ABRUPTO

31.3.05
 


NO MEIO

de milhares de quil�metros de mar para todo o lado, em cima de uma rocha de lava, aberto a um vento pouco ameno, � nestes dias escrito o Abrupto. Amanh� descerei a uma cratera, depois de amanh� sentirei o enxofre noutra, depois de depois de amanh� apanharei uma pedrinha de basalto como sinal de que n�o me esque�o. A obra ao negro.

29.3.05
 


AR PURO


C. Monet
 


EARLY MORNING BLOGS 461

Brumes et pluies

� fins d'automne, hivers, printemps tremp�s de boue,
Endormeuses saisons ! je vous aime et vous loue
D'envelopper ainsi mon coeur et mon cerveau
D'un linceul vaporeux et d'un vague tombeau.

Dans cette grande plaine o� l'autan froid se joue,
O� par les longues nuits la girouette s'enroue,
Mon �me mieux qu'au temps du ti�de renouveau
Ouvrira largement ses ailes de corbeau.

Rien n'est plus doux au coeur plein de choses fun�bres,
Et sur qui d�s longtemps descendent les frimas,
� blafardes saisons, reines de nos climats,

Que l'aspect permanent de vos p�les t�n�bres,
- Si ce n'est, par un soir sans lune, deux � deux,
D'endormir la douleur sur un lit hasardeux.

(Baudelaire)

*

Bom dia!

28.3.05
 


PREPARANDO-ME DE NOVO

para os caminhos de basalto, para onde o ar, a terra e o mar s�o turbulentos, fervem por dentro, crescem e baixam, porque a terra � viva. Cada um escolhe a chuva com que se molha. Haver� not�cias vulc�nicas, em breve.
 


AR PURO


C. Monet
 


EARLY MORNING BLOGS 460


Ma chaumi�re


Ma chaumi�re aurait, l'�t�, la feuill�e des bois pour
parasol, et l'automne, pour jardin, au bord de la fen�tre,
quelque mousse qui ench�sse les perles de la pluie, et
quelque girofl�e qui fleure l'amande.

Mais l'hiver, - quel plaisir, quand le matin aurait secou�
ses bouquets de givre sur mes vitres gel�es, d'apercevoir
bien loin, � la lisi�re de la for�t, un voyageur qui va
toujours s'amoindrissant, lui et sa monture, dans la neige
et la brume !

Quel plaisir, le soir, de feuilleter, sous le manteau de
la chemin�e flambante et parfum�e d'une bourr�e de geni�-
vre, les preux et les moines des chroniques, si merveil-
leusement portraits qu'ils semblent, les uns jouter, les
autres prier encore !

Et quel plaisir, la nuit, � l'heure douteuse et p�le, qui
pr�c�de le point du jour, d'entendre mon coq s'�gosiller
dans le gelinier et le coq d'une ferme lui r�pondre faible-
ment, sentinelle juch�e aux avant-postes du village endormi.,

Ah ! si le roi nous lisait dans son Louvre, - � ma muse
inabrit�e contre les orages de la vie ! - le seigneur
suzerain de tant de fiefs qu'il ignore le nombre de ses
ch�teaux ne nous marchanderait pas une chaumine !


(Aloysius Bertrand)


*

Bom dia!
 


UMA FORMA PARTICULAR DE DESERTO

cresce nestes dias. A normalidade? O fim dos problemas? O governo finalmente ideal? A gra�a do estado de gra�a? Os notici�rios televisivos dedicam-se �s doen�as, entre o alarmismo e o caso humano. Uma lontra nasce em directo. Volta-se ao circo, agora a s�rio, pelo pitoresco. Os ecologistas assumem o primeiro plano dos grandes problemas nacionais: os animais do circo s�o maltratados? Tr�s golfinhos apareceram mortos numa praia. Crime ou petr�leo? L� para o Norte fazem-se os folares, l� para o Sul a chuva acabou com a seca. O futebol continua sempre com o mesmo interesse, parece que tamb�m normalizado.

Pobres daqueles que duvidam de tanta fartura. Deviam era estar contentes e fazer f�rias longe, esquecer o fim do Pacto de Estabilidade, esquecer a "tenebrosa" directiva Bolkestein, esquecer as estranhas manobras � volta da Alta Autoridade para a Comunica��o Social acerca da compra do grupo Lusomundo, entregar o pa�s ao humor e �s �celebridades�. O reino do bem voltou. Mostrem-se agradecidos e dediquem-se �s lontras beb�s.

27.3.05
 


COISAS SIMPLES


Kuzma Petrov-Vodkin
 


EARLY MORNING BLOGS 459

E eu te encontrei, num alcantil agreste,
Meia quebrada, � cruz. Sozinha estavas
Ao p�r do Sol, e ao elevar-se a Lua
Detr�s do calvo cerro. A soledade
N�o te p�de valer contra a m�o �mpia,
Que te feriu sem d�. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
� mutilada cruz, falam de um crime
Sacr�lego, brutal e ao �mpio in�til!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quase derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos av�s, eu me assentei. Ao longe,
Do presbit�rio r�stico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, anunciando o instante
Da ave-maria; da ora��o singela,
Mas solene, mas santa, em que a voz do homem
Se mistura nos c�nticos saudosos,
Que a natureza envia ao C�u no extremo
Raio de sol, pasmado fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a inj�ria e o desprezo, e que te inveja
At�, na solid�o, o esquecimento!


(Alexandre Herculano)

*

Bom dia!

26.3.05
 


INTEND�NCIA

Continuo com a minha saga bibliogr�fica nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, onde continua a pol�mica sobre o lado m�tico de Catarina Euf�mia a que Helena Matos faz hoje refer�ncia no seu artigo do P�blico.

Coloquei tamb�m nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO uma carta in�dita que o dirigente do PCP nos anos trinta Cansado Gon�alves, j� falecido, me escreveu em 1983, relatando um epis�dio envolvendo o jovem Cunhal.
 


COISAS SIMPLES


Matisse
 


EARLY MORNING BLOGS 458

The Middle Age


Between TV and computer screens
counterfeiting a dragon glow in our mouths agog
and fundamentalists dreaming up real
fire and smoke to transmogrify the U.S.A.,

we may be on our way to something else,
as people in the Middle Ages sensed the decay
of the feudal system. Little orange mushrooms
sprouted from castle mortar and lilies

festered, till BOOM, the Gutenberg Bible
blew the roof off the church. The big party
(individualism) began, and the bare naked
rodeo we now call the Renaissance

gave us�let's face it�the best art ever;
In 1620 F. Bacon posited three
inventions as the high tech hocus-pocus
behind society's sea change: printing, gunpowder,

and the magnet. That's right, the magnet.
Used in compasses, it made heavenly bodies
obsolete, thus exploration of the New
World easy as pie. I mention in passing

Columbus's packs of mastiffs and greyhounds
trained on human flesh (brown), but the main
needle that guides my life is the needle
of debt. True North: My Mortgage. I find myself

thinking of Las Vegas, where I might
bathe in lilac neon and wander
palaces, tickled by the bickering
roulette wheels and the final clicks.

And get free drinks. And catch a lion act.
And I would turn my back on all that,
sagely, and walk out in the desert,
letting my crow's feet crinkle ironically.

Out in the desert at sunset
the wind must sequin up a sandgrain
or two, and the prodigal prune-face moon
appear above a dune. Beautiful.

Poignant as hell. And I bet you can hear,
far-off, barking Lotto numbers
the Beast of the Apocalypse. Yes, yes,
a Vegas vacation might be just the thing. Yes,

but I recall my childhood most keenly:
Hansel and Gretel's predicament: luminous
breadcrumbs one by one blinking out, a bird
too dark to be seen.



(Roger Fanning)

*

Bom dia!

25.3.05
 


INTEND�NCIA


Continua a actualiza��o da bibliografia dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO. Fazer uma bibliografia deve ser o equivalente � renda de Bilros. Em pior, porque nunca mais acaba.
 


ACORDE O VELHO TELEGRAFISTA QUE H� EM SI

Parte da minha correspond�ncia tem sido em Morse, por culpa de Janus o bifronte que produziu aquela que dever� ser a primeira nota escrita num blogue nos pontos e tracinhos do c�digo, o que, convenhamos, n�o � muito habitual. Velhos capit�es da Marinha, gente das cifras, e outros nost�lgicos do r�dio amadorismo, escreveram para o Abrupto usando Morse. Outros, mais expeditos nestas coisas da rede, usando o Java Code Morse Translator. Ainda bem .- ... ... .. -- / --- / -- --- .-. ... . / -. --- / ..-. .. -.-. .- / ... --- / .--. .- .-. .- / .- / .- .-. --.- ..- . --- .-.. --- --. .. .- --..-- / -- .- ... / .--. --- -.. . / ... . -- .--. .-. . / ... . .-. ...- .. .-. / .--. .- .-. .- / .--. . -.. .. .-. / ... --- -.-. --- .-. .-. --- / -. --- ... / .-. --- -- .- -. -.-. . ... / .--. --- .-.. .. -.-. .. .- .. ... / . / --..-- / - .- .-.. ...- . --.. --..-- / -. .- / ...- .. -.. .- / .-. . .- .-.. .-.-.-
porque, para al�m do mais, sempre pode ouvir esta nota do Abrupto.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: "ADMOVERE OCULIS DISTANTIA SIDERA NOSTRIS"



Esta � uma fotografia da lente do telesc�pio que Huygens utilizou para descobrir as luas de Saturno. Na lente est� escrito um verso de Ov�dio que cont�m um anagrama anunciando a descoberta de Tit�. Toda a hist�ria desta lente aqui.
 


EARLY MORNING BLOGS 457

Himno (I) (A la luz)


Oh la hermosura de la luz,
que habla
sin palabras, y toca
sin llegarse, y nos sabe
aromar sin ser jara ni de rosa
forma o tinta mostrar. Oh la frescura
de la luz, r�o ancho,
lago profundo, alta
cascada, arroyo arm�nico
de sombra y de trinos
de hojas verdes
y alguna que se cae
marchita. Oh la ternura
de la luz que, pudiendo
cegarnos, sus profundos
ojos anida entre su propia alada
cabellera inmortal, que nuestro paso
aligera, pudi�ndonos dejar
marchitos en el valle, que nos cura
los recuerdos m�s pr�ximos
para que la podamos saludar
junto ala muro ca�do. Oh la cordura
de la luz, que nos deja desvariar
mientras ella sonr�e
en el verde del junco, de la avena
en el ramo inclinado, y llora un poco
en la plata que arrastra
la brisa; que prefiere
repartirse en lo claro de lo oscuro
de la saz�n. Oh la dulzura
de la luz que se aparta
al paso de la muerte
y, al punto, es m�s sustento
y m�s sabor �abeja
intangible y discreta
que de s� hace su miel-. Oh la figura
invisible y cambiante
de la luz, vista siempre
hacerse m�s y m�s
hermosura, m�s luz entre su luz.

(Angel Crespo)


*

Bom dia!

24.3.05
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: JANUS FALANDO EM MORSE - TRA�O, PONTO, TRA�O



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INTEND�NCIA

Continua a actualiza��o da bibliografia dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.J� vai em mais de 150 p�ginas de texto e est� longe do fim.

No mesmo s�tio h� tamb�m uma pol�mica interessante, com gente que sabe do que est� a falar, sobre Catarina Euf�mia, a hist�ria e o mito.
 


COISAS SIMPLES


F�lix Valloton
 


EARLY MORNING BLOGS 456

Retrato



Esta es mi cara y �sta es mi alma: leed.
Unos ojos de hast�o y una boca de sed...
Lo dem�s, nada... Vida... Cosas... Lo que se sabe...
Calaveradas, amor�os... Nada grave,
Un poco de locura, un algo de poes�a,
una gota del vino de la melancol�a...
�Vicios? Todos. Ninguno... Jugador, no lo he sido;
ni gozo lo ganado, ni siento lo perdido.
Bebo, por no negar mi tierra de Sevilla,
media docena de ca�as de manzanilla.
Las mujeres... -sin ser un tenorio, �eso no!-,
tengo una que me quiere y otra a quien quiero yo.

Me acuso de no amar sino muy vagamente
una porci�n de cosas que encantan a la gente...
La agilidad, el tino, la gracia, la destreza,
m�s que la voluntad, la fuerza, la grandeza...
Mi elegancia es buscada, rebuscada. Prefiero,
a olor hel�nico y puro, lo chic y lo torero.
Un destello de sol y una risa oportuna
amo m�s que las languideces de la luna
Medio gitano y medio parisi�n -dice el vulgo-,
Con Montmartre y con la Macarena comulgo...
Y antes que un tal poeta, mi deseo primero
hubiera sido ser un buen banderillero.
Es tarde... Voy de prisa por la vida. Y mi risa
es alegre, aunque no niego que llevo prisa.



(Manuel Machado)

*

Bom dia!

23.3.05
 


DE REGRESSO

pouco a pouco. At� breve.

22.3.05
 


AR PURO


Constantin Somov
 


EARLY MORNING BLOGS 455

Litany


This is a litany of lost things,
a canon of possessions dispossessed,
a photograph, an old address, a key.
It is a list of words to memorize
or to forget�of amo, amas, amat,
the conjugations of a dead tongue
in which the final sentence has been spoken.

This is the liturgy of rain,
falling on mountain, field, and ocean�
indifferent, anonymous, complete�
of water infinitesimally slow,
sifting through rock, pooling in darkness,
gathering in springs, then rising without our agency,
only to dissolve in mist or cloud or dew.

This is a prayer to unbelief,
to candles guttering and darkness undivided,
to incense drifting into emptiness.
It is the smile of a stone Madonna
and the silent fury of the consecrated wine,
a benediction on the death of a young god,
brave and beautiful, rotting on a tree.

This is a litany to earth and ashes,
to the dust of roads and vacant rooms,
to the fine silt circling in a shaft of sun,
settling indifferently on books and beds.
This is a prayer to praise what we become,
"Dust thou art, to dust thou shalt return."
Savor its taste�the bitterness of earth and ashes.

This is a prayer, inchoate and unfinished,
for you, my love, my loss, my lesion,
a rosary of words to count out time's
illusions, all the minutes, hours, days
the calendar compounds as if the past
existed somewhere�like an inheritance
still waiting to be claimed.

Until at last it is our litany, mon vieux,
my reader, my voyeur, as if the mist
steaming from the gorge, this pure paradox,
the shattered river rising as it falls�
splintering the light, swirling it skyward,
neither transparent nor opaque but luminous,
even as it vanishes�were not our life.


(Dana Gioia)

*

Bom dia!

21.3.05
 


AR PURO / �GUA PURA


Constantin Somov
 


A LER / A VER


No P�blico , Parte 3 de Fernando Ilharco, pensando na Bombardier, e como o "choque tecnol�gico" e a "estrat�gia de Lisboa" s�o maneiras de n�o ver o que se passa � nossa volta, estrat�gias de resist�ncia e de recuo, de velhas sociedades perdidas no seu conforto imediato e incapazes de assegurar a reprodu��o desse conforto.

E na SIC a not�vel reportagem, de alta craveira em todo o mundo, de Henrique Cymerman sobre os "homens-bomba" de Bit Furik. A registar os not�veis coment�rios paralelos vindos da academia israelita e do im� do Hamas na mesquita de Bit Furik, sobre o "para�so" dos mu�ulmanos, falando daquilo que, por detr�s do nosso ecr� "politicamente correcto", n�o queremos ver: o papel do sexo e da masculinidade no mundo �rabe e, por reverso, o papel da mulher como patrim�nio sexual do homem.
 


EARLY MORNING BLOGS 454

Hatteras Calling


Southeast, and storm, and every weathervane
shivers and moans upon its dripping pin,
ragged on chimneys the cloud whips, the rain
howls at the flues and windows to get in,

the golden rooster claps his golden wings
and from the Baptist Chapel shrieks no more,
the golden arrow into the southeast sings
and hears on the roof the Atlantic Ocean roar.

Waves among wires, sea scudding over poles,
down every alley the magnificence of rain,
dead gutters live once more, the deep manholes
hollo in triumph a passage to the main.

Umbrellas, and in the Gardens one old man
hurries away along a dancing path,
listens to music on a watering-can,
observes among the tulips the sudden wrath,

pale willows thrashing to the needled lake,
and dinghies filled with water; while the sky
smashes the lilacs, swoops to shake and break,
till shattered branches shriek and railings cry.

Speak, Hatteras, your language of the sea:
scour with kelp and spindrift the stale street:
that man in terror may learn once more to be
child of that hour when rock and ocean meet.


(Conrad Aiken)

*

Bom dia!

20.3.05
 


OUVINDO O ROBIM DOS BOSQUES


A m�sica de Korngold para o "Robin Hood" com Errol Flynn, um dos melhores "Robin" de sempre. As fanfarras do filme parecem sa�das da Guerra das Estrelas. Tudo salta � minha volta. Excelente para fazer bibliografias.
 


EARLY MORNING BLOGS 453


Chansons Innocentes: I


in Just-
spring when the world is mud-
luscious the little
lame balloonman

whistles far and wee

and eddieandbill come
running from marbles and
piracies and it's
spring

when the world is puddle-wonderful

the queer
old balloonman whistles
far and wee
and bettyandisbel come dancing

from hop-scotch and jump-rope and

it's
spring
and
the
goat-footed

balloonMan whistles
far
and
wee



(E. E. Cummings)

*

Bom dia!

19.3.05
 


AR PURO


Repin
 


EARLY MORNING BLOGS 452

The Czar's Last Christmas Letter: A Barn in the Urals



You were never told, Mother, how old Illya was drunk
That last holiday, for five days and nights

He stumbled through Petersburg forming
A choir of mutes, he dressed them in pink ascension gowns

And, then, sold Father's Tirietz stallion so to rent
A hall for his Christmas recital: the audience

Was rowdy but Illya in his black robes turned on them
And gave them that look of his; the hall fell silent

And violently he threw his hair to the side and up
Went the baton, the recital ended exactly one hour

Later when Illya suddenly turned and bowed
And his mutes bowed, and what applause and hollering

Followed.
All of his cronies were there!

Illya told us later that he thought the voices
Of mutes combine in a sound

Like wind passing through big, winter pines.
Mother, if for no other reason I regret the war

With Japan for, you must now be told,
It took the servant, Illya, from us. It was confirmed.

He would sit on the rocks by the water and with his stiletto
Open clams and pop the raw meats into his mouth

And drool and laugh at us children.
We hear guns often, now, down near the village.

Don't think me a coward, Mother, but it is comfortable
Now that I am no longer Czar. I can take pleasure

From just a cup of clear water. I hear Illya's choir often.
I teach the children about decreasing fractions, that is

A lesson best taught by the father.
Alexandra conducts the French and singing lessons.

Mother, we are again a physical couple.
I brush out her hair for her at night.

She thinks that we'll be rowing outside Geneva
By the spring. I hope she won't be disappointed.

Yesterday morning while bread was frying
In one corner, she in another washed all of her legs

Right in front of the children. I think
We became sad at her beauty. She has a purple bruise

On an ankle.
Like Illya I made her chew on mint.

Our Christmas will be in this excellent barn.
The guards flirt with your granddaughters and I see...

I see nothing wrong with it. Your little one, who is
Now a woman, made one soldier pose for her, she did

Him in charcoal, but as a bold nude. He was
Such an obvious virgin about it; he was wonderful!

Today, that same young man found us an enormous azure
And pearl samovar. Once, he called me Great Father

And got confused.
He refused to let me touch him.

I know they keep your letters from us. But, Mother,
The day they finally put them in my hands

I'll know that possessing them I am condemned
And possibly even my wife, and my children.

We will drink mint tea this evening.
Will each of us be increased by death?

With fractions as the bottom integer gets bigger, Mother, it
Represents less. That's the feeling I have about

This letter. I am at your request, The Czar.
And I am Nicholas.


(Norman Dubie)

*

Bom dia!
 


MEM�RIA CURTA

A facilidade com que o �pack journalism� funciona s� pode surpreender os incautos. A rapidez com que se tiram conclus�es de fundo de meia d�zia de sinais ainda incipientes e pouco testados � not�vel. � o caso da ideia de que o �comportamento de S�crates � compar�vel ao de Cavaco Silva� (presente no Expresso da Meia Noite da SIC Not�cias, no P�blico de hoje e em meia d�zia de coment�rios avulsos sobre a gest�o do sil�ncio).

� um estilo? Talvez seja e se o for � positivo. No entanto, tanto louvor s� pode vir da diferen�a com o passado imediato e n�o de uma qualquer mem�ria s�lida que permita tirar conclus�es para al�m de ontem. Entre ontem e hoje, estou de acordo, a diferen�a � significativa. Mas quanto a anteontem?

Acaso j� se est� esquecido de que o mesmo louvor se passou com outros governos como o de Guterres e Barroso e, pasme-se, com o de Santana. Se n�o tiv�ssemos uma mem�ria p�blica que nem um m�s mant�m presente na cabe�a, lembrar�amos que a forma��o do governo de Santana foi elogiada tamb�m por n�o ter sido feita na pra�a p�blica�

� evidente que vindo depois de quem vem, tudo em S�crates parece discri��o, recato, rigor e dedica��o. N�o admira que a mera normalidade seja um enorme al�vio depois da perturba��o s�frega de todos os dias. Mas n�o � prudente ir para al�m disso, porque ainda n�o se sabe se � um estilo consolidado e sustentado � s�o as dificuldades a prova dos nove e ainda n�o houve nenhuma, tem sido tudo um mar de rosas � e acima de tudo, um estilo n�o � um pol�tica, e de pol�tica sabemos muito pouco ou de menos.

18.3.05
 


OUVINDO AS V�SPERAS


de Veneza. Um Sol d�bil parte a meio a Pra�a, e os canais est�o mais cinzentos do que o costume.
 


EARLY MORNING BLOGS 451


Of Politics, & Art


--for Allen

Here, on the farthest point of the peninsula
The winter storm
Off the Atlantic shook the schoolhouse.
Mrs. Whitimore, dying
Of tuberculosis, said it would be after dark
Before the snowplow and bus would reach us.

She read to us from Melville.

How in an almost calamitous moment
Of sea hunting
Some men in an open boat suddenly found themselves
At the still and protected center
Of a great herd of whales
Where all the females floated on their sides
While their young nursed there. The cold frightened whalers
Just stared into what they allowed
Was the ecstatic lapidary pond of a nursing cow's
One visible eyeball.
And they were at peace with themselves.

Today I listened to a woman say
That Melville might
Be taught in the next decade. Another woman asked, "And why not?"
The first responded, "Because there are
No women in his one novel."

And Mrs. Whitimore was now reading from the Psalms.
Coughing into her handkerchief. Snow above the windows.
There was a blue light on her face, breasts and arms.
Sometimes a whole civilization can be dying
Peacefully in one young woman, in a small heated room
With thirty children
Rapt, confident and listening to the pure
God rendering voice of a storm.


(Norman Dubie)

*

Bom dia!

17.3.05
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (9� s�rie)



(Jan Lievens)

Ao ler epis�dios das Mem�rias das Bibliotecas veio-me a liga��o com as Cooperativas Livreiras de Estudantes que nasceram entre n�s nos anos 60. A LIVRELCO, em Lisboa, a UNICEPE, no Porto e a UNITAS em Coimbra.
Para al�m de algum papel que desempenharam na resist�ncia contra a ditadura, foram �ncoras importantes no desenvolvimento cultural e at� profissional dos jovens de v�rias gera��es.
Comungando dos ideais do "velho" cooperativismo de Rochedale, eram geridas pelos estudantes, procurando-se fugir aos circuitos comerciais tradicionais e assim fazer contribuir para que o livro pudesse ser uma mercadoria mais acess�vel a camadas com reduzido poder de compra.
Para al�m de que, correndo inevit�veis e �bvios riscos, furar o cerco da censura e da figura do "livro fora do mercado" era poss�vel nesses redutos tolerados pelo regime de ent�o, mas sempre vigiados e perseguidos.

Fui dirigente da UNICEPE durante alguns anos (creio que a cooperativa ainda que penosamente, subsiste). O Pacheco Pereira era s�cio e por l� o via com alguma frequ�ncia. E outros, como o Vasco Gra�a Moura, o Armando de Castro, o M�rio Viegas, para s� falar de alguns que me vieram de imediato � mem�ria. Eram tempos de algum idealismo e porventura de alguma utopia. Mas eram tamb�m tempos de inconformismo e de afirma��o.

(Ant�nio Moreira)


*

A mim poucas mem�rias emergem das bibliotecas. Filho de pais humildes, a quem os livros de estudo eram inclusivamente oferecidos por algu�m que conhecia editores, s� j� espigadote comecei a frequentar a biblioteca da mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto (longe realmente v�o os tempos que deram origem a estes ep�tetos...). No entanto nunca me esquecerei dos longos momentos que gastei a ler nos emergentes supermercados da altura (j� l� v�o trinta e muitos anos e estas unidades de com�rcio j� faziam furor). Sem ter dinheiro para comprar esses criadores de sonhos, aproveitava a "impessoalidade" desses estabelecimentos comerciais, como felizmente ainda hoje frequentemente encontro algumas crian�as, para instalado num canto qualquer me deliciar e me ausentar deste mundo ao entrar por exemplo no mundo delicioso e de aventura de Enid Blyton; e se algu�m me oferecia um livrito (o que raramente acontecia) e se gostava dele, l� ficava eu a l�-lo at� �s tantas, com a luz do quarto apagado (j� que a energia el�ctrica, apesar de bem apregoado e facilitado o seu uso pelo Dr. Salazar, era cara) e uma lanternita acesa debaixo dos len��is. Para meu castigo tenho um filhote, que apesar de muito estimulado, a leitura parece ser tortura de Guantanamo. Como � injusta a vida.

(Abel Gomes)

*

A prop�sito do deslumbramento confessado por Amf perante um milh�o de volumes ao alcance f�sico da sua m�o das 7h �s 24h, na biblioteca de uma universidade americana, lembro a extrema necessidade de repensar os hor�rios das nossas bibliotecas, a come�ar pela Biblioteca Nacional. Frequentadora regular da BN nos �ltimos anos, senti muitas vezes a dificuldade de conjugar a investiga��o que realizava para o doutoramento com o meu hor�rio de trabalho na escola onde sou professora. Tive mais sorte na prepara��o do mestrado, beneficiando de in�meros ser�es e fins de semana passados na bel�ssima biblioteca da Universidade de Hong Kong, onde at� as diversas m�quinas fotocopiadoras espalhadas pelas salas de leitura funcionavam com o cart�o que servia de passe para o metro e autocarro.

(Helena Rodrigues)

*

Este texto foi feito a pedido do �Jornal de Coimbra� para a rubrica: O LIVRO QUE N�O EMPRESTO

N�o consigo imaginar-me a recusar emprestar um livro. N�o me � f�cil, sequer, pensar nessa possibilidade pois, embora me veja a mim mesma como uma leitora compulsiva, nunca fetichizei os livros ou a sua posse. Se, como toda a gente, prefiro ler um livro novo a um muito usado, s�o-me, contudo, bastante indiferentes os aspectos exteriores ao pr�prio conte�do do livro, o que talvez se explique pelo modo como principiou, o que n�o posso deixar de considerar, como a minha frutuosa carreira de leitora.
Corria o ano de 1958, andava eu na 2� classe, quando a Funda��o Calouste Gulbenkian p�s a funcionar o seu plano de bibliotecas itinerantes. A fam�lia acorreu a inscrever-se (pai, m�e, av�, tia e eu, com a toda a import�ncia de uma rec�m letrada - com cart�o e tudo). Durante muitos anos l� ia eu � biblioteca, todas as semanas, levantar os "meus" cinco livros, o n�mero m�ximo que permitia o estimado professor Armindo Pega. N�o foi preciso passar muito tempo para que eu e as minhas duas irm�s l�ssemos, cada uma, 15 livros por semana! Ali-B�b� n�o entrava na sua caverna, cheia de tesouros, e n�o a olhava com mais �xtase do que n�s ao subir para aquela carrinha, cheia de livros usados, prontos a serem emprestados.
As minhas prendas de crian�a foram sempre livros. Tive esse privil�gio, o de ter nascido numa fam�lia onde n�o passava pela cabe�a de ningu�m que livros n�o fossem o melhor presente a dar "�s mi�das". Devo ao meu Tio Abel livros como "O Feiticeiro de Oz", refulgente nas suas duras e grandes capas amarelas ou "Os Cinco na Ilha do Tesouro", de Enid Blyton, o qual inaugurou, uma sucess�o de naufr�gios que tornaram o mar da minha inf�ncia particularmente enxameado de piratas.
Um dos meus preferidos era a "Ilha do Tesouro" de Robert Louis Stevenson, mas tamb�m "Dois Anos de F�rias", "Os Filhos do Capit�o Grant" ou a "Ilha Misteriosa" de J�lio Verne. A este grupo juntava-se ainda o "Robinson Crusoe" de Daniel Defoe, "Um Robinson Su��o" e os "Robinsons dos Gal�pagos". Apelando fortemente para a imagina��o, com ou sem naufr�gio, com ou sem piratas, nestes livros, as personagens s�o sempre confrontadas com os mil perigos e todos os riscos de meios desconhecidos e adversos e, numa altura em que os programas de f�sica e qu�mica ensinavam a fazer sab�o, p�lvora ou vidro (tudo coisas �teis, especialmente numa ilha deserta) eu passava horas a ficcionar as minhas lutas, vitoriosas (est� bem de ver!), contra todas as ciladas que a natureza ou os homens pudessem armar...
A fase dos piratas e das aventuras, desenvolveu-se em paralelo com cl�ssicos da literatura infantil e juvenil. Nomes como Louise May Alcott (Mulherzinhas), Frances Burnett (O Jardim Misterioso), Elizabeth George Speare (A Feiticeira de Blackbird Pond) ou Selma Lag�rlof (A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson) constituem, ainda hoje, refer�ncias que tenho tentado passar �s minhas filhas. O per�odo que imediatamente se segue � marcado n�o s� por autores como Charles Dickens (quilos!), Walter Scott (ainda mais quilos!), Jorge Amado, ou John Steinbeck, mas muito especialmente por Jane Austen e Charlotte Bront� a que sucede, j� estudante universit�ria, o deslumbramento com os "Cem Anos de Solid�o", de Gabriel Garcia Marquez ou "L'�cume des Jours" de Boris Vian.
Ainda do tempo do liceu, Miguel Torga, cujos livros de contos li pelos quatorze, quinze anos e, antes deste, logo pelos dez, doze anos, o querid�ssimo J�lio Diniz. Associarei sempre aos anos 70 autores como Nuno Bragan�a, Herberto Helder, Jorge Lu�s Borges, Aquilino Ribeiro, Carlos de Oliveira, Jos� R�gio, Ferreira de Castro. Houve autores que li, de rajada, tudo o que deles consegui encontrar como foi o caso de Jorge de Sena, E�a de Queiroz ou o caso mais recente de Philip Roth. Outros que vou acompanhando ao ritmo das suas publica��es: Agustina Bessa Lu�s, Ant�nio Lobo Antunes, Jos� Saramago e, at� h� pouco, Jos� Cardoso Pires e Sofia de Melo Breyner.
Tal como ao entrar em certos caf�s, em Coimbra, me lembro das "cadeiras" que a� "fiz", quando olho para a minha vida vejo-a sempre pontuada por livros e autores, numa associa��o autom�tica e imediata. E se d� perversidades como ligar Marguerite Yourcenar e as suas "Mem�rias de Adriano" � Praia da Rocha, tamb�m faz de 1964 o ano de "Servid�o Humana" e "O Fio da Navalha" de Somerset Maugham, de 1971 o ano de "Exerc�cios de Estilo" de Lu�s Pacheco, de 1972 o ano de "Novas Cartas Portuguesas", de 1973 o ano de "A La Recherche du Temps Perdu", de Proust, ou de 2004 o ano de �A arte de viajar� de Alain de Botton
Poderia continuar a falar de livros ou de autores por muito mais tempo, um prazer que as presentes limita��es de espa�o n�o permitem. Um livro n�o se esgota na sua leitura, permenece, a vibrar, em n�s e nas rela��es que estabelecemos com os outros. Tenho a sorte de partilhar este gosto com muitos amigos e pessoas de fam�lia, como a minha M�e, com os quais participo numa rede informal de empr�stimos. � com esse apoio que me mantenho no meu estado habitual de "empresto-depend�ncia" assumido, e que continuo (quase) � altura das minhas m�dias de crian�a.
Qual o livro que n�o empresto? Provavelmente, s� mesmo o que estou a ler no momento (no caso presente "A noite do or�culo" de Paul Auster).

(Ana Pires)
 


OUVINDO FRANK SINATRA JAZZ!!!

 


EARLY MORNING BLOGS 450

ROMANCE DEL REY DON SANCHO


-�Rey don Sancho, rey don Sancho!, no digas que no te aviso,
que de dentro de Zamora un alevoso ha salido;
ll�mase Vellido Dolfos, hijo de Dolfos Vellido,
cuatro traiciones ha hecho, y con esta ser�n cinco.
Si gran traidor fue el padre, mayor traidor es el hijo.
Gritos dan en el real: -�A don Sancho han mal herido!
Muerto le ha Vellido Dolfos, �gran traici�n ha cometido!
Desque le tuviera muerto, metiose por un postigo,
por las calle de Zamora va dando voces y gritos:
-Tiempo era, do�a Urraca, de cumplir lo prometido.


*

Bom dia!
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: NO FIO DA NAVALHA


onde est�o suspensas as pequenas luas de Saturno.

16.3.05
 


A LER

De Pedro Caeiro, A "NOVA" DIREITA no Mar Salgado.

15.3.05
 


COISAS SIMPLES / SCRITTI VENETI


J. Singer Sargent
 


EARLY MORNING BLOGS 449

Sem�ntica Electr�nica


Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu j� n�o dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Ent�o resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenan�a ---
Voc� n�o pode ordenhar uma m�quina:
Uma m�quina � que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, voc� agora � padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma m�quina � vic�ria (voc� � vig�rio?):
Vaca (em vac�ncia) � vaca.
S�o ordens...
Eu ent�o, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
�s ordens da ordenan�a em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada � nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em p�, leite c�ptico ass�ptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibern�tico!


(Vitorino Nem�sio)

*

Bom dia!

14.3.05
 


FALTA DE �., OLHEM, FALTA DE TUDO

de sentido de estado, de boa educa��o, de respeito m�nimo por todos.
� o que significa esta hist�ria da C�mara de Lisboa.
 


ESTRANHO

O momento e o lugar e o livro e a m�sica. Junto a um cemit�rio de aldeia, alto, escuro do granito, espraiado por um pequeno planalto, sem casas perto. O livro ocasional, o Post Office do Bukowski. A m�sica ocasional, Charles Ives. Nada que especialmente me interessasse, comprados por excesso: o livro por curiosidade, porque n�o gosto muito do autor; a m�sica por curiosidade, porque o disco recebera um pr�mio da Grammophon e eu n�o conhecia a pe�a (engano, afinal j� a tinha ouvido, um pouco Promm�). Quem juntou esta improv�vel mistura, por si s� bizarra, excessivamente intelectual, foi a Grande Ceifeira, a que cria o inesperado, e que me apanhou entre um morto, um disco adiado e um livro improv�vel. Tudo o que tinha , na altura, por acaso, no momento que n�o se espera. N�o soprava vento nenhum. Nada batia certo e na cabe�a sempre este Eliot, tamb�m improv�vel:

LET us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question �
Oh, do not ask, �What is it?�
Let us go and make our visit.


Os intelectuais s�o insuport�veis. N�o t�m inoc�ncia, arrastam coisas a mais.
 


INTEND�NCIA

Continua a actualiza��o da bibliografia dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO. J� foi colocado o equivalente a cerca de 80 p�ginas de texto, o que obrigou � sua divis�o em duas entradas, Prevejo que, no final, ter� o dobro do tamanho actual, ficando a ser a mais completa bibliografia sobre este assunto jamais feita.

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A PRESEN�A DO FARMAC�UTICO.
 


AR PURO


Renoir
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A PRESEN�A DO FARMAC�UTICO

(...) volto a escrever-lhe sobre o assunto ap�s o discurso do PM na tomada de posse do Governo. Ou eu n�o ouvi bem ou as televis�es e as r�dios n�o prestaram muita aten��o ao que disse o PM. At� o Professor Marcelo que costuma estar t�o atento n�o tocou na quest�o fundamental. Jos� Socrates disse que uma das primeiras medidas do Governo seria colocar os medicamentos, para os quais n�o � necess�ria receita m�dica, � venda em outros estabelecimentos comerciais que n�o apenas as farm�cias. Mas n�o disse apenas isto como querem fazer querer as not�cias que depois vieram a p�blico sobre o assunto. O PM disse explicitamente que essa medida inclu�a a presen�a de um farmac�utico no ponto de venda. E � neste ponto que a medida se torna absurda. Das duas uma, ou os medicamentos chamados de venda livre s�o vendidos nos hipermercados, ponto final. Ou se est� l� um farmac�utico, porque � que os outros medicamentos n�o podem ser vendidos tamb�m? Por alguma raz�o o local de venda tem influ�ncia sobre a compet�ncia t�cnica do farmac�utico?

Al�m disso, se tivermos em aten��o o pa�s para al�m de Lisboa e Porto, onde, insisto, n�o h� um verdadeiro problema de acessibilidade, que supermercados v�o suportar o custo de um farmac�utico para vender apenas alguns medicamentos? No fundo, para o Portugal mais pobre, a medida corre s�rios riscos de se tornar in�cua. H� duas coisas neste caso que me incomodam. A primeira e mais grave � a falta de prepara��o e estudo na tomada de certas medidas. O falar antes de pensar e reflectir sobre todos os aspectos que envolvem determinadas decis�es, o que me preocupa sobretudo para o futuro do pa�s. A segunda que me chateia mas n�o me surpreende � a falta de rigor com que os meios de comunica��o tratam estas quest�es.

(Ricardo Sousa)

*
� a primeira vez que lhe escrevo, mas perante um post colocado no seu blogue, e conhecendo o seu discurso em rela��o � deturpa��o noticiosa, que eu subscrevo totalmente, n�o consegui ficar "calado". Diz o leitor Ricardo Sousa que, "O PM disse explicitamente que essa medida inclu�a a presen�a de um farmac�utico no ponto de venda". Eu ouvi o discurso e n�o me pareceu que ele tivesse dito tal.
Consegui no s�tio da TSF uma transcri��o do discurso que refere, em rela��o � venda de medicamentos em outros locais que n�o as farm�cias: �Desde que reunam as condi��es t�cnicas exig�veis de qualidade e seguran�a, nomeadamente o controlo t�cnico por um farmac�utico, nada justifica que esta situa��o se mantenha a n�o ser numa legisla��o obsoleta� Isto � substancialmente diferente. N�o faz refer�ncia a que o farmaceutico tenha que estar no local de venda, o que seria um absurdo, mas refere-se ao controlo t�cnico, que, obviamente, n�o exige uma perman�ncia constante e efectiva no local de venda. J� chega de inventar, pondo na boca das pessoas aquilo que elas n�o disseram.
(Paulo Viegas)

*
Eu sei que o Abrupto n�o � um f�rum. Mas o que significa controle t�cnico de um farmac�utico? N�o � com certeza a verifica��o da composi��o quimica do medicamento, pois isso � feito nos locais de produ��o e n�o de venda. O controle t�cnico de um farmac�utico quer dizer obviamente a sua presen�a no local para aconselhar o consumidor e prestar esclarecimentos a quem compra.
(Ricardo Sousa)

*
Escrevo este texto preocupado com as recentes declara��es do actual primeiro ministro Jos� S�crates sobre a poss�vel liberaliza��o da disponibiliza��o de medicamentos de venda livre em superf�cies comerciais.

Quando nos referimos � presen�a t�cnica de um farmac�utico, tal n�o implica que este se encontra no local de venda ao p�blico para acoonselhar e controlar a venda dos referidos medicamentos. Segundo legisla��o comunit�ria existente sobre o medicamento e a actividade farmac�utica, a presen�a �t�cnica� de um licenciado em ci�ncias farmac�utica deve ser levada a cabo na produ��o, distribui��o, armazenamento, acondicionamento e ced�ncia ao p�blico do medicamento; assim, o discurso de Jos� S�crates acaba por n�o ser esclarecedor ao n�o referir como o farmac�utico exercer� o seu papel de agente de sa�de p�blica no processo de venda de medicamentos de venda livre nas grandes superf�cies.
N�o vejo qual o problema de se vender um Betadine, um Halibut ou um anti�cido num supermercado; contudo, existem medicamentos de venda livre que devido �s suas graves contra-indica��es e �s suas reac��es intermedicamentosas n�o devem ser vendidos como se vende uma pe�a de fruta; neste �mbito, referi-mo por exemplo � vulgar Aspirina, que n�o pode ser ingerida por indiv�duos com problemas g�stricos ou que estejam a ser tratados com anticoagulantes.
A fun��o de agente de sa�de p�blica do farmac�utico n�o tem sido reconhecida pela sociedade nas �ltimas d�cadas, desde que as farm�cias perderam a sua fun��o oficinal, sendo este vistos frequentemente como um comerciante. Contudo, o farmac�tico � sempre o primeiro ou o �ltimo elo de liga��o entre o m�dico e o doente, pelo que o seu papel enquanto especialista do medicamento no aconselhamento e controlo � fundamental.
N�o vejo quaisquer benef�cios na medida anunciada pelo Primeiro- Ministro, e passo a justificar a minha opini�o: os pre�os dos medicamentos de venda livre s�o muito regulados pelo que n�o ir�o baixar significativamente; no interior � mais f�cil aceder a uma farm�cia do que a uma superf�cie comercial, e nas grandes cidades o n�mero de farm�cias � elevado, pelo que n�o acredito que o acesso ao medicamento seja facilitado; esta medida constitui mais um golpe num dos sectores do com�rcio tradicional portugu�s.
Se h� quem olhe para a Associa��o Nacional de Farm�cias como um lobby, ent�o que dizer dos grandes grupos econ�micos que est�o a exercer uma enorme press�o para a liberaliza��o total das farm�cias? Se essa mesma liberaliza��o ocorresse, s� sairiam beneficiados uns escassos grupos econ�micos ligados �s grandes superf�cies comerciais, prejudicando centenas, sen�o milhares, de propriet�rios de farm�cias e entregando a um trabalho com condi��es mais prec�rias centenas de farmac�uticos.
Nos pa�ses onde ocorre a venda de medicamentos de venda livre nas grandes superf�cies, segundo referiu o Baston�rio da Ordem dos Farmac�uticos, o n�mero de intoxica��es por via medicamentosa tem aumentado, bem como a automedica��o, pelo que numa popula��o iletarata e com graves car�ncias de conhecimentos cient�ficos a imita��o do modelo norte-americano e brit�nico seria um acto de grande irresponsabilidade. A pr�pria venda de vitaminas, que j� ocorre em estabelcimentos que n�o farm�cias, levanta s�rias quest�es de sa�de p�blica, pois podem ocorrer intoxica��es de conseque�ncias graves pela ingest�o excessiva de certas vitaminas e sais minerais.
Se o nosso Primeiro-Ministro quer demonstrar que sabe combater os interesses instalados ent�o tome medidas como a altera��o do modelo de financiamento das autarquias (em 2001 segundo o Eurostat eramos o pa�s da UE com maior percentagem de �rea urbanizada) ou a altera��o da lei que se refere ao sigilo banc�rio, mas n�o tome medidas que se n�o forem bem estudadas podem conduzir a problemas graves, silenciosos e ocultos.
(Lu�s Frederico Gon�alves Rosa, Estudante de Ci�ncias Farmac�uticas, Representante de Portugal no Forum da Ci�nca de Londres em 2002 e 2005)

*
Nos EUA os medicamentos, ditos de venda livre, s�o na verdade vendidos em supermercados, estando expostos em prateleiras como qualquer outro produto. O seu pre�o entre supermercados varia conforme as leis da concorr�ncia directa, chegando a haver promo��es.Se em Portugal n�o houver concorr�ncia no pre�o, n�o vejo qual a vantagem de comprar os referidos medicamentos em lojas que n�o Farm�cias.
Quanto ao perigo de sobredosagem, se a sua compra n�o f�r feita na Farm�cia, � daquelas coisas que s� lembrar� a quem v� os seus interesses postos em causa.
Para terminar, os farmac�uticos teriam toda a raz�o se vendessem s� medicamentos, agora vendendo perfumes,cosm�ticos, sapatos, almofadas, colch�es, etc, creio que perdem a raz�o para manter o seu monop�lio.
(Pedro Diniz)


*
Controlo de medicamentos n�o prescritos

� abusivo afirmar que das declara��es do PM JS se possa inferir a exig�ncia de um farmac�utico por prateleira.

Controlo t�cnico pode significar:


* A compra, prepara��o, armazenamento e supervis�o da venda de medicamentos atentos os princ�pios t�cnicos inerentes ao consumo de medicamentos.

* Garantir o correcto funcionamento do sector , nomeadamente no que diz respeito � gest�o dos medicamentos: distribui��o , prazos de validade, condi��es de armazenamento, encomendas, concursos de aquisi��o, gest�o de stocks, etc.

� Assegurar a seguran�a da exposi��o dos produtos face ao consumidor.

� Supervisionar a informa��o m�nima dos assistentes do sector.

...

Por acaso o actual Director T�cnico das farm�cias aconselha ? Ser� que as farm�cias em rela��o a medicamentos n�o prescritos j� n�o funcionam como supermercados ?
(JBM)
 


EARLY MORNING BLOGS 448

At Melville's Tomb


Often beneath the wave, wide from this ledge
The dice of drowned men's bones he saw bequeath
An embassy. Their numbers as he watched,
Beat on the dusty shore and were obscured.

And wrecks passed without sound of bells,
The calyx of death's bounty giving back
A scattered chapter, livid hieroglyph,
The portent wound in corridors of shells.

Then in the circuit calm of one vast coil,
Its lashings charmed and malice reconciled,
Frosted eyes there were that lifted altars;
And silent answers crept across the stars.

Compass, quadrant and sextant contrive
No farther tides . . . High in the azure steeps
Monody shall not wake the mariner.
This fabulous shadow only the sea keeps.


(Hart Crane)

*

Bom dia!

11.3.05
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (8� s�rie)



Alguma da liberdade que conquistei ao longo da vida veio dos livros que li.
Ainda hoje, e com muita regularidade, exilo-me em p�ginas onde o pensamento ou a realidade descrita superam o espa�o onde me movo, seja no meio dos outros ou quando estou simplesmente comigo mesmo.
Existem quatro bibliotecas de refer�ncia na minha vida: a extinta biblioteca Calouste Gulbenkian de Fafe, lugar onde na inf�ncia ia buscar os livros que me obrigavam ler, pois n�o me conseguia relacionar com objectos que n�o me pertencessem e, nisso, os livros n�o eram excep��o. Nessa idade apenas gostava dos livros que comprava ou que me ofereciam, os que eram s� meus e que se n�o devolviam.

A biblioteca municipal do Porto, em frente ao jardim de S�o L�zaro, onde tardes sem conta me dediquei � escrita e � leitura de poesia para fugir a um enfadonho curso de Direito que ent�o frequentava, aprofundando o amor que ganhei �s palavras de Eug�nio e de Al Berto.

A Biblioteca da Funda��o Gulbenkian em Lisboa, onde conheci um dos melhores significados da leitura e do sil�ncio, da pacifica��o e do misticismo do tempo, por ser um local bel�ssimo, calmo, onde a leitura se espraiava para l� da sala de leitura com vista para os jardins. Na Gulbenkian, as coisas aconteciam-me em catadupa: a leitura livre e quase casual dos livros, as sucessivas visitas aos quadros de Eloy e de Almada, pelo menos uma vez por m�s, tal e qual como se fossem gente, e o almo�o encantador na cantina da Funda��o em horas mortas para que as poucas pessoas que restavam na sala pudessem significar.

A Biblioteca Nacional, contudo, teve e tem um enorme fasc�nio. A Nacional � o meu espa�o de uma leitura de confronto, de aprendizagem, de estatuto. Quando leio l� o que quer que seja, tenho a sensa��o de estar a fazer algo de extraordin�ria import�ncia, fruto do trabalho e da dedica��o ser�ssima, n�o s� do autor, mas de toda aquela gente que guarda religiosamente o esp�lio impresso da na��o.
Fiz-me soci�logo na Biblioteca Nacional. Sa�a dos Barcos do Barreiro �s 7 da manh� para, �s 9, estar de caf� tomado e alma pronta, na porta da B.N.. H� uns meses regressei l� para pesquisar uma bibliografia sobre as Rodas dos Expostos e tive que me reinscrever como leitor. Foram � minha ficha e perguntaram-me se eu era estudante de Sociologia, se morava no Barreiro, etc. Confesso que foi um choque bom ouvir falar outra vez de tudo aquilo. Eu que j� sou professor de sociologia, que entretanto j� morei uns anos em Lisboa e que h� mais anos ainda regressei a Fafe; Eu que j� perdi cerca de um ter�o do cabelo que tinha na fotografia da primeira inscri��o e que devo pesar uns quinze quilos a mais. Eu que j� sou pai de dois filhos, um dos quais j� quase l�. Mas sobretudo o eu que queimou as fitas todas que tinha para queimar e que olha para aquela casa com uma saudade tremenda de quando l� passava as manh�s ou as tardes, de quando esperava ansiosamente por saber que raio de homem seria no futuro, enfim, um eu t�o perdidamente apaixonado pelos dias que se preenchiam com a atribulada vida de estudante entre a leitura, a aprendizagem e a conviv�ncia sem horas, nem receios ou limita��es. Voltar � sala de leitura e aos ficheiros da Biblioteca Nacional � voltar a uma parte de mim que n�o morre, que se n�o deteriora, uma parte t�o bem guardada como os livros que l� li e, sobre os quais, outros far�o o mesmo vida adiante, muito depois de n�s, da nossa vida, da nossa �nica e magn�fica vida por esses lugares!

(Pompeu Martins)

*

Nascido em casa sem livros, a minha d�vida perante as carrinhas da FG � enorme e gostaria tamb�m de a deixar aqui registada.

Aproveito para deixar nota da total disfuncionalidade da biblioteca do Iscef em que me formei, na segunda metade dos anos sessenta, mau grado a simpatia eficaz do velho Senhor Est�v�o.

E, j� agora, para registar a boa surpresa , para n�o dizer o choque ( n�o tecnol�gico) que experimentei, poucos anos volvidos na Universidade americana em que fiz o MBA e constatei que a biblioteca era o edif�cio mais imponente de todo o campus. J� deslumbrado com quase um milh�o de volumes ao alcance f�sico da minha m�o, das 7 �s 24h, obtive a informa��o de que na outra Universidade da cidade, o n�mero se aproximava dos dois milh�es e funcionava 24horas por dia. E que estava tamb�m � nossa disposi��o, porque, sendo do Estado, estava � disposi��o de toda a Comunidade�

(Amf)

*

Fascinada. Fascinada, � a palavra que transmite todo este encantamento na leitura das viagens pela bibliotecas. E que me fez partir � descoberta da resposta para esta interroga��o, colocada interiormente: Como � que nasceu a minha viagem?
E dei comigo, pequenita e interrogativa a olhar para as lombadas dos livros do meu pai, livros alinhados nas estantes sem ordem nem sequ�ncia, livros que j� eram velhos era eu ainda t�o novinha, livros que na altura s� falavam comigo pelo cheiro do papel e pelas cores dos titulos....E dei ainda comigo e ainda pequenita a soletrar esses t�tulos, sem saber ainda, que pouco mais tarde os devoraria numa velocidade vertiginosa de leitura, �s escondidas porque o pai n�o deixava que eu lesse O Menino de Engenho, Usina, Capit�es de Areia...� mistura, j� mais velha, com Pitigrilli que por l� tamb�m andava. E dei comigo, j� com sorrisos na alma, a lembrar-me das horas que passei, sentada no ch�o, a ver, fasc�culo a fasc�culo, A Selva, do Ferreira de Castro e a ficar chocada, sem perceber porqu�, porque a minha m�e destacava esta e aquela gravura e mandava emoldurar para pendurar nas paredes do corredor. E, ao correr desta escrita, ainda dou comigo a recordar os folhetins liter�rios que eram publicados diariamente no Di�rio de Not�cias, jornal l� de casa, onde a aventura e os romances se misturavam aos folhetins de cordel, dramalh�es de faca na liga e l�grimas abundantes, que nos eram colocados por baixo da porta das traseiras uma vez por semana, por um pre�o que j� em le lembro....
Ainda conservo a quase totalidade da biblioteca do meu pai, com livros incompletos que o tempo lhes levou as folhas...Juntei-lhes, qual sal e pimenta da minha vida, os que encontro nos alfarrabistas daqui e dali e dos que vou comprando pelas livrarias, apesar de terem pre�os pecaminosos...

(Fernanda Maria Gouveia)
 


INTEND�NCIA

Continua o preenchimento da bibliografia dos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO, que vai demorar s�culos, mas anda...
 


EARLY MORNING BLOGS 447

A DON LUIS DE G�NGORA


�Qu� firme arquitectura se levanta
del paisaje, si urgente de belleza,
ordenada, y penetra en la certeza
del aire, sin furor y la suplanta?

Las l�neas graves van. Mas de su planta
brota la curva, comba su justeza
en la cima, y respeta la corteza
intacta, c�rcel para pompa tanta.

El alto cielo luces meditadas
reparte en ritmos de ponientes cultos,
que sumos logran su mandato recto.

Sus matices sin iris las moradas
del aire rinden al vibrar, ocultos,
y el acorde total clama perfecto.


(Vicente Aleixandre)

*

Bom dia!
 


SINAIS

Vai ser interessante ver como o governo do PS vai organizar a sua �central de comunica��o� e tentar alargar o seu espa�o de tranquilidade na comunica��o social. Alguns preliminares j� s�o vis�veis para quem esteja atento aos sinais.

A ofensiva contra os comentadores pol�ticos que lhes podem ser hostis ou criar problemas j� est� em curso, s� que n�o � feita da forma grosseira como o governo Santana a fez, mas sim mais sofisticada, baseada em crit�rios �jornal�sticos� ou �institucionais�. J� se nota poder novo no ar...

10.3.05
 


BIBLIOGRAFIA SISTEM�TICA SOBRE O PCP, OS MOVIMENTOS COMUNISTAS E RADICAIS E A OPOSI��O POL�TICA E SOCIAL AT� 25 DE ABRIL DE 1974 (Em organiza��o)

nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

Ainda de uma forma experimental vou come�ar a organizar uma bibliografia sistem�tica sobre o PCP, o movimento comunista e radical (incluindo a extrema-esquerda), e a oposi��o pol�tica e social � ditadura. Trata-se de ir progressivamente actualizando todo um trabalho bibliogr�fico que foi iniciado nos Estudos sobre o Comunismo (em papel), na An�lise Social e no Boletim de Estudos Oper�rios, e depois retomado nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO. Dado que se trata de lidar com centenas de refer�ncias bibliogr�ficas e para n�o privar os interessados de tudo aquilo que possa de imediato ser inserido nesta bibliografia, ela ser� continuamente alimentada por m�dulos.

S�o bem-vindas todas as colabora��es para este trabalho, pela sua pr�pria natureza muito complexo.
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

Como as primeiras discuss�es sobre o novo governo se v�o concentrar na pol�tica externa, coloquei um artigo publicado no P�blico, em Novembro de 2002, intitulado "Os "conselhos" europeus aos EUA" no VERITAS FILIA TEMPORIS. O artigo foi escrito a pensar em posi��es como as de M�rio Soares e de Freitas do Amaral.
 


A QUADRATURA DO C�RCULO

O programa mais conservador desta nossa terra, que n�o quer mudar, nem quer ter novidades, mas n�o pode infelizmente impedir a terra de mudar � sua volta nem o PS de ter ido para o governo. E l� se vai o Jos� Magalh�es para uma pasta incompat�vel com a discuss�o. Boa sorte! Vir� o Jorge Coelho na sua vez para quatro anos de inferno, mas ele aguenta bem. Seja bem-vindo!
 


COISAS SIMPLES


Kuzma Petrov-Vodkin
 


EARLY MORNING BLOGS 446

ROMANCE DE DO�A ALDA


En Par�s est� do�a Alda, la esposa de don Rold�n,
trescientas damas con ella para bien la acompa�ar:
todas visten un vestido, todas calzan un calzar,
todas comen a una mesa, todas com�an de un pan.
Las ciento hilaban el oro, las ciento tejen cendal,
ciento ta�en instrumentos para a do�a Alda alegrar.
Al son de los instrumentos do�a Alda adormido se ha;
enso�ado hab�a un sue�o, un sue�o de gran pesar.
Despert� despavorida con un dolor sin igual,
los gritos daba tan grandes se o�an en la ciudad.
��Qu� es aquesto, mi se�ora qu� es el que os hizo mal?
�Un sue�o so��, doncellas, que me ha dado gran pesar:
que me ve�a en un monte en un desierto lugar:
y de so los montes altos un azor vide volar;
tras d�l viene una aguililla que lo ahincaba muy mal.
El azor con grande cuita meti�se so mi brial,
el �guila con gran ira de all� lo iba a sacar;
con las u�as lo despluma, con el pico lo deshace.
All� habl� su camarera, bien oir�is lo que dir�:
�Aquese sue�o, se�ora, bien os lo entiendo soltar:
el azor es vuestro esposo que de Espa�a viene ya,
el �guila sedes vos, con la cual ha de casar,
y aquel monte era la iglesia, donde os han de velar.
�Si es as�, mi camarera, bien te lo entiendo pagar.
Otro d�a de ma�ana cartas de lejos le traen:
tintas ven�an de fuera, de dentro escritas con sangre,
que su Rold�n era muerto en la caza de Roncesvalles.
Cuando tal oy� do�a Alda muerta en el suelo se cae.

*

Bom dia!

9.3.05
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (7� s�rie)

Ao ver uma imagem de uma carrinha das bibliotecas itinerantes da Gulbenkian no seu blogue, explodi em mem�rias e, ao correr da tecla, quero declarar que muito de quem sou culturalmente, o devo a essa lata com rodas que ia visitar a minha terra, uma pequena vila sem direito a concelho a dez quil�metros de Coimbra, onde nos anos sessenta tive o direito a formar-me, gra�as aos conselhos de um not�vel bibliotec�rio-motorista, cujo nome n�o registei, mas que pegando num mi�do de dez anos me orientou bibliograficamente at� � minha entrada na Universidade. Gra�as a ele, formei-me em marxismo quase clandestinamente logo aos catorze anos, o que foi uma adequada vacina, e talvez uma desilus�o para o formador, mas agrade�o, sobretudo, a perspectiva est�tica que me deu, sobretudo o Arrabal e a fundura daquele magn�fico boletim inspirado por Ant�nio Quadros que me trouxe a filosofia portuguesa, o Leonardo Coimbra, o �lvaro Ribeiro e o Agostinho da Silva. E eis como o meu bibliotec�rio, misto de surrealista e marxista, produziu em mim uma complexidade formativa deslumbrante, bem como o acesso a um mundo de sociedade aberta que as janelas e as portas fechadas do salazarismo elevavam � esquizofrenia. Bendita biblioteca que a tantos fez este bem de nos dar a liberdade de escolher. Bem gostaria de saber o nome de tal benfeitor, para o homenagear. Se algu�m me souber dizer quem era esse empregado da Gulbenkian que percorria a zona rural de Coimbra nos anos sessenta, agradecia.

(Jos� Adelino Maltez)

*

N�o feche o assunto �bibliotecas� sem lembrar as bibliotecas de associa��es culturais e recreativas do Barreiro nos anos 40: �Franceses�, Penicheiros� e � Fut. Clube Barreirense�.

Reposit�rios p�blicos de livros de fronteira, entre o que era permiss�vel ler e o que era proibido, cheios de �cole��o azul�, de Blasco Ybanez, Em�lio Salgari, mas tamb�m detentores de livros guardados, que s� eram acessiveis a poucos �iniciados� ; estantes secretas (o meu tio Armando, bibliotec�rio dos �Franceses� e serralheiro extraordin�rio, tinha feiro uma dupla, com rolamentos, que podia abrir-se e tinha, no �lado falso�, Marx, Lenine, Engels, Jorge Amado � �Os subterr�neos da Liberdade� � John dos Passos, Bakunine, os que mais v�m � mem�ria).

Nessas bibliotecas, o �proletariado� discutia, lia, conspirava.

Foi na do Barreirense que conheci Julio Verne; foi na dos �Franceses� que li �Estes dias tumultuosos�, do Pierre Van der Passen (onde paras, livro?!) e �O Processo Hist�rico� e a Hist�ria Universal do C�sar Cantu em 20 volumes, que haveria de adquirir em Cascais, num alfarrabista, h� 15 anos, por 8 contos!

Eram salas grandes, com mesas e cadeiras de madeira envernizada, inc�modas e ing�nuas como n�s.Que saudades!

Parafraseando E�a �Eramos assim, em 1948!�, antes do relat�rio Kruschev e da repress�o na Hungria.

Quantas horas e quantas saudades da emo��o, da sinceridade ing�nua, da indigna��o verdadeira, alimentada diariamente pelos desfiles di�rios da cavalaria da GNR, com o capit�o Homero de Matos � frente, de mon�culo e �pingalim�� Foi l� que criei este amor perene pelos livros e pela leitura.

(Luis)

*

A minha "biblioteca" era uma livraria na Av. de Roma, em Lisboa, a Livraria Barata. Na altura, era um espa�o min�sculo, com uma sec��o infantil de duas ou tr�s prateleiras, tutelada pelo Sr. Barata e pelo Sr. Afonso.

Lembro-me de a� ter passado incont�veis fins de tarde a ler, acocorada a um canto. Sempre que exagerava no tempo de leitura, o Sr. Afonso vinha "apanhar-me" e p�r-me na rua.

Mais circunspecto e sempre triste, o Sr. Barata fingia n�o me ver.

Mas nada me intimidava e todos os dias voltava, para continuar a ler o livro na p�gina onde o deixara.

Hoje, j� quarentona, sempre que encontro o Sr. Afonso na rua me d� vontade de rir: ele nem sonha, certamente, que foi uma das figuras mais temidas da minha inf�ncia.

(GA)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: PARA TERMINAR COM A L�NGUA ALEM� E EDUARDO PRADO COELHO

Esta indica��o de Jos� Carlos Santos do texto The Awful German Language de Mark Twain.

*

Hoje deparei com um conjunto de coment�rios glosando o m�rito e o dem�rito das observa��es de EPC a prop�sito da l�ngua alem�. Sem desprimor pela qualidade opinativa dos leitores interrogo-me sobre o interesse do tema e sobre o que a ele se pode acrescentar. Talvez lembrar que sendo a coer�ncia e a perman�ncia da opini�o geralmente saudada como tra�o de car�cter, em n�o menor medida o deve ser a flexibilidade e a capacidade regeneradora daqueles que conservam coragem e fulgor para mudar de opini�o quando o erro ou a precariedade se tornam evidentes.

(GC)

*

A l�ngua alem� - que EPC n�o conhece - n�o produziu apenas c�nticos militares ou vozes de comando. Ali�s, quem provar Zarah Leander, n�o voltar� mais �s"lamechisses" can�oneteiras das Piaf, dos Aznavour ou dos Lama. A l�ngua francesa � pleno artif�cio, sacrificando a intelig�ncia e o racioc�nio � forma.
O franc�s compraz-se com a sonoridade, o embelezamento e a gra�a. �, decididamente, uma excelente l�ngua para sal�es liter�rios ou conv�vios de senhoras.
Continuamos ainda a pagar pesada factura da absoluta rendi��o de sucessivas gera��es portuguesas �s letras francesas. Um dos mais persistentes problemas da inautencidade e inutilidade da universidade portuguesa ser� uma das muitas sequelas dessa hegemonia que a cultura francesa deteve. Quem ouve hoje a m�sica francesa, quem conhece os autores franceses vivos, quem v� cinema franc�s.
Encurralados num autismo lancinante, os franc�filos esbracejam pateticamente num mundo dominado pelo ingl�s e pelo castelhano. Quanto ao alem�o, transformou-se em l�ngua incontorn�vel para os estudos filos�ficos e politol�gicos. Longe vai o "s�culo de Sartre", muito mais longe ainda os s�culos de Voltaire e Hugo.

(Mig ACBF)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: ALEXANDRE HERCULANO, O ALEM�O E O INGL�S

Vasco Gra�a Moura recordou-me nas Lendas e Narrativas "as p�ginas em que o A. Herculano refere as caracter�sticas do ingl�s, do alem�o (1 e 2) e do franc�s (3 e 4)..." "a prop�sito de uma viagem de barco, de Jersey a tamb�m n�o sei onde, tem uma p�gina "not�vel" comparando as belezas do alem�o com as perf�dias do ingl�s..."

Aqui fica um pequeno fragmento de "De Jersey a Granville"


 


UMA OBSERVA��O SOBRE A MEM�RIA DAS BIBLIOTECAS

Ningu�m, em tantos textos e mem�rias, se referiu � Biblioteca Nacional que parece n�o suscitar a nostalgia biogr�fica e afectiva de muitas outras bilbiotecas...
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (6� s�rie)

Ver o coment�rio de Desid�rio Murcho a estas "mem�rias", lembrado por Nuno Coelho.

*

Curioso como nos esquecemos de algumas pequenas coisas que nos ajudaram a crescer. Aqui fica um pequeno relato da minha experi�ncia como utente da Biblioteca Itinerante Calouste Gulbenkian.

Uma visita por m�s era o que a minha vila tinha direito. Para uma mi�da da beira interior com uma enorme curiosidade e muita vontade de ler, a carrinha da Gulbenkian era a melhor coisa do mundo!

�s sete da noite l� estava ela, a carrinha Citro�n, serie H, cinzenta, de chapa canelada, com taipais. Interessante como a mem�ria funciona, lembro-me perfeitamente da primeira vez que l� fui com a minha m�e, devia ter cinco anos, tamb�m ela fora frequentadora ass�dua da carrinha da Gulbenkian, nos seus tempos de escola.

A carrinha era conduzida por dois senhores, que estacionavam sempre no mesmo sitio, junto ao restaurante 'O Julio', quando chegavam fosse Ver�o ou Inverno j� a canalha se acotevala para ver quem ficava a frente na bicha (era bicha que se dizia!). Pois isso significava ser o primeiro a entrar e a descobrir quais eram os 'novos' livros. O ritual era igual todos os meses, a janela da porta direita abria-se e um dos senhores pedia-nos o cart�o e os livros que requisitamos no m�s passado. A carrinha no interior estava forrada a livros do ch�o ao tecto, ao fundo havia uma bancada para se preencher a refer�ncia dos livros requisitados no cart�ozinho previamente fornecido pelo funcion�rio da Gulbenkian. Uma vez l� dentro era o ver se te havias, porque n�o tinha muito tempo para procurar os tr�s livros (m�ximo poss�vel), e depois havia o condutor/bibliotec�rio, que mais parecia o pol�cia das fitas adesivas! Uma das coisas que me irritava era que s� podia levar livros com fita adesiva verde, e est� claro os de cor laranja ou, pior ainda, vermelha, os das prateleiras de cima eram precisamente os que queria levar. Muitos foram os livros que li durante os 12 anos que religiosamente visitei a carrinha da Gulbenkian.
Recordo-me agora particularmente do livro 'Beatriz e o Pl�tano' de Ilse Losa.
Os meus pais incutiram-me o gosto pela leitura mas foi definitivamente a carrinha da Gulbenkian que ajudou a cultiv�-lo. A carrinha n�o s� abriu as portas para o mundo da leitura mas criou tamb�m em mim um sentido de responsabilidade, e civismo e orgulho, pois quando se entregavam os livros a tempo e horas e estimados, podia eventualmete aceder-se aos t�o desejados livros 'laranja' e 'vermelhos'.

Mais tarde na minha vida de estudante visitei muitas bibliotecas; a Biblioteca Nacional com o seu hipnotisante painel de Tape�aria de Portalegre de Guilherme Camarinha, a desactualizada Bibiloteca do Pal�cio das Galveias, no Campo Pequeno e a m�e de todas as bibliotecas para uma estudante de Arte em Lisboa, a Gulbenkian. Mas o cocktail de sentimentos causado pela carrinha da Gulbenkian, esse at� hoje nunca foi superado.
� com nostalgia que do alto dos meus 28 anos penso neste servi�o que ajudou a fazer de mim o que sou hoje. Grata ao Sr. Gulbenkian e a quem iniciou e p�s em pr�tica este servi�o.

(Sofia Gon�alves)

*

Tive o previl�gio de nascer no seio de uma fam�lia onde os livros - e a leitura - eram centrais no nosso quotidiano familiar. O meu pai, funcion�rio publico, de poucas posses, tinha a paix�o pelos livros e tudo fez para partilhar esse amor. Quer eu, quer o meu irm�o, fomos brindados com livros, desde sempre.
A leitura tem sido sempre marcante na minha vida. Quase morri no preciso momento em que, aos cinco anos, descobri que sabia ler. Nesse dia, acordei com febre e fiquei na cama, com direito a que a minha m�e me lesse e contasse todas as hist�rias que eu j� sabia de cor. Sempre que adoeciamos, era certo que, � hora de almo�o, o pai trazia livros novos para nos ajudar a passar o tempo. Com esse entusiasmo, consegui soletrar o titulo de um livro... mas s� me restou o tempo eminente para gritar �oh, m�e, eu leio...�! Fiquei roxa e perdi os sentidos. Diziam os meus pais que o m�dico, chamado � pressa, diagnosticou uma paragem card�aca, levada pela febre e pela emo��o.
Naquela �poca, lia-se tudo aquilo que nos aparecia � frente. Numa cidade de prov�ncia, sem meios para partir para f�rias, o ver�o transformava-se no territ�rio de todos os perigos! No calor da noite, lia-se na cama at� nascer o dia. Foi assim que desbravei a biblioteca do pai, sem grandes interdi��es. No entanto, o peso da �poca fazia com que eu e o meu irm�o fossemos mestres a desenvolver estrat�gias de clandestinidade, na forma como escond�amos algumas leituras, um do outro e dos pr�prios pais. Foi assim que, pelos meus treze anos, guardei s� para mim, a leitura secreta de �O Amante de Lady Chattterley� de DH Lawrence ou �A Romana� de Mor�via.
Outro marco interessante deste percurso foi sem d�vida as caminhadas entusiasmantes para a Biblioteca do Museu Tavares Proen�a, em Castelo Branco. Lembro sobretudo as vezes que l� fui e que me via for�ada a regressar acompanhada da minha m�e, para poder requisitar obras de Camilo ou de E�a. Embora j� a frequentar os 3� ou 4� anos do liceu, a minha idade n�o permitia algumas aventuras.
N�o posso ainda deixar de salientar a import�ncia das livrarias, no tempo em que, tamb�m elas, tinham umas trazeiras rec�nditas onde se guardavam os livros proibidos, apenas dispon�veis para clientes especiais. Em Castelo Branco, a Livraria do Sr. Feij�o era um local de elei��o. Devo a essas leituras o bom dom�nio da l�ngua francesa, dado que muitos desses livros n�o se publicavam em Portugal.
E que dizer da gal�xia de emo��es que nos avassalam quando chega o momento de nos confrontarmos com a morte de uma biblioteca! Dois anos ap�s a morte dos pais, tive de desfazer a casa e vi-me assim confrontada com a morte de um entidade �nica - a biblioteca d� casa de meus pais. Nela residia o designio de uma unicidade afectiva, que respirava um espa�o e um tempo irrepet�veis. Uma biblioteca familiar � sempre uma caixa de surpresas e um esconderijo de outras mem�rias: anota��es, pap�is com cita��es, bilhetes de cinema, cartas de amor, postais de viagens, panfletos clandestinos, folhas secas, fotografias. Arrumados em caixotes, todos os livros vieram para a minha casa em Lisboa, onde talvez possam ganhar outra vida. Vive-se e morre-se nestas andan�as! N�s somos o que fica das leituras s�fregas desse tempo... sem tempo!

(J�lia Matos Silva)

*

Existem bibliotecas marcantes para qualquer um de n�s, no meu caso o mundo das letras abriu-se com a biblioteca municipal de Lagos e com as carrinhas itenerantes de marca � julgo � Citroen que passavam junto � minha casa, naquela que eu chamava a minha rua. A banda desenhada com que a� contactei era fabulosa, muito para al�m das edi��es Mirim brasileiras. � medida que o tempo passava fui perdendo os desenhos e conquistando as letras, a tal ponto que fiquei fascinado com a Filosofia. Foi assim que cheguei � Universidade Cat�lica Portuguesa, em Lisboa, e a� � Biblioteca Universal Jo�o Paulo II. Esta, apesar de ser fruto, fundamentalmente, das necessidades bibliogr�ficas que as faculdades que a comp�em, e dos seus consequentes corpos docentes, faz jus � designa��o de Biblioteca Universal, especialmente nos dom�nios da Filosofia, da Teologia e do Direito. � sem d�vida um elemento preponderante para a escolha da institui��o de ensino que se pretende frequentar, dadas as magn�ficas instala��es e qualidade do seu conte�do. � sem d�vida um exemplo que se afirma pela quantidade de investigadores, professores e alunos das mais variadas proveni�ncias, exteriores � Cat�lica, que a ela recorrem.

(Luis Loia)

*

H� refer�ncias muito fortes � "lembran�a" nos posts dos seus leitores. Lembran�a da inf�ncia e tentativa de recupera��o de mem�rias idas. Como se hoje a azafama di�ria n�o permitisse a frequ�ncia de bibliotecas. O Ant�nio Lobo Antunes agrade�e mesmo o tempo que os leitores lhe dedicam, depois de trabalho, transportes e lida da casa. Embora tal seja mais faz�vel na adolesc�ncia, quando as tardes s�o livres e se pode contar com os longos meses de f�rias de ver�o para se esperar e procurar, vejo que algumas bibliotecas est�o repletas de gente aos fins-de-semana. � o caso da bel�ssima Biblioteca Almeida Garrett sita nos jardins do Pal�cio de Cristal no Porto. Casa de livros, revistas, filmes e CD's, as duas �ltimas classes ainda um pouco depauperadas, tem tamb�m uma excelente biblioteca para crian�as, onde o barulho � permitido e o conv�vio entre adultos e crian�as � estimulado.

Uma nota tamb�m para a biblioteca de arte do Museu de Serralves, onde nos perdemos, aprendemos e surpreendemos com livros e paisagem.

(PPM)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A L�NGUA ALEM� E EDUARDO PRADO COELHO.

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.
 


GRANDES NOMES: "O POSSO [sic] INESGOT�VEL DE PASPALHICES"

Ou seja, eu, segundo um sr. Jos� Da Silva que enviou um coment�rio ao Correio da Manh� do seguinte teor:

"Este indiv�duo excede-se em despaut�rios e inconsist�ncia. O pior � q de quando em vez, l� temos q ouvi-lo. Qdo, por falta de protagonismo � repelido ao segundo plano, logo temos uma investida, mostrando q � um posso inesgot�vel de paspalhices. Fazia um grande bem a na��o, se se quedasse pelo sil�ncio."

8.3.05
 


AR PURO


A. D�rer
 


INTEND�NCIA

Actualizados os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO e inseridos na VERITAS FILIA TEMPORIS alguns textos da s�rie A Lagartixa e o Jacar�, publicada na S�bado, sobre as elei��es, o PP e o BE, a morte da Irm� L�cia, e o comportamento dos jornais, entre outras coisas.

Entre hoje e amanh� publicarei uma nova s�rie, a �ltima, com novas Mem�rias de Biliotecas.
 


EARLY MORNING BLOGS 445


�Cal as nubes no espazo sin l�mites
errantes voltexan!
Unhas son brancas,
outras son negras;
unhas, pombas sin fel me parecen,
despiden outras
luz de centela...

Sopran ventos contrarios na altura
i � desbandada,
van lev�ndoas sin orden nin tino,
nin en sei pra onde,
nin sei por que causa.

Van lev�ndoas, cal levan os anos
os nosos enso�os
i a nosa esperanza.

(Rosalia de Castro)

*

Bom dia!
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: A L�NGUA ALEM� E EDUARDO PRADO COELHO

Eduardo Prado Coelho, no Clube dos Jornalistas, RTP2, dissertou sobre a l�ngua alem�: l�ngua marcial (sem a gra�a, a leveza, a eleg�ncia do Franc�s ou do Italiano), ao ouvi-la ouvem-se as botas e os tanques v�m atr�s... Como � poss�vel, meu Deus! (em momentos destes, quase nos tornamos crentes), como � possivel que algu�m como ele diga tais coisas? Talvez ele n�o seja como ele... Os Alem�es n�o escrevem cartas de amor? Como se pode pensar que uma l�ngua humana (que, portanto, diz as coisas) n�o � capaz de exprimir a delicadeza? Que pensar ent�o de Vogelweide, de Goethe, de Heine, Schiller, Lessing, Celan, Thomas Mann, Brecht, etc. Por que escolheu Schubert poemas de Goethe? E Grieg? E aqueles textos que t�m a bota em passo-de-ganso, t�m os Panzer, a brutalidade germ�nica, mas como realidades negadas?...

(Carlos David Botelho)

*
N�o ouvi a disserta��o de E.P.C. sobre a l�ngua alem� mas li o coment�rio de Carlos Botelho e, a ser verdade, tamb�m eu me insurjo veementemente: como � poss�vel algu�m com as responsabilidades do dito professor fazer afirma��o t�o facciosa e esterotipada? Concordo plenamente com os argumentos aduzidos a favor da musicalidade do alem�o e penso tamb�m que o achar uma l�ngua "bonita" ou "feia" � uma quest�o de gosto pessoal. O som cantante do italiano, por exemplo, vem-lhe da profus�o de vogais, pr�pria das l�nguas rom�nicas, em contraste com as germ�nicas, em que abundam as consoantes. Mas o que mais me impressiona � o que a afirma��o de E.P.C. revela, o que parece estar subjacente � refer�ncia �s "botas"e aos "tanques" citados por C.B. E sem querer cair num processo de inten��o, veio-me � mem�ria os coment�rios v�rias vezes feitos por alunos for�ados por raz�es de curr�culo escolar a aprender alem�o: "� a l�nguas dos nazis". Ser� que para E.P.C. o povo alem�o ainda � o povo dos nazis?
(Maria Em�lia Malta)

*
Pode discordar-se do que diz Eduardo Prado Coelho e pode gostar-se imenso da l�ngua alem�o, utiliz�-la em casa para as can��es de embalar que se murmuram enquanto se deitam os beb�s ; para dizer coisas dulc�ssimas �s namoradas, quando estamos deitados na relva dos Jer�nimos, � frente do Tejo ; para agradecer com ternura, no final dos almo�os de domingo que j� n�o h�, �s nossas av�s que nos prepararam o cozido tradicional ; para saudar, gentilmente, os nossos chefes (para n�o dizer l�deres!), � chegada ao escrit�rio, estremunhados ainda antes do caf� matinal ; ou simplesmente, como parece implicar Prado Coelho, para dar ordens naquela forma martelada a que nos habituaram os filmes sobre os oficiais alem�es. Ou pode n�o se gostar nada dela, preferir-se a gra�a musical do italiano, a modularidade cartesiana do franc�s, a clareza sint�tica do ingl�s � e porque n�o a estranheza gutural do chin�s e do japon�s ; e j� agora a leveza incompreens�vel do hindu. Pode at� gostar-se do catal�o ou do basco ; ou preferir-se um dos muitos dialectos que ainda se falam por essa Europa fora: o mirand�s que desaparece, o �breton� que quase j� desapareceu...

Agora, o que me parece � que estas cr�ticas a Eduardo Prado Coelho, com o tom que t�m (Eduardo � faccioso ; Eduardo � destemperado ; Eduardo � estereotipado ; talvez Eduardo n�o seja como Eduardo � embora eu n�o perceba bem o que se quer dizer com isto!) esquecem que, mal ou bem, ele tem o direito de n�o gostar do alem�o (que digo eu? ele tem o direito de detestar o alem�o) e de ver, por detr�s das palavras de amor, as botas e os tanques, como outros t�m o direito de ver nessa l�ngua principalmente as palavras de Schiller ou de Rilke

Sempre que nos indignamos com o facto de outrem exprimir uma opini�o � o que � diferente de nos indignarmos com as opini�es expressas � restringimos o nosso espa�o de liberdade. � a �political correcteness� que desponta por detr�s de bem pensantes opini�es.

Isto posto, tamb�m eu n�o concordo com a opini�o de Eduardo Prado Coelho a prop�sito do alem�o. Recomendo-lhe, quando � musicalidade, qualquer boa colect�nea de �lieder� de Schubert: um qualquer disco com Dietrich-Fischer Dieskau a cantar deve ser suficiente. Mas isso � outro problema.
(Jos� Pedro Pessoa e Costa)

7.3.05
 


BIBLIOFILIA: N�O H� LIVROS PAC�FICOS

Este parece um normal livro sobre campismo, mas as actividades de �ar livre� foram fomentadas e popularizadas em Portugal pelos comunistas e pela oposi��o que lhe era pr�xima. Militantes como Joaquim Campino tiveram papel destacado na hist�ria associativa do campismo, e os acampamentos eram um local privilegiado para realizar encontros pol�ticos clandestinos.

Este volume da c�lebre Biblioteca Cosmos, organizada por Bento de Jesus Cara�a, � um exemplo dessa influ�ncia. Escrito por M�rio Mendes de Moura, estudante de agronomia, depois engenheiro, militante do MUDJ, membro da sua Comiss�o Central, preso em 1948, posteriormente exilado na Venezuela e no Brasil, e actualmente editor, n�o escondia no seu pref�cio a sua preocupa��o com os �trabalhadores�. O mesmo tipo de interesses era partilhado pelo ilustrador Daniel Morais, ele pr�prio tamb�m membro do MUDJ e preso na mesma altura de M�rio Moura, cujas ilustra��es �citam� a linguagem gr�fica das publica��es comunistas.

(Nota mais detalhada sobre o campismo e a oposi��o est� nos ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.)
 


VASCO GRA�A MOURA: EX-LIBRIS



(apresenta��o para um livro de depoimentos sobre livros que ainda n�o saiu e n�o sei se chegar� a sair...)

Em 28 de Agosto de 1819, Keats escrevia a sua irm� Fanny, �d�em-me livros, fruta, vinho franc�s e bom tempo e uma musiquinha l� fora, tocada por algu�m que eu n�o conhe�a�... Francamente, eu prefiro este princ�pio de prazer, ligado ao trato com os livros, a uma s�rie de profundas considera��es sobre a sua import�ncia e utilidade, ou � especula��o sobre o livro como s�mbolo onde se inscreve a imagem do mundo, que, da B�blia a Jorge Lu�s Borges, passando por Ernst Robert Curtius, determina muita da nossa ontologia na mat�ria. Que t�m a sua import�ncia, sim, mas n�s n�o temos de passar a vida a fazer congemina��es simb�licas.
D�em-me livros, ameixas pretas secas, um vinhito portugu�s (do Douro, claro!) e uma musiquinha. N�o estou preocupado com o tempo que faz e na m�sica h� muitas op��es aceit�veis para o meu hedonismo ego�sta e concentrado quando pego num livro. Mas � bom que haja uma poltrona para quem l� se espolinhar devidamente. E, no Inverno, uma boa lareira. E, na cama, uma boa almofada e um bom candeeiro.

H� tamb�m outros prazeres, t�cteis em certas encaderna��es e qualidades encorpadas das folhas e em certos livros, sobretudo antigos, impressos em papel de linho, cujas p�ginas parecem crepitar ao serem percorridas nos bordos do corte com um toque do polegar; visuais, ligados ao formato, ao aspecto, � tipografia, � mise-en-page, � ilustra��o; enfim, intelectuais ligados ao que se tem debaixo dos olhos, a esse pastar da vista, s�frego ou tranquilo, envolvido ou reflexivo.
Porque n�o h� receitas para pegar num livro ou para amar um livro. H� v�cios bem-aventurados. Ler � um deles. Outro, afim, � o dos livros, enquanto livros, daqueles objectos paralelipip�dicos que se encostam uns aos outros na estante e come�am logo por dar o prazer de serem muitos e orden�veis de muitas e desvairadas formas, o dos livros como mat�ria de forro do espa�o dom�stico, o dos livros que vemos em casa dos amigos, o dos livros como objectos que se encontram nos lugares de peregrina��o que s�o as livrarias e as bibliotecas, o dos livros que se leram de uma assentada, o dos livros que se fecharam para serem retomados mais tarde, at� o dos livros que se esqueceram, at� o dos livros que s�o mostrados em revistas de livros ou de decora��o, nestas, quando calha haver uma sec��o dedicada a bibliotecas, sem falar no dos livros que recomendamos e que oferecemos, no dos que lemos nos transportes p�blicos, e assim por diante.

H� mais um prazer, s� poss�vel para quem alguma vez foi editor, embora arremed�vel por quem adquira um livro para levar para casa: o do exerc�cio do jus primae noctis, o da primeira noite que se passa deitado e deleitado com o primeiro exemplar de um livro acabado de chegar da tipografia...

J� uma vez escrevi, no boletim de informa��o bibliogr�fica da Oiro do Dia (e o texto tamb�m vai agora arquivado neste conjunto), sobre Aby Warburg, o erudito alem�o, fundador da Iconologia como disciplina hist�rica e interpretativa, que, em finais do s�culo XIX, sendo primog�nito de uma fam�lia de banqueiros judeus, renunciou � primogenitura por contrato com os irm�os, que ficaram com a administra��o do banco e se obrigaram a comprar-lhe todos os livros que ele quisesse ao longo da vida. E �s vezes, dou comigo a pensar porque � que o meu pai n�o foi banqueiro, para eu poder saciar a minha fome de livros e para os meus irm�os acabarem a perceber que afinal n�o teriam feito propriamente um neg�cio da China com t�o volumoso prato de lentilhas... (Era de Warburg a "lei da boa vizinhan�a" - Gesetz der guten Nachbarkeit - que pode enunciar-se assim: o livro de que precisas n�o � aquele de que andas � procura, mas sim o que est� ao lado dele na estante).

N�o, ai de mim, a minha rela��o com os livros na perspectiva da aquisi��o deles n�o tem nada de �warburgiano�: come�ou ainda no tempo dos cal��es curtos, comigo a juntar moedas de vinte e cinco tost�es da semanada para comprar este ou aquele volume que ia aparecendo no Jomar da Foz, ali � entrada da Rua da Senhora da Luz, a pre�os entre os dez e os quinze escudos. Antes, era a razo�vel biblioteca familiar, o ar pausadamente entretido da minha m�e a abrir as folhas de algum volume que chegava, o que ela gostava muito de fazer e eu detesto, e sobretudo o forte est�mulo paterno, que me atra�a para eles e que muitas vezes citava o Castilho: �h� livros que, semelhantes a barquinhas milagrosas, vogando no oceano das ideias�... Nunca tive grande paci�ncia para o Castilho, salvo nas an�lises sobre �estilo e preconceito� do Fernando Ven�ncio. Nunca encontrei (nem procurei) a p�gina em que ele diz isso e que, se estou bem lembrado, come�ava enfaticamente: �A leitura, meus amigos, sabeis v�s bem o que � a leitura?...�. Mas devo-lhe, atrav�s do meu pai, essa s�ntese metaf�rica do livro como barca milagrosa que me tem acompanhado e em que tenho vogado e vagado ao longo da vida. Eram tamb�m noites inteiras de leitura devoradora, por vezes clandestina, para que n�o se pensasse haver preju�zo no levantar cedo para ir para o col�gio. Era o que n�o se percebia � primeira no que se lia, mas depois acabava por se perceber.

O grande problema da minha rela��o com os livros � o da vertigem de tudo o que nunca li. N�o o de tudo o que nunca chegarei a ler, h�las!. Mas o daquilo que sei que ainda hei-de ler e continua a ser uma compuls�o, talvez a verdadeira utopia dos amanh�s que cantam na palavra escrita dos livros.

Este volume recolhe textos de �ndole muito diversa, alguns de aut�ntica "po�tica do livro" (por exemplo, Albano Martins, Ramos Rosa, Eug�nio de Andrade, Rebord�o Navarro), outros mais preocupados com a sua import�ncia para o desenvolvimento do ser humano e das sociedades (por exemplo, �lvaro Cunhal), outros pondo a t�nica no testemunho autobiogr�fico de uma rela��o com o livro estruturada desde a inf�ncia e para toda a vida (por exemplo, Eug�nio Lisboa, Jo�o Bigotte Chor�o, Miguel Veiga, Maria Alzira Seixo), outros dando conta de deambula��es, fascina��es, vagabundagens e achamentos por alfarrabistas e livreiros, bibliotecas, cat�logos e repert�rios bibliogr�ficos (por exemplo, Armando Castro, Cunha Freitas, Jacinto Baptista, R�ben de Carvalho, Jos�-Augusto Fran�a). Em quase todos, a rela��o pessoal com o livro, n�o apenas intelectual, mas tamb�m t�ctil, visual, afectiva, dom�stica, terna, po�tica e at� ir�nica, emaranha-se, organizando um labirinto de percursos que acaba por reconduzir-nos ao arqu�tipo da biblioteca e um caleidosc�pio de impress�es que encontra homologia com um c�lebre filme de Chris Marker sobre Toute la m�moire du monde.
A este conjunto valeria a pena agregar, quanto mais n�o fosse para fins de contraposi��o, o soneto um tanto ou quanto pessimista que o vener�vel Ant�nio Ferreira escrevia em 1557 e que veio depois a ser inclu�do por seu filho Miguel Ferreira, em 1598, como primeiro texto dos Poemas Lusitanos:

Livro, se luz desejas, mal te enganas.
Quanto melhor ser� dentro em teu muro
Quieto, e humilde estar, inda que escuro,
Onde ningu�m t'impece, a ningu�m danas!

Sujeitas sempre ao tempo obras humanas
Coa novidade aprazem; logo em duro
�dio e desprezo ficam: ama o seguro
Sil�ncio, fuge o povo, e m�os profanas.

Ah! n�o te posso ter! deixa ir cumprindo
Primeiro tua idade; quem te move
Te defenda do tempo, e de seus danos.

Dir�s que a pesar meu foste fugindo,
Reinando Sebasti�o, Rei de quatro anos:
Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.


Enfim, com tanta variedade de testemunhos como a que se encerra neste livro �sobre os livros�, creio que neles se abordam muitas coisas que eu deixo por abordar para evitar repeti��es ou at�, aqui e ali, dessintonias. Com certeza que h�, em muitas outras p�ginas, um semelhante comprimento de onda. � interessante e importante que os escritores falem sobre a sua rela��o com os livros que n�o escreveram, mas que em grande medida determinaram o que eles s�o. Porque nunca n�o h� nada de verdadeiramente novo, a n�o ser nos livros que continuam a ler-nos por dentro.

Vasco Gra�a Moura
 


INTEND�NCIA

Novas actualiza��es na nota OUVINDO LUIGI NONO / GRANDE NOMES : LA LONTANANZA NOSTALGICA UTOPICA FUTURA.

Actualizado os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.
 


OUVINDO "O BEIJO E OUTROS MOVIMENTOS"

e
Michael Nyman, The Kiss & Other Movements e as 11 Sonatas para Piano de Haydn por Brendel.
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (5� s�rie)


An�nimo do s�culo XVII

N�o era verdadeiramente uma biblioteca. Era uma parte de casa com ramifica��es para um s�t�o onde se amontoavam milhares de livros, revistas, recortes de jornais numa despreocupada desordem sempre justificada pela necessidade de os "ter � m�o". A fam�lia, sobretudo a minha av�, referia-se aquele local labir�ntico como a "ilha", num misto de desd�m e de inquieta��o pelo p� e desarruma��o que l� adivinhava. � que ningu�m estava autorizado a l� entrar. A n�o ser eu, a neta mais velha, quando vinham as f�rias. Cedo tive consci�ncia de que este privil�gio para al�m de representar uma "defer�ncia" especial para com a minha "pessoa" era um caminho, uma passagem, que me transportava para a um outro mundo de dimens�es m�gicas insuspeitas no resto da casa. Teria 5, 6 anos mas jamais esquecerei as longas horas de puro prazer a observar a intimidade e o infinito cuidado com que meu av� manuseava os livros, a maioria j� muito gastos e amarelecidos, e a ouvir as maravilhosa hist�rias de fadas e duendes que povoaram a minha inf�ncia. Guardo com profunda emo��o e saudade cada um desses momentos.

(GC)

*

Os livros e jornais est�o nas minhas mem�rias mais antigas. Vivia numa aldeia da Beira Baixa (como se designava antes de nomenclaturas mais "a moda") e lembro-me de me deixarem brincar com uma encaderna��o de jornais franceses, provindos de um tio av�, com ilustra��es, e de ter tido uma fixa��o deslumbrada e um pouco arrepiada do �Radeau de la M�duse� do G�ricault, que retenho ainda hoje na mem�ria, naquele desbotado preto e branco pr�prio de papel de jornal, e que me conduziu muitos anos mais tarde ao Louvre, para quase me deixar esmagar pela dram�tica jangada, em tamanho �plus que nature��

O meu Pai era professor prim�rio e teve desde sempre uma rela��o com a leitura, ao mesmo tempo profunda, s�ria e cheia de prazer. Naquele fim de mundo, usava um processo de se manter actualizado, de que vim a reconhecer a dimens�o quando ficaram nas minhas m�os as suas infind�veis estantes: mantinha assinaturas de edi��es por fasc�culos, que julgo ser hoje um processo em desuso (adoptado e adaptado pela publica��o de colec��es dos jornais?). Mas lembro-me bem de chegarem regularmente no correio esses fasc�culos � o Dicion�rio Geral e Anal�gico da L�ngua Portuguesa de Artur B�var (desafio qualquer pessoa a procurar uma palavra que l� n�o encontre�), A Volta ao Mundo do Ferreira de Castro, os da colec��o Cosmos, tantos outros. Vim a encontrar um �atado� com fasc�culos n�o encadernados, ainda nos seus sobrescritos de correio, com o selo �caravela� de $10 (nem sei como designar este valor - um tost�o?�) da edi��o da Enciclop�dia Pedag�gica Progredior , fundada pelo Professor Adolfo Lima e publicada pela Livraria Escolar Progredior, do Porto .

E desde antes da escola, os meus livros pessoais - a Alice no Pa�s das Maravilhas (que , naturalmente , n�o acompanhei nas suas deambula��es, mas de que muito me seduziam as gravuras) os Contos de Ant�nio Botto, e mais tarde os da Colec��o Azul, e mais, mais tarde, tardes inteiras fechada a percorrer a Enciclop�dia Luso Brasileira, at� cansar, por caminhos em rede, de um para outro voc�bulo, cheios de informa��o que n�o me convinha buscar em conversa. ..

E n�o resisto a trazer aqui tamb�m a magia da Biblioteca Nacional, na Rua Ivens, que comecei a frequentar ainda no liceu, para escolher pe�as de teatro do Camilo para a r�cita dos finalistas. E a� foi s� o come�o, porque todo o tempo da Faculdade (de Letras) para l� caminhei no el�ctrico 28, mergulhando horas e horas. Mas o que eu queria evocar era aquela figura memor�vel, que me penitencio por n�o me lembrar do nome dele, que nos dava acesso �s cotas dos livros. Estarei confusa? Mas a minha ideia � que n�s n�o mex�amos nas fichas, manuscritas com aparo, numa ortografia elegant�ssima, arrumadas numas caixas de madeira marcada pelo uso, com as fichas num estado vetusto, dobradas, vergadas pelo uso das d�cadas. Como se chamava esse senhor de cabelos brancos que, afinal, nem precisava de manusear as fichas, porque sabia as cotas todas de cor?

Bem podia desfiar ainda tantas mem�rias dos pr�prios livros, lugares das melhores viagens pela condi��o humana, pelos tempos, pelos lugares mais longe e at�, tamb�m os de perto. Quem neste mundo pode responder com honestidade � pergunta sobre o livro da sua vida?

Maria Jos� Martins


*

Obrigada por me ter dado a ver a sala de leitura da Biblioteca Municipal do Porto. N�o a via h� 45 anos. Foi praticamente l� que me fiz leitora. Era, ent�o, estudante do Liceu Rainha Santa Isabel (na transi��o do velho palacete para o novo edif�cio). Ia de Ovar para o Porto, diariamente, e a Biblioteca era aminha sala de espera pela hora do comboio. Lembro o frio, mas tamb�m o sol que � tarde batia nas janelas (era desse lado que costumava ficar, mas tamb�m cheguei a estar na �rea reservada pelo grosso cord�o vermelho - amabilidade do funcion�rio, quando as mesas do lado de c� estavam totalmente ocupadas). A� li muito Garrett, muito Herculano, muito Camilo, todo o J�lio Dinis, muito E�a. Hoje sou professora de Portugu�s.

(N. Maria Gra�a)
 


EARLY MORNING BLOGS 444

Requiescat


Direi, pela noite, n�o �dio que tivesse
Nem detestar vida corp�rea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansa�o, a tristeza de l�
Onde se sente o aqui tra�do, a falsa entranha.

Direi --- n�o "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o p�o que se me deve,
Compro o sil�ncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.


(Vitorino Nem�sio)

*

Bom dia!

6.3.05
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota OUVINDO LUIGI NONO / GRANDE NOMES : LA LONTANANZA NOSTALGICA UTOPICA FUTURA

Em breve ser�o feitas as coloca��es de novos textos da s�rie A Lagartixa e o Jacar� no VERITAS FILIA TEMPORIS. Um dos textos, publicado h� duas semanas, inclui este fragmento, que queria lembrar aqui � luz da rid�cula hist�ria do retrato de Freitas do Amaral enviado pelo correio ao PS, verdadeira "garotice" como foi classificado e bem.

BLOCO DE ESQUERDA E PP

s�o partidos muito mais parecidos do que alguma vez queiram admitir. S�o mim�ticos no seu �dio rec�proco, como s� os pequenos partidos podem odiar-se entre si na sua coura�a de radicalidade. Tem ambos dirigentes muito semelhantes: o que � que h� de mais parecido a Portas do que Lou�a e vice-versa? Ambos moralistas, self-righteous at� dizer chega, n�o conseguem abrir a boca sem nos dar uma li��o do que se deve ou n�o deve fazer. Ambos politicamente correctos um na sua missa, outro no seu ocasional e admitido charro, um no seu fato, outro na sua camisa, ambos usando o que vestem como uma farda de servi�o, uma extens�o do seu manifesto pol�tico.
Nestas elei��es o BE ganhou ao PP, subiu onde ele desceu, tamb�m porque Lou�a � mais genu�no do que Portas. Portas n�o consegue esconder a agressividade, que nele assume a forma de arrog�ncia, da pose. Querendo ser ingl�s, mordaz e c�nico, anarco-conservador como vem nos livros e no Spectator, falta-lhe o estofo e o saber, e acaba por ser ultra-montano e beato, e �vido de uma realpolitik no fundo paroquial e provinciana. Lou�a � o que � h� muito tempo, tem muito treino, � um ide�logo frio e capaz, tem o mundo completamente encaixado, sem uma d�vida, auxiliado por uma maior cultura e cosmopolitismo. A sua arrog�ncia, parecida com a de Portas, manifesta-se pelo verbo, mas � menos suscept�vel de so�obrar no rid�culo, at� porque protegida por uma comunica��o social simpatizante.
Depois o Portugal de Lou�a cresce e o de Portas encolhe. Os jovens radicais urbanos bem nascidos h�o-de sempre ser mais do lado do Bloco, porque o politicamente correcto � a ideologia do nosso ensino, e s� uma pequena minoria, n�o muito diferente na origem social mas de fam�lias diferentes, engrossa os admiradores do PP. Quem podia fazer crescer o PP, os empres�rios e a �cultura da iniciativa� desconfiam do radicalismo de Portas e preferem outros, S�crates neste caso.
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (4� s�rie)


Hercules Segers

Tive o privil�gio de ter nascido e vivido, sempre rodeada de livros. Na minha fam�lia acreditava-se no poder e valor da leitura. Desde cedo me tornei uma leitora insaci�vel: quando visitava as casas de amigas, elas, antes de eu chegar, fechavam os seus livros � chave para que n�o me pudesse enfronhar neles e afastar-me das brincadeiras que se queriam generalizadas. Apesar de, numa primeira fase, a biblioteca dos meus pais n�o ser muito grande, a do meu av� � aberta � minha explora��o � era intermin�vel. Ou, pelo menos, assim me parecia. A ela recorria quando tinha de estudar, a ela recorri quando quis ler Stephan Zweig, J�lio Verne ou os franceses da viragem do s�culo. Foi l� tamb�m que li os n�meros do ABCzinho e descobri as aventuras do Cavaleiro Andante.

Chegada ao Liceu D. Felipa de Lencastre, descobri a biblioteca (t�o pouco frequentada no in�cio dos anos 70!) e J�lio Dinis, E�a de Queir�s ou Wenceslau de Morais. Cheguei a estar horas sozinha sentada entre as estantes fechadas que uma funcion�ria abria para retirar os tesouros que ajudaram � minha forma��o, que acompanharam a minha fantasia e esquecer-me das horas de voltar para as aulas�

Fui para a faculdade e continuei a ler. N�o surpreendentemente escolhi L�nguas e Literaturas Modernas e, mais tarde, por imperativos de carreira, corri muitas e muitas bibliotecas, da Casa do Infante ao Arquivo Hist�rico da Educa��o, da Biblioteca Municipal do Porto (sim, tamb�m passei por l�!) �s v�rias Bibliotecas Nacionais ou � biblioteca de �vora, Braga ou Lagos. O perigo que era ir para a biblioteca da Gulbenkian! Aquela janela, os sof�s confort�veis, os livros fascinantes� Quem � que nos tirava dali? Bibliotecas t�o diferentes entre si, mas todas elas homenagens ao gosto e ao prazer da leitura. Todas elas espa�os de conv�vio com esse ser misterioso que � o livro antes de ser aberto.

Sinto-me bem entre livros. S�o companheiros, professores amigos. Gosto do seu cheiro quando s�o velhos, da textura do papel, do grafismo das capas. Como m�e, esforcei-me sempre para que as minhas filhas ganhassem o amor pela leitura, como professora tentei encorajar os meus alunos a lerem para l� do que os curricula obrigavam, como leitora continuo a ler e a procurar que mais gente o fa�a.

Nunca consegui deitar um livro fora: acho um crime. E agora, que os 15.000 volumes da minha primeira biblioteca, a biblioteca do meu av�, me vieram ter � m�o, � com muito prazer e carinho que dou seguimento ao que foi a sua vontade: oferec�-la � Junta de Freguesia da terra onde morava. Para que mais gente possa ter o prazer de descobrir mais uma biblioteca. Para que, daqui a uns anos, num outro blog qualquer, haja gente que continua a escrever sobre o prazer que � entrar numa biblioteca para descobrir o que os livros t�m para lhes dizer�

(MJA)

*

H� momentos �nicos nas nossas vidas. Por isso, tamb�m eu gostaria de falar de uma biblioteca. A minha primeira biblioteca. Diferente. Sem claustros, lareiras ou jardins, mas com rodas. Igualmente digna, a minha primeira biblioteca. Chegava uma vez por m�s, l� pelos finais de 60 e in�cio dos 70.
Ainda hoje n�o consigo decifrar a magia que levava um significativo n�mero de mi�dos de uma aldeia dos arredores de Viseu, a percorrer cinco ou seis quil�metros, a p�, para ir trocar os livros que no m�s anterior tinham requisitado. Sei apenas que, para muitos, essa foi a semente que fez nascer o gosto e o amor pelo livro e pela magia da leitura. � engra�ado que muitos anos e muitas Bibliotecas depois, continuam claramente presentes na minha mem�ria as pequenas estantes apinhadas de livros de aventuras e de mundos desconhecidos.A velha carrinha Citro�n (acho que eram dessa marca) deve agora enferrujar no fundo de algum silvado. Fica, no entanto, um perene reconhecimento � Funda��o Gulbenkian e ao saudoso David Mour�o Ferreira por terem permitido a muitos mi�dos olhar para dentro de um livro.

(D.S.)

*

Os "apanhados" transcritos no seu Abrupto sobre o amor aos livros de tanta gente, comoveram-me at� �s l�grimas e fizeram-me pensar.
Da verdadeira dimens�o da leitura e da humanidade jacente na hist�ria que nos contam, na ideia que transmitem, na possibilidade de parar para pensar, voltar atr�s e reflectir.
S� n�s e o livro.
Em todas as mensagens existia ternura e instrospec��o e todas reflectiam uma paz interior dos seus autores dada, julgo que indiscut�velmente, pelo facto de serem...leitores interessados.

(MGC)

*

Com onze anos morava em Vale de Santar�m. Curso Comercial s� em Lisboa para onde viajava de comboio diariamente.

Comecei pela Escola Eug�nio dos Santos em Alvalade e, quando me mostraram a Biblioteca Municipal do Pal�cio Galveias, fui frequentador habitual durante dois anos. Voltei anos depois para confirmar que o fasc�nio do ambiente novo e a vis�o de estantes alt�ssimas cheias de mist�rios, me marcou para sempre.

Por uma porta que l� um dia se entreabriu, consegui ver num relance, outras estantes em corredores obscuros onde, de umas prateleiras para as outras, os livros decerto conversavam entre si.

Frequentei depois a Escola Veiga Beir�o no Carmo e, muito perto dali, na rua Ivens, t�nhamos a Biblioteca P�blica, agora extinta. Pedia para ler o que via pelas montras: Muito J�lio Verne misturado com O Crime do Padre Amaro; o Fel de Jos� Duro e algumas biografias (de Edison, Napole�o, Toulouse-Lautrec...), entremeados com o Amor de Perdi��o e o Cam�es dos Sonetos. A� bebi tamb�m as Prosas B�rbaras, e as Lendas e Narrativas bem como o Eurico.

Fui mesmo a tempo de ler na altura certa os cl�ssicos juvenis: Mark Twain, Stevenson, Salgari, Dickens... Mas a verdadeira revela��o foi para mim a Biblioteca Nacional, onde ela era e foi: no largo a seguir � rua Ivens logo antes da Victor Cordon: A sala de leitura vasta para os meus olhos, a frequ�ncia quase nula, e a toda a volta Enciclop�dias e dicion�rios. L� me perdi com a Larousse do sec. XIX e a do sec. XX, com a Brit�nica e o seu extraordin�rio volume de Atlas. E n�o me cansei a folhear a Universal (creio que era argentina). Lembro-me tamb�m de uma outra, alem�, uma obra em dezenas de volumes de uma grande perfei��o tipogr�fica. Muitas das ilustra��es, eram estampas em extra-texto, coladas pelo topo no espa�o em branco reservado na p�gina. Dava gosto procurar Lisboa e encontrar �Lissabon�, ou �Portugal� ... Pela primeira vez vi a sanha do vandalismo:
muitas dessas ilustra��es, (fotografias, desenhos, reprodu��o de quadros...) tinham sido arrancadas, e muitas das p�ginas de suporte estavam danificadas.

Sa�amos dali cientes de que o mundo era vasto e que era preciso aprender italiano, alem�o ou geometria. No entanto, o mais extraordin�rio era o enorme m�vel de ficheiros ao fundo da sala onde centenas (?) de gavetas mostravam nas fichas, os t�tulos com algarismos elevados (p.ex. xxxxxxxx
xxx12 ), o que queria dizer que aquele titulo se encontrava em 12� lugar no identificado volume Miscel�nea. Os volumes de Miscel�neas eram (s�o) encaderna��es de materiais heterog�neos: Buscando um t�tulo encontr�vamos os mais incr�veis assuntos: a separata de uma revista, o cat�logo de uma exposi��o, um discurso, um estudo de criptografia, uma tese...

Desde ent�o, nas bibliotecas desencanto minutos para encontrar o inesperado e apreciar a surpresa poss�vel.

(M.Neves Mendes)

*

Recordo as carrinhas da Funda��o, que s� eram cinzentas na cor, que nos apareciam de vez em quando junto � Escola Prim�ria ou no Parque junto ao rio, em Vila Praia de �ncora. E a� havia "festa na aldeia". Sonhava, n�o sei se de sonho sonhado ou acordado, que entrava nessas cabanas de quatro rodas e levava todos os livros para casa...Herg�, Conan Doyle, Verne como dieta inicial. Ainda hoje dou comigo, quase com inconsci�ncia, encostado �s montras das livrarias a contar aqueles que levaria para o aconchego do lar. Definitivamente, os sonhos podem levar ao crime.

(Ant�nio Filipe Meira)

*

Mem�rias de Bibliotecas / Mem�rias de uma menina bem-comportada...

Muito acertadinha, subia duas vezes por semana a rua onde vivia para ir ter aulas particulares de piano no Col�gio da Paz, perto do Marqu�s, no Porto. Naquele tempo, e n�o foi h� tanto assim, ia sozinha, aprendendo a saborear aqueles quinze minutos de independ�ncia valios�ssimos para os meus sete ou oito anos de idade. N�o me lembro de sentir perigo algum, nem de haver muito tr�nsito nas ruas, nem de transeuntes amea�adores, nem mesmo que chovesse ou fizesse muito frio (algo de muito improv�vel no Porto, o que prova qu�o selectiva � a nossa mem�ria...): eu l� ia depois do almo�o, com a pasta das pautas debaixo do bra�o. Sentia-me abrigada entre dois portos seguros, o de minha casa e o da pesada porta do Col�gio da Paz, que se abria para um convidativo e amplo �trio interior. Acabada a meia hora de aula de piano, havia sempre um sorriso ben�volo e meigo de despedida no rosto da freirinha que estivesse � porta. E eu gostava desse ritual, do caminho de ida e volta que se me afigurava longo e interessante. Foi assim que me fui habituando a observar o semblante dos rostos das pessoas por quem passava, a pisar as folhas castanhas e ca�das trazidas pelo vento de Outono, a tentar responder por mim �s perguntas que iam surgindo a cada nova descoberta. Mas a melhor descoberta de todas foi feita num dia de desacerto de rotina, quando (j� n�o sei por que raz�o), ao sair do Col�gio, virei � esquerda em vez de virar � direita, como era costume, e dei por mim a atravessar o Jardim do Marqu�s para ir conhecer a pequena biblioteca que l� existia. Lembro-me do edif�cio, pequeno, claro e envidra�ado. Lembro-me de haver mesas e bancos c� fora onde velhos jogavam �s cartas e ao domin�. Lembro-me das folhas ca�das no ch�o de Outono, que eu pisava num ritmo de dan�a s� meu e que, ainda hoje, volvidos trinta anos, continuo a ensaiar cada vez que sinto folhas secas debaixo dos p�s. Lembro-me, sobretudo, dos livros. N�o deviam ser muitos, pois tratava-se de uma pequena biblioteca. Mas um local com livros sempre exerceu em mim um sortil�gio especial. E aquele ficava num jardim lind�ssimo, com altas e frondosas �rvores. Para uma menina que crescia numa cidade, havia algo de m�gico naquela casinha rodeada de �rvores e arbustos. Nessa primeira tarde, n�o entrei. Cautelosa como sempre fui, limitei-me a observar de longe. Dois dias depois, voltei. Dessa vez, n�o consegui conter a minha curiosidade. Entrei, olhei em volta e n�o consegui resistir. J� n�o me lembro se algum funcion�rio que l� estivesse falou comigo, ou se eu me dirigi a algu�m. Sei, sim, que foi ali que, a partir daquele momento, li muitos "livros aos quadradinhos", como eu lhes chamava. Como era bom poder rir com as aventuras de Tintim e as fa�anhas do Ast�rix depois de exerc�cios de escalas, solfejo e pequenas pe�as para piano orientadas por uma professora competente, por�m um pouco austera. Se alguma vez cheguei a casa mais tarde do que a hora prevista, nunca ningu�m fez qualquer reparo. N�o por desleixo, decerto. A minha conduta bem-comportada havia-me granjeado alguma liberdade...

Estudei piano durante doze anos. Aquela foi a minha rotina durante todo esse tempo, pautada pelas inevit�veis mudan�as: o caminho a p� feito a pensar nos meus dilemas de adolescente, a descoberta de uma Barcarola de Mendelssohn ou a euforia sentida por conseguir tocar uma valsa de Chopin. Nessa altura, j� a biblioteca do Marqu�s fazia parte da minha mem�ria de inf�ncia, a paix�o pelos livros e pela Literatura estava bem enraizada em mim... �s vezes, ia at� ao jardim para ter a certeza que a biblioteca ali permanecia, com as �rvores e os velhos � sua volta. Parecia querer fotografar aquela imagem na minha mem�ria...

Hoje, sei que quando voltar ao Marqu�s, n�o mais verei o que se mant�m gravado na minha mem�ria. Tenho evitado passar por l�. Quando o fizer, ser� provavelmente de metro, e, provavelmente, estarei a ler um livro ou a folhear um jornal. Ou, se me lembrar, procurarei ler o poema que estiver escrito no interior da carruagem. Pode ser que seja sobre m�sica ou �rvores, ou folhas de Outono. Se assim for, esbo�arei um sorriso...

(Marta Correia)

5.3.05
 


A CAMINHO

"A boca de um vulc�o. Sim, boca; e l�ngua de lava. Um corpo, um monstruoso corpo com vida, macho e f�mea ao mesmo tempo. expele, ejecta. � tamb�m um interior, um abismo. Uma coisa viva, que pode morrer. Algo inerte que de vez em quando se agita. Que apenas existe de modo intermitente. Uma amea�a permanente. Ainda que previs�vel, geralmente imprevista. Caprichosa, insubmissa, malcheirosa. (...).
Claro que o podemos ver como um grande fogo-de-artif�cio. � tudo uma quest�o de meios. V�-lo de bastante longe. H� belezas que s�o para admirar apenas de longe, diz o dr. Johnson; n�o h� espect�culo mais grandioso qaue o das chamas. A prudente dist�ncia, � o espect�culo supremo, t�o instrutivo quanto emocionante. Depois de um repasto na villa de Sir***, vamos para o terra�o, armados de telesc�pios, para observar. Um penacho de fumo branco, o ressoar tantas vezes comparado ao rolar distante dos timbales: abertura. E come�a ent�o o colossal espect�culo, o penacho inflama-se, intumesce, eleva-se, uma �rvore de cinza que sobe cada vez mais alto at� se achatar sob o peso da estratosfera (com alguma sorte veremos como que sulcos de esqui laranja e rubros correr pela encosta abaixo) - horas, dias disto. Depois, calando, acalma. Mas de perto, o medo convulsiona as tripas. Este ru�do, um ru�do abafado, � uma coisa que nunca poder�amos imaginar, imposs�vel de conceber. Um cont�nuo fluir de um som �spero, de um estrondear tit�nico que parece estar sempre a aumentar de volume e no entanto � imposs�vel ser mais ruidoso do que j� �; um v�mito fragoroso e ensurdecedor que enche o espa�o, que nos deixa sem pinga de sangue e nos revira a alma. Mesmo os que se consideram apenas espectadores n�o conseguem furtar-se � investida de avers�o e terror, nunca antes experimentado. Numa aldeia no sop� da montanha - poderemos aventurar-nos at� l� -, o que de longe parecia um caudal torrencial revela-se a massa rastejante de esc�rias viscosas pretas e vermelhas, paredes tenteantes que se sust�m ainda um momento para logo cederem trementes aspiradas com um plop pela frente dessa lama palpitante; for�ando, aspirando, devorando, deslassando os �tomos das casas, dos carros, vag�es, �rvores, umas a seguir �s outras. � ent�o isto o inexor�vel.
"

Susan Sontag, O Amante do Vulc�o, Lisboa, Quetzal Editores, 1998.
 


OUVINDO LUIGI NONO / GRANDE NOMES : LA LONTANANZA NOSTALGICA UTOPICA FUTURA


La lontananza nostalgica utopica futura, Madrigale per pi� �caminantes� con Gidon Kremer.

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Grandes nomes/t�tulos e grandes obras musicais. O �ltimo ciclo de obras de Nono foram motivados por uma inscri��o visto pelo compositor numa parede de Toledo, "Caminantes, no hay caminos, hay que caminar", na qual surpreendentemente o compositor n�o reconheceu o conhecido mote de Antonio Machado, poeta que todavia j� tinha abordado em m�sica. O t�tulo completo da primeira desta obra � "La lontaneza utopica futura, Madrigale per pi� 'caminantes'" e do ciclo fazem parte ainda "Caminantes...Ayacucho" e "No hay caminos hay que caminar ... Andrei Tarkovski", derradeira obra de Nono. Se nestas obras o compositor retomou a err�ncia do Wanderer de Nieztche, toda a sua fase final da sua obra, de algu�m que foi tamb�m o autor mais politicamente comprometido da gera��o da "vanguarda" e membro do Comit� Central do PC Italiano, sempre muito cr�tico do sistema sovi�tico, toda essa final � atravessada pelo horizonte do sil�ncio mas tamb�m, creio, por um di�logo com o Anjo da Hist�ria de Benjamin; da� tamb�m "La lontananza nostalgica utopica futura". Outros grandes t�tulos s�o "� Pierre, del azurro silenzio, inquietum", dedicado a Pierre Boulez, e o mais importante de todos, a obra crucial da �ltima po�tica de Nono, "Prometeo, la tragedia dell'ascolto".

(Augusto M. Seabra)

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H� falhas no texto de Augusto M. Seabra que publicou:

1) O t�tulo completo da obra � la lontananza nostalgica utopica futura, madrigale per pi� caminantes con Gidon Kremer. Ou seja, lontananza e n�o lontaneza, e falta a A.M.S. as palavras nostalgica e ainda con Gidon Kremer
2) No conjunto de obras mencionadas por A.M.S., falta �Hay que caminar� so�ando, para dois violinos, 55� obra do cat�logo do Nono, composta em 1989
3) essa sim, a �ltima obra terminada por Nono, e n�o No hay caminos, hay que caminar (obra de 1987 e 52� do cat�logo), como afirmou A.M.S.

De um ponto de vista meramente pessoal, permita-me que lhe recomende ...sofferte onde serene... (36� obra, piano e banda magn�tica, 1974-1976) bem como Quando stanno morendo, diario polacco n� 2 (41� obra, 1982).

Permita-me ainda que lhe recomende algo para engordar a sua bibliofilia: Luigi Nono - �crits, Christian Bourgois Editeur (livro no qual poder� fazer um fact check das correc��es que apontei)
(C�sar de Oliveira)
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (3� s�rie)


Arcimboldo

Nasci e cresci numa casa de cujo jardim se avistavam as palmeiras do jardim traseiro da Biblioteca [P�blica Municipal do Porto]. A casa l� permanece (a minha m�e ainda l� vive) mas a maior parte das �rvores imponentes j� n�o existe, o jardim foi destru�do h� j� alguns anos sob um pretexto qualquer. Tamb�m frequentei com muita assiduidade a sala de leitura e lembro-me bem do professor Cruz Malpique l� sentado, rodeado de livros e de fichas. Embora nunca tivesse sido sua aluna, tamb�m o conhecia bem do Alexandre Herculano, onde era uma das vinte ou trinta "meninas" destinadas �s Letras e ao Direito, que por l� passaram no fim dos anos cinquenta por falta de espa�o nos liceus femininos.
Cedo adquiri o h�bito de ir para l� estudar ou requisitar livros para leitura domicili�ria, pois o h�bito manteve-se depois do fim do liceu, quando j� era estudante em Coimbra.

Os claustros que era preciso contornar, ventosos e gelados no Inverno e frescos no Ver�o, onde se esquecia o barulho da rua e s� se ouvia o arrulhar dos pombos, antes de se ganhar o acesso por uma escada de pedra de degraus muito gastos. A sala de leitura, como � retratada na fotografia enviada , era � direita, ao cimo das escadas, � esquerda ficava o mist�rio dos arquivos, onde os funcion�rios por vezes se deslocavam � procura dos livros.

(Maria Em�lia Malta)

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Como tive a sorte de nascer numa casa cheia de livros - os meus pais derretiam as poupan�as de empregados de escrit�rio nos alfarrabistas -, s� no ent�o Liceu Normal de Pedro Nunes tive oportunidade de viver a aventura de explorar uma biblioteca bem organizada.
E tive outra sorte, quando isto aconteceu, que foi a de a referida biblioteca ser dirigida pelo prof. R�mulo de Carvalho, que nos fazia o favor de ser na sua outra vida, como sabe, o Ant�nio Gede�o. Muito antip�tico, nas aulas, nos intervalos, na direc��o de ciclo e nos cruzamentos com alunos no Jardim da Estrela, perfeitamente integrado na disciplina vigente do come e cala, magister dixit, o poeta-profe era outro, dentro da biblioteca do Pedro Nunes, mesmo que mantivesse vestida a amea�adora bata branca das fisico-qu�micas: af�vel, sol�cito, quase amigo. Deixava as preocupa��es do regime a cargo da sinistra D. Teresa, a cont�nua-vigilante, e mergulhava nos livros.
Ao longo dos tr�s anos em que contact�mos, orientou as minhas leituras com esperteza e sensibilidade, apresentou-me a fic��o cient�fica, que substituiu os Cinco e o Verne, e at� "discutiu" comigo O Mundo dos Outros do Jos� Gomes Ferreira, que foi meu livro de cabeceira num ano qualquer da adolesc�ncia.
Dentro da biblioteca, s� regressou � sua concha de professor metod�logo do sistema educativo da ditadura em duas ocasi�es: uma, quando eu, espertinho, tentei requisitar a Dolicoc�fala Loira de Pitigrilli, que os meus pais, em casa, tinham retirado da circula��o ("Tenha ju�zo e ponha-se l� fora"); outra, quando Manuel Freire cantou no Zip Zip a "Pedra Filosofal" e eu, pretendendo criar uma ponte, outra vez espertinho, fui requisitar a Poesia Completa do s�tor Gede�o, mesmo tendo o livro � disposi��o em casa ("Se pretende bajular-me, olhe que eu sou pouco perme�vel a graxa").
O resto � s� boas recorda��es.

(ACS)

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Foto de Margarida Monteiro tirada no Real Gabinete Portugu�s de Leitura do Rio de Janeiro, "que visitei em 2003".

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Em minha casa tenho a biblioteca dividida em tr�s �reas: fic��o, n�o fic��o e banda desenhada. Est�o todas razoavelmente organizadas, com as duas primeiras ordenadas por autor. A de banda desenhada � diferente, porque mais complicada de estruturar: optei por �personagens�, �colec��es� e �autores�.
A minha paix�o por esta �rea come�ou porque me tentaram proibir de ler �quadradinhos�. Pelo lado da minha m�e, sou filho e neto de professores prim�rios, daqueles que, normalmente, se rotulam de �cl�ssicos�. Para o meu av�, a BD era vista como �fonte do mal� porque n�o estimulava o leitor no desenvolvimento da escrita, nomeadamente no que �s descri��es dizia respeito. Paradoxalmente, comecei a ler BD por influ�ncia dele. � que, para entreter a minha m�e, o meu av� recortava as diversas hist�rias publicadas no lend�rio suplemento juvenil dominical do Primeiro de Janeiro, e compilava-as em �livro�. Pouco depois, descobri que uns vizinhos tinham a colec��o completa da revista �Tintin�, devidamente encadernada. Esse Ver�o, o de 1978, foi fant�stico...
O primeiro �lbum que adquiri foi do Michel Vaillant, �Os Cavaleiros de Koenigsfeld�, de Jean Graton. Comprei-o numa livraria, cheia de p�, que existia mesmo ao lado da entrada do cinema Trindade, no Porto, onde o meu pai comprava os livros jur�dicos que hoje tenho no meu escrit�rio. A partir da� nunca mais parei. Tenho milhares de livros de BD, de todas as proveni�ncias, cobrindo todas as "escolas" e tend�ncias, mas, como n�o h� amor como o primeiro, continuo fiel � �rea franco-belga.
Hoje, claro, debato-me com a inevit�vel falta de espa�o. Mas j� vislumbro a solu��o. Tenho um tio, professor na Universidade do Minho, que fez uma coisa fant�stica: debatendo-se com falta de espa�o, comprou um apartamento. Mandou retirar a cozinha pr�-instalada e apenas colocou luz, uma mesa, uma cadeira e desumidificadores. As paredes, essas, est�o completamente forradas de livros. Tem 70 anos e, eu, metade. Estou certo que chegarei ao "Para�so" mais depressa do que ele.


(Pedro Br�s Marques)


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(...) n�o resisto a falar-lhe de uma biblioteca que, n�o sendo particularmente rica, preencheu, no entanto, muitas tardes e muitos invernos da minha juventude. Refiro-me � Biblioteca do Museu dos Condes de Castro Guimar�es, em Cascais. Situada em pleno parque, num jardim magn�fico, verde e h�mido, que eu era obrigado a atravessar de cada vez que l� ia. Logo no percurso me cruzava com os patos e as aves residentes que por ali deambulavam e chilreavam indiferentes � minha passagem, sentindo o cheiro dos pinheiros e de alguns eucaliptos.
Conheci-a por recomenda��o de um dos meus professores, quando em determinada altura necessitei de realizar um pequeno trabalho- Rapidamente me tornei seu leitor ass�duo.
Era uma casinha pequena, um anexo do pal�cio, com uma sala aconchegante, com duas mesas, havendo quatro lugares em cada uma delas e mais dois pequenos sof�s junto a uma lareira onde durante todo o Inverno o fogo crepitava. O pessoal era extremamente atencioso e logo � segunda ou terceira visita, assim que me tornei familiar, deixou-me � vontade. Passei ent�o a circular livremente pelo meio das estantes, a sentir o cheiro do papel velho misturado com o dos pinheiros e da humidade, agarrando em todos os livros e mais alguns, devorando uns a seguir aos outros. De E�a a Camilo, de Baudelaire a Balzac, de Maupassant a Malraux, tudo me interessava. Ao fim do dia requisitava dois ou tr�s livros para levar para casa, livros que religiosamente devolvia dois ou tr�s dias depois. Cada um desses livros tinha uma ficha na contracapa onde a funcion�ria de servi�o anotava o dia em que o livro era entregue e a data prevista para a devolu��o. Ali passei muitas tardes de Inverno (eu tinha aulas de manh�) e muitos dias de Ver�o quando o calor apertava e a praia se tornava insuport�vel devido aos magotes de gente que a enchiam. Nesse tempo s� podia ir ao Guincho, a minha praia de elei��o, quando algu�m me dava boleia. N�o tinha idade para ter carta de condu��o, n�o tinha carro nem mota e detestava ir sozinho no autocarro que sa�a da esta��o de Cascais. A biblioteca foi muitas vezes o ref�gio das minha paix�es juvenis quando eu, desesperado, procurava nos livros as respostas que n�o encontrava nas minhas amadas. A liberdade e o conforto que gozava dentro daquela bilbioteca e a inexist�ncia de qualquer burocracia na requisi��o dos livros faziam daquele espa�o um o�sis.
Aquilo que eu ali n�o tinha - burocracia - passei a ter quando entrei para a Faculdade e comecei a frequentar outras bibliotecas. As idas � Biblioteca Nacional, � Gulbenkian ou mesmo � biblioteca da minha faculdade tornavam-se um supl�cio. N�o sei porqu� mas tinha a sensa��o de que chegava sempre na hora de fechar tal a desconfian�a com que me olhavam. O cerimonial do preenchimento da requisi��o, a dist�ncia entre mim e os funcion�rios, a necessidade da exibi��o do bilhete de identidade, do cart�o de estudante, o tempo de espera at� que o livro chegasse, sentado no meu lugar, olhando o tempo a passar enquanto o livro n�o chegava, vagaroso, no carrinho da distribui��o. O que mais me aborrecia ent�o era ter de me limitar a procurar os livros, que eu muitas vezes nem sabia que existiam, nas fichas, sem poder manuse�-los antes de os requisitar. E quantas vezes, no fim, chegava a desilus�o. N�o era nada daquilo que eu queria. O t�tulo n�o tinha correspond�ncia com o texto, a ficha estava mal preenchida, o autor era afinal o editor. Uma tristeza. Tanto tempo a preencher a requisi��o e � espera do livro para passados cinco minutos j� estar a devolv�-lo e a preencher nova requisi��o, logo seguida de nova espera.
Talvez tenha sido tudo isso que mais tarde me fez detestar Lisboa. Sentia tudo aquilo muito distante, demasiado r�gido para o meu gosto. Para quem se tinha habituado a frequentar a Biblioteca do Museu dos Condes de Castro Guimar�es, com todas as suas limita��es, era muito dif�cil aceitar as regras das outras bilbiotecas. Ainda fui algumas vezes a uma biblioteca municipal, creio eu, ali para os lados do Campo Pequeno, mas j� n�o havia nada a fazer.
Algumas anos volvidos voltei a encontrar duas bibliotecas muito agrad�veis, j� n�o em Portugal, mas em Macau. A velhinha bilbioteca do Leal Senado de Macau e a pequena bilbioteca chinesa, junto ao Clube Militar. Mas o tempo j� era outro, eu j� n�o era o mesmo e os meus interesses tamb�m tinham mudado.
Durante o meu mestrado frequentei com indiscrit�vel prazer as bibliotecas do ICS e do ISCTE. S� que mudando as preocupa��es e os interesses tamb�m mudam os livros. De todas elas guardo boas recorda��es, pese embora o barulho da �ltima, mas at� hoje nunca encontrei outra biblioteca como a do Museu dos Condes de Castro Guimar�es. N�o sei como ela est� nos dias que correm, mas espero que continuem a cuidar dela, com o mesmo pessoal atento e simp�tico que me transportou para uma outra dimens�o do prazer da leitura e do conv�vio com os livros. Foi um tempo doce e sereno o que passei nessa bilbioteca, tempo que hoje recordo com uma imensa saudade.

(S�rgio de Almeida Correia)
 


EARLY MORNING BLOGS 443


Hopper

Filling Station


Oh, but it is dirty!
--this little filling station,
oil-soaked, oil-permeated
to a disturbing, over-all
black translucency.
Be careful with that match!

Father wears a dirty,
oil-soaked monkey suit
that cuts him under the arms,
and several quick and saucy
and greasy sons assist him
(it's a family filling station),
all quite thoroughly dirty.

Do they live in the station?
It has a cement porch
behind the pumps, and on it
a set of crushed and grease-
impregnated wickerwork;
on the wicker sofa
a dirty dog, quite comfy.

Some comic books provide
the only note of color--
of certain color. They lie
upon a big dim doily
draping a taboret
(part of the set), beside
a big hirsute begonia.

Why the extraneous plant?
Why the taboret?
Why, oh why, the doily?
(Embroidered in daisy stitch
with marguerites, I think,
and heavy with gray crochet.)

Somebody embroidered the doily.
Somebody waters the plant,
or oils it, maybe. Somebody
arranges the rows of cans
so that they softly say:
ESSO--SO--SO--SO

to high-strung automobiles.
Somebody loves us all.


(Elizabeth Bishop)

*

Bom dia!

4.3.05
 


BIBLIOFILIA: TEMPOS DUROS, BOAS CAPAS



Pois �. O grafismo dos anos trinta era vigoroso e ainda pareceria mais forte se o compar�ssemos com as capas das d�cadas anteriores. Isto era verdade para publica��es nacionalistas e fascistas como estas, mas tamb�m para as comunistas que, como eram clandestinas, s�o menos conhecidas e tinham menos meios ao seu dispor. Entre as coisas que s�o a outra (ou a mesma face?) das matan�as espanholas, que apareciam na �ltima �bibliofilia�, est� esta vitalidade da arte em momentos duros. E, registe-se, sem lado.

A arte, a bem dizer, vende-se barato.
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS (2� s�rie)



E. Ruscha

Tenho gravado na mem�ria o registo de um ambiente muito portugu�s, mas pouco conhecido pelos que nasceram em Portugal. Trata-se do Real Gabinete Portugu�s de Leitura do Rio de Janeiro . Lembro de ter passado muitas manh�s neste ambiente fant�stico, feito exclusivamente para privilegiar a leitura, pensado ao pormenor para oferecer conforto aos leitores. Principalmente quanto a utilidade e beleza impar de seu imenso tecto de vidro, que confere ao ambiente uma luminosidade indescrit�vel nos ensolarados dias tropicais do RJ.

O acervo, segundo anunciam, � o maior de autores portugueses fora de Portugal. Foi ali que conheci E�a de Queir�s, Gil Vicente, Jaime Cortes�o, Ant�nio S�rgio, Dami�o Peres e, at� mesmo, Vitorino Magalh�es Godinho.

Eu fazia, � noite, o curso de Hist�ria na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e durante os meus dias, me dedicava � leitura. Quase sempre na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, mas muitas vezes no ador�vel Real Gabinete Portugu�s de Leitura.

(Edgard Costa)

*

Fico impressionada com a quantidade de pessoas que lhe escrevem a contar as suas hist�rias e a rela��o estreita que tem com os livros. Surge muitas vezes refer�ncia �s bibliotecas itenerantes da Gulbenkian. Havia uma em Mogadouro que a minha m�e frequentava e que eu ainda cheguei a ver. Quando era crian�a passava �s vezes por uma outra, j� residente e tamb�m da Gulbenkian, onde o meu tio J. ainda � bibliotec�rio. Foi l� que descobri os livros do elefante Babar. Mais tarde, numa biblioteca onde haveria de descobrir outros mundos, a do Instituto Brit�nico no Porto, devorei revistas de cinema e enciclop�dias de arte. Encontrei l� Kazuo Ishiguro e William Golding.

Devo em grande parte � minha m�e esse prazer da leitura que trago hoje comigo e que espero passar adiante. Devo-o tamb�m a alguns amigos. Mais que da leitura, o prazer dos livros. Um dos presentes que mais gozo me deu receber foi a biblioteca que herdei do meu tio D. Modesta, acompanhou-o numa vida celibat�ria passada entre uma �frica imensa e uma Tr�s-os-Montes fechada. Descobri l� Salgari e a Agatha Christie. A leitura de tantos livros policiais na adolesc�ncia devo-lha a ele. Ficou-me talvez o fasc�nio pelo ch� desses ambientes interiores do countryside ingl�s. E tamb�m das est�rias dos col�gios ingleses da Enid Blyton, onde os pic nics a meio da noite e as escapadelas � disciplina austera eram frequentes. A rela��o mais afectuosa com os livros da inf�ncia e da adolesc�ncia.

(PPM)

*

Sinto um misto de saudade e carinho muito especiais, sempre que passo em frente ao edif�cio da C�mara de Leiria � belo exemplar da vasta obra do ilustre Arq. "naturalizado� Leiriense Ernesto Korrodi - e recordo aquela sala do 1� andar que albergava no in�cio dos anos setenta a velha biblioteca Afonso Lopes Vieira. Era pequena e escura, com estantes em madeira de mogno atafulhadas de livros, revistas, enciclop�dias e manuscritos. Havia ainda alguns bancos tamb�m em madeira, 3 ou 4 secret�rias para estudo individual e um candeeiro de luz amarela que, naquelas noites invernosas ou tardes de can�cula , me proporcionavam um conforto acolhedor e um ambiente de grande recolhimento, prop�cio ao estudo e reflex�o.

Mas o que retenho ainda mais agudamente na mem�ria � a figura da funcion�ria da biblioteca, uma senhora � beira da reforma que nunca mais vi nem nome n�o recordo, sempre sol�cita, de bom trato e que me ajudou tamb�m na gram�tica e nas tradu��es do Alem�o. A Senhora tinha na sua juventude aprendido a l�ngua teut�nica e ficava entusiasmada sempre que lhe falava em alem�o ou lhe solicitava ajuda! Reconheci depois que algum desse entusiasmo me foi transmitido e incentivou as minhas leituras. At� hoje!

(Manuel Oliveira)

*

Na inaugura��o da nova Biblioteca Municipal de Odemira (baptizada de "Jos� Saramago"...), disse o vereador da cultura:
"Todo este espa�o sucede na sua fun��o cultural, � velha mas t�o querida Biblioteca da Gulbenkian, a quem, nunca ser� demais agradecer o trabalho desenvolvido tantos e tantos anos no pa�s e tamb�m em Odemira, bem como a doa��o total do acervo com cerca de sete mil exemplares � Biblioteca Municipal."

No site da C�mara Municipal de Odemira, faz-se a apresenta��o da Biblioteca Municipal e da import�ncia da Funda��o Gulbenkian. Curiosamente, tamb�m o presidente da CMO, autor do texto, cita logo � cabe�a, o Em�lio Salgari:
"Eram as carrinhas-biblioteca da Gulbenkian que � sexta � tarde chegavam, enquanto a malta de olhos esbugalhados e n�o sem alguns empurr�es � mistura para assegurar um melhor lugar, ficava na bicha. � espera�Eram os Cinco, as aventuras de Em�lio Salgari, de J�lio Verne, eram E�a de Queir�s, Camilo Castelo Branco, J�lio Dinis�Poucos e sempre os mesmos, os livros eram disputados ao palmo. A sua "raridade"
levava a que frequentemente houvesse lugar a segunda ou terceira leitura. Inacreditavelmente havia sempre algo de novo�Depois foi a biblioteca fixa em Odemira. Pequenina, escura e desconfort�vel, mas extraordinariamente rica de conte�do, de cumplicidades, de amizades e de sonhos. Depois, um pouco a nossa utopia. "
A nova Biblioteca mant�m um servi�o de "Bibliom�vel ", um ve�culo que transporta uma biblioteca pelas freguesias do interior do maior concelho do pa�s.

(Luis Silva)

*

Na nossa fam�lia, as bibliotecas v�o passando de pais para filhos� Mas com o incurtar das casas, as coisas v�o-se tornando dif�ceis. Lembro-me de casa dos meus av�s onde havia arm�rios repletos de livros: os de exposi��o na sala, eram os permitidos por quem mandava nessas coisas (havia mesmo o �ndex, onde estava determinados os autores que podiam ou n�o ser lidos): livros para toda a fam�lia, adolescentes, senhoras. Por exemplo, livros de autores franceses, alguns at� galardoados mas com pr�mios talvez um pouco duvidosos, pois os conte�dos� E nas salas menos expostas estavam os livros mais �intelectuais� onde era preciso pedir licen�a para serem lidos � principalmente sendo eu uma mi�da, pois nem tudo era lis�vel.

A minha m�e, senhora considerada intelectual para a altura pois at� tinha um curso superior, era uma amante de livros e toda a vida gastou, desde que come�ou a ganhar dinheiro, o que podia em livros. Havia primeiras edi��es de Verg�lio Ferreira, M�rio Dion�sio, Vitorino Nem�sio, e livros proscritos como os de E�a, Zola, Andr� Malraux, M�rio de S� Carneiro, etc. A cultura era mais franco-portuguesa, era houvessem livros de escritores ingleses, Hemingway, Huxley, Maugham, Shaw.

Do meu pai herdei o gosto pelos livros de aventuras: Dumas, Verne, quilos de livros de aventuras de cowboys, a colec��o dos livros de Sim�es Muller sobre as biografias de pessoas c�lebres como Florence Nitthingale, Cam�es, os Pony Express, etc. e, � claro, a banda desenhada: o Mundo de Aventuras, mais tarde o Tintin e ainda o jornal da Mocidade Portuguesa para meninas: A Fagulha.

E ainda, gra�as � falta de televis�o, comecei a ler tudo o mais que apanhava. Trocavam-se livros com toda a gente: entre primos, amigos.

Lembro-me uma vez de uma tia ter ganho um pr�mio de um concurso do Di�rio Popular cujo pr�mio era 20 contos em livros (uma fortuna!) em diversas editoras. E como n�o era muito dada a essas coisas, convidou-me para partilhar com ela o pr�mio: fomos � S� da Costa, � Bertrand e outras editoras de que n�o me lembro o nome, mas que me deram bons livros. Foi um regalo.

Agora na minha casa, tenho beneficiado das heran�as: o esp�lio da minha m�e foi dividido entre os irm�os mais �intelectuais� e reconhe�o ter-me aproveitar do desconhecimento de alguns para ficar com uma biblioteca razo�vel. E as tias velhinhas a morrer t�m-me permitido alargar o leque de livros, com os livros de Poche, embora a falta de espa�o seja aterradora. Tenho alguns milhares, uns que li, outros que n�o e alguns que gostaria de reler. Estou � espera da reforma, cada vez mais longe, para passar 10 anos seguidos sem sair do sof�. Nos intervalos vou lendo como posso. Todos os dias um pouco.

Gostaria que os meus filhos tamb�m lessem: mas fazem-no pouco, muito pouco. Hoje l�em-se outras coisas. Tenho uma neta a quem vou passando os Condessa de S�gur que li quando tinha a sua idade. Poder� ser a minha esperan�a.

(B. Nolasco)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota BIBLIOFILIA: EF�MERA DOS TEMPOS DA PESTE com a hist�ria de uma terr�vel pergunta: "� um grande espect�culo assistir � morte de um homem, verdade?"
 


EARLY MORNING BLOGS 442

Breakfast


Rush hour, and the short order cook lobs breakfast
sandwiches, silverfoil softballs, up and down the line.
We stand until someone says, Yes? The next person behind
breathes hungrily. The cashier's hands never stop. He shouts:
Where's my double double? We help. We eliminate all verbs.
The superfluous want, need, give they already know. Nothing's left
but stay or go, and a few things like bread. No one can stay long,
not even the stolid man in blue-hooded sweats, head down, eating,
his work boots powdered with cement dust like snow that never melts.


(Minnie Bruce Pratt)

*

Bom dia!
 


MAIS MEM�RIAS DA BIBLIOTECA P�BLICA MUNICIPAL DO PORTO

Enviadas por S�lvio Costa estas fotografias que s�o o exacto retrato da Biblioteca que ainda conheci:

Biblioteca P�blica Municipal do Porto - Anos 60

Todos voltados para o mesmo lado, de frente para o vigilante da sala (o seu amigo s� podia desenhar desta perspectiva), as mulheres a um lado, os homens ao outro�



� e ao fundo a estante de coro e os mais novos, mais irrequietos.



Fotografias de Plat�o Mendes em MARJAY, Frederic P. Porto : capital do norte origem de Portugal. Lisboa : Bertrand, 1963.
 


BIBLIOFILIA: EF�MERA DOS TEMPOS DA PESTE



Num arquivo, que recentemente obtive, est�o um conjunto de documentos, jornais, panfletos, fotos, cartazes e livros muito interessantes, todos eles retratando a tumultuosa vida da Pen�nsula Ib�rica no s�culo XX. Um deles � esta edi��o falsa do Avante! feita pela PIDE ou pela Legi�o em 1962 e destinada a caluniar Delgado e a usar o seu passado anti-comunista contra o PCP. Conhecem-se v�rios casos de n�meros falsos do Avante!, mas este � mais perfeito na sua c�pia do grafismo do jornal verdadeiro.


No arquivo est� tamb�m uma s�rie de fotografias mostrando uma realidade mais tr�gica. � um conjunto de fotos tiradas durante a guerra civil espanhola e que desconhe�o se s�o total ou parcialmente in�ditas pelo menos em Portugal. Todas retratam cenas de viol�ncia e morte, fuzilamentos, cad�veres no ch�o, campos e ruas com mortos. Algumas est�o legendadas � m�o em portugu�s, como esta s�rie que retrata a pris�o interrogat�rio e fuzilamento de "comunistas" em Llerena, na Estremadura, na circunscri��o de Badajoz. Sabe-se que Llerena foi tomada pelos nacionalistas em princ�pios de Agosto de 1936 e que logo a seguir houve centenas de fuzilamentos. � prov�vel que estas fotos testemunhem esses fuzilamentos de 5 e 6 de Agosto. Como neste mesmo per�odo de tempo, o jornalista portugu�s M�rio Neves se encontrava na regi�o e foi uma das raras testemunhas do chamado "massacre de Badajoz", � prov�vel que estas fotografias tenham sido por ele tiradas ou trazidas.

*
A prop�sito das fotos dos fuzilamentos em Badajoz, lembrei-me de uma hist�ria contada por um tio-av�, que foi testemunha desse tr�gico momento. Naqueles anos 30, a guerra civil espanhola era seguida com toda a aten��o, e ap�s a queda de Badajoz, organizaram-se excurs�es para assistir a esses fuzilamentos naquela cidade.

Presumo que a maioria das pessoas que estava nessas excurs�es alinhava pelas ideias do Estado Novo. O objectivo da viagem era assistir � puni��o dos agressores da sociedade, daqueles que atentavam contra o nosso modo de vida, a "tranquilidade social" defendida pelo antigo regime. A viagem a Badajoz era uma manifesta��o da solidariedade aos franquistas e uma afirma��o da ideologia pol�tica de cada um dos excursionistas.

Numa dessas excurs�es, os anfitri�es espanh�is cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execu��es. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.

Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir � sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes "Sois portugueses, verdade?" Alguns responderam que sim. "� um grande espect�culo assistir � morte de um homem, verdade?" perguntou-lhes o condenado.

Esta pergunta deixou profundamente transtornados v�rios portugueses. Alguns perceberam imediatamente que tinham levado o seu combate pol�tico longe demais. Sentiram-se profundamente envergonhados por presenciar aquele �espect�culo�; apenas queriam sair dali o mais rapidamente poss�vel. Aquela pergunta de um homem condenado � morte f�-los perceber que nenhum combate pol�tico podia justificar a morte de uma pessoa. Passadas algumas d�cadas, alguns ainda recordavam o rosto e a express�o daquele homem ao dirigir-lhes aquelas �ltimas palavras.

(Marco Oliveira)

3.3.05
 


MEM�RIAS DE BIBLIOTECAS

Em Odemira, no �nicio dos anos 80, a biblioteca da Funda��o Calouste Gulbenkian era visita di�ria para mim e para mais alguns mi�dos que n�o tinham muito mais onde ocupar o tempo que sobrava da escola. O �nicio da adolesc�ncia pedia a leitura de aventuras fant�sticas, de bandas desenhadas que n�o da Disney, de autores e mundos ainda n�o visitados. O Sr. Gilberto era o guardi�o de duas pequenas salas com estantes a toda a volta, do ch�o ao tecto, repletas de livros devidamente identificados com tiras de c�r diferentes. No seu interior um cart�o listava os leitores e as datas de em que tinham sido entregues ao seu cuidado. O velho Sr.Gilberto tinha sempre uma inesperada rispidez para os jovens frequentadores das duas salas e era imperdo�vel com os retardat�rios nas devolu��es. Ao mesmo tempo, quando chegava nova remessa de livros era com um ar de quem oferecia um doce �s escondidas, que nos indicava a sala do fundo. "Chegou uma nova remessa. Vai l� ver se encontras alguma coisa". Encontrei como encontrava sempre. Encontrei o Sandokan do Salgari, encontrei a BD do Alix, do Blake & Mortimer... Encontrei a Agatha Christie e Conan Doyle. Encontrei muitos que agora n�o lembro. Mais tarde encontrei um outro livro. Tinha doze ou treze anos, quando decidi levar para casa um livro de que tinha ouvido falar na televis�o. O "1984" � coisa para marcar um adolescente.
Nunca agradeci � Gulbenkian e ao Sr. Gilberto o ter viajado e aprendido tanto.

(Lu�s Silva)

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Por raz�es de vida raramente tive acesso a bibliotecas publicas at� ao fim da adolesc�ncia. Contudo, o meu pai, fez uma excelente biblioteca ao longo da vida, e de tudo e todos, portugueses, brasileiros, ingleses, americanos, russos,etc.,romances, biografias, poesia, teatro, aos franceses � que numca se chegou por a� al�m. Como na minha inf�ncia viviamos numa pequena ilha do Indico que fez o meu pai quando ainda tinha 3/4 anos. No meu quarto, na "sala de estar", tinha sempre � m�o de semear, estava cercado de livros, revistas, jornais, volumes de inciclop�dias e quadradinhos. E de a� veio meu prazer pela leitura e pelos livros, a capa, o papel, a letra.Li a biografia de Talleyrand a� com 12 anos, quase nada percebi. Estou agora a reler porque os tempos aconselham. Mas � porque na adolesc�ncia o tive na m�o !
A paix�o do meu pai pela literatura vei de que em crian�a, de pais humildes, que trabalhavam na terra, teve a oportunidade de em crian�a passar dias na biblioteca particular de Homem Cristo(Pai), que me disse ter sido de ctegoria excepcional para o pa�s e para a �poca.
� nessa idade que se tem desenvolver a curiosidade pelo pensamento dos outros e saber da exist�ncia das coisas.

(C. Indico)

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O fasc�nio pelos livros nasceu na consulta de bilbliotecas familiares. A edi��o completa do Arquivo dos A�ores, editada por Ernesto do Canto, exerceu sobre mim um enorme fasc�nio. Recordo-me de, enquanto a minha prima tocava piano, eu, ent�o com 14 anos, consultava, deliciado, aquele magnif�co amontoado de documentos sobre a Hist�ria dos A�ores.
O passo seguinte foi a ent�o Biblioteca P�blica e Arquivo Distrital de Ponta Delgada, onde, nas f�rias, devorava livros de Hist�ria e Literatura. Aos 15 anos, ganhei a reputa��o de leitor ass�duo, onde com Hugo Moreira, um cinquent�o investigador da Hist�ria A�oriana, ocup�vamos diariamente os nossos lugares cativados pelo uso. Ganhei direito a que o Sr. Silvestre, um bibliotec�rio profundamente conhecedor do esp�lio micaelense, me conduzisse numa visita guiada �s preciosidades bibliogr�ficas do Largo da Gra�a, onde, no antigo Convento dos Gracianos, se encontrava alojada a institui��o. Tive o privil�gio de percorrer demoradamente as estantes onde se encontravam conservadas as bibliotecas particulares de Antero de Quental, de Te�filo Braga, dos irm�os Ernesto [a preciosa A�ORIANA] e Jos� do Canto [A PRECIOSA CAMONIANA], do marqu�s de J�come Correia, de Jos� Bensa�de, de Bruno Tavares Carreiro [A PRECIOSA ANTERIANA] e de aluns outros mecenas.
Jamais esquecerei o amor e o carinho que os probos funcion�rios daquela casa dedicavam �s preciosidades a seu cargo, mas, tamb�m, a aten��o que prestavam a todos os jovens que ent�o frequentavam a biblioteca, entre os quais me inclu�.
Mesmo nas f�rias de Ver�o, pod�amos frequentar a sala de leitura at� �s 22H00. S� depois �amos passear para a Avenida Marginal, um dos diverimentos favoritos dos pontadelgadenses nos meses de Estio.

(Jorge Couto)

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A minha primeira mem�ria de leitura � da minha m�e a ler a Branca de Neve, � noite, no quarto que eu partihava com os meus tr�s irm�os, e da sua exclama��o involunt�ria (�Que disparate!�) ao ler que a princesa tinha �ombros di�fanos�. A minha m�e, cientista, gostava de rigor e exactid�o em tudo. Mais tarde, come�aram as disputas sobre quem seria o primeiro a ler o Tintin, que �s vezes acabavam com a revista rasgada em dois.
Quando tinha 10 anos, a professora de um dos meus irm�os mais novos emprestou-me o Di�rio de Anne Frank. Foi a primeira vez que um adulto me emprestou um livro. Nunca mais me esqueci dela, do gesto e do livro, e da imensa tristeza pela sorte daquela menina que gostava de ler e de escrever e que n�o p�de crescer. Foi tamb�m o primeiro livro que li que n�o acabava bem.
Depois, a espera pela pr�xima visita da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, e o receio de que o senhor percebesse que eu estava a requisitar livros para mim com dois cart�es, o meu e o do meu irm�o mais velho. Eu s� podia levar livros com bolinha verde, ele j� podia ler os de bolinha vermelha (ou laranja?), os que eu mais apreciava. Foi a� que assinei o meu primeiro abaixo-assinado, uma peti��o (in�til) � Gulbenkian para que n�o acabasse com as bibliotecas itinerantes.
Li todos os livros l� de casa, incluindo o Crime do Padre Amaro que a minha m�e, ao ver como a minha fome progredia, escondeu em cima do guarda-fatos. Foi, claro, o primeiro E�a que li. E diverti-me imenso a comparar as duas edi��es do D. H. Lawrence, a da minha m�e censurada, a do meu pai integral.
Nas f�rias, atacava as estantes dos meus tios, que n�o compreendiam mas aceitavam com um encolher de ombros (muito pouco di�fanos) que eu, por vezes, preferisse ficar a ler num canto em vez de ir brincar ao sol, no tanque, com o resto das crian�as da fam�lia.
Quanto �s outras bibliotecas onde entrei no decurso da vida acad�mica, continuo a frequent�-las porque fiz da vida acad�mica o meu modo de vida. S�o menos simp�ticas que as da inf�ncia e adolesc�ncia, mais familiares e menos misteriosas e, sobretudo, visitadas mais por dever do que por prazer. Pudesse eu ter todos os livros que me fazem falta em casa! Na minha biblioteca.

(STP)

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Devem ser poucos os que antes, durante e mesmo depois da minha gera��o, e que residiam ou estudassem nesta cidade de �vora n�o tenham passado, frequentado, utilizado a biblioteca p�blica de �vora.
Aqueles que, no meu tempo de estudante e tal como eu, passaram tardes inteiras na companhia daquele espa�o, das figuras sempre presente e eternas do Chitas e da Jacinta, sabem que � um espa�o maravilhoso.
Entrei nele pela primeira vez deveria ter uns 11 ou 12 anos, fruto de um trabalho do ciclo, daquelas coisas impostas pelos professores e que nos obrigavam a procurar outras fontes de informa��o.
O peso do espa�o oprimia uma crian�a e, perante aquelas formalidades e a figura daquele homem que, de dedos amarelos, �culos fundo de garrafa na ponta do nariz, entre o corcunda e o encorvado, nos pedia o bilhete de identidade num tom de voz quase que sussurrado, sentiamo-nos ainda mais pequenos, constrangidos a penetrar naquele espa�o quase de tons sagrados.
Mas, passado o receio inicial, compelidos pela necessidade, l� subiamos as escadas, curvavamos, cada um por seu lado e, chegados � imponente porta, a empurravamos com um t�pico guinchar de anos passados. Davamos por n�s num imenso sal�o.
De um lado a figura imponente de frei Manuel do Cen�culo a ocupar toda a parede. Figura que nos vigiava, que vigiava namorados e leituras, textos e ternuras que tamb�m se trocavam naquele espa�o, a tentar fintar os olhos de quem velava pela integridade do espa�o, pelo pesar dos anos passados.
Do outro, o balc�o a impor uma barreira de l�mites que apenas atravessei, j� grande, estudante universit�rio e onde se alojavam aquelas duas figuras que tudo conheciam, que tudo sabiam.
Sempre me impressionaram pelo seu conhecimento, pela simpatia que colocaram na rela��o com quem, ignorante e pequeno, procurava aquele espa�o. Fossem temas de ci�ncias, artes, humanidades, of�cios ou apenas prazeres simples de descoberta eles conheciam um livro, um t�tulo adequado, �til �s pequenas pretens�es de quem descobria a vida nas p�ginas de um livro, nos textos, nas imagens.
Passados todos estes anos, tenho na Jacinta uma amiga indefect�vel, companheira de muitas e longas conversas, no Chitas um parceiro de cumplicidades, de troca de ideias e de amostragem de livros. Um companheiro de leituras.
No ano passado, na pausa da P�scoa, fiz uma visita guiada com os meus filhos �quele espa�o, ao reencontro dos livros. Com as mesmas pessoas, e outras que entretanto aparecereram, pedimos livros para estarmos ali, apenas a passar os dedos, a folhear pensamentos, entretidos a passar uma manh�. Percorremos as suas diferentes salas, sentimos o peso dos livros, o cheiro dos anos, o respeito dos pensamentos e das ieias que aquelas estantes guardam.
A Biblioteca P�blica, como sempre foi e � conhecida, faz 200 anos. Penso que a cidade deveria ser convidada, obrigada a participar nesta festa, que as portas se abrissem, que os livros pudessem, pelo menos uma vez, fugir, escapar-se pelas ruas e percorrer o exterior como sangue que nos enche as veias.

(manuel dinis p. cabe�a)

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Desde que me lembro que me sinto fascinado pelos livros. Ainda mi�do, como n�o tinha dinheiro, ia trocar os meus livros usados por outros ainda mais usados numa livraria da Rua do Bonjardim. Assim, contactei com o Major Alvega, o Mandrake, mas tamb�m o J�lio Verne e uma colec��o excepcional de cujo nome n�o me lembro que era composta por biografias de pessoas famosas: Madame Curie, Benjamim Franklin, Edison, e muitos outros.
Agora, j� adulto e com 4 filhos (dos 4 aos 13 anos), tenho muitos livros l� em casa. Coloquei uma estante na sala onde os meus livros est�o acess�veis para que os meus filhos os possam ver, folhear e habituar-se � sua presen�a. Dessa forma, v�o pegando neles e cheirando-os, coisa que a internet nunca lhes poder� proporcionar.
Por minha vontade estaria mais ligado aos livros, mas infelizmente permiti que a vida tomasse conta de mim. Resta-me a esperan�a da velhice.

(Jos� Pinho)

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Acreditem. O primeiro livro que li at� ao fim (teria eu 8 ou 9 anos) foi um cujo t�tulo era (ou �) "Um Passeio � Serra da Estrela". Uma prenda para quem souber o seu autor.

(Fernando Barros)
N�o sei se ser� o mesmo (penso que n�o) mas h� um livro de Emidio Navarro que penso entitular-se "4 dias na Serra da Estrela" e que descreve uma expedi��o feita no seculo XIX, relatando o que ent�o pouco mais era que "terra incognita". Nunca consegui arranjar um exemplar embora tenha procurado em meia duzia de alfarrabistas.
Ha 4 anos tive oportunidade de fazer a maior parte do trilho T1 desde perto da Guarda at� Loriga num total de 70 e tal km e passando pela Torre. Aconselho! Conheci locais quase inacessiveis (de carro) e portanto desconhecidos para 99,9% das pessoas, como o Vale dos Condes ou a descida para Loriga, por exemplo. E ainda bem...
(Jo�o Cardoso)

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A mim me coube a indiz�vel felicidade de receber encaixotadas e a monte as bibliotecas pessoais de Leonardo Coimbra e do Professor Braga da Cruz, antigo Reitor da Universidade de Coimbra.

Nenhum prazer mais sublime pode existir do que ter � m�o 30 ou 40 mil volumes que ignoramos completamente, embalados ao acaso, sem cat�logo nem descri��o. Excitados e nervosos, rasgamos a fita cola que fecha um caixote, sem fazermos ideia nenhuma do que nos espera: uma explica��o da teoria da relatividade para n�o cientistas; as obras de Balmes; um relat�rio e contas da �Sacor�; um tratado de 1937 de um padre Jos� Ferreira, contra a devassid�o e a lux�ria; um ileg�vel tratado de Direito Romano do s�c. XIX franc�s; um ainda mais ileg�vel R�misches Recht do s�culo XX; uma colec��o quase completa da �Biblioteca de Autores Cristianos�; o monot�no discurso proferido na sess�o solene de abertura oficial do ano lectivo de 1953-54 na Universidade de Coimbra; uma edi��o cr�tica do D. Quixote, em papel b�blia; o Guia de Portugal; as p�ginas amarelas de 1973; o cat�logo da exposi��o comemorativa do C�digo Civil com um cart�o de visita assinado por Oliveira Salazar; o Caminho de Escriv� de Balaguer; os Sonetos de Antero de Quental, edi��o cl�ssicos S� da Costa; Angola, terra linda, ser�s sempre Portugal; o tratado de Direito Civil de Enneccerus � Kipp � Wolff; as comemora��es do centen�rio da publica��o de �os Lus�adas�; o Serm�o da Sexag�sima...

O mundo todo cabe num caixote de livros, quando n�o se sabe o que est� l� dentro.

A verdadeira biblioteca n�o � a que est� muito bem organizadinha, muito bem catalogadinha, muito bem tratadinha. A verdadeira biblioteca � aquela onde se encontra o que n�o se procura, onde se encontra o que nem sequer se sabe que existe.

(Ant�nio Cardoso da Concei��o)

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Tamb�m com os meus 14 anos ,hoje tenho 69,consultei na B.Municipal de Coimbra o livro de E.Moniz.
Mas o que recordo mais intensamente dos meus tempos de leitor daquela casa,principalmente nas f�rias grandes, foi a possibilidade de ter acesso a conhecimentos que n�o estavam dispon�veis nessa altura e que me tinham despertado a aten��o ,sobre os dias da resist�ncia dos cadetes da A.M.de Toledo,durante a G.C.de Espanha,atrav�s de uma refer�ncia ao papel do R.C.Portugu�s,na citada guerra.
Com a ajuda dos competentes e pacientes funcion�rios,procurei livros que satisfizessem a minha curiosidade;encontrei -os sobre a guerra no mar,de Maur�cio de Oliveira e pouco mais!
Foi ent�o que entrei pela primeira vez no mundo maravilhoso de uma biblioteca! Possivelmente por sugest�o de algum dos referidos funcion�rios,comecei a ler todos os jornais da �poca sobre o epis�dio do Alc��ar de Toledo.Fiquei esclarecido.
Dai a ler tudo sobre a G.C.de Espanha nos jornais de 1936-39, foram momentos irrepetiveis e ainda hoje,que sobre o assunto h� razo�vel bibliografia ,reconhe�o que aquela Biblioteca prestou um relevante servi�o na forma��o de um jovem de 15 anos.

(A.L.B.Barrinhas)

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A minha primeira biblioteca tinha a dimens�o de uma estante com vidros, no canto da sala que me parecia enorme. Nessa enorme biblioteca descobri "O crime do padre Mouret" de Emile Zola. Mais tarde, na Biblioteca Itenerante da Gulbenkian descobri Enid Blyton. Ainda mais tarde, na Biblioteca Municipal descobri "O crime do padre Amaro" de E�a de Queiroz. Um pouco mais tarde, na biblioteca da Funda��o Gulbenkian descobri "O Apocalipse do Lorv�o" de Anne de Egry. Muito mais tarde, na biblioteca pessoal de um amigo, descobri as "Obras Completas" de S. Jo�o da Cruz. Ainda muito mais tarde, na biblioteca da minha mesa de cabeceira, descobri o "Caminho" de Josemar�a Escriv�. Socorro!

(S�lvia)

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Certa vez julgando entrar numa, em casa particular, deparei-me com uma adega onde um tio de um amigo chamando-lhe �a minha biblioteca�, tratava os vinhos como livros. Acrescento que �li� naquele s�tio alguns e bons �livros�. Nunca me arrependi.

Finais da d�cada de sessenta, aluno no Col�gio Moderno � Rua de Malpique em Lisboa, passava di�riamente no passeio em frente � Biblioteca Nacional.

Um dia, ap�s ter assistido a partir do p�tio traseiro do col�gio �s manifesta��es estudantis na Faculdade de Direito, ali bem ao lado, �s consequentes fugas � frente da pol�cia de choque e at� �s persegui��es pelos baldios movidas por civis armados (mais tarde percebi o que era a PIDE), ao regressar a casa apanhei daquele passeiouns panfletos que guardei entre as folhas de uma sebenta, total e absolutamente inconsciente dos riscos.

Falavam, os panfletos, da luta dos estudantes universit�rios em particular e de todo um povo em geral contra a repress�o policial do regime e contra ele em si mesmo. Desde esse dia o meu pequeno mundo come�ou a transformar-se�

Mais tarde e fruto da mistura de uma maior consci�ncia e de algum medo, n�o sei bem em que doses, os panfletos rasgadinhos em peda�os foram queimados num caixote de lixo bem longe da rua onde morava. Ainda hoje me arrependo do medo !

(JCB)

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Nos idos (muitos) anos de sessenta, frequentava eu o ent�o designado Liceu Nacional de Gil Vicente, � Gra�a, em Lisboa. Para alguns trabalhos da disciplina de L�ngua e Hist�ria P�tria, creio que era assim que se designava, havia necessidade de consultar documenta��o n�o dispon�vel na pequena biblioteca do liceu. Um dia calhou-me em sorte, um trabalho sobre a 1� Travessia A�rea do Atl�ntico, efectuada pela dupla Gago Coutinho/Sacadura Cabral.

Atrav�s de m�o amiga descobri a biblioteca da veneranda Sociedade de Geografia. Nas suas sumptuosas e pesadas salas da biblioteca, passei a pente fino o di�rio que Gago Coutinho tinha elaborado sobre a travessia, encolhido na minha cadeira, sentindo ao redor o peso da responsabilidade que muitos senhores, que tamb�m liam outras comunica��es, transmitiam pela sala. O sil�ncio era um valor por demais importante e, quando se ouvia um arrastar de cadeira, provocado por um acaso, o respons�vel por tal acto, quase pedia desculpa por existir.

Eram (e ser�o, certamente ainda) p�ginas frementes de vida, de d�vidas e ang�stias, mas �cozidas� com o fio condutor da esperan�a e do crer. Manuscritas e preciosas de informa��o, l� me permitiram, dentro das minhas limita��es, produzir um trabalho razoavelmente bom.

Presente ao �se t�r� do Gil, foi, por ele, bem avaliado. Apenas prejudicado na nota, pelo facto do t�tulo ser � � A Primeira Atravessia A�rea do Atl�ntico�.

Existia rigor na aprecia��o de como se escrevia a l�ngua portuguesa.

Hoje, quando se recordam bibliotecas, sinto respeito por tal s�tio, admira��o pelo seu enorme esp�lio e, esperan�a de que, quando necess�rio, qualquer estudioso o possa consultar, sem ter medo de arrastar uma cadeira, quando for preciso.

(Rui Carlos Correia da Silva)

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Sou profissional de informa��o, trabalho numa biblioteca universit�ria e tenho a vis�o de dentro da Biblioteca. Desde os tempos da �cunha� j� muito mudou em rela��o aos funcion�rios das bibliotecas. Hoje desde cursos profissionais, passando pelas novas licenciaturas, as decadentes p�s-gradua��es, terminando nos mestrados, a forma��o dos profissionais da informa��o que trabalham em bibliotecas � cada vez mais especializada.

Desde sempre tive o fasc�nio da leitura e dos livros, tamb�m eu tive a sorte de em casa ter a oportunidade de sempre ter convivido com livros que preenchiam praticamente todos os compartimentos da casa. N�o me posso esquecer, no entanto, a sensa��o de entrar e posteriormente tratar uma �verdadeira� biblioteca privada, daquelas com dois andares, estantes altas em madeira e livros fascinantes que passaram por muitas gera��es at� repousarem naquele espa�o. Desde 1492 at� 1920 todos eles passaram pela minha m�o, confesso que muitos foram os que li ou passei os olhos. A emo��o de ver uma das maiores colec��es do livro A Imita��o de Cristo, onde constam livros comprados � Biblioteca Victor Emanuel, a Biblioteca Nacional de Italiana. Pensar que toquei, li livros que presenciaram � descoberta do Brasil, �s invas�es francesas, �s revolu��es liberais, � queda da monarquia� No meio um conjunto de livros pertencentes a um servidor do Estado, destaco um O Manual do Deputado.

(Nuno Gon�alves de Matos)

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Dos meus oito aos doze anos vivi em Cabo Verde. N�o havia televis�o, nem consolas, nem cinemas, nem recintos desportivos, nem nada... "Devorei" nesses quatro anos um pouco de tudo o que existia na biblioteca da embaixada de Portugal, a escassos 500 metros de minha casa. Come�ei pelos Asterix, Luky Luke e algumas prosas adequadas � minha idade, at� que por fim voltei-me para literatura t�cnica sobre f�sica, quimica, matem�tica, etc...Hoje questiono-me o quanto tudo isso me mudou... at� hoje.

(Luis Vaz de Carvalho)

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Princ�pios de 1950 - Santo Andr�, aldeia perdida na Beira Baixa, teria os meus 8 anos. Na escola havia uma sala pequena e escura, que nunca era aberta. Por raz�es anormais durante as f�rias do ver�o tive acesso a essa sala. Nela havia um arm�rio completamente cheia de livros cobertos de p� e de teias de aranha.
Que gozo! Foi a "Filha do Polaco", todo o J�lio Dinis, o E�a, o Camilo e sei l� mais o qu�! A "Ponte sobre o Drina" nunca consegui acabar de ler! Quando me reformar vou tentar de novo... Julgo que foi aqui que ganhei o meu primeiro par de �culos!

(Catarino de Almeida)

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A primeira biblioteca p�blica a que me lembro de ir n�o tinha altas estantes, n�o tinha escadarias, n�o tinha sala de leitura. Era cinzenta, tinha quatro rodas, tr�s degraus e uma fila ansiosa de pequenas criaturas que queriam ser as primeiras a entrar para ver primeiro os livros novos: era uma Biblioteca Itinerante da Gulbenkian.

(RM)

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No in�cio dos anos oitenta, frequentei a Biblioteca P�blica de Braga. O per�odo de f�rias escolares prolongava-se por tr�s meses e o prazer de ler era a forma de melhor rentabilizar aqueles dias. Era agrad�vel e o ambiente que ali se vivia nunca mais o voltei a encontrar. Logo � entrada, � esquerda, existia uma primeira sala de leitura onde um senhor muito simp�tico, falava de livros, resolvia d�vidas depois de consultar diversas fichas, dava a conhecer as novidades.

Depois subia-se at� ao primeiro andar e entrava-se num mundo completamente diferente ... a sala era imponente e os funcion�rios habitualmente mal encarados.

Eu gostava de ler jornais antigos, muitas vezes, constatei que acontecimentos de grande import�ncia passavam quase despercebidos como not�cia.

Os funcion�rios consideravam as minhas requisi��es um pedido sem qualquer sentido, mostravam-se sempre contrariados e diziam "tem a certeza que � este o ano ... vou perder muito tempo ...". Eu pensava, como ainda hoje penso, como era poss�vel encontrar ali pessoas que n�o incentivavam de maneira nenhuma a leitura.

(Teresa Carrilho)

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O seu blog sobre a biblioteca lembra-me a minha, em circunst�ncias id�nticas. Posteriormente (julgo eu porque tenho 47 anos) e noutro local: a Biblioteca Municipal de Santar�m.

Havia, no entanto, uma diferen�a significativa. Muito embora eu tivesse, nessa altura, uns 10 anos, o casal que tomava conta dela era af�vel e muito prest�vel.

H� uns anos, visitando a p� Santar�m, passei pela porta da biblioteca. Ia a sair o casal que naquela altura me atendia. Fiquei chocado. Tinha-me esquecido que os anos foram passando e continuava a recordar-me deles como eram naquela altura. E naquela altura, eram uns 20 anos mais velhos que eu. Raios partam.

(Henrique Martins)
 


A OUVIR

Borges lendo Borges na Bomba Inteligente.

1.3.05
 


MEM�RIAS DA BIBLIOTECA P�BLICA MUNICIPAL DO PORTO (Actualizadas)

O livro proibido que estava nos �reservados� e que era mais popular na leitura era a Vida Sexual de Egas Moniz.

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Havia dois ou tr�s permanentes na sala da Hemeroteca, no r�s-do-ch�o, que tinham uma pilha de livros e revistas guardada religiosamente na sua mesa. No seu caso, os livros n�o eram �devolvidos�. Faziam quase parte da mob�lia e sentavam-se horas a fio a tomar notas em papelinhos, vestindo antes umas mangas-de-alpaca para n�o sujar o casaco ou a camisa. Um destes permanentes foi o meu professor de filosofia no Liceu Alexandre Herculano, Cruz Malpique. O dr. Malpique fazia livros em s�rie, numa produ��o gigantesca, escrevendo em papel recuperado de outros usos, cortado � faca ou � tesoura, e junto em macinhos que ele enchia sem hesita��es na sua letra perfeita. Entre as folhas que ele recuperava estavam as de antigas provas doutros livros. Escrevia livros sobre livros.

*

Entre estes permanentes avultavam os autores de monografias locais, normalmente velhos reformados que se percebia n�o viverem muito bem, dedicados � sua terra e, na verdade, todos um pouco loucos na sua avidez de coleccionadores de efem�rides.

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As requisi��es da Biblioteca foram as minhas primeiras fichas. Como as fichas verdadeiras eram caras e dif�ceis de encontrar (lembro-me de atravessar a cidade para ir comprar para a biblioteca do meu pai uns verbetes que s� havia na Tipografia Maranus na Pra�a da Rep�blica, que era da fam�lia de Teixeira de Pascoaes, entretanto desaparecida), eu tirava molhos destas �fichas� para fazer anota��es, tendo o cuidado de escond�-las dos funcion�rios. Ainda hoje tenho centenas que escaparam do assalto da PIDE a minha casa. Nunca as deitei fora, como esta de 23 de Junho, depois reciclada para 24 de Junho de 1965, porque toda a gente era muito poupada e n�o havia esbanjamentos.

*

Sem me aperceber, noto agora que v�rias destas notas retratam um mundo de maior escassez, onde se era naturalmente mais poupado.

*

Um dia descobri que havia um jornal chamado O Comunista, �rg�o do PCP, na hemeroteca com grande surpresa minha. Hoje pode parecer normal, tanto mais que se tratava de um jornal publicado nos anos vinte, quando o partido era legal. Mas no mundo rigorosamente vigiado, censurado e policiado do Portugal de Salazar era uma descoberta excepcional e surpreendente. A biblioteca tinha sido sujeita a v�rias purgas e embora pense que nunca nenhum livro ou jornal fora destru�do, a verdade � que n�o constavam dos cat�logos e n�o podiam ser consultados.

Precisava de consultar o jornal v�rias vezes, o que envolvia perigos para mim e para o jornal. A biblioteca tinha funcion�rios suspeitos de serem informadores (n�o sei se era verdade ou mentira, mas a suspeita tinha sentido tendo em conta como eram escolhidos) e o jornal podia ser retirado da leitura. A minha sorte � que o jornal fazia parte de uma �miscel�nea�, um grupo de jornais com poucos exemplares que tinham sido encadernados em conjunto. Passei por isso a requisita-lo usando o t�tulo de um pacifico jornal regional que tamb�m l� estava. Apesar da PIDE se ter mais tarde interessado pelo jornal, quando o citei no meu primeiro livro sobre a greve geral de 1918, apreendido pela pol�cia e que me motivou um processo, nunca o descobriu na biblioteca e assim chegou ao 25 de Abril.

(Continua)
 


BIBLIOFILIA: O CAIXEIRO FELIZ

Voltamos ao nosso tema bibli�filo: o tempo encerrado nos livros velhos. O tempo n�o no conte�do, mas em tudo, no �ar� do livro. Este � um bom exemplo e custou-me 50 c�ntimos num alfarrabista do Porto. Foi escrito por Diogo de Sequeira e Costa e tem dois t�tulos, um na capa - Um Caixeiro Feliz � Romance Hist�rico da Vida d�um Rapaz Pobre (Como Thiago Chegou a Ser Rico) � e outro no rosto Como se Chega a Ser Rico � Romance popular, Instrutivo e Recreativo. Fazia parte da Biblioteca Interessante � N�meros Soltos e foi editado por Jo�o dos Santos Ferreira, em 1916. Era dedicado "aos propriet�rios do com�rcio e seus empregados em geral� e fazia parte de um literatura produzida e dirigida a uma classe profissional de elite, aqui os empregados do com�rcio. H� tamb�m literatura semelhante oriunda de tip�grafos, ferrovi�rios e barbeiros, grupos profissionais que tinham um n�mero razo�vel de alfabetizados e com tradi��o de literatura amadora. Na contracapa, dizia-se que o livro tinha fins beneficentes e ,quem o comprava, ajudava um tip�grafo doente e uma sua filha paral�tica. Retratos do mundo antes da seguran�a social.

A hist�ria, passada em Paris, � o menos importante neste �ar� do tempo. � uma t�pica vers�o do sempre atractivo tema da ascens�o social a partir da pobreza, dos �lances triviais da pobreza e desvalimento�, pelo trabalho e pela �perseveran�a�. Trazia esperan�a, sonho e pedagogia moral. Valia os 200 reis que custava.
 


O SINO PESADO

(Toca o sino.)

- O sino est� pesado.

- O que � que isso quer dizer?

- Vai morrer gente. N�o v� como ele toca?

- Vamos ver.

*
Vivo na cidade, mas aldeia e sino s�o indissoci�veis. Eu lembro-me do sino ao fim da tarde (as Ave-marias), em que todos, depois de uma breve ora��o pensavam em deixar o trabalho da terra e regressar a casa e aos animais de casa. H� muito que deixei do o ouvir. Hoje ou�o o �electr�nico� a dar as horas e meias horas com alguns acordes de m�sica gravada (o �Ave Maria� de F�tima) ganhando em efici�ncia e mau gosto e perdendo em poesia e m�stica. Conhe�o e ainda ou�o os tr�s toques que, ao Domingo, em diferentes momentos avisam os fi�is do come�o da Missa. � sempre com prazer que acordo cedo no Domingo de P�scoa com os sinos vibrando excita��o, ou n�o fosse esse um dos dias de mais atarefados da igreja a que pertencem, h� tarde, como que num �ltimo folgo de quem passou o dia a percorrer caminhos para levar a cruz a beijar a todas as casas, tocam alto as Aleluias. Sei que tamb�m toca na V�spera de Natal, a chamar para a Missa do Galo. Tamb�m continuo a ouvir, e sei distinguir os toques dos casamentos, dos baptizados e dos funerais, sendo este �ltimo o mais belo e mais pungente, ou n�o fosse ele feito para nos lembrar da precaridade da vida e da nossa mortalidade.
(J.)
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONTA, PESO E MEDIDA.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: DO USO DOS PLEBE�SMOS



- Toma l� esta fotografia de uma gal�xia a dar uma chapadona a outra...

- O qu�?

- Uma chapadona.

- Deverias dizer: repara na entrega plena e total dos evanescentes corpos celestes, numa luz alta que corta a pesada escurid�o envolvente como uma faca imaterial escorrendo lucidez. Mas n�o. Optaste por um blade of grass.

(Sobre galaxiomaquia ver aqui.)
 


UM OLHAR VINDO DA SALA DE LEITURA DA BILIOTECA P�BLICA MUNICIPAL DO PORTO NOS ANOS SESSENTA

Este desenho que encontrei num di�rio por volta de 1964 ou 1965 foi feito pelo meu amigo P. C. L., de que nada sei desde essa altura. O que ele representa est� gravado em mim por manh�s, tardes e, �s vezes, noites seguidas na Biblioteca P�blica Municipal do Porto. Foi desenhado a partir de uma das mesas de leitores em direc��o � porta de entrada e �congela� um olhar que j� n�o se pode reproduzir porque a Biblioteca mudou muito e a sua sala principal de leitura tamb�m.

Na �poca, a sala era o exemplo da ordem perfeita das coisas que a Ordem de cima regulava. Tudo estava no s�tio: entrava-se por aquela porta envidra�ada e entregavam-se as requisi��es ao funcion�rio que estava � direita de quem entra. Havia um outro local sim�trico � esquerda mas nunca era utilizado. Ser funcion�rio da biblioteca era um lugar de �cunha� pelo que o servi�o era, regra geral, a n�o ser para as pessoas "importantes" e os poderosos amigos do director, agressivo e p�ssimo. Os outros leitores eram vistos como uma perturba��o dispens�vel. Nunca havia a certeza dos livros aparecerem e havia funcion�rios que se �esqueciam� dos pedidos quando as estantes eram muito longe ou muito altas. �s vezes n�o estava ningu�m ao balc�o e era preciso esperar muito tempo.

A sala tinha mesas largas e cadeiras razoavelmente confort�veis, e estendia-se desde a porta encimada pelo retrato do rei, at� a uma �rea reservada separada por um grosso cord�o vermelho e que tinha no meio um livro de m�sica antigo, um cantoch�o, num suporte �nico. L� para tr�s n�o se podia passar. Era sempre fresca no Ver�o, com o claustro � direita, onde se ouviam as pombas e �gua da fonte, e onde ocasionalmente as janelas eram abertas. � esquerda n�o se podiam abrir as janelas por causa do barulho dos el�ctricos que iam e vinham de S. L�zaro. No Inverno, �s vezes, fazia frio. As paredes altas e com uma mezanina em cima, estavam todas forradas de livros antigos, parte dos livros que Alexandre Herculano trouxera dos mosteiros em colunas de carros de bois por esse pa�s fora.

Esta foi a minha segunda casa.
 


EARLY MORNING BLOGS 441

A blade of grass


You ask for a poem.
I offer you a blade of grass.
You say it is not good enough.
You ask for a poem.

I say this blade of grass will do.
It has dressed itself in frost,
It is more immediate
Than any image of my making.

You say it is not a poem,
It is a blade of grass and grass
Is not quite good enough.
I offer you a blade of grass.

You are indignant.
You say it is too easy to offer grass.
It is absurd.
Anyone can offer a blade of grass.

You ask for a poem.
And so I write you a tragedy about
How a blade of grass
Becomes more and more difficult to offer,

And about how as you grow older
A blade of grass
Becomes more difficult to accept.


(Brian Patten)

*

Bom dia!

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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