ABRUPTO

31.7.05
 


COISAS DA S�BADO

UM OLHAR �NICO

H� j� algum tempo li um coment�rio num blogue muito de direita sobre o esc�ndalo que seria haver um Museu do Neo-Realismo. Para al�m do facto, evidentemente desprez�vel, de terras como Vila Franca de Xira terem constru�do muita da sua identidade na imagem que delas deram os autores e a mundivid�ncia do neo-realismo, ou, se quiserem, da condi��o oper�ria, ou mesmo da experi�ncia do comunismo, (no caso de Vila Franca de Xira, comunismo mais touros) e que por isso seja natural ter um Museu do dito, o que pesava nesse coment�rio era muita ignor�ncia e a displic�ncia que essa ignor�ncia d� � pol�tica transformada em an�tema..

A maioria da nossa poesia, fic��o, pintura, etc, neo-realista � m�, como � m� a maioria da nossa escrita rom�ntica, o nosso teatro em geral, a nossa m�sica nacionalista, por a� adiante. Sobre a qualidade e os dilemas est�ticos do neo-realismo portugu�s escreveu melhor do que ningu�m e no tempo certo, insisto no tempo certo, Eduardo Louren�o.

Mas n�o � esse o ponto. O ponto � soberbamente demonstrado pela not�vel s�rie televisiva que tem passado na 2, em que Scorsese, um realizador ianque de Hollywood, t�o naturalmente anticomunista que n�o precisa de o enunciar, fala do cinema neo-realista italiano, com um "afecto" que deixaria possessos os nossos sect�rios pol�ticos. O ponto � que h� no neo-realismo, portugu�s tamb�m, um olhar �nico, um momento de revela��o de um Portugal real em que a maioria dos portugueses viviam, mas que n�o existia para o Portugal nacionalista. N�o existia e pelos vistos n�o existe. Se n�o tivesse encontrado o olhar de Pomar, ou de Carlos de Oliveira, ou de Lopes Gra�a, olhar esse muito para l� dos c�nones estreitos da est�tica oficial do pr�prio neo-realismo, n�o existiria. Como os pescadores da A Terra Treme de Visconti ou os "in�teis" de Fellini, ou os derrotados alem�es da Alemanha, Ano Zero de Rossellini.
 


OUVINDO JIM REEVES


Put your sweet lips a little closer to the phone
Let's pretend that we're together all alone.
I'll tell the man to turn the jukebox way down low.
And you can tell your friend there with you, he'll have to go.

Whisper to me, tell me do you love me true
Or is he holding you the way I do.
Though love is blind, make up your mind
I've got to know.
Should I hang up or will you tell him he'll have to go.

You can't say the words I want to hear
While you're with another man
Do you want me answer yes or no
Darlin' I will understand.

Put your sweet lips a little closer to the phone
Let's pretend that we're together all alone.
I'll tell the man to turn the jukebox way down low.
And you can tell your friend there with you, he'll have to go.
 


COISAS SIMPLES


Robert Morris, Canvas Back
 


EARLY MORNING BLOGS 565

Reginaldo

- �Reginaldo, Reginaldo,
Pajem de el-rei t�o querido,
N�o sei porque, Reginaldo,
Te chamam o atrevido.�
- �Porque me atrevi, senhora,
A querer o defendido.�
- �N�o foras tu t�o cobarde
Que j� dormiras comigo.�
- �Senhora zombais de mim
Porque sou vosso cativo.�
- �Eu n�o no digo zombando,
Que deveras te lo digo.�
- �Pois quando quereis, infanta,
Que v� pelo prometido?�
- �Entre las dez e las onze
Que el-rei n�o seja sentido.�
Inda n�o era sol-posto,
Reginaldo adormecido;
As dez n�o eram bem dadas,
Reginaldo j� erguido.
Cal�ou sapato de pano,
Que de el-rei n�o fosse ouvido,
Foi-se � c�mara da infanta,
Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido.
- �Quem suspira a essa porta,
Quem ser� o atrevido?�
- �� Reginaldo, senhora,
Que vem pelo prometido.�
- �Levantai-vos minhas aias,
Que assim Deus vos d� marido!
E ide abrir mansinho a porta
Que el-rei n�o seja sentido.�
Vela o pajem toda a noite...
Por manh� � adormecido;
Chamava o rei que chamava
Que lhe desse o seu vestido:
- �Reginaldo n�o responde,
Alguma tem sucedido!
Ou est� morto o meu pajem
Ou grande trai��o h� sido.�
Responderam os vassalos
Que tudo tinham sentido:
- �Morto n�o � Reginaldo,
De sono estar� perdido.�

Vestiu-se el-rei muito � pressa,
E leva um punhal consigo.
Vai correndo sala e sala,
Abrindo porta e postigo,
Chega ao camarim da infanta,
Entrou sem fazer ru�do.
Dormiam t�o sossegados
Como mulher e marido.
De nada do que se passava
De nada davam sentido.
Acudiram os vassalos,
Que viram a el-rei perdido:
- �Nunca Vossa Magestade
Mate um homem adormecido.�
Tira el-rei seu punhal de oiro,
Deixa-o entre os dois metido,
O cabo para a princesa,
Para Reginaldo o bico.
Ia-se a virar o pajem,
Sentiu cortar-se no fio:
- �Acorda j�, bela infanta,
Triste sono tens dormido!
Olha o punhal de teu pai
Que entre n�s est� metido.�
- �Cal'te da�, Reginaldo,
N�o sejas t�o dolorido;
Vai j� deitar-te a seus p�s,
Que el-rei � bom e sofrido.
Para o mal que temos feito
N�o h� sen�o um castigo;
Mas se el-rei mandar matar-te,
Eu hei-de morrer contigo.�
- �Donde vens, � Reginaldo?�
- �Senhor, de ca�ar sou vindo.�
- �Que � da ca�a que ca�aste,
Reginaldo o atrevido?�
- �Senhor rei, da ca�a venho,
Mas n�o a trago comigo;
Que o trazer ca�a real
A vassalo � defendido.
S� vos trago uma cabe�a,
A minha: dai-lhe o castigo.�
- �Tua senten�a est� dada,
Morrer�s por atrevido.�
Vedes ora o bom do rei
Dando voltas ao sentido:
- �Se mato a bela infanta,
Fica o meu reino perdido...
Para matar Reginaldo,
Criei-o de pequenino...
Met�-lo-ei numa torre
Por princ�pio de castigo.
- �Dizei-me v�s, meus vassalos,
Pois tudo tendes ouvido,
Que mais justi�a faremos
Neste pajem atrevido?�
Respondem os condes todos,
E muito bem respondido:
- �Pajem de rei que tal faz,
Tem a cabe�a perdido.�

J� o metem numa torre,
J� o v�o encarcerar.
Mas ano e dia � passado,
E a senten�a por dar.
Veio a m�e de Reginaldo
O seu filho a visitar:
- �Filho, quando te pari
Com tanta dor e pesar,
Era um dia como este,
Teu pai estava a expirar.
Eu coas l�grimas nos olhos,
Filho, te estava a lavar;
Cabelos desta cabe�a
Com eles te fui limpar.
E teu pai j� na agonia,
Que me estava a encomendar:
Enquanto fosses pequeno
De bom ensino te dar,
E depois que fosses grande
A bom senhor te entregar.
Ai de mim, triste vi�va,
Que te n�o soube criar!
A el-rei te dei por amo,
Que melhor n�o pude achar:
Tu vais dormir coa infanta
De teu senhor natural!
Perdeste a cabe�a, filho,
Que el-rei ta manda cortar!...
Ai! meu filho, antes que morras,
Quero ouvir o teu cantar.�
- �Como hei-de cantar, mi madre,
Se me sinto j� finar?�
- �Canta, meu filhinho canta,
Para haver minha b�n��o,
Que me estou lembrando agora
De teu pai nesta pris�o.
Canta-me o que ele cantava
Na noite de S�o Jo�o;
Que tantas vezes mo ouviste
Cantar co meu cora��o.�

- �Um dia antes do dia
Que � dia de S�o Jo�o,
Me encerraram nestas grades
Para fazer pena��o.
E aqui estou, pobre coitado,
Metido nesta pris�o,
Que n�o sei onde o Sol nasce,
Quando a Lua faz ser�o.�
De suas varandas altas
El-rei andava a escutar;
J� se vai onde a princesa,
Pela m�o a foi buscar:
- �Anda ouvir, � minha filha,
Este t�o lindo cantar,
Que ou s�o os anjos no C�u,
Ou as sereias no mar.�
- �N�o s�o os anjos no C�u,
Nem as sereias no mar,
Mas o triste sem-ventura
A quem mandais degolar.�
- �Pois j� revogo a senten�a,
E j� o mando soltar;
Prende-o tu, infanta, agora,
Pois contigo h�-de casar.�

(Almeida Garrett)

*
Bom dia!

30.7.05
 


NATUREZA MORTA DE NOITE COM VENTO

� esquerda, pela primeira vez um espa�o vazio. Havia as folhas de um cap�tulo de um livro, mas est�o a ser corrigidas noutro s�tio. Ficou um vazio inabit�vel, arrumado. Quase arrumado. Por baixo, havia pouca coisa: um post-it com uma morada, duas agendas antigas que vieram num esp�lio. Uma de 1967 est� vazia e com excep��o da assinatura do dono n�o parece ter nada escrita. Na capa diz licores Mala Posta.

A outra � vermelha e tem um nome estranho: �Agenda Quadrimensal de Medicina Internacional� e � de 1931. N�o sei como foi parar a este esp�lio em que n�o encaixa. Encontrei-a no ch�o, entre recortes quase a desfazerem-se e revistas Sinal. Na agenda, escritas em tinta castanha e numa letra muito pequena est�o n�meros de telefone, recados, datas. Uma agenda de um m�dico? Talvez. Entre os nomes, quase todos os grandes m�dicos portugueses. Todos mortos. Uma tesoura, um agrafador, uma lupa, cinco zips, uma m�quina fotogr�fica, tr�s canetas. Um ecr� com este texto. Um espelho c�ncavo. Um azulejo de Delft. Uma m�o. Duas m�os. Um rato sobre azul. Mais simplicidade do que o costume. Menos caos. Um ramo de flores secas. Um ponto de luz que brilha ao longe. Mais um Agosto, o m�s menos interessante. Vento.
 


INTEND�NCIA

Actualiza��o dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Actualizado
MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MAIS UM! MAIS UM!


planeta da nossa fam�lia pr�xima.
 


DOIS SUPLEMENTOS LITER�RIOS

� mem�ria de O Com�rcio do Porto

Os materiais preciosos que est�o dispersos, esquecidos e ignorados nos Suplementos Culturais dos jornais di�rios, dariam uma luz nova � nossa t�o ignorada hist�ria cultural do s�culo XX. Eu cresci com eles e � hoje dif�cil perceber a ansiedade com que se esperava em cada n�mero a continua��o de uma pol�mica, ou um outro artigo de uma s�rie, ou uma cr�tica de um autor que se lia sempre. Nas caracter�sticas de um mundo dominado pela censura, eram uma das raras formas vivas de acompanhar o que se passava e ter uma actualiza��o quanto a ideias, livros, autores e pintores. Esses suplementos eram exigentes quanto �s colabora��es e os textos publicados eram de grande qualidade. Um verdadeiro �quem � quem� da nossa cultura por l� passou.

Eu lia regularmente (e coleccionava, ainda os tenho) os Suplementos do Di�rio de Lisboa, do Di�rio Popular, e no Porto, os de O Com�rcio do Porto e do Primeiro de Janeiro. No dia em que acaba O Com�rcio do Porto, recordo o seu suplemento cultural, parcialmente editado em v�rios volumes sob o t�tulo de Estrada Larga, dirigido por Costa Barreto, uma daquelas personagens que n�o merecia o esquecimento. Nele colaborei em parceria com �scar Lopes, uma semana um, uma semana outro, fazendo �cr�tica� fugaz a v�rios ensaios de hist�ria, filosofia, e �ideias�. Depois, a censura e a vida atribulada levaram-me a romper essa colabora��o, como tamb�m a do Jornal de Not�cias. O que eu queria dizer, era imposs�vel j� escrev�-lo.

Os Suplementos do Porto, em particular os do Com�rcio e do Janeiro, est�o cheios de excelentes cr�ticas, notas, artigos, o do Com�rcio excessivamente sisudo com a sua pagina��o antiga, as letras g�ticas a pesarem. O do Janeiro era pelo contr�rio alegre, com uma rara mancha de cor amarela e vermelha nos jornais de ent�o. Os dois jornais eram pilares da burguesia ilustrada do Porto, a �nica em Portugal que parecia vir das p�ginas da ��tica protestante� de Weber

Sem O Com�rcio do Porto, o Porto � menos Porto.

*

(Para se ter uma ideia do que foi o jornal vejam-se estas fotos no Vilacondense,)
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

No Blogu�tica. no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, no ABnose, no Portugal dos Pequeninos, no Teoria da Suspira��o, no A Baixa do Porto, e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. Algu�m informe os senhores ministros, Primeiro-ministro, da Economia e das Obras P�blicas, que estes blogues s�o, no seu conjunto, mais lidos do que alguns jornais, e que mais cedo do que tarde, o mesmo pedido SFF chegar� aos jornais, porque os movimentos na blogosfera s�o not�cia, e porque � da mais l�mpida exig�ncia democr�tica saber quais os fundamentos de t�o importantes decis�es.

Acresce que o pedido est� longe de ser apenas para os documentos eventualmente produzidos por este governo, mas tamb�m para os anteriores, porque o melhor � mesmo conhecer o processo de decis�o ou de n�o-decis�o, completo. Torno a lembrar que n�o concebo que estes documentos n�o estejam a n�o ser em suportes digitais, pelo que a sua coloca��o em linha pode ser quase imediata, nas boas pr�ticas de uma administra��o aberta.

Tamb�m � �til saber se h� raz�es para que os documentos n�o sejam divulgados. Dou o benef�cio da d�vida, mas gostava de as conhecer, e esse � o esclarecimento m�nimo que � ex�givel.

Por �ltimo, o Abrupto n�o � o s�tio ideal para se discutirem as raz�es t�cnicas sobre a OTA (e outros investimentos como o TGV, Sines, etc.). Existem j� blogues com essa inten��o, tomando partido na quest�o, e , a julgar pelas sugest�es de leitores como Rog�rio Paulo Matos do Insustent�vel, outros surgir�o.

*

Um documento , entre muitos, j� dispon�vel, de autoria de Miguel Geraldes Cardoso:
Em 2003 foi posta a Consulta P�blica um documento de impacto ambiental do aeroporto aos mun�cipes do Concelho de Alenquer. Como engenheiro tinha estado no grupo de trabalho de estudo pr�vio do aeroporto e respondi � Consulta, resposta que anexo ( aeroporto.DOC.) A resposta � datada mas talvez tenha interesse.
*

Alguns estudos que j� est�o em linha referenciados aqui.
 


COISAS COMPLICADAS


Lucian Freud, The Egyptian Book
 


EARLY MORNING BLOGS 564

Portugal


� Portugal, se fosses s� tr�s s�labas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinha�o da terra,
surdo e miudinho,
moinho a bra�os com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses s� o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestan�tidos,
se fosses s� a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento c�o asm�tico das praias,
o grilo engaiolado, a grila no l�bio,
o calend�rio na parede, o emblema na lapela,
� Portugal, se fosses s� tr�s s�labas
de pl�stico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Goleg�,
n�o h� �papo-de-anjo� que seja o meu derri�o,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cacha�o.
Portugal: quest�o que eu tenho comigo mesmo,
golpe at� ao osso, fome sem entret�m,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos n�s...


(Alexandre O'Neill)

*

Bom dia!

29.7.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: �GUA, �GUA, �GUA EM MARTE


(Vale a pena alargar a imagem aqui.)

Ainda iremos l� bebe-la. Fresca e pura. Quando c� faltar. J� n�o falta muito.
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

No Blogu�tica.no Blasf�mias , no Ciberjus , no Von Freud , na Grande Loja do Queijo Limiano, no [ai-dia], no A destreza das d�vidas , no crackdown, no ContraFactos & Argumentos , n' A Esquina do Rio , no Almocreve das Petas, no Um prego no sapato, no ...bl-g- -x-st-, no sorumb�tico, no Portuense, e noutros que n�o pude recensear, tamb�m se apoia esta divulga��o. A causa � micro, mas � mais que justa e n�o pode ser considerada "contra" o governo. Bem pelo contr�rio, se o fizer, e podermos perceber melhor como se formou a decis�o do governo nos seus aspectos t�cnicos, este sai refor�ado.

O Ministro da Economia, que acompanha a blogosfera, tem aqui uma oportunidade para concretizar um dos aspectos desej�veis do "plano tecnol�gico": uma melhor democracia, mais esclarecida, usando as possibilidades de audi�ncia, acessibilidade e livre an�lise da rede.
 


MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A �BUSCA DE SOLU��ES� EM DETRIMENTO DA �ESPECULA��O�?

"Respeito muito os signat�rios, mas h� sociedades que valorizam mais a especula��o e a an�lise, enquanto outras valorizam mais a busca de solu��es." (Manuel Pinho, Di�rio Econ�mico, 28-07-07)

Todos n�s ficar�amos mais informados e poder�amos discutir melhor, aceitando inclusive as raz�es do governo para t�o vultuoso e controverso investimento. N�o h� nada a temer pois n�o? N�o h� segredos de estado, pois n�o? N�o h� raz�es para n�o se conhecerem, pois n�o? At� j� deviam estar na rede. Eles devem estar feitos em suporte digital, � suposto. Por isso, ainda hoje podem ficar em linha, ou este fim-de-semana. N�o h� raz�es para demora.

Sugiro tamb�m, para no governo se ouvir melhor, que outros blogues e mesmo os meios de comunica��o social possam todos os dias repetir a pergunta, o pedido, at� ele ter a �nica resposta razo�vel. SFF.
 


COLECCIONADOR DE EFEMERA:
FRAGMENTOS DE PORTUGAL NO SEU MELHOR


A esperan�a em estado impuro. As longas filas sovi�ticas nas tabacarias para entregar os papelinhos para ganhar o Euromilh�es. Sofrimento do comprador dos jornais.



A vingan�a em estado puro. O tanque dos piranhas do Circo Cardinale onde �uma jovem mergulhadora dar� de comer carne crua aos terr�veis peixes piranhas�. Cuidado, inimigos do Circo Cardinale!



A simplicidade em estado puro. Uma das partes da �palavra� que penso ter sempre percebido bem � a da �simplicidade� que leva ao Reino dos C�us. Mas ainda me espanto quando a vejo em acto, quando algu�m me chama para saber qual � o �plano de Deus para a tua vida� e o faz a s�rio. A s�rio, mesmo, e com estacionamento gratuito.

(Continua)

*

Relativamente ao texto �FRAGMENTOS DE PORTUGAL NO SEU MELHOR�, mais precisamente no que se refere ao euromilh�es: sabe o que � que o bi�logo franc�s Albert Jacquard chama a este tipo de coisas? Imposto sobre o desespero.
(Jos� Carlos Santos)
*

Tomando como referencial da mensagem acerca de um Culto Evang�lico, um folheto de convite, JPP viu o �invis�vel� � que � do dom�nio da F� . A simplicidade em estado puro. E muito bem fez um coment�rio �hermen�utico� sobre a dita simplicidade que leva ao Reino dos C�us. E � verdade. Foi o pr�prio Senhor Jesus Cristo que o afirmou.
Relativamente ainda ao evento anunciado no folheto �Est� Convidado�, uma nota apenas. Trata-se de um convite para assistir ao Culto Evang�lico de domingo � tarde na Assembleia de Deus do Funchal. Na Madeira, afinal, n�o h� d�fice democr�tico em rela��o aos Evang�licos, eles n�o s�o com certeza considerados pr�ximos dos �talibans�, nem dos �fundamentalistas� que em nome de um �cone isl�mico ( n�o de Deus ou de All�) espalham o terror. Nunca ouvi o Alberto dizer isso, mas j� ouvi o M�rio diz�-lo. Por isso receio que se o M�rio ganhar as presidenciais, folhetos como aquele possam estar sob suspeita.
(Jo�o Tomaz Parreira)
 


COISAS SIMPLES / COISAS COMPLICADAS


Nan Goldin, Twilight at the Arena (Arles)
 


CANDIDATOS PRESIDENCIAIS E FUN��O PRESIDENCIAL

(Artigo do P�blico de ontem.)

Quando soube que M�rio Soares se preparava para ser candidato presidencial, a not�cia surpreendeu-me. N�o devia. V�rias vezes perguntado, durante o per�odo de activismo anti-Bush mais agudo de Soares, sobre se �ser� que ele quer mesmo ser Presidente outra vez?�, eu respondia qualquer coisa como isto: �se achar que pode ter um papel decisivo, como seja tirar agora a GNR do Iraque, ele concorre de certeza�. Agora vejo que me enganei n�o na possibilidade mas sim no �decisivo�. Ou seja, Soares concorre n�o porque haja qualquer coisa �decisiva� que justifique a sua candidatura, mas para servir uma vontade de poder e pretens�es intervencionistas, que deviam incomodar em primeiro lugar S�crates e o seu governo.

Soares concorre porque n�o lhe passa pela cabe�a qualquer partilha do poder socialista. Ele � um homem de partido, com uma cultura jacobina do poder, quer no estado, quer no partido, e pouco prop�cio a partilha-la com quem acha que n�o � da fam�lia ou da tribo. Nesta puls�o reconhece-se o mesmo Soares que empurrou o grupo socialista do Parlamento Europeu para uma estrat�gia do �tudo ou nada�, e que o levou ao �nada�. Depois, quando perdeu, chamou com despeito �dona de casa� � sua concorrente, que ainda por cima era uma mulher. O mesmo tipo de atitude existe para um Cavaco que ele achar� sempre que � um parvenu na �sua� democracia. Para ele seria uma quase afronta que Cavaco fosse Presidente, no lugar que foi o seu, e �mandasse� no PS. Irritava-o o que achava ser uma complac�ncia dos socialistas perante a inevitabilidade de Cavaco. Convenceu-se que s� ele o pode impedir, e n�o desdenha mostrar essa capacidade salv�fica combatendo para o evitar, o que ali�s � m�rito seu, porque combativo ser� sempre.

Mas, se este factor, quase de repulsa por poder ter um estranho na �sua� casa, o motiva, ainda mais o motiva poder p�r na ordem o PS e encaminha-lo para uma esquerda mais radical, �social� no sentido anti-capitalista, anti-globalizadora, anti-americana e gaullista-europeista extremada, que � o n�cleo duro do seu pensamento actual. Ironicamente, para quem meteu o socialismo na �gaveta�, o seu pensamento econ�mico, ou melhor, a sua ideologia econ�mica, � hoje claramente anti capitalista e o apoio que d� aos movimentos anti-globaliza��o, simbolizados no f�rum de Porto Alegre, e que representam hoje o �socialismo terceiro-mundista� que combateu no passado, tem poucas nuances. Soares � hostil �s pol�ticas de liberaliza��o da OMC, combateria aquilo a que chama �capitalismo selvagem� e a �domina��o� do globo pelo �pensamento �nico�, pelo �neo-liberalismo�, ou seja, a mundializa��o da economia de mercado que o fim do �socialismo real� permitiu.

Soares apoiaria um eixo Paris-Berlim-Moscovo e deseja uma Europa federada, uns Estados Unidos da Europa mesmo que sem este nome, uma Europa que se dotasse dos meios de defesa e interven��o que lhe dessem capacidade para se medir com a super pot�ncia americana. O seu ideal seria uma Europa armada que substituiria o lugar da URSS como a outra super pot�ncia, e com uma pol�tica externa essencialmente de conten��o anti-americana. Faria tudo para combater o �imp�rio�, ou seja os EUA, e para o isolar e condenar sob todas as formas nas institui��es internacionais, apoiaria a retirada imediata ou quase das tropas da coliga��o e da NATO do Afeganist�o e no Iraque. Por a� adiante.

Ora, quem tem este programa em Portugal � o Bloco de Esquerda e n�o o PS e se isso n�o soa o alarme no governo, � porque perderam qualquer capacidade anal�tica e n�o t�m ouvido e lido M�rio Soares nos �ltimos anos. Nestes anos, Soares n�o tem feito outra coisa que n�o seja tentar influenciar o PS com todos os meios ao seu alcance. Apoiou a candidatura de Jo�o Soares, elogiou Alegre, atacou Guterres, Gama e S�crates, manifestou m�ltiplas vezes o seu descontentamento com todas as pol�ticas seguidas que lhe pareciam ir noutro sentido diferente do seu. Os elogios ao BE n�o foram circunstanciais, mas substantivos. N�o � conceb�vel, a n�o ser por fraqueza ou por m� f�, a convic��o da derrota de Soares, que S�crates n�o tema um Soares intervencionista, como o ser� mais que nunca, na Presid�ncia.

Contrariamente ao que se ouve por a�, penso que a candidatura de M�rio Soares � uma boa not�cia para Cavaco Silva, saiba este e os seus perceberem que a dicotomia que a candidatura do PS suscita � a da estabilidade / instabilidade. Cavaco Silva pode ser, de forma bem mais cred�vel, o referencial de estabilidade para a Presid�ncia que Soares n�o ser�. Para o ser n�o precisa de abdicar nem de um �tomo, do seu pensamento sobre a fun��o presidencial, formado exactamente em resposta ao intervencionismo de Soares. Quando Soares, no seu segundo mandato, se comportou como Eanes, fazendo tudo para derrubar o governo e para criar um ambiente de usura e hostilidade, Cavaco reagiu falando de �for�as de bloqueio�. A express�o tinha ambiguidades, mas a verdade � que tudo aquilo que na altura o PSD apontou como �for�as de bloqueio� veio mais tarde a ser entendido por todos, a come�ar pelo PS e pelos seus governos, como sendo de facto �for�as de bloqueio�, embora nunca as nomeando como tal.

Cavaco Silva, sendo o primeiro a governar Portugal com um governo de maioria, e pelo seu perfil executivo, desenvolveu uma compreens�o dos problemas de governabilidade de que ele foi sempre um defensor activo, contra as cont�nuas perturba��es que Soares instigava todos os dias. A sua frase, �s vezes incompreendida e mal interpretada, de que a ganhar as elei��es preferia que um partido qualquer, o PS inclusive, o fizesse com maioria absoluta, vai nesse sentido. Ele sempre defendeu governos de maioria parlamentar, que cumprissem os tempos plenos do seu mandato e que pudessem, no respeito da lei e das institui��es equilibradoras, cumprir os seus programas eleitorais. Num momento de crise econ�mica e social como o que atravessamos, ser� sempre avesso a introduzir factores de perturba��o, mesmo que n�o concorde com as pol�ticas do governo socialista. Ele sabe, melhor do que ningu�m e certamente melhor do que Soares, que nesse teste j� chumbou, que na Presid�ncia n�o se governa.
Duvido que o seu pensamento quanto ao exerc�cio das fun��es presidenciais seja diferente destas suas posi��es no passado, e que as suas posturas mais recentes s� o confirmam. Se tivermos Soares versus Cavaco, ser� este o dilema central das elei��es.
 


EARLY MORNING BLOGS 563

Table de sagesse



Pierre cach�e dans les broussailles, mang�e de limon, profan�e de fientes, assaillie par les vers et les mouches, inconnue de ceux qui vont vite, m�pris�e de qui s'arr�te l�,

Pierre �lev�e � l'honneur de ce Mod�le des Sages, que le Prince fit chercher partout sur la foi d'un r�ve, mais qu'on ne d�couvrit nulle part

Sauf en ce lieu, s�jour des malfaisants : (fils oublieux, sujets rebelles, insulteurs � toute vertu)

Parmi lesquels il habitait modestement afin de mieux cacher la sienne.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

28.7.05
 


COISAS COMPLICADAS


Andr� Kert�sz, Pra�a Bocskay, Budapeste
 


EARLY MORNING BLOGS 562

Qual � mesmo a palavra secreta? N�o sei � porque a ouso? N�o sei porque n�o ouso diz�-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que n�o pode e n�o deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto n�o � proibido. Mas acontece que eu quero � exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou ser�? Se eu encontrar essa palavra, s� a direi em boca fechada, para mim mesma, sen�o corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras � que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente n�o h� palavras.


(Clarice Lispector)

*

Bom dia!

27.7.05
 


COISAS SIMPLES


Georgia O'Keeffe, Barn Rooftops
 


EARLY MORNING BLOGS 561

Scrambled Eggs and Whiskey

Scrambled eggs and whiskey
in the false-dawn light. Chicago,
a sweet town, bleak, God knows,
but sweet. Sometimes. And
weren't we fine tonight?
When Hank set up that limping
treble roll behind me
my horn just growled and I
thought my heart would burst.
And Brad M. pressing with the
soft stick and Joe-Anne
singing low. Here we are now
in the White Tower, leaning
on one another, too tired
to go home. But don't say a word,
don't tell a soul, they wouldn't
understand, they couldn't, never
in a million years, how fine,
how magnificent we were
in that old club tonight.

(Hayden Carruth)

*

Bom dia!

26.7.05
 


CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS - A IDADE

O mais est�pido dos argumentos contra Soares � a idade (ser� que a apologia publicit�ria e medi�tica da juventude nos faz esquecer que vivemos numa sociedade de velhos?). N�o � a idade, � a pol�tica!
 


LENDO OS JORNAIS: FINALMENTE SEI O QUE � A SOCIEDADE CIVIL

Segundo o P�blico, que consultou a dita "sociedade", esta � constitu�da por: Pedro Abrunhosa, a piloto todo-terreno Elisabete Jacinto, o fadista Caman�, a professora Eduarda Dion�sio, Eduardo Prado Coelho, Margarida Martins, Presidente da Abra�o, L�cia Sigalho, actriz, Pedro Mexia, publicista, Lu�s Represas, cantor e compositor, Juli�o Sarmento, pintor, Sobrinho Sim�es, m�dico e professor, Joaquim Gomes, director da Volta.
 


COISAS SIMPLES


Nobuyoshi Araki
 


EARLY MORNING BLOGS 560

MONSTRUOS


Qu� verg�enza
carezco de monstruos interiores
no fumo en pipa frente al horizonte
en todo caso creo que mis hueso
son importantes para m� y mi sombra
los s�bados de noche me lleno de coraje
mi nariz qu� verg�enza no es como la de Goethe
no puedo arrepentirme de mi melancol�a
y olvido casi siempre que el suicidio es gratuito
qu� verg�enza me encantan las mujeres
sobre todo si son consecuentes y flacas
y no confunden sed con paroxismo
qu� verg�enza diosm�o no me gusta Ionesco
sin embargo estoy falto de monstruos interiores
quisiera prometer como Dios manda
y vacilar como la gente en prosa
qu� verg�enza en las tardes qu� verg�enza
en las tardes m�s oscuras de invierno
me gusta acomodarme en la ventana
ver c�mo corre la llovizna corre a mis acreedores
y ponerme a esperar quiz�s a esperarte
tal como si la muerte fuera una falsa alarma.

(Mario Benedetti)

*

Bom dia!

25.7.05
 


INTEND�NCIA

Alimente o ge�grafo que h� em si, na actualiza��o da nota BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O SOM DE SATURNO



O som de Saturno pode ser ouvido aqui. N�o � s� c� que as coisas andam estranhas.
 


CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS � ALGUMAS OBSERVA��ES

Este vosso autor foi o �ltimo a confrontar eleitoralmente M�rio Soares, nas elei��es europeias de 1999. N�o serve de argumento de autoridade, mas talvez convenha lembrar que, quando Soares anunciou a candidatura, se previu um cataclismo para o PSD. Marcelo Rebelo de Sousa tinha iniciado uma AD com Paulo Portas e tinha escolhido Leonor Beleza para estar � frente da lista das europeias.

Depois tudo mudou, rompeu-se a coliga��o, Marcelo foi-se embora e fui eu o candidato contra Soares, quando as sondagens davam 18% ao PSD mais o PP e uma mais que maioria absoluta a Soares. O PP avan�ou com Paulo Portas na sua fase mais radical da palmeta e da p�ra-rocha. Soares esgrimiu na campanha a sua quase inevit�vel ascens�o � Presid�ncia do Parlamento Europeu, e apelou a que os portugueses votassem no �Presidente� do Parlamento Europeu.

No fim, o PS ganhou, mas se houve �efeito Soares� como toda a gente antecipava, foi no roubar de votos e deputados ao PP e ao PCP, porque ao PSD n�o tirou nenhum. O PSD manteve o mesmo n�mero de deputados e esta foi a �nica elei��o, entre v�rias nesses anos guterristas, em que o PSD n�o perdeu nem lugares, nem posi��es. A seguir M�rio Soares empurrou o grupo socialista do Parlamento Europeu para uma estrat�gia suicid�ria de ou tudo ou nada, que conduziu ao nada.

Digo isto para lembrar que serei certamente o �ltimo a �aterrorizar-me� (rid�cula express�o) com a candidatura de M�rio Soares.

Acrescento que fiz parte do MASP I e II, ou seja que apoiei sempre as candidaturas presidenciais de M�rio Soares e h� para mim uma diferen�a essencial entre essas candidaturas e a actual: Soares est� hoje longe de ser um candidato que mobilize o mesmo espa�o pol�tico das suas anteriores candidaturas. Se quisermos utilizar os posicionamentos cl�ssicos, Soares ia buscar votos essencialmente ao centro-esquerda e ao centro-direita e tinha dificuldades entre os comunistas e na direita. Tinha ali�s mesmo dificuldades no PS, que s� por arrastamento apoiou a candidatura na segunda volta de 1986. Hoje Soares tem mais entusiasmos no BE e nos sectores mais � esquerda do PS (embora Soares se tenha portado mal nestes dias com Alegre), do que no pr�prio eleitorado moderado do PS.

Quando vierem para cima da mesa as posi��es ultra-radicais de Soares, expressas nos �ltimos anos, em directa contradi��o com as posi��es do PS, perceber-se-� porque raz�o digo que Soares � a certeza, insisto, a certeza, da instabilidade pol�tica para o governo actual. N�o � s� a natureza das posi��es de Soares, � o dogmatismo e a irritabilidade com que as defende. Soares na Presid�ncia n�o actuar� contra o PS, porque tem uma cultura jacobina de partido, mas ser� frontalmente contra �este� PS. S� n�o v� quem n�o quer ver.

(Continua)
 


COISAS SIMPLES / AR PURO


Andr� Kert�sz, Snow Covered Bench, Washington Square Park, Dec. 21
 


EARLY MORNING BLOGS 459

The Snow Man


One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


(Wallace Stevens)

*

Bom dia!

24.7.05
 


CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS

Se se confirmar uma candidatura de M�rio Soares ela dar� de imediato todo sentido a uma eventual candidatura de Cavaco Silva. A candidatura de Soares ser� o prot�tipo do intervencionismo presidencial, ao modelo do seu segundo mandato, dominado pela utiliza��o do lugar presidencial para derrubar a todo o custo o governo. Este intervencionismo ser� agravado pelas posi��es extremistas de M�rio Soares em mat�rias t�o importantes como a pol�tica externa, onde Soares est� mais pr�ximo do BE do que do PS, ou na economia, onde Soares tem hoje teses anti-capitalistas pr�ximas dos movimentos anti-globalizadores, ou em mat�ria europeia, em que � um europe�sta radical. Com Soares, mesmo para o PS e sobretudo para o governo do PS, a sua candidatura � sin�nimo de instabilidade. Cavaco Silva, pelo contr�rio, � mais sens�vel ao que � merit�rio na actual situa��o: possibilidade de estabilidade pol�tica, governo de legislatura, pol�tica com elementos de austeridade (ver-se-� se continua...), modera��o na pol�tica externa.

Soares ser� o candidato da instabilidade e Cavaco da estabilidade.

23.7.05
 


COISAS SIMPLES


P. Caulfield, A Ah! this Life is so everyday
 


EARLY MORNING BLOGS 548

Dutch Mistress


A hotel in whose ledgers departures are more prominent than arrivals.
With wet Koh-i-noors the October rain
strokes what's left of the naked brain.
In this country laid flat for the sake of rivers,
beer smells of Germany and the seaguls are
in the air like a page's soiled corners.
Morning enters the premises with a coroner's
punctuality, puts its ear
to the ribs of a cold radiator, detects sub-zero:
the afterlife has to start somewhere.
Correspondingly, the angelic curls
grow more blond, the skin gains its distant, lordly
white, while the bedding already coils
desperately in the basement laundry.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!

22.7.05
 


BIBLIOFILIA: GRANDES CAPAS




� uma grande capa, embora haja qualquer coisa de errado na orienta��o ou da mo�a ou do Sol, mas tamb�m os astros nunca orientaram ningu�m. Parece que orientam, mas n�o � na geografia de Portugal, deve ser na de l� de fora. Ou ent�o � por ser muito cedo e o Sol a nascer � s� para alguns. Mas se � a nascer, n�o devia estar amarelo em vez de vermelho? Est�o a ver por que � que os intelectuais n�o v�o a lado nenhum? E a mo�oila - que raio de palavra - vai?

*
A prop�sito da capa da Geografia Prim�ria n�o me parece que haja qualquer erro. O nascer e o por do sol s�o fen�menos semelhantes em que a dispers�o de Rayleigh gera aqueles tons avermelhados. Da minha janela virada a nascente vejo frequentemente o sol a nascer sobre a ria e digo-me sempre que o nascer do sol � t�o belo quanto o por do sol, s� que h� poucas pessoas �quela hora com disposi��o para dar por isso� Al�m disso a pequena camponesa j� no campo ao nascer do sol est� bem dentro da ideologia da �poca�.
(Jo�o AP Coutinho)
*

Pelo que vejo, "por cima" do Sol, aparece a Lua cheia.
Ora a Lua s� est� nessa fase quando, no c�u, est� do lado oposto ao Sol.
(CMR)
*
Al�m da cor do sol (erro menor), h� outro erro: a Lua, estando pr�ximo do Sol (na ab�bada celeste) n�o poderia estar em Lua cheia mas em Lua nova.

Quanto ao resto, pela posi��es relativas da rosa dos ventos e do sol, pode concluir-se que se est� no per�odo em que as noites s�o maiores que os dias. De outra forma o sol, ao nascer, no horizonte n�o muito acima da altitude da mo�oila, nunca estaria entre leste e sul.

Esta "sapi�ncia", nada tem de especial. � pena que tenha sido aprendida antes do 25 de Abril, algures entre o que hoje s�o os 5 e 7� anos, e hoje j� n�o o possa ser.
(Henrique Martins)
 


A LER

para quem "goste" de informa��o e do seu tratamento - e sem tratamento n�o � "informa��o" -, o a Informa��o.... Vale a pena, mesmo quando tem no subt�tulo uma cita��o do mais assustador que h�.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
POR QUE � QUE MUDOU O TOM?

No ano passado, apesar da situa��o bem menos grave em mat�ria de inc�ndios, n�o se via reportagem televisiva sobre os mesmos em que n�o se perguntasse aos bombeiros se achavam que tinham meios suficientes ou �s popula��es afectadas se achavam que o combate estava a ser eficaz (sim, mesmo aos desgra�ados que viam as suas propriedades a arder perante os pr�prios olhos). O resultado destas perguntas era sempre o esperado: um longo desfiar de cr�ticas ao governo.

Este ano, apesar do maior n�mero de inc�ndios e �rea ardida, nem uma pergunta sobre "meios". Quando muito, questiona-se a limpeza das matas. N�o critico o jornalismo que est� a ser feito - pelo contr�rio, eliminaram-se excessos que eram cometidos sem qualquer conte�do jornal�stico. Mas ficam as d�vidas quanto � bondade das raz�es que levaram � altera��o de registo - que, ali�s, � vis�vel em muitas outras mat�rias.

Ricardo Prata

*

Estava a ver os telejornais e aflige-me o sofrimento das pessoas no interior devido aos fogos.Acho que se abandonou o Pa�s, discute-se as ventoinhas, a Ota e Tgv e o pa�s arde.S�o pessoas humildes que v�m o pouco que t�m , consumido em minutos ou horas.� muito triste.N�o me lembro de ver coisa assim nesta dimens�o ...e um Pa�s t�o pequeno.H� teorias para justificar a situa��o que t�m que ver com o abandono, a desertifica��o do interior, a limpeza de matas inexistente ... mas n�o acredito que uma boa preven��o n�o podia afastar tanto inc�ndio.

Pergunto se uma forte vigil�ncia florestal pelas autoridades do Estado, a adequa��o de politicas de insers�o com trabalho comunit�rio de limpeza das florestas para benefici�rios do RSM ou de substitui��o de penas de pris�o por trabalho comunit�rio, n�o era mais adequada do que remediar com mais meios EUREUREUREUR para bombeiros , mais EUREUREUREUR negocios de avi�es, mais especula��o imobili�ria EUREUREUREUR nessas zonas ( A Estrela qq dia � resort de neve artificial... e que morram os pastores ). Afinal onde est� o Estado que deve proteger as pessoas e seus bens ?

(Ant�nio Carrilho)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota COISAS IMPORTANTES A QUE N�O SE LIGA NENHUMA.

Em actualiza��o a bibliografia de 2005 dos ESTUDOS SOBRE COMUNISMO.
 


A NOSTALGIA DO �AR LAVADO�


Hockney, Pra�a Vermelha
(Artigo do P�blico de ontem, a que acrescentei algumas liga��es. O poema "Termidor errado" da liga��o n�o � o citado, que n�o est� em linha, mas um da mesma s�rie.)
As antologias dos �poemas da minha vida� publicadas pelo P�blico, t�m sido pouco comentadas em rela��o a um dos seus aspectos mais interessantes: a de serem espelhos procurados e faces constru�das dos seus autores. Nessas antologias h� dois tipos de pessoas: as que s�o escritores, ou ensa�stas e que por isso t�m um contacto natural e quase quotidiano com a poesia, como Vasco Gra�a Moura, Alzira Seixo, Urbano Tavares Rodrigues ou mesmo Miguel Veiga, e as daqueles que s�o figuras p�blicas essencialmente pela sua ac��o pol�tica. Neste �ltimo caso, o que mais me interessa para este artigo, a escolha n�o � apenas a dos �poemas da minha vida� mas tamb�m as dos �poemas que eu quero enumerar como sendo da minha vida�. Dependendo de uns ou outros casos pessoais, leituras, condi��o social e habitus, e do sentido de intencionalidade pol�tica, essas escolhas oscilam entre a primeira e a segunda f�rmula.

Uma das antologias que eu esperava com mais interesse era a de Jer�nimo de Sousa (JS), o tipo de pessoas a quem habitualmente n�o se pergunta quais s�o os poemas da sua vida, inclusive por racismo social e intelectual, muito mais poderoso na nossa sociedade do que se pensa. As escolhas de JS tinham especial interesse porque da lista dos autores era o �nico que vinha de outra condi��o social, um antigo oper�rio industrial, tipo de escolaridade � � o �nico que n�o � �doutor� - e com uma vida n�o muito distinta da sua condi��o social de origem, ou seja, para usar o eufemismo do costume, �modesta�. As minhas expectativas n�o sa�ram goradas e a sua antologia � das mais interessantes quanto n�o s� ao �vivido� dos poemas, como �quilo que ele nos quer dizer ao escolher aqueles poemas e n�o outros.

Claro que eu n�o sei at� que ponto cada autor em particular � o genu�no �autor� dos �poemas da minha vida�. E digo isto n�o por causa de ser a antologia de JS que estou a comentar, digo-o em geral. N�o tenho d�vidas que JS leu muito mais do que muitos arrogantes senhoritos a quem ningu�m questiona a sua evidente ignor�ncia e pouca leitura e que no entanto passam por ser mais cultos pelo divino privil�gio da classe social e do �Dr.� no in�cio do nome. Mas, como respons�vel pol�tico muito profissionalizado, n�o sei se pediu sugest�es para a realizar, o mesmo se podendo dizer de outras destas antologias.

Seja como for, as escolhas de JS encaixam como uma luva, e com uma consist�ncia maior do que noutras antologias mais politicamente correctas e por isso artificiosas, como � por exemplo a de Marcelo Rebelo de Sousa. Este tem como poemas da sua vida demasiados poemas escritos nos �ltimos dez anos para suspeitarmos se forjou de facto a sua �vida� apenas nesta �ltima d�cada, lendo Rui Namorado, Lobo Antunes, Ana Luisa Amaral, Maria do Ros�rio Pedreira, Fernando Pinto do Amaral, Ana Marques Gast�o, Francisco Jos� Viegas, Gon�alo M. Tavares, Daniel Faria, M�rio Rui de Oliveira, Jos� Luis Peixoto e muitos mais, vivos, publicando ontem, mas ainda votando hoje. Eu duvido sempre de uma antologia de �poemas da minha vida� que n�o tem os �poemas da vida� de muito mais gente do mesmo meio social e cultural e que evita os poemas que estavam nos manuais escolares e nos livros da �prim�ria�.

Pelo contr�rio, no livro de Jer�nimo de Sousa est� aquilo que um oper�rio, autodidacta em grande parte, comunista tanto como anti-clerical, vivendo nos meios associativos populares da Margem Sul, assistindo por obriga��o de partido, dedica��o ideol�gica e solidariedade pol�tica, � �cultura� que outros intelectuais comunistas traziam a esse mundo muito peculiar, sobreviv�ncia de um Portugal muito pouco conhecido nas classes �altas�, podia �gostar�. E, por isso, a maioria dos poemas escolhidos mais do que poemas da revolu��o s�o-no da revolta, da injusti�a, do ideal prometaico, da utopia do �sonho�, e muito portuguesmente, de uma apologia racionalista, quase ma��nica, do vitalismo da natureza versus as pervers�es da sociedade. � a nostalgia de um mundo natural ideal, a nostalgia do �ar lavado� que perpassa no �sonho� dessas poemas. E isso �, de h� muitos anos, a �cultura� tradicional da aristocracia oper�ria portuguesa, fosse anarquista, republicana, carbon�ria, radical ou comunista. Poema atr�s de poema no livro de JS falam-nos da for�a da natureza impoluta, pante�sta quanto baste, de onde emerge uma pureza que se perde nas desigualdades sociais, na opress�o, na viol�ncia dos �de cima� contra os �de baixo�.

JS tem no livro alguns poemas de Cam�es (inclusive o �Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades� talvez o mais citado por todos), algum Bocage da �liberdade querida e suspirada� mas nunca teria o Bocage obsceno que Soares cita com o � vontade dos �de cima�, mas que ofende o moralismo tradicional dos meios em que filhas e irm�s fornecem o contingente para a devassid�o �dos de cima�, mas para al�m destes quase tudo o resto s�o s� escolhas que nenhuma outra antologia reproduz, ou o reproduz de forma t�o consistente. � o caso de Jo�o de Deus e Antero, de Guerra Junqueiro, que eu seria capaz de apostar dobrado contra singelo que teria que estar na antologia de JS, como ali�s apostaria, antes de a ler, em Manuel da Fonseca.

S� que na antologia de JS o que est� em Jo�o de Deus, � o mesmo que est� em Antero (da� a escolha de �Luz do Sol. Luz da Raz�o�), o que est� em Guerra Junqueiro, em Ces�rio Verde, em Florbela, em Ant�nio Nobre, em Pessoa / Caeiro (nunca esperaria Ricardo Reis, nem l� est�). Nestes dois �ltimos casos, JS mostra o poder de apropria��o que consegue ter esta antologia mesmo em rela��o a autores que podiam estar distanciados da linha vitalista que percorre todo o livro.

Depois, com Jos� Gomes Ferreira, d�-se uma ruptura com esse fundo pante�sta da natureza, versus um Divino mau e desnecess�rio, uma linha anticlerical muito popular, para se enunciar, em termos mais claros, a revolta. E na sua explicitude que pode parecer ing�nua, mas que tem a ver com a persona, o grau de frontalidade po�tica � maior do que o da pol�tica. JS publica um poema de Jos� Gomes Ferreira �Termidor errado� claramente contra a democracia parlamentar e dois poemas de nostalgia do �socialismo real�, da URSS revolucion�ria, de Maiakovski. � medida que o livro avan�a, JS n�o tem problemas em escolher quase s� poetas comunistas ou antigos comunistas como Neruda, Brecht, Guill�n, Eluard, Agostinho Neto, e os portugueses, Armindo Rodrigues, Carlos de Oliveira, Egito Gon�alves, Arquimedes da Silva Santos, Castrim, Saramago, Ary dos Santos. Maria Velho da Costa, Joaquim Pessoa. Os que o n�o s�o ou escreveram poesia de resist�ncia, como Sena, Sophia, Alegre, ou O�Neill, ou s�o as vozes que se ouviriam, mais do que se leriam, em qualquer recital popular de poesia, como a �Pedra Filosofal� de Gede�o, ou em letras de fado, como o �Maria Lisboa� de David Mour�o-Ferreira (quem cita o �Fado Peniche� � Cadilhe�).

Em suma, esta antologia � mesmo de �poemas da vida�, da que se tem e da que se constr�i, com uma grande e reveladora consist�ncia:

Em baixo! O que � em baixo?
Em baixo estar que tem?
Ningu�m � eterna sombra
Nos condenou! Ningu�m!


Disse Jer�nimo de Sousa atrav�s de Antero. E � verdade.
 


AR PURO / COISAS SIMPLES


A. Wyeth
 


EARLY MORNING BLOGS 547

Bankers Are Just Like Anybody Else, Except Richer


This is a song to celebrate banks,
Because they are full of money and you go into them and all
you hear is clinks and clanks,
Or maybe a sound like the wind in the trees on the hills,
Which is the rustling of the thousand dollar bills.
Most bankers dwell in marble halls,
Which they get to dwell in because they encourage deposits
and discourage withdrawals,
And particularly because they all observe one rule which woe
betides the banker who fails to heed it,
Which is you must never lend any money to anybody unless
they don't need it.
I know you, you cautious conservative banks!
If people are worried about their rent it is your duty to deny
them the loan of one nickel, yes, even one copper engraving
of the martyred son of the late Nancy Hanks;
Yes, if they request fifty dollars to pay for a baby you must
look at them like Tarzan looking at an uppity ape in the
jungle,
And tell them what do they think a bank is, anyhow, they had
better go get the money from their wife's aunt or ungle.
But suppose people come in and they have a million and they
want another million to pile on top of it,
Why, you brim with the milk of human kindness and you
urge them to accept every drop of it,
And you lend them the million so then they have two million
and this gives them the idea that they would be better off
with four,
So they already have two million as security so you have no
hesitation in lending them two more,
And all the vice-presidents nod their heads in rhythm,
And the only question asked is do the borrowers want the
money sent or do they want to take it withm.
Because I think they deserve our appreciation and thanks,
the jackasses who go around saying that health and happi-
ness are everything and money isn't essential,
Because as soon as they have to borrow some unimportant
money to maintain their health and happiness they starve
to death so they can't go around any more sneering at good
old money, which is nothing short of providential.


(Ogden Nash)

*

Bom dia!

21.7.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: QUIETUDE

 


COISAS IMPORTANTES A QUE N�O SE LIGA NENHUMA

A decis�o do Tribunal Constitucional alem�o considerando que o mandado de captura europeu viola a Constitui��o Alem�, pelo que n�o � aceite a sua validade para a Alemanha.

*
Acho que o que escreveu pode ser interpretado incorrectamente como se tivesse o TC alem�o decidido sobre o mandato de captura europeu em geral e definitivamente, por isso lhe envio o link para o artigo. O que o TC Alem�o decidiu foi que a lei alem� que "implementa" a directiva comunit�ria sobre extradi��o dentro da UE e inconstitucional, referindo ainda que a decis�o se deve em grande parte a falta de possibilidade de recurso para os arguidos. A decis�o n�o � contra a directiva comunit�ria, mas contra a lei que o Bundestag aprovou. Ou seja, e preciso ter cuidado em como se fazem as leis e certos direitos tem de ser garantidos. A ministra alema da Justica ja anunciou que pretende propor rapidamente nova lei (j� o problema da que foi considerada inconstitucional foi por ser tamb�m r�pida...) e a CDU ja falou em alterar a constitui��o (mas pol�ticos). Por isso, ainda nada est� perdido. Mas tem raz�o, e importante e, como disse a ministra da Justi�a, dificulta o combate ao terrorismo na Europa...
Ana Aguiar (Berlim)
 


LENDO OS JORNAIS: DIGAM ADEUS AOS REFERENDOS

"Ao contr�rio de alguns, a moral que eu tiro destas respostas � que n�o se deve fazer referendos em alturas de crise econ�mica." (Jos� S�crates no American Club, citado pelo P�blico).

Com este novo crit�rio para os referendos, digam-lhes adeus por muito, muito tempo.
 


OUVINDO USTAD ALI AKBAR KHAN

 


LENDO OS JORNAIS: O CAPITAL INTELIGENTE

Medeiros Ferreira: "Tenho a impress�o que, se o dr. M�rio Soares fosse candidato, ganhava � primeira volta, com a esquerda unida, o centro, os empres�rios inteligentes." (P�blico)
 


LENDO OS JORNAIS: PORQUE � QUE � IN�TIL ENTREVISTAR ASSIM LOU��

(Transcrito do P�blico de hoje. Perguntas a bold, respostas de Lou�� em it�lico, coment�rios meus entre par�ntesis rectos)

Pelo que diz concluo que j� n�o � trotskista.

O Trotsky teve um papel fundamental na luta contra o estalinismo, contra a estaliniza��o, contra o que veio a ser o modelo sovi�tico. N�o s� ele mas muitos outros.

[N�o respondeu, o que d� a resposta.]

Ainda se define como trotskista?

Eu nunca me defini como trotskista. Defini-me sempre como marxista.

[Langue de bois. Os maoistas tamb�m n�o diziam que eram maoistas e os estalinistas idem.]

Integrou uma organiza��o trotskista...
[N�o �integrou�, dirigiu e n�o se sabe bem se dirige. N�o se percebe porque raz�o a organiza��o, o PSR, n�o � nomeada.]

Mas foi uma organiza��o que nunca se definiu como tal, embora, e eu assumo isso por inteiro, o contributo do Trotsky tenha sido fundamental para pensar o socialismo de hoje. Como foi o de outros, como Rosa Luxemburgo ou Gramsci e alguns outros marxistas. A nossa heran�a � exactamente essa e vivia sempre da mesma forma.

[Langue de bois.]

Entre o Trotsky e a Rosa Luxemburgo h� diferen�as substanciais...
[Pergunta irrelevante. Seria bom que o leitor soubesse a que diferen�as se est� a pergunta a referir.]

Com certeza. Mas eu creio que o socialismo aprendeu com essas diferen�as.

[Resposta in�til. O que era decisivo nesta conversa fica sempre vago e n�o nomeado. Trotsky e Rosa Luxemburgo defendiam a viol�ncia revolucion�ria e a vers�o da Internacional Comunista da revolu��o e da ditadura do proletariado. Aqui n�o h� diferen�as.]

No BE ainda h� marxistas-leninistas?

Depende do que quer dizer com o conceito marxista-leninista.
[Esta frase traduzida significa sim.] H� leninistas certamente, h� leninistas que s�o marxistas. Agora o marxismo-leninismo foi entendido muitas vezes como uma representa��o do estalinismo e isso n�o h�. Como h� n�o marxistas.

Mas o BE como movimento identifica-se com o leninismo?

N�o, o BE n�o tem que se identificar com o leninismo.

[Resposta amb�gua, este "n�o tem que" � mais que d�bio.]

Portanto, n�o h� ideologia �nica?

N�o h� nem vai haver. Como sabe, ali�s, o BE nasceu e s� podia ter nascido assim n�o por uma fus�o ideol�gica que reinterpretasse o passado, mas por uma defini��o da agenda pol�tica e do programa. O programa constr�i-se na luta social, nas alternativas pol�ticas para o pa�s, para a Europa. E foi isso que nos permitiu aprender um n�vel de pol�tica completamente distinto do que a esquerda radical tinha feito em Portugal durante 30 anos. N�s mud�mos completamente a capacidade de actua��o pol�tica e social, tornando-nos uma for�a pol�tica influente

[Fuga em frente, nada � concreto. Um novo conceito aqui se aplica: enguiismo ideol�gico.]
 


AR PURO


Edward Hopper
 


EARLY MORNING BLOGS 546

Quem j� encontrou uma cabra
que tivesse ritmos dom�sticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de t�dio?

Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o c�o, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?

A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que � para ser
animal dos de luxo ou pajem.

Viva demais para n�o ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredut�vel,
o inconformado conformista.


(Jo�o Cabral de Melo Neto)

*

Bom dia!

20.7.05
 


APRENDENDO COM GUIMAR�ES ROSA: AQUILO QUE N�O HAVIA, ACONTECIA.

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informa��o. Do que eu mesmo me alembro, ele n�o figurava mais est�rdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. S� quieto. Nossa m�e era quem regia, e que ralhava no di�rio com a gente � minha irm�, meu irm�o e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a s�rio. Encomendou a canoa especial, de pau de vinh�tico, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, pr�pria para dever durar na �gua por uns vinte ou trinta anos. Nossa m�e jurou muito contra a id�ia. Seria que, ele, que nessas artes n�o vadiava, se ia propor agora para pescarias e ca�adas? Nosso pai nada n�o dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais pr�xima do rio, obra de nem quarto de l�gua: o rio por a� se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de n�o se poder ver a forma da outra beira. E esquecer n�o posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chap�u e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, n�o pegou matula e trouxa, n�o fez a alguma recomenda��o. Nossa m�e, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de p�lida, mascou o bei�o e bramou: � "C� vai, oc� fique, voc� nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir tamb�m, por uns passos. Temi a ira de nossa m�e, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um prop�sito perguntei: � "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele s� retornou o olhar em mim, e me botou a b�n��o, com gesto me mandando para tr�s. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo � a sombra dela por igual, feito um jacar�, comprida longa.

Nosso pai n�o voltou. Ele n�o tinha ido a nenhuma parte. S� executava a inven��o de se permanecer naqueles espa�os do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela n�o saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que n�o havia, acontecia.
 


COISAS SIMPLES


Laurence Stephen Lowry
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
UMA BIBLIOGRAFIA MUITO ESPECIAL

Sobre o coment�rio ao ciclone em Cancun, recomenda-se a leitura do E�a (as cat�strofes e as lei da emo��o - e o p� desmanchado da Luizinha Carneiro).

Tamb�m sobre a pol�tica, as quedas dos Governos e os impostos, a cr�nica das Farpas (cr�nica II, 1� volume, �os 4 partidos pol�ticos�: �� Na ac��o governamental as dissens�es s�o perp�tuas...� �Como assim?! Mais impostos?!...�

Idem, sobre o estado da Na��o, a cr�nica XI do 2� volume �Autorizadas opini�es sobre o estado da Administra��o P�blica (�� O Sr, Luciano de Castro, chefe da oposi��o��)

E nas duas cr�nicas sobre o ex�rcito e a marinha (cr�nicas XVII e XVIII), onde est� tudo dito e (na XVIII) onde se pode ler o que, para mim, � uma das mais belas e mais corrosivas frases do E�a: �� todavia, a nossa marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o or�amento!�.

(Luis Rodrigues)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
EUFORIA E�LICA

Quando o Eng. Carlos Pimenta e outros falam em acabar com as burocracias da expans�o e�lica, infelizmente e talvez sem saberem, referem-se � supress�o dos pareceres do ICN que � falta de dinheiro n�o pode ser mais c�lere, mas que � a �nica institui��o capaz de prever a amplitude do impacto a v�rios n�veis (paisag�stico, geol�gico, ambiental). H� alguns meses atr�s estava em reuni�o com uma pessoa do ICN, que me informa ter acabado de receber um despacho para os pareceres de parques e�licos receberem aprova��o imediata, e s� depois se estudariam os impactes. Isto quando as empresas que fazem os estudos de impacte ambiental nem sequer verificam se o monte em que v�o construir � oco por dentro e desaba com o primeiro cami�o que por l� passar (como pode acontecer com frequ�ncia na Serra de Aire e Candeeiros).

(Jorge Gomes)


Neste �ltimo caso (e�lica), (post Montes, Cumeadas, Cimo dos Montes), as suas preocupa��es s�o tamb�m as minhas preocupa��es. Infelizmente n�o existe uma cartografia (feita, por exemplo, pelo Instituto de Conserva��o da Natureza) sobre as �reas non edificandi (chamamos-lhe assim) para a instala��o de aerogeradores. Quando estamos a falar de 2500 MW de pot�ncia, significa, pelo menos, 1250 ventoinhas e qualquer coisa como 125 parques e�licos (regra geral, cada parque tem 10 aerogeradores). F�cil � imaginar que a maior parte das serranias mais apetec�veis para a energia e�lica s�o �rea protegidas (n�o apenas do ponto de vista ecol�gico, mas sobretudo c�nico). Ou seja, adeus paisagem como a conhecemos... E n�o s�o apenas os aerogeradores: vamos come�ar a ter serras rasgadas com caminhos, linhas de alta tens�o, etc., etc..

No entanto, nesta euforia (ontem parecia que a crise seria levada qual "e tudo o vento levou") a favor dos parques e�licos, esquece o Governo (e n�o sabe este pa�s t�o pouco atreito � matem�tica) que o problema energ�tico (e o crescimento das importa��es de combust�veis f�sseis) se deve sobretudo � inefici�ncia energ�tica.

Sobre qual ser� o verdadeiro impacte destes 2500 MW de e�lica perante o alucinante crescimento do consumo de electricidade em Portugal (quem nos dera que o PIB tivesse igual crescimento...), veja-se o Estrago da Na��o, onde abordo num �ltimo post esta quest�o de uma forma que penso ser bastante acess�vel.

(Pedro Almeida Vieira)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
SERRA DA ESTRELA (EM TEMPO REAL)





� assim pela Serra da Estrela, uma �rea Protegida. Na semana passada, em dois dias arderam para cima de 1500 hectares.Ficam as imagens. At� j� nem s�o novidade.

(Angelina)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
A GUERRA DOS MUNDOS OU VEM A� OS MARCIANOS (EM TEMPO REAL)




Este rio Tejo anda doido: ele � luar, ele � porta-avi�es� eu bem tento ter uma vida tranquila, mas n�o consigo. Chego a casa minding my own business e dou de caras com o porta-avi�es. � a primeira vez que vejo um �ao vivo�. S� os conhecia ou de telejornais, ou, ainda melhor de filmes (�Batalha de Middway�, etc) Andamos excitad�ssimos a de telesc�pio e bin�culo de longo alcance em punho (quem vive onde eu vivo tem que estar devidamente equipado!), mas ele est� em contra luz, e hoje h� can�cula o que n�o torna a tarefa f�cil, mas j� percebemos que: � enorme, comprido e alto, � dos EUA, a bandeira v�-se bem, tem largas dezenas de avi�es, h� barcos, tipo cacilheiros, a transportar gente para terra, para poderem dizer que visitaram Lisboa. Est� tamb�m uma fragata portuguesa (uma das maiores, mas n�o consegui ver o nome) estacionada perto com alguns homens na proa tamb�m de bin�culo em punho (pudera, muitos deles nunca devem ter visto tal cidade b�lica flutuante).

(J.)

19.7.05
 


AR PURO


Ansel Adams, Rain, Beartrack Cove, Glacier Bay National Monument, Alaska
 


EARLY MORNING BLOGS 545

"Eu vim preguntar a vosmec� uma opini�o sua explicada..."

Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, por�m, quase que sorriu. Da�, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alaz�o era para paz. O chap�u sempre na cabe�a. Um alarve. Mais os �nvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas � e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cintur�o, que usado baixo, para ela estar-se j� ao n�vel justo, adem�o, tanto que ele se persistia de bra�o direito pendido, pronto mene�vel. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na regi�o, pelo menos de t�o boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas ten��es. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de �rvore. Sua m�xima viol�ncia podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um caf�, calmava-me. Assim, por�m, banda de fora, sem a-gra�as de h�spede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

� "Vosmec� � que n�o me conhece. Dam�zio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."


(Jo�o Guimar�es Rosa)

*

Bom dia!

18.7.05
 


COM QUE ENT�O O MUNDO N�O MUDA?

Um cidad�o vai aos Frescos e verifica que, na �ltima hora, actualizou-se um O c�u sobre Lisboa, uma Grande Loja do Queijo Limiano, um ou uma BLOGUITICA,um afixe, um Di�rio da Rep�blica, uma Semiramis, um O Acidental, o Quartzo, Feldspato &; Mica, um desBlogueador de conversa, um Miniscente, um Insurgente, as Blasf�mias, um Bicho Carpinteiro, um Casmurro, uma Linha dos Nodos e um Abrupto, pouco antes. Onde � que est�o os adultos?
 


DILEMAS

Como � que um disciplinado amador da hist�ria, que estes dias se preocupa (sempre para acabar o malfadado volume terceiro) com minud�ncias sobre saber se o dirigente X do PC da Africa do Sul estava matriculado em 1946 na Universidade de Witvatersrand, Wits para os conhecedores, � sim, chega-se a� da pris�o de Peniche, pelo V Congresso do PCP, para os comunistas mo�ambicanos e destes para a terra do ouro e dos diamantes� - e cai na asneira de ligar o Mezzo e ver um magnifico programa sobre Ustad Gulam Hassan Shagan, e se tornar, por uma hora, num puro multiculturalista?
 


SILLY SEASON

O nosso centro do mundo noticioso s�o as f�rias em Cancun prejudicadas por um malvado ciclone. "T�o pequeno burgu�s!", diria o tenebroso subversivo que h� em mim.

*
Abjecto! � o m�nimo que se pode dizer da forma como os canais nacionais tratam a trag�dia que assola o M�xico. Sim, porque quero acreditar que um furac�o que assola uma zona em que a popula��o vive em estado de pobreza, muitas vezes extrema, ainda cabe na designa��o de trag�dia. � que nos nossos telejornais, a coisa aparece sob a forma de "Furac�o estraga as f�rias a milhares de turistas". Portanto, qualquer turista � mais importante que a popula��o local que fica para apanhar os cacos da cat�strofe.... As mesmas pessoas que h� uns dias se uniam � dor londrina, ultrapassam os dramas frequentes do 3� mundo e lastimam apenas as f�rias estragadas. J� na semana passada, o atentado que vitimou 24 crian�as no Iraque passou para segundo plano nos nossos telejornais face, por exemplo, � novela Miguel vs Benfica. Enfim, parece que para muita gente o sofrimento � inerente � condi��o de 3� mundo, n�o merecendo por isso grande comisera��o por parte do mundo ocidental. Triste, no m�nimo... n�o?
(Rita Amado)
 


MONTES, CUMEADAS, CIMO DOS MONTES

caminham para ser uma esp�cie em extin��o. Eu sou inteiramente a favor da energia e�lica e reconhe�o-lhe todos os m�ritos. Mas qualquer coisa do que conhe�o do meu pa�s, me diz que daqui a anos n�o haver� cumeadas livres de ventoinhas. J� come�ou e vai a toda a velocidade, porque parece que � um excelente neg�cio. N�o deve aqui tamb�m haver um esfor�o de ordenamento antes de ser tarde de mais? Ou j� � tarde de mais?
 


COISAS COMPLICADAS


George Segal, Street Crossing
 


EARLY MORNING BLOGS 544

Before Sleep


The lateral vibrations caress me,
They leap and caress me,
They work pathetically in my favour,
They seek my financial good.

She of the spear stands present.
The gods of the underworld attend me, O Annubis,
These are they of thy company.
With a pathetic solicitude they attend me;
Undulant,
Their realm is the lateral courses.


Light!
I am up to follow thee, Pallas.
Up and out of their caresses.
You were gone up as a rocket,
Bending your passages from right to left and from left to right
In the flat projection of a spiral.
The gods of drugged sleep attend me,
Wishing me well;
I am up to follow thee, Pallas.


(Ezra Pound)

*

Bom dia!

17.7.05
 


COISAS COMPLICADAS


Joseph Kosuth
 


EARLY MORNING BLOGS 543

Todo estar� en sus ciegos vol�menes. Todo: la historia minuciosa del porvenir, Los egipcios de Esquilo, el n�mero preciso de veces que las aguas de Ganges han reflejado el vuelo de un halc�n, el secreto y verdadero nombre de Roma, la enciclopedia que hubiera edificado Novalis, mis sue�os y entresue�os en el alba del catorce de agosto de 1934, la demostraci�n del teorema de Pierre Fermat, los no escritos cap�tulos de Edwin Drood, esos mismos cap�tulos traducidos al idioma que hablaron los garamantas, las paradojas que ide� Berkeley acerca del Tiempo y que no public�, los libros de hierro de Urizen, las prematuras epifan�as de Stephen Dedalus que antes de un ciclo de mil a�os nada querr�n decir, el evangelio gn�stico de Bas�lides, el cantar que cantaron las sirenas, el cat�logo fiel de la Biblioteca, la demostraci�n de la falacia de ese cat�logo. Todo, pero por una l�nea razonable o una justa noticia habr� millones de insensatas cacofon�as, de f�rragos verbales y de incoherencias. Todo, pero las generaciones de los hombres pueden pasar sin que los anaqueles vertiginosos -los anaqueles que obliteran el d�a y en los que habita el caos- les hayan otorgado una p�gina tolerable.

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

16.7.05
 


COISAS SIMPLES / AR PURO


Andrew Wyeth
 


EARLY MORNING BLOGS 542

Stopping By Woods On A Snowy Evening


Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it's queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there's some mistake.
The only other sound's the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.


(Robert Lee Frost)

*

Bom dia!

15.7.05
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO com dois estudos de J�lia Coutinho sobre o escultor e militante comunista Jos� Dias Coelho, morto pela PIDE em 1961.
 


ALGURES, PERTO DE SI


Watteau, Tempestade

(Como houve alguma discuss�o sobre este artigo nos blogues e ele est� indispon�vel no P�blico de ontem, reproduzo-o aqui por uns dias e depois vai para a "verdade filha do tempo".)


Algures, perto de si, acabar� por explodir uma bomba, flutuar uma doen�a, fluir um veneno. T�o certo como dois e dois serem quatro, o que n�o � absolutamente certo, mas � quase certo. Um dia algu�m perceber� que � mais simples atacar no aeroporto de Lisboa, do que em Londres, pesar� os pr�s e os contras do impacto publicit�rio, e escolher� Lisboa, ou um evento lisboeta, para dar uma li��o aos �novos cruzados�, ou seja n�s. � s�, parafraseando a frase certeira sobre Londres, uma quest�o de �quando�.

� por isso que n�o basta bater no peito e dizer que �somos todos londrinos� e na volta da esquina j� estar a discutir as tenebrosas propostas do Sr. Blair para limitar direitos de privacidade das mensagens porque isso facilita a vida aos terroristas. Na volta da mem�ria, escarnecer o Patriot Act, essa �fasciza��o da Am�rica� como j� lhe ouvi falar, atacada por tudo que � burocracia bruxelense e suas extens�es nacionais, como se, sobre a dupla press�o dos autocarros que explodem, e da inseguran�a popular, n�o se tenha tamb�m que ir por a�, com a prud�ncia e as cautelas que as democracias tem que ter por tal caminho. J� o disse e repito, a separa��o cada vez maior entre elites europeias e americanas nesta quest�o do terrorismo, vem dos segundos se acharem em guerra e os primeiros n�o. Ser� apenas uma quest�o de tempo, at� esta ser apenas uma quest�o de termos, n�o de subst�ncia, porque, falando como um s�bio da Guerra das Estrelas, �em guerra estamos�.

� tamb�m por isso que poucas vezes como nos dias de hoje se v� o grau de demiss�o do pensamento ocidental como nestes momentos. M�rio Soares � entre n�s o principal �justificador�, introduzindo com displic�ncia, dele, e complac�ncia de muitos, todos os temas dessa culpa auto-punitiva e demissionista: valoriza��o das �causas� pelo combate inevit�vel da �pobreza� contra a �opress�o globalizadora� e a �superpot�ncia �nica�, necessidade de retirada total do mundo ocidental dos locais da �humilha��o�, Palestina e Iraque, �negocia��o� com o terrorismo e ramifica��es v�rias destas posi��es mais radicais.

Olhamos para o homem da bomba e tentamos percebe-lo e explica-lo, quase sempre projectando a nossa vis�o e os nossos combates pol�ticos caseiros para um dimens�o que nada tem com eles. Encontramos nos velhos e errados quadros interpretativos do nosso marxismo vulgar, uma explica��o causal subsidi�ria da contradi��o exploradores-oprimidos. Fora dessa banalidade interpretativa, factualmente falsa, n�o conseguimos pensar.
A tradi��o da nossa cultura foi sempre colocar-nos dentro dos olhos dos outros, quanto mais Outro os outros forem. E num certo sentido este � um sinal da vitalidade da cultura ocidental, que vem da sua dupla g�nese quer na tradi��o greco-latina, quer crist�. Mas se � assim que fazemos, n�o o fazemos (ou n�o o faz�amos) para encontrar-nos no Outro, quando a face do Outro era a da nossa morte, a da nossa destrui��o. Nietzsche diria que isto era inevit�vel ap�s dois mil anos de cultura de culpa judaico-crist�, outros diriam que mais cedo ou mais tarde o Dr. Freud nos traria esta vers�o de Thanatos, onde Sade, Netchaiev e Bin Laden est�o unidos numa mesma nega��o. Duvido, at� porque nem Bin Laden, nem Hitler, nem Staline s�o vozes da culpa que eles nos dizem termos.

Eu acho que tem todo o sentido �metermo-nos na cabe�a� de Hitler hoje, e ler o que de interessante disse sobre a Europa face � R�ssia e aos EUA, ele que era um percursor, ao modo ariano, de uma Europa unida, contra os imperialismos americano e sovi�tico. Mas nunca me pareceria razo�vel, acharia at� mesmo uma trai��o, querer �meter-me na cabe�a� de Hitler entre 1933 e 1945, quando os �meus� o combatiam e ele os queria matar. As �nicas explica��es que me interessavam, as �nicas �causas� que eu queria perceber, eram aquelas que me permitiam derrot�-lo funcionalmente, as que eram instrumentais para acabar com ele e com os seus.

� importante perceber que, mesmo nas quest�es onde o meu pensamento lhe admitia �raz�o�, essa raz�o s� pode ser defrontada depois da elimina��o dele - v�lido para Hitler, ou Staline, ou Bin Laden. N�o h� causalidade que me interesse porque ela institui uma nobreza de pensamento qualquer, mesmo residual, que o ajuda a matar-me e que institui verdadeiramente o niilismo. E da fal�ncia do pensamento ocidental, da sua dificuldade e complexo em lidar com as suas fronteiras culturais e civilizacionais, est� a nascer o niilismo e a face do niilismo actual � a justifica��o do terrorismo da Al-Qaida. Uma coisa � o movimento livre do pensamento, o voo crepuscular da coruja, que n�o conhece limites ao �pens�vel�, outra � a incorpora��o, quase sempre como culpa, da vontade de morte (a minha) pelo alheio. A� a boa tradi��o do pensamento ocidental � outra: o combate frontal e directo.

Essa tamb�m � (era?) a nossa tradi��o: quando se est� em guerra corre-se para a frente. Vem na Il�ada. Foi assim que Alexandre combateu em Gaugamela, os marinheiros gregos em Salamina, os crist�os coligados em Lepanto, os ingleses contra os zulus. Combate duro, directo, na primeira linha, frontal com o inimigo, � uma velha tradi��o da forma de lutar do Ocidente. Uma das consequ�ncias desta frontalidade do combate, est� expressa na velha m�xima militar e civil de que �em tempo de guerra n�o se limpam armas�, o que n�o � bem verdade, mas percebe-se o que se quer dizer.

Voltemos � quest�o da guerra. Eu bem sei que h� quem ache que n�o est� em guerra, e que a express�o �guerra� para caracterizar o que se est� passar � enganadora. Talvez valha a pena discutir a terminologia, porque ela tem claras desadequa��es, como ali�s, o quadro legal no direito internacional da guerra, para defrontar este tipo de combate. Mas a mim n�o me choca chamar guerra a um conflito que tem as caracter�sticas de ser global, da Indon�sia, � �ndia, � China, �s antigas republicas sovi�ticas da �sia Central, da Europa toda, aos EUA, que tem objectivos �n�o negoci�veis� por incompatibilidade total de vis�es do mundo culturais e civilizacionais.

Acima de tudo, n�o compreendo porque raz�o um terrorismo apocal�ptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, qu�micas e bacteriol�gicas, para garantir o seu Armaged�o sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquila��o de milh�es dos seus advers�rios, haja os meios para isso, n�o tem que ser combatido com tudo o que tenho � m�o: tropas, pol�cias, agentes de informa��es, � dentada diria um velho ingl�s da Home Guard, daqueles que esperava a invas�o da sua ilha e achava que sempre podia levar um �boche� consigo. E a� o �n�o se limpam armas�, � de um simplicidade brutal. Ou n�s ou eles.
 


COISAS COMPLICADAS


Paul Strand, On The Shore, Gasp� Bay, 1936
 


EARLY MORNING BLOGS 541

Summer Storm


We stood on the rented patio
While the party went on inside.
You knew the groom from college.
I was a friend of the bride.

We hugged the brownstone wall behind us
To keep our dress clothes dry
And watched the sudden summer storm
Floodlit against the sky.

The rain was like a waterfall
Of brilliant beaded light,
Cool and silent as the stars
The storm hid from the night.

To my surprise, you took my arm�
A gesture you didn't explain�
And we spoke in whispers, as if we two
Might imitate the rain.

Then suddenly the storm receded
As swiftly as it came.
The doors behind us opened up.
The hostess called your name.

I watched you merge into the group,
Aloof and yet polite.
We didn't speak another word
Except to say goodnight.

Why does that evening's memory
Return with this night's storm�
A party twenty years ago,
Its disappointments warm?

There are so many might have beens,
What ifs that won't stay buried,
Other cities, other jobs,
Strangers we might have married.

And memory insists on pining
For places it never went,
As if life would be happier
Just by being different.


(Dana Gioia)

*

Bom dia!

14.7.05
 


AR PURO


David Hockney, Iceland. Evening
 


EARLY MORNING BLOGS 540

Minibiografia


N�o me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas z�s! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelhe�o, adoe�o, esque�o
Quanto a vida � gesto e amor � foda;
Diferente me concebo e s� do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espa�o
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
� cena do mais �rduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


(Luiza Neto Jorge)

*

Bom dia!
 


P�SSIMAS ENTREVISTAS

as que Judite de Sousa fez a Maria Eug�nia Cunhal e a Urbano Tavares Rodrigues sobre Cunhal. Os dois entrevistados s�o muito diferentes, mas, em ambos os casos, Judite de Sousa ouviu de menos e falou de mais. Falou e falou e falou. No caso de Maria Eug�nia Cunhal numa rar�ssima, �nica ocasi�o, defrontou uma pessoa t�o dif�cil de entrevistar como o irm�o e repetiu o mesmo estilo reverencial que era usual com ele. A come�ar por ter deixado passar uma directa contradi��o entre ambos os entrevistados, quando Urbano conta que leu o Cinco Dias, Cinco Noites antes de Cunhal se ter revelado como "Manuel Tiago", porque a irm� lhe dera o original para ler. Maria Eug�nia Cunhal insistiu na �bvia impossibilidade de que s� soubera que Cunhal era �Manuel Tiago� no dia em que este informou o mundo todo de que �o �lvaro Cunhal e o Manuel Tiago eram a mesma pessoa�. A p�ssima qualidade da entrevista foi mais evidente com Urbano Tavares Rodrigues, que � um conversador nato, e falava com fluidez e sem quebra de interesse, e quando ia dizer alguma coisa era interrompido por mais uma banalidade da entrevistadora.

13.7.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
OPINI�ES, CHAMADAS DE ATEN��O, MICRO-CAUSAS, ETC.

O tema das micro-causas � relevante e entronca com a tem�tica da cultura de exemplo que n�o existe em Portugal, tem-no dito tamb�m V. �, aparentemente dif�cil fazer compreender, n�o s� � popula��o em geral, mas tamb�m aos governantes, que subvers�es, favoritismos ou laxismos face �s regras vigentes, por muito pequenos que sejam individualmente, quando tornados p�blicos (e mais importante, quando tornados p�blicos a sua impunidade e proveito �bvio), originam fen�menos emergentes de comportamentos � escala de toda uma comunidade (ou pa�s).

A j� estafada defesa de que s�o apenas excep��es n�o se compadece com a realidade de que, em Portugal, no �mbito da prevarica��o-soft (para o Portugu�s, o que n�o for crime de sangue � apenas um desvio comportamental imposto por uma tutela in�qua a que importa resisitir, em vez de os ver como roubos patrimoniais perpetrados contra o conjunto dos seus concidad�os), a excep��o apregoada dita sempre as regras dos comportamentos seguintes, porque os desculpabiliza a priori.
(Lu�s Veiga)
*
Falou-se muito ontem e hoje dos 70% de reprova��es de alunos do 9� ano no exame nacional de Matem�tica. No entanto, a situa��o � pior do que parece, pois, salvo erro, s� foram admitidos a exame os alunos que poderiam passar gra�as a este. Como o exame contava para 1/4 da nota final, isto teve como consequ�ncia que os alunos com nota final de 1 ficaram automaticamente exclu�dos.

(Jos� Carlos Santos)
*

Senti-me muito triste pelo que observei durante a minha visita ao Pal�cio e Convento de Mafra. A "guia", n�o era guia, mas uma guarda de museu (como atestava o crach� no peito) que, pelo treino de anos desbobinava refer�ncias sem cad�ncia pedag�gica, com m� dic��o, com erros graves de portugu�s e com informa��es erradas (pelo que pude perceber, em Mafra todos os "guias" s�o guardas do museu). A culpa n�o ser� concerteza dessa funcion�ria que estar� a fazer o melhor que sabe, mas da aus�ncia de forma��o e supervis�o de qualidade.

Dos vinte visitantes desse turno de visita, s� 5 eram portugueses, mesmo assim, nem uma palavra em ingl�s esteve dispon�vel. E era pat�tico os visitantes estrangeiros a fingir que percebiam e depois a rirem-se do equ�voco quando a guarda lhes falava directamente.

Ouvi nessa visita, entre outras p�rolas, dizer "trabeculosos", "mobili�rio indio-portugu�s" e, referindo-se a duas cabe�as de javali que a� estavam como trof�u de ca�a, que "uma era de javali e a outra de porco-espinho pois, como se via os dentes eram diferentes". Quando chamei � aten��o para esse erro contrariou-me, argumentando que todos os outros colegas diziam o mesmo.

N�o tenho conhecimentos hist�ricos suficientes para poder avaliar a exactid�o de muitas das informa��es e curiosidades que foram referidas durante a visita, mas a forma e alguns conte�dos, destruiram qualquer hip�tese de idoneidade. E isto destr�i completamente uma visita guiada a um museu. Esta tamb�m � outra dimens�o do respeito que � suposto haver pelo patrim�nio.
(Manuel Figueiredo)
*
� sintom�tico que no dia em que ocorreram os b�rbaros atentados de Londres, Portugal tenha assinado o acordo de extradi��o com os EUA. De facto esta not�cia passou no rodap� do "JN" sem grandes detalhes, mas penso que ela deveria ter sido, n�o sendo no dia em que foi, not�cia de primeira p�gina.

Com efeito pela primeira vez na hist�ria � poss�vel que um cidad�o nacional seja extraditado para os EUA, acusado de terrorismo desde que os EUA apresentem "provas". Estas aspas referem-se a provas como as da exist�ncia de armas de destrui��o maci�a do IRAQUE, que justificou, � revelia da comunidade internacional, a invas�o do Iraque. Uma imagem que nunca vou esquecer � de Collin Powell com um frasco de Antrax, made in USA, a discursar nas Na��es Unidas.

As minhas quest�es s�o:
Foi assegurada a reciprocidade?
Isto � se Portugal reunir provas e acusar um cidad�o dos EUA ele ser� extraditado e submetido � Lei Portuguesa?
Se n�o ent�o que acordo � este?
Que mecanismos de seguran�a e controlo foram institu�dos de modo a garantir que um qualquer cidad�o portugu�s acusado inocentemente ou n�o, n�o v� parar a Guantanamo, � revelia de todos os tratados internacionais?

Se os EUA n�o se submetem �s regras do Tribunal Internacional de Justi�a por crimes de guerra, porque temos n�s de extraditar algu�m sem garantias de que a Conven��o dos Direitos do Homem seja respeitada. Os EUA s�o um pa�s admir�vel e tem demonstrado ao longo da sua hist�ria um empenho na Luta pela Liberdade, quando isso � do seu interesse, mas a actual administra��o n�o inspira confian�a em face das suas atitudes.

O actual Ministro dos Neg�cios Estrangeiros, Prof. Freitas do Amaral, tomou posi��es corajosas aquando da Invas�o do Iraque relativas aos EUA, ser� que j� esqueceu todas as suas reservas ou como diz o poeta "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".
(Jos� Bernardo)


*

Se calhar sou eu que n�o estou ver bem a coisa.
� impress�o minha ou a nossa comunica��o social este ano est� a dourar a pilula no caso dos inc�ndios que infelizmante lavram por tudo o pa�s? � que eu bem lembro do ano passado n�o haver telejornal em que n�o viesse algu�m bramar contra o governo por causa dos fogos. Toda a gente aparecia a solicitar mais meios por parte do governo e a exigir (como foi feito) que o ministro da tutela se deslocasse aos lugares para ver in loco o que l� se passava.
Este ano NADA. Ningu�m exige, ningu�m acusa o governo e o ministro, NADA.
� o perfeito exemplo do controle dos media por uma esquerda que sempre teve por eles uma atra��o que mais cedo ou mais tarde se revelar� fatal. O povo n�o � est�pido.
(Ant�nio Lamas)
*
Gostaria de lhe relatar um caso - ainda mais micro - que se passou com a minha familia. Embora num contexto diferente do caso apresentado no seu texto, creio ser tamb�m revelador de que "quase nada funciona em Portugal, porque � que ningu�m acredita no estado, nas leis, nas autoridades, nas institui��es".

H� v�rios anos a morar num pr�dio com 8 cond�nimos, eis que recentemente o filho de um desses cond�minos achou que faria de um espa�o comum, o canil para o seu novo c�o. (...) Para al�m do regulamento do condominio proibir animais dom�sticos, obviamente que n�o se faz um canil num acesso a garagens, muito menos num espa�o do qual n�o se � propriet�rio (passo a redund�ncia, pois � acesso a garagens...). Como � �bvio a pessoa em causa n�o acatou o que lhe foi dito na reuni�o de condominio... etc...

Passando ao paralelo com o seu artigo: � revoltante ver que uma situa��o sem qualquer d�vida legal ou moral, e p�blica, pois � f�cil constatar da veracidade da hist�ria... ou seja, sem qualquer obst�culo � justi�a r�pida e eficaz... permane�a na mesma, mais de um ano depois de ter sido apresentada queixa. � muito triste. A policia limitou-se a comunicar � autarquia, da autarquia... nada. Qualquer tentativa de saber como vai o processo, esbarra num... "est� a ser averiguado." (como se houvesse algo de dificil para averiguar), ou mais caricato ainda: "o meu colega hoje n�o est� c�. Isso � com ele."(com aqueles modos � funcion�rio do "n�o me chateiem que o ordenado ao fim do m�s � o mesmo"). Enfim, � mais um processo que vai circular o tempo que for necess�rio at� ser esquecido saltando entre o departamento da "higiene e n�o sei qu�" e o gabinete do "director dos servi�os camar�rios e mais qualquer coisa". Ou pior: simplesmente parado, pois desconfio que mesmo que ande, esbarrar� em algo do g�nero: "foi-se verificar e n�o vimos nenhum c�o.". Refira-se que esta hist�ria passa-se numa pequena cidade onde toda a gente se conhece, ou perto disso.

Para al�m do paralelo com o seu texto, em que � muito triste a ac��o dos servi�os do estado, ou melhor, a falta de ac��o, gostaria de levantar uma quest�o.
Ser� que na origem desta hist�ria n�o est� tamb�m um clima de quase (por enquanto...) total impunidade? Um pa�s em que casos como o "seu" ou o "meu", n�o s�o excep��es. Esse clima tamb�m contribuir� para que qualquer troglodita saiba que sem estado de direito � a lei do mais forte, pelo menos do que se predisp�e a isso, e dessa forma sabe que far� o que quer sem que nada nem ningu�m o pare? N�o estaremos a entrar num ciclo vicioso, do qual ser� muito complicado sair? Pois por cada hist�ria destas h� sempre mais uns "espertos" que percebem o poder que t�m, e mais tarde ou mais cedo v�o us�-lo? Depois � s� uma quest�o de oportunidade e dimens�o. Butterfly effect.
Este problema de ina��o, inefic�cia, laxismo, sei l�... n�o ser� mais grave do que possa parecer? Que futuro, que evolu��o, pode haver na aus�ncia do estado de direito? Sublinhando que o estado de direito faz-se no dia-a-dia da vida dos cidad�os, e n�o numa folha de papel.
(Pedro)
 


INTEND�NCIA

Aberto de novo o sistema de coment�rios dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO a ver se volta tudo � normalidade. Actualiza��o das bibliografias em curso.

Actualizada a nota MICRO-CAUSAS / AUTORIDADE DO ESTADO? LEIS? LEGALIDADE? V�O EXPLICAR ISSO � POPULA��O DE MILAGRES, com coment�rios de leitores do Abrupto que conhecem directamente o assunto. Lendo-os percebe-se tudo melhor. Aprendi mais com eles do que lendo os jornais.
 


COISAS SIMPLES


T. Wesselmann
 


EARLY MORNING BLOGS 539

At Last the Secret is Out


At last the secret is out, as it always must come in the end,
The delicious story is ripe to tell to the intimate friend;
Over the tea-cups and in the square the tongue has its desire;
Still waters run deep, my dear, there's never smoke without
fire.

Behind the corpse in the reservoir, behind the ghost on the
links,
Behind the lady who dances and the man who madly drinks,
Under .the look of fatigue, the attack of migraine and the sigh
There is always another story, there is more than meets the
eye.

For the clear voice suddenly singing, high up in the convent
wall,
The scent of the elder bushes, the sporting prints in the hall,
The croquet matches in summer, the handshake, the cough,
the kiss,
There is always a wicked secret, a private reason for this.


(W.H. Auden)

*

Bom dia!

12.7.05
 


COISAS SIMPLES


H. Michaux
 


EARLY MORNING BLOGS 538

Un coup de mode


Cronicou Mallarm� pela moda, entre dois lances:
�Ces �ttofes: qu'en faire? Avant tout des chefs-d'reuvre�.
Sens�vel � color, muito mais � nuance,
n�o esqueceu Estef�nio o fulgor e a verve

com que, fun�mbulo, entregava ao poema
o espa�o-sil�ncio que ao poema cabia.
Calar o excesso, circunspecto, � que eu queria!
Dar a ave-seu trajar e voar-por uma pena...

�Ce bleu si p�le � reflets d'opale,
qui enguirlande quelquefois les nuages argent�s�
� lance que hoje n�o se faz, que j� n�o vale.
A tristeza � que n�o h� por lustro um Mallarm�...

Muito menos num pa�s em que a nomenclatura
despe em trapos os nomes que a moda perpetua...


(Alexandre O�Neill)

*

Bom dia!

11.7.05
 


 


 


 


 


INTEND�NCIA

Actualizados os coment�rios que s�o recebidos no S�TIO DO N�O.

Encerrados os coment�rios nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO , que est� a ser sujeito a uma chuva de mensagens de lixo sobre casinos, jogos, roletas, etc.
 


MICRO-CAUSAS

AUTORIDADE DO ESTADO? LEIS? LEGALIDADE?
V�O EXPLICAR ISSO � POPULA��O DE MILAGRES


(Como o P�blico n�o tem liga��es, e como penso que n�o se deve deixar cair estas coisas no imenso saco do encolher de ombros geral, e como sou adepto das micro-causas, aqui se reproduz o que publiquei na semana passada. )

Deixem-me rir, se fosse para rir. Um �nico caso mostra todos os dias, porque � que quase nada funciona em Portugal, porque � que ningu�m acredita no estado, nas leis, nas autoridades, nas institui��es: as descargas das suiniculturas na Ribeira dos Milagres. Foi anteontem, foi hoje, ser� amanh�. J� dura h� v�rios anos, trinta, diz o Presidente da Junta. Todos sabem, ningu�m quer saber. Ningu�m actua. Nem autarquias, nem GNR, nem Minist�rio do Ambiente, nem o Minist�rio da Agricultura, com excep��o de meia d�zia de agitadores, certamente subversivos, da Comiss�o de Ambiente e Defesa da Ribeira dos Milagres, que devem ser olhados de lado como inimigos do emprego e da economia.

Este caso at� j� chegou � televis�o, pelo que j� se utiliza armamento pesado. V�rias vezes, recorrentemente, em v�rios anos. Sem resultados. H� quest�es onde nem as armas navais, as de maior calibre, como � a televis�o, servem para nada. O que se verifica � que h� s�tios muito el�sticos do ponto de vista da resist�ncia � legalidade, quando o estado � conivente e quer fechar os olhos, em nome dos interesses mais mesquinhos de uma economia predat�ria, com for�a na pol�tica local e nacional (no Minist�rio da Agricultura pelo menos) violando os direitos dos cidad�os, com a desculpa que ainda n�o h� outra para absorver o desemprego.
S�tios onde quem manda s�o 400.000 porcos (s� no distrito de Leiria, que n�o � o �nico a ter estes problemas), o equivalente a um milh�o e duzentas mil pessoas a poluir o ambiente. Esta economia das suiniculturas despejando a c�u aberto, que vive na ilegalidade, � vista de toda a gente, ao olfacto de toda a gente, convive com outros sectores, como as pedreiras que tamb�m n�o cumprem a lei. Ora suiniculturas poluentes e pedreiras nas �reas protegidas n�o s�o actividades que possam passar despercebidas.

Voltemos � nossa Ribeira malfadada. Vistas � luz do que acontece todos os dias, � e uma descarga numa ribeira � de dif�cil contesta��o, sen�o haveria algu�m a dizer, com o mesmo estilo fabuloso mas eficaz de Artur Albarran, que nada acontece de especial, at� verdadeiramente a �gua limpa � de cor preta e n�o transparente, como esses citadinos julgam -, as declara��es das autoridades s�o pat�ticas. No P�blico, o Governo Civil de Leiria �pediu uma melhoria do relacionamento entre a popula��o da freguesia dos Milagres e os empres�rios que est�o a desenvolver um projecto de despolui��o da ribeira�, ou seja, colaborai a bem, com quem vos d� cabo todos os dias da �gua, mesmo que a lei esteja do vosso lado e a ilegalidade do outro. Comportai-vos como iguais, porque � assim que o Governo Civil vos v�, ou diz que vos v�. Na verdade, o dito Governo Civil, ou seja o bra�o do governo em Leiria, n�o acha bem que eles sejam assim muito iguais, porque usa esta classifica��o para a outra parte, �os empres�rios que est�o a desenvolver um projecto de despolui��o da ribeira�, um fabuloso eufemismo porque se est� mesmo a ver que s�o eles que a poluem.

Os homens e mulheres dos Milagres est�o claramente a �passar-se� como se costuma dizer. J� foram deitar baldes de porcaria em v�rios s�tios. O subversivo da Comiss�o de Defesa da Ribeira, faz a pergunta certa, que j� muita vez fez sem resultado: porque � que as suiniculturas identificadas como autoras das descargas n�o s�o encerradas? N�o s�o. �O senhor governador disse-nos que n�o tem poder para encerrar as suiniculturas. Se ele n�o tem, quem � que tem?" Nos Pa�os do Conselho ficaram a saber a resposta: �que os protestos "foram feitos � porta errada", porque os respons�veis ser�o os minist�rios do Ambiente e da Agricultura.� T�pico, neste caso ningu�m manda, ningu�m pode, logo ningu�m tem culpa.

Mas o representante do Governo Civil explicou-lhe esta coisa t�o miraculosa como o nome da ribeira: "A ribeira dos Milagres � a ribeira mais policiada do pa�s". Tamb�m h� dois anos o Secret�rio de Estado do governo da altura �prometeu uma "fiscaliza��o muito rigorosa a partir de Janeiro". Janeiro era o de 2004, entenda-se, antes de muitas outras descargas poluentes acontecerem na �ribeira mais policiada do pa�s.� Sim, de facto, se esta � a mais policiada e acontece o que acontece, ent�o no resto do pa�s � uma calamidade. Raz�o tem o presidente da Liga para a Protec��o da Natureza, quando diz com o mesmo desespero de causa, �N�o � ileg�timo que n�s, cidad�os, questionemos por que � que temos que cumprir a lei quando h� um sector que tem total liberdade para ter um tratamento completamente diferenciado por parte da lei�.

Pensam que estas conversas que relato s�o o resultado da descarga de ontem? Engano. S�o de h� j� quinze dias, ou seja o tempo necess�rio para mais do que uma vez, sem consequ�ncias, a ribeira tornar ao seu estado normal de cloaca su�na. S�o de h� um ano, dois, tr�s, quatro, sempre a mesma coisa. A lista de promessas � infinda, mas mesmo as promessas de limpar a Ribeira, que ali�s j� foi limpa e depois suja de novo, s�o uma distrac��o. A quest�o n�o � saber que a ribeira est� polu�da e que precisa de ser limpa, isso toda a gente sabe. A quest�o, essa sim maior do que o caso infeliz da Ribeira dos Milagres, � saber porque se pode continuar com impunidade a violar a lei e ningu�m actua.

Eu n�o sou um amador das chamadas �causas ecol�gicas� e tenho muitas objec��es � vis�o abstracta e irrealista que t�m do pa�s e das suas necessidades. Nunca na minha vida pensei escrever sobre porcos, com desculpa a vossa merc�. N�o � que o animal n�o seja nobre e n�o tenha qualidades imensas e a arte de o fazer em s�rie n�o tenha a dignidade de todas as profiss�es. Mas cada vez mais estes pequenos incidentes me parecem reveladores daquilo que n�o tem qualquer justifica��o para continuar, a n�o ser pela nossa in�rcia colectiva. � preciso envergonhar publicamente as autoridades que n�o actuam. � preciso denunciar a complac�ncia face � ilegalidade, muito mais perigosa para uma sociedade sadia do que, �s vezes, a ilegalidade.

Os homens e mulheres da Comiss�o de Ambiente e Defesa da Ribeira dos Milagres, de que n�o conhe�o nenhum, ou melhor ainda, a popula��o de Milagres, terra a que nunca fui, merecem n�o ficar sozinhos porque n�o aceitaram a inevitabilidade de serem v�timas. Mais: o seu protesto, cuja raz�o � inequ�voca, � tamb�m um s�mbolo do mar de ilegalidades que uma certa vis�o da actividade econ�mica, t�pica de um pa�s atrasado, permite subsistir. Tudo aquilo que n�o nos permite saltar em frente verifica-se neste pequeno caso, um entre muitos. Se ajudarmos a que n�o fique impune, melhoramos o nosso pa�s.

*
Quero por este meio juntar a minha voz em perfeita concord�ncia com o artigo em quest�o.S�o estas e n�o outras as principais raz�es do nosso atraso.
Eu pr�prio luto h� anos contra os abusos perfeitamente consentidos, praticados pelos estabelecimentos de divers�o nocturna, vulgo discotecas, existentes na zona onde vivo. � sempre o mesmo, nunca ningu�m � respons�vel.
Aqui h� dias, um notici�rio televis�o referia duas vi�vas de dois acidentados de trabalho que esperam h� mais de um ano pelos resultados de umas an�lises. an�lises essas necess�rias, creio que para os seguros ressarcirem as senhoras pelo funesto acidente que vitimou os maridos. A justifica��o de um qualquer organismo da tutela da sa�de era que o funcion�rio respons�vel se tinha aposentado e as an�lises tinham transitado para outro organismo.Desculpas e mais desculpas.

(M. Barrona)


*

Como empres�rio do sector suin�cola, residente numa freguesia limitada a sul pela ribeira dos Milagres, e lim�trofe � freguesia dos Milagres (...) n�o pude deixar de comentar este seu artigo do P�blico.

Antes demais deixe-me dizer-lhe que concordo em geral com o seu artigo, mas n�o posso deixar de notar que faltam algumas pe�as para o compor.

Em todas as actividades e profiss�es existem bom e maus profissionais, a suinicultura n�o foge � regra, em Leiria existem cerca de 300 suinicultores, dos quais a esmagadora maioria cumpre a lei e n�o efectua descargas ilegais para a ribeira. Uma parte deles, tem sistemas de tratamento pr�prios que funcionam e a outra parte conta com a Associa��o de Suinicultores para a recolha dos efluentes. Uma % muito pequena, as ditas "ovelhas negras" que parece viver � parte das restantes, prestando um p�ssimo servi�o ao sector e praticando actos criminosos, continua a descarregar directamente para a ribeira. Felizmente cada vez s�o menos.

H� anos a esta parte que os suinicultores, atrav�s da sua associa��o, assumiram que fazendo parte do problema queriam fazer parte da solu��o. Este comportamento que me parece in�dito do panorama empresarial nacional, embora n�o pare�a, j� produziu os seus frutos. A Ribeira dos Milagres deixou de estar polu�da, para passar a ser alvo de descargas. Nunca nos �ltimos 30 anos a �gua que corre na ribeira correu t�o limpa como corre hoje.

Nunca esteve t�o perto a resolu��o do problema, encontram-se sobre a mesa propostas de concep��o, constru��o e explora��o que de uma vez por todas poder�o p�r termo ao problema. Mas as "ovelhas negras" n�o est�o s� na suinicultura. A escolha final est� dependente de uma posi��o que o poder central ter� que definir, e que governo atr�s de governo, ministro atr�s de ministro, secret�rio de estado atr�s de secret�rio de estado, tem sido protelada. N�o estou a falar de financiamento, pois os suinicultores j� o garantiram, estou apenas a falar da defini��o de uma politica energ�tica, com defini��es de tarifas, pontos de interliga��o e de pot�ncia.

Tudo o que estava ao alcance dos suinicultores est� realizado, falta a defini��o da �ltima inc�gnita para que a equa��o final esteja conclu�da, inc�gnita essa que s� o estado pode definir.

Sou suinicultor, tenho 32 anos, quero continuar a ser suinicultor nos pr�ximos 30, e sei que s� o posso ser de uma forma respons�vel, em perfeita harmonia com a sociedade e com o meio ambiente.

Lamento que sejamos colocados todos num mesmo saco, principalmente quando o r�tulo do saco � obtido atrav�s de 1 ou 2.

Gostaria que os habitantes dos milagres que mediatizam este problema, que s�o apenas meia d�zia, sendo conhecedores do processo de despolui��o em curso, fossem mais justos e valorizassem o trabalho feito e as melhorias observ�veis na ribeira.

Com este coment�rio espero que fique claro que, tal como a esmagadora maioria dos suinicultores da regi�o, repudio qualquer forma de polui��o e n�o defendendo os prevaricadores, lamento profundamente a cataloga��o que nos � atribu�da a todos.
(Diamantino Ca�ador)

*

Esta institui��o (Gabinete Jur�dico da Comiss�o de Coordena��o e Desenvolvimento Regional do Centro) tomou todas as fun��es das anteriores CCR`S juntamente com as Direc��es Regionais do Minist�rio do Ambiente e Ordenamento do Territ�rio, cabendo-lhe entre outras compet�ncias (que exercidas a seu tempo teriam precavido o problema que alimenta a sua micro-causa) o licenciamento (ou n�o) de utiliza��es do dom�nio h�drico como as descargas de efluentes tal como posterior sancionamento contra-ordenacional por pr�ticas infraccionais ao regime de utiliza��o do dom�nio h�drico (utiliza��o obrigat�riamente sujeita a licen�a; cumprimento dos seus clausulados, etc...).

Pois que � sorte de todos os dias defrontar processos de contra-ordena��o relativos � descarga il�cita de efluentes suin�colas, seja na ribeira dos milagres ou noutras ou ainda, grav�ssimo problema, no solo (o qual j� n�o tolera mais cargas, com consequente impraticabilidade agr�cola e insalubridade de aqu�feros submersos) o problema, estou em crer, reside nos particulares produtores de su�nos (nalguns casos, perdoe-se-me a liberdade, mais porcos que os seus b�coros) e aus�ncia de reac��o estatal.
Aqui, os autos de not�cia juridicamente inaptos para conduzirem a uma san��o pecuni�ria, que na sua fixa��o, leve em conta os benef�cios obtidos com a infrac��o e danos por ela provocados s�o mais que muitos, valendo-nos por vezes de uma certa "insensibilidade" t�cnica para que possamos sequer fixar uma condena��o pelo montante m�nimo (�2.500,00).
Perante a sindic�ncia jurisdicional a que estas decis�es se encontram sujeitas no interesse do arguido, muitas vezes elas caem por terra ou s�o substituidas por admoesta��es (solu��o constitucionalmente duvidosa por ser esta uma san��o colocada na depend�ncia de um juizo de oportunidade, embora com momentos de vincula��o expressa, da administra��o).

S�o anos a fio nestas lutas....os Vigilantes da Natureza (do quadro das CCDR`S) e os GNR`S-EPNA visitam as instala��es e ocorrem �s den�ncias levantado autos que muito a custo se conseguem reparar nas suas insufici�ncias, o org�o decisor e instrutor desses autos tem apenas um jurista (chefe de divis�o) a quem se exige que trate de todo o dia-a-dia jur�dico da institui��o acrescido de 4.000 processos anuais de contra-ordena��o (da� o recurso a inexperiente, verd�ssima, m�o-de-obra estagi�ria) tal como orienta��es das chefias no sentido de "suspender" certas coimas mediante a aposi��o de injun��es de comportamento � arguida (medida de todo em todo inadmiss�vel no campo das contra-ordena��es mas, pior, os servi�os n�o t�m capacidade humana de verificar o cumprimento) visto o "alcance" econ�mico do sector, que ali�s t�o bem j� real�ou.

De 3.000 suiniculturas temos agora algumas 5, 6 centenas...

Mas um pouco como em muitos "projectos" em Portugal, aqui tamb�m conhecemos as negocia��es intermin�veis de uma solu��o, cujos fundos de implementa��o consta que ter�o j� financiado, para al�m de ligeiras patuscadas, alguns todo-o-terreno que circulam no mais in�spito dos alcatr�es: o citadino.

A sua micro-causa, se me permite, � um epifen�meno de macro-causas da nossa estrutural debilidade c�vica e estatal, � mais um manto sobre o qual se abrigam irresponsabilidades, incompet�ncias, insufici�ncias, insensibilidades e imbecilidades v�rias.
(Autor identicado)

*

Como em todas as micro(e grandes)causas e situa��es em que algu�m entra de boa f� para combater uma injusti�a, compreende-se que ao amplificar alguns argumentos, para agitar as consci�ncias, surjam alguns danos colaterais.

N�o colocando em causa que quem prevarica e altera o bem estar do(s)
pr�ximo(s) deve ser responsabilizado a situa��o nem sempre � assim t�o simples pelo que frases como a que escreveu s�o de um manique�smo redutor:


�O que se verifica � que h� s�tios muito el�sticos do ponto de vista da resist�ncia � legalidade, quando o estado � conivente e quer fechar os olhos, em nome dos interesses mais mesquinhos de uma economia predat�ria, com for�a na pol�tica local e nacional (no Minist�rio da Agricultura pelo
menos) violando os direitos dos cidad�os, com a desculpa que ainda n�o h� outra para absorver o desemprego.�


Passo colocar alguns pontos que derivam ter tido contacto profissional com esta situa��o h� poucos anos atr�s e penso que a situa��o n�o se alterou
significativamente:

- Infelizmente o quadro legal, ao qual est� sujeito a suinicultura, n�o � muito claro e envolve uma mir�ade de actores p�blicos que entravam n�o s� a actividade econ�mica assim como a pr�pria ac��o do Estado;

- Um suinicultor enquanto agente econ�mico tem que contactar com a autarquia para o licenciamento das suas constru��es (o que por vezes lhe impossibilita a amplia��o de uma fossa); tem que contactar com o minist�rio da agricultura (particularmente para quest�es sanit�rias e de bem estar animal), e tem que contactar com o minist�rio do ambiente para quest�es referentes a descargas no meio h�drico (esta sim a entidade com verdadeiras responsabilidades sobre a polui��o);

-A inexist�ncia de uma legisla��o clara leva a situa��es de absurdo, seja de actua��es diversas para situa��es id�nticas variando com a sede/autarquia (muitas vezes de um produtor nem sequer saber o que tem que cumprir!) chegando a verificar-se de n�o se saber quem � a entidade que tem capacidade para encerrar uma unidade;

- A actividade da suinicultura em ciclo fechado que � aquela que predomina em Leiria, tem uma hist�ria (muitas das unidades existentes foram implantadas por retornados) que faz com que o seu car�cter industrial n�o recorra ao capital-terra e � semelhan�a da maioria dos outros Estados-membros da UE fosse progressivamente intensificando-se (note-se que neste sector as ajudas de mercado comunit�rias s�o praticamente inexistentes ou mesmo nulas como em Portugal);

- Este problema foi(�) vivido noutros pa�ses caso da Holanda e Dinamarca (que tem mais do dobro de porcos que habitantes) onde derivado da evolu��o, cada vez mais restritiva em termos ambientais e de ordenamento territorial, o Estado foi criando incentivos para o abandono da actividade e/ou esquemas apertados de medi��o input/output de mat�rias org�nicas criando condi��es para a sua mercantiliza��o. Ou seja, a adapta��o a normas mais exigentes n�o encarou o sector como uma �economia predat�ria� antes sim contratualizou essas novas exig�ncias;

- Grande parte dos suinicultores de Leiria est� envolvido num projecto para despolui��o, o qual ao contr�rio dos anos 80 n�o recorre a investimentos em estruturas inoperacionais a fundo perdido, mas recorrendo a um grande esfor�o de endividamento, e ao pagamento de taxas para despolui��o cont�nua dos seus efluentes, obviamente quem ficou fora deste projecto, com apoios p�blicos dever� ser questionado...

Todo este meu arrazoado pretende dizer que nunca existe s� um culpado neste tipo de quest�es, o argument�rio tem pouco a ver com a chantagem do desemprego, antes sim com um conjunto de empres�rios que actuam num sector deficit�rio da economia nacional, muitos deles empenhados em adaptar-se �s novas exig�ncias quer de um mercado que exige produtos a baixo pre�o, quer das exig�ncias de bem-estar animal, sanit�rio e da qualidade dos recursos, particularmente o solo e a �gua.


Conseguisse o Estado criar um quadro legal claro e articulasse os seus servi�os seria muito mais f�cil separar o trigo do joio.

Muita desta quest�o est� relacionada com o crescente protagonismo que a �rea do ambiente e ordenamento do territ�rio tem na agenda pol�tica sem a consequente repercuss�o ao n�vel do terreno (e pelo que leio do seu artigo, mesmo contando com as ressalvas, � implicitamente o lado dos �bons� sendo a agricultura a dos �interesses mesquinhos�). A nega��o de uma situa��o de partida � o pior meio para que se fa�am vingar pol�ticas de adapta��o ambiental, nesse quadro o pol�tico, o legislador e o funcion�rio acabam por entrar num jogo de legitimidades com sinal oposto.

Caso o interesse nacional (ou local) seja eliminar as suiniculturas assuma-se essa op��o, respeitando-se / n�o se violando �os direitos dos cidad�os� incluindo aqueles que investiram ao longo dos anos com base num determinado quadro legal (in)existente. A legisla��o positiva fora da realidade s� n�o � um pequeno totalitarismo porque esse tipo de imposi��o, por ser impratic�vel, acaba por desvalorizar a pr�pria lei.
(Miguel Rebelo)
 


COISAS COMPLICADAS


Edward Hopper
 


EARLY MORNING BLOGS 537

Acquainted With The Night


I have been one acquainted with the night.
I have walked out in rain -- and back in rain.
I have outwalked the furthest city light.
I have looked down the saddest city lane.
I have passed by the watchman on his beat
And dropped my eyes, unwilling to explain.

I have stood still and stopped the sound of feet
When far away an interrupted cry
Came over houses from another street,

But not to call me back or say good-bye;
And further still at an unearthly height,
O luminary clock against the sky

Proclaimed the time was neither wrong nor right.
I have been one acquainted with the night.


(Robert Lee Frost)

*

Bom dia!

9.7.05
 


NO MEIO DO MAR

numa ilha algures.
Em breve, regresso.
Regressa-se sempre ao local do crime, n�o � verdade?

6.7.05
 


AR PURO


Turner
 


EARLY MORNING BLOGS 536

Friday Night at the Royal Station Hotel

Light spreads darkly downwards from the high
Clusters of lights over empty chairs
That face each other, coloured differently.
Through open doors, the dining-room declares
A larger loneliness of knives and glass
And silence laid like carpet. A porter reads
An unsold evening paper. Hours pass,
And all the salesmen have gone back to Leeds,
Leaving full ashtrays in the Conference Room.

In shoeless corridors, the lights burn. How
Isolated, like a fort, it is ---
The headed paper, made for writing home
(If home existed) letters of exile: Now
Night comes on. Waves fold behind villages.


(P. Larkin)

*

Bom dia!

5.7.05
 


COISAS COMPLICADAS


Harry Callahan, Telephone wires
 


EARLY MORNING BLOGS 535

� como se tivesses m�os ou garras


I


� como se tivesses m�os ou garras
milh�es de dedos bra�os infinitos
� como se tivesses tamb�m asas
libertas do min�rio dos sentidos
� como se nos p�ncaros pairasses
quando nas nossas veias � que vives
� como se te abrisses - � terra�o
rodeado de abutres e ra�zes -
sobre o perene p�nico dos astros
sobre a constante ins�nia dos abismos
E � como se te abrisses e fechasses
sobre a antepalavra do Esp�rito
� como se morresses quando nasces
� como se nascesses quando expiras

II

� claridade � vaga � luz � vento
que no sangue desvendas labirintos
� varanda no mar sempre Setembro
� dourada manh� sempre Domingo
� sereia nas dunas irrompendo
com as dunas e o mar se confundindo
� corpo de desperta adolescente
j� no centro de inc�gnitos caminhos
que por fora te aceitas e por dentro
p�es em d�vida o sol do teu fasc�nio
� d�vida que avan�as mas por entre
volutas de pavor que vais cingindo
� altas labaredas � inc�ndio
� Musa a renascer das pr�prias cinzas

III

S� tu a cada instante nos declaras
que renegas a voz de quem divide
Que a �nica verdade � haver almas
terr�vel impostura haver pa�ses
Que tanto tens das aves o desgarre
como o expectante fr�mito do tigre
tanto o c�u indiviso que h� nas �guas
quanto o m�ltiplo fogo que h� no trigo
Que �s igual e diversa em toda a parte
Que �s do pr�prio Universo o que o sublima
Que nasces que te apagas que renasces
em procura da l�mpida medida
Que reges o mais puro e o mais alto
do que Deus concedeu �s nossas vidas


(David Mour�o Ferreira)

*

Bom dia!

4.7.05
 


TRETAS

Os movimentos anti-globaliza��o foram mais uma vez manifestar-se no s�tio onde se vai realizar o G8, �contra a pobreza� gerada pelo capitalismo. Este � um dos maiores enganos que se pode alimentar: grande parte da pobreza africana n�o existe � m�ngua de ajuda humanit�ria, mas devido � enorme corrup��o dos regimes africanos, � engenharia social, c�pia mim�tica do marxismo europeu, que levou � destrui��o do pouco que os regimes coloniais tinham deixado, �s guerras civis tribais e, se se quiser, nos tempos mais recentes, ao proteccionismo, principalmente europeu, que impede muitos produtos agr�colas africanos de entrarem nos mercados ricos. � mais globaliza��o que os pa�ses pobres de �frica precisam e acima de tudo, intransig�ncia contra a corrup��o dos seus dirigentes.

Estava a pensar escrever isto, ao ver o folclore escoc�s, quando a RTP1 passa uma pequena pe�a sobre Angola, em que a palavra corrup��o n�o � pronunciada, e em que n�o se explica como � que se pode ter petr�leo e diamantes, um dos melhores e mais bem equipados ex�rcitos de �frica, uma elite riqu�ssima que manda os filhos estudar para a Sui�a e�nada para a esmagadora maioria da popula��o. Mas a culpa � do capitalismo e do G8. � isto informa��o.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: GRANDE TIRO! (2)


Palavras para qu�? � um artista americano no 4 de Julho.
 


A LER / VER

Researchers explore whether parrot has concept of zero

Hoje, a Astronomy Picture of Today, aqui, na Terra, vale toda a pena e o m�sero trabalho de um clic.

Dear Blog: Today I Worked on My Book. So did I.
 


PEQUENOS SABERES

O vento est� o que est�. Uma trepadeira funciona como um len�ol ao vento, ondula de uma ponta � outra, com suavidade e for�a, porque est� muito vento. Ferros, arames, entrela�ados nos ramos, dobram-se e estendem-se para voltar ao s�tio inicial. Dois pontos permanecem absolutamente r�gidos, onde nada se move. Em cada um, dentro de cada um, est� um ninho. Quem sabe, sabe.
 


COISAS SIMPLES


Toulouse-Lautrec
 


EARLY MORNING BLOGS 534

Nem sempre o corpo se parece


Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro cante na neve.
H� um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de l�bios, digo.


(Eug�nio de Andrade)

*

Bom dia!
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, liga��es, notas e bibliografia.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: GRANDE TIRO!



Faz-me o dia! V� l� se te atreves! Faz-me o dia!
Deixem-se l� de anglicismos!D�-me um gosto! Brinda-me! Chega-te c�!
Disseram eles.
E fez mesmo. E n�o � que fez mesmo!

3.7.05
 


O MUNDO �S AVESSAS

Ontem em Peniche, na Fortaleza, na cela de Cunhal, em cima de cada um dos seus desenhos, tinha sido deixada uma flor de sardinheira vermelha . As flores j� estavam murchas, j� l� devem estar h� v�rios dias, deixadas por algu�m que assim o quis lembrar na morte. N�o faltava uma �nica, sinal que ningu�m interferiu na homenagem simples. Mais: quem passava, arranjava o humilde ramo, da mais humilde e resistente planta, de modo a ficar bem no centro do desenho. Vi fazer o mesmo em Veneza, no t�mulo de Pound. Mas aqui h� outra coisa. Se Cunhal n�o fosse quem fosse, estariamos a caminho de ter santo.
 


A LER / A VER COISAS QUE S� H� NOS BLOGUES

e em mais s�tio nenhum (hoje, antes havia nalguns jornais) como esta pequena hist�ria,

ou o fogo do S. Jo�o no Porto.
 


COISAS SIMPLES


Laurence Stephen Lowry
 


EARLY MORNING BLOGS 533

Cantan os galos pra o d�a
�rguete, meu ben, e vaite.
- �C�mo me hei de ir,
c�mo me hei de ir e deixarte?

- Deses teus olli�os negros
como doas relumbrantes,
hastra as nosas maus unidas
as b�goas ardentes caen.
�C�mo me hei de ir
si ca lengua me desbotas
e co coras�n me atraes?
Nun corruncho do teu leito
cari�osa me abrigaches;
co teu manso calori�o
os fr�os pes me quentastes;
e de aqu� xuntos miramos
por antre o verde ramaxe
c�l iba correndo a l�a
por enriba dos pinares.
�C�mo queres que te deixe?
�C�mo, que de ti me aparte
si m�is que a mel eres
e m�is que as froles soave?

- Meigui�o, meigui�o, meigo,
meigo que me namoraste,
vaite de onda min, meigui�o,
antes que o sol se levante.

- Ainda dorme, queridi�a,
antre as ondi�as do mare;
dorme porque me acari�es
e porque amante me chames,
que s�lo onda ti, meni�a,
podo contento folgare.

- Xa cantan os paxari�os.
�rguete, meu ben, que � tarde.

- Deixa que canten, Marica;
Marica, deixa que canten...
Si ti sintes que me vaia,
eu relouco por quedarme.

- Conmigo, meu queridi�o,
mit� da noite pasaches.

- Mais en tanto ti dorm�as,
content�ime con mirarte,
que as�, sorrindo entre so�os
coidaba que eras un �nxel,
e non con tanta purea
e non con tanta pureza
� pe dun �nxel velase.

- As� te quero, meu ben,
como un santo dos altares;
mais fuxe..., que o sol dourado
por riba dos montes saie.

- Ir�i; mais dame un biqui�o
antes que de ti me aparte,
que eses labi�os de rosa
inda non sei c�mo saben.

- Con mil amores cho dera;
mais te�o que cofesarme,
e moita vergonza fora
ter un pecado tan grande.

- Pois conf�sate, Marica,
que, cando casar nos casen,
non che han de valer, meni�a,
nin confesores nin frades.
�Adi�s, cari�a de rosa!

- �Raparigo, Dios te garde!


(Rosalia de Castro)

*

Xa cantan os paxari�os, bom dia!

2.7.05
 


COISAS COMPLICADAS


Gabriel Orozco, Horses running endlessly (in 65 parts)
 


EARLY MORNING BLOGS 532

M�quina Breve


O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
� meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de ex�guas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e � um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em r�pida seta.
Quebrou-se a m�quina breve
na precipitada queda.
E o maior s�bio do mundo
sabe que n�o a conserta.


(Cec�lia Meireles)

*

Bom dia!

1.7.05
 


COISAS COMPLICADAS


Nan Goldin, Suzanne with Mona Lisa, Mexico City
 


EARLY MORNING BLOGS 531

Presen�a em Pomp�ia


Esta conta n�o pagar�s:
� ficar� sob uma cinza que n�o sabes.

Sob a cinza que ainda n�o sabes
ficar� teu filho por nascer
e tamb�m os meninos que j� sabiam desenhar nos muros.

Ficar�o os figos que ontem puseste na cesta.
Ficar�o as pinturas da tua sala
e as plantas do teu jardim, de est�tuas felizes,
sob a cinza que n�o sabes.

Os gladiadores anunciados n�o lutar�o
e amanh� n�o ver�s, pr�ximo �s termas,
a mulher que desejavas.

Tu ficar�s com a chave da tua porta na m�o;
tu, com o rosto da amada no peito;
amo e servo se unir�o, no mesmo grito;
os c�es se debater�o com morda�as de lava;
a m�o n�o poder� encontrar a parede;
os olhos n�o poder�o ver a rua.

As cinzas que n�o sabes voar�o sobre Apolo e �sis.
� uma noite ardente, a que se prepara,
enquanto a luz contorna a coluna e o jato d'�gua:
� a luz do sol que afaga pela �ltima vez as roseiras verdes.


(Cec�lia Meireles)

*

Bom dia!

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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