ABRUPTO

30.6.05
 


INTEND�NCIA

Actualizado o EARLY MORNING BLOGS 530.
 


A LER

um dos "poemas da minha vida", Com a Usura de Pound, traduzido por Goulart Nogueira, e transcrito no Quartzo, Feldspato e Mica. Como com muitos outros, foi o Eug�nio que mo deu a ler e tamb�m tinha a estrelinha (ou asterisco) aqui

COM A USURA
a l� n�o chega aos mercados
os carneiros n�o ganham l� com a usura
A usura � uma peste, a usura torna romba a agulha nas m�os da virgem
e embara�a os gestos da fiandeira.
Pietro Lombardo n�o veio pelo caminho da usura.
Duccio n�o veio pela usura
Nem Pier della Francesca; Zuan Bellin` tamb�m n�o foi pela usura
nem foi com ela que pintaram �La Calumnia�.
N�o foi pela usura que veio Angelico; nem Ambrogio Praedis,
Nem veio a igreja talhada em pedra assinada: Adamo me fecit.


e sempre pensei que tinha um verso que vejo agora que n�o tinha, sobre o ouro que faltaria a Duccio, por causa da usura. Estaria no original? N�o sei, nem posso verificar. Seria noutro poema?

S� mais uma nota: penso, tamb�m n�o verifiquei, que este poema como muitos outros, foram publicados na melhor revista quase fascista portuguesa, o Tempo Presente.

*

Ver de Manuel Resende Usura dois, no mesmo Quartzo, Feldspato e Mica. Mas nalgum s�tio li, num coment�rio talvez, a hist�ria do ouro. Para quem n�o saiba o ouro dos quadros de Duccio (e dos outros pintores da �poca) era mesmo ouro, em folhas fin�ssimas coladas , por exemplo, para fazer as aur�olas dos santos.
 


AR PURO


Ivan Shishkin
 


EARLY MORNING BLOGS 530

Sing Me a Song with Social Significance

I'm tired of moon gons, of star and of June songs,
They simply make me nap.
And ditties romantic drive me nearly frantic,
I think they're all full of pap.
History's making, nations are quaking,
Why sing of stars above?
For while we are waiting, father time's creating
New things to be singing of...

Sing me a song with social significance,
All other tunes are taboo.
I want a ditty with heat in it,
Appealing with feeling and meat in it.
Sing me a song with social significance,
Or you can sing till you're blue,
Let meaning shine from every line
Or I won't love you.

Sing me of wars, sing me of breadlines,
Tell me of front page news,
Sing me of strikes and last minute headlines,
Dress your observations in syncopation.

Sing me a song with social significance,
There's nothing else that will do.
It must get hot with what is what
Or I won't love you.

Sing me a song with social significance,
All other tunes are taboo,
I want a song that's satirical,
And putting the mere into miracle.
Sing me a song with social significance,
Or you can sing till you're blue,
It must be packed with social fact
Or I won't love you.

Sing me of crime and conferences martial,
Tell me of mills and of mines,
Sing me of courts that aren't impartial,
What's to be done with 'em? Tell me in rhythm.

Sing me a song with social significance,
There's nothing else that will do.
It must be dense with common sense
Or I won't love you.


(Harold Rome)

*

Em 1937, Rome escreveu esta can��o para um espect�culo musical na Broadway chamado Pins and Needles, representado por filiados no sindicato ILGWU (International Ladies Garment Workers Union). Foi um dos maiores sucessos da Broadway antes da guerra.

Bom dia, nestes tempos de "social significance" sem can��es "with social significance"!

*
Nem de prop�sito, este poema quando pensava exactamente que um dos grandes problemas do nosso tempo � uma enorme aus�ncia de outras metas, outros valores, outros objectivos, que n�o a satisfa��o do ego.

Fen�meno ali�s bem vis�vel na muito activa blogosfera, espelho do mundo, reflectindo-o em directo e a cores (muitas vezes apenas em diversos tons de cinzento), com implos�es, irrita��es, trocas de insultos ou de apaixonados elogios e at� lutas aparentemente fratricidas, evidentes sintomas da falta de outro valor que n�o o �eu�. Fazem-se grandes discursos, (vazios, se perdermos tempo a l�-los bem) onde come�am por erguer um cartaz que diz: Eu sou � de direita, de esquerda, liberal � enfim, um qualquer estandarte. E, vai da�, toca a debitar cita��es de autores que n�o leram, ou se leram n�o perceberam, exibindo erudi��o e grandiloqu�ncia numa tentativa de esmagar o interlocutor e de levar mais um escalpe para a galeria de trof�us.

Uns, sentam-se de cartola e charuto. Outros, de manga arrega�ada e punho em riste. Envergam identidades alheias e reeditam lutas, batalhas e discuss�es que j� se tiveram, j� se perderam e j� se ganharam. J� foram. O que n�o se v� � uma ideia pr�pria, uma an�lise elaborada e sustentada, uma novidade, um contributo, uma mais valia.

Mas onde realmente se excitam muito (embora tamb�m ai inovem pouco) � no ataquezinho pessoal, nas minud�ncias, no insulto f�cil e histri�nico que nada tem a ver com ideias ou projectos. Porque em tudo se v� um ataque pessoal, um interesse, uma vaidade. Estamos todos mortos por identificar inten��es pessoais, pequeninas, direccionadas: ai que isto � para mim! Espera ai que j� te digo!

Enfim, um mundo, cuja dimens�o n�o ultrapassa a do nosso pr�prio ego.

(RM)

29.6.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES
APRENDENDO COM IGNAZIO SILONE

"Se quer dizer que em cada �poca a pol�tica tem os seus mist�rios, dou-lhe toda a raz�o. A literatura que tratava a arte da pol�tica como uma ci�ncia oculta floresceu na �poca do absolutismo, quando, devido aos frequentes conflitos entre autoridade civil e religiosa e devido tamb�m � decad�ncia da teologia, j� n�o era �til nem c�modo insistir em fazer provir a soberania das m�os de Deus. N�o podendo por�m substituir a investidura divina por uma investidura popular (�) a autoridade foi levada a envolver-se em mist�rio.

(�) Gustav Freytag reproduz um dos manuais ent�o em voga sobre os segredos da arte de governar, a Ratio Status, de 1666, e faz dele uma divertida par�dia. O jovem considerado apto para as fun��es de conselheiro de pr�ncipe � introduzido nos aposentos secretos em que s�o ciosamente conservados os Arcana Status inerentes � sua nova e alt�ssima fun��o: uniformes de Estado, �culos de Estado, p� para os olhos, etc. H� uns mantos especiais de Estado que conferem a quem os enverga a devida autoridade e rever�ncia e se chamam salus populi, bonum publicum, conservatio religionis, conforme servem para extorquir novos impostos aos s�bditos ou para mandar para o ex�lio e expropriar os opositores, sob o pretexto sempre eficaz de que eles s�o difusores de doutrinas her�ticas. Um outro manto, completamente co�ado pelo uso quotidiano, chama-se intentio, boa inten��o, e serve para justificar o que quer que seja. Com os �culos de Estado entra-se em pleno ilusionismo: permitem eles ver o que n�o existe e n�o ver o que existe, aumentam os factos sem import�ncia e encolhem os acontecimentos graves. Mas actualmente obt�m-se id�nticos resultados com encena��es mais simples. �

Ignazio Silone, A Escola dos Ditadores. Lisboa, Morais Editora

(enviado por Cristiana Tourais)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: TIRO NO NAVIO ALMIRANTE... ESPERA-SE



a 3 de Julho. Se tudo correr bem, se chegar l� o navio direito (com o cinematogr�fico nome de Deep Impact), se o canh�o funcionar, se o alvo n�o se mexer de forma diferente da habitual, se .... Se tudo correr bem para n�s e mal para o cometa que leva o tiro, honra seja feita a Ernst Wilhelm Leberecht Tempel que o descobriu, com um fogo de artif�cio especial.

28.6.05
 


ADEUS

Artigo publicado no "Mil Folhas" do P�blico, dedicado a Eug�nio de Andrade.

Conheci o Eug�nio por volta de 1965, tinha ele acabado de escrever o Ostinato Rigore. Mais � frente voltarei a este livro, um marco na obra do Eug�nio e, de algum modo, na sua vida. Tinha publicado sobre ele um texto ing�nuo e juvenil no jornal do liceu, mas que n�o enganava no entusiasmo. O Eug�nio quis conhecer-me e iniciamos uma longa amizade, entrecortada durante v�rios anos pelas minhas itiner�ncias, e retomada por correspond�ncia nos seus �ltimos anos de lucidez. A �ltima vez que o encontrei foi depois do seu anivers�rio, pouco antes de morrer e entrava pelos olhos dentro que iria ser o �ltimo encontro. Eu sabia, ele n�o.

O Eug�nio mudou a minha vida muito para al�m da amizade, porque me �educou�, dando-me a ler e discutindo (mais conversando do que discutindo) o que lia. Por m�o dele li A Montanha M�gica, a Morte em Veneza, de Mann, Narciso e Goldmundo de Hesse, as Mem�rias de Adriano da Marguerite Yourcenar, os Cadernos de Malte de Rilke, muita poesia, Holderlin, Rilke, Novalis, Goethe, nas tradu��es de Quintela, Lorca, nas do pr�prio Eug�nio, Walt Withman, Eliot, Pound, Apollinaire, Michaux, Ren� Char, Perse, Valery, muitos na colec��o dos �Poetes d�Aujourd�hui� da Seghers. Mas n�o eram s� livros, eram tamb�m poemas isolados. Poemas individuais, de Cernuda, Vicente Aleixandre, Antonio Machado, as �Coplas por la muerte de su padre� de Jorge Manrique, muita da poesia espanhola que ele amava e o tinha �feito�, �La Complainte� de Rutebeuf, Villon, Shakespeare, enfim, quase tudo. Tudo certo e na altura certa, porque se h� coisas que os amadores de palavras sabem � que h� alturas certas para ler determinados livros e eles s� s�o os �livros da nossa vida� quando s�o lidos nessa altura. Depois passa.



J� o contei. N�o eram apenas os livros, eram os livros que o pr�prio Eug�nio lera e que deixara marcados com as suas anota��es pessoais, os sublinhados; o tra�o ao lado, umas vezes acrescentado ao sublinhado, aumentando o interesse, outras vezes sem o sublinhando, denotando um interesse menor; o cl�max, para a prosa, dos dois tra�os ao lado como em partes do di�logo em franc�s de Hans Castorp com Cl�udia Chauchat; o asterisco, ou dois ou tr�s, marcando poemas ou linhas de poemas, �s vezes, mais raras, um ponto de exclama��o ou de interroga��o. Os versos do asterisco ficavam sempre, como estes de S� de Miranda

O sol � grande: caem coa calma as aves,
Do tempo em tal saz�o, que s�i ser fria.

ou o solit�rio

Que Farei Quando Tudo Arde?

ou o de Rimbaud

Oisive jeunesse
� tout asservie;
Par d�licatesse
J' ai perdu ma vie.

e muitos outros asteriscos ao lado das palavras que ficam �nossas�.

Nesses primeiros anos de amizade, o Eug�nio fez as suas antologias sobre o Porto, mais tarde sobre Coimbra, escreveu textos para cat�logos dos amigos comuns, o Jos� Rodrigues, o �ngelo, o Armando Alves, publicou pequenas edi��es quase confidenciais de meia d�zia de poemas, reviu as suas tradu��es de Lorca. Trabalhei com ele no volume sobre o Porto, o Daqui Houve Nome Portugal, e um pouco em todas as outras coisas, recolhendo a sua bibliografia para uma antologia de ensaios na qual reincidi com um outro texto marcado pelo mesmo entusiasmo juvenil, que n�o se repete. Mas, nesses anos, escreveu muito pouca poesia.

Quando o conheci, o Eug�nio estava convencido de que a sua voz secara. Secara de uso, secara de sede, secara porque as palavras se tinham transformado em gr�os de areia e j� n�o flu�am. Mais: ele estava convencido que isso n�o se devia a uma crise da sua escrita, mas a uma consequ�ncia natural do modo como escrevia poesia. Tinha levado t�o longe a conten��o, o valor �nico de cada palavra, a perfei��o formal do poema � a que Eug�nio dava uma grande aten��o, ele que era tudo menos repentista � que tinha encontrado a face do sil�ncio, tinha chegado naturalmente ao sil�ncio. A crise do Ostinato Rigore era isso, as palavras tinham-se de tal modo incrustado em si mesmas, que n�o corriam, n�o voavam, n�o flu�am como um rio, eram apenas seixos. Eug�nio tinha levado t�o longe quanto sabia e podia, o seu perfeccionismo formal, o seu �rigor�, nas palavras, que temia que elas s� fossem perfeitas assim, s�lidas. Encontrava, em Quas�modo e Montale, o mesmo processo, dois autores a que muito se referia quando falava da po�tica do Ostinato Rigore.

Depois recome�ou de novo a escrever poesia. A m�sica teve nesse retomar da palavra um papel importante. Eug�nio participava num ritual peri�dico de audi��o dos discos que Manuel Dias da Fonseca, amigo, poeta e mel�mano, fazia na sua casa de Matosinhos. Lembro-me da surpresa que teve a primeira vez que ouviu a voz de Alfred Deller, a cantar versos de Shakespeare e can��es de Purcell, e do gosto por Bach, por Haydn, por Mozart, pelos quartetos de Beethoven. V�rias vezes se referiu a Mozart, como seu �mulo, mas se se sentia mais pr�ximo de Mozart pelo gosto, reconhecia nos Quartetos uma dimens�o tr�gica que sabia humana, mesmo que em grande parte alheia � sua poesia pag�. As viagens que fez, � Gr�cia em particular, tamb�m o levaram a esse retomar da poesia, assim como a consci�ncia da experi�ncia que se aproximava e que ele mais temia: a da idade.

Pouco a pouco, fomo-nos vendo menos. A pol�tica pura e dura dos anos setenta, a dist�ncia, alguma desaten��o, mais minha do que dele, que v�rias vezes protestou, at� em p�blico, espa�ou os nossos encontros. � a vida que � assim, e talvez lhe tenha faltado em momentos em que precisava. N�o sei, talvez. Ele, pelo contr�rio, continuava perto e nunca a sua palavra se afastou de mim, do mesmo encantamento inicial, da surpresa que a grande poesia traz consigo � como � poss�vel escrever assim, ver estas palavras assim, dizer isto assim? Ele sabia como.

Adeus.
 


ERROS, PERIP�CIAS, ASNEIRAS, DISTRAC��ES



Alguns apoiantes ferrenhos do governo extinto dos doutores Lopes e Portas desenvolvem uma intensa ind�stria de ca�a �s trapalhadas do governo actual, para mostrarem n�o s� que h� duplicidade nos media � evid�ncia das evid�ncias � mas tamb�m similitudes na governa��o de baixa qualidade. Terminam sempre com ar vingativo: e ent�o o sr. Presidente a estes n�o dissolve? Para al�m do masoquismo inerente ao exerc�cio, mostra uma forma muito particular de ressentimento.

Esta enumera��o das trapalhadas � uma pura distrac��o que nunca levar� o governo S�crates a conhecer o mesmo destino do de Santana Lopes, pela simples raz�o que h� uma diferen�a abissal que separa os dois. O de S�crates tem uma forte legitimidade eleitoral, formal e real, e n�o a perdeu, pelo contr�rio a refor�ou, com as medidas de pol�tica que tomou. E, por muitas voltas que se d�, erros, perip�cias, asneiras, distrac��es, mesmo quando semelhantes, n�o v�o dar ao mesmo resultado porque n�o t�m a mesma dimens�o nem s�o vistas pelas pessoas isentas como sendo da mesma natureza.

Os erros, perip�cias, asneiras, distrac��es, do governo anterior iam ao cora��o do poder, directamente aos lugares cimeiros da governa��o e eram vistos como extens�es da identidade e do estilo dos governantes. Mais: eram potenciados na primeira pessoa, por ditos e eventos, que punham em causa a compet�ncia do governo na sua condu��o central, e encontravam todos os dias novas justifica��es para que a suspeita de incompet�ncia fosse mais do que isso, mas sim uma realidade.

Culminaram na campanha eleitoral negativa, cujos contornos ainda n�o se conhecem completamente, no culto de personalidade absurdo do �menino guerreiro�, e foram consolidados depois pelo modo como se soube ter sido tratada a quest�o dos �sobreiros� (refiro-me ao plano pol�tico) e mat�rias como o or�amento de estado. Tudo isto deixou os respectivos partidos mergulhados numa crise de credibilidade, de que s� sair�o com muita dificuldade, e para a qual a ca�a �s trapalhadas sim�tricas n�o traz nenhuma contribui��o. Esta atitude aponta mais para a continuidade das trapalhadas originais e mostra um entendimento da pol�tica como um jogo de pingue-pongue, infelizmente muito comum no Parlamento.

A cr�tica a este governo tem muito por onde se fazer, mas tem uma condi��o sine qua non para ser eficaz e merecer ser ouvida: a de se demarcar das trapalhadas do governo anterior sem ambiguidades, nem desculpas, nem simetrias.
 


�ANTECIPAR� E GANHAR A BATALHA DA COMUNICA��O

Um governo, um pol�tico habilidoso, �antecipa�. Antecipa o discurso, as medidas, antecipa o vazio como se estivesse cheio. Quando n�o se tem nada para �surpreender� ou para dizer de �novo� (outra obriga��o comunicacional por cuja falta se � penalizado), ou se corre o risco de ter uma fuga que estrague a surpresa, mais vale �antecipar�.

�Antecipar� d� t�tulos melhores e d� os t�tulos que os autores da antecipa��o desejam. Incontrolados, incontroversos, porque n�o s�o confrontados com nenhuma realidade exterior, nenhuma opini�o hostil, nenhuma cr�tica. T�tulos bem independentes da realidade que se �antecipa�. Pode-se �antecipar" A e fazer Z, que a �antecipa��o� � mais poderosa. Um caso t�pico de �antecipa��o� foi a legisla��o sobre nomea��es para os cargos pol�ticos, que quando for aplicada j� os tem todos nomeados.

Os jornalistas tendem cada vez mais a substituir a not�cia pela antecipa��o, porque a �antecipa��o� foi s� para eles, julgam, e para o seu jornal, julgam, enquanto a not�cia pertence a todos. Logo, quando existe a not�cia, a realidade daquilo que se antecipou, j� tem muito menos interesse, nem �novidade�, nem �surpresa�. J� parece uma nuance e os jornais detestam nuances.

Com excep��o de Deus, que pode antecipar o que quiser, e tem o melhor gabinete de rela��es p�blicas do universo, h� uma regra muito humana que postula que entre o verbo e o acto, h� o ru�do. A �antecipa��o� faz parte do ru�do.
 


COISAS COMPLICADAS / SCRITTI VENETI


Canaletto
 


EARLY MORNING BLOGS 529 / SCRITTI VENETI

I stood in Venice, on the Bridge of Sighs,
A palace and a prison on each hand:
I saw from out the wave her structures rise
As from the stroke of the enchanter's wand:
A thousand years their cloudy wings expand
Around me, and a dying Glory smiles
O'er the far times, when many a subject land
Looked to the wing�d Lion's marble piles,
Where Venice sate in state, throned on her hundred isles!

She looks a sea Cybele, fresh from ocean,
Rising with her tiara of proud towers
At airy distance, with majestic motion,
A ruler of the waters and their powers:
And such she was--her daughters had their dowers
From spoils of nations, and the exhaustless East
Poured in her lap all gems in sparkling showers:
In purple was she robed, and of her feast
Monarchs partook, and deemed their dignity increased.

In Venice Tasso's echoes are no more,
And silent rows the songless gondolier;
Her palaces are crumbling to the shore,
And music meets not always now the ear:
Those days are gone--but Beauty still is here;
States fall, arts fade--but Nature doth not die,
Nor yet forget how Venice once was dear,
The pleasant place of all festivity,
The revel of the earth, the masque of Italy!


(George Gordon, Lord Byron)

*

Bom dia!

27.6.05
 


COISAS SIMPLES / SCRITTI VENETI


Whistler
 


EARLY MORNING BLOGS 528

Smell!

Oh strong-ridged and deeply hollowed
nose of mine! what will you not be smelling?
What tactless asses we are, you and I, boney nose,
always indiscriminate, always unashamed,
and now it is the souring flowers of the bedraggled
poplars: a festering pulp on the wet earth
beneath them. With what deep thirst
we quicken our desires
to that rank odor of a passing springtime!
Can you not be decent? Can you not reserve your ardors
for something less unlovely? What girl will care
for us, do you think, if we continue in these ways?
Must you taste everything? Must you know everything?
Must you have a part in everything?


(William Carlos Williams)

*

Bom dia!

26.6.05
 


INTEND�NCIA

Publicada, por gentileza de Nuno Guerreiro, a sua tradu��o do poema de Ginsberg do EARLY MORNING BLOGS 526.

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, com novas liga��es, e mais bibliografia.
 


AR PURO


Aldro Thompson Hibbard
 


EARLY MORNING BLOGS 527

�loge et pouvoir de l'absence


Je ne pr�tends point �tre l�, ni survenir � l'improviste, ni para�tre en habits et chair, ni gouverner par le poids visible de ma personne,

Ni r�pondre aux censeurs, de ma voix ; aux rebelles, d'un oeil implacable ; aux ministres fautifs, d'un geste qui suspendrait les t�tes � mes ongles.

Je r�gne par l'�tonnant pouvoir de l'absence. Mes deux cent soixante-dix palais tram�s entre eux de galeries opaques s'emplissent seulement de mes traces altern�es.

Et des musiques jouent en l'honneur de mon ombre ; des officiers saluent mon si�ge vide ; mes femmes appr�cient mieux l'honneur des nuits o� je ne daigne pas.

�gal aux G�nies qu'on ne peut r�cuser puisqu'invisibles, � nulle arme ni poison ne saura venir o� m'atteindre.

(V. Segalen)

*

Bom dia!

25.6.05
 


P�GINAS ESQUECIDAS DO NOSSO PROTECCIONISMO



do Avante! clandestino de 1956.
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, com o texto publicado na S�bado da semana passada, uma introdu��o a um in�dito de Cunhal (Carta aos ju�zes, 19 de Junho de 1950).
 


COISAS SIMPLES


Berenice Abbott
 


EARLY MORNING BLOGS 526

A Supermarket in California


What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for
I walked down the sidestreets under the trees with a headache
self-conscious looking at the full moon.
In my hungry fatigue, and shopping for images, I went
into the neon fruit supermarket, dreaming of your enumerations!
What peaches and what penumbras! Whole families
shopping at night! Aisles full of husbands! Wives in the
avocados, babies in the tomatoes!--and you, Garcia Lorca, what
were you doing down by the watermelons?

I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber,
poking among the meats in the refrigerator and eyeing the grocery
boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the
pork chops? What price bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans
following you, and followed in my imagination by the store
detective.
We strode down the open corridors together in our
solitary fancy tasting artichokes, possessing every frozen
delicacy, and never passing the cashier.

Where are we going, Walt Whitman? The doors close in
an hour. Which way does your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the
supermarket and feel absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The
trees add shade to shade, lights out in the houses, we'll both be
lonely.

Will we stroll dreaming of the lost America of love
past blue automobiles in driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher,
what America did you have when Charon quit poling his ferry and
you got out on a smoking bank and stood watching the boat
disappear on the black waters of Lethe?


(Allen Ginsberg)

*

Bom dia!



Por gentileza do Nuno Guerreiro da Rua da Judiaria que l� publicou esta tradu��o:

Um Supermercado na Calif�rnia (1955)

Que pensamentos teus tenho esta noite, Walt Whitman, porque
caminhei pelas ruas sob as �rvores com uma dor de cabe�a
auto-consciente olhando para a lua cheia.
Na minha faminta fadiga, e procurando imagens, entrei
no supermercado de frutos de n�on, sonhando com as tuas enumera��es!
Que p�ssegos e que penumbras! Fam�lias inteiras
fazem compras � noite! Corredores cheios de maridos! Mulheres nos
abacates, beb�s nos tomates � e tu, Garcia Lorca, que
fazias tu junto �s melancias?

Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho cavador solit�rio,
apalpando as carnes no frigor�fico e olhando os rapazes
do supermercado.
Ouvi-te fazer perguntas a cada um: Quem matou as
costeletas de porco? A como s�o as bananas? �s tu o meu anjo?
Vagueei dentro e fora da brilhante pilha de latas
seguindo-te, e seguido na minha imagina��o pelo seguran�a
da loja.
Caminh�mos juntos pelos corredores abertos na nossa
solid�o ilustre provando as alcachofras, possuindo todas as del�cias
congeladas, sem nunca passar pela caixa.

Onde vamos n�s, Walt Whitman? As portas fecham daqui
a uma hora. Em que direc��o aponta a tua barba esta noite?
(toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no
supermercado e sinto-me absurdo.)
Caminharemos toda a noite por ruas solit�rias? As
�rvores juntam sombra a sombras, luzes apagadas nas casas, estaremos ambos
solit�rios.

Caminharemos sonhando com a Am�rica perdida do amor
passando por autom�veis azuis � entrada das garagens, em direc��o � nossa cabana tranquila?
Ah, querido pai, barba grisalha, velho solit�rio professor-coragem,
que Am�rica tinhas tu quando Caronte deixou de puxar a sua balsa
e tu desceste numa margem fumegante e ficaste a olhar o barco
desaparecendo nas �guas negras do Rio do Esquecimento?


(Allen Ginsberg (1926 � 1997), poeta, judeu americano.)


24.6.05
 


COISAS SIMPLES


Maurice de Vlaminck
 


EARLY MORNING BLOGS 525

EPITAFFIO PER BICE DONETTI

con gli occhi alla pioggia e agli elfi della notte,
� l�, nel campo quindici a Musocco,
la donna emiliana da me amata
nel tempo triste della giovinezza.
Da poco fu giocata dalla morte
mentre guardava quieta il vento dell'autunno
scrollare i rami dei platani e le foglie
dalla grigia casa di periferia.
Il suo volto � ancora vivo di sorpresa,
come fu certo nell'infanzia, fulminato
per il mangiatore di fuoco alto sul carro.
O tu che passi, spinto da altri morti,
davanti alla fossa undici sessanta,
fermati un minuto a salutare
quella che non si dolse mai dell'uomo
che qui rimane, odiato, coi suoi versi,
uno come tanti, operaio di sogni.

(S. Quasimodo)

*

Bom dia!

23.6.05
 


A LER

este estudo sobre o or�amento comunit�rio, com conclus�es e permissas contest�veis, mas mesmo assim muito �til para conhecer o que se passa.
 


LEMBRAN�A A TEMPO POR CAUSA DO TEMPO

Uma pequena lembran�a aos liberais: faz parte da for�a de uma sociedade livre e activa, como a que os liberais desejam construir, ter... greves. O conflito social n�o � um fim em si, mas um instrumento leg�timo de defesa de interesses, por mais corporativos e ego�stas que eles sejam, sem o qual as sociedades deixam de ser democr�ticas.

Segunda nota: n�o h� greves eficazes sem dor, sem preju�zo, sem v�timas. Faz parte mesmo da possibilidade de efic�cia de uma greve, que � o que uma greve pretende. A ideia que as greves s� podem existir quando s�o apenas simb�licas, coloca efectivamente em causa o direito � greve. � natural por isso que os sindicatos as tentem realizar quando atingem ou mais pessoas, ou interesses de grupos, que possam levar governos ou empresas a recuar. O preju�zo social de uma greve � aos �utentes� dos transportes, aos alunos que v�o fazer exames, etc � pode e deve ser discutido e utilizado no debate p�blico contra os grevistas, mas n�o pode ser argumento contra a eros�o do direito � greve. A distin��o � importante. (*)

A sociedade protege o interesse geral estipulando os �servi�os m�nimos� que s�o vitais para o seu funcionamento regular. Mas �m�nimos� significa sempre �m�nimos�, e o terreno desse m�nimo � o que atribuo �s fun��es m�nimas do estado: seguran�a dos cidad�os, defesa nacional, funcionamento regular dos corpos de emerg�ncia nos hospitais, bombeiros, etc. Fora disso, os �m�nimos� j� s�o m�ximos. N�o tem sentido ser liberal quanto ao Estado e depois entender os �servi�os m�nimos�, que este tem que garantir numa greve, com uma latitude de obriga��es t�pica de um Estado socialista, ou seja, tudo.

Lembr�-lo n�o significa estar de acordo nem com os objectivos das greves, nem com a actua��o dos sindicatos, muito menos com os dos professores, dos primeiros respons�veis pela situa��o da nossa educa��o. Mas isso � outra coisa diferente. Nem sequer significa desacordo com a posi��o do governo quanto aos objectivos do seu programa que suscitaram a greve.

S� me preocupa que se deite fora o menino com a �gua do banho e, desde h� muito, que a experi�ncia dos socialistas mostra que mudam de pol�ticas 180�, quando lhes conv�m, passando do maior laxismo para um autoritarismo (**) favorecido pela complac�ncia da oposi��o (e o acordo silencioso em muitos casos) e pela falta de debate p�blico substitu�do por modas � e a moda agora � deslegitimar os conflitos sociais.
__________________

(*) Uma nota suplementar: � nestas alturas que se percebe como funcionam as lealdades pol�ticas dos respons�veis pelas Direc��es Regionais, constitu�das tradicionalmente pelos �boys� dos aparelhos partid�rios locais e que nestes momentos tendem a ser mais papistas que o papa.

(**) Recordam-se da legisla��o ultra-permissiva sobre escutas telef�nicas do ministro Ant�nio Costa, atacada depois pelo PS quando do �caso� Casa Pia? Convinha lembrar.

*

A prop�sito do seu post de 23-06-2005 intitulado "Lembran�a a tempo por causa do tempo", faria apenas o seguinte reparo: quando reconhece legitimidade, por exemplo, aos professores para fazerem greve no momento em que ela mais se nota, ou seja, durante a realiza��o de exames, est� apenas a esquecer-se de que, ao contr�rio de outros casos, esta greve produz efeitos que podem prolongar-se excessivamente no tempo. Quando h� uma greve de transportes (que afecta sempre muita gente) as pessoas, quer utilizem nesse dia o carro particular, ou os transportes alternativos, ou usem at� um dia de f�rias no emprego, etc., sabem que a greve come�a a uma certa hora e termina a uma certa hora e que os efeitos se limitam a esse espa�o de tempo. No caso dos exames, n�o � assim: a nova marca��o de todos os exames levaria seguramente a que uma boa parte deles entrasse por Agosto dentro, destruindo por completo as f�rias de dezenas de milhar de fam�lias. N�o me parece justo que os professores, com um s� dia de greve, consigam produzir efeitos na sociedade durante mais de dois meses.

(Jo�o Ferreira)
 


INTEND�NCIA

Para servir de compara��o com a "revis�o" que hoje fa�o no P�blico dos "trabalhos" do Presidente da Comiss�o, um ano depois, coloquei na VERITAS FILIA TEMPORIS o artigo original de Julho de 2004. Ali se fala claramente da "mais que prov�vel reprova��o da Constitui��o num ou mais referendos" e suas consequ�ncias.
 


NATUREZA MORTA MATINAL


De um lado, dois cartazes antigos, um, o maior, dos primeiros anos do Estado Novo promete casas �arejadas

aos trabalhadores que se filiem nos Sindicatos Nacionais; por cima, outro da campanha de Norton de Matos diz Garanti o futuro / contra um sistema / em que todos pagam muito e poucos / recebem pouco.� Ao centro, um prato de damascos, apanhados no cimo da �rvore, e outro de flor de t�lia. Cadeiras. Um vago candeeiro, fios. A manh�.
 


COISAS COMPLICADAS



Joseph Kosuth
 


POBRE PA�S,

o nosso.

� dif�cil encontrar melhor exemplo de um processo puramente casu�stico, atrapalhado, incompetente, c�mplice nas fraquezas, revelador de puro taticismo, onde pol�ticos dos partidos da governa��o, PS, PSD, PP, mostram que n�o se respeitam nem a si pr�prios, nem aos portugueses que os representam, do que tudo o que se passou com esta �revis�o constitucional� para referendar a Constitui��o europeia. Que tudo isto tenha sido poss�vel como se fosse o mais normal dos processos, onde ningu�m se envergonha, ningu�m se revolta nos respectivos partidos, � um sinal claro, insisto claro, do grau de degrada��o a que chegou a actividade pol�tica e parlamentar em Portugal.
 


EARLY MORNING BLOGS 524

THANATOS ATHANATOS

Edovremo dunque negarti, Dio
dei tumori, Dio del fiore vivo,
e cominciare con un no all'oscura
pietra �io sono�, e consentire alla morte
e su ogni tomba scrivere la sola
nostra certezza: �th�natos ath�natos�?
Senza un nome che ricordi i sogni
le lacrime i furori di quest'uomo
sconfitto da domande ancora aperte?
Il nostro dialogo muta; diventa
ora possibile l'assurdo. L�
oltre il fumo di nebbia, dentro gli alberi
vigila la potenza delle foglie,
vero � il fiume che preme sulle rive.
La vita non � sogno. Vero l'uomo
e il suo pianto geloso del silenzio.
Dio del silenzio, apri la solitudine.

(S. Quasimodo)

*

Bom dia!

22.6.05
 


INTEND�NCIA / CORREIO

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

O correio continua irremediavelmente atrasado. As minhas desculpas a todos.
 


A LER

a seguir, a colaborar no // lisbonlab // v.2.

A VER

o jacarand� do Largo do Viriato aqui.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS LIVROS QUE N�O H�

A prop�sito de livros que n�o podem continuar esgotados e inacess�veis (em portugu�s), a lista � seguramente longa. Mas h� alguns que procuro em alfarrabistas h� muito tempo e n�o consigo encontrar. S�o livros que facilmente poderiam ser reeditados e certamente o mereceriam. Falo das Cr�nicas de Fern�o Lopes (na excelente edi��o da Imprensa Nacional - Casa da Moeda) e do c�lebre Arquip�lago do Goulag, de Aleksandr Solzhenitsyn. O problema poder� estar tamb�m nas nossas livrarias? � que procurei h� algumas semanas obras de Dickens traduzidas para portugu�s e, tirando o Conto de Natal, pouca coisa encontrei.

(Paulo Agostinho)
 


NO MESMO S�TIO, NA MESMA TREPADEIRA

este ano h� dois ninhos. No ano passado, havia tamb�m dois ninhos, mas ambos de �verdinhogo� (deve ser verdilh�o no falar local). Este ano h� dois diferentes: um de �verdinhogo�, no mesmo local exacto onde havia outro no ano passado, e um de pardal. O vento bate com for�a mas os ninhos nem se mexem: um, do �verdinhogo�, feito de fios vegetais, ervas, muito finos, entrela�ados, com uma pequena cama de algod�o no meio; o outro, de pardal, feito com palha e ramos mais grossos, s�lido, parece bet�o. Casas alheias, recatadas, escondidas, habitadas.
 


COISAS COMPLICADAS



Gerhard Richter
 


EARLY MORNING BLOGS 523

Lucinda Matlock


I went to the dances at Chandlerville,
And played snap-out at Winchester.
One time we changed partners,
Driving home in the moonlight of middle June,
And then I found Davis.
We were married and lived together for seventy years,
Enjoying, working, raising the twelve children,
Eight of whom we lost
Ere I had reached the age of sixty.
I spun, I wove, I kept the house, I nursed the sick,
I made the garden, and for holiday
Rambled over the fields where sang the larks,
And by Spoon River gathering many a shell,
And many a flower and medicinal weed--
Shouting to the wooded hills, singing to the green valleys.
At ninety-six I had lived enough, that is all,
And passed to a sweet repose.
What is this I hear of sorrow and weariness,
Anger, discontent and drooping hopes?
Degenerate sons and daughters,
Life is too strong for you--
It takes life to love Life.


(Edgar Lee Masters)

*

Bom dia!

21.6.05
 


EARLY MORNING BLOGS 522

Le roi Alphonse


Certain roi qui r�gnait sur les rives du Tage,
Et que l'on surnomma le sage ,
Non parcequ'il �tait prudent,
Mais parcequ'il �tait savant,
Alphonse, fut surtout un habile astronome.
Il connaissait le ciel bien mieux que son royaume,
Et quittait souvent son conseil
Pour la lune ou pour le soleil.
Un soir qu'il retournait � son observatoire,
Entour� de ses courtisans,
Mes amis, disait-il, enfin j'ai lieu de croire
Qu'avec mes nouveaux instruments
Je verrai cette nuit des hommes dans la lune.
Votre majest� les verra,
R�pondait-on ; la chose est m�me trop commune,
Elle doit voir mieux que cela.
Pendant tous ces discours, un pauvre, dans la rue,
S'approche, en demandant humblement, chapeau bas,
Quelques marav�dis : le roi ne l'entend pas,
Et, sans le regarder, son chemin continue.
Le pauvre suit le roi, toujours tendant la main,
Toujours renouvelant sa pri�re importune ;
Mais, les yeux vers le ciel, le roi, pour tout refrain,
R�p�tait : je verrai des hommes dans la lune.
Enfin le pauvre le saisit
Par son manteau royal, et gravement lui dit :
Ce n'est pas de l� haut, c'est des lieux o� nous sommes
Que Dieu vous a fait souverain.
Regardez � vos pieds ; l� vous verrez des hommes,
Et des hommes manquant de pain.


(Florian)

*

Bom dia!

20.6.05
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: TEORIA DA RELATIVIDADE

H� muitos anos atr�s eu era apenas um ano mais velha do que a Alexandra Lencastre. N�o me lembro como o soube, mas tenho a certeza de que o soube. Hoje ao folhear as revista que folheio no cabeleireiro percebi que j� era 5 anos mais velha do que ela.

Sem o mesmo rigor, mas com igual convic��o, lembro-me de que a Elsa Raposo, dantes, n�o era muito mais nova do que eu. Hoje, e fazendo f� �s revista que leio no cabeleireiro, est� com uma diferen�a de seis anos de mim.

Poderia continuar a dar exemplos, o que tornaria certamente o texto enfadonho. O padr�o � sempre o mesmo: eu envelhe�o mais depressa do que as �celebridades� das revistas que leio no cabeleireiro. Contra esta forma de discrimina��o nunca ouvi vozes levantarem-se. Nem o BE, nem os Ju�zes, nem os funcion�rios p�blicos, nem o governo. Nem sequer o Professor Marcelo que esta semana fez um pungente desabafo em rela��o � cr�nica amoralidade que se vive no pa�s.

Ser� que tenho de me conformar?

(J.)
 


COISAS COMPLICADAS 2

Depois de ter a p�gina como est� em baixo, � dif�cil acrescentar alguma coisa sem se perder o equil�brio.
 


COISAS COMPLICADAS


Gerhard Richter
 


EARLY MORNING BLOGS 521

One Art


The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

--Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


(Elizabeth Bishop)

*

Bom dia!

19.6.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A CAIXA QUE N�O SE DEVE ABRIR


Pandora e a sua caixa fazem estremecer os an�is de Saturno.
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.
 


APAG�O

A meia d�zia de quil�metros de Lisboa, a electricidade falha com regularidade. Hoje, foram v�rias horas, porque tudo demora sempre v�rias horas a arranjar, principalmente aos domingos. A nossa enorme depend�ncia da electricidade aparece nestas alturas, O �apag�o� faz disparar os alarmes, arrasta computadores para a mis�ria, descongela frigor�ficos, atrasa o trabalho e semeia o caos. Explica��es, desculpas, indemniza��es, faltam sempre aos monop�lios do estado. Para qu�? A culpa � sempre de uma cegonha. N�o h� competi��o, n�o posso desligar a EDP e ligar-me a qualquer outra fonte de �luz�.

18.6.05
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Actualizada a nota TESTEMUNHOS DA VIOL�NCIA URBANA / O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES.
 


COISAS SIMPLES


Feodor Tolstoy
 


JORNALISMO DE RECADOS

Este t�tulo Veto brit�nico inviabilizou vit�ria negocial portuguesa , entre muitas outras pe�as jornal�sticas, (em que se destaca o correspondente em Bruxelas da RTP que organiza as suas interven��es segundo um molde discursivo oficial e oficioso), � puro jornalismo de recados, dados por assessores e alimentado por confid�ncias de governantes, durante os trabalhos, para preparar a opini�o p�blica para considerar um �sucesso� governamental qualquer que seja o resultado

Como n�o se sabe o que o governo queria � partida, como n�o se sabe dos dissabores na negocia��o, se havia plataforma de recuo e qual o ponto de n�o recuo, caso existisse, este tipo de manipula��es resulta sempre. Leia-se a imprensa brit�nica, alem� ou francesa, para ver como � diferente o modo como se noticiam estes eventos, chegando a denunciar, (como a brit�nica e alem� faz mais que a francesa), as tentativas dos governos de apresentarem tudo o que acontece como �vit�ria�.
 


EARLY MORNING BLOGS 520

Rua Duque de Palmela 111


Pelo lado dos l�d�os ao fim do dia
depressa se chega agora no ver�o
� pedra viva do sil�ncio
onde o p�len das palavras se desprende
e dan�a dan�a dan�a at� ao rio.


(Eug�nio de Andrade)

*

Uma sala coberta de livros, ao mesmo tempo sala de ler, de escrever, de comer, com uma cozinha incrustada, uma janela para as traseiras, as traseiras do Porto com quintais, na direc��o do Douro. Na entrada, para a direita ficava o quarto de banho e o quarto, com janela para a Duque de Palmela, uma rua silenciosa quase sem tr�nsito, numa parte do Porto perdida do centro, mesmo estando perto do centro. Cinco minutos at� S. L�zaro, donde se partia para o resto do mundo, pelos Poveiros, pela Batalha, pelas Fontainhas, pelo Padr�o. Uma dispensa cheia de livros, no caminho � esquerda. Um desenho de Jean Cocteau no corredor, onde, na assinatura e na fluidez do tra�o, se percebia que o Eug�nio tinha ido ali buscar, na sua juventude, a assinatura. O seu �Eug�nio�, depois o seu �E.� estavam no Cocteau. O asterisco com que marcava nos livros as passagens que mais o interessavam ou entusiasmavam, vinha do Cocteau.
Esta foi sempre a sua verdadeira casa.

Bom dia!

17.6.05
 


O QUE H� DE BOM NOS BLOGUES

numa altura em que a blogosfera n�o est� brilhante, s�o pequenas reportagens como a do Santo Ant�nio na Bica no O C�u sobre Lisboa, ou as fotos do Porto na Cidade Surpreendente.
 


INTEND�NCIA

Actualizadas as notas TRIBULA��ES DE UM IGNORANTE, NOTAS BREVES SOBRE OS �LTIMOS DIAS (1� s�rie) e A LER.
 


TESTEMUNHOS DA VIOL�NCIA URBANA / O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

J� o disse na Quadratura e repito-o aqui: a comunica��o social, em particular a televis�o, falhou completamente na sua miss�o sobre o que se passou em Carcavelos. Valia a pena fazer um trabalho de jornalismo colectivo tentando n�o s� repor os factos, mas tamb�m confronta-los com as �not�cias� e seus respons�veis. Tudo isto � demasiado s�rio, teve demasiadas repercuss�es, para que fique tudo na mesma. Por seu lado, a forma como o debate pol�tico se apossou de forma imediata dos acontecimentos, confrontando-se as habituais teses securit�rias ou laxistas na interpreta��o do que aconteceu, sem cuidar de saber o que aconteceu, torna ainda mais dif�cil um esclarecimento fundamental para se tirarem conclus�es.

Alguns leitores do Abrupto enviaram textos testemunhais e coment�rios sobre a viol�ncia urbana e os acontecimentos de Carcavelos. S�o bem-vindos, para ajudar a interpretar. S�o testemunhos, com todas as vantagens e os inconvenientes dos testemunhos, mas ajudam-nos a entender n�o s� factos como percep��es sobre os factos. � que esta mat�ria � das mais graves que se possa imaginar nos dias de hoje porque corr�i a nossa vida colectiva.

*
Ouvi ontem no programa 'Quadratura do Circulo' as suas observa��es ao j� apelidado 'arrast�o' de Carcavelos. Claro que penso ser imposs�vel quantificar os ditos 500 indiv�duos, mas baix�-los para 40 ou 50 � completamente excessivo. Moro muito perto da zona, conhe�o gente que l� estava, e posso-lhe garantir que era um numero muito expressivo de garotos, normalmente 'capitaneados' por um mais velho e dados os relatos de testemunhas insuspeitas, a movimenta��o era coerente e deliberadamente dispersa para melhor confundir as pessoas, o que pressup�e alguma prepara��o pr�via e alguma comunica��o entre os grupos, esses sim de 40 a 50 miudos.

N�o vale a pena abordar as j� t�o decantadas raz�es sociais ou de preven��o. O que me preocupa, � se n�o estaremos perante um movimento com motiva��es pol�ticas, do tipo do que assolou a Am�rica nos anos 60. Como sabe, uma pequena elite bem politizada pode com facilidade aproveitar-se destes pequenos gangs, utilizando os mais variados pretextos identit�rios, tornando-os verdadeiros operacionais, mesmo que eles n�o estejam conscientes da sua utiliza��o pol�tica.

(JM)
*

O que aconteceu em Carcavelos � grave, grav�ssimo, mas na verdade s� o � porque apareceu na televis�o.Confude-se cada vez mais a realidade com a televis�o.A maior parte da realidade n�o aparece na televis�o.

Tenho uma loja de conveniencia na Av da Liberdade. No dia das marchas era para estar aberta at� �s duas da manh�. Fechou � uma, tendo os empregados fingido que sairam pelas traseiras, pois um gang armado de pistola preparava-se para a assaltar. Isto passa-se na Av da Liberdade no centro de Lisboa.Com milhares de pessoas na rua. Um comerciante pode ser roubado todos os dias que n�o acontece nada aos ladr�es. � permitido roubar.

Um amigo meu tinha varios supermercados nos arredores de Lisboa. Um na charneca da Caparica foi assalto 5 vezes num ano , um delas � m�o armada as outras enfiaram um carro pela montra dentro Em Santo Antonio dos Cavaleiros onde ele tinha outra loja , era assaltado todos os dias por gangs. O gerente era espancado regularmente.No Monte do Estoril,onde ele tinha outra loja, foi assaltado � m�o armada tendo a espigarda de um dos assaltantes diparado acidentalmente um segundo depois de ter estado apontada � cabe�a de uma caixeira. Ele vendeu os supermercados e agora joga na bolsa...� mais seguro...Assim s� perde dinheiro.

Quando um gang entra numa loja n�o h� nada a fazer a n�o ser tentar ser amigo deles. Estamos em cima de um barril de p�lvora, o que aconteceu em Carcavelos n�o acontece mais vezes porque a rapaziada dos gangs ainda n�o percebeu bem o poder que realmente t�m. Podem, na realidade fazer o que lhes apetecer. Ainda n�o houve bairros saqueados porque ainda n�o se lembraram disso. Mas qualquer dia lembram-se. E da� at� � �justi�a popular� � um instante. Se o Estado n�o toma conta disto rapidamente podemos estar nas v�speras de um massacre.

(FM)
*
Ent�o agora deu em "postar" testemunhos da irmandade branca?
� claro que existe um problema na sociedade portuguesa com os imigrantes e n�o s� com os de ascendencia africana. E se quiser ser justo (assim como a sua luta pelo n�o a esta constitui��o europeia se baseia no principio da igualdade entre paises) e imparcial, deveria postar ou tentar ouvir a "voz" dos africanos, ucranianos, moldavos que sofrem na pele todos os dias a exclus�o que se manifesta em empregos onde o patrao n�o paga e nada lhe acontece ate a sua exclusao que se manifesta em meras situa��es sociais.

Diz o sr. JC no seu post que teme que se esteja a repetir o ue aconteceu na America, mas esse senhor teme que as pessoas lutem por uma igualdade de oportunidades? Esse senhor sabe o que eram os negros na America nessa altura?Este post � mero populismo.

E vejo que apoia a manifesta�ao da Frente nacional. Porque o seu silencio quanto a isso e compremetedor.

(Antonio Rosa)


*
RAZ�O teve Pacheco Pereira quando, na �Quadratura do C�rculo�, verberou a actua��o da Comunica��o Social na cobertura dos acontecimentos de Carcavelos. De facto, de 2000 indiv�duos passou-se rapidamente para 500, depois para 400, e a breve trecho para apenas 50. E ontem mesmo (e sem humor), �A CAPITAL� garantia que, afinal, n�o sucedeu nada.

Por via das d�vidas, leia-se o que disse a Direc��o Nacional da PSP e se encontra transcrito aqui. Mas, mais saboroso do que o conte�do dessa not�cia, ainda � o respectivo t�tulo - da autoria de um l�rico an�nimo: S� 50 ROUBARAM E AGREDIRAM

Ora este �Sӻ vale bem um pr�mio! N�o de poesia, claro (pois esse pertence, por direito, a Ant�nio Nobre), mas de rid�culo.

(Carlos Medina Ribeiro)
 


CORINO DE ANDRADE



� pena que se tenha esquecido nestes dias, ou pouco lembrado, a morte deste homem. Da mesma gera��o de Cunhal, foi um grande m�dico e uma personalidade que marcou todos os que com ele trabalharam. E os seus doentes, da "doen�a dos pezinhos" que ele descobriu. Ou aqui ou nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO (Corino era um opositor tenaz do regime de Salazar) tentarei remediar a falta.
 


NOTAS BREVES SOBRE OS �LTIMOS DIAS (Continua��o)

Em Portugal, h� verdadeiros entusiastas de combater imaginariamente as batalhas j� travadas, decididas, vencidas ou perdidas, conforme os casos. Agora, a prop�sito das mortes recentes, h� toda uma repeti��o dos combates de 1975, como se eles n�o estivessem tamb�m j� decididos. Em 1975, j� se sabe quem �ganhou�, quem �perdeu�, quem contribuiu para ganhar, por a� adiante. N�o vale a pena continuar a espadeirar para o ar, como se estiv�ssemos em 24 de Novembro de 1975. N�o estamos, felizmente, mas por m�rito dos da altura, n�o dos de agora. E n�o s�o os da altura que se ouvem agora proclamar vit�rias e proclamar f�rias no vazio.

*

Estas sagas do �ganhador� / �perdedor� s�o demasiado yuppies para o meu gosto.

*

Para al�m disso, na hist�ria, s� h� perdedores. � s� deixar passar o tempo. �s vezes nem muito.


(Continua)

Foram actualizadas as notas anteriores.
 


OS LIVROS DA S�BADO

UM LIVRO QUE N�O PODE CONTINUAR ESGOTADO E INACESS�VEL


O livro de Silva Marques O PCP visto por Dentro � Relatos da Clandestinidade, editado pelo Expresso em 1976, foi a primeira mem�ria portuguesa de um antigo militante comunista sobre os seus anos de clandestinidade como funcion�rio do PCP. Quando foi publicado era um livro de grande coragem, sem precedente numa memorial�stica quase sempre her�ica e apolog�tica, relatando com humor e precis�o, os mecanismos internos da clandestinidade, incluindo cenas t�picas que nunca em Portugal tinham visto letra de forma, como a cena em que Silva Marques � expulso por Carlos Brito. Era uma an�lise fina, sociol�gica e psicol�gica, muito atenta � diferen�a entre as palavras e a realidade, e ao valor da nomea��o, de chamar nomes �s coisas como se elas mudassem por isso, que est� no cora��o do mundo comunista. Por que � que nos temos de tratar por �amigos� e n�o por �camaradas�, perguntava o jovem funcion�rio Silva Marques? Na resposta est�, como em todas as coisas deste mundo claustrof�bico e impregnado tanto de dedica��o como de cegueira, toda uma vis�o do mundo.

Resumindo e concluindo: o livro de Silva Marques permanece, quase trinta anos depois, a melhor mem�ria do interior comunista jamais publicada em Portugal e um livro de leitura agrad�vel e que prende o seu leitor. N�o se percebe que continue esgotado e inacess�vel.

(Este texto foi escrito antes da morte de Cunhal. A completa aus�ncia do livro de Silva Marques nos document�rios televisivos, preparados com muita anteced�ncia, � mais um sinal da mem�ria curta da comunica��o social. Mem�ria curta, ou seja, ignor�ncia.)
 


A LER

o Bombyx Mori, o bicho da seda, onde se encontra boa seda como esta:

"Momento neon-realista

Um jornalista da TVI, no meio da multid�o, entrevista um popular (de uma certa idade) no funeral de �lvaro Cunhal:

Ent�o o senhor o que veio c� fazer?
Eu sou um dos esteiros, um dos filhos dos homens que nunca foram meninos�
[bruscamente] O senhor � de Lisboa?
N�o, sou de Alhandra.
Onde � que isso fica? [n�o perguntou, mas pela cara n�o faltou muito]"


e a excelente s�rie Frases que imp�em respeito e muito mais.

*
Sou eu o jornalista da TVI, � verdade que estava "no meio da multid�o", entrevistei "um popular" ( a express�o � sua, foi certamente contagiado por outros jornalistas, eu n�o a uso), estava no vel�rio e n�o no funeral de �lvaro Cunhal.

At� aqui, menos mal. Agora o resto...

Bruscamente??

- "O popular" contou, emocionado, que era um dos "homens que nunca foram meninos" para quem Soeiro Pereira Gomes escreveu "Esteiros" ( e continuou contando, sem retic�ncias e interrup��es; n�o digo mais, se viu)

- A seguir fiz-lhe outra pergunta ( longa, n�o lhe digo qual, se viu)

- S� ent�o perguntei-lhe de onde era ( isso viu, como ter� visto os autocarros que chegaram a Lisboa para o vel�rio e funeral de �lvaro Cunhal)


Onde � que isso fica? [n�o perguntou, mas pela cara n�o faltou muito]"

- N�o perguntei (isso sabe)

- Pela cara n�o faltou muito?Pela cara? Pela cara?


Bom, eu pela sua cara ( de uma certa idade mas que aparece muito mais no ne�n da televis�o do que a minha) nunca diria que o senhor � desonesto e escreve, no Abrupto, usando das t�cnicas de um jornalista de tabl�ide. Como n�o fa�o generaliza��es, digo apenas que, desta vez, sim.

(Pedro Moreira)

NOTA: Pedro Moreira devia ler com mais aten��o e reparar que o texto n�o � de minha autoria, mas citado. N�o tem import�ncia. Retrata um estilo.
 


COISAS SIMPLES


Feodor Tolstoy
 


NOTAS BREVES SOBRE OS �LTIMOS DIAS


Algu�m diz (e pelos vistos ningu�m disse, mesmo estando tudo ligado por auricular) aos senhores e senhoras jornalistas (da SIC e da RTP) que repetiam � saciedade que �agora iam cantar a Internacional Socialista�, que n�o existe nenhuma can��o revolucion�ria chamada �Internacional Socialista�, mas sim a �A Internacional�, uma velha m�sica j� centen�ria e que � suposto ser de cultura geral conhecer?

*

De igual modo, algu�m diz a uma senhora jornalista (da RTP?) que n�o se est� de �pulso erguido�, mas sim de punho erguido, e que punho e pulso s�o partes diferentes do corpo e que, a n�o ser que se seja amputado, n�o se �ergue o pulso� sem erguer a m�o?

Adenda: ver Microfone Cego em Alice Vem Jantar.

*

Uma das tend�ncias da comunica��o social dos tempos recentes � a obten��o de opini�es de pessoas que s�o acad�micos de profiss�o sobre mat�rias estritamente pol�ticas enquanto acad�micos. Esta pr�tica era j� comum na �rea da economia ou da ecologia, onde o pol�tico quase que desapareceu, e hoje alastra para todos os dom�nios, mesmo os da pol�tica �pura�, com a crescente audi��o de �polit�logos�, que o que fazem � emitir opini�es pol�ticas como quaisquer outras.

A ideia que preside a essas consultas � a mesma que leva os pol�ticos a, sempre que h� uma mat�ria dif�cil, fazer-se substituir na decis�o por comiss�es �de especialistas�, de �peritos�, e insere-se no pressuposto que � poss�vel haver uma voz t�cnica que possa, em nome desse conhecimento t�cnico, definir uma solu��o pol�tica. Na pr�tica, � mais um dos sintomas da recusa da pol�tica e das suas responsabilidades e da presta��o de contas correlativa, muito forte num pa�s que herdou do salazarismo o �dio ao pol�tico e a paix�o do consenso por cima da luta pol�tica.

A voz do conhecimento, da t�cnica, da ci�ncia, tem o seu lugar na decis�o ou opini�o pol�tica, mas n�o � da mesma natureza dessa decis�o, nem pode ser colocada no lugar dela. � importante conhecer as qualifica��es profissionais de quem omite opini�o, e a qualidade de historiador ou cientista pol�tico s�o relevantes, como a de empres�rio ou economista igualmente o s�o quando se trata de opini�es que correspondem a um dom�nio do saber ou da actividade profissional. Mas isso n�o as torna outra coisa diferente de opini�es pol�ticas, de cidad�os, no espa�o p�blico, nem lhes d� uma legitimidade acrescida enquanto opini�es de natureza pol�tica. O resultado desta confus�o est� patente no exemplo de hoje da Capital, igual pela sua natureza a muitos outros (Elei��es aut�rquicas - Para os especialistas em ci�ncia pol�tica, a aus�ncia de coliga��es e a transfer�ncia de votos do eleitorado de esquerda beneficiam PS. Divis�o da direita ajuda candidatura de Carrilho). O resultado ou s�o tru�smos (a transposi��o de um resultado acad�mico ipsis verbis para uma afirma��o de car�cter pol�tico raras vezes resulta noutra coisa) ou s�o puras opini�es pol�ticas, a que o estatuto acad�mico d� uma aura de isen��o e intangibilidade que confunde o debate p�blico.

(Continua)

*

Tamb�m houve outras "engra�adas" (tristes, mas que d�o vontade de rir):

1 - Jornalista pergunta: Ent�o o PCP vai continuar a ser comunista?

resposta: Claro !

Pergunta: e Marxista-Leninista?

Resposta: � ideologia comunista !!!!

2 - Ouvia-se o Hino Nacional e diz o jornalista: Canta-se agora o Avante!

3- Entram agora no cremat�rio !

(Pedro Casta�o)
 


EARLY MORNING BLOGS 519

S� paciente; espera
que a palavra amadure�a
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mere�a.


(Eug�nio de Andrade)

*

Bom dia!
 


O S�TIO DO N�O SUSPENSO

Seria certamente mais f�cil encontrar vontade pol�tica para uma negocia��o minimalista de um novo tratado do que ultrapassar as consequ�ncias pol�ticas dos �n�os� j� dados e as hip�teses muito prov�veis dos outros �n�os� que n�o chegaram a ser dados. O adiamento n�o � sensato, nem eficaz. � uma medida t�pica do modo como a Uni�o est� hoje. Adia-se tudo. � uma medida que prolonga o d�fice democr�tico actual. Com medo do �n�o�, foge-se do voto. A insist�ncia num documento morto, e morto pelo voto, � irrealista e denota muita arrog�ncia. � uma medida de cegueira, que hipoteca o realismo dos pequenos passos � sobreviv�ncia da carreira pol�tica dos respons�veis por um �grande passo� para o abismo e que n�o querem admitir que erraram. Todas as ambiguidades de antes, continuam.

Adiado o referendo, cujo objecto deixou de se saber qual �, o S�TIO DO N�O � suspenso at� que de novo a quest�o se coloque. Permanecer� em linha, aberto o seu sistema de coment�rios e eventualmente, sempre que se justifique comentar qualquer facto ou decis�o que condicione o referendo portugu�s, voltar� � vida.

Se a Uni�o tivesse bom senso, prud�ncia e resolvesse sair do caminho ut�pico, arrogante, desigual e n�o democr�tico onde se meteu e de onde parece n�o saber sair, podia at� ser que renascesse como S�TIO DO SIM. Provavelmente ter� que continuar como est�, o lugar do �n�o�, e voltar de novo ao trabalho na altura pr�pria.

Mas renascer� em melhores condi��es. Com a equipa dos volunt�rios que se ofereceram. Com o sucesso dos seus mil coment�rios, em t�o pouco espa�o de tempo. Com a for�a de ter contribu�do para um debate que muitos n�o quiseram travar, e que s� o �n�o� obrigou e conseguiu. Cumpriu a sua miss�o. Para j�.

15.6.05
 


EARLY MORNING BLOGS 518

O sal da l�ngua


Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.

N�o � importante, eu sei, n�o vai
salvar o mundo, n�o mudar�
a vida de ningu�m - mas quem
� hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de algu�m?

Escuta-me, n�o te demoro.
� coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
S�o tr�s, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que n�o se extinga o seu lume,
o seu lume breve.

Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.

Elas s�o a casa, o sal da l�ngua.


(Eug�nio de Andrade)

*

Bom dia!

14.6.05
 


INACEIT�VEL

Eu n�o me importo com a utiliza��o jornal�stica dos dados e das interpreta��es contidos nos meus livros sobre Cunhal. � normal que isso aconte�a e mais vale que se utilizem informa��es que foram verificadas, do que a lista habitual de imprecis�es e erros. Para al�m disso, os factos s�o os factos e pertencem a todos e n�o s�o propriedade de ningu�m. Mas j� � inaceit�vel, para n�o dizer outra coisa, trabalhos jornal�sticos de todo o tipo, feitos quase exclusivamente a partir dos livros, a que se acrescenta um ou outro depoimento, e �s vezes nem isso, seguindo estritamente a interpreta��o e nalguns casos as palavras e afirma��es, sem pelo menos os citar, ou nomear como fonte. Isso � inaceit�vel e pouco honesto.
 


APRENDENDO COM E�A DE QUEIR�S

Depois considera o derradeiro pecado, negr�ssimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de intoler�ncia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra mi�da e bem cimentada: dentro desse murozinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lema de �imparcialidade, desinteresse, etc.�, s� haver�, segundo Bento e o seu jornal, intelig�ncia, dignidade, saber, energia, civismo; para al�m desse muro, segundo o jornal de Bento, s� haver� necessariamente sandice, vileza, in�rcia, ego�smo, trafic�ncia! � a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a literatura, a filosofia, etc.) que te imp�e fatalmente esta divertida separa��o das virtudes e dos v�cios. Desde que penetras na batalha, nunca poder�s admitir que a raz�o ou a justi�a ou a utilidade se encontrem do lado daqueles contra quem descarregas, pela manh�, a tua metralha silvante de adjectivos e verbos � porque ent�o a dec�ncia, se n�o j� a consci�ncia, te for�ariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que eles s�o mal�ficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os traspassas. Das solas dos p�s at� aos teus raros cabelos, meu Bento, desde logo te atolas na intoler�ncia! Toda a ideia que se eleve, para al�m do muro, a condenar�s como funesta, sem exame, s� porque apareceu dez bra�as adiante, do lado dos outros, que s�o os r�probos, e n�o do lado dos teus, que s�o os eleitos.

Realizam esses outros uma obra? Bento n�o poupar� prosa nem m�sculo para que ela pere�a: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrev� nela certa beleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demoli��o, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de �til ou de belo nascesse dos seus inimigos � e vivesse. Nos homens que vagam para al�m do teu muro, tu s� ver�s pecadores; e quando entre eles reconhecesses S. Francisco de Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porci�ncula, taparias a face para que tanta santidade te n�o amolecesse, e gritarias mais sanhudamente: �L� anda aquele malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!�

Assim tu ser�s no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem � tua imagem. Todo o jornal destila intoler�ncia, como um alambique destila �lcool, e cada manh� a multid�o se envenena aos goles com esse veneno capcioso. � pela ac��o do jornal que se azedam todos os velhos conflitos do mundo � e que as almas, desevangelizadas, se tornam mais rebeldes � indulg�ncia. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as diverg�ncias humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que nele rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente soci�vel, tenderia a uma suprema pacifica��o � se cada manh� o jornal n�o avivasse os �dios de princ�pios, de classes, de ra�as, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins at� que se enfure�am e mordam.

O jornal exerce hoje todas as fun��es malignas do defunto Satan�s, de quem herdou a ubiquidade; e � n�o s� o Pai da Mentira, mas o Pai da Disc�rdia. � ele que por um lado inflama as exig�ncias mais vorazes � e por outro fornece pedra e cal �s resist�ncias mais in�quas. V� tu quando se alastra uma greve, ou quando entre duas na��es bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, do s credos se confrontam em hostilidade: o instinto primeiro dos homens, que o abuso da civiliza��o material tem amolecido e desmarcializado, � murmurar �paz! ju�zo!� e estenderem as m�os uns para os outros, naquele gesto heredit�rio que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a F�ria antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransig�ncia, e os empurra � batalha, e enche o ar de tumulto e de p�.

O jornal matou na Terra a paz. E n�o s� ati�a as quest�es j� dormentes como borralhos de lareira, at� que delas salte novamente uma chama furiosa � mas inventa dissens�es novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetir�, antes que o s�culo finde, as anacr�nicas e brutas persegui��es medievais. Depois � o jornal...
 


TRIBULA��ES DE UM IGNORANTE

Que viu a not�cia de �ltima hora no P�blico Norton de Matos apresentado por uma �poca no Set�bal e que se convenceu, na sua absoluta ignor�ncia, que era do velho general republicano que se falava. N�o percebia o t�tulo, mas enfim h� muitas not�cias de que n�o se percebe o t�tulo. At� pensei que era uma pe�a de teatro.E depois sai-me um treinador de futebol de uma coisa chamada Vit�ria de Set�bal�

*
Eu percebo que n�o esteja a par dessas quest�es do futebol , que deste senhor Norton n�o saiba nada. Mas h� a� outra quest�o... � que eu, al�m de ser do Porto - Gaia , mais exactamente, e de ser um adepto n�o muito "ferrenho" - que isso nunca achei justific�vel- do Porto ( F.C.) - j� viv� uns anos em Set�bal. E em muitas outras terras deste pa�s ( prof. de mochila �s costas por v�rios anos ). S� que nestas terras as equipas de futebol s�o um forte lugar e apoio da identidade das gentes , por mais insignificantes que sejam . At�, aqui, o Avintes e o Oliveira do Douro o s�o, naturalmente , apesar da forte concorr�ncia dos "grandes"...
Assim, achei muito infeliz sobretudo quando diz ..que �.treinador "de uma coisa chamada Vit�ria de Set�bal ". J� agora acrescento que " a coisa " , caso n�o saiba foi este ano o Campe�o Nacional, ganhando na final contra o Benfica. Outra "coisa" que vem alimentar o "ego" por algum tempo dos homens do Sado, nestas terras t�o "carentes" de auto-estima e valoriza��o...
Compreendo que isto possa ser levado para aspectos negativos do chamado "bairrismo", etc., mas acho que esta nota � importante. O mesmo diria se estivessemos falando do Braga, do Leix�es ou do Guimar�es ou at� das Columb�filas que , n�o sei ainda explicar , tanta gente teima em manter activas.

(Jos� A. Casanova)
*
No entanto neste seu artigo de opini�o, julgo que foi um bocado longe demais. Sei que infelizmente se d� demasiada import�ncia ao futebol, que ele comanda as noticias, as conversas e at� as pr�prias vidas das pessoas.
Sei que �s vezes n�o estamos minimamente interessado que A ou B tenham jogado, ou perdido ou que este ou aquele jogador foi negociado por valores que s�o um autentico atentado � dignidade de pessoas que trabalham v�rias horas todos os dias e que sobrevivem com o sal�rio m�nimo nacional. Mas apesar disso, julgo que foi infeliz na express�o �E depois sai-me um treinador de futebol de uma coisa chamada Vit�ria de Set�bal��

Ent�o o Vit�ria de Set�bal � uma coisa? Um clube de bairro n�o � uma coisa mesmo quando tem apenas meia d�zia de associados, quanto mais um clube com d�cadas de exist�ncia, vencedor de algumas ta�as de Portugal e que nos vai representar este ano nas competi��es europeias.

Por favor sr Pacheco Pereira, l� que n�o goste de futebol tudo bem, e at� percebo, mas tenha algum respeito pelas pessoas que gostam e se apaixonaram pela modalidade, e pelo clube que devido � sua dimens�o j� muito fez pela promo��o da cidade e desenvolvimento desportivo de jovens nas mais diversas modalidades.

(Rui Rodrigues)
*
Quando pela primeira vez li o post "TRIBULA��ES DE UM IGNORANTE" pensei para com os meus bot�es: o que � preocupante n�o � que Pacheco Pereira pense que uma not�cia sobre o novo treinador do Set�bal diga respeito a um velho general republicano da oposi��o a Salazar. O que � preocupante � que para a esmagadora maioria dos portugueses uma not�cia sobre o general Norton de Matos seria tomada como uma not�cia sobre o novo treinador do Set�bal.
Afinal a coisa ainda � pior. Est� instalada a revolta, porque Pacheco Pereira disse que essa coisa que � o clube de futebol de Set�bal era isso mesmo, uma coisa.
Estranha coisa esta a que ainda chamamos Portugal.

(Ant�nio Cardoso da Concei��o)
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO e o S�TIO DO N�O.
 


A LER

Perez Metelo, "V�o-se embora, j� sa�ram todos!" , Di�rio de Not�cias, 14/6/2005
 


COISAS COMPLICADAS


nas m�os de S. Jer�nimo, pintado por Masaccio.
 


EARLY MORNING BLOGS 517

S� tu a palavra


1.
S� tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
S� o desejo � matinal.

3.
Poupar o cora��o
� permitir � morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na �gua amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de t�o longe.

6.
Da chama � espada
o caminho � solit�rio.

7.
Que me quereis,
se me n�o dais
o que � t�o meu?


(Eug�nio de Andrade)

*

Bom dia!
 


O QUE N�O SE PODIA TRADUZIR

O Eug�nio considerava este poema de Antonio Machado o exemplo da impossibilidade da tradu��o:

La plaza tiene una torre

La plaza tiene una torre,
la torre tiene un balc�n,
el balc�n tiene una dama,
la dama una blanca flor.

Ha pasado un caballero.
�Qui�n sabe por qui�n pas�?
Y se ha llevado la plaza,
con su torre y su balc�n,
con su balc�n y su dama,
su dama y su blanca flor.
 


OS MEUS LIVROS QUE S�O DO EUG�NIO

No meio da confus�o das vidas fiquei com algumas coisas do Eug�nio e ele minhas. Nem ele as quis recuperar, nem eu. Ele pode-as recuperar sempre, eu dou-lhe as minhas.

Em cada livro est� o seu nome, a bela assinatura �Eug�nio� que ele usava h� mais tempo, antes de se reduzir ao �E� que parecia um �psilon. Poucas assinaturas t�m a ligeireza e a beleza desta, em que o nome se lan�a a partir da primeira letra, com uma for�a e eleg�ncia rara. Quem conhece a sua poesia, percebe na assinatura o mesmo movimento da sua voz, quase partida do nada e lan�ando-se para a frente de forma arrojada, voando, para se perder no �o� final, separado do resto do nome. Ponto final. Parece �rabe escrito ao contr�rio, da esquerda para a direita.

Num Rilke franc�s, num Apollinaire, num Thomas Mann, num�

13.6.05
 


MANIFESTA��O

Tenho poucas d�vidas que o funeral de �lvaro Cunhal vai ser a maior manifesta��o comunista das �ltimas d�cadas na Europa. N�o em Portugal, mas na Europa.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: HOJE


(Foto de RM)

M�sica, levai-me:

Onde est�o as barcas?
Onde s�o as ilhas?

(Eug�nio de Andrade)
 


ELO

Entre Eug�nio e �lvaro Cunhal: Eug�nio tinha em muita considera��o o facto da sua poesia ser lida nas pris�es pol�ticas. Disse-me mais do que uma vez, antes do 25 de Abril, que soubera com muito gosto que os seus livros circulavam nas pris�es. Atribu�a esse facto, que lhe teria sido comunicado numa carta ou numa mensagem com origem em Peniche ou em Caxias, ao car�cter solar, pag�o, er�tico, dos seus versos, uma boa companhia para as sombras da cadeia e para as priva��es afectivas de quem deixou de ter vida livre.
 


A CEIFEIRA NOCTURNA

Passou, r�pida, levando a sua ra��o de vivos.

Levou o Eug�nio, meu amigo do cora��o, que conheci quando, depois do Ostinato Rigore, sentia uma crise na sua poesia. As palavras tinham chegado a tal estado de depura��o que Eug�nio n�o sabia como iria conseguir escrever mais. Achava que tinha gasto as palavras, as suas palavras, o seu dizer, a sua limpidez, o seu rio interior. Fal�mos muitas vezes dessa usura, em longos passeios que come�avam em S. L�zaro e iam mais longe que Masssarelos, junto ao rio, passando nas noites mais t�pidas pelas carca�as dos barcos que faziam, num passado j� antigo, a faina fluvial do Douro. Uma noite comparou-se a esses barcos meio enterrados no lodo, cinzento sobre cinzento, na pouca luz de ent�o. Foi a m�sica, pela m�sica, pela m�sica de camera, a m�sica que era t�o contida como as suas palavras obstinadas e rigorosas, pelos quartetos de Beethoven e Haydn, que se libertou para escrever de novo. Ele ouvia nos quartetos a mesma luta entre uma conten��o terminal, em que as palavras se tornavam n�s, e depois via-as soltarem-se na voz da m�sica, voando para o ar, sem perder rigor, nem obstina��o, mas falando. Falando com ele, falando connosco. Foi essa fala que encontrava na m�sica que o fez de novo escrever, at� que a m�sica lhe faltou e o traiu.

Levou �lvaro Cunhal, a quem tenho dedicado muito do meu tempo, sobre o qual escrevi j� mais mil e quinhentas p�ginas e me preparo para acrescentar muitas mais. Tinha estado a escrever sobre ele, na hora em que morreu, sem saber que morria. Terminava o cap�tulo em que descrevia a sua chegada a Peniche em 1956, ap�s o longo isolamento da Penitenci�ria, e o misto de sentimentos entre quem come�ava a perceber que n�o iria ser t�o cedo (ou em qualquer dia) libertado, embora j� tivesse cumprido a pena a que fora condenado, e a alegria de reencontrar os seus camaradas mesmo na pris�o. Nesse cap�tulo falo numa das v�rias formas de viol�ncia moral que a ditadura tinha, agora felizmente inexistentes porque n�o vivemos em ditadura, mas infelizmente tamb�m esquecidas e ignoradas. Era uma coisa t�o simples e t�o dram�tica como isto: os presos sujeito a medidas de seguran�a, um artificio jur�dico obra de grandes juristas e professores de direito, para entregar � PIDE o controle do tempo de pris�o � Cunhal, por exemplo terminou a pena em Janeiro de 1956 e s� saiu da pris�o porque fugiu em Janeiro de 1960 � tinham que demonstrar que n�o tinham �perigosidade� para poderem ser libertados. Isso significava para um comunista ter que declarar uma qualquer forma de abjura��o dos suas ideias, garantir que nunca mais fazia pol�tica e se afastava do partido. Cunhal era todos os anos colocado perante esse dilema, continuar na pris�o eternamente, ou abjurar frente � PIDE. Que era um verdadeiro dilema moral, um fio da navalha que cortava pelo car�cter e pela personalidade, revela-se nas respostas angustiadas que deu repetidamente. Estas viol�ncias que n�o eram f�sicas mostram a face in�qua de um regime com que muita gente hoje se mostra complacente.
 


� MEM�RIA, DA MEM�RIA

AS AMORAS


O meu pa�s sabe a amoras bravas
no ver�o.
Ningu�m ignora que n�o � grande,
nem inteligente, nem elegante o meu pa�s,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu pa�s, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que tamb�m no meu pa�s o c�u � azul.


(Eug�nio de Andrade)
 


EARLY MORNING BLOGS 516

�dit fun�raire


Moi l'Empereur ordonne ma s�pulture : cette montagne hospitali�re, le champ qu'elle entoure est heureux. Le vent et l'eau dans les veines de la terre et les plaines du vent sont propices ici. Ce tombeau agr�able sera le mien.

o

Barrez donc la vall�e enti�re d'une arche quintuple : tout ce qui passe est ennobli.

�tendez la longue all�e honorifique : � des b�tes ; des monstres ; des hommes.

Levez l�-bas le haut fort cr�nel�. Percez le trou solide au plein du mont.

Ma demeure est forte. J'y p�n�tre. M'y voici. Et refermez la porte, et ma�onnez l'espace devant elle. Murez le chemin aux vivants.

o

Je suis sans d�sir de retour, sans regrets, sans h�te et sans haleine. Je n'�touffe pas. Je ne g�mis point. Je r�gne avec douceur et mon palais noir est plaisant.

Certes la mort est plaisante et noble et douce. La mort est fort habitable. J'habite dans la mort et m'y complais.

o

Cependant, laissez vivre, l�, ce petit village paysan. Je veux humer la fum�e qu'ils allument dans le soir.

Et j'�couterai des paroles.

(Victor Segalen)

*

Bom dia!

12.6.05
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO e o S�TIO DO N�O.

Actualizada a nota DAS DUAS, UMA e OS CINQUENTA MOMENTOS POL�TICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (1974-2005).
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O MESMO FIM DE TARDE


O mesmo crep�sculo, o mesmo lento desaparecer do Sol, a mesma noite antiqu�ssima e lustral. Em Marte, por cima das paredes da cratera Gusev.
 


EARLY MORNING BLOGS 515

"Cuando se proclam� que la Biblioteca abarcaba todos los libros, la primera impresi�n fue de extravagante felicidad. Todos los hombres se sintieron se�ores de un tesoro intacto y secreto. No hab�a problema personal o mundial cuya elocuente soluci�n no existiera: en alg�n hex�gono. El universo estaba justificado, el universo bruscamente usurp� las dimensiones ilimitadas de la esperanza. En aquel tiempo se habl� mucho de las Vindicaciones: libros de apolog�a y de profec�a, que para siempre vindicaban los actos de cada hombre del universo y guardaban arcanos prodigiosos para su porvenir. Miles de codiciosos abandonaron el dulce hex�gono natal y se lanzaron escaleras arriba, urgidos por el vano prop�sito de encontrar su Vindicaci�n. Esos peregrinos disputaban en los corredores estrechos, profer�an oscuras maldiciones, se estrangulaban en las escaleras divinas, arrojaban los libros enga�osos al fondo de los t�neles, mor�an despe�ados por los hombres de regiones remotas. Otros se enloquecieron... Las Vindicaciones existen (yo he visto dos que se refieren a personas del porvenir, a personas acaso no imaginarias) pero los buscadores no recordaban que la posibilidad de que un hombre encuentre la suya, o alguna p�rfida variaci�n de la suya, es computable en cero."

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!
 


AR PURO


M. Svabinsky

11.6.05
 


DAS DUAS, UMA

Ou a pol�cia est� completamente cega quanto ao que se passa em certos bairros de Lisboa e n�o tem um informador sequer que a previna de algo que mobilizou quinhentas pessoas, ou seja que milhares souberam com anteced�ncia; ou toda esta hist�ria est� mal contada e n�o s�o quinhentos, nem foi combinado, e alguma coisa aconteceu na praia que n�o aparece nos jornais. H� uma terceira hip�tese que me parece t�o absurda que a recuso: a pol�cia sabia e n�o fez nada.

O ministro tem muitas explica��es a dar e depressa.

*
Sobre o seu post �Das duas uma� e lendo o DN, parece de facto que a hist�ria n�o foi bem contada, pelo menos nas televis�es:

�O p�nico gerou-se ontem ao in�cio da tarde na praia de Carcavelos, quando centenas de indiv�duos, em bandos, come�aram de repente a assaltar e a agredir os banhistas. [...] Os dist�rbios ter�o tido in�cio quando uma bando roubou um fio de ouro a um imigrante de Leste, espancando-o, contou ao DN Bruno Marques, um dos banhistas presentes no local. Esta situa��o foi testemunhada pela respons�vel de um caf� da zona, que logo fechou o estabelecimento e chamou a pol�cia. O tempo de chegada das for�as de seguran�a, ainda que curto, foi suficiente para que, como que por simpatia, outros bandos que ali tomavam banhos de sol aproveitassem a oportunidade para tentar a sua sorte. Gerou-se, ent�o, o caos. V�rias crian�as perderam-se dos pais, com os bandos a assaltarem quem estivesse mais a jeito, agredindo os que ofereciam resist�ncia.
Nada fazia prever que aquela onda de viol�ncia surgisse t�o de repente. De acordo com fonte policial, os bandos eram banhistas que, ali�s, s�o frequentadores habituais daquela praia. "Reagiram por simpatia ao verificarem a oportunidade", contou. N�o houve, portanto, nenhum assalto organizado � praia, nem qualquer estrat�gia concertada entre gangs. "A p�lvora estava l� e bastou que algu�m acendesse o rastilho", explicou o interlocutor do DN.

De facto, � "interessante" que nenhuma televis�o, nas reportagens que vi, tenha colocado �nfase � aparente espontaneidade do "arrast�o". E mais: que n�o houve assalto organizado...

(Miguel Marujo)
 


OS CINQUENTA MOMENTOS POL�TICOS MAIS IMPORTANTES DEPOIS DO 25 DE ABRIL (1974-2005)

1. O primeiro 1� de Maio, o respirar inicial da liberdade, mas tamb�m o sinal das ambiguidades de uma mudan�a que continha em si mesma v�rias �revolu��es�, nem todas democr�ticas. Respons�veis: os �capit�es de Abril� (1 de Maio de 1974).

2. Cria��o dos partidos democr�ticos depois do 25 de Abril: a estrutura��o do PS na legalidade, a cria��o do PPD e do CDS nos meses de Maio a Julho de 1974. Respons�veis: M�rio Soares, Tito de Morais e Ramos da Costa no PS; S� Carneiro, Balsem�o e Magalh�es Mota no PPD, Freitas do Amaral e Amaro da Costa no CDS.

3. Decis�o do PCP de se opor � manifesta��o da "maioria silenciosa� de 28 de Setembro, dando in�cio ao chamado �Processo revolucion�rio em curso� (PREC) (no m�s de Setembro de 1974).

4. Discurso de Salgado Zenha no Pavilh�o dos Desportos contra a �unicidade sindical� (16 Janeiro 1975). O discurso de Zenha foi o primeiro sinal p�blico da resist�ncia do PS � constitui��o de organiza��es frentistas pelos comunistas que detivessem a hegemonia do espa�o partid�rio (MDP) e sindical (Intersindical).

5. Legaliza��o do div�rcio nos casamentos religiosos com a altera��o da Concordata. Respons�vel: Salgado Zenha (15 de Fevereiro de 1975).

6. Golpe e contra-golpe do 11 de Mar�o. Respons�veis: Sp�nola e a ala militar ligada ao PCP no MFA (11 de Mar�o de 1975).

7. Nacionaliza��es a seguir ao 11 de Mar�o. Respons�vel: ala militar ligada ao PCP no MFA. Das chamadas �conquistas da Revolu��o� � nacionaliza��es, reforma agr�ria e controle oper�rio � a terceira nunca existiu de facto, a segunda deixou uma marca profunda no Alentejo, a primeira moldou o destino da economia e da sociedade portuguesa at� aos dias de hoje.

8. Elei��es para a Assembleia Constituinte que deram vit�ria aos partidos que se opunham ao PREC (25 de Abril de 1975). A vit�ria eleitoral do PS e do PSD, o fracasso do MDP, do PCP e do �voto em branco no MFA� refor�ou a legitimidade da componente democr�tica no PREC.

9. Inc�ndios e destrui��es das sedes do PCP no Centro e Norte do pa�s (a partir de fins de Maio de 1975). A resist�ncia ao PREC fora de Lisboa e Porto, e em particular no Centro e Norte, radicalizada num anticomunismo �org�nico� e em organiza��es clandestinas como o ELP, revelou uma componente social e pol�tica distinta da do PS, em que a Igreja e as �bases� do PPD tiveram um papel.

10. Com�cio da Fonte Luminosa em Lisboa, ponto alto da resist�ncia ao PREC dos socialistas (19 de Julho de 1975). Tr�s sub-factos poderiam ser inclu�dos neste movimento: as sequelas do assalto ao jornal Rep�blica (19 de Maio), o �documento dos nove�, (discutido entre os militares em Julho e divulgado a 9 de Agosto) e o debate entre Soares e Cunhal, um raro momento medi�tico no PREC do �olhe que n�o, olhe que n�o (6 de Novembro de 1975).

11. Independ�ncia de Angola a 11 de Novembro que marcou o efectivo fim do imp�rio colonial e "retorno" dos portugueses de �frica (anos de 1975-7), assim como o in�cio da guerra civil e da interven��o estrangeira (cubana e sul-africana), cujas sequelas duraram mais de 25 anos e muitos milhares de mortos. Em nenhuma outra antiga col�nia o processo foi t�o sangrento, mas o padr�o da ac��o dos antigos movimentos nacionalistas foi semelhante.

12. O 25 de Novembro, fim da express�o militar do PREC (25 de Novembro de 1975). O crescendo para o 25 de Novembro deu-se essencialmente no ver�o �quente�, onde avultaram os incidentes ligados � constitui��o da FUR, um raro momento de hegemonia da extrema-esquerda sobre o PCP, a pretexto do �documento do COPCON, e o cerco � Assembleia Constituinte a 12 de Novembro.

13. Declara��es de Melo Antunes impedindo a ilegaliza��o do PCP depois do 25 de Novembro (26 de Novembro). Ao faz�-las Melo Antunes impediu uma deriva autorit�ria do 25 de Novembro que seria inevit�vel caso se tentasse for�ar o PCP de novo � clandestinidade.

14. Aprova��o da Constitui��o em 25 de Abril de 1976 que garantia os direitos fundamentais de uma democracia, mas mantinha na sua parte econ�mica e em muitos outros aspectos a linguagem e o adquirido do PREC. Uma das suas consequ�ncias duradouras foi a cria��o das Autonomias regionais na Madeira e nos A�ores.

15. Ac��o de Sottomayor Cardia no Minist�rio da Educa��o, o primeiro dos ministros a tentar sair do �estilo� do PREC (1976-7).

16. A Lei Barreto, o in�cio da �contra-reforma agr�ria�, o primeiro momento legislativo contra uma �conquista da revolu��o�. Respons�vel: Ant�nio Barreto (1977).

17. Vit�ria da AD demonstrando a possibilidade de altern�ncia democr�tica � hegemonia do PS. (Dezembro 1979). Respons�veis: S� Carneiro e Freitas do Amaral, apoiados por Amaro da Costa, Ribeiro Telles, Ant�nio Barreto e Medeiros Ferreira.

18. Morte acidental (ou assassinato) de S� Carneiro (4 de Dezembro 1980).

19. Fim do Conselho da Revolu��o na revis�o constitucional de 1982. Acabou assim o �ltimo resqu�cio de uma legitimidade �revolucion�ria� alheia ao processo democr�tico.

20. �Bloco central� em que PS e PSD dividiram o estado, os cargos p�blicos, as �reas de influ�ncia, os gestores p�blicos, criando um establishment de poder que ainda hoje � prevalecente (1983-5). A resist�ncia no PSD ao �Bloco central� abriu caminho �s carreiras pol�ticas de Marcelo, Santana Lopes, J�dice, Dur�o Barroso, e Cavaco Silva, a �nica com sucesso at� hoje.

21. Desmantelamento das FP 25 de Abril e pris�o dos seus respons�veis (1984-5). As FP 25 de Abril foram uma manifesta��o tardia do ciclo de terrorismo pol�tico europeu dos anos 70, moldado pela nostalgia do PREC. Respons�veis pela cria��o da organiza��o Otelo Saraiva de Carvalho, apoiado por uma ala do antigo PRP-BR; e no seu desmantelamento Rui Machete, M�rio Soares, Martinho de Almeida Cruz e v�rios agentes da PJ.

22. �Apertar do cinto� obrigado pelo FMI, numa situa��o de quase ruptura das finan�as p�blicas (1983-5). Este per�odo de austeridade ia acabando prematuramente com a carreira pol�tica de Soares assente nas suas ambi��es presidenciais. Respons�veis: Ern�ni Lopes e M�rio Soares.

23. A cria��o do PRD, o partido de iniciativa presidencial que dividiu o eleitorado socialista e facilitou a futura vit�ria de Cavaco Silva. A cria��o do PRD foi o �nico e fugaz momento de �fluidez� do nosso sistema partid�rio. Respons�vel: Ramalho Eanes (25 de Fevereiro de 1985).

24. Primeira volta das elei��es presidenciais de 1985-6 em que M�rio Soares acaba com o �pintasilguismo� e com as �ltimas tentativas de um �socialismo� anti-soarista sob a �gide do PCP. (26 de Janeiro de 1986). A elei��o de Soares como primeiro Presidente civil da democracia numa segunda volta, �esquerda versus direita�, foi, depois da altern�ncia da AD, o segundo momento de estabiliza��o interior da democracia depois do PREC.

25. Congresso do PSD da Figueira da Foz em que Cavaco Silva vence Jo�o Salgueiro (Maio de 1985). Cavaco, que Soares dizia �desconhecer�, representou o primeiro dirigente da democracia portuguesa que chegava ao poder fora da resist�ncia contra Salazar e ao PREC e com uma forma��o dominantemente econ�mica em vez de jur�dica.

26. Entrada de Portugal na UE, como garantia da democracia pol�tica e oportunidade de desenvolvimento. Os portugueses passaram a medir e a medir-se pela Europa. Respons�veis: M�rio Soares, Rui Machete, Ern�ni Lopes (1 de Janeiro de 1986).

27. Dissolu��o da Assembleia da Rep�blica depois da aprova��o da mo��o de censura do PRD, um acto pol�tico que se revelou, para os partidos que a apoiaram e patrocinaram, suicid�rio. Respons�veis: Ramalho Eanes, Herm�nio Martinho, Victor Const�ncio (3 de Abril de 1987).

28. Maioria absoluta de Cavaco Silva, uma verdadeira subvers�o de um sistema eleitoral constru�do para obrigar a governos de coliga��o, abrindo caminho a um ciclo de governabilidade sem passado at� ent�o e sem futuro at� 2005 (19 de Julho de 1987).

29. O influxo de vultuosos fundos comunit�rios, parcialmente desperdi�ados no Fundo Social Europeu, mas permitindo importantes obras infraestruturais que mudaram a face do pa�s. Iniciou-se o ciclo do bet�o. Respons�vel: Cavaco Silva, seguido por Ant�nio Guterres. (1986 at� hoje).

30. Introdu��o do IVA, a mais efectiva moderniza��o do sistema fiscal desde o 25 de Abril (1986).

31. Privatiza��o do espa�o televisivo e da comunica��o social escrita do estado. Cria��o da SIC e da TVI. Respons�vel: Cavaco Silva.(1987)

32. A cria��o do Independente um projecto jornal�stico orientado para criar um populismo de direita contra o PSD. Respons�vel: Paulo Portas (1988).

33. Revis�o econ�mica da Constitui��o permitindo finalmente a exist�ncia de uma plena economia de mercado e as privatiza��es. O PS que tinha bloqueado mudan�as na parte econ�mica da Constitui��o finalmente cedeu ao PSD (1989).

34. O massacre de Santa Cruz em Timor-Leste e todo o processo subsequente de luta pela autodetermina��o de Timor-Leste (12 de Novembro de 1991).

35. A primeira Presid�ncia portuguesa da UE. Nunca at� ent�o a alta administra��o p�blica portuguesa tinha conhecido uma prova t�o dura. Respons�vel: Cavaco Silva (1992).

36. O bloqueio da Ponte 25 de Abril sintetizou as novas condi��es da ac��o pol�tica com um novo e agressivo panorama medi�tico muito mais eficaz do que os mecanismos tradicionais de oposi��o (1994).

38. O �tabu�, a decis�o de Cavaco Silva de n�o se candidatar �s elei��es legislativas seguintes, representando o fim do �cavaquismo� enquanto experi�ncia de governa��o (1995).

36. Cria��o do PP contra o CDS, dando express�o partid�ria ao populismo de direita e � ac��o unipessoal de Paulo Portas. Respons�veis: Manuel Monteiro e Paulo Portas. O processo completa-se com o acesso de Portas � lideran�a do PP (1998).

39. A Expo, a realiza��o urbana de grande dimens�o mudando a face oriental de Lisboa e levando ao cl�max o ciclo de grandes obras dos anos do �cavaquismo� (1998).

40. Vit�ria do �n�o� no "Referendo sobre a institui��o em Concreto das Regi�es Administrativas�, acabando com as press�es para uma nova organiza��o pol�tica do territ�rio continental. Respons�veis: pela derrota, Ant�nio Guterres, pela vit�ria, Marcelo Rebelo de Sousa, M�rio Soares, Cavaco Silva entre outros (8 de Novembro de 1998).


41. Cria��o do Rendimento M�nimo Garantido, o mais significativo alargamento do �estado social� na �ltima d�cada. Respons�veis: Ant�nio Guterres, Ferro Rodrigues (1996).

42. Referendo sobre o Aborto d� um pequena e inesperada minoria de �n�os�, contrariando o sentido da vota��o parlamentar e congelando politicamente por v�rios anos a quest�o do aborto (Junho de 1998).

43. Ades�o ao euro, principal manifesta��o da decis�o estrat�gica de manter Portugal no chamado �pelot�o da frente�, ou seja no grupo mais avan�ado da EU, abrindo caminho � quest�o do d�fice suscitada pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento (1 de Janeiro de 1999).

44. Devolu��o de Macau � plena soberania chinesa, terminando assim o �ltimo acto do imp�rio colonial portugu�s e o �ltimo El-Dorado de todas as fortunas f�ceis no �ultramar� (20 de Dezembro de 1999).

45. Demiss�o de Ant�nio Guterres, ap�s a derrota do PS nas elei��es aut�rquicas, abrindo uma longa crise no PS de que s� quatro anos depois vem a recuperar (Dezembro de 2001).

46. Processo Casa Pia: depois do processo Em�udio, � o primeiro grande processo-crime que envolve importantes dirigentes pol�ticos e figuras p�blicas, ainda inconclusivo (2002 at� hoje)

47. Sa�da de Dur�o Barroso para a Presid�ncia da UE ap�s a derrota do PSD-PP nas elei��es europeias, entregando o poder no partido a Santana Lopes e criando as condi��es para a dissolu��o da Assembleia (Junho 2004).

48. Campanha eleitoral do PS entre Jo�o Soares, Manuel Alegre e Jos� S�crates, a primeira campanha para uma lideran�a partid�ria feita mais para fora do que para dentro de um partido pol�tico. O precedente foi o Congresso do PSD de 1995 que op�s Dur�o Barroso e Fernando Nogueira (Setembro 2004) .

49. Dissolu��o da Assembleia da Rep�blica e fim do governo Santana Lopes - Paulo Portas, a primeira vez que uma dissolu��o � realizada com argumentos de incompet�ncia do Primeiro-ministro. Respons�vel: Jorge Sampaio (Novembro 2004).

50. Maioria absoluta do PS, abrindo o primeiro ciclo de governabilidade em condi��es de estabilidade do PS. Respons�vel: Jos� S�crates (20 de Fevereiro de 2005).

[NOTAS : Esta lista teve origem no Abrupto onde conheceu tr�s vers�es, alteradas e acrescentadas pelos leitores e pelas cr�ticas e sugest�es de outros blogues. Nesse sentido, sendo de minha responsabilidade individual, � tamb�m uma obra colectiva. Foi posteriormente publicada em dois artigos no P�blico. Esta � a vers�o final ainda incompleta da lista das contribui��es, e das liga��es que o texto do jornal n�o permitia fazer.

Em rela��o � vers�o do P�blico h� apenas a correc��o de um lapso grave pela omiss�o e por atingir uma personalidade pol�tica que tem sido v�tima de tentativas de �revis�o� da hist�ria: a inclus�o do nome de Freitas do Amaral na dupla respons�vel pela AD.]
*
Concordo o mais poss�vel consigo quando bate na falta de rigor, para n�o dizer na mais desavergonhada manipula��o, habitual nos nossos jornalistas.
Por isso muito surpreendido fiquei ao ler na sua lista dos acontecimentos mais relevantes da hist�ria recente o seguinte:

40. Vit�ria do �n�o� no "Referendo sobre a institui��o em Concreto das Regi�es Administrativas�, acabando com as press�es para uma nova organiza��o pol�tica do territ�rio continental. Respons�veis: pela derrota, Ant�nio Guterres, pela vit�ria, Marcelo Rebelo de Sousa, M�rio Soares, Cavaco Silva entre outros (8 de Novembro de 1998).

42. Referendo sobre o Aborto d� um pequena e inesperada minoria de �n�os�, contrariando o sentido da vota��o parlamentar e congelando politicamente por v�rios anos a quest�o do aborto (Junho de 1998).

Desculpe, mas a vota��o de ambos foi assim t�o diferente? Foi assim t�o diferente a participa��o dos eleitores nos dois referendos? Acaso o resultado de um foi vinculativo e o do outro n�o? E que � isso de dizer que o �Referendo sobre o Aborto d[eu] um pequena e inesperada minoria de �n�os��? Minoria? Mas o �n�o� n�o obteve mais de 50%?

Lamento que a sua posi��o relativamente � liberaliza��o do aborto o leve a proceder como qualquer jornalista do P�blico...

(fbp)
 


OS LIVROS DA S�BADO

LER ARIST�TELES

A edi��o pela Imprensa Nacional das Obras Completas de Arist�teles, de responsabilidade de uma equipa coordenada por Ant�nio Pedro Mesquita, � uma boa excep��o e um bom exemplo. Exemplo de edi��o e exemplo de trabalho universit�rio, academicamente rigoroso, mas voltado para fora, para a pessoa comum que � amadora do saber e que passa a ter os textos de Arist�teles traduzidos em portugu�s dos nossos dias.

� sintoma dos tempos de incultura generalizada que vivemos, que pare�a bizarro falar aqui de Arist�teles, um filosofo cujo nome ainda � razoavelmente conhecido, mas cuja obra � muito menos lida do que a de Plat�o no ensino secund�rio. Bom, em bom rigor, considerar que a de Plat�o � lida � um exagero� Voltemos a Arist�teles com um argumento yuppie: Arist�teles � um fil�sofo �vencedor� na nossa cultura e mesmo que n�o o conhe�amos est� por detr�s de muita coisa a que nos habituamos e j� n�o lhe atribu�mos a autoria. Na �competi��o� intelectual que atravessou a Idade M�dia, mediada em particular pela Igreja e pelo seu grande Doutor, Tom�s de Aquino, foi Arist�teles que passou para a escol�stica e atrav�s dela para muito do �modo� de pensar dos nossos dias. De passagem, diga-se que os portugueses foram bons disc�pulos.

Para o leitor comum, vejam-se, por exemplo, alguns textos �menores� como os que se encontram em Os Econ�micos. De que se trata? De economia? � controverso que os gregos entendessem a palavra como hoje a usamos. Arist�teles fala da �arte de administrar uma casa� e uma cidade (polis) e d� bons conselhos �s �esposas�. Mas, na listagem de casos e observa��es �econ�micas� encontramos muita coisa que directamente diz respeito � �economia pol�tica�, e �s rela��es sociais e humanas que a determinam.

Tamb�m na leitura de Arist�teles se aplicam os conselhos econ�micos imemoriais, recordados por um l�bio perguntado sobre qual era o melhor estrume para os cavalos e que respondeu:�as pegadas do amo�.
 


INTEND�NCIA

Em actualiza��o o S�TIO DO N�O.
 


COISAS COMPLICADAS


Fachada do Pavilh�o espanhol na Bienal de Veneza, 2005
 


EARLY MORNING BLOGS 514

Canci�n del pirata

Con diez ca�ones por banda,
viento en popa, a toda vela,
no corta el mar, sino vuela
un velero bergant�n.
Bajel pirata que llaman,
por su bravura, el Temido,
en todo mar conocido
del uno al otro conf�n.

La luna en el mar r�ela,
en la lona gime el viento,
y alza en blando movimiento
olas de plata y azul;
y va el capit�n pirata,
cantando alegre en la popa,
Asia a un lado, al otro Europa,
y all� a su frente Stambul:

�Navega, velero m�o,
sin temor,
que ni enemigo nav�o
ni tormenta, ni bonanza
tu rumbo a torcer alcanza,
ni a sujetar tu valor.

Veinte presas
hemos hecho
a despecho
del ingl�s,
y han rendido
sus pendones
cien naciones
a mis pies.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi �nica patria, la mar.

All� muevan feroz guerra
ciegos reyes
por un palmo m�s de tierra;
que yo aqu� tengo por m�o
cuanto abarca el mar brav�o,
a quien nadie impuso leyes.

Y no hay playa,
sea cualquiera,
ni bandera
de esplendor,
que no sienta
mi derecho
y d� pecho
a mi valor.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi �nica patria, la mar.

A la voz de ��barco viene!�
es de ver
c�mo vira y se previene
a todo trapo escapar;
Que yo soy el rey del mar,
y mi furia es de temer.

En las presas
yo divido
lo cogido
por igual;
s�lo quiero
por riqueza
la belleza
sin rival.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi �nica patria, la mar.

�Sentenciado estoy a muerte!
Yo me r�o;
no me abandone la suerte,
y al mismo que me condena,
colgar� de alguna entena,
quiz� en su propio nav�o.
Y si caigo,
�qu� es la vida?
Por perdida
ya la di,
cuando el yugo
del esclavo,
como un bravo,
sacud�.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi �nica patria, la mar.

Son mi m�sica mejor
aquilones,
el estr�pito y temblor
de los cables sacudidos,
del negro mar los bramidos
y el rugir de mis ca�ones.

Y del trueno
al son violento,
y del viento
al rebramar,
yo me duermo
sosegado,
arrullado
por el mar.

Que es mi barco mi tesoro,
que es mi dios la libertad,
mi ley, la fuerza y el viento,
mi �nica patria, la mar.�

(Espronceda)

*

Eu sei que j� coloquei o pirata aqui uma vez, mas foi o que me apeteceu hoje. Bom dia!

9.6.05
 


SATORI

Nem telefone, nem computador, nem correio.
Palavras, palavras, papel, letras, cidades, milhares de quilometros para cima, para baixo, para o meio.

8.6.05
 


VOLTO

em breve.
Estou outra vez feito de judeu errante.

6.6.05
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DIREITOS DE PASSAGEM.

Actualizado o S�TIO DO N�O.
 


EARLY MORNING BLOGS 513

"La Biblioteca existe ab aeterno. De esa verdad cuyo colorario inmediato es la eternidad futura del mundo, ninguna mente razonable puede dudar. El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos mal�volos; el universo, con su elegante dotaci�n de anaqueles, de tomos enigm�ticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, s�lo puede ser obra de un dios. Para percibir la distancia que hay entre lo divino y lo humano, basta comparar estos rudos s�mbolos tr�mulos que mi falible mano garabatea en la tapa de un libro, con las letras org�nicas del interior: puntuales, delicadas, negr�simas, inimitablemente sim�tricas."

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

5.6.05
 


AR PURO


A. Bierstadt
 


EARLY MORNING BLOGS 512

Sagesse I - XX


L'ennemi se d�guise en l'Ennui
Et me dit : " � quoi bon, pauvre dupe ? "
Moi je passe et me moque de lui.
L'ennemi se d�guise en la Chair Et me dit :
" Bah, retrousse une jupe ! Moi j'�carte le conseil amer.

L'ennemi se transforme en un Ange
De lumi�re et dit : " Qu'est ton effort
� c�t� des tributs de louange
Et de Foi dus au P�re c�leste ?
Ton Amour va-t-il jusqu'� la mort ? "
Je r�ponds : " L'Esp�rance me reste. "

Comme c'est le vieux logicien,
Il a fait bient�t de me r�duire
� ne plus vouloir r�pliquer rien.
Mais sachant qui c'est, �pouvant�
De ne plus sentir les mondes luire,
Je prierai pour de l'humilit�.


(Paul Verlaine)

*

Bom dia!

4.6.05
 


PARA O PS: UMA LI��O QUE J� DEVIA ESTAR H� MUITO APRENDIDA

mas que ningu�m aprende: a de que quando se abre a porta ao tratamento demag�gico e sem seriedade da quest�o dos vencimentos e regalias dos pol�ticos, apanha-se sempre por tabela. O PS, o governo socialista, ao usar o fim das reformas vital�cias como �lubrificante� populista das suas medidas de austeridade apanha de trav�s com a sua pr�pria demagogia. Merece-o.

A �nica forma s�ria de tratar a quest�o da remunera��o dos detentores de cargos pol�ticos � acabar com as regalias infamantes, ao mesmo tempo que se aumentam os vencimentos seguindo crit�rios de equil�brio com os altos cargos da fun��o p�blica com os quais, em termos de uma vis�o do estado e da democracia, devem ter uma hierarquia l�gica. Como nunca ningu�m tem coragem para o fazer, somam-se as medidas demag�gicas cujo �nico resultado � a cada vez maior degrada��o do exerc�cio de fun��es politicas.
 


OS LIVROS DA S�BADO

OS POEMAS DA MINHA VIDA


Vale a pena falar de livros no meio desta barb�rie futebol�stica, destas horas e horas monoc�rdicas de ru�do televisivo, sinal da nossa mis�ria e pobreza de esp�rito? Vale, no sentido do poema de O�Neill que M�rio Soares escolheu para ler na publicidade televisiva � colec��o �Os Poemas da Minha Vida�, distribu�dos com o P�blico:

Hist�ria da Moral

Voc� tem-me cavalgado,
Seu safado!
Voc� tem-me cavalgado,
Mas nem por isso me p�s
A pensar como voc�.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem est� a mont�-lo.


O m�rito desta colec��o (em que, declaro j� o meu conflito de interesses, tamb�m irei colaborar) � o de atrav�s dos poemas da �vida� de cada um, n�s os lermos, aos poemas, e � �vida� de quem os escolheu. Vale mesmo a pena, porque pouca coisa reflecte mais a percep��o que cada um tem de si pr�prio, ou o retrato p�blico que desenha de si mesmo, do que os poemas que escolhe para serem da �sua vida�, mesmo quando n�o o foram. Principalmente quando n�o o foram.
 


AR PURO


Robert Campin, mestre de Flemalle
 


APRENDENDO COM E�A DE QUEIR�S

Depois considera o derradeiro pecado, negr�ssimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de intoler�ncia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra mi�da e bem cimentada: dentro desse murozinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lema de �imparcialidade, desinteresse, etc.�, s� haver�, segundo Bento e o seu jornal, intelig�ncia, dignidade, saber, energia, civismo; para al�m desse muro, segundo o jornal de Bento, s� haver� necessariamente sandice, vileza, in�rcia, ego�smo, trafic�ncia! � a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a literatura, a filosofia, etc.) que te imp�e fatalmente esta divertida separa��o das virtudes e dos v�cios. Desde que penetras na batalha, nunca poder�s admitir que a raz�o ou a justi�a ou a utilidade se encontrem do lado daqueles contra quem descarregas, pela manh�, a tua metralha silvante de adjectivos e verbos � porque ent�o a dec�ncia, se n�o j� a consci�ncia, te for�ariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que eles s�o mal�ficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os traspassas. Das solas dos p�s at� aos teus raros cabelos, meu Bento, desde logo te atolas na intoler�ncia! Toda a ideia que se eleve, para al�m do muro, a condenar�s como funesta, sem exame, s� porque apareceu dez bra�as adiante, do lado dos outros, que s�o os r�probos, e n�o do lado dos teus, que s�o os eleitos.

Realizam esses outros uma obra? Bento n�o poupar� prosa nem m�sculo para que ela pere�a: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrev� nela certa beleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demoli��o, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de �til ou de belo nascesse dos seus inimigos � e vivesse. Nos homens que vagam para al�m do teu muro, tu s� ver�s pecadores; e quando entre eles reconhecesses S. Francisco de Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porci�ncula, taparias a face para que tanta santidade te n�o amolecesse, e gritarias mais sanhudamente: �L� anda aquele malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!�
 


EARLY MORNING BLOGS 511

Sunday Night in Santa Rosa


The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.


(Dana Gioia)

*

Bom dia!
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DIREITOS DE PASSAGEM

Acabei agora de receber a factura da PT. Ent�o n�o � que me est�o a cobrar uma Taxa de 0,25% sobre a incid�ncia dos servi�os e telecomunica��es fixas dizendo que � TAXA MUNICIPAL DIREITOS DE PASSAGEM. A import�ncia at� nem � muita mas entendo que � um abuso
Depois na folha seguinte l� vem a explica��o
A Taxa Municipal de Direitos de Passagem (Lei n� 5/2004, de 19/02) � fixada por cada Munic�pio e incide sobre os servi�os de telecomunica��es fixas.O valor cobrado reverte totalmente a favor do Munic�pio, estando a PT Comunica��es legalmente vinculada a incluir a taxa na factura.
Come�o por estranhar que sendo a Lei de 19/2 de 2004 s� este m�s esta taxa tenha sido cobrada pela 1� vez sem qualquer informa��o.
Depois fico sem saber se esta taxa era para a PT pagar ao Munic�pio ou apenas est� a servir de intermedi�ria de um servi�o que o Munic�pio n�o me presta.
Terceiro, pela mesma ordem de id�ias, qualquer dia � a EDP a cobrar uma taxa semelhante.
Quarto, uma vez que os postes telef�nicos passam em propriedades particulares, poder�o os donos desses terrenos solicitarem � Pt ou ao Munic�pio uma taxa equivalente de passagem? Por outro lado atendendo a que na frontaria do meu pr�dio passam v�rias linhas telef�nicas para servir os meus vizinhos, posso eu exigir que me pagam tamb�m um direito de passagem por passarem naquilo que � meu?
Ent�o para que serve a Contribui��o Aut�rquica que eu pago anualmente?
Ent�o para que serve a Assinatura Mensal que eu pago � PT ?
Isto � demais.

Fitas Cust�dio

*

A prop�sito da TMDP, de referir que a lei 5/2004 � um belo exemplo de inoquidade legislativa, para al�m de ser um documento profundamente d�bio e mal redigido.
A ideia at� � compreens�vel: responsabilizar a PT (finalmente) pelas suas interven��es no solo (nomeadamente as obras que fazem sem que seja necess�ria licen�a, comunica��o ou articula��o com os Munic�pios), atrav�s de uma taxa a entregar aos Munic�pios, calculada sobre o valor da sua factura��o em cada Concelho.
V�rios problemas se levantam: a taxa deve ser acrescida � factura normal (isto �, penalizando os consumidores) ou, antes, calculada sobre a factura, sem que se acres�a um c�ntimo ao valor da factura? A lei determina que o valor da taxa seja indicado na factura, mas a t�tulo de informa��o ou como item a somar aos valores?
E isto, que � elementar, n�o fica claro na lei. Da� que sejam imensas as d�vidas dos Munic�pios a este prop�sito, sem que alguma institui��o (ANACOM, etc) saiba esclarecer o que quer que seja.
O Munic�pio onde resido (e trabalho) optou por n�o determinar qualquer taxa sem que seja cabalmente esclarecido o m�todo de cobran�a da TMDP. Mas com isto, o problema de fundo (regular as interven��es de empresas ditas "p�blicas" nos Concelhos) nem sequer chega a ser frontalmente abordado. Antes se cria uma taxa sem que seja definido concretamente quem a paga. � o Estado que temos.

Rui Coutinho (Pa�os de Ferreira)

3.6.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: PICCOLO DIAVOLO

A ver absolutamente.
 


EARLY MORNING BLOGS 510

Le vierge, le vivace ...


Le vierge, le vivace et le bel aujourd'hui
Va-t-il nous d�chirer avec un coup d'aile ivre
Ce lac dur oubli� que hante sous le givre
Le transparent glacier des vols qui n'ont pas fui !

Un cygne d'autrefois se souvient que c'est lui
Magnifique mais qui sans espoir se d�livre
Pour n'avoir pas chant� la r�gion o� vivre
Quand du st�rile hiver a resplendi l'ennui.

Tout son col secouera cette blanche agonie
Par l'espace inflig�e � l'oiseau qui le nie,
Mais non l'horreur du sol o� le plumage est pris.

Fant�me qu'� ce lieu son pur �clat assigne,
Il s'immobilise au songe froid de m�pris
Que v�t parmi l'exil inutile le Cygne.


(S. Mallarm�)

*

Bom dia!

2.6.05
 


APRENDENDO COM E�A DE QUEIR�S

"O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s�culo XV representavam a Lux�ria ou a Gula: e o mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem � glor�ola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E � por essa glor�ola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os pol�ticos desmancham a ordem do Estado, e os artistas rebolam na extravag�ncia est�tica, e os s�bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g�neros, surge a horda ululante dos charlat�es... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!... Mas � a verdade, meu Bento! V� quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.) O pr�prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h� assassinos que assassinam. At� o velho instinto da conserva��o cede ao novo instinto da notoriedade: e existe tal magan�o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund�ncia das coroas, dos coches e dos prantos orat�rios, lambe os bei�os, pensativo, e deseja ser o morto.

Neste Ver�o, uma manh�, muito cedo, entrei numa taverna de Montmartre a comprar f�sforos. Rente ao balc�o de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pele de lontra, parecia (e era) um huno, um sobrevivente das hordas de Alarico, � gritava triunfalmente para outro vadio imberbe e l�vido, a quem arremessara um jornal: � verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda coluna, logo em cima, onde diz: �Ontem um infame e ign�bil bandido...� Sou eu! O nome todo! E espalhou lentamente em redor um olhar que triunfava. Eis a�, como agora se diz t�o alambicadamente, um �estado de alma�! "
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: AS REVOLU��ES NOS C�US EM CIMA





esmagam as pequenas turbul�ncias das terras em baixo.

Eta Carinae, uma estrela do Sul, brilhando em gl�ria no meio das convuls�es e a Terra vista de Marte. Sim, aquela pequena pinta no canto superior esquerdo. N�s.
 


CONTINUA O D�FICE DEMOCR�TICO - O QUE SIGNIFICA O ACORDO DE REVIS�O CONSTITUCIONAL

Reparem como perante a indiferen�a geral de quase todos, incluindo a comunica��o social habitualmente agressiva nas minud�ncias, mas acomodada face aos �consensos�, na Assembleia da Rep�blica, PS, PSD e PP, aprovaram um caminho referend�rio para a Constitui��o Europeia impregnado de m� f�, de desconfian�a do voto dos portugueses e de desprezo pelo debate e esclarecimento democr�tico.

1. Sigo o P�blico de hoje:

De acordo com o texto final levado � reuni�o, a que o P�BLICO teve acesso, passar� a existir transitoriamente, o artigo 294-A onde se l�: "1. O disposto no n�mero 3 do artigo 115� n�o prejudica a possibilidade de convoca��o e efectiva��o de referendo sobre a aprova��o pela Assembleia da Rep�blica do tratado que estabelece uma Constitui��o para a Europa ou de suas altera��es. 2. O disposto no n�mero 7 do artigo 115� n�o prejudica a convoca��o e efectiva��o de referendo previsto no n�mero anterior em simult�neo com a realiza��o de elei��es gerais para os �rg�os de poder local."

Aqui est�: �referendo (�) em simult�neo com a realiza��o de elei��es gerais para os �rg�os de poder local�. Porqu�? Ningu�m se d� ao trabalho de explicar. O referendo n�o tem pressa nenhuma, pode ser realizado durante 2006. Se se pretender, com o falso argumento dos custos, faz�-lo em simult�neo, podia ser feito com as elei��es presidenciais, muito mais adaptadas a um debate europeu. Mas a raz�o desta escolha apressada � s� uma: fazer um voto de contrabando, sem debate � faltam tr�s meses, sendo que um m�s � de f�rias, o que d� sempre dois meses de silly season � e com participa��o fict�cia, a que se seguir� uma proclama��o urbi et orbi dos seus resultados como validando no seu �sim� esmagador tudo: a Constitui��o, a pol�tica europeia dos �consensos�, o bom aluno, tudo.

N�o sei porqu� mas suspeito que se o "n�o" come�ar a crescer nas sondagens portuguesas � e j� � um milagre que ele sequer exista neste ambiente de sil�ncio respeitoso que c� se vive em rela��o a tudo que venha da Uni�o � o entusiasmo com o referendo diminua na raz�o directa com a diminui��o do voto de cruz.
 


AR PURO


Rembrandt
 


A JACT�NCIA DOS DIRIGENTES EUROPEUS RESPONS�VEIS POR ESTE PROCESSO CONSTITUCIONAL 2

� interessante ouvir todos os que foram respons�veis pelo processo que levou a esta Constitui��o e gerou os �n�os� a mostrarem-se agora derrotistas, apocal�pticos e pessimistas ao extremo, sugerindo que a Europa est� �morta� ou �moribunda�. N�o � a Europa, mas a condu��o pol�tica da Uni�o de que foram respons�veis que est� �moribunda�, � a combina��o de puro oportunismo pragm�tico que n�o ousa dizer o seu nome, no fundo o verdadeiro ego�smo nacional que bloqueou quase todas as pol�ticas europeias, com a engenharia ut�pica desligada da realidade com que queriam fugir para a frente. Agora que falhou, � como tinha irremediavelmente que falhar e houve quem o dissesse a tempo � ,confundem-se com a Europa como se n�o houvesse outros caminhos. Sem eles claro. Sem Chirac, sem Giscard, sem Schr�der, sem os mil e um parceiros menores belgas, sem Barroso, sem a burocracia que gasta milh�es em propaganda para nos condicionar politicamente a n�o exercer um controlo democr�tico eficaz sobre �Bruxelas�.
 


EARLY MORNING BLOGS 509

Beneath Speech



�She lay very still, looking up at the undersides of words.

Pink was pink all the way through, like any organ might be,
plucked from the body and held quiet on a little tray�

Night was a starry dish. One side convex, one side concave.

This must be like winter for fish, she thought,
and all the nouns went seamless as ice and slightly opaque.

If she put out her tongue, she might stay there forever.

In the air, the smell of snow like bits of speech�may I
have a little word?, she wondered, because or so to cover me�


(Mary Ann Samyn)

*

Bom dia!
 


A IDEIA DE UM REFERENDO EUROPEU SIMULT�NEO

mostra os perigos do actual processo europeu para a igualdade das na��es na Uni�o. Como � que se contabilizavam os votos? Em termos nacionais ou europeus? Com base na demografia? Se fosse assim ent�o estava verdadeiramente fundado um novo estado europeu, dominado pelos pa�ses com maior popula��o. Mesmo que os resultados fossem contabilizados nacionalmente, o efeito da demografia numa op��o comum de sim ou n�o gerariam uma deslegitima��o dos resultados nacionais minorit�rios, que j� se verifica em embri�o no debate actual quando se argumenta que j� �aprovaram� o tratado �tantos� milh�es de europeus, esquecendo as especificidades nacionais.

Um referendo simult�neo europeu n�o pode ser comparado �s elei��es para o Parlamento Europeu, dada que a variedade das situa��es pol�ticas nacionais impede um efeito de homogeneidade, embora j� se verifique em embri�o o efeito demogr�fico quando se agrupam os votos em termos de �partidos pol�ticos europeus�, o PPE e PSE.
 


A JACT�NCIA DOS DIRIGENTES EUROPEUS RESPONS�VEIS POR ESTE PROCESSO CONSTITUCIONAL

Revela-se no beco sem sa�da em que se colocaram ao nunca verdadeiramente admitirem que pudesse haver �n�os� nos referendos. Nunca lhes passou pela cabe�a, e por isso ficaram sem alternativas, que quando um documento � colocado � vota��o, pode receber dos eleitores um sim ou um n�o. A sua arrog�ncia e imprevid�ncia, agora sob a forma da cegueira de quererem continuar para a frente como se nada tivesse acontecido, � bem mais perigosa para o futuro da Uni�o do que os "n�os" franceses e holandeses.

1.6.05
 


APRENDENDO COM E�A DE QUEIR�S

Este � o primeiro pecado, bem negro. Considera agora outro, mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que ser� a sua fun��o e a sua for�a, tu desenvolver�s, no teu tempo e na tua terra, todos os males da vaidade! A reportagem, bem sei, � uma �til abastecedora da hist�ria. Decerto importou saber se era adunco, ou chato o nariz de Cle�patra, pois que do feitio desse nariz dependeram, durante algum tempo, de Filipe a Actium, os destinos do universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos rep�rteres revelar sobre o sr. Renan, e os seus m�veis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuir� o s�culo XX: para reconstruir com seguran�a a personalidade do autor das �Origens do Cristianismo�, e, atrav�s dela, compreender a obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos neg�cios do mundo ou nas direc��es do pensamento, do que, como diz a B�blia, sobre toda a �sorte e condi��es de gente v�, desde os j�queis at� aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documenta��o da hist�ria, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propaga��o das vaidades!

O jornal. � com efeito o fole incans�vel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos � ela, a vaidade do homem! j� sobre ela gemeu o gemebundo Salom�o, e por ela se perdeu Alcib�ades, talvez o 100 maior dos Gregos. Incontestavelmente, por�m, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso danado s�culo XIX, o motor ofegante do pensamento e da conduta. Nestes estados de civiliza��o, ruidosos e ocos, tudo deriva da vaidade, tudo tende � vaidade. E a forma nova da vaidade para o civilizado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! �Vir no jornal!� eis hoje a impaciente aspira��o e a recompensa suprema! Nos regimes aristocr�ticos o esfor�o era obter, se n�o j� o favor, ao menos o sorriso do Pr�ncipe. Nas nossas democracias a �nsia da maioria dos mortais � alcan�ar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ac��es � mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento!

O �nosso generoso amigo Z...� s� manda os cem mil r�is � creche, para que a gazeta exalte os cem mil r�is de Z..., nosso amigo generoso. Nem � mesmo necess�rio que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evid�ncia, bem negro, nessa tinta cujo brilho � mais apetecido que o v� lho nimbo de ouro do tempo das santidades. E n�o h� classe que n�o ande devorada por esta fome m�rbida do reclamo. Ela � t�o roedora nos seres de exterioridade e de mundanidade, como naqueles que s� pareciam amar na vida, como a sua forma melhor, a quieta��o e o sil�ncio...
 


GRANDES CAPAS


De Roberto Ara�jo, 1937

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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