back later.

Pay attention when it asks you
simple questions: Where are we going?
Is it scary? What happened? Can
I have more now? Who is that?


(Jeredith Merrin)

*

Bom dia!
 


LER OS JORNAIS



Se, como diz Monjardino no Independente, "Soares quase n�o precisa de fazer campanha", porque se indigna tanto com a hip�tese de "passeio" de Cavaco Silva, que classificou de "n�o-democr�tica"?

No P�blico de hoje, jornal mais pobre que os outros porque n�o se pode citar em linha, Luciano Alvarez escreve uma nota intitulada O que fazer com o PS intriguista? N�o se perecbe bem, lendo apenas a vers�o electr�nica para assinantes, se � uma opini�o (nada a objectar) ou um complemento das not�cias (vem na sec��o "nacional").

"Uma tarefa extra, ainda que esperada, surgiu para o primeiro-ministro durante as suas f�rias africanas. O PS intriguista est� de volta."

Pressuposto: h� dois PS, um o "intriguista", outro o que n�o � intriguista, que se presume est� no governo, ou � volta de S�crates (embora S�crates, que j� foi �intriguista", saiba isso bem.)

"Ter� S�crates, que j� se viu obrigado a recuar algumas vezes perante a press�o do aparelho socialista, cabedal para lidar e matar esta fatalidade socialista, que no passado j� fez v�rias v�timas?"

Pressuposto: o aparelho do PS "obrigou" S�crates a tomar certas medidas que ele n�o desejava. De certeza? N�o teria sido o pr�prio S�crates a tom�-las, porque pensa como o aparelho, porque � do aparelho, sem ter havido qualquer "press�o"? Como � que se sabe? Esta dualidade PS (Jorge Coelho) versus Governo (S�crates) � a mais c�moda que h� e n�o � fundada em nenhum facto que se conhe�a. � uma presun��o dos jornalistas, ou pode ser tamb�m uma "intriga" c�moda, spin �til para qualquer Primeiro-ministro?

19.8.05
 


O QUE � QUE ACONTECEU � EUROPA?

Est� � espera das elei��es alem�s. Para depois fazer o qu�?

� espantoso que ningu�m o discuta. Os povos n�o est�o interessados. Fizeram tanta coisa nas suas costas, que eles viraram as costas tamb�m. Os governos n�o sabem porque se esgotaram no processo insano da Constitui��o e n�o querem voltar atr�s, onde ainda h� terreno seguro.
 


PREPARA��O ICARESCA



"Terras licet" inquit "et undas
obstruat, at caelum certe patet.Ibimus illac;
omnia possideat, non possidet aera Minos".

 


INTEND�NCIA

Actualizado COISAS DA S�BADO: A PIOR FRASE com a resposta de Eunice Goes.
 


A LER

o que pensam os literatos franceses, tamb�m eles a defender um �ltimo cantinho, le terroir, encontram-se aqui bons exemplos, como esta cr�tica ao Booker Prize.

Para quem quiser saber mais sobre o "mundo" liter�rio do Le Monde, continua a ser indispens�vel ler o livro de Pierre P�an e Philippe Cohen, La face cach�e du monde. Infelizmente n�o temos nada de semelhante sobre o "nosso" mundo dos suplementos liter�rios e suas capelas, amizades, promo��es editoriais, modismos, etc.

No ContraFactos & Argumentos a melhor colec��o de liga��es para quest�es dos media, agora que o Ponto Media tem estado parado. A lista dos blogues de ci�ncia merece ser seguida.

A Media Capital, o Governo e a Prisa: opini�es no Jornalismo & Comunica��o.
A pergunta que a� se faz merece ser retomada: "Mas aqui haveria que chamar a aten��o para as responsabilidades que cabem ao nosso jornalismo: ent�o o l�der do principal partido da oposi��o afirma, taxativamente, que o Governo est� envolvido numa manobra de controlo do principal canal televisivo e ningu�m o questiona (tanto quanto me pude aperceber) dos factos em que ele se baseia? Ningu�m investiga?"
 


OUVINDO TERESA BERGANZA CANTAR AS SEGUIDILLAS DE SOR





Como ha de resolverse
para embarcarse
aquel que desde lejos
ve tempestades?


ou

Muchacha, y la verguenza,
donde se ha ido?
"Las cucarachas, madre,
se la han comido."

Muchacha, mientes,
porque las cucarachas
no tienen dientes.


ou

Cesa de atormentarme,
Cruel Memoria,
Acord�ndome un tiempo
Que fui dichoso.

Y a�n lo seria
Si olvidarme pudiera
Do aquellas dichas.

 


MAU SINAL PARA QUEM COME�A E TEM TUDO � SUA FRENTE:
UM GOVERNO NA DEFENSIVA, DEMASIADO IRRITADO, DEMASIADO ARROGANTE



"A campanha actual sobre o pretenso "assalto" do PS a grupos de media � uma dessas opera��es de falsifica��o e intriga, que, ali�s, esconde mal o interesse de sectores que se habituaram a dominar a bel-prazer segmentos estrat�gicos do mercado da informa��o e da opini�o, e agora receiam que a din�mica pr�pria deste mercado lhes venha a enfraquecer posi��es ou retirar influ�ncia."

Augusto Santos Silva no P�blico, de hoje

A explora��o pol�tica do tema das minhas f�rias tem sido demag�gica, injusta e mesquinha. O Pa�s teve sempre um primeiro-ministro em fun��es�(...) �Os ataques de que fui alvo s�o injustificados, n�o s�o pr�prios de pol�tica, mas sim de politiquices�.

Jos� S�crates
 


COISAS COMPLICADAS


Jacques Henri Lartigue
 


EARLY MORNING BLOGS 581

Ao triste estado


Passa por esse vale a Primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abra�a a hera;

Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem;
Os dias mais fermosos amanhecem;
N�o para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado;
A m�goa choro de um, de outro a lembran�a,
Sem ter j� que esperar, nem que perder.

Mal se pode mudar t�o triste estado;
Pois para bem n�o pode haver mudan�a,
E para maior mal n�o pode ser.


(Frei Agostinho da Cruz)

*

Bom dia!
 


VER A NOITE

Lua quase cheia sobre um azul met�lico. Uma nuvem esticada que parece uma pena. Um vento muito frio para os costumes.

18.8.05
 


COISAS DA S�BADO:
UM SAFARI LONGE DEMAIS





Criticar o facto do primeiro-ministro ter ido passar umas f�rias luxuosas � pasto para todas as demagogias. Um safari no Qu�nia � o equivalente a ir a Bora Bora, ou a um car�ssimo hotel do Dubai com piscina privativa. N�o � isso que me afronta. Ele paga as f�rias do seu bolso, e se tem dinheiro e vontade para o gastar com a fam�lia num safari, parab�ns. A concep��o punitiva da vida p�blica que obriga os pol�ticos a uma vida hipocritamente mon�stica presta-se a todos os populismos e eu n�o sou desse clube.

Mas, se me espanta, face ao safari do eng. S�crates, o sil�ncio comedido da maioria da comunica��o social, sempre pronta a levantar a chama do ressentimento populista para os outros, e que n�o acredito que esteja calada porque aprendeu, acontece que me espanta tanto mais esse sil�ncio, quanto neste caso se justifica mesmo criticar o Primeiro-ministro pela sua op��o de f�rias e exigir que as interrompa.

Por v�rias raz�es: uma � porque a altura � pessimamente escolhida para ter umas f�rias sumptu�rias quando o seu governo est� a pedir a todos sacrif�cios e �apertar do cinto�; outra, porque a sua aus�ncia do pa�s, numa altura em que o fogo, mais uma vez, destr�i pessoas e bens com grande dimens�o, � por si mesma uma enorme desvaloriza��o da import�ncia do que est� a acontecer. Quando h� uma emerg�ncia num navio, o capit�o n�o entrega o comando a um qualquer outro oficial para ir ver um DVD na sua cabine. Mesmo que seja do National Geographic.

*

(Escrito h� uma semana. Agora que o PM voltou das f�rias, nada d� mais raz�o �s cr�ticas do que a sua atitude hoje, tentando remediar, com visitas "simb�licas" e confer�ncias de imprensa, o que h� muito devia ter feito e n�o fez. Nada apagar� o significado pol�tico da da sua atitude, do PM substituto, dos governadores civis, do Secret�rio de Estado do Ambiente e de muitos respons�veis com nomea��es pol�ticas para Parques Naturais, e que se resume numa s� frase: nada de importante aconteceu, nada de grave, nada de irrepar�vel. Ardeu tudo como de costume. N�o faltaram nenhuns "meios". � porque ter escolhido as f�rias que escolheu e n�o as ter interrompido � uma op��o pol�tica, que n�o � demagogia criticar as op��es do PM. Hoje, no seu af� de remedeio, ele vem dar raz�o aos que o criticaram. Demasiado tarde. J� se percebeu a pol�tica. )
 


COISAS DA S�BADO:
A PIOR FRASE




Com algu�m com a reputa��o de Gareth Peirce a defender os seus interesses, � altamente prov�vel que Jean Charles de Menezes recupere na morte a dignidade e respeito que a pol�cia lhe roubou� (Eunice Goes, correspondente do Expresso 6 de Agosto.)

N�s j� estamos t�o desprovidos de capacidade de indigna��o � flor da pele, que pouca coisa nos faz revoltar. Mas �s vezes � demais. Esta frase, escrita num artigo laudat�rio de um destes advogados medi�ticos (neste caso � uma advogada) que assumem causas de grande impacto p�blico, com maior ou menor m�rito, parece banal, mas n�o �. O cidad�o brasileiro que foi morto por pol�cias � paisana em Londres n�o foi �roubado� nem da �dignidade�, nem do �respeito� pela pol�cia. Foi v�tima de um tr�gico engano, num momento ainda mais tr�gico, em que um gesto precipitado e um clima de perigo, o matou tamb�m a ele. O que me revolta � que parece que em Londres s� morreu Jean Charles de Menezes e mais ningu�m. Ou que a morte dele foi a Maior e as outras, as Menores.

Pode-se dizer tudo e investigar tudo sobre o incidente. Pode-se e deve-se. Se a pol�cia actuou de forma irrazo�vel, se mostrou ter o gatilho leve, se os procedimentos normais foram seguidos (se � que h� procedimentos normais em plena emerg�ncia em que a dist�ncia de uma bomba com sucesso, de uma explos�o assassina, � apenas poder detonar um bot�o ou um fio ou um puxar de uma espoleta), se houve perda de calma e frieza, que, mesmo em risco, um pol�cia treinado deve ter. Pode-se fazer tudo isto, mas n�o � isso que a frase do Expresso diz.

Como M�rio Soares quando se pronunciou sobre os atentados de Londres e usou uma frase para os condenar e dez para acusar a pol�cia que �andava a� a matar pessoas�, Eunice Goes isola o incidente do seu contexto para enunciar uma Culpa, que Gareth Peirce � suposta corrigir. A Culpa n�o � dos terroristas da Al-Qaida, que eles sim mataram o infeliz trabalhador brasileiro, eles sim lhe roubaram a �dignidade� e �respeito�, mas a da pol�cia londrina para quem todas as indigna��es se dirigem.

*

Foi com alguma surpresa que vi o meu nome citado pela sua pena ilustre. Lamento apenas que as minhas palavras tenham sido t�o mal-interpretadas. Confesso, que 24 horas ap�s ter lido o seu desabafo no seu �blogue� ainda n�o consegui perceber como � que um perfil duma advogada se transformou num perd�o aos terroristas que bombardearam a minha cidade duas vezes. Confesso a minha falta de treino nas metodologias intelectuais estalinistas, mas n�o tenho por h�bito extrapolar muito para al�m do que vejo escrito, ou, seguindo a moda dos te�ricos das conspira��es, ligar factos desconexos e atribuir-lhes um nome. Infelizmente, o mundo � bem mais complicado.

O nome do Dr M�rio Soares vem � baila no seu desabafo, mas a verdade � que n�o sou porta-voz do Dr M�rio Soares, n�o sou soarista e nunca condenei mais a pol�cia brit�nica do que os terroristas do 7 e 21 de Julho.

Nas suas palavras insinuadas, sou uma esp�cie de relativista moral, ou uma �woolly liberal� que desculpa os criminosos e responsabiliza as autoridades por tudo o que de mal acontece. A t�tulo informativo queria dizer-lhe que n�o sou sequer uma das pessoas que pensa que os terroristas t�m raz�es para matarem inocentes na busca das suas utopias. Sou, pelo contr�rio, uma democrata liberal antiquada que acredita que a vida humana tem dignidade e que nada justifica o assassinato de inocentes. Penso tamb�m que os democratas n�o podem aceitar a l�gica totalit�ria e terrorista de que os meios justificam os fins, sejam eles a cria��o do Califato ou o fim do terrorismo.

Bem sei que Portugal n�o tem cultura democr�tica e que por isso, pol�ticos e autoridades p�blicas agem com total impunidade e ningu�m parece muito perturbado com isso. No Reino Unido, as regras e a cultura democr�ticas s�o mais fortes. Os cidad�os esperam que os pol�ticos e todos os respons�veis p�blicos prestam contas sobre o que fazem e expliquem ao p�blico erros cometidos, mesmo que haja atenuantes. Nas democracias como a brit�nica, h� tamb�m a pr�tica morosa (bem sei, a democracia �s vezes pode ser t�o ineficiente) de se debater e aprovar no Parlamento pol�ticas p�blicas tais como a ordem de �shoot to kill�.

No caso infeliz de Jean Charles de Menezes aconteceram v�rias coisas. Em primeiro lugar, ningu�m sabia que essa pol�tica estava em vigor. Esta decis�o chocou a maioria dos londrinos (Londres n�o � Belfast durante os �Troubles� e muito menos � Tel Aviv), principalmente porque a pol�cia brit�nica usa uma arma para imobilizar suspeitos (as pistolas taser), e que de resto utilizou para capturar um dos bombistas do 21 de Julho.

Em segundo lugar, a pol�cia cometeu n�o um mas uma s�rie de erros que depois tentou encobrir lan�ando uma s�rie de acusa��es infundadas sobre Jean Charles de Menezes. Sabemos agora que os �nicos factos que transformaram Jean Charles de Menezes num dos bombistas do 21 de Julho (aos olhos da pol�cia) eram a sua tez morena e o facto de morar num pr�dio onde um suspeito residia tamb�m. Ao contr�rio do que a pol�cia disse, Jean Charles de Menezes, n�o envergava um suspeito blus�o acolchoado onde poderia ter escondido um cinto com explosivos mas um blus�o de ganga aberto, n�o saltou a barreira dos bilhetes porque utilizou o seu passe, n�o fugiu da pol�cia, mas pegou num jornal, dirigiu-se calmamente para o comboio at� se sentou, e ningu�m lhe disse para parar. Jean Charles de Menezes foi imobilizado por um pol�cia (que o agarrou pelos bra�os) e a seguir foi morto com onze balas (sete na cabe�a, e tr�s n�o atingiram o alvo) por um pol�cia que tinha a certeza que ele era um dos bombistas dos ataques da v�spera.

H� mortes dignas. Mas morrer com sete balas na cabe�a e com a acusa��o de terrorismo n�o me parece a mais digna. E menos ainda quando a pol�cia ainda tentou lan�ar as culpas para Jean Charles de Menezes dizendo que ele se comportou de forma suspeita. N�o me parece que o Dr. Pacheco Pereira gostasse de ser confundido com um perigoso �mullah� por um pol�cia m�ope s� por causa da sua barba e tez morena.

Evidentemente que a pol�cia pode cometer erros e que estes podem ser explicados, principalmente quando estes ocorrem numa altura em que toda a gente est� nervosa e h� uma enorme press�o para apanhar criminosos. Mas mesmo nessas alturas, as autoridades t�m que prestar contas e se necess�rio serem julgadas por abusos de poder.

Em jeito de despedida queria dizer ainda que a pol�cia brit�nica � muito simp�tica e relativamente humana, mas n�o � muito eficiente. A radicaliza��o dos jovens brit�nicos mu�ulmanos fez-se perante as barbas da pol�cia. Durante anos, a pol�cia brit�nica permitiu que os Abu Katada e Mohamed Bakri deste mundo pregassem a sua ideologia de �dio nas mesquitas de Londres sem quaisquer entrave, apesar da comunidade mu�ulmana ter alertado a pol�cia in�meras vezes para o que estava acontecer. A reac��o da pol�cia a estes pedidos de interven��o foi a seguinte: �o problema � da vossa comunidade, voc�s � que o devem resolver�. Foi preciso o 11 de Setembro para a pol�cia mudar de atitude. Para 53 londrinos (no meu c�lculo, os 4 terroristas n�o contam como v�timas), essa mudan�a ocorreu demasiado tarde.

Muito obrigada pela sua aten��o. Deixo apenas uma sugest�o para as suas leituras: �s vezes h� textos sem entrelinhas e mensagens subliminares. Com esses, n�o vale a pena perder tempo com interpreta��es elaboradas.

(Eunice Goes)
 


AR PURO


Feodor Vasilyev, Antes da Trovoada




 


EARLY MORNING BLOGS 580

Hino � Raz�o


Raz�o, irm� do Amor e da Justi�a,
Mais uma vez escuta a minha prece.
� a voz dum cora��o que te apetece,
Duma alma livre, s� a ti submissa.

Por ti � que a poeira movedi�a
De astros e s�is e mundos permanece;
E � por ti que a virtude prevalece,
E a flor do hero�smo medra e vi�a.

Por ti, na arena tr�gica, as na��es
Buscam a liberdade, entre clar�es;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e n�o se abatem,
M�e de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!


(Antero de Quental)

*

Bom dia!

17.8.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
DESESPERADAMENTE � PROCURA DA INOVA��O...



N�o h� nada de novo no �choque tecnol�gico�. Basta ler umas coisas com mais de 60 anos e perceber qual � a sua mensagem-chave. Ou olhar para os exemplos de Silicon Valley ou mais recentemente Austin. Pois agora parece que o pa�s descobriu a conectividade. A ideia � p�r todo o agente a conectar: estado com empresas, empresas com universidades, empresas com centros de I&D, I&D com o mercado, a Joaquina da feira de Carcavelos com o Manuel da feira dos enchidos do Fund�o, o contribuinte com o guich� das finan�as. S�o estas as �linguagens� que nos falam sobre a sociedade do conhecimento, a economia do conhecimento, a rede. Estudamos: inova��o no produto v.s. processo; organizacional v.s. tecnol�gica. Criamos Comiss�es. Desenhamos Sistemas Nacionais de Inova��o. Elaboramos pareceres. Decidimos para o �bem de Portugal e dos portugueses�.

Mentira. H� anos que estamos parados. Semeamos esperan�as em fun��o do improviso. H� anos que ningu�m com o seu perfeito ju�zo larga por c� o seu neg�cio. � claro que a Auto Europa vai desaparecer. Ficaremos com o vazio: fam�lias, empresas, pessoas. N�o temos nenhuma ideia para a sua substitui��o. N�o somos um pa�s virtual. Somos o oposto. Sem velocidade. Com nenhuma rapidez. Temos tempo e espa�o. Somos o mesmo fogo de 1997. Somos a mesma pessoa que chorava a perca de uma vida inteira. Somos o mesmo concurso de professores de 2000. O nosso candidato a presidente de c�mara � o mesmo de h� 10 anos. A nossa preven��o � ter o mesmo tipo de condu��o de sempre. N�o gostamos de analisar. N�o gostamos de planear. As nossas avalia��es s�o sempre boas. Gostamos de copiar. Copiamos mal. Aprendemos pouco. Sem a l�ngua do Irish coffe, o petr�leo de Oslo ou o Conecting People de Hels�nquia, de que capacidades podem viver as nossas inova��es? De redes?

Olhemos, a partir do senso comum, sobre os sentidos que atribu�mos � palavra inova��o: muitas vezes diferente, quase sempre melhorar e ainda sempre a express�o mudar. Pouco importa que seja um exerc�cio de sinon�mia. Revela em si, quase tudo do nosso entendimento comum sobre esta problem�tica. � claro que n�o inovamos nada. Nem Zundapp, Casal ou Famel. Consumimos inova��o. Telem�veis. Os que j� tiram imagens do que somos. Os carros. Os modelos novos no pre�o. Computadores. Processadores de texto nas salas de aulas. N�o sabemos a raiz quadrada de vinte e cinco. N�o sabemos diferenciar um pol�gono de um v�rtice. N�o percebemos que o que fazemos, nessa mesma hora, h� quase dez anos, com as mesmas palavras de sempre, pode ser feito de outra forma. N�o sabemos que a barragem do Alqueva � um TGV desnecess�rio. N�o reduz a sede a ningu�m. L� est�. Majestosa na sua dimens�o. A nossa rede � empresas, universidades, s� existe por cria��o do nosso imagin�rio.

N�o temos rede nenhuma porque n�o nos ligamos a ningu�m. Num
estudo recente da EU (Innobaromter, 2004,) , cerca de 90% dos gestores de topo portugueses afirmaram que nos �ltimos dois anos n�o participaram em qualquer tipo de rede/formas de colabora��o com outras empresas, universidades ou centros de I&D. O discurso cor-de-rosa do �transformemos as nossas amea�as em oportunidades� est� repleto de simulacros. Somos uma sociedade de despedidas - �as suas melhoras!�. Somos o mesmo erro t�cnico. Nunca humano. � espera.

(Jorge Gomes)
 


A LER / A VER

TODOS OS DIAS S�O IGUAIS
no Mar Salgado.

Esta fotografia da Esta��o espacial tirada h� dias. E j� l� estive! No m�dulo russo. Infelizmente em terra.
 


GRANDES NOMES: O "MARTELO DOS HEREGES"

Nome dado a S. Agostinho pelo seu combate contra as heresias de Pel�gio, Donato e dos maniqueus.
 


GRANDES NOMES: A "�GUIA DE HIPONA"

Nome dado a S. Agostinho (de Hipona).
 


COISAS COMPLICADAS


Caravaggio, S. Jer�nimo



 


EARLY MORNING BLOGS 579

F�te galante


Les hauts talons luttaient avec les longues jupes,
En sorte que, selon le terrain et le vent,
Parfois luisaient des bas de jambes, trop souvent
Intercept�s! - et nous aimions ce jeu de dupes.

Parfois aussi le dard d'un insecte jaloux
Inqui�tait le col des belles sous les branches,
Et c'�taient des �clairs soudains de nuques blanches,
Et ce r�gal comblait nos jeunes yeux de fous.

Le soir tombait, un soir �quivoque d'automne:
Les belles, se pendant r�veuses � nos bras,
Dirent alors des mots si sp�cieux, tout bas,
Que notre raison, depuis ce temps, tremble et s'�tonne.


(Paul Verlaine)

*

Bom dia!

15.8.05
 


COISAS COMPLICADAS / AR PURO


William Turner, The Mew Stone at the Entrance of Plymouth Sound



 


EARLY MORNING BLOGS 578

The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide.

The sea-reach of the Thames stretched before us like the beginning of an interminable waterway. In the offing the sea and the sky were welded together without a joint, and in the luminous space the tanned sails of the barges drifting up with the tide seemed to stand still in red clusters of canvas sharply peaked, with gleams of varnished sprits. A haze rested on the low shores that ran out to sea in vanishing flatness. The air was dark above Gravesend, and farther back still seemed condensed into a mournful gloom, brooding motionless over the biggest, and the greatest, town on earth.

The Director of Companies was our captain and our host. We four affectionately watched his back as he stood in the bows looking to seaward. On the whole river there was nothing that looked half so nautical. He resembled a pilot, which to a seaman is trustworthiness personified. It was difficult to realize his work was not out there in the luminous estuary, but behind him, within the brooding gloom.

Between us there was, as I have already said somewhere, the bond of the sea.


(Joseph Conrad, In�cio de The Heart of Darkness)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SOBRE A CAPITAL




Li o seu artigo de opini�o na S�bado da semana passada sobre A Capital e O Com�rcio do Porto e queria apenas, se me permite, tentar oferecer-lhe, com todo o respeito, uma perspectiva diferente da que tra�ou no seu texto. At� porque, tendo-o como algu�m que age de boa f�, dou como garantido que s� escreveu o que escreveu por desconhecimento.

O que mais me entristeceu nas linhas que dedicou a A Capital foi sentir a ideia de que, no seu entender, a Prensa Ib�rica tentou salvar um t�tulo com o seu investimento e que a direc��o e os jornalistas n�o conseguiram corresponder ao desafio. N�o tenho absoluta certeza de que foi isso que quis dizer, mas n�o tenho a m�nima d�vida de que foi essa a mensagem que passou para quem leu.

Como de costume, as culpas s�o s� assacadas � administra��o, esquecendo-se que a Prensa Ib�rica salvou os jornais de uma morte anterior e deu-lhes uma �ltima oportunidade.

(...) que �ltima oportunidade?

Contratar (em 2004, tr�s anos depois de ter chegado) um director que trouxe com ele meia d�zia de jornalistas (o mesmo n�mero ou at� menos - com toda a certeza menos - dos que sa�ram entretanto) e, mais recentemente, alguns opinion-makers? � a isto que chama �ltima oportunidade?

Quando a Prensa Ib�rica comprou A Capital, em Setembro de 2001, logo a transformou em mais um di�rio matunino. As vendas ca�ram a pique (...) Ao longo destes quase quatro anos, contam-se pelos dedos de uma m�o as vezes em que "os espanh�is" entraram em A Capital.

Agora, pergunto eu: que culpa t�m os jornalistas disto?

Ao contr�rio do que pensa, os jornalistas de A Capital, com os seus defeitos e virtudes, � que foram adiando a morte do t�tulo. Foram eles, e s� eles, que tornaram a morte o mais lenta poss�vel, at� n�o haver outra sa�da. Impulsionados pela irrever�ncia do Lu�s Os�rio, muita gente (dos poucos que �ramos) trabalhou das 11h30 �s 23h30 sem receber mais um c�ntimo por isso.

Para que tenha conhecimento, havia v�rios jornalistas com mais de 40 folgas por gozar e dias f�rias de anos anteriores por tirar (pelos menos fomos compensados disso nas rescis�es).

O jornal de Luis Os�rio tinha caracter�sticas sui generis que o podiam tornar interessante � e foi not�rio o esfor�o para fazer diferente. O jornal procurou novos temas, novas not�cias, mas nunca conseguiu encontrar um equil�brio entre aquilo em que era �nico, e aquilo em que permanecia pior do que a concorr�ncia. A uma determinada altura, parece ter desistido e ficou uma coisa a meio termo, nem um jornal como os outros, cobrindo a actualidade di�ria, para que n�o tinha redac��o nem meios, nem um jornal alternativo para que lhe faltou o f�lego.

Est� cheio de raz�o nestes pontos. Aqui, acertou em cheio. Apenas n�o utilizaria a palavra f�lego. O que faltou, tamb�m para esse tal jornal alternativo, foram sempre os meios, pessoas para fazer o jornal idealizado por Lu�s Os�rio, que pretendia ser quase uma revista di�ria em papel de jornal. Se eu lhe disser que ao s�bado e domingo, nos melhores dias, n�o havia mais de 10/12 jornalistas na redac��o, acredita? �s vezes era um milagre meter o jornal nas bancas. Ora, isto � culpa dos jornalistas?


As fragilidades da Capital n�o vinham apenas da not�ria escassez de meios, mas tamb�m de decis�es editoriais. Uma � o arranjo gr�fico, porque poucos jornais tinham t�o mau grafismo como a Capital. O grafismo era inimigo do conte�do porque havia alturas em que o jornal podia ter as coisas mais interessantes do mundo, mas era ileg�vel, ou aborrecido at� ao limite.

Bom, aqui trata-se de uma opini�o meramente est�tica. H� que aceitar.


A Capital vai-me fazer falta, mas sempre que eu via um n�mero revoltava-me a inc�ria com que era feita. Eu sei que � duro dizer isto, mas n�o era segredo para ningu�m, a come�ar pelos seus leitores, que o desastre era inevit�vel.

Tamb�m a n�s nos revoltava essa imagem que passava para o leitor. Todos os dias abr�amos o jornal e constat�vamos que, apesar da entrega da maioria das pessoas, havia sempre demasiados erros. Era frustrante! Um revisor para toda a edi��o, um jornalista para duas ou mais p�ginas (que, n�o incidindo somente na actualidade, s�o muito mais trabalhosas), um editor para cinco ou seis p�ginas... enfim, no fundo, todos sab�amos que est�vamos num beco sem sa�da. E mesmo que os leitores n�o tenham consci�ncia do que trabalharam os jornalistas, pelo menos n�s, esses tais jornalistas, temos a certeza de que lut�mos at� ao fim. Agora, � tempo de procurar novos desafios.

(Rui Antunes, "at� h� bem pouco tempo sub-editor de desporto do jornal A Capital.")
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
"TALVEZ DEVESSEMOS SER MAIS EXIGENTES"




Por alguns dos seus posts recentes, vejo que tamb�m critica o facto de o primeiro-ministro se encontrar de f�rias e n�o ter regressado por causa dos inc�ndios ou que n�o telefone todos os dias para o seu gabinete para saber como v�o as coisas. Ora, gostava de deixar � sua reflex�o dois planos em que esta quest�o pode ser abordada: no plano pessoal-privado, n�o acha que mesmo um primeiro-ministro tem o direito de disfrutar de 15 dias com os filhos, que s�o pequenos e n�o vivem com o Pai e a quem provavelmente ele prometera antes de ir para o Governo umas f�rias num safari onde muitos portugueses levam tamb�m os filhos? (N�o tenho qualquer informa��o sobre isso mas trata-se de uma probabilidade). Ou ser� que � por ser o Qu�nia e ficar muito distante? Como sabe, apesar da crise, as f�rias ex�ticas est�o h� muito na moda e os portugueses enchem os avi�es para essas paragens. N�o ser�o demag�gicas as cr�ticas que por a� andam, de que em tempo de crise o primeiro-ministro n�o devia ir ao Qu�nia?

No plano pol�tico, acha que se o primeiro-ministro tivesse interrompido as f�rias algo teria mudado no apoio �s v�timas dos inc�ndios? Bem sei que seria um gesto simb�lico mas ser� que a politica tem de ser, sempre, simbolismo e imagem? Por outro lado, tudo depende assim tanto do primeiro-ministro (este ou outro)? Ou seremos t�o masoquistas que precisamos de ver todos os dias os pol�ticos (o primeiro-ministro) na televis�o para podermos critic�-los depois (e �s televis�es que os mostram) porque aparecem todos os dias? (Lembremo-nos do que se disse de Guterres e dos seus ministros que, no caso da queda da ponte de Entre-os.Rios, apareciam a toda a hora nos telejornais).

E o que dizer dos partidos e autarcas que pedem declara��o do estado de calamidade sem parecerem conhecer o que a lei diz sobre isso e as consequ�ncias que da� resultam?

� verdade que n�o temos escolas de forma��o de quadros pol�ticos e que os nossos governantes saem, em geral, dos quadros partid�rios, muitos deles com passagens breves por institui��es p�blicas ou privadas, sem grande conhecimento da sociedade que depois v�o "governar". Mas, essa imprepara��o tamb�m existe em muitos comentadores, oriundos do jornalismo e de outras �reas, de quem se esperaria uma interven��o informada e consistente, pela responsabilidade que det�m no espa�o p�blico medi�tico, mas que pouco mais fazem do que desenvolver um criticismo sistem�tico dos pol�ticos do governo ou da oposi��o, feito de frases sonantes ou de s�nteses apressadas de leituras em diagonal. Essas frases sonantes, tanto mais repetidas quanto mais demolidoras se revelarem, correm o risco de afastar os (poucos) que ainda l�em jornais e votam em elei��es. Dir-se-ia que o deserto de ideias que se nota nos governantes existe tamb�m nos seus cr�ticos.

Que solu��es, ent�o, perguntar-se-�? Talvez devessemos ser mais exigentes, n�o apenas em rela��o aos pol�ticos, embora devam ser estes os mais "vigiados", mas tamb�m em rela��o � sociedade em geral, incluindo os que det�m outros poderes para al�m do poder pol�tico, como sejam o poder econ�mico, o poder medi�tico, etc. Aos pol�ticos, ainda podemos castigar em elei��es. Mas, e os outros?

(Estrela Serrano)

14.8.05
 


NATUREZA MORTA MATINAL

 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
O FISCO E A BOLA




Li na �ltima p�gina do Expresso de hoje e fiquei perplexa: Totoneg�cio Supremo condena Liga

O Supremo Tribunal Administrativo chumbou esta quarta-feira a pretens�o da Liga Portuguesa de Futebol em n�o apresentar garantias no �mbito das d�vidas do �totoneg�cio�. O argumento de que, a prosseguir a marcha da execu��o fiscal, as suas contas ser�o penhoradas e da� resultar� a paralisa��o dos campeonatos profissionais de futebol, com severas consequ�ncias para os clubes participantes e sociedades desportivas, n�o convenceu os ju�zes.

Em causa est�o quase 20 milh�es de euros. A Federa��o Portuguesa de Futebol, por seu lado, J� APRESENTOU UM SUBS�DIO ESTATAL COMO GARANTIA.

Neste contencioso entre o Fisco e a Liga, o Minist�rio das Finan�as alegou que a concess�o dessa suspens�o �seria prejudicial para o interesse p�blico, desencadeando o alarme na opini�o p�blica de que 'as for�as do futebol' conseguem sempre um regime condescendente, quando n�o claramente privilegiado e legitimando formas enviesadas de alcan�ar a suspens�o de uma execu��o fiscal sem presta��o de garantias nem penhora�.

Vou continuar a seguir este folhetim que, aparentemente e nas televis�es, tinha tido fim no governo anterior. Para ver quantos jornalistas, colunistas e economistas se pronunciam sobre este assunto, para perceber quem n�o tem medo do sub-mundo portugu�s da bola. D� que pensar: nunca li nem vi nenhum economista preocupado com o dinheiro dos contribuintes que � torrado em forma de subs�dios para a bola. � s� o d�ficit na sa�de, nos transportes p�blicos, etc. que conta?

(Maria Odete Teixeira Pinto)

*

Relativamente ao texto de Maria Odete Teixeira Pinto, a minha opini�o � diversa. A bola � medi�tica porque desperta emo��es, e as pessoas vivem das e com as emo��es. Dito isto, as grandes e m�dias empresas que devem ao fisco, porque n�o despertam emo��es, diluem-se no alarido que a bola levanta e nas parangonas que alimentam aleivosamente o insaci�vel leitor. Os governos sucessivos ou alternados tamb�m s�o part�cipes desta engrenagem, para meter medo �s m�dias e grandes empresas, aos grandes e pequenos senhores, j� que n�o t�m coragem de lhes exigir o que � f�cil de exigir � bola. Por outro lado, as pessoas esquecem que a bola n�o vive num casulo ou num mundo ass�ptico, ou no pa�s do nunca. Os malabarismos que entram no submundo da bola s�o os mesmos que pululam na sociedade. Quem desgoverna a bola s�o os mesmos que desgovernam fora dela. Transportam para a bola os maus h�bitos de que vivem na sociedade. Acresce uma enorme ingratid�o dos Governos, desde a Ditadura, para com a bola, porque t�m arrecadado milhares de contos � custa do totobola, aposta m�tua criada para incentivar o desporto, mas para o qual reverte a parte mais pequena, para n�o dizer "sem significado". T�o insignificante que aumentou as d�vidas da bola. O Governo inventou ent�o o totoneg�cio que consistia em o Estado passar a ficar com a parcela insignificante para ir liquidando as d�vidas ao fisco. Assim, o generoso Estado �, na express�o de Oct�vio Paz, um "onagro filantr�pico". E o resultado foi o de a bola ficar exangue, porque os Governos tiraram-lhe o que parecia ser-lhe destinado. Criada esta situa��o, e porque o totobola n�o enchia os cofres do Estado, dado o decr�scimo das apostas, criou-se o totoloto, e, minguado este, seguiu-se-lhe o totomilh�es. Em tais circunst�ncias, agora, � f�cil, depois de ter sugado todo o sangue, decretar-lhe a fal�ncia. Se a bola n�o andou bem, o Estado andou pior. Como Vasco Pulido Valente vem evidenciando, o pa�s est� ingovern�vel. A bola � apenas mais uma v�tima.
(Jo�o Boaventura)
 


OUVINDO LISZT


tocado por Zimerman.
 


A LER

de Eduardo Cintra Torres, ESTAMOS A GOVERNAR MAL? ENT�O TOMAMOS A TVI, de um P�blico fora da Internet, mas que se justifica por este artigo. E pela Vanessa.
 


COISAS COMPLICADAS


Georges de la Tour



 


EARLY MORNING BLOGS 577

�rvores do Alentejo


Horas mortas... Curvada aos p�s do Monte
A plan�cie � um brasido... e, torturadas,
As �rvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a ben��o duma fonte!

E quando, manh� alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esf�ngicas, recortam desgrenhadas
Os tr�gicos perfis no horizonte!

�rvores! Cora��es, almas que choram,
Almas iguais � minha, almas que imploram
Em v�o rem�dio para tanta m�goa!

�rvores! N�o choreis! Olhai e vede:
- Tamb�m ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de �gua!


(Florbela Espanca)

*

Bom dia!

13.8.05
 


PERSEIDES

Quem n�o viu, sempre pode ouvir.

*
Em Portugal e em g�ria popular n�o se diz noite de S. Louren�o desta noite de chuva de estrelas (de desejos) entre 12 e 13 de Agosto?

(M�nica Granja)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
MAIS FOGOS (3)




A prop�sito do texto do m�dico Fernando Gomes da Costa, lembrei-me do que ouvi h� uns dois ou tr�s anos no Sul de Fran�a. A costa do Mediterr�neo, sobretudo � volta e para leste de Marselha, �, como se sabe, uma zona "cl�ssica" de inc�ndios florestais, quando o mistral (vento muito forte de Norte ou Noroeste) se faz sentir no pino do Ver�o.

O que v�rias pessoas me disseram � que existe desde h� uns anos um "pacto" com a comunica��o social francesa no sentido de evitar dar demasiada cobertura (sobretudo visual) aos inc�ndios, pois chegaram � conclus�o de que as imagens dantescas dos inc�ndios eram excelentes para atear pir�manos, que viam assim os seus actos "glorificados". Dito isto, n�o creio que a culpa seja sempre de pir�manos. Al�m dos casos em que h� interesses econ�micos, h� que lembrar que muitos inc�ndios se devem exclusivamente a "pironegligentes".

(Madalena Ferreira �hman)

*

Dividir o Pa�s numa quadr�cula, devidamente dimensionada, e colocar a concurso p�blico o servi�o de �garantia de preven��o e minimiza��o de inc�ndios�.
Cada empresa (ou cons�rcio de empresas e/ou outras entidades) que ganhasse o concurso para uma determinada �rea, era-lhe atribu�da uma verba anual de pr�mio correspondente � n�o ocorr�ncia de inc�ndios ou a um valor de �rea ardida m�nimo. A partir dessa atribui��o inicial seria sistematicamente descontado um quantitativo, correspondente � �rea ardida/danos causados, por cada inc�ndio ocorrido na �rea de garantia concessionada.

Este esquema permitiria partir de um valor inicial de custos bem conhecido, o qual corresponderia ao custo m�ximo poss�vel, sendo por isso mais seguramente or�amentado.
Por outro lado, colocaria a press�o econ�mica do lado da preven��o dos fogos, pois cada empresa que ganhasse a concess�o deste servi�o desenvolveria todos os esfor�os (limpeza, vigil�ncia, meios de interven��o r�pida, accionamento de meios alternativos de combate, etc.) de modo a minimizar a �rea ardida/danos causados, pois s� assim poderia assegurar a recep��o da maior parte da verba inicialmente atribu�da.

Com o passar dos anos seria poss�vel tamb�m optimizar o valor destes pr�mios anuais iniciais, pois nos primeiros anos � natural que tenham tend�ncia para alguma sobrevaloriza��o.

O princ�pio desta sugest�o baseia-se no esquema em tempos existente nas aldeias chinesas, em que o m�dico da aldeia vivia exclusivamente das doa��es dos alde�os. Assim, s� a manuten��o de uma popula��o saud�vel garantia a sobreviv�ncia do pr�prio m�dico.

(Bravo Ferreira)

*

Por que � que n�o se fala mais do exemplo da Lous�? L� n�o conseguem acabar por completo com os inc�ndios (isso n�o � poss�vel) mas, com objectivos bem definidos e trabalho s�rio, muito tem sido feito, com sucesso, no sentido de os reduzir em n�mero e em dimens�o de �rea ardida.

E por que � que os governos (este e os anteriores) n�o estuda(ra)m este caso, n�o apoiam mais quem l� est� e n�o o divulgam como exemplo?

Ser� porque este exemplo mostra que alguma coisa pode ser feita, para al�m de lam�rias e de atribui��o das culpas aos outros, e isso revela a incompet�ncia e a indiferen�a de muitos?

(PB)
 


COISAS SIMPLES


H. Matisse
 


FOGOS? QUERO L� SABER! QUERO � FESTA COM FOGUETES

Desde as oito da manh� as "alvoradas" das festas rebentam ao som dos foguetes num dos distritos de risco para os fogos, no qual s�o previstas altas temperaturas para o fim-de-semana. Aqui, ali e acol�. Nos dois �ltimos anos tinham acabado os foguetes, agora voltaram. Das duas uma: ou os bombeiros concederam as necess�rias autoriza��es, o que me parece merecedor das suspeitas quanto � "ind�stria dos fogos", ou os foguetes s�o ilegais e, como n�o h� autoridade, h� impunidade.
 


UMA FRASE REVELADORA: QUANDO O TELEFONE TOCA

O senhor primeiro-ministro telefonou-me mais de duas vezes questionando-me se devia voltar ou se n�o devia voltar.� (Ant�nio Costa referindo-se a S�crates, Primeiro-ministro de Portugal)

Para quem, como eu, que passo o dia a interpretar a �linguagem de madeira� dos partidos comunistas, onde os cl�ssicos art�ficios imperam, a omissio veri, supressio veri e suggestio falsi, esta frase � t�pica. Uma das coisas que aprendi � que se deve tomar estas frases, tip�cas da suggestio falsi, mesmo � letra .�Mais de duas vezes� pode significar tr�s, deixando um rabinho de palha que podem ser mil. Ou mais provavelmente, s�o dois telefonemas de viva voz, voz de S�crates ouvido de Costa, e um outro por interposta pessoa, chefe de gabinete, outro ministro, recado deixado, qualquer coisa que justifique o preciso �duas vezes�, mas n�o o "tr�s vezes". Mas a conclus�o mais interessante n�o tem sido tirada pela desatenta imprensa: � que o Primeiro-ministro de Portugal n�o telefona sequer uma vez por dia, ou dia sim, dia n�o, apenas talvez uma vez por semana, ao seu substituto em fun��es. S�o f�rias mesmo a s�rio.
 


EARLY MORNING BLOGS 576



And were an epitaph to be my story
I'd have a short one ready for my own.
I would have written of me on my stone:
I had a lover's quarrel with the world.

(Robert Frost)

*

Bom dia!

12.8.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS UM A CAMINHO

 


A LER

SOBRE O IMPACTO DOS BLOGUES
no Blogu�tica.

Este artigo de Helena Garrido que diz o �bvio: o ministro M�rio Lino teve que responder aos blogues, quando achava que j� tinha resolvido o problema dos jornais.

Imagens no Outro,eu.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
MAIS FOGOS




Os Incendi�rios dos Pir�manos

�A caracter�stica essencial da Piromania � a presen�a de m�ltiplos epis�dios de provoca��o deliberada e propositada de inc�ndios. Os indiv�duos com este transtorno experimentam tens�o ou excita��o afectiva antes de provocarem um inc�ndio, existindo uma fascina��o, interesse, curiosidade ou atrac��o pelo fogo e seus contextos situacionais (por ex., parafern�lia, usos, consequ�ncias). Estas pessoas s�o "espectadores" regulares de inc�ndios, podem accionar alarmes falsos e extraem prazer a partir de institui��es, equipamentos e pessoal associados com inc�ndios. Experimentam prazer, satisfa��o ou liberta��o de tens�o ao provocarem inc�ndios, testemunharem seus efeitos ou participarem de seu combate. O comportamento incendi�rio n�o ocorre, nestes indiv�duos, visando a obter ganhos monet�rios, expressar uma ideologia s�cio-pol�tica, encobrir uma actividade criminosa, expressar raiva ou vingan�a, melhorar as pr�prias condi��es de vida ou em resposta a um del�rio ou uma alucina��o, nem decorre de um preju�zo no julgamento (por ex., dem�ncia, atraso mental ou intoxica��o com drogas).

Este texto, transcrito de um conceituado site de psiquiatria ( www.psiqweb.med.br ), leva-me a introduzir uma quest�o que me parece t�o �bvia quanto escamoteada:
At� que ponto o alarmismo, dramatiza��o exacerbada e intensidade do espect�culo medi�tico sobre os fogos, sobretudo nas televis�es, n�o ser�o em si mesmos factores estimuladores e de incitamento ao acto pir�mano?

Embora o discurso corrente seja o da motiva��o por interesses econ�micos, a verdade � que os incendi�rios detectados se enquadram maioritariamente no contexto de altera��es mentais e do comportamento acima descritos, embora seja �bvio que possa haver aproveitamento secund�rio dos seus impulsos.
Esses impulsos s�o, como vimos, desencadeados e/ou refor�ados pelo prazer patol�gico sentido na observa��o das consequ�ncias do acto incendi�rio.
A sensa��o de poder, corroborada pelas profusamente mediatizadas consequ�ncias das suas ac��es, constitui, com toda a probabilidade, um motor fundamental para a actua��o do pir�mano.
Face ao aparato medi�tico em torno dos inc�ndios, sobretudo nas nossas televis�es, cujo conte�do informativo � em muito superado pelo espect�culo novelesco, hiper-dramatizado e mesmo s�dico como � tratado, n�o tenho quanto a mim d�vidas de que o est�mulo e a gratifica��o psicol�gica dos efectivos ou at� potenciais pir�manos s�o altamente potenciados at� em quem, de outra maneira, n�o se sentiria compelido a tal.

Desde pequeno que me lembro de ver�es secos e quentes, com fogos, e com certeza que sempre existiram pir�manos. No entanto, hoje em dia h� mais inc�ndios, apesar dos meios de preven��o e combate serem muito superiores ao que eram h� 20 ou 30 anos. Podem existir v�rias raz�es para esse acr�scimo, mas verdadeira grande diferen�a que noto � que nessa altura n�o havia, nem de longe, a profus�o de directos televisivos e radiof�nicos, de entrevistas melodram�ticas e sem qualquer interesse informativo mas apenas emocional, enfim, um verdadeiro espect�culo feito em cima da desgra�a alheia apenas com o objectivo de ter mais tempo de antena.
Na verdade, o pir�mano n�o tinha nessa altura a possibilidade �voyeurista� que agora se lhe oferece v�rias horas por dia de satisfazer uma das suas principais motiva��es: ver (e gravar) o �fruto da sua obra� documentado por imagens impressionantes da destrui��o das chamas, complementado por pungentes registos das reac��es de v�timas, comentadores, pol�ticos, governantes. Em termos psicol�gicos � aquilo a que se chama uma elevada recompensa positiva.

O problema � que esta oferta de sensacionalismo, para al�m de ser mau jornalismo, � com certeza um verdadeiro acto incendi�rio dos instintos pir�manos.
Pode ser que no dia em que respons�veis e popula��o em geral apontem certa comunica��o social pela motiva��o de muitos inc�ndios, haja alguma mudan�a. Quanto mais n�o seja, para n�o perder audi�ncias�. Pode ser que passem apenas a informar, o que n�o deve nunca estar em causa, em vez de excitar e publicitar.

Fernando Gomes da Costa (M�dico)
 


OUVINDO HANK WILLIAMS 2:
LONG GONE LONESOME BLUES




I went down to the river to watch the fish swim by
But I got to the river so lonesome I wanted to die ... Oh Lord!
And then I jumped in the river, but the river was dry.

He's long gone, and now I'm lonesome blue.

I had me a man who couldn't be true.
He made me for my money and she made me blue.
A woman needs a man that he can lean on,
But my leanin' post is done left and gone.

He's long gone, and now I'm lonesome blue.

I'm gonna find me a river, one that's cold as ice.
And when I find me that river, Lord I'm gonna pay the price, Oh Lord!
I'm goin' down in it three times, but Lord I'm only comin up twice.

He's long gone, and now I'm lonesome blue.

He told me on Sunday he was checkin' me out;
Long about Monday he was nowhere about.
And here it is Tuesday, ain't had no news.
I got them gone but not forgotten blues.
He's long gone, and now I'm lonesome blue.
 


OUVINDO HANK WILLIAMS



enquanto escrevo sobre o dia a dia da oposi��o portuguesa nos idos de Janeiro e Fevereiro de 1958. Dia a dia, porque havia um informador da PIDE em todas as reuni�es importantes, e relata com c�pia de detalhes e precis�o (era um intelectual...), como toda a gente (com excep��o de Ant�nio S�rgio) fez tudo o que pode para evitar que Humberto Delgado fosse candidato presidencial. Honky Tonkin.
 


A LER

Gustavo Rubim, Resposta a JPP, poucos dias depois e por partes no Casmurro.
 


GREAT BALLS OF FIRE!



Hoje � o dia das Perseides. Se o c�u estiver limpo haver� bolas de fogo. Espero que caiam nos s�tios certos, porque h� a� muita a gente a merec�-las.

A IR absolutamente � Festa da Noite.
 


EARLY MORNING BLOGS 575

Mar�lia, chega, que Dirceu t'espera
Sobre as c�ndidas asas da alegria:
Chega, querido bem, trazes o dia,
Em que a inveja ferina s'exaspera.

Apenas no horizonte amanhecera,
E Febo os louros raios repartia;
J� dentro desta aldeia se sabia,
Que a causa deste bem Mar�lia era.

Tu j� v�s como salta o cordeirinho
Alegre atr�s da m�o no verde prado:
Ouves cantar o alado passarinho:

Pisas a inveja rindo-te do fado:
� mais puro que o leite o teu carinho,
� mais doce que o mel teu terno agrado.


(Tom�s Ant�nio Gonzaga)

*

Bom dia!

11.8.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
FOGOS


Ainda a prop�sito dos inc�ndios, julgo que mais que tudo a "�poca de fogos" mostra-nos um retrato claro de um pa�s profundamente terceiro-mundista, nos conceitos, nas atitudes e num estranho apego � bo�alidade, como se de um bem valioso se tratasse. A culpa, essa � sempre dos outros, da falta de meios, do governo, dos pir�manos, das autarquias, da seca, mas nunca, nunca mesmo dos pr�prios, que constroem sem cuidar da envolvente, que acumulam lixo em �reas perigosas, que deitam vidros para o ch�o, que operam m�quinas geradoras de fa�lhas no Ver�o dentro das matas, que fumam e deitam beatas para qualquer canto, que insistem nas queimadas proibidas, etc., etc. Depois vem o cortejo dos directos televisivos, cujos jornalistas competem pela proximidade �s chamas e pelo desprop�sito dos coment�rios. Usam-se os chav�es habituais, desde o "fogo posto" at� � "falta de meios", o que quer que seja que isso quer dizer. Segue-se um habitual confronto est�ril entre um qualquer membro do governo e os representantes das oposi��es e j� est�, cumpriu-se mais uma �poca de fogos em Portugal, para o ano h� mais.

No entanto, no seu af� informativo, as televis�es e os demais "media", fazem quest�o de ignorar olimpicamente toda e qualquer discuss�o s�ria sobre este assunto grav�ssimo. Porqu�? Porque as discuss�es s�rias (as �nicas que valem a pena) fazem-se com especialistas, que existem, mas que as televis�es preterem (se calhar por falta de telegenia) e n�o com pol�ticos, comentadores ou generais. Quais as qualifica��es de quem coordena as opera��es de preven��o e combate aos inc�ndios, trata-se de facto de um especialista, com estudos e trabalhos publicados na mat�ria? N�o se compreender� se n�o for esse o caso. Que sabe o respons�vel da tutela sobre o assunto? Quem s�o os seus acessores para a �rea e quais as suas habilita��es? S�o perguntas leg�timas, dado que se tratam de lugares p�blicos, suportados pelos contribuintes. Eu, como contribuinte, preferia que o ministro fosse assessorado para este assunto por um doutorado em inc�ndios e n�o por mais um advogado ou economista.
Os t�picos para discuss�o s�o conhecidos e a sua enumera��o desnecess�ria, mas no fundo, desde a atitude dos cidad�os at� � dos governos, tudo acaba por radicar no problema essencial deste pa�s: a falta de educa��o, pior, a convic��o profunda de que ela n�o faz falta.

(Jo�o Silva)

*

Muito tenho visto escrev�r �cerca de inc�ndios, suas causas, origens ( criminosas ? doentias ? ), solu��es para o combate.

S�o tamb�m constantes as acusa��es s�rias aos propriet�rios , acusando-os de falta de limpeza das matas.....

Mas, sendo o Estado propriet�rio tamb�m, e a ele competindo proteg�r as �reas que ele pr�prio determinou como protegidas � parques naturais � , como se justifica que essas reservas ardam com a mesma facilidade do que as bou�as de quantos � muitas vezes emigrados � n�o tem meios nem auxilio para a sua limpeza !

E como castigar o propriet�rio de uma mata que arde apenas e s� porque o seu vizinho n�o limpou a sua parte ?

N�o tenho jeito para escrever mas queria deixar estas quest�es no ar. Porque falar do combate � f�cil , venham mais avi�es, troquem-se submarinos por helic�pteros , procurem-se mais bombeiros , mas algu�m tem de pagar, e aqui , mais uma vez estamos a tratar o doente em vez de evitar a prolifera��o da doen�a.

Tamb�m, e no campo da preven��o , julgo que todos se esquecem que temos 500 mil desempregados !!!

N�o haver� no meio desse meio milh�o de Portugueses alguns habilitados a serem recrutados para efectuar vigil�ncia florestal ? Estar� o Pa�s em situa��o de sustentar meio milh�o de pessoas sem se socorrer delas para servi�os c�vicos ?

N�o passaria aqui por um pacto de regime o acordar na possibilidade de � requisi��o civil � dos desempregados para acudir a esta situa��o de calamidade ? Ou apenas aqueles que trabalham para sustentar os desempregados � que se devem sujeitar � requisi��o civil ?

(Luis Miguel Moreira)

*

(...) Algu�m viu um fogo come�ar espontaneamente numa mata ou floresta? H� para a� algu�m que tenha visto um inc�ndio come�ar sozinho, assim, a uns metros de si, sem interven��o humana? H� por a� algu�m que possa afirmar "Olha estava numa mata quando vi, de repente, � minha frente, um fuminho libertar-se no meio de ervas secas e iniciar um fogo"?

Gostava muito de saber se algu�m j� assistiu, vendo com os seus pr�prios olhos, uma chamazinha irromper de forma espont�nea. Porque sen�o, se ningu�m presenciou um inc�ndio deflagrar naturalmente, das duas uma: ou os fogos, quando come�am, s�o t�o t�midos que s� ocorrem quando toda a gente est� de costas, ou...somos todos lorpas e hip�critas.

(Mjb Reduto)

*

FOGOS : COMBATE ou POL�TICA ?

De vez em quando imponho a mim pr�prio o sil�ncio , porque a revolta que sinto perante certos factos me tolhe a vontade de falar . Depois , a custo , vou recuperando e hoje acho que � altura de voltar a falar .

De falar do que muitos dizem ser tempo para calar : da vergonha nacional dos fogos florestais .

N�o vou , por�m , pelo caminho da cr�tica aos cortes or�amentais recentes ; da discuss�o do rid�culo de certas afirma��es de certos " cromos da bola " ; da compara��o com o que se passou na Calif�rnia ou em qualquer outro lugar ; se os SAPADORES s�o melhores que os VOLUNT�RIOS . Esta via � seguida h� muito tempo por muitos respons�veis � leva ao esquecimento das verdadeiras causas e � n�o adop��o das pol�ticas necess�rias : alimenta os demagogos .

T�o pouco vale a pena falar do an�ncio da maior ca�a ao incendi�rio levada a cabo pela P.J. ou do agravamento de medidas penais ou do facto de um presum�vel incendi�rio aguardar julgamento em liberdade : continuar�amos na demagogia .

Falemos do que vale a pena :

1 � Para quando um cadastro efectivo da propriedade em Portugal ?
Para quando uma pol�tica de emparcelamento obrigat�ria e de proibi��o de reparti��o de propriedade abaixo de certos limites ?

2 � Para quando dotar as Juntas de Freguesia de m�quinas e equipamento ( e de verbas para a sua utiliza��o ) e tornar obrigat�rio o ordenamento e a limpeza de matas ?

3 � Para quando um estudo s�rio e a sua aplica��o obrigat�ria sobre a tipologia das florestas , mantendo a n�veis controlados o potencial de fogo e sua expans�o ?

4 � Para quando uma pol�tica de fomento do desenvolvimento integrado das zonas florestais , incluindo o fomento da fixa��o populacional atrav�s do investimento na agricultura e cria��o de gado , ambas , de caracter�sticas adequadas , numa rede de comercializa��o de produtos - transformados localmente - valorizados por certificados de origem e de natureza ?

5 � Para quando uma pol�tica de desenvolvimento tur�stico tirando partido do potencial que tantos estrangeiros j� descobriram vindo fixar-se nas nossas serras ?

Com isto apagam-se os fogos ?

N�o , previne-se o inc�ndio .

Pois : e o dinheiro para pagar tudo isso ?

Tem sido e vai continuar a ser gasto na constru��o de quart�is de bombeiros , na aquisi��o e aluguer de ve�culos de combate ao fogo , na compra de Kits de adapta��o de avi�es , na perda de bens ...

... e continuam a MORRER PESSOAS .

A solu��o � POL�TICA .

J.A.Ferr�o Morgado, na Comarca de Arganil, Agosto 2003, enviado pelo autor.
 


BIBLIOFILIA:
ARGUMENTOS PARA OS NOST�LGICOS DO IMP�RIO




Do magn�fico pequeno livro de Maria Jos� Palla, Paredes de Pangim Velha Goa, da Ass�rio & Alvim.
 


MICRO CAUSAS: O QUE VALEM



Para quem tenha d�vidas sobre o impacto dos blogues no debate p�blico, leia os jornais de hoje, em particular o P�blico e o artigo do senhor Ministro das Obras P�blicas no Di�rio Econ�mico. Eles podem n�o querer admitir, por raz�es ali�s bem pouco nobres, a quem se deve a origem de uma nova informa��o arrancada a ferros, - o estado dos estudos sobre a OTA e as obscuras raz�es porque n�o s�o divulgados em simult�neo com a decis�o (essa j� foi tomada, n�o foi?), - mas a verdade � imposs�vel de esconder. Est� hoje a estabelecer-se um novo padr�o de exig�ncia para os governos: com as novas tecnologias e o alargamento que a Internet propicia para o debate p�blico, n�o � mais poss�vel manter a administra��o fechada, com tudo aquilo que n�o � mat�ria reservada fora do conhecimento de todos. Em tempo �til.

Este escrut�nio, que marca um ponto sem retorno, vai valer para a OTA, para o TGV, para todos os grandes projectos, para o que se sabe dos inc�ndios, mas vai tamb�m esclarecer muitos aspectos pouco claros da governa��o at� agora confortavelmente escondidos como "t�cnicos", como seja a actividade de empresas de consultadoria, escrit�rios de advogados, fornecedores de pareceres de todo o tipo. H� todo um neg�cio que vive do poder pol�tico, altamente discricion�rio, �s vezes s�rio, mas tamb�m muitas vezes t�o politizado nas suas decis�es, t�o dependente de favores, t�o sujeito � transum�ncia de pessoas, encomendas, pareceres, lobis, na propor��o directa da falta de escrut�nio p�blico. Ora � para a� que muito do poder pol�tico se tem deslocado, � para a� que os lobis dos grandes neg�cios se concentram numa media��o nem sempre transparente. � a� que reside muito do poder e da decis�o pol�tica, e n�o na Assembleia, nem nos �rg�os formais do estado e dos partidos.

Foram os blogues que suscitaram a quest�o do "estado" dos estudos da OTA, e a exig�ncia (que permanece) da sua publicita��o em linha, a comunica��o social tradicional veio atr�s. N�o h� mal nenhum nisso, mesmo quando n�o o querem reconhecer. O que interessa � o debate p�blico, n�o a cita��o, que ainda � uma cultura escassa fora dos blogues. O que interessa � que se ajude a mudar o modo de fazer pol�tica em Portugal, do ponto de vista dos contribuintes e n�o do ponto de vista do estado, que � o que ainda domina o discurso da situa��o e da oposi��o tradicional, e muita da imprensa. Esta � uma genu�na causa liberal, mesmo sem o r�tulo. Liberal, de liberdade.

Estes setenta blogues


Blogu�tica. Blasf�mias , Ciberjus , Von Freud , Grande Loja do Queijo Limiano, [ai-dia], A destreza das d�vidas , crackdown, ContraFactos & Argumentos , ' A Esquina do Rio , Almocreve das Petas, Um prego no sapato, ...bl-g- -x-st-, sorumb�tico, Portuense, ABnose, Portugal dos Pequeninos, Teoria da Suspira��o, A Baixa do Porto, Minha Rica Casinha, Sombra ao Sol, Insustent�vel, Insustent�vel Leveza, Virtualidades , Blogdamarta, Adufe, Tela Abstracta, opinar, Abnegado, Cabo Raso, Bateria da Vit�ria, Foz, Tempo Suspenso, Galo Verde, Navio Negreiro, Entre Pedras, Palavras, Viver Bem na Alta de Lisboa, Faz Tudo, SEDE, Observador Cosmico, Nortadas, Piano, primadesblog, Pura Economia, Impertinencias, Nova Floresta, Acid Junk Food, Prova dos Nove, Quinta do sarga�al, O cacique, Cuidado de Si, My Guide to your Galaxy, Ideias Dispersas, Gatochy's blog, Congeminar, Ver�o Verde, Forum Comunit�rio, Ma-Schamba, Ecletico, Miniscente, o careto, iuris, 19 Meses Depois, o caricas, Lendas & Etcetera, A Arte da Fuga, Luminesc�ncias, Nevsky Prospekt, Outro Planeta, Abrupto e um jornal digital, o Portugal Di�rio

contribu�ram para esse novo standard. Talvez tenha sido este o valor desta causa.

*

Mais vale tarde do que nunca: EPIA - Estudos Preliminares de Impacte Ambiental (OTA e Rio Frio). Falta o resto, mas este � o bom caminho.
 


COISAS DA S�BADO

A MORTE DOS JORNAIS



A morte dos jornais Capital e Com�rcio do Porto, deixa-nos a todos mais pobres, porque o fim de um jornal � sempre um empobrecimento do espa�o p�blico. Mas � preciso ir mais longe, porque um jornal, como outras coisas, n�o tem um direito natural a existir. As op��es da sua gest�o, direc��o e jornalistas tem tamb�m um papel e ele deve ser discutido. Como de costume, as culpas s�o s� assacadas � administra��o, esquecendo-se que a Prensa Ib�rica salvou os jornais de uma morte anterior e deu-lhes uma �ltima oportunidade.

N�o acompanhei sistematicamente os �ltimos dias do Com�rcio, mas era leitor di�rio da Capital desde que Luis Os�rio assumiu a direc��o. Leitor em papel, portanto n�o foi por mim que o jornal acabou. O jornal de Luis Os�rio tinha caracter�sticas sui generis que o podiam tornar interessante � e foi not�rio o esfor�o para fazer diferente. O jornal procurou novos temas, novas not�cias, mas nunca conseguiu encontrar um equil�brio entre aquilo em que era �nico, e aquilo em que permanecia pior do que a concorr�ncia. A uma determinada altura, parece ter desistido e ficou uma coisa a meio termo, nem um jornal como os outros, cobrindo a actualidade di�ria, para que n�o tinha redac��o nem meios, nem um jornal alternativo para que lhe faltou o f�lego.

As fragilidades da Capital n�o vinham apenas da not�ria escassez de meios, mas tamb�m de decis�es editoriais. Uma � o arranjo gr�fico, porque poucos jornais tinham t�o mau grafismo como a Capital. O grafismo era inimigo do conte�do porque havia alturas em que o jornal podia ter as coisas mais interessantes do mundo, mas era ileg�vel, ou aborrecido at� ao limite.

Depois, muitos dos jornalistas escreviam opini�o e se exceptuarmos um ou dois casos, quase sempre de n�o jornalistas, como as colunas da �ltima p�gina, essa opini�o era completamente desinteressante, ligeira e paroquial. N�o teria sido melhor que o trabalho de jornalistas, certamente sempre escassos, fosse utilizado para tratar textos gigantescos, publicados quase sem subt�tulos, contra todas as regras de legibilidade?

A Capital vai-me fazer falta, mas sempre que eu via um n�mero revoltava-me a inc�ria com que era feita. Eu sei que � duro dizer isto, mas n�o era segredo para ningu�m, a come�ar pelos seus leitores, que o desastre era inevit�vel.

*

(Transcrevo o texto integral da nota que publiquei na S�bado da semana passada e que foi objecto de duas cita��es convenientemente truncadas, A coer�ncia de um pensador luso (NCS) e Abrupto ou abutre? (LFB), de responsabilidade de jornalistas e colaboradores da Capital, n�o identificados enquanto tal, reveladoras de uma desonestidade intelectual evidente. Eu percebo muito bem o que � que os incomoda no texto e que, por acaso, n�o transcreveram. O leitor que julgue e compare este texto com o que publiquei h� um ano atr�s no Abrupto sobre o jornal.)
 


COISAS SIMPLES


A. Wyeth, The Studio
 


EARLY MORNING BLOGS 574

The Lake Isle of Innisfree


I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made:
Nine bean-rows will I have there, a hive for the honey-bee;
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart's core.


(W. B. Yeats)

*

Bom dia!

9.8.05
 


INTEND�NCIA

Actualizado NUMA BLOGOSFERA, PERTO DE SI com a lista que j� vai em sessenta e sete blogues perguntadores e ainda h� mais. Helena Garrido, no Di�rio Econ�mico de hoje, rompeu a cortina de sil�ncio da comunica��o social sobre este apelo, escrevendo:"esperemos que agora, com a Blogosfera e os jornais, se tenha mais sucesso que no passado quando a imprensa tanto criticou a onda dos est�dios de futebol". Esperemos.
 


AR PURO


Adam Thompson, Frozen Sea IV
 


EARLY MORNING BLOGS 573

May 24, 1980


I have braved, for want of wild beasts, steel cages,
carved my term and nickname on bunks and rafters,
lived by the sea, flashed aces in an oasis,
dined with the-devil-knows-whom, in tails, on truffles.
From the height of a glacier I beheld half a world, the earthly
width. Twice have drowned, thrice let knives rake my nitty-gritty.
Quit the country the bore and nursed me.
Those who forgot me would make a city.
I have waded the steppes that saw yelling Huns in saddles,
worn the clothes nowadays back in fashion in every quarter,
planted rye, tarred the roofs of pigsties and stables,
guzzled everything save dry water.
I've admitted the sentries' third eye into my wet and foul
dreams. Munched the bread of exile; it's stale and warty.
Granted my lungs all sounds except the howl;
switched to a whisper. Now I am forty.
What should I say about my life? That it's long and abhors transparence.
Broken eggs make me grieve; the omelette, though, makes me vomit.
Yet until brown clay has been rammed down my larynx,
only gratitude will be gushing from it.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!

8.8.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
QUE CANSA�O?



A prop�sito desta sua quest�o,

"Que cansa�o faz parar o pa�s dos que menos tem raz�es para estarem cansados?"

Que cansa�o leva um ministro das finan�as acabado de empossar a entrar em f�rias?
Que cansa�o leva um primeiro-ministro fazer f�rias t�o pouco tempo depois de ganhar o poder? E com t�o pouca coisa feita? Blair, por exemplo, n�o foi de f�rias, continua a trabalhar para tentar proteger o Reino Unido do terrorismo. � uma grande diferen�a de vis�o das fun��es de Estado.

A prop�sito de Blair, h� um programa na televis�o brit�nica em que o Primeiro Ministro se submete a quest�es (de natureza pol�tica) do p�blico presente. N�o s�o "empres�rios", nem "representantes da sociedade civil", nem antigos ministros, nem representantes de partidos pol�ticos (hoje em dia est�o sempre presentes em todos os debates, como se estes se esgotassem nas opini�es oficiais dos partidos).
Muitas perguntas feitas a Blair s�o bem colocadas, dif�ceis de responder, desconfort�veis (muito mais desconfort�veis do que as perguntas feitas por muitos jornalistas). Mas Blair est� presente e responde.
Seria poss�vel, com a nossa tradi��o pol�tica e jornal�stica, um programa desta natureza?

Por fim, uma quest�o, que surgiu ao ler este excerto do texto da reuni�o da Comiss�o Permanente da 1.� Sess�o Legislativa de 14 de Agosto de 2003: "J� o Sr. Presidente da Rep�blica andava h� v�rios dias no terreno sugerindo, ali�s, a declara��o de calamidade p�blica ." A pergunta � esta, se a situa��o este ano � muito mais grave, onde anda hoje o Presidente da Rep�blica, que no ano passado andava "h� v�rios dias no terreno?" Ser� que tamb�m est� cansado?

(Paulo Agostinho)

*

Agora que me envolvi directamente, durante dois dias, lutando at� desfalecer, no meio de um inferno de chamas e fumo ardente, procurando defender a humilde casa de meus pais - lugar de mem�ria da minha inf�ncia e recanto de paz nos encontros domingueiros de tr�s gera��es � melhor entendo o valor da enorme solidariedade e abnega��o do nosso povo. Pude testemunh�-lo: somos de facto um povo bom e generoso sempre que � posto � prova. E que n�o p�ra para ir a banhos, como tantos outros, n�o mostra cansa�o, mesmo em condi��es sobre-humanas. Porque � pobre e os pobres sabem sofrer.

Mas � triste, de uma tristeza infinita, observar o nosso vasto e rico patrim�nio florestal e ambiental, desaparecer num �pice, perante a nossa impot�ncia, com consequ�ncias t�o nefastas que provavelmente ainda nem nos demos conta, tal � o estado de pasmo e incredulidade com que olhamos, at�nitos, estas manchas intermin�veis de paisagem negra, b�lica, ainda ontem t�o fresca e paradis�aca.

� este sentimento de raiva interior, que ora se abafa, ora parece explodir, por verificar que os mais pobres continuam os mais sofredores, as suas casas as que ardem, o seu desespero o mais ignorado. Entregues a si pr�prios e ao seu destino, apenas podem contar consigo e a solidariedade poss�vel. E ficar mais pobres. Ignorando e desprezando, por n�o ser seu, �um mundo� de discursos televisivos e climatizados, pol�ticos, repleto de compara��es, estat�sticas, acusa��es, promessas, legisla��es, programas�jamais cumpridos ou a cumprir porque, definitivamente, somos governados por incompetentes.

Raz�o tem o meu pai, 75 anos, mas extremamente l�cido, confessando a um �rg�o de informa��o ( os novos paparazzi do fogo ! ) face ao cen�rio de trag�dia jamais visto na sua aldeia: - � Tivesse eu agora 20 ou 30 anos, voltaria a emigrar para bem longe e t�o cedo n�o regressaria a este triste e pobre pa�s.�

E n�s, valer� a pena ficar? At� quando?

(M.Oliveira, Lavradio - Leiria)

*

� apenas uma opini�o, mas esta calamidade dos inc�ndios serve, antes de quaisquer outras considera��es, para avaliar da pobre situa��o em que anda o nosso poder aut�rquico. N�o � o governo que deve agora andar a correr o pa�s a assoprar na comunica��o social um ou outro remedeio. De facto Jos� S�crates, ao inv�s se ter afastado do pa�s, deveria agora estar a trabalhar a fundo no planeamento do ano que vem j� a�. Mas aquilo que me surpreende mais, e pela negativa, � o desleixo dos pr�prios habitantes locais, e a falta necess�ria de apoio e coordena��o das autarquias em acautelarem a tempo a vida dos seus municipes. No caso das florestas eu diria que n�o se pode culpar a pr�pria natureza por fazer o seu papel. Mais tarde vir�o as chuvas e novos rebentos de �rvores.

(Ant�nio Fonseca)

*

Sendo todos v�s t�o inteligentes,e com grande mediatismo, como n�o viram ainda,ou ainda n�o foram capazes de dizer, que os grandes culpados dos Inc�ndios, n�o s�o o Governo ou os Autarcas e/ou os Bombeiros - sempre os atacados por V.Exas - mas sim aqueles que choram ao ver as suas coisas ardidas?
Quando � para limpar, ao menos os arredores das suas casas, quintas ou florestas n�o tem dinheiro nem tempo ... quando ardem todos s�o culpados menos eles.!!!!!!!!!!!!!
Gostaria de ver as Autoridades, actuando com multa a todos os que n�o cumprem a LEI !!! Ai que d�el�rei, l� est�o a perseguir, com o intuito do lucro, etc, etc, etc.
Suas excel�ncias que sempre defendem que o Estado n�o se pode substituir �s pessoas, aos privados .... ser�o que nessas Vossas an�lises est�o a ser sinceros e coerentes ?
(...)

(Elias Joel)
 


OS FOGOS, A COMUNICA��O SOCIAL, O GOVERNO, E N�S





Li o seu post sobre o inc�ndio na A1 e n�o resisto ao �contradit�rio� (...) da a sua frase: �fiquei ainda mais convicto que, pelos �rg�os de informa��o, os portugueses n�o tem tido a ideia da gravidade dos inc�ndios este ano.� Destaco as primeiras p�ginas de 14 Julho e de 4 de Agosto. H� mais primeiras p�ginas e, h� pelo menos tr�s semanas, que publicamos notici�rio substancial sobre esta mat�ria, como o hav�amos feito no final de Junho. Acho que o �Jornal de Not�cias� tem sabido cumprir a sua tarefa mas, naturalmente, n�o temos o impacto das televis�es.

(David Pontes)

Nota: David Pontes tem raz�o quanto ao Jornal de Not�cias, e esta capa, anterior ao surto de inc�ndios dos �ltimos dias, � rara (sen�o �nica) na aten��o atempada a uma gravidade que n�o se quis ver. Mas que existe um problema de apatia, indiferen�a e desresponsabiliza��o, e que muita comunica��o social participa nessa oculta��o, qui�� involunt�ria por falta de efeito de novidade, isso existe.

H� raz�es pol�ticas - em que circunst�ncias do passado � que um Primeiro-ministro poderia continuar a fazer as suas f�rias num safari no Qu�nia sem reparo p�blico? Em que circunst�ncias do passado � que as declara��es sucessivas de desresponsabiliza��o do ministro Ant�nio Costa, passariam inc�lumes? Em que circunst�ncias do passado � que o apelo pat�tico que fez ontem de pedir o aumento de penas e a pris�o dos presum�veis incendi�rios durante a �poca dos fogos , deixaria de provocar reac��es? Em que circunst�ncias do passado � que deixaria de se perguntar por que raz�o , se h� pessoas que t�m que ser encerradas numa pris�o porque s�o pir�manas, o problema n�o � mais do foro m�dico do que judicial? Tudo ao lado, tudo fora do �mbito das responsabilidades do governo.

Mas h� tamb�m algo de muito mais perigoso: um efeito de Mitr�dates, muito dependente da forma como a televis�o trata os fogos, como se cada ano de imagens exaustivas dos inc�ndios nos notici�rios fosse gerando uma cada vez maior indiferen�a e habitua��o. E como os inc�ndios t�m a desdita de ocorrer numa silly season em que agora se entende, por puras raz�es de audi�ncia e de caracter�sticas do �produto�, n�o dever perturbar o sol e a praia, nem � classe m�dia nem aos jornalistas, tudo continuar� na mesma, ou pior.

*

Mais sobre outras variantes do mesmo: Manipula��o no Ma-Schamba e Mensal no Aviz.
 


NUMA BLOGOSFERA, PERTO DE SI

Sessenta e sete blogues

Blogu�tica. Blasf�mias , Ciberjus , Von Freud , Grande Loja do Queijo Limiano, [ai-dia], A destreza das d�vidas , crackdown, ContraFactos & Argumentos , ' A Esquina do Rio , Almocreve das Petas, Um prego no sapato, ...bl-g- -x-st-, sorumb�tico, Portuense, ABnose, Portugal dos Pequeninos, Teoria da Suspira��o, A Baixa do Porto, Minha Rica Casinha, Sombra ao Sol, Insustent�vel, Insustent�vel Leveza, Virtualidades , Blogdamarta, Adufe, Tela Abstracta, opinar, Abnegado, Cabo Raso, Bateria da Vit�ria, Foz, Tempo Suspenso, Galo Verde, Navio Negreiro, Entre Pedras, Palavras, Viver Bem na Alta de Lisboa, Faz Tudo, SEDE, Observador Cosmico, Nortadas, Piano, primadesblog, Pura Economia, Impertinencias, Nova Floresta, Acid Junk Food, Prova dos Nove, Quinta do sarga�al, O cacique, Cuidado de Si, My Guide to your Galaxy, Ideias Dispersas, Gatochy's blog, Congeminar, Ver�o Verde, Forum Comunit�rio, Ma-Schamba, Ecletico, Miniscente, o careto, iuris, 19 Meses Depois, o caricas, Lendas & Etcetera, A Arte da Fuga, Luminesc�ncias,
e um jornal digital, o Portugal Di�rio

leram isto


"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es."
(Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-05)

e correspondendo ao apelo do senhor Ministro fizeram o pedido, exig�ncia bem educada,

PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

e receberam a resposta:

N�O.
PELO MENOS PARA J�, AT� QUE O GOVERNO FA�A O SEU ESTUDO, VISTO QUE AINDA N�O FEZ NENHUM, APESAR DE J� TER DECIDIDO TUDO.
 


AR PURO


Annie Leibovitz, The Whiz Kids: Scorcese, Lucas, Spielberg, Coppola, 1996
 


EARLY MORNING BLOGS 572

MAGRI�O E OS DOZE DE INGLATERRA (Fragmento)


Eu no entrar da singela juventude,
Sem conhecer os homens, fui sincero.
Ardente cora��o, paix�es fogosas,
Alma franca, de impulso me levaram
Aos pa�ses do cego entusiasmo.
Por l� cantei de amor pureza e mimos,
Do�uras de amizade, enlevos de alma.
Hero�smo, gl�ria, liberdade e amores,
� porfia na lira me soaram;
E na alteza do esp�rito sublime
S� vi nos homens a verdade e a honra.
Experi�ncia fatal; tu me roubaste
A t�o doce ilus�o, em que eu vivia!
Bordado v�u de lisonjeiro engano
Rasgou-mo de ante os olhos emba�dos
Coa descarnada m�o seca verdade.
Tal como ele � vi o homem! Aos meus olhos
De vergonha e de d� vieram l�grimas.
Chorei; � t�o louco fui! S� gargalhadas
As loucuras do mundo nos merecem.

E assim foi que, atentando mais de perto,
Vi tanta asneira, vi tanta sandice,
Que desatei a rir, por fim, de tudo,
De Heraclito chor�o deixei a escola,
E alegre sigo o pachorr�o Dem�crito.
Quero rir com Di�genes, com ele
No c�nico tonel entrincheirar-me
Contra as sandices deste parvo mundo.


(Almeida Garrett)

*

Bom dia!
 


UM ESTADO SEM AUTORIDADE

Do Di�rio de Not�cias de hoje

"Mais de 1800 pedreiras est�o a laborar ilegalmente em Portugal, estando legalizadas apenas 151. Todas as empresas tinham exist�ncia legal at� 2002, altura em que entrou em vigor o decreto-lei n.� 270/2001, que regula o sector extractivo no dom�nio terrestre."

"Cerca de 24,5 milh�es de toneladas de inertes, provenientes de rios e pedreiras, s�o ilegalmente extra�dos por ano. A quantidade de materiais (areias e rochas britadas) n�o declarados pelas empresas de extrac��o atinge valores que rondam, em m�dia, os 50 por cento da produ��o, o que significa que metade da actividade deste mercado � efectuada sem o conhecimento das entidades oficiais."

7.8.05
 


INTEND�NCIA

Amanh� farei a actualiza��o final de todos os blogues que participaram na exig�ncia da divulga��o dos estudos da OTA, que como se sabe, teve um n�o de resposta do governo, pelo menos para j�. Afinal o n�mero foi muito maior do que os cinquenta e seis que tinha recenseado.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
NENHUMA RESPONSABILIDADE, COISAS VAGAS, FALTA DE SOLIDARIEDADE

As respostas que o Ministro Ant�nio Costa (que tamb�m substitui o Primeiro-ministro) tem dado, no telejornal da RTP1, ao jornalista Jos� Rodrigues dos Santos quando confrontado com perguntas directas sobre as medidas que o governo tenciona tomar at� ao fim da �poca de fogos. Diz coisas vagas tipo �� preciso aplicar a lei� sempre que confrontado com medidas concretas nomeadamente em rela��o � limpeza de matas a 50 metros das casas e a 10 metros das estradas. Inacredit�vel tamb�m a resigna��o e falta de empenho que desde o in�cio desta calamidade tem mostrado na televis�o quando confrontado com o facto de este ano ter havido mais 70% de fogos do que em igual per�odo do ano passado: �j� esper�vamos�..., �a seca�... E finalmente, inacredit�vel o facto de n�o ter mostrado um �tomo de solidariedade e mesmo de compaix�o para com tantos portugueses que viram as suas casas, animais e bens arderem.

Um drama que se desenrola perante os nossos olhos e ningu�m, do Presidente da Rep�blica aos ministros ou mesmo deputados vai �l� perto das popula��es que sofrem para verem por si a calamidade que estas vivem. S�o os pol�ticos que temos.

(J.)
 


PORQUE � QUE TUDO EST� PARADO, MENOS OS POBRES

Que cansa�o faz parar o pa�s dos que menos tem raz�es para estarem cansados?

Bom. O pa�s n�o est� bem parado, os pobres continuam a trabalhar, a defender as suas casas dos fogos, a cuidar dos seus campos e animais, a manter os turnos nas f�bricas de labora��o cont�nua, a trabalhar a dias, a servir � mesa, a trabalhar nas obras, a asfaltar estradas (sim, a proximidade das aut�rquicas leva a um surto nacional de obras de estradas, alindamentos, rotundas, calcetamentos), debaixo de quarenta graus. N�o s�o s� os portugueses, h� muitos emigrantes, a ganharem o seu, sob este sol impiedoso.

O pa�s n�o est� parado. O pa�s que se auto-representa nos jornais, esse � que est� parado.
 


OLHARES

Cito de Gustavo Rubim no Casmurro:

Resposta a JPP, 70 anos antes

A tradi��o da nossa cultura foi sempre colocar-nos dentro dos olhos dos outros, quanto mais Outro os outros forem. E num certo sentido este � um sinal da vitalidade da cultura ocidental [...]� J. Pacheco Pereira (P�blico e Abrupto, 2005)

Responde Ruth Benedict, antrop�loga:
�O branco, esse, tem tido uma experi�ncia diferente. Nunca, porventura, ter� visto um homem de outra civiliza��o, a n�o ser que o homem de outra civiliza��o j� esteja europeizado. Se viajou, muito provavelmente f�-lo sem nunca ter ficado fora de um hotel cosmopolita. Pouco sabe de quaisquer maneiras de viver que n�o sejam as suas. A uniformidade de costumes, de pontos de vista, que v� em volta de si parecem-lhe suficientemente convincentes, e esconde das suas vistas o facto de que se trata, afinal, de um acidente hist�rico. Aceita sem mais complica��es a equival�ncia da natureza humana e dos seus pr�prios padr�es de cultura.�

Padr�es de Cultura, p.18, tradu��o de Alberto Candeias (original: Patterns of Culture, 1934)

Fim de cita��o.

Ruth Benedict � nova-iorquina, branca, aluna de Vassar e de Columbia, e, entre outras coisas, participou no esfor�o de guerra (anti-japon�s) dos americanos estudando a "cultura" japonesa. O que ela escreve na cita��o, como ali�s todo o seu livro Padr�es de Cultura, parece-me um t�pico exemplo de "tradi��o da nossa cultura [que] foi sempre colocar-nos dentro dos olhos dos outros, quanto mais Outro os outros forem." Exactamente o que eu queria dizer.

Desconhe�o qualquer observa��o antropol�gica do mesmo teor, sobre os seus, provinda de qualquer outra tradi��o cultural (mu�ulmana, budista, animista, etc.), e que n�o possa ser suspeita de "ocidentalizada". N�o me refiro obviamente apenas a frases avulsas de toler�ncia e compreens�o face aos "b�rbaros" (hoje diz-se os "cruzados"), refiro-me a uma vis�o desapiedada, exterior, com os olhos do Outro, sobre "n�s", relativista culturalmente como os Padr�es de Cultura, que tenha tido a influ�ncia sobre essas sociedades e culturas que olhares como o de Benedict, Mead, Levi-Strauss e outros tiveram sobre a nossa.

Groucho Marx tamb�m � um excelente exemplo. A meu favor.
 


COISAS SIMPLES


Robert Mapplethorpe, Italian Devil
 


EARLY MORNING BLOGS 571

Ouvir Estrelas


"Ora direis ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, p�lido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via l�ctea, como um p�lio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo c�u deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando est�o contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entend�-las:
Pois s� quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


(Olavo Bilac)

*

Bom dia!

6.8.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TORTURADA MIMAS


Aqui.
 


FOI S� H� DOIS ANOS



O Orador (Vitalino Canas, que se seguia a Ant�nio Costa que tinha feito uma interven��o no mesmo sentido): � A pergunta que se coloca � a seguinte: ter�o hoje o Primeiro-Ministro, o Ministro da Administra��o Interna e os restantes Ministros coragem para dizer, olhos nos olhos, �s popula��es, aos bombeiros, aos autarcas que o Governo fez tudo o que podia fazer?!

Aos autarcas e �s popula��es que se queixam de defici�ncias de coordena��o, de modo generalizado, de falta de meios, de terem de combater os fogos sozinhos, de defici�ncias operacionais, pode o Governo dizer que nada disso � verdade?!
N�o se trata apenas de admitir que o sistema teve falhas, como j� fizeram o Primeiro-Ministro, o Ministro da Administra��o Interna e tamb�m, agora, o pr�prio Presidente do SNBPC. Trata-se de admitir com humildade que o Governo falhou. E falhou, desde logo, quando menosprezou os avisos que em tempo �til, muito antes de Agosto, lhe foram endere�ados com serenidade, equil�brio e responsabilidade.
Que maior exemplo de falha do Governo e do sistema que montou se pode apontar do que o facto de o Governo ter demorado v�rios dias a aperceber-se da gravidade da cat�strofe?

J� o Sr. Presidente da Rep�blica andava h� v�rios dias no terreno sugerindo, ali�s, a declara��o de calamidade p�blica e ainda o Sr. Primeiro-Ministro, ap�s o Conselho de Ministros do Porto, desvalorizava a situa��o e se mostrava confiante na adequa��o dos instrumentos mobilizados pelo Governo para enfrentar essa mesma situa��o!
Enganaram o Primeiro-Ministro ou enganou-se este redondamente. Qualquer das hip�teses �, obviamente, grave.


(IX Legislatura - 1.� Sess�o Legislativa (2002-2003) Comiss�o Permanente - Reuni�o de 14 de Agosto de 2003)

Todo o debate sobre os fogos, � um documento exemplar do que est� mal na nossa pol�tica puramente posicional (o que se diz na oposi��o � o contr�rio do que se diz no governo e vice-versa), que tem desacreditado o PS e o PSD. Aqui a vergonha � do PS e estas palavras devem servir para "ler" o que diz hoje Ant�nio Costa, um dos participantes do debate de 2003 e hoje Ministro com responsabilidades no sector, substituindo o Primeiro-ministro que est� em f�rias.
 


APRENDENDO COM CLARICE LISPECTOR SOBRE OS S�BADOS

Aten��o ao S�bado

Acho que s�bado � a rosa da semana; s�bado de tarde a casa � feita de cortinas ao vento, e algu�m despeja um balde de �gua no terra�o; s�bado ao vento � a rosa da semana; s�bado de manh�, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilh�o em mim perdido: outras abelhas farejar�o e no outro s�bado de manh� vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No s�bado � que as formigas subiam pela pedra.

Foi num s�bado que vi um homem sentado na sombra da cal�ada comendo de uma cuia de carne-seca e pir�o; n�s j� t�nhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matin� de cinema: ao vento s�bado era a rosa de nossa semana.

Se chovia s� eu sabia que era s�bado; uma rosa molhada, n�o �?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esfor�o met�lico a semana se abre em rosa: o carro freia de s�bito e, antes do vento espantado poder recome�ar, vejo que � s�bado de tarde.

Tem sido s�bado, mas j� n�o me perguntam mais.

Mas j� peguei as minhas coisas e fui para domingo de manh�.

Domingo de manh� tamb�m � a rosa da semana.

N�o � propriamente rosa que eu quero dizer.


(Clarice Lispector)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a lista dos blogues que aderiram ao pedido de divulga��o dos estudos da OTA. Est�o listados cinquenta e seis e ainda devem faltar alguns.
 


A LER

Com�rcios no avatares de um desejo.
 


A VER




nas fotos portuguesas destacadas pelos Frescos, o Portugal que os portugueses fotografam em f�rias. Tudo bonitinho, tudo direitinho, tudo limpinho, tudo com cores fortes, tudo ao sol,tudo boa comidinha, um pouco de "mostrar as cores da bandeira" n�o v� ser preciso para o futebol. Onde � que � este pa�s? Mostrem-me l� no mapa, depois de limparem o fumo. Com este olhar "pompier", n�o admira que ningu�m queira ousar sair da silly season. L� para Outubro coem�amos outra vez a resmungar, mas � s� porque as f�rias acabaram. Ent�o � que os "pol�ticos" v�o ver!
 


COISAS SIMPLES


Juli�o Sarmento, Parasite (the gendering of narrative space)
 


EARLY MORNING BLOGS 570

L'espoir luit comme un brin de paille dans l'�table.
Que crains-tu de la gu�pe ivre de son vol fou ?
Vois, le soleil toujours poudroie � quelque trou.
Que ne t'endormais-tu, le coude sur la table ?

Pauvre �me p�le, au moins cette eau du puits glac�,
Bois-la. Puis dors apr�s. Allons, tu vois, je reste,
Et je dorloterai les r�ves de ta sieste,
Et tu chantonneras comme un enfant berc�.

Midi sonne. De gr�ce, �loignez-vous, madame.
Il dort. C'est �tonnant comme les pas de femme
R�sonnent au cerveau des pauvres malheureux.

Midi sonne. J'ai fait arroser dans la chambre.
Va, dors ! L'espoir luit comme un caillou dans un creux.
Ah ! quand refleuriront les roses de septembre !


(Paul Verlaine)

*

Bom dia!
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
MICRO-CAUSAS


Valia a pena investigar se o Estado tem o direito de se recusar a fornecer informa��o que n�o seja de natureza secreta por qualquer raz�o v�lida. N�o o � certamente no caso da OTA, ou ent�o h� algo de muito estranho neste processo todo.

(Tiago Azevedo Fernandes)
*
Apesar de achar que os estudos sobre o aeroporto da OTA, como qualquer estudo pr�vio sobre qualquer obra p�blica, devam ser p�blicos e publicitados em favor da transpar�ncia das decis�es governamentais n�o posso deixar de o censurar pela forma como est� a abordar no seu blogue esta quest�o. Passo a citar:

"Finalmente, e como era inevit�vel, o governo d� a resposta: n�o, para j�. E confirma o que j� se suspeitava: nenhum estudo espec�fico foi feito por este governo para suportar a sua decis�o, baseando-se apenas nos que existiam antes, e que eram contradit�rios e est�o desactualizados (a conjuntura do tr�fego a�reo mudou muito entretanto). e longe de serem conclusivos. Confirma-se assim o car�cter estritamente pol�tico da decis�o, que, em vez de ser tecnicamente fundada, vai agora procurar justificar-se. � um estilo. P�ssimo."

1. Segundo o Portugal Di�rio j� foram gastos cerca de 12,7 milh�es de euros em estudos de viabilidade para esta obra.
2. Este governo est� em fun��es ainda h� menos de 6 meses.
3. Qualquer estudo s�rio, como dever�o concerteza ter sido os efectuados, a julgar logo � partida pelos montantes envolvidos, dever� necess�riamente ter um horizonte temporal bastante mais alargado.

Perante estes factos resta apenas constatar que a sua observa��o � demag�gicamente especulativa, alimenta por isso a especula��o, e peca em simplismo. Mesmo na sua linguagem, ou se quiser usando as suas palavras, pelo estilo, esse sim patentemente falacioso e demag�gico.

N�o sei se a obra da OTA � boa ou � m�. Podem haver outras solu��es mais baratas e racionais. Uma coisa sei: � bom que os estudos sejam divulgados para debate p�blico, mas n�o para p�blica especula��o. Estudos que custam fortunas como estas n�o s�o concerteza pass�veis de an�lises simplistas, devem por isso ser discutidos por quem perceba minimamente da mat�ria e que n�o se limite a 'atirar para o ar' que por exemplo "o tr�fego mudou muito entretanto".

(Ant�nio Fonseca)
*
(...) acabo de ler o artigo do Portugal Di�rio que cita no seu post de h� bocado quanto � resposta do ministro � campanha iniciada por si para a divulga��o na internet dos tais estudos. Fraca e t�mida resposta, mas somos o que somos em mat�ria de transpar�ncia do Estado e da sua m�quina. (...)

Lembrei-me entretanto de consultar a Constitui��o, onde seguramente os Pais da P�tria ter�o previsto alguma coisa sobre os direitos dos cidad�os � informa��o em posse do Estado. Assim de repente, encontrei 3 preceitos, que transcrevo:

Artigo 37.�
(Liberdade de express�o e informa��o)

1. Todos t�m o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discrimina��es.

Artigo 48.�
(Participa��o na vida p�blica)

2. Todos os cidad�os t�m o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades p�blicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gest�o dos assuntos p�blicos.

Artigo 268.�
(Direitos e garantias dos administrados)
2. Os cidad�os t�m tamb�m o direito de acesso aos arquivos e registos administrativos, sem preju�zo do disposto na lei em mat�rias relativas � seguran�a interna e externa, � investiga��o criminal e � intimidade das pessoas.

N�o sou jurista e muito menos constitucionalista, mas parece-me que estes artigos conferem-nos direitos claros � informa��o da coisa p�blica. O que aconteceria se um grupo de cidad�os de boa vontade os invocasse, directamente junto da administra��o, se necess�rio at� ao Tribunal Constitucional, para obter o que o governo n�o quer, inexplicavelmente, publicar? Era capaz de ser interessante, e pelo menos agitava-se o conformismo nacional...
(Cristina Laranjeira)
*
De um leitor: O artigo anexo trata do futuro da avia��o face ao esgotamento petrol�fero, enfatizando o absurdo de expandir aeroportos, com base nas tend�ncias passadas de crescimento das viagens, sem levar em conta os constrangimentos de combust�vel � para n�o mencionar a ascens�o dos seus custos (mesmo sem impostos).

5.8.05
 


BIBLIOFILIA: O MEDO DA BOMBA


Mais um papel recuperado: um boletim da Defesa Civil do Territ�rio, uma organiza��o ligada ent�o � Legi�o Portuguesa, dedicado aos abrigos at�micos. � um t�pico produto dos anos cinquenta, resultado do medo da guerra at�mica, medo muito racional nesses anos. Vale a pena revisitar estes medos, porque o terrorismo de hoje vai de novo gerar um mesmo ambiente de finitude, de fim do mundo, de queda n�o apenas da civiliza��o, mas da humanidade.
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

Finalmente, e como era inevit�vel, o governo d� a resposta: n�o, para j�. E confirma o que j� se suspeitava: nenhum estudo espec�fico foi feito por este governo para suportar a sua decis�o, baseando-se apenas nos que existiam antes, e que eram contradit�rios e est�o desactualizados (a conjuntura do tr�fego a�reo mudou muito entretanto). e longe de serem conclusivos. Confirma-se assim o car�cter estritamente pol�tico da decis�o, que, em vez de ser tecnicamente fundada, vai agora procurar justificar-se. � um estilo. P�ssimo.

Quem finalmente obteve esta informa��o foi o jornalista Andr� Pinto do Portugal Di�rio, um jornal digital. Cito as partes mais significativas:

Governo recusa-se a publicitar agora estudos sobre a Ota

1� M�O: Ministro apresenta planos para novo aeroporto em Outubro. S� depois, disponibilizar� publicamente os documentos na internet. Entre 1997 e 2005, foram realizados 70 estudos que custaram 12,7 milh�es de euros. Mas Executivo de S�crates ainda n�o realizou nenhum
(...)
O Governo recusa-se a publicitar para j� os estudos que tem na sua posse sobre o novo aeroporto da Ota e que sustentam a decis�o em avan�ar para a sua constru��o. �O Minist�rio das Obras P�blicas, Transportes e Comunica��es vai promover, em Outubro, uma apresenta��o p�blica do projecto do novo aeroporto e posteriormente divulgaremos toda a informa��o pertinente e necess�ria na internet�, divulga o gabinete do ministro M�rio Lino num esclarecimento solicitado pelo PortugalDi�rio.

Mas o Executivo nega que haja qualquer secretismo sobre os estudos. A assessora do Minist�rio das Obras P�blicas, Transportes e Comunica��es, Ana Rute Peixinho, exemplifica com os �estudos preliminares de impacte ambiental relativos �s localiza��es Ota e Rio Frio que estiveram em consulta p�blica entre Mar�o e Maio de 1999. Os resumos n�o t�cnicos e relat�rios executivos estiveram tamb�m dispon�veis para consulta. No �mbito da consulta do p�blico chegaram a ser realizadas duas audi�ncias p�blicas.�

S� entre Julho de 1997 e Abril de 2005, a Naer - Novo Aeroporto S.A. realizou ou "encomendou" a universidades e outras institui��es 70 estudos sobre a Ota, de acordo com uma listagem facultada pelo minist�rio ao PortugalDi�rio. Mas o acesso aos documentos � reservado, argumenta o gabinete de M�rio Lino. Apesar da insist�ncia do PortugalDi�rio, uma decis�o sobre a consulta dos estudos pedidos est� dependente do ministro da tutela. Contactada a Naer, a mesma dificuldade: �S� com autoriza��o do minist�rio.�

Na lista a que o PortugalDi�rio teve acesso incluem-se estudos sobre a defini��o da localiza��o do novo aeroporto, o seu impacte ambiental, an�lises posteriores � defini��o do local e a eventual �sensibilidade do turismo � deslocaliza��o� do aeroporto da Portela para a Ota.

O PortugalDi�rio sabe que o valor gasto pela empresa nestes mesmos estudos ascende j� a mais de 12,7 milh�es de euros. Deste total, 6,5 milh�es foram comparticipados pela Comiss�o Europeia. De acordo com Ana Rute Peixinho, este Governo ainda �n�o fez nenhum estudo sobre a Ota�. (Sublinhados meus.)

*
O Portugal Di�rio cita a campanha dos blogues para obter esta resposta: "Na �ltima semana, um conjunto de blogues na internet tem exigido a divulga��o dos estudos que sustentem a viabilidade do novo aeroporto da Ota."

Tendo-se obtido esta resposta, que vale o que vale, pode-se agora continuar a discuss�o noutros termos, e esperar por Outubro. Para quem pensa que a blogosfera n�o tem for�a, este � um bom exemplo do que se pode fazer, para melhorar o debate p�blico. Foi tanto mais importante para a blogosfera quanto foi uma campanha solit�ria: n�o contou com a comunica��o social tradicional que se mostrou, para ser caridoso, indiferente. M�rito, s� dos blogues e agora do Portugal Di�rio.

M�rito destes cinquenta e seis blogues: Blogu�tica. Blasf�mias , Ciberjus , Von Freud , Grande Loja do Queijo Limiano, [ai-dia], A destreza das d�vidas , crackdown, ContraFactos & Argumentos , ' A Esquina do Rio , Almocreve das Petas, Um prego no sapato, ...bl-g- -x-st-, sorumb�tico, Portuense, ABnose, Portugal dos Pequeninos, Teoria da Suspira��o, A Baixa do Porto, Minha Rica Casinha, Sombra ao Sol, Insustent�vel, Insustent�vel Leveza, Virtualidades , Blogdamarta, Adufe, Tela Abstracta, opinar, Abnegado, Cabo Raso, Bateria da Vit�ria, Foz, Tempo Suspenso, Galo Verde, Navio Negreiro, Entre Pedras, Palavras, Viver Bem na Alta de Lisboa, Faz Tudo, SEDE, Observador Cosmico, Nortadas, Piano, primadesblog, Pura Economia, Impertinencias, Nova Floresta, Acid Junk Food, Prova dos Nove, Quinta do sarga�al, O cacique, Cuidado de Si, My Guide to your Galaxy, no Ideias Dispersas, no Gatochy's blog, no Congeminar-
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: "SURGINDO VEM AO LONGE A NOVA AURORA"


Eis uma vista que um anarquista tomaria como sua.
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es."
(Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-07)

No Blogu�tica. no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspira��o, no A Baixa do Porto, na Minha Rica Casinha, no Sombra ao Sol, no Insustent�vel, na Insustent�vel Leveza, no Virtualidades , no Blogdamarta, no Adufe, na Tela Abstracta, no opinar, no Abnegado, no Cabo Raso, no Bateria da Vit�ria, na Foz, no Tempo Suspenso, no Galo Verde, no Navio Negreiro, no Entre Pedras, Palavras, no Viver Bem na Alta de Lisboa, no Faz Tudo, na SEDE, no Observador Cosmico, no Nortadas, no Piano, no primadesblog, no Pura Economia, no Impertinencias, no Nova Floresta, no Acid Junk Food, no Prova dos Nove, e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. Mostrando uma qualidade rara na blogosfera que � a persist�ncia, n�o deixar cair uma pergunta e um pedido SFF mais que razo�vel, alguns blogues repetiram e v�o repetir enquanto for necess�rio a mesma pergunta.

O Inimigo P�blico tamb�m aderiu ao "mostra!" da micro-causa, e o Ministro das Obras P�blicas respondeu a estas press�es com uma das mais completas colec��es de generalidades e banalidades que viu a luz do dia na imprensa. Se n�o fosse de um ministro, um director de um jornal decente n�o considerava haver qualidade m�nima para publicar o artigo.

V�rios blogues fazem uma pergunta certa: por que � que a comunica��o social, n�o diz uma palavra sobre esta micro-causa, que n�o � preciso ter cursos de jornalismo para saber que � not�cia? "Cinquenta blogues pedem (exigem, imploram, arrasam, etc.) divulga��o na Internet dos estudos da OTA", d� not�cia. "Movimento na blogosfera a favor da divulga��o electr�nica dos estudos da OTA", d� not�cia, mesmo que seja s� na sec��o dos Media. "Blogues exigem pap�is", � um estilo tamb�m conhecido. "Porque � que n�o se divulgam os estudos da OTA?" d� editorial. "Mais transpar�ncia � preciso - reivindicam blogues� tamb�m se admite. Coisas bem menores j� t�m dado not�cia, esta n�o.

H� quem interprete o sil�ncio com a vontade de proteger o governo. Talvez, nalguns casos ser� assim. Mas penso que a melhor resposta � outra, � por corporativismo no pior sentido. Os jornalistas acham que mat�rias deste tipo pertencem-lhes e sentem uma crescente competitividade nos blogues. (Dito isto tenho consci�ncia de que o que escrevo ainda diminui mais a probabilidade de haver not�cias, mas n�o precisam de citar o Abrupto sequer.) E a verdade � que nestes dias de f�rias tem sido nos blogues que tem circulado a melhor informa��o (falo de informa��o, dados, investiga��es fundadas, n�o de boatos) e an�lise de todo o espa�o p�blico sobre o que se est� a passar, e n�o s� sobre a OTA. De gra�a, sem grandes meios, sem redac��es, sem enviados especiais.

No Di�rio da Rep�blica uma s�rie de liga��es sobre o debate da OTA nos blogues, que serve de ilustra��o ao que escrevi acima.
 


COISAS COMPLICADAS


Rick Scott, Fire Glow and Star Trails at Sunset Crater
 


EARLY MORNING BLOGS 569

The Fascination of What's Difficult


The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road-metal. My curse on plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.


(Yeats)

*

Bom dia!

4.8.05
 


PELO QUE VI

o modo como foi tratado o tr�nsito na A1 s� pode ser classificado de neglig�ncia. S� n�o teve piores consequ�ncias, por sorte.

*
uma trag�dia que n�o tem passado na comunica��o social.
desci e subi a A1 com 4 horas de intervalo e a destrui��o parecia a equivalente a um bombardamento de napalm... leiria, pombal e condeixa pareciam um inferno para onde, por vezes, nos apetece lan�ar os rostos mais vis�veis de uma incompet�ncia atroz - ao n�vel da decis�o, bem entendido -, que tem custado muitos hectares a esta nossa babil�nia perdida no d�ficit, na quinta das celebridades e no novo clube de lu�s figo...
� grave que os principais eixos rodovi�rios e ferrovi�rios tenham sido cortados [ou condicionados, como referia a brisa nos seus pain�is electr�nicos, ou a bt-gnr nos seus briefings para a tsf - nota mental: fixar este novo termo mais elegante para corte de estrada, impossibilidade de circula��o ou barreira de fogo e fumo].
� grave a descoordena��o total entre as autoridades de tr�nsito, que, por um lado, deixavam toda a gente passar na A1 at� � zona do pombal onde, era t�o evidente, n�o se podia passar [naquela zona vi dois agentes da bt-gnr] e, por outro, na zona de coimbra, tr�s carros de patrulha em cada sentido bloqueavam o acesso � via r�pida coimbra - figueira, onde o fogo estava a quil�metros de dist�ncia...
mas mais grave era a dimens�o da �rea ardida, a impot�ncia dos bombeiros que esperavam que a auto-estrada servisse de bloqueio ao fogo e as casas, f�bricas e armaz�ns que tinham as chamas em seu redor.
(Rui)
 


POBRE PA�S O NOSSO

N�o estar� na altura de o senhor Primeiro-ministro interromper as f�rias e assumir o seu papel e responsabilidades numa situa��o que o respons�vel da Protec��o Civil classifica de �emerg�ncia�?
 


BASTANTE MAIS GRAVE DO QUE PENSAVA

Mais cedo do que esperava pude ver a gravidade da situa��o dos fogos. Hoje, directamente. Tentei chegar ao Porto e n�o consegui. Entre Santar�m e Pombal, zona em que a A1 foi interrompida, observei dezenas de inc�ndios, alguns muito grandes. Sempre que chegava a um plataforma elevadA, como quando se entra na Serra dos Candeeiros, a toda a volta levantavam-se colunas de inc�ndios, na direc��o de Santar�m, de Leiria. A uma dada altura na A1 havia chamas vivas de um lado e de outro da estrada, ao lado da estrada. N�o eram muito altas, mas atr�s havia grossas colunas de fumo. Bastava uma paragem, e houve v�rias, para se observar um novo inc�ndio, que rapidamente progredia. Nem sempre era mato ou �rvores, o fumo muito negro mostrava que havia outras coisas a arder.

Na estrada, o ambiente era ca�tico, com filas formando-se rapidamente em v�rios quil�metros, e com autotanques com gasolina nas filas. Carros da pol�cia passavam sem se perceber para qu�. Quando a A1 foi finalmente interrompida e a coluna de ve�culos desviada para a estrada Figueira da Foz-Pombal ningu�m sabia dizer nada sobre as alternativas. A Brisa continuava a receber portagens criando um congestionamento perigoso. Quando se chegava � outra estrada percebia-se logo que o mar de chamas e fumo para Norte impedia qualquer passagem, e, se d�vidas havia de que alguma coisa de muito grave se passava, era ver chegar os carros com mulheres e crian�as evacuados das aldeias, desesperadas e em p�nico. Uma rapariga procurava o pai, uma mulher com um beb� ao colo chorava convulsivamente porque a sua casa e a �aldeia� (n�o sei se � verdade, mas era o que dizia) tinha ardido.

Como n�o havia ningu�m nos acessos de entrada � A1 � a pol�cia sem se saber porqu� em vez de estar � entrada dos acessos para impedir o bloqueamento, estava depois das portagens, onde os cami�es que pretendiam entrar j� n�o podiam dar a volta. Percebia-se que os agentes estavam preocupados com as suas terras, as suas fam�lias, a julgar pelas conversas ao telem�vel. Compreende-se, mas havia um ar de caos em tudo.

� preciso acrescentar que esta portagem est� ela pr�pria numa �rea de floresta e o inc�ndio estava demasiado perto. Os sistemas que deviam ajudar a informar os automobilistas n�o serviam para nada. O n�mero da Brisa dava informa��es erradas: os camionistas tinham entrado no acesso � portagem convictos de que se podia seguir para o Norte. Errado. A Antena1, a r�dio cuja sintonia era recomendada em cartazes na A1, pelo menos em dois notici�rios nada dizia de �til e n�o interrompia os seus programas para dar informa��es de tr�nsito. Era surrealista ver o que se estava a passar e o clima de relativa normalidade nos notici�rios, com as not�cias dos inc�ndios cada vez mais estereotipadas e trivializadas.

Fiquei ainda mais convicto que, pelos �rg�os de informa��o, os portugueses n�o tem tido a ideia da gravidade dos inc�ndios este ano. E hoje tenho a certeza que, pelo menos ali, coisas graves se estavam a passar. Espero que n�o. Espero que tenha sido apenas impress�o minha.

Adenda: n�o vi um �nico bombeiro, as pessoas diziam que n�o estavam bombeiros num fogo particularmente violento (Pombal, �s 18 horas). Mas, sublinho, podiam estar noutro local, ou eu n�o os ter visto.

Adenda2: para ver se n�o era injusto com as televis�es, e hoje s�o as televis�es que definem a dramaticidade (ou a import�ncia, o que pode n�o coincidir) dos eventos, e numa observa��o cruzada entre a RTP e a SIC, reconheci o que vi pessoalmente na SIC, mas n�o na RTP. A RTP, na abertura das not�cias, omitiu aquilo que era evidente - o fogo estava a atingir habita��es e f�bricas - enquanto na SIC as imagens davam melhor a dimens�o da destrui��o em curso. N�o sei se depois no decorrer do notici�rio se corrigiu.

Adenda3: (para desenvolver depois) � evidente nestas alturas que o "Portugal feio", ca�tico, desordenado, que atinge o seu cl�max na faixa � volta da antiga EN1, � um claro risco de seguran�a. O modo como casas, f�bricas, sucatas, barrac�es e oficinas se estendem no meio de fragmentos de mata, erva seca, lixo, � explosivo. Esta � a marca dos inc�ndios deste ano.
 


PARECE SILLY SEASON MAS N�O DEVIA PARECER



Quem esteja atento ao que se est� a passar, verifica que se est�o a somar sinais claros de ingovernabilidade, e de declive pol�tico acentuado. Desde os fogos � seca, desde o "mensal�o" �s mudan�as de v�rias administra��es e respons�veis, (e n�o s� na CGD), e suas raz�es conhecidas e obscuras, � sa�da do Ministro das Finan�as, � contesta��o generalizada (muito, muito para al�m da oposi��o) do plano de investimentos do governo, ao modo como est�o a arrancar as presidenciais, � revolu��o que se vai dar na comunica��o social privada, as televis�es em particular, mas onde quest�es de controlo pol�tico v�o ser centrais, tudo aponta para uma reorganiza��o de interesses e poderes que favorece pouco a democraticidade e a transpar�ncia.

Tudo isto nos devia fazer pensar que coisas muito s�rias est�o a acontecer em Portugal, em Agosto, no Ver�o, quando a classe m�dia que pensa que nos governa (quem nos governa � uma classe mais alta, ela pr�pria a sofrer uma usura e uma exposi��o que nunca previu) vai a banhos para o Algarve.

Muitos �rg�os de comunica��o social est�o na silly season, e est�o desatentos, felizmente nem todos. Mas o ambiente � de irresponsabilidade e deixa andar, n�o � de alarme. Ningu�m se alarma em Agosto. Muitos portugueses s�o empurrados para distrac��es mais f�teis, mas isto est� a ficar complicado. Tanto mais complicado quanto a legitimidade e excepcionais condi��es pol�ticas, alcan�adas onde est� a for�a, nos votos, existem como j� n�o havia desde 1991. Ou seja, n�o � nas urnas que se pode procurar meios e respostas. Est� visto que n�o chega.

Os riscos come�am quando se come�a a perceber que nem um governo com todas as condi��es para ser forte, consegue a tarefa de nos "organizar" minimamente para defrontar inc�ndios e esc�ndalos s�rios, estruturais, no �mago do estado e do seu funcionamento, decide ligeiramente e torna-se teimoso no erro, atira ao lado, para tr�s e n�o em frente.
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es."
(Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-07)

No Blogu�tica. no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspira��o, no A Baixa do Porto, na Minha Rica Casinha, no Sombra ao Sol, no Insustent�vel, na Insustent�vel Leveza, no Virtualidades , no Blogdamarta, no Adufe, na Tela Abstracta, no opinar, no Abnegado, no Cabo Raso, no Bateria da Vit�ria, na Foz, no Tempo Suspenso, no Galo Verde, no Navio Negreiro, no Entre Pedras, Palavras, no Viver Bem na Alta de Lisboa, no Faz Tudo, na SEDE, no Observador Cosmico, no Nortadas, e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. Mostrando uma qualidade rara na blogosfera que � a persist�ncia, n�o deixar cair uma pergunta e um pedido SFF mais que razo�vel, alguns blogues repetiram e v�o repetir enquanto for necess�rio a mesma pergunta.

Como ningu�m vai desistir, ver-se-�o os resultados. A n�o ser, como j� h� indica��es s�rias nesse sentido, que n�o haja qualquer estudo a suportar a decis�o governamental excepto os que vieram herdados dos governos anteriores. Estes s�o parciais, n�o est�o actualizados para a situa��o presente (que tem que entrar em conta com vari�veis n�o previstas h� uma d�cada), s�o contradit�rios entre si e n�o apontam explicitamente, e nalguns casos contrariam, os fundamentos t�cnicos para a decis�o governamental.

� evidente que eu n�o confundo o car�cter pol�tico da decis�o, que merece um determinado tipo de debate, com os seus fundamentos t�cnicos. � leg�timo decidir tendo em conta factores estritamente pol�ticos - ideias sobre o desenvolvimento, a regionaliza��o, a interioridade, modelos de crescimento, etc. Mas para fazer um aeroporto num determinado s�tio, � preciso mais. Para gastar tanto da nossa escassa bolsa, � preciso ter garantias de que n�o � dinheiro deitado fora. O que est� aqui em causa s�o as componentes t�cnicas, ou se se quiser, t�cnico-pol�ticas de um investimento t�o vultuoso, sem ponto de retorno. Para isso � preciso conhecer os documentos, os estudos. O sil�ncio incomodado do governo � um p�ssimo sinal.

 


COISAS SIMPLES


Milton Avery, Yellow Still Life
 


EARLY MORNING BLOGS 568

A list of some observation. In a corner, it's warm.
A glance leaves an imprint on anything it's dwelt on.
Water is glass's most public form.
Man is more frightening than its skeleton.
A nowhere winter evening with wine. A black
porch resists an osier's stiff assaults.
Fixed on an elbow, the body bulks
like a glacier's debris, a moraine of sorts.
A millennium hence, they'll no doubt expose
a fossil bivalve propped behind this gauze
cloth, with the print of lips under the print of fringe,
mumbling "Good night" to a window hinge.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!

3.8.05
 


PARA UMA HIST�RIA DA "CULTURA" ENQUANTO INSTRUMENTO DE PROPAGANDA POL�TICA MODERNA

Para voltar a uma quest�o antiga, que j� suscitei v�rias vezes, encontrei nos livros salvos da pasta do papel mais duas interessantes ilustra��es. O meu ponto inicial era que o cerne da pol�tica Malraux - Lang, que � hoje dominante nos Minist�rios da Cultura como o portugu�s, � a utiliza��o da aparente intangibilidade da cultura e da cria��o est�tica, e do seu suposto car�cter meta-pol�tico, como mecanismo ideal de propaganda do Estado, e por cont�gio, do governo.

Nos seus momentos originais, a ideia que o Estado podia ter uma pol�tica de "cultura", ou de "esp�rito", como se dizia, era totalit�ria. Fascistas, nazis e comunistas lan�aram as primeiras pedras.


Nas democracias, esta pol�tica nasceu no lado direito do espectro pol�tico, com Malraux, ministro de De Gaulle, precursor quer da pol�tica de "grandes obras" culturais, quer de consolida��o de uma importante �rea subsidiada de empregos estatais na �rea da cultura. Malraux limpou com espavento os monumentos de Paris, e restaurou-os e enxameou a prov�ncia de Casas da Cultura, criando uma rede nacional e local de "animadores culturais", estabelecendo pela primeira vez, numa democracia ocidental moderna, a �rea da "cultura" como um grande departamento do Estado. A partir de quase nada, criaram-se 22 departamentos regionais de cultura, culminando num poderoso minist�rio. Esse minist�rio, dirigido por um pol�tico de perfil pol�tico elevado, ele pr�prio legitimado como criador pela sua obra romanesca, tornou-se no principal e, sublinhe-se, mais eficaz instrumento de propaganda do "gaullismo".

O modelo Malraux acabou por emigrar para a esquerda, quando a esquerda francesa encontrou um Mitterrand obcecado pela "grandeur", e que tinha como ministro Jacques Lang, que encheu a Fran�a de "grandes obras" monumentais, desde o novo "arco de triunfo", at� � Opera da Bastilha, e � pir�mide de Louvre. Note-se, de passagem, que Lang acentuou os tra�os pol�ticos da actividade da "cultura" do Estado, usando-a como instrumento anti-americano, ao servi�o da peculiar variante francesa de chauvinismo europeu. Da� resultou a "excep��o cultural" francesa, modo pol�tico de defender o papel da ind�stria cultural francesa, contra a "globaliza��o cultural" americana. Foram estas pol�ticas que serviram de modelo a Carrilho (na sequ�ncia de Santana Lopes, que tamb�m se reivindicava de Lang), e ainda hoje s�o o modelo dominante da actividade do Minist�rio da Cultura.





Estes dois livros, ou melhor, um �lbum de fotografias comentado e um folheto, s�o exemplos da genealogia desta quest�o. O �lbum Gli Spettacoli per Il Popolo � uma edi��o de propaganda fascista, com exemplos da pol�tica de fomento das artes pelo Duce. O folheto � uma muito interessante (e actual) defesa do papel da anima��o cultural, de autoria de Humberto d�Avila, publicada em 1957. O autor queixa-se de em Portugal n�o se realizarem �festivais de arte�, cujo interesse �tur�stico-comercial� � valorizado. Quando se fizer uma hist�ria da �cultura� no s�culo XX portugu�s, este ser� um texto pioneiro, com observa��es e anexos (�vila faz um plano de um �festival) que cinquenta anos depois permanecem inteiramente actuais. Valia a pena publica-lo de novo, se tiv�ssemos uma colec��o de fontes de hist�ria das pol�ticas �culturais�.
 


OS NOSSOS RAPAZES E RAPARIGAS NO AFEGANIST�O


Se n�s tiv�ssemos mais respeito por n�s pr�prios, valorizar�amos e muito a miss�o dos militares portugueses que est�o a guardar o Aeroporto de Cabul no Afeganist�o. Boa sorte!
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?
(Actualizado)

"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es."
(Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-07)

No Blogu�tica. no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspira��o, no A Baixa do Porto, na Minha Rica Casinha, no Sombra ao Sol, no Insustent�vel, na Insustent�vel Leveza, no Virtualidades , no Blogdamarta, no Adufe, na Tela Abstracta, no opinar, no Abnegado, no Cabo Raso, no Bateria da Vit�ria, na Foz, no Tempo Suspenso, no Galo Verde, e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. Mostrando uma qualidade rara na blogosfera que � a persist�ncia e o n�o deixar cair uma pergunta e um pedido SFF mais que razo�vel, alguns blogues repetiram e v�o repetir enquanto for necess�rio a mesma pergunta.

At� porque, em breve, haver� mais not�cias e cada dia que passa � pior.
 


BIBLIOFILIA: "INSTRUIR � CONSTRUIR"


Estas Premi�res Le�ons de Fran�ais vieram com os livros salvos da pasta de papel. O dono da biblioteca era um autodidacta de v�rias coisas, com relevo para as l�nguas, e h� centenas de manuais, gram�ticas, dicion�rios de franc�s, ingl�s, alem�o, russo, espanhol, etc.

No pref�cio deste livro, de 1914, est� esta modern�ssima defesa do uso do gramofone no ensino das l�nguas.

 


COISAS SIMPLES / COISAS COMPLICADAS


Piranesi
 


EARLY MORNING BLOGS 567

Cabecinha romana de Milreu

Esta cabe�a evanescente e aguda,
t�o doce no seu ar decapitado,
do Imp�rio portentoso nada tem:
Nos seus olhos vazios n�o se cruzam l�nguas,
na sua boca as legi�es n�o marcham,
na curva do nariz n�o h� os povos
que foram massacrados e tra�dos.
� uma do�ura que contempla a vida,
sabendo como, se poss�vel, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes s�,
a firme frieza da raz�o tranquila.
� uma virtude sonhadora: o escravo
que a possu�a �s horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
al�m de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, n�o pensou nunca
em desviar sobre el' t�o longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o n�o era: o vasto imp�rio
que os deuses todos tornou seus, n�o tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o pr�prio rosto que perdiam. Esta
cabe�a evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ci�ncia
de que nada nos livra de n�s mesmos.

(Jorge de Sena)

*

Bom dia!

1.8.05
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es."
(Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-07)

No Blogu�tica. no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspira��o, no A Baixa do Porto, na Minha Rica Casinha, no Sombra ao Sol, no Insustent�vel, na Insustent�vel Leveza, no Virtualidades e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. Mostrando uma qualidade rara na blogosfera que � a persist�ncia e o n�o deixar cair uma pergunta e um pedido SFF mais que razo�vel, alguns blogues repetiram e v�o repetir enquanto for necess�rio a mesma pergunta.

Ser� que os senhores ministros (Primeiro, Economia, Obras P�blicas) podem ao menos explicar quais as raz�es porque os estudos, alguns estudos, parte dos estudos, os estudos que foram relevantes para a tomada de decis�o, n�o podem ser divulgados? Partindo do pr�ncipio que existem.

Vamos acompanhar a p�gina do Minist�rio da Economia e Inova��o onde ali�s h� um formul�rio de reclama��es, e cujas �ltimas entradas s�o a Nota � Comunica��o Social com a resposta da Direc��o-Geral de Geologia e Energia ao comunicado da Quercus e a Nota � Comunica��o Social relativa � actividade de fiscaliza��o desenvolvida pela IGAE - Inspec��o-Geral das Actividades Econ�micas, no m�s de Junho de 2005. Haver� com certeza informa��es mais �teis para todos para disponibilizar na p�gina.

Saibam os senhores ministros que h� muitos meios ao alcance dos cidad�os para obter os documentos deste tipo, que o seu conhecimento p�blico � uma mera quest�o de bom senso e exig�ncia democr�tica, e por isso tem o apoio de todos, sendo muito f�cil mobilizar as pessoas para esta "micro-causa". Se os senhores ministros est�o preocupados com o custo pol�tico de eles serem conhecidos, pensem bem no custo pol�tico de eles n�o serem conhecidos. pelo menos por suas m�os.

*

Anexo: a pouca transpar�ncia em n�o querer divulgar tudo n�o significa a pouca transpar�ncia de muita gente envolvida no processo , a come�ar por muitos t�cnicos, como me lembra e bem esta mensagem:

N�o sendo apologista de qualquer solu��o em concreto em rela��o ao aeroporto de Lisboa e em rela��o ao TGV, cumpre-me em boa medida corrigir uma ideia que, de tanto lan�ada na opini�o p�blica, cria raiz. Nomeadamente, a ideia de que, pelo menos o projecto da Ota foi realizado sem estudos. Sei que, pelo menos no tempo do Eng. Jo�o Cravinho, a empresa criada para a realiza��o de estudos sobre o novo aeroporto � a NAER, S.A. (e que o bloguista do Portugal Sim s� agora descobre) pelo menos em 1998 realizou um estudo comparativo das localiza��es de Ota e Rio Frio, onde as mesmas foram analisadas sob todos os pontos de vista � capacidade aeron�utica, birdstriking, impactes na economia local e regional, emprego, impactes ambientais sobre a avifauna, etc� Esse processo de consulta p�blica foi dos mais avan�ados na �poca para Portugal, por ter sido inclusivamente a primeira vez que um processo de avalia��o do impacte ambiental (e que inclu�a estudos econ�micos e de mercado) foi utilizado para informar uma decis�o de escolha de localiza��o. Na altura como representante da Quercus, participei em sess�es p�blicas em Alenquer e Pinhal Novo, altamente participadas, com trocas de argumentos dos dois lados. O estudo de impacte ambiental foi tornado p�blico, nos prim�rdios da Internet e ser� acess�vel, julgo, junto do Instituto do Ambiente. O processo pecava, mesmo assim, por alguns defeitos, tais como, a insuficiente informa��o sobre as condi��es de viabiliza��o financeira do projecto. Mas tudo isso esteve em discuss�o. Se agora o digo, � porque sei que houve pessoas, que ainda hoje cumprem o seu dever na Auditoria Ambiental do Minist�rio das Obras P�blicas que, indo muito al�m do que lhes seria exig�vel, pugnaram pelo sucesso da participa��o p�blica nesse processo � tenho presente em particular a Eng. Isabel Guerra. Cada vez que ou�o ou leio que n�o h� informa��o sobre o Aeroporto da Ota ou que os processos s�o �escuros�, sinto de alguma forma que h� pessoas que est�o a ser ofendidas por quem do assunto n�o percebe.

Esclare�o que a Quercus na altura questionou a necessidade do novo aeroporto e conclui, com base nos dados do EIA, pela localiza��o da Ota. Esclare�o tamb�m, porque h� sempre m�s interpreta��es, que n�o tenho nada a haver da Auditoria Ambiental do minist�rio em quest�o.
(Pedro Martins Barata)
*

Come�am agora a vir ao debate p�blico, porque nalguns casos j� eram p�blicas, algumas informa��es que merecem r�pido esclarecimento, como sejam as contidas nesta nota de Jorge Palinhos no Bloque de Esquerda. Esta nota e muitas outras que est�o a parecer s� acentuam a necessidade de tudo o que h� para esclarecer ser esclarecido, o mais depressa poss�vel. Digo isto, sem suspeita, e sem esquecer que o esclarecimento total implica v�rios governos, do PS e do PSD.
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota COLECCIONADOR DE EFEMERA: FRAGMENTOS DE PORTUGAL NO SEU MELHOR.
 


COISAS SIMPLES


Prato de porcelana de Delft com o cometa Halley, 1910
 


EARLY MORNING BLOGS 566

Oh! como se me alonga, de ano em ano

Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrina��o cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e v�o discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um rem�dio, que inda tinha;
se por experi�ncia se adivinha,
qualquer grande esperan�a � grande engano.

Corro ap�s este bem que n�o se alcan�a;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confian�a.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardan�a,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde e da esperan�a.


(Lu�s de Cam�es)

*

Bom dia!

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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