ABRUPTO

31.10.04
 


APRENDENDO COM JOHN MUIR SOBRE O VENTO NAS FOLHAS


(John Muir citado no poema da Spoon River Anthology)

"A few minutes ago every tree was excited, bowing to the roaring storm, waving, swirling, tossing their branches in glorious enthusiasm like worship. But though to the outer ear these trees are now silent, their songs never cease. Every hidden cell is throbbing with music and life, every fiber thrilling like harp strings, while incense is ever flowing from the balsam bells and leaves. No wonder the hills and groves were God's first temples, and the more they are cut down and hewn into cathedrals and churches, the farther off and dimmer seems the Lord himself."

(Em breve mais sobre Muir.)
 


COLOCAR FACES NOS POEMAS


Este � Galba, do poema matinal de Cavafy, o dos setenta e tr�s anos, de que o or�culo falava. Nero entendeu mal a frase d�lfica e pensou apenas na sua velhice long�nqua. N�o. Havia outro, j� velho, que o veio a ajudar a suicidar-se. Era um velho duro e imprudente, mas chegou a imperador. Prometeu o que n�o podia dar e acabou esquartejado pelas tropas. Um soldado da 15� Legi�o acabou com ele com um golpe final no pesco�o. Um tal Fabius Fabulus cortou-lhe a cabe�a, mas teve que a colocar no seu saiote porque Galba era calvo e n�o havia cabelo para a segurar com as m�os. Pequeno detalhe de um tempo em que transportar uma cabe�a ainda era habitual.
 


COISAS SIMPLES


Albert Anker
 


EARLY MORNING BLOGS 349

indecisos. Entre este poema da Spoon River Anthology

IMMANUEL EHRENHARDT

I began with Sir William Hamilton's lectures.
Then studied Dugald Stewart;
And then John Locke on the Understanding,
And then Descartes, Fichte and Schelling,
Kant and then Schopenhauer --
Books I borrowed from old Judge Somers.
All read with rapturous industry
Hoping it was reserved to me
To grasp the tail of the ultimate secret,
And drag it out of its hole.
My soul flew up ten thousand miles
And only the moon looked a little bigger.
Then I fell back, how glad of the earth!
All through the soul of William Jones
Who showed me a letter of John Muir.


(Edgar Lee Masters)

e este de Cavafy

O PRAZO DE NERO

N�o se inquietou Nero quando ouviu
a profecia do Or�culo de Delfos.
"Teme os setenta e tr�s anos."
Tinha tempo ainda para gozar.
Tem trinta anos. Mais do que suficiente
� o prazo que o deus lhe d�
para cuidar dos perigos futuros.

Agora voltar� a Roma um pouco cansado,
mas maravilhosamente cansado desta viagem,
que era toda dias de gozo �
nos teatros, nos jardins, nas palestras...
Tardes das cidades da Acaia...
Ah sobretudo o prazer dos corpos nus...

Isto Nero. E na Espanha Galba
furtivamente articula e exercita suas tropas,
o velho de setenta e tr�s anos.


traduzido por R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, e A. T. Nicolac�pulos.

Uma boa solu��o para o indeciso � ficarem os dois e, durante o dia, aproveitando a hora roubada ao Tempo, deles falarei.

*

Bom dia, com a hora roubada!
 


INTEND�NCIA

Actualizada a nota PATETICES EM QUE SE GASTA O NOSSO DINHEIRO: DI�RIO DA REP�BLICA VERDE

30.10.04
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: AUTO-RETRATO


Este � o meu auto-retrato, diz a "Esp�rito". Cinquenta mil vezes, eu e a minha irm� "Oportunidade", nos fotografamos em Marte, sempre com a nossa face vis�vel para se perceber a cor. A um canto, de passagem, como Hitchcock nos filmes. Mas hoje chega de mod�stia, aqui est� o rouge, o blush, o rimmel, as nossas cores pelas quais medimos a cor do resto do mundo. Narcisistas? Vaidosas, talvez. N�o � s� Rembrandt que tem direito a auto-retratos.

(A foto representa o c�rculo de calibragem das imagens, o objecto mais fotografado em Marte.)
 


APRENDENDO COM JORGE LUIS BORGES

O princ�pio


Dois gregos est�o a conversar: talvez S�crates e Parm�nides.
Conv�m que nunca saibamos os seus nomes; a hist�ria, assim, ser� mais misteriosa e mais tranquila.
O tema do di�logo � abstracto. Aludem por vezes a mitos, de que ambos descr�em.
As raz�es que alegam podem abundar em fal�cias e n�o chegam a um fim.
N�o polemizam. E n�o querem persuadir nem ser persuadidos, n�o pensam em ganhar ou em perder.
Est�o de acordo apenas numa coisa; sabem que a discuss�o � o n�o imposs�vel caminho para chegar a uma verdade.
Livres do mito e da met�fora, pensam ou tentam pensar.
Nunca saberemos os seus nomes.
Esta conversa entre dois desconhecidos num lugar da Gr�cia � o facto capital da Hist�ria.
Esqueceram a ora��o e a magia.


(Jorge Lu�s Borges - "O princ�pio". Atlas in Obras completas: 1975-1985. Lisboa, C�rculo de Leitores, 1998, p. 437.Tradu��o de Fernando Pinto do Amaral, cortesia de Ant�nio Cardoso da Concei��o)
 


POEIRA DE 30 DE OUTUBRO



Hoje, h� cento e cinquenta anos, Eug�ne Delacroix estava a pintar a "Ca�a do le�o" e vivia dominado pela viol�ncia das cores. Jantou com Madame de Caen. A senhora estava resplandecente, no seu vestido de noite, mostrando os ombros e os bra�os. Eug�ne anotou no seu di�rio que teve que �segurar, com m�o firme, o cora��o�. No dia seguinte, Madame trazia as suas roupas normais e o pintor sentiu-se de novo �razo�vel�, moderado, quase austero. N�o deve ter pintado nesse dia.
 


AR PURO


N. Astrup
 


VER O DIA 2

De novo um arco-�ris, outro, um pouco mais atr�s, dilui-se nas nuvens. Quando comecei esta frase, existia. Quando a acabei, desapareceu.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O GATO DA SI-SI



A menina estava a brincar na sala enquanto o pai via umas imagens estranhas. Si-Si olhou para o ecr� e disse: est� aqui um gato. A mancha de negro."Aqui", na primeira imagem de radar da superf�cie do mais fascinante sat�lite de Saturno, Tit�. Ficou conhecida como o "gato da Si-Si". Talvez a primeira vez que se encontra uma superf�cie l�quida fora da terra. Talvez. Talvez o gato da Si-Si se mova.
 


VER O DIA

Durante cinco ou seis minutos, � minha frente, um arco-�ris.
 


EARLY MORNING BLOGS 348

Helen of Troy Does Countertop Dancing


The world is full of women
who'd tell me I should be ashamed of myself
if they had the chance. Quit dancing.
Get some self-respect
and a day job.
Right. And minimum wage,
and varicose veins, just standing
in one place for eight hours
behind a glass counter
bundled up to the neck, instead of
naked as a meat sandwich.
Selling gloves, or something.
Instead of what I do sell.
You have to have talent
to peddle a thing so nebulous
and without material form.
Exploited, they'd say. Yes, any way
you cut it, but I've a choice
of how, and I'll take the money.

I do give value.
Like preachers, I sell vision,
like perfume ads, desire
or its facsimile. Like jokes
or war, it's all in the timing.
I sell men back their worse suspicions:
that everything's for sale,
and piecemeal. They gaze at me and see
a chain-saw murder just before it happens,
when thigh, ass, inkblot, crevice, tit, and nipple
are still connected.
Such hatred leaps in them,
my beery worshippers! That, or a bleary
hopeless love. Seeing the rows of heads
and upturned eyes, imploring
but ready to snap at my ankles,
I understand floods and earthquakes, and the urge
to step on ants. I keep the beat,
and dance for them because
they can't. The music smells like foxes,
crisp as heated metal
searing the nostrils
or humid as August, hazy and languorous
as a looted city the day after,
when all the rape's been done
already, and the killing,
and the survivors wander around
looking for garbage
to eat, and there's only a bleak exhaustion.
Speaking of which, it's the smiling
tires me out the most.
This, and the pretence
that I can't hear them.
And I can't, because I'm after all
a foreigner to them.
The speech here is all warty gutturals,
obvious as a slab of ham,
but I come from the province of the gods
where meanings are lilting and oblique.
I don't let on to everyone,
but lean close, and I'll whisper:
My mother was raped by a holy swan.
You believe that? You can take me out to dinner.
That's what we tell all the husbands.
There sure are a lot of dangerous birds around.

Not that anyone here
but you would understand.
The rest of them would like to watch me
and feel nothing. Reduce me to components
as in a clock factory or abattoir.
Crush out the mystery.
Wall me up alive
in my own body.
They'd like to see through me,
but nothing is more opaque
than absolute transparency.
Look--my feet don't hit the marble!
Like breath or a balloon, I'm rising,
I hover six inches in the air
in my blazing swan-egg of light.
You think I'm not a goddess?
Try me.
This is a torch song.
Touch me and you'll burn.


(Margaret Atwood)

*

Bom dia!

29.10.04
 


COISAS SIMPLES


Gauguin
 


EARLY MORNING BLOGS 347

If You Get There Before I Do


Air out the linens, unlatch the shutters on the eastern side,
and maybe find that deck of Bicycle cards
lost near the sofa. Or maybe walk around
and look out the back windows first.
I hear the view's magnificent: old silent pines
leading down to the lakeside, layer upon layer
of magnificent light. Should you be hungry,
I'm sorry but there's no Chinese takeout,
only a General Store. You passed it coming in,
but you probably didn't notice its one weary gas pump
along with all those Esso cans from decades ago.
If you're somewhat confused, think Vermont,
that state where people are folded into the mountains
like berries in batter. . . . What I'd like when I get there
is a few hundred years to sit around and concentrate
on one thing at a time. I'd start with radiators
and work my way up to Meister Eckhart,
or why do so few people turn their lives around, so many
take small steps into what they never do,
the first weeks, the first lessons,
until they choose something other,
beginning and beginning their lives,
so never knowing what it's like to risk
last minute failure. . . .I'd save blue for last. Klein blue,
or the blue of Crater Lake on an early June morning.
That would take decades. . . .Don't forget
to sway the fence gate back and forth a few times
just for its creaky sound. When you swing in the tire swing
make sure your socks are off. You've forgotten, I expect,
the feeling of feet brushing the tops of sunflowers:
In Vermont, I once met a ski bum on a summer break
who had followed the snows for seven years and planned
on at least seven more. We're here for the enjoyment of it, he said,
to salaam into joy. . . .I expect you'll find
Bibles scattered everywhere, or Talmuds, or Qur'ans,
as well as little snippets of gospel music, chants,
old Advent calendars with their paper doors still open.
You might pay them some heed. Don't be alarmed
when what's familiar starts fading, as gradually
you lose your bearings,
your body seems to turn opaque and then transparent,
until finally it's invisible--what old age rehearses us for
and vacations in the limbo of the Middle West.
Take it easy, take it slow. When you think I'm on my way,
the long middle passage done,
fill the pantry with cereal, curry, and blue and white boxes of macaroni, place the
checkerboard set, or chess if you insist,
out on the flat-topped stump beneath the porch's shadow,
pour some lemonade into the tallest glass you can find in the cupboard,
then drum your fingers, practice lifting your eyebrows,
until you tell them all--the skeptics, the bigots, blind neighbors,
those damn-with-faint-praise critics on their hobbyhorses--
that I'm allowed,
and if there's a place for me that love has kept protected,
I'll be coming, I'll be coming too.


(Dick Allen)

*

Bom dia!

28.10.04
 


O ABRUPET�





















Um rapazinho, com tudo para crescer, olha para o computador e l�: �abrupet��.
 


APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: O �

"A figura mais perfeita e mais capaz de quantas inventou a natureza e conhece a geometria � o c�rculo. Circular � o globo da terra, circulares as esferas celestes, circular toda esta m�quina do universo, que por isso se chama orbe, e at� o mesmo Deus, se sendo esp�rito pudera ter figura, n�o havia de ter outra, sen�o a circular. O certo � que as obras sempre se parecem com seu autor; e fechando Deus todas as suas dentro em um c�rculo, n�o seria esta id�ia natural, se n�o fora parecida � sua natureza. � Daqui � que o mais alumiado de todos os te�logos, S. Dion�sio Areopagita, n�o podendo definir exatamente a suma perfei��o de Deus, a declarou com a figura do c�rculo: Velut circulus quidam sempiternus propter bonum, ex bono, in bono et ad bonum certa, et nusquam oberrante glomeratione circummiens. Estes s�o os dois maiores c�rculos que at� o dia da Encarna��o do Verbo se conheceram; mas hoje nos descreve o Evangelho outro c�rculo, em seu modo maior. O primeiro c�rculo, que � o mundo, cont�m dentro em si todas as coisas criadas; o segundo, incriado e infinito, que � Deus, cont�m dentro em si o mundo; e este terceiro, que hoje nos revela a f�, cont�m dentro em si ao mesmo Deus. Ecce concipies in utero, et paries Filium: hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur (2). Nove meses teve dentro em si este c�rculo a Deus, e quem poder� imaginar que, estando cheio de todo Deus, ainda ali achasse o desejo, capacidade e lugar para formar outro c�rculo? Assim foi, e este novo c�rculo, formado pelo desejo, debaixo da figura e nome de O, � o que hoje particularmente celebramos na expecta��o do parto j� concebido: Ecce concipies et paries. De um e outro c�rculo travados entre si, se compor� o nosso discurso, concordando � que � a maior dificuldade deste dia � o Evangelho com o t�tulo da festa, e o t�tulo com o Evangelho. O mist�rio do Evangelho � a concei��o do Verbo no ventre virginal de Maria Sant�ssima; o t�tulo da festa � a expecta��o do parto e desejos da mesma Senhora, debaixo do nome do O. E porque o O � um c�rculo, e o ventre virginal outro circulo, o que pretendo mostrar em um e outro � que, assim como o c�rculo do ventre virginal na concei��o do Verbo foi um O que compreendeu o imenso, assim o O dos desejos da Senhora na expecta��o do parto foi outro circulo que compreendeu o eterno. Tudo nos dir�o, com a gra�a do c�u, as palavras que tomei por tema. Ave Maria. "
 


A PORTA


van Dongen

(Em breve)
 


O POL�TICO E AS LEIS DA F�SICA

O governo diz que este "caso Marcelo" n�o � pol�tico. A maioria na Assembleia diz que o caso n�o � pol�tico. Os ecos das vozes anteriores dizem que o caso n�o � pol�tico. Est� bem. E os passarinhos voam com as patas para o ar.
 


PATETICES EM QUE SE GASTA O NOSSO DINHEIRO: DI�RIO DA REP�BLICA VERDE

�Nos termos do Despacho Normativo n� 43/2004 de 27 de Outubro, este Di�rio da Rep�blica, de cor diferente do habitual, integra-se nas comemora��es do Dia Nacional da Desburocratiza��o.�
�Despacho Normativo n.� 43/2004
Considerando que a Resolu��o do Conselho de Ministros n.� 30/90, de 16 de Agosto, institui o Dia Nacional da Desburocratiza��o, o qual se assinala na �ltima quinta-feira do m�s de Outubro de cada ano;
Considerando que a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., pretende associar-se �quele evento, imprimindo o Di�rio da Rep�blica desse dia em cor diferente da habitual:
Ao abrigo do n.� 2 do artigo 12.� do Decreto-Lei n.� 170/99, de 19 de Maio, e do despacho n.� 20387/2004, publicado o Di�rio da Rep�blica, 2.� s�rie, n.� 233, de 2 de Outubro de 2004:
Determina-se o seguinte:
A Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., � autorizada a publicar o Di�rio da Rep�blica de 28 de Outubro em papel especial de cor verde.
Presid�ncia do Conselho de Ministros, 14 de Outubro de 2004. - O Secret�rio de Estado da Presid�ncia do Conselho de Ministros, Domingos Manuel Martins Jer�nimo.�


N�o h� mais nada para fazer no governo? Quanto custa mudar a cor do jornal? O que � que o verde, uma cor de m� fama fora da natureza, tem a ver com a desburocratiza��o?


*

"� o "verde-esperan�a-que-um-dia-ganhem-ju�zo". Pessoalmente, acho que teria sido mais adequado o encarnado do "Red Tape"..."

(Rui Rocheta)

*

"O conte�do do Di�rio da Rep�blica Verde, afinal, � muito mais interessante do que parece � primeira vista. Recomendo-lhe vivamente uma leitura muito atenta do despacho do Sr. Director-Geral dos Impostos, no fim da pag. 15796, onde se autoriza a passagem � situa��o de licen�a sem vencimento de longa dura��o � Assessora jurista do quadro da Direc��o-Geral dos Impostos Maria Celeste Ferreira Lopes Cardona.
Afinal, a Ilustre Advogada, fiscalista em�rita, � tamb�m funcion�ria p�blica, e do quadro de pessoal da D.G.I. N�o acha curioso?
� certo que, de um ponto de vista estritamente legal, n�o � imposs�vel exercer simultaneamente ambas as actividades - bastar� estar-se autorizado pelo servi�o para acumular fun��es e demonstrar-se, perante a Ordem dos Advogados, que as fun��es p�blicas exercidas s�o de mera consultadoria jur�dica. Mas at� isso creio que achar� interessante, mais a mais porque me lembro de o ter ouvido reflectir, e bem, sobre mat�ria de incompatibilidades no que concerne aos deputados que advogam."


(Pedro Veiga Santos)

*

"E j� agora, se � o dia Nacional da Desburocratiza��o, para que � necess�rio tanta autoriza��o para imprimir o Di�rio da Rep�blica de outra cor?"

(Ant�nio Albertino)

 


COISAS SIMPLES


Roy Lichtenstein
 


EARLY MORNING BLOGS 346

Moon Song


A child saw in the morning skies
The dissipated-looking moon,
And opened wide her big blue eyes,
And cried: "Look, look, my lost balloon!"
And clapped her rosy hands with glee:
"Quick, mother! Bring it back to me."

A poet in a lilied pond
Espied the moon's reflected charms,
And ravished by that beauty blonde,
Leapt out to clasp her in his arms.
And as he'd never learnt to swim,
Poor fool! that was the end of him.

A rustic glimpsed amid the trees
The bluff moon caught as in a snare.
"They say it do be made of cheese,"
Said Giles, "and that a chap bides there. . . .
That Blue Boar ale be strong, I vow --
The lad's a-winkin' at me now."

Two lovers watched the new moon hold
The old moon in her bright embrace.
Said she: "There's mother, pale and old,
And drawing near her resting place."
Said he: "Be mine, and with me wed,"
Moon-high she stared . . . she shook her head.

A soldier saw with dying eyes
The bleared moon like a ball of blood,
And thought of how in other skies,
So pearly bright on leaf and bud
Like peace its soft white beams had lain;
Like Peace! . . . He closed his eyes again.

Child, lover, poet, soldier, clown,
Ah yes, old Moon, what things you've seen!
I marvel now, as you look down,
How can your face be so serene?
And tranquil still you'll make your round,
Old Moon, when we are underground.


(Robert Service)

*

Bom dia!
 


VER A NOITE

Com Lua. Sem Lua. Com Lua.

27.10.04
 


OBSERVA��ES SOLTAS SOBRE O CASO DO DIA

O clima em que hoje vive a liberdade da pluralidade (apenas uma forma de liberdade, mas uma das que mais � instrumental para o funcionamento da democracia), nos grandes meios de comunica��o social, � mau. N�o pode deixar de haver mal-estar na RTP, na RDP, no Di�rio de Not�cias, na TSF, no Jornal de Not�cias, no 24 Horas, na TVI. � demasiado importante para o ignorarmos.

N�o � um problema de superf�cie, � de fundo e n�o vai desaparecer t�o cedo. O governo, que est� na origem do que se passa, pode ter a tenta��o de cortar a direito e avan�ar, esperando um Grande Esquecimento, em que a comunica��o social, na procura obsessiva da novidade, � mestra e, neste caso, v�tima.

Marcelo disse o fundamental e o que disse � cred�vel, tornando em mentira pouco habilidosa as declara��es do Presidente da Media Capital.Ter� que ter consequ�ncias. N�o sei se as ter�.

Marcelo � v�tima de si pr�prio. Falando de uma mat�ria que vai ser mais importante para o seu futuro do que ele pr�prio pensa, n�o escapa aos seus dem�nios e assume um tom que rapidamente descai no histri�nico. Dizendo coisas importantes, trai-se a si pr�prio. H� alturas em que se tem que ser severo e resistir a fazer mais um coment�rio semanal, para se ser tomado a s�rio. A vida n�o � s� televis�o.

N�o sei que diga da Alta Autoridade. Em vez de perguntar sobre factos, pede opini�es, o que de todo n�o nos interessa neste caso. Permite aos seus inquiridos dominar o palco de um inqu�rito e mostra uma completa falta de direc��o e uma total inadequa��o para a fun��o. Ser� que ningu�m lhes lembra que � um inqu�rito que est� em curso e com importantes consequ�ncias pol�ticas e n�o um ensaio faceto.

Um grande perdedor de tudo isto � o Parlamento, ou seja, a democracia parlamentar. A atitude da maioria em n�o permitir as audi��es de Marcelo e de outros intervenientes, permitindo a do Presidente da Media Capital, n�o � admiss�vel.
 


ECLIPSES



Entre os v�rios eclipses de hoje, eclipse da verdade, eclipse da consequ�ncia, este � o �nico sadio, brilhante, total. L� estarei, na sombra.
 


AR PURO / APRENDENDO COM O NEVOEIRO


Turner
 


ARGUMENT�RIO DO N�O

(Argument�rio do �n�o� � Constitui��o Europeia, a partir de hoje no Abrupto. Notas soltas, discuss�es, debates, chamadas de aten��o, anedot�rio (n�o vai faltar com dois not�rios anti-europe�stas prim�rios � frente da campanha pelo �sim�), incidentes e acidentes, etc.)

*

A falta de pluralismo no debate portugu�s sobre a Europa vai inquinar toda a discuss�o para o referendo. O falso consenso PSD-PP-PS tende a empurrar para as margens da pol�tica os defensores do �n�o�. Por outro lado, a maioria dos jornalistas, que cobrem a quest�o europeia. s�o eles pr�prios militantes europe�stas radicais. O resultado � que de h� muito se perdeu qualquer pluralismo efectivo, em que os debates se fazem dentro dos partid�rios do �sim�, e das suas diferentes sensibilidades. Recordam-se de, a n�o ser por absoluta excep��o, e fora do PCP, terem ouvido nos grandes �rg�os de comunica��o social criticar a Constitui��o europeia?

*

� mau sinal que n�o v� haver uma revis�o constitucional para permitir que a pergunta do referendo seja simples e clara. As declara��es do Ministro dos Assuntos Parlamentares mostram a pressa com que tudo ir� ser feito,

"Se for poss�vel construir uma pergunta para o referendo sem recurso a uma revis�o extraordin�ria da constitui��o, caminharemos nesse sentido. � uma quest�o secund�ria, porque o importante � que o referendo se fa�a"(�)"os calend�rios s�o apertados".

e revelando o interesse partid�rio que est� por tr�s:

"Admitimos que seja apresentada uma solu��o que sirva os interesses da maioria PSD/CDS-PP e do PS�.

A pergunta est� longe de ser �uma quest�o secund�ria�. � assim que se solidifica o d�fice democr�tico da UE.

*

� tamb�m evidente que o facto de cada passo no processo europeu exigir revis�es constitucionais, � pouco sadio e mostra como os governos aceitam negociar processos e aceitar solu��es que s�o contr�rias � nossa Constitui��o.

*

O refor�o dos poderes do Parlamento Europeu � um p�ssimo caminho para a Europa e para Portugal na Europa. O que se est� a passar com a aprova��o da Comiss�o � um sinal das coisas que est�o para vir, com um Parlamento que � o epicentro do reino do �politicamente correcto� na Europa, pairando num limbo entre a �loony left� e a n�o menos �loony right�, e o regresso � s�lida terra dos interesses nacionais das grandes na��es quando � preciso.

 


ESTA NOITE � PARA (N�O) VER A LUA

Organizemo-nos.
 


EARLY MORNING BLOGS 345

Manuel Komninos


One dreary September day
Emperor Manuel Komninos
felt his death was near.
The court astrologers -bribed, of course- went on babbling
about how many years he still had to live.
But while they were having their say,
he remebered an old religious custom
and ordered ecclesiastical vestments
to be brought from a monastery,
and he put them on, glad to assume
the modest image of a priest or monk.

Happy all those who believe,
and like Emperor Manuel end their lives
dressed modestly in their faith.


(C.P. Cavafy, traduzido por E. Keeley e P. Sherrard)

*

Bom dia!

26.10.04
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS POETAS ROM�NTICOS

"Este seu post de hoje sobre "Xanadu" e a refer�ncia a Coleridge recordaram-me como os poetas rom�nticos foram, tantas vezes, vision�rios em rela��o �s coisas da Ci�ncia. Deixo-lhe, a prop�sito, uma passagem surpreendente de Wordsworth, do c�lebre Pref�cio a Lyrical Ballads (1802):

�If the labours of Men of science should ever create any material revolution, direct or indirect, in our condition, and in the impressions which we habitually receive, the Poet will sleep then no more than at present; he will be ready to follow the steps of the Man of science, not only in those general indirect effects, but he will be at his side, carrying sensation into the midst of the objects of science itself. The remotest discoveries of the Chemist, the Botanist, or Mineralogist, will be as proper objects of the Poet's art as any upon which it can be employed, if the time should ever come when these things shall be familiar to us, and the relations under which they are contemplated by the followers of these respective sciences shall be manifestly and palpably material to us as enjoying and suffering beings.�


Mas n�o deixa de ser curioso como o mesmo Wordsworth escreveu tamb�m, um dia, os versos:

Sweet is the lore which Nature brings;
Our meddling intellect
Mis-shapes the beauteous forms of things:-
We murder to dissect.


("The Tables Turned", 1798)

(Daniela Kato)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: INVESTIGA��O EM C�LULAS ESTAMINAIS E DEMAGOGIA INTERNACIONAL

"Acabei de ler a proposta apresentada na ONU pela Costa Rica, apoiada por mais 60 pa�ses incluindo Portugal e os Estados Unidos. Fiquei surpreendido por descobrir que Portugal sem discuss�o interna apoia uma proposta que pretende impedir todo o tipo de investiga��o em c�lulas estaminais, e chocado com o ponto 5, em particular, que � de uma demagogia brutal. Escrevo-lhe pois costuma-me a aceitar que esta situa��o passe ao lado da comunica��o social e da discuss�o politica actual, embora esta situa��o possa j� ser do seu conhecimento.

"5. Strongly encourages States and other entities to direct funds that might have been used for human cloning technologies to pressing global issues in developing countries, such as famine, desertification, infant mortality and diseases, including the human immunodeficiency virus/acquired immunodeficiency syndrome (HIV/AIDS)"

"Albania, Angola, Antigua and Barbuda, Australia, Benin, Burundi, Chad, Chile, Costa Rica, C�te d�Ivoire, Democratic Republic of the Congo, Dominican Republic, El Salvador, Equatorial Guinea, Eritrea, Ethiopia, Fiji, Gambia, Grenada, Guinea, Haiti, Honduras, Italy, Kenya, Kyrgyzstan, Lesotho, Liberia, Madagascar, Malawi, Marshall Islands, Micronesia, Nauru, Nicaragua, Nigeria, Palau, Panama, Papua New Guinea, Paraguay, Philippines, *Portugal*, Rwanda, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and the Grenadines, San Marino, Sao Tome and Principe, Sierra Leone, Solomon Islands, Suriname, Tajikistan, Timor-Leste, Tuvalu, Uganda, United Republic of Tanzania, United States of America, Vanuatu and Zambia: draft resolution"


(Paulo Pereira, PhD / Developmental Biology Lab / Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC))
 


INTEND�NCIA

A Lagartixa e o Jacar� 9 no VERITAS FILIA TEMPORIS sobre a "emiss�o ministerial", os "aprendizes de feiticeiro" na comunica��o social, o golpe na Guin� e a "pior frase da semana" de autoria de Luis Delgado. Publicada na S�bado, em Outubro 2004.

Os dois primeiros artigos da s�rie Direita / Esquerda, publicados no P�blico, Outubro 2004, no VERITAS FILIA TEMPORIS.

Actualizado O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GARANTIAS.

Actualizada nota BIBLIOFILIA sobre a Renga.
 


APRENDENDO COM O NEVOEIRO


Williams Degouve de Nuncques, Nocturne au Parc royal de Bruxelles

ESPERO

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E h� em todas as coisas o agoiro
De uma fant�stica vinda.


(Sophia de Mello Breyner)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: XANADU



Olhem para esta fotografia. O "continente" Xanadu, no planeta Tit�, visto h� dois dias pela Cassini. Em Janeiro de 2005 l� iremos, se os deuses da mec�nica e da din�mica se portarem bem. Uma parte do nosso futuro est� aqui. Poder� estar no "deep romantic chasm" que Coleridge viu no seu Xanadu

In Xanadu did Kubla Khan
A stately pleasure-dome decree:
Where Alph, the sacred river, ran
Through caverns measureless to man
Down to a sunless sea.

So twice five miles of fertile ground
With walls and towers were girdled round:
And there were gardens bright with sinuous rills,
Where blossomed many an incense-bearing tree;
And here were forests ancient as the hills,
Enfolding sunny spots of greenery.
 


AR PURO


J. C. Dahl
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONTRADIT�RIO

(...) "ora, em pol�tica (em direito e sobretudo na pr�tica forense e administrativa, o contradit�rio tem ainda a ver com a procura de restabelecimento da igualdade de armas entre contendores, enfim, para permitir o confronto, ainda que por vezes s� a t�tulo formal, de posi��es e perspectivas diferentes, mas tem tamb�m subjacente a ideia de permitir alguma forma de interven��o � parte contra quem � proferida uma acusa��o, inst�ncia, decis�o, etc., ou seja, o contradit�rio � contra a parte mais
forte) o contradit�rio � tipicamente exig�vel para vigiar, fiscalizar e moderar o exerc�cio do poder - ou seja, h� contradit�rio quando se permitem meios de ac��o, argumenta��o e prova contra a posi��o "oficial" dos titulares do poder, estes por defini��o dotados de meios de execu��o e influ�ncia

escusado ser� acrescentar que o contradit�rio � condi��o m�nima, mas n�o suficiente, de democracia; e � precisamente por isso que � necess�rio que a democracia se alimente de contradit�rio, interpelando os titulares do poder e denunciando o seu exerc�cio abusivo

� para isso que servem os comentadores, os cronistas, os analistas, os editoriais - quer na perspectiva estritamente pol�tica, para demonstra��o da plausibilidade e at� justeza ou virtude de solu��es alternativas, abordagens diferentes, necessidade de contextualiza��o, etc, quer na perspectiva jur�dica, examinando a legalidade e regularidade dos actos em que se traduz os exerc�cio do poder, ou ainda na novel an�lise e avalia��o econ�mica das decis�es jur�dicas e pol�ticas, obrigando os detentores do poder a justificarem os fundamentos e a racionalidade das suas medidas e op��es, ou a arcarem com o �nus da sua aus�ncia ou despropor��o

concluindo, creio que em pol�tica h� contradit�rio se houver cr�ticos, ainda que se excedam - contra o excesso pol�tico basta ao detentor do poder demonstrar a legitimidade pol�tica dos seus actos; contra outros excessos h� meios adicionais, de direito, desde que merecedores de tutela - e n�o h� contradit�rio, ainda que haja comentadores e coment�rios, se n�o houver cr�ticas ! eis o equ�voco !!

se houver livre opini�o e cr�tica, ainda n�o estamos seguros de que haja democracia; se n�o houver livre opini�o e cr�tica, estamos seguros de que n�o h� democracia"

(antonio)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GARANTIAS

"N�o sei se estou a ficar velho e resmung�o,um daqueles chatos "...no meu tempo � que...",mas h� coisas que me arrepiam!Arrepiam-me os factos,mas mais do que isso,a indiferen�a perante aquilo que me deixa...indignado (sem palavr�es n�o arranjo melhor!).

Tudo isto vem a proposito de um anuncio na radio(n�o sei se tambem na tv), em que uma crian�a a quem uma amiga pede emprestada a bicicleta, responde que sim senhor,lhe empresta a bicicleta ,mas s� se ela lhe deixar o leitor de CD como garantia!!!!!!!!!!!

Ser� que s� a mim � que isto choca? Terei eu educado realmente os meus filhos?"


(A.Pina Cabral)

*

"A prop�sito do breve texto do leitor Pina Cabral de hoje e versando sobre o tema dos arrepios: e aquele an�ncio (r�dio e TV) em que ela diz que vai para o campo para ter sossego e se dedicar �� escrita�? S�o sms para o seu Ruisinho t�o querido!"

(J.)
 


EARLY MORNING BLOGS 344

Dreams In The Dusk


Dreams in the dusk,
Only dreams closing the day
And with the day's close going back
To the gray things, the dark things,
The far, deep things of dreamland.

Dreams, only dreams in the dusk,
Only the old remembered pictures
Of lost days when the day's loss
Wrote in tears the heart's loss.

Tears and loss and broken dreams
May find your heart at dusk.


(Carl Sandburg)

*

Bom dia!
 


BIBLIOFILIA



N�mero sobre a tradu��o da revista Stand. Entre tradu��es de Celan, Primo Levi, Goethe, Pavese, Carlos de Orleans e outras, uma muito interessante experi�ncia intitulada "The Salted Sea Bream: Japanese Collaborative Verse". O poema colectivo, escrito por e-mail, no estilo de Bash�, tem versos como

"of all the lies
I ever heard
Cassandra's
were the sweetest"

"out of the movies
with winter
at our heels"

"a radio
plays
to an empty kitchen
"

Vale a pena ler tudo.

*

"O Renga era composto por uma s�rie de Tanka (frequentemente poemas de tem�tica centrada no amor, na saudade, na lembran�a de viagens...) ou de haikai (5/7/5- poemas ligeiros e humor�sticos muito sugestivos, cuja tem�tica trata das esta��es, dos pequenos animais, das plantas, das pessoas...lembro-me agora que Roland Barthes falou destes poemas associando-os a imagens) ou de d�sticos (7/7). Horton, H.M. no Harvard Journal of Asiatic Studies, vol.53, n�2; dezembro 1993, escreveu um artigo, dando as instru��es necess�rias para os amadores de renga. Trata-se de uma actividade social e n�o apenas liter�ria que, segundo Horton, deve obedecer a 21 regras!"

(Ana da Palma)


25.10.04
 


SE ALGU�M PENSA

que esta quest�o do controlo da comunica��o social pelo actual governo est� a acabar engana-se redondamente. S� est� a come�ar. A come�ar no Parlamento, na Alta Autoridade, no grupo Lusomundo, na PT, onde todos os dias se vai sabendo mais. Uma caixa abre a outra que abre a outra, que tem outra dentro. � s� esperar.
 


CONTRADIT�RIO

O governo tem tido sucesso em aumentar a massa cr�tica de comentadores que lhe s�o favor�veis, escolhidos, promovidos ou indicados, exactamente por isso. Nos momentos decisivos de hoje, este � um objectivo estrat�gico. Pouco a pouco, e sem paralelo com qualquer outro governo no passado (o �nico compar�vel � o de Guterres), essa massa cr�tica come�a a pesar. A linha dominante nesses comentadores n�o � tanto o apoio absoluto e total (s� Delgado faz esse papel), mas o coment�rio desculpat�rio, com uma linha definida de minimiza��o de danos. �� verdade que o ministro dos Assuntos Parlamentares s� fez asneiras, mas o que � preciso � deixar o governo governar�� Mais ou menos isto. No �caso Marcelo� percebeu-se com clareza esta linha de demarca��o e o �caso Marcelo� n�o pode deixar de ser un�voco para todos os jornalistas, mesmo descontando a fama de Marcelo.

O novo programa �Contradit�rio� na Antena 1 que, como se percebe pelo nome, � de decis�o recente, junta quatro jornalistas: Lu�s Os�rio, Lu�s Delgado, Carlos Magno e Ant�nio Lu�s Marinho. Os tr�s �ltimos apoiaram as teses do governo no �caso Marcelo�, o que hoje significa quase tudo.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O ESCONDIDO

"Volto a G�rard de Nerval. Nas Filles du Feu de 1854, havia apenas seis sonetos, o pen�ltimo era Delfica, (Napoles, 1843), o primeiro, o muito conhecido: EL desdichado,
o segundo:

Myrtho

Je pense � toi, Myrtho, divine enchanteresse,
Au Pausilippe altier, de mille feux brillant,
A ton front inond� des clart�s d'Orient,
Aux raisins noirs m�l�s avec l'or de ta tresse.

C'est dans ta coupe aussi que j'avais bu l'ivresse,
Et dans l'�clair furtif de ton oeil souriant,
Quand aux pieds d'Iacchus on me voyait priant,
Car la Muse m'a fait l'un des fils de la Gr�ce.

Je sais pourquoi l�-bas le volcan s'est rouvert...
C'est qu'hier tu l'avais touch� d'un pied agile,
Et de cendres soudain l'horizon s'est couvert.

Depuis qu'un duc normand brisa tes dieux d'argile,
Toujours, sous les rameaux du laurier de Virgile,
Le p�le Hortensia s'unit au Myrte vert!


As iniciais do conjunto dos seis sonetos (El desdichado, Myrtho, Horus, Ant�ros, Delfica, Art�mis) escrevem a palavra El MoHaDdAR ( o escondido ).
"

(Ana da Palma)
 


AR PURO


Jan Toorop
 


DE REGRESSO

ao Abrupto.
 


EARLY MORNING BLOGS 343

Cucurrucucu Paloma


Dicen que por las noches
Nomas se le iba en puro llorar,
Dicen que no comia,
Nomas se le iba en puro tomar,
Juran que el mismo cielo
Se estremecia al oir su llanto;
Como sufrio por ella,
Que hasta en su muerte la fue llamando
Ay, ay, ay, ay, ay,... cantaba,
Ay, ay, ay, ay, ay,... gemia,
Ay, ay, ay, ay, ay,... cantaba,
De pasi�n mortal... moria
Que una paloma triste
Muy de ma�ana le va a cantar,
A la casita sola,
Con sus puertitas de par en par,
Juran que esa paloma
No es otra cosa mas que su alma,
Que todavia la espera
A que regrese la desdichada
Cucurrucucu... paloma,
Cucurrucucu... no llores,
Las piedras jamas, paloma
�Que van a saber de amores!
Cucurrucucu... cucurrucucu...
Cucurrucucu... paloma, ya no llores


(Tomas Mendez)

*

Ouvida ontem, muito ao longe, lembrada hoje. Bom dia!

24.10.04
 


VER A NOITE

no meio das �rvores. Nevoeiro profundo atravessado pela luz da Lua, mergulhada na humidade do ar. Wer reitet so sp�t durch Nacht und Wind?


23.10.04
 


ADEUS, AT� AO MEU REGRESSO


Stuart Davis
 


A LER

As notas de MMLM O voto do Partido Socialista e Os acontecimentos de quarta-feira em Coimbra no Causa Nossa. Est� l� quase tudo dito.

22.10.04
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE "APRENDENDO COM A DAME A LA LICORNE ("A MON SEUL D�SIR")"

Por gentileza de Ana da Palma, este fragmento sobre a tape�aria da Dama do Licorne:

"Na sexta e �ltima tape�aria da c�lebre s�rie do museu de Cluny, intitulada A Dama do Licorne, a jovem que se despoja das suas j�ias, est� prestes a ser absorvida pela tenda, s�mbolo da presen�a divina e da Vacuidade. A inscri��o que encima a tenda, Ao meu �nico desejo, significa que o desejo da criatura se confunde com o da vontade que a dirige. Na medida em que a nossa exist�ncia � um jogo divino, a nossa parte torna-se livre e activa, quando n�s nos identificamos com o manipulador das marionetas que nos cria e dirige. Ent�o, o eu dissolve-se para dar lugar ao grande Ser, sob a tenda c�smica ligada � estrela polar. A Dama, pela sua gra�a e pela sua sabedoria (Sophia-Shakti-Shekinah, isto �: aquela que est� sob a tenda) bem como pela sua pureza, pacifica os animais antag�nicos da Grande Obra: o le�o que simboliza o enxofre, e o licorne, o merc�rio. Muitas vezes, a Dama � comparada ao Sal filosofal. Est� muito pr�xima da mentora de Hevajra cujo nome significa aquela que n�o tem ego. O corno erguido do licorne, que simboliza a fecunda��o espiritual e que capta o fluxo da energia universal, est� de acordo com o simbolismo axial da tenda, prolongado por uma ponta com o simbolismo de duas lan�as, com o penteado da Dama e da sua acompanhante, encimados por um enfeite ed plumas, e com o das �rvores que celebram as n�pcias m�sticas do Oriente e do Ocidente (o carvalho e o azevinho correspondendo � laranjeira e � jaqueira) As ins�gnias, goles e banda azul com tr�s crescentes ascendentes de prata, sugerem que estas tape�arias talvez tenham sido encomendadas pelo pr�ncipe Djem, filho infeliz ed Maom� II, o conquistador de Constantinopla. N�o consistia o ideal deste Pr�ncipe, muito tempo cativo em Creuse, onde foram encontradas estas obras, em reunir a Cruz e o Crescente? A ilha oval que suporta a cena � recortada como um l�tus, s�mbolo do desenvolvimento espiritual. Quanto ao pequeno macaco sentado diante da Dama, designa o alquimista em pessoa, o 'macaco da natureza' vigiando a sua senhora, que pode ser comparada � Mat�ria Prima."

Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, Dicion�rio dos s�mbolos, Lisboa, Editorial Teorema, 1994,pp.408-409
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: �FADO E �PERA � TUDO A MESMA COISA

�Vou ver a Companhia Nacional de Bailado a dan�ar Romeu e Julieta
(�).
�- E quando � que eu vou ver Ballet, m�e?
- J� fostes! Mas um dia vais � �pera.
- O qu�? �pera? Esquece! Nem pensar.
- Se nunca foste, n�o sabes se gostas. Al�m disso aprendes e o gosto educa-se.
- Eu n�o gosto de fado!
- Fado?
- Sim fado! Fado e �pera � tudo a mesma coisa.�


(J.)
 


UM ERRO DE ORTOGRAFIA

na minha nota anterior - "caiem" em vez de "caem" - foi assinalado amavelmente pelos leitores do Abrupto. Fa�am de conta que esta nota equivale a umas orelhas de burro. O dr. Freud explicar� um dia por que raz�o eu tinha quase a certeza que estava errado e saiu mesmo assim.

Como diz a minha Pequena Carta:

"caem em vez de caiem que assim escrita arrepia.
assim como saem em vez de saiem que tambem se me da calafrios.

sempre.

isto eh uma regra da treta que ninguim mete na pinha, sabe-se la pourquoi!"

 


COISAS SIMPLES


C�zanne
 


UM VELHO A CAIR

O gozo que alguns fizeram com a queda de Fidel � uma estupidez e diz muito sobre a sensibilidade de quem o faz. Eu n�o tenha a m�nima, nem direi simpatia que � demais, condescend�ncia com o caudilho cubano, que enterrou o seu povo numa ditadura de mis�ria e viol�ncia. Mas, na queda, ele � um velho a cair, como acontece aos velhos. Ser� que alguns meninos sabem que, quando chegarem a velhos, tamb�m v�o cair?
 


TODOS OS DIAS MAIS DO MESMO

Mais um exemplo t�pico do que verdadeiramente move o Primeiro-ministro: uma �assessora pol�tica do Primeiro-ministro� escreve um artigo no Di�rio de Not�cias para mostrar as contradi��es dos jornalistas nas cr�ticas ao governo. Esta assessora � uma antiga jornalista e s� podia ter escrito o que escreveu a pedido do Primeiro-ministro, tanto mais que os assessores pol�ticos, em princ�pio, n�o escrevem artigos para os jornais. O artigo � um remake do estilo dos artigos de Santana Lopes no Di�rio de Not�cias que n�o tinham outro objecto que n�o fosse a sua auto-defesa semanal face �s aleivosias do mundo inteiro contra ele. Isto � o que ele acha ser o "contradit�rio".

O artigo da assessora, na verdade do Primeiro-ministro, � mais um sinal da obsess�o que lavra dentro daquela casa, onde se deve passar de manh� � noite a discutir jornais, televis�es e cabalas e os �@���*&%$#�=� � que atacam o �Pedro�, a pensar no que lhes v�o fazer "quando�".
 


EARLY MORNING BLOGS 342

Delfica


La connais-tu, DAFN�, cette ancienne romance,
Au pied du sycomore, ou sous les lauriers blancs,
Sous l'olivier, le myrte, ou les saules tremblants,
Cette chanson d'amour... qui toujours recommence ?...

Reconnais-tu le TEMPLE au p�ristyle immense,
Et les citrons amers o� s'imprimaient tes dents,
Et la grotte, fatale aux h�tes imprudents,
O� du dragon vaincu dort l'antique semence ?...

Ils reviendront, ces Dieux que tu pleures toujours !
Le temps va ramener l'ordre des anciens jours ;
La terre a tressailli d'un souffle proph�tique...

Cependant la sibylle au visage latin
Est endormie encor sous l'arc de Constantin
- Et rien n'a d�rang� le s�v�re portique.


(G�rard de Nerval)

*

Bom dia!

21.10.04
 


POR FAVOR

N�o fa�am muito barulho com a hist�ria dos professores irem para assessores dos ju�zes, sen�o h� meia d�zia de desgra�ados professores e ju�zes, que v�o pagar o orgulho ferido do Primeiro-ministro, ao ser confrontado todos os dias com as suas palavras. � que isto funciona assim, por arroubos impensados, por reac��o aos arroubos, e depois �ai sim, v�o ver se n�o fa�o!�.Tenho a convic��o que se tudo ficasse calado com a hist�ria da deslocaliza��o das Secretarias de Estado, ter-se-ia poupado o exerc�cio de falsa autoridade, a transum�ncia de meia d�zia de vitimas e os custos acrescidos no or�amento.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE A DISTIN��O ESQUERDA / DIREITA NA LITERATURA

"No seu artigo recente em torno da distin��o antropol�gica esquerda / direita, JPP refere a inadequa��o desta ao dom�nio da literatura e da cria��o est�tica, e refere como exemplo (entre outros) a coexist�ncia problem�tica do fascismo de Pound com as suas tiradas po�ticas contra a usura. Eu acrescentaria uma outra dimens�o que complica ainda mais qualquer tentativa de simplificar ou reduzir poetas a dicotomias ideol�gicas - sem que isto implique, obviamente, a desculpabiliza��o do imperdo�vel ou a rejei��o da necessidade de cr�tica atenta. Refiro-me � humildade da d�vida, ao reconhecimento do erro (ainda que tardio) perante a complexidade extrema do mundo e perante a necessidade de tomar posi��o e agir quando o mundo nos interpela. Tantas vezes, s� os grandes poetas conseguem � ou podem dar-se ao luxo de... � trazer ao de cima todas esses aspectos contradit�rios e inconcili�veis. E j� que mencionou Pound, recordo alguns versos dos c�lebres �Pisan Cantos,� de que tantos se esquecem quando recusam liminarmente a leitura da sua poesia:

Pull down thy vanity
How mean thy hates
Fostered in falsity,
Pull down thy vanity
Rathe to destroy, niggard in charity,
Pull down thy vanity,
I say pull down.

But to have done instead of not doing
this is not vanity
To have, with decency, knocked
That a Blunt should open
To have gathered from the air a live tradition
or from a fine old eye the unconquered flame
This is not vanity.
Here error is all in the not done,
all in the diffidence that faltered. . .�


(Canto LXXXI)

(Daniela Kato)
 


FALSO

O texto que circula na rede intitulado "Pacheco Pereira no seu melhor" � falso. Se fosse verdadeiro seria "Pacheco Pereira no seu pior".
 


APRENDENDO COM A DAME A LA LICORNE ("A MON SEUL D�SIR")

 


POBRE PA�S

(NOTAS PUBLICADAS NO ABRUPTO NOS PRIMEIROS TR�S DIAS DA ERA ACTUAL (27 a 29/6/2004) PARA MEM�RIA FUTURA E BIBLIOGRAFIA DE APOIO)


POBRE PA�S

o nosso.

POBRE PA�S

o nosso.
L� vamos desperdi�ar de novo o que penosamente adquirimos.
L� vamos ter que come�ar tudo de novo.

POBRE PA�S

o nosso.
Em plena Futebol�ndia, com os notici�rios da televis�o a despachar � pressa as not�cias sobre Portugal, pedindo desculpa por interromperem o Euro.

POBRE PA�S

o nosso.

Para o qual eu quero um governo que pense em Portugal em primeiro lugar, que n�o se importe de perder as elei��es, se estiver convicto que pol�ticas dif�ceis s�o vitalmente necess�rias. N�o quero uma comiss�o eleitoral uninominal (ou binominal) que far� tudo apenas com um fito: ganhar as pr�ximas elei��es. Porque esse ser� o seu programa n�o escrito.

POBRE PA�S

o nosso.
Onde � vital, hoje, que n�o se confunda sil�ncio com consenso, sil�ncio com apatia, sil�ncio com ambiguidade. Est� na altura de falar e falar claro, antes que seja tarde de mais. O que est� em jogo � grave. � aquilo a que uma no��o antiga chamava �bom governo�, a que nos dedicamos por gosto pelo nosso pa�s, gosto pela nossa comunidade antiga, que � a �nica coisa que d� sentido � pol�tica.

POBRE PA�S

o nosso,
que padece de Ac�dia. Ac�dia?
O pecado que a gente aprende como sendo a �pregui�a�, para facilitar a compreens�o dos jovens catequistas e catequisados. Mas o pecado mortal n�o � evidentemente o que chamamos �pregui�a�, venial predisposi��o do corpo e da alma. A Ac�dia � outra coisa muito mais importante: � a apatia, ou a indiferen�a perante a pr�tica da virtude, ou o espect�culo do mal. Sabemos que est� mal, mesmo muito mal, e ficamos calados. Ac�dia. Vai-se para o Inferno por isso.

POBRE PA�S

o nosso.

H� uns anos, nos momentos mais complicados de dissolu��o da URSS, nada funcionava na R�ssia. Todos os dias de manh�, no Hotel Ukraina, o pequeno almo�o era uma saga. Chegava o samovar com o ch� e n�o havia ch�venas lavadas. Chegavam as ch�venas, n�o havia colheres. Chegavam as colheres e n�o havia ch� outra vez. Os estrangeiros rec�m-chegados protestavam em v�o. Os russos e os velhos habitantes do Hotel Ukraina, que j� conheciam todas as rotinas, iam buscar ch�venas � cozinha, acumulavam duas ou tr�s ch�venas em cima da mesa para armazenar o precioso ch�, etc. Um amigo meu disse-me: �vais ver, ao quinto dia j� estamos como eles, a ir buscar ch� � cozinha, muito caladinhos�. Ao terceiro dia j� �amos buscar ch� � cozinha.

N�o h� nada como o h�bito e como o sentimento de impot�ncia para que se aceite tudo. N�o h� nada como a ecologia envolvente para se achar tudo normal. O resvalar cont�nuo para a mediocridade, o abaixamento dos requisitos m�nimos, que antes jurar�amos nunca aceitar. Que eram mesmo inimagin�veis. N�o, meus amigos, � na cozinha que est� o ch�, que est�o as ch�venas, que est� o a��car. � na cozinha. O que � que querem mais? Qualidade no servi�o? Isso n�o � aqui. Nem no Hotel Rossya, do outro lado.


POBRE PA�S


o nosso.

O abaixamento dos m�nimos crit�rios de qualidade, vindo �de cima�, � um poderoso factor de popularidade e sucesso. No fundo, ficamos todos mais iguais, n�o �? E n�o � esta �igualdade�, o nome que se d� � inveja ressentida que t�o profundamente enche a nossa sociedade?

Pensando bem n�o � de admirar, � o mundo de Eva P�ron, a mulher que dizia que n�o se importava que houvesse pobres, o que a incomodava � que houvesse ricos.

POBRE PA�S

o nosso.
Sem oposi��o.

*

Depois n�o digam que n�o foram prevenidos a tempo e com tempo.

BIBLIOGRAFIA

Jornais de 27 de Junho de 2004 at� hoje.

Entrevista do Primeiro Ministro ao Frankfurter Allgemeine Zeitung
 


AR PURO / UM VULC�O QUE CUMPRE O SEU DEVER


Monte de S. Helena, ontem. O Outono a chegar.
 


EARLY MORNING BLOGS 341

� nostalgie des lieux qui n'�taient point
assez aim�s � l'heure passag�re,
que je voudrais leur rendre de loin
le geste oubli�, l'action suppl�mentaire !

Revenir sur mes pas, refaire doucement
- et cette fois, seul - tel voyage,
rester � la fontaine davantage,
toucher cet arbre, caresser ce banc...

Monter � la chapelle solitaire
que tout le monde dit sans int�r�t ;
pousser la grille de ce cimeti�re,
se taire avec lui qui tant se tait.

Car n'est-ce pas le temps o� il importe
de prendre un contact subtil et pieux ?
Tel �tait fort, c'est que la terre est forte ;
et tel se plaint : c'est qu'on la conna�t peu.


(Rainer Maria Rilke)

*

Bom dia!


20.10.04
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CHUVA

Pequena, em Paris,
lembro-me da professora:
"Apollinaire, �a s'�crit avec um P mais avec deux 'AILES'


(Ana da Palma)

(Guillaume Apollinaire, Calligrammes, Paris, Gallimard, p.64)




 


AR PURO / COISAS SIMPLES


Frits Thaulow
 


EARLY MORNING BLOGS 340

My Philosophy of Life


Just when I thought there wasn't room enough
for another thought in my head, I had this great idea--
call it a philosophy of life, if you will. Briefly,
it involved living the way philosophers live,
according to a set of principles. OK, but which ones?

That was the hardest part, I admit, but I had a
kind of dark foreknowledge of what it would be like.
Everything, from eating watermelon or going to the bathroom
or just standing on a subway platform, lost in thought
for a few minutes, or worrying about rain forests,
would be affected, or more precisely, inflected
by my new attitude. I wouldn't be preachy,
or worry about children and old people, except
in the general way prescribed by our clockwork universe.
Instead I'd sort of let things be what they are
while injecting them with the serum of the new moral climate
I thought I'd stumbled into, as a stranger
accidentally presses against a panel and a bookcase slides back,
revealing a winding staircase with greenish light
somewhere down below, and he automatically steps inside
and the bookcase slides shut, as is customary on such occasions.
At once a fragrance overwhelms him--not saffron, not lavender,
but something in between. He thinks of cushions, like the one
his uncle's Boston bull terrier used to lie on watching him
quizzically, pointed ear-tips folded over. And then the great rush
is on. Not a single idea emerges from it. It's enough
to disgust you with thought. But then you remember something
William James
wrote in some book of his you never read--it was fine, it had the
fineness,
the powder of life dusted over it, by chance, of course, yet
still looking
for evidence of fingerprints. Someone had handled it
even before he formulated it, though the thought was his and
his alone.

It's fine, in summer, to visit the seashore.
There are lots of little trips to be made.
A grove of fledgling aspens welcomes the traveler. Nearby
are the public toilets where weary pilgrims have carved
their names and addresses, and perhaps messages as well,
messages to the world, as they sat
and thought about what they'd do after using the toilet
and washing their hands at the sink, prior to stepping out
into the open again. Had they been coaxed in by principles,
and were their words philosophy, of however crude a sort?
I confess I can move no farther along this train of thought--
something's blocking it. Something I'm
not big enough to see over. Or maybe I'm frankly scared.
What was the matter with how I acted before?
But maybe I can come up with a compromise--I'll let
things be what they are, sort of. In the autumn I'll put up jellies
and preserves, against the winter cold and futility,
and that will be a human thing, and intelligent as well.
I won't be embarrassed by my friends' dumb remarks,
or even my own, though admittedly that's the hardest part,
as when you are in a crowded theater and something you say
riles the spectator in front of you, who doesn't even like the idea
of two people near him talking together. Well he's
got to be flushed out so the hunters can have a crack at him--
this thing works both ways, you know. You can't always
be worrying about others and keeping track of yourself
at the same time. That would be abusive, and about as much fun
as attending the wedding of two people you don't know.
Still, there's a lot of fun to be had in the gaps between ideas.
That's what they're made for! Now I want you to go out there
and enjoy yourself, and yes, enjoy your philosophy of life, too.
They don't come along every day. Look out! There's a big one...


(John Ashbery)

*

A horas impr�prias, bom dia!

 


VER A CHUVA

Entre mim e a chuva t�buas, placas de roofmate, telhas. Com esta chuva total, pouco abaixo do telhado, tem-se um respeito muito especial pelos materiais de constru��o e pelo trabalho dos pedreiros.

19.10.04
 


ONDE � QUE EST�O AS PERGUNTAS?

A julgar pelos relatos das televis�es, parece ter havido apenas um depoimento do Ministro dos Assuntos Parlamentares na AACS. N�o houve perguntas? N�o me custa imaginar v�rias perguntas de que gostaria de ter resposta. Tenho a certeza que se tivessem sido feitas, as respostas estariam nos notici�rios. O que � que aconteceu? Ningu�m perguntou sobre a prepara��o da interven��o? Sobre a utiliza��o da diplomacia, que indicia a premedita��o das declara��es? Sobre o papel do Primeiro-ministro? A auto-interpreta��o que o Ministro d� �s suas palavras � o que menos me interessa e foi s� isso que ouvi em todos os relatos noticiosos.

Ou os jornalistas est�o a fazer mau trabalho ou a Alta Autoridade n�o sabe ou n�o quer conduzir um inqu�rito s�rio.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: OS C�US MEXEM-SE (OU N�O)

O Sol est� sem manchas. A Lua vai desaparecer daqui a dias. Umas flechas de luz, vindas da constela��o de Orion, v�o atravessar os c�us. Chegou a bom porto, ainda em terra, o Deep Impact, que n�o � um filme pornogr�fico mas uma sonda que vai disparar uma bala contra um cometa para ver como ele parte. O sat�lite europeu SMART-1 (estes europeus s�o t�o presumidos...) escapou do abra�o mortal da Lua feiticeira, mant�m as suas dist�ncias e continua a trabalhar para lhe perceber a "qu�mica"... Querem melhor?
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: MERECIDA HOMENAGEM

(�rbita do aster�ide Spirit)

�s nossas m�quinas marcianas. Dois aster�ides t�m agora os nomes de Spirit e Opportunity, as valentes sondas marcianas que continuam a trabalhar no frio do inverno, j� um pouco cansadas, pesando-lhes a idade.
 


INTEND�NCIA

Colocado no VERITAS FILIA TEMPORIS a Lagartixa e o Jacar� 8, sobre a "celebridade do lixo", n�o � preciso dizer sobre o que �, as "novas fronteiras", a "ponte", a Constitui��o Europeia e o referendo em que votarei "n�o".
 


COISAS SIMPLES

 


EARLY MORNING BLOGS 339

Whales Weep Not!


They say the sea is cold, but the sea contains
the hottest blood of all, and the wildest, the most urgent.

All the whales in the wider deeps, hot are they, as they urge
on and on, and dive beneath the icebergs.
The right whales, the sperm-whales, the hammer-heads, the killers
there they blow, there they blow, hot wild white breath out of
the sea!

And they rock, and they rock, through the sensual ageless ages
on the depths of the seven seas,
and through the salt they reel with drunk delight
and in the tropics tremble they with love
and roll with massive, strong desire, like gods.
Then the great bull lies up against his bride
in the blue deep bed of the sea,
as mountain pressing on mountain, in the zest of life:
and out of the inward roaring of the inner red ocean of whale-blood
the long tip reaches strong, intense, like the maelstrom-tip, and
comes to rest
in the clasp and the soft, wild clutch of a she-whale's
fathomless body.

And over the bridge of the whale's strong phallus, linking the
wonder of whales
the burning archangels under the sea keep passing, back and
forth,
keep passing, archangels of bliss
from him to her, from her to him, great Cherubim
that wait on whales in mid-ocean, suspended in the waves of the
sea
great heaven of whales in the waters, old hierarchies.

And enormous mother whales lie dreaming suckling their whale-
tender young
and dreaming with strange whale eyes wide open in the waters of
the beginning and the end.

And bull-whales gather their women and whale-calves in a ring
when danger threatens, on the surface of the ceaseless flood
and range themselves like great fierce Seraphim facing the threat
encircling their huddled monsters of love.
And all this happens in the sea, in the salt
where God is also love, but without words:
and Aphrodite is the wife of whales
most happy, happy she!

and Venus among the fishes skips and is a she-dolphin
she is the gay, delighted porpoise sporting with love and the sea
she is the female tunny-fish, round and happy among the males
and dense with happy blood, dark rainbow bliss in the sea.


(D.H. Lawrence)

*

Bom dia, neste dia marinho!

18.10.04
 


AR PURO


Turner
 


EARLY MORNING BLOGS 338

Curriculum Vitae
1992


1) I was born in a Free City, near the North Sea.

2) In the year of my birth, money was shredded into
confetti. A loaf of bread cost a million marks. Of
course I do not remember this.

3) Parents and grandparents hovered around me. The
world I lived in had a soft voice and no claws.

4) A cornucopia filled with treats took me into a building
with bells. A wide-bosomed teacher took me in.

5) At home the bookshelves connected heaven and earth.

6) On Sundays the city child waded through pinecones
and primrose marshes, a short train ride away.

7) My country was struck by history more deadly than
earthquakes or hurricanes.

8) My father was busy eluding the monsters. My mother
told me the walls had ears. I learned the burden of secrets.

9) I moved into the too bright days, the too dark nights
of adolescence.

10) Two parents, two daughters, we followed the sun
and the moon across the ocean. My grandparents stayed
behind in darkness.

11) In the new language everyone spoke too fast. Eventually
I caught up with them.

12) When I met you, the new language became the language
of love.

13) The death of the mother hurt the daughter into poetry.
The daughter became a mother of daughters.

14) Ordinary life: the plenty and thick of it. Knots tying
threads to everywhere. The past pushed away, the future left
unimagined for the sake of the glorious, difficult, passionate
present.

15) Years and years of this.

16) The children no longer children. An old man's pain, an
old man's loneliness.

17) And then my father too disappeared.

18) I tried to go home again. I stood at the door to my
childhood, but it was closed to the public.

19) One day, on a crowded elevator, everyone's face was younger
than mine.

20) So far, so good. The brilliant days and nights are
breathless in their hurry. We follow, you and I.


(Lisel Mueller)

*

Bom dia, muito , muito cedo!

17.10.04
 


COISAS SIMPLES


Van der Waay
 


EARLY MORNING BLOGS 337

To Persuade a Lady Carpe Diem


True, I have always been happy that all the things that are inside
the body are inside the body, and that all things outside
the body, are out

I'm glad to find my lungs on the inside of my chest, for example;
if they were outside, they'd keep getting in the way,
those two great incipient angel wings; besides,
it would be messy

I mean, how would it be if your reached out to shake someone's hand
and there, in the palm, were a kidney and a liver complete with
spleen?

Can you imagine standing at 5 PM in a crowded subway car full of
empty stomachs?

What if a nice, nearsighted old lady were knitting socks and suddenly
her veins fell out? How would she avoid creating a substance
full of strangeness and pain? To the barefoot country boy
sitting on the edge of the bed in the morning and opening
Aunt Minnie's gift box, the sight of those socks would be
what he'd call "a real eye-opener!"

And what if our voices touched? If our mouths went out, instead of in?

If you were inside of me; or, at least, if I were inside of you?


(Michael Benedikt)

*

Bom dia!

 


VER A NOITE

sem noite para ver. Ao longe, muito ao longe, uma nova luz: um moinho de vento corta o ar e a humidade. Imagino-o agora, no cimo do monte, onde n�o h� ningu�m, com a sua elegante coluna branca presa pelo a�o no cimento do p�, a longa l�mina da h�lice �s voltas, silenciosa. Como � que s�o os s�tios onde n�o est� ningu�m?

16.10.04
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MAIS CYRANO

Mais Cyrano, cortesia de M.C., um bom ar para o dia de hoje, para as palavras de hoje, para o pa�s de hoje.

R�ver, rire, passer, �tre seul, �tre libre.
Avoir l�oeil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous pla�t, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre, ou faire un vers !
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
A tel voyage, auquel on pense, dans la lune !
N��crire jamais rien qui de soi ne sort�t,
Et modeste d�ailleurs, se dire : mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, m�me des feuilles,
Si c�est dans ton jardin � toi que tu les cueilles !
Puis, s�il advient d�un peu triompher, par hasard,
Ne pas �tre oblig� d�en rien rendre � C�sar,
Vis-�-vis de soi-m�me en garder le m�rite,
Bref, d�daignant d��tre le lierre parasite,
Lors m�me qu�on n�est pas le ch�ne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut peut-�tre, mais tout seul !


(Edmond Rostand)
 


APRENDENDO COM CYRANO DE BERGERAC











Este mon�logo � sem d�vida uma das p�ginas geniais do teatro e fica aqui dedicado aos leitores do Abrupto que sofrem com o tempo cinzento (o que n�o � o caso do autor destas linhas). O que � que se aprende com o nariz de Cyrano? Uma forma muito certeira de ser livre, de usar o "esp�rito" para ser livre, de ser esmagado por um Nariz glorioso e ser livre (noutro dia falarei sobre um nariz de lata veneziano), de gostar de ser livre: "Je me les sers moi-m�me, avec assez de verve,/Mais je ne permets pas qu'un autre me les serve."

CYRANO
Ah ! non ! c'est un peu court, jeune homme !
On pouvait dire... Oh ! Dieu !... bien des choses en somme...
En variant le ton, -par exemple, tenez
Agressif : "Moi, monsieur, si j'avais un tel nez,
Il faudrait sur-le-champs que je me l'amputasse !"
Amical : "Mais il doit tremper dans votre tasse
Pour boire, faites-vous fabriquer un hanap !"
Descriptif : "C'est un roc !... c'est un pic !... c'est un cap !
Que dis-je, c'est un cap ?... C'est une p�ninsule !"
Curieux : "De quoi sert cette oblongue capsule ?
D'�critoire, monsieur, ou de bo�tes � ciseaux ?"
Gracieux : "Aimez-vous � ce point les oiseaux
Que paternellement vous vous pr�occup�tes
De tendre ce perchoir � leurs petites pattes ?"
Truculent : "Ca, monsieur, lorsque vous p�tunez,
La vapeur du tabac vous sort-elle du nez
Sans qu'un voisin ne crie au feu de chemin�e ?"
Pr�venant : "Gardez-vous, votre t�te entra�n�e
Par ce poids, de tomber en avant sur le sol !"
Tendre : "Faites-lui faire un petit parasol
De peur que sa couleur au soleil ne se fane !"
P�dant : "L'animal seul, monsieur, qu'Aristophane
Appelle Hippocampelephantocam�los
Dut avoir sous le front tant de chair sur tant d'os !"
Cavalier : "Quoi, l'ami, ce croc est � la mode ?
Pour pendre son chapeau, c'est vraiment tr�s commode !"
Emphatique : "Aucun vent ne peut, nez magistral,
T'enrhumer tout entier, except� le mistral !"
Dramatique : "C'est la Mer Rouge quand il saigne !"
Admiratif : "Pour un parfumeur, quelle enseigne !"
Lyrique : "Est-ce une conque, �tes-vous un triton ?"
Na�f : "Ce monument, quand le visite-t-on ?"
Respectueux : "Souffrez, monsieur, qu'on vous salue,
C'est l� ce qui s'appelle avoir pignon sur rue !"
Campagnard : "H�, ard� ! C'est-y un nez ? Nanain !
C'est queuqu'navet g�ant ou ben queuqu'melon nain !"
Militaire : "Pointez contre cavalerie !"
Pratique : "Voulez-vous le mettre en loterie ?
Assur�ment, monsieur, ce sera le gros lot !"
Enfin parodiant Pyrame en un sanglot
"Le voil� donc ce nez qui des traits de son ma�tre
A d�truit l'harmonie ! Il en rougit, le tra�tre !"
-Voil� ce qu'� peu pr�s, mon cher, vous m'auriez dit
Si vous aviez un peu de lettres et d'esprit
Mais d'esprit, � le plus lamentable des �tres,
Vous n'en e�tes jamais un atome, et de lettres
Vous n'avez que les trois qui forment le mot : sot !
Eussiez-vous eu, d'ailleurs, l'invention qu'il faut
Pour pouvoir l�, devant ces nobles galeries,
me servir toutes ces folles plaisanteries,
Que vous n'en eussiez pas articul� le quart
De la moiti� du commencement d'une, car
Je me les sers moi-m�me, avec assez de verve,
Mais je ne permets pas qu'un autre me les serve.


(Edmond Rostand)
 


EARLY MORNING BLOGS 336

"Je suis l'Empire � la fin de la d�cadence..."


Je suis l'Empire � la fin de la d�cadence,
Qui regarde passer les grands Barbares blancs
En composant des acrostiches indolents
D'un style d'or o� la langueur du soleil danse.

L'ame seulette a mal au coeur d'un ennui dense,
L�-bas on dit qu'il est de longs combats sanglants.
O n'y pouvoir, �tant si faible aux voeux si lents,
O n'y vouloir fleurir un peu cette existence!

O n'y vouloir, � n'y pouvoir mourir un peu!
Ah! tout est bu! Bathylle, as-tu fini de rire?
Ah! tout est bu, tout est mang�! Plus rien � dire!

Seul un po�me un peu niais qu'on jette au feu,
Seul un esclave un peu coureur qui vous n�glige,
Seul un ennui d'on ne sait quoi qui vous afflige!

(Paul Verlaine).

*

Bom dia!
 


VER A NOITE

Preparar-me para ver a noite nestes dias de nuvens, ou seja, para n�o ver. Daqui a dias ainda vamos ver menos, porque vai haver um eclipse de Lua.

15.10.04
 


SCRITTI VENETI: A ILHA DOS MORTOS



S. Michele in Isola. Vai-se l� pelo barco normal da carreira, junto com venezianos com ramos de flores e faces tristes, passa-se no mar por um tr�fego sinistro: enterros flutuantes. A ilha n�o engana ningu�m com o seu perfil de fortaleza, amuralhada a toda a volta, com os ciprestes em massa ultrapassando os muros. Se � assim de dia imaginem � noite e eu vi-a � noite escura, sem uma luz, uma massa negra no horizonte das �guas.

No cais entra-se num mundo de sil�ncio, campos e campos de mortos, mais abertos e luminosos nas campas recentes e nas partes comuns, mais fechados � luz pelas grandes arvores nos cemit�rios particulares de diferentes comunh�es religiosas, �gregos� e evang�licos. Venezianos, italianos, estrangeiros, soldados, marinheiros, gente comum, "bambini", est�o l� dormindo. No cemit�rio evang�lico, Pound e Brodsky, marinheiros ingleses, nobres alem�es. Um jogador de futebol com uma bola em pedra. No cemit�rio "grego", os ortodoxos, est�o os russos Strawinsky e Diaghilev, a duas ou tr�s campas um do outro, est�o alguns nomes da nobreza russa, um Trubetzkoy, e uma "rainha dos helenos" , n�o dos gregos mas dos "helenos", numa modesta placa a um canto das muralhas.

(Strawinsky e Diaghilev. Na campa de Diaghilev est�o pousados uns sapatos de dan�a.)
 


SCRITTI VENETI / BIBLIOFILIA

Dois livros indispens�veis sobre Veneza: a hist�ria de John Julius Norwich, A History of Venice, e o Literary Companion to Venice de Ian Littlewood, ambos da Penguin Books. A hist�ria � uma s�ntese de muito que aconteceu em Veneza, e a partir de Veneza, um misto de drama e com�dia numa das colunas vertebrais da civiliza��o do Ocidente. E o "companheiro liter�rio" � o que se espera dele, um guia para todas as pedras que j� tiveram ou Goethe, ou Byron, ou Wagner, ou Napole�o, ou Thomas Mann, em cima a fazer qualquer coisa, do trivial ao genial.
 


A LER

Um blogue sobre �rvores, o Dia com �rvores.

Uma "reportagem" do Tal e Qual sobre as praxes. Um retrato da abjec��o que, ao mesmo tempo, explica o sucesso da Quinta das Celebridades e a transforma numa refer�ncia do bom gosto e bons costumes, t�o acima est� das imbecilidades das praxes.
 


IN ILLO TEMPORE

Havia quatro liceus no Porto: o meu, o Alexandre Herculano, o D. Manuel, e os das meninas, Rainha Santa, irm�o do Herculano, e o Carolina. Quase tudo j� mudou e h� um excelente livro, os Liceus de Portugal, coordenado por Ant�nio N�voa, que parece um tratado de arqueologia, sobre o que era e j� n�o �. Todos estes Liceus tinham fama justificada de grande qualidade. Por isso, custa-me ver as amea�as sobre o Carolina e sou solid�rio com este apelo que recebi da Escola:

"A Escola Secund�ria Carolina Micha�lis, no Porto, corre s�rios riscos de encerramento se o Sr. Director da Direc��o Regional do Norte (DREN) concretizar a proposta que vem anunciando desde Abril de 2004. E por que motivos? T�m sido apresentados dois e a �nfase � posta ora num, ora noutro, conforme as circunst�ncias:
1. As instala��es s�o necess�rias para albergar o Conservat�rio de M�sica do Porto.
2. � necess�rio fundir a Escola Secund�ria Carolina Micha�lis com a vizinha Secund�ria Rodrigues de Freitas, porque esta segunda, desde h� anos, vem perdendo alunos, estando com um n�mero de alunos muito insuficiente.

Relativamente ao primeiro argumento, e de in�cio o mais valorizado pela DREN e agora desvalorizado, a mudan�a implicaria uma total reestrutura��o de espa�os, quer a n�vel de dimens�es quer a n�vel do tratamento ac�stico dos mesmos. Sabe-se tamb�m que ao Conservat�rio estava reservado um edif�cio a construir junto da Casa da M�sica.
Por outro lado, em rela��o � alegada rentabiliza��o de espa�os, como compreender que a Escola Secund�ria Carolina Micha�lis tenha de ser sacrificada, porquanto a esta escola est�o associados valores que n�o podem ser ignorados: uma patrona, uma hist�ria e um conjunto de recursos pedag�gico-did�cticos que v�o desde uma Biblioteca de grande valor quer do ponto de vista cient�fico, quer do ponto de vista human�stico, a laborat�rios bem apetrechados quer em termos de equipamento actualizado quer de equipamento de valor museol�gico.
Todos estes valores explicam o bom desempenho da Escola na forma��o de gera��es, forma��o que inclui os aspectos cient�fico, human�stico, art�stico e axiol�gico.
Talvez por isso, ainda recentemente a divulga��o dos rankings (EXPRESSO, de 2 de Outubro �ltimo) mostra que a Escola Secund�ria Carolina Micha�lis se encontra em 38� lugar a n�vel nacional, � a 3� escola p�blica, no Porto, e encontra-se entre as 10 melhores classificadas na disciplina de F�sica (m�dia - 14,3 P�BLICO, de 2 de Outubro), resultados estes, e nomeadamente a F�sica, a que n�o ser�o alheias as refer�ncias anteriores, quanto a equipamentos.
Mas o bom desempenho da Escola n�o se mede apenas pelos rankings nacionais.
H� outros indicadores, porventura mais importantes, nomeadamente a boa imagem que a Comunidade tem da Escola a tal ponto que, mesmo ap�s o an�ncio da fus�o, e contrariando todas as expectativas de que a escola corria o risco de perder alunos, pode contar com mais de 1000 (mil) alunos, mantendo praticamente o mesmo n�vel de frequ�ncia do ano anterior.
Acresce ainda que a Escola tem uma excelente localiza��o, refor�ada com a recente esta��o do Metropolitano (que curiosamente tem o seu nome) e que vem facilitar o acesso de popula��es lim�trofes, que desde sempre procuraram esta institui��o e que, por certo, gostariam de poder continuar a usufruir das situa��es de ensino/aprendizagem que nela se t�m desenvolvido com a efic�cia inerente � tradi��o pedag�gica que a caracteriza.
"
(...)

Porto e E. S. Carolina Micha�lis, 15 de Outubro de 2004.

Pela Comunidade Educativa, / O Presidente Da Assembleia de Escola
Lu�s Miranda



 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS / UM VULC�O QUE CUMPRE O SEU DEVER





A Terra � um planeta, logo os "novos descobrimentos" tamb�m olham para c�, de cima claro. A fotografia combinando luz, a que vemos e a que n�o vemos (infravermelho) mas est� l�, � da NASA e tirada por um "mestre", o "MODIS/ASTER Airborne Simulator (MASTER)". O vulc�o que cumpre o seu dever � o Monte S. Helena. As cores s�o falsas, mas o vulc�o � verdadeiro.
 


SCRITTI VENETI: AMOR VENDICATO / BIBLIOFILIA



Ele h� dias de sorte, como hoje, em que encontrei e comprei esta pequena maravilha goldoniana, o Amor Vendicato. Poemetto in Lingua Veneziana del Dottor Carlo Goldoni, editado em Veneza em 1761.
 


COISAS SIMPLES


T. Warrender
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS RID�CULOS EM 1916


"Coment�rio censurado dispon�vel na colec��o do jornal Os Rid�culos depositada na Hemeroteca Municipal de Lisboa. A edi��o original saiu com uma �bexiga� neste local da p�gina.
�Com uma imprensa d'estas, aonde jornaes aconselham aos exaltados politicos a liquida��o dos directores de outros jornaes, n'uma imprensa cheia de intruzos que d'ella s� fazem biombo para arranjos politicos, n'uma desgra�ada situa��o d'esta ordem... � fechar os olhos e deixar ir para o fundo !
Resigna��o e esperan�a de que melhores dias surjam para a nossa querida terra ! "


Os Rid�culos, 5/Jul/1916, p. 2

 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: PRINC�PIO DA INTELIG�NCIA DO MERCADO

"Se perguntarmos a cada indiv�duo de um grupo de mais de 20 pessoas quantos rebu�ados h� num frasco de rebu�ados e se depois calcularmos a m�dia das 20 respostas, encontramos invariavelmente um valor a n�o mais de tr�s por cento da quantidade exacta de rebu�ados que h� no frasco.

Com um grupo de 20 indiv�duos j� existem condi��es para que o palpite colectivo funcione, ainda que muitos dos intervenientes sejam idiotas compulsivos. � o princ�pio da intelig�ncia do mercado.Ou seja, um grupo a funcionar com regras e um objectivo claro, o lucro por exemplo, leva a uma resposta mais acertada.

Acredito que mais depressa as pessoas na Am�rica v�o votar na clareza do Sr. Bush do que nas boas promessas do Sr. Kerry."


(Manuel Pais)


*

"Em rela��o ao texto do Vital Moreira acho contudo que o mapa eleitoral n�o engana: a classe m�dia urbana vota Kerry e os crist�os fundamentalistas do campo votam Bush, juntamente com os 1% da Am�rica que ganham mais de 200.000 d�lares por ano e que t�m muito a ganhar com a �flat tax� dos neo-cons.

No m�s passado fui a Lisboa e a senhora do check-inn aqui no aeroporto perguntou-me se os europeus odiavam os Americanos. Eu disse-lhe que n�o, mas que uma grande parte dos europeus odiavam o Bush por ele ser t�o violento, t�o arrogante e t�o ganancioso, e perguntei-lhe se ela n�o preferia os tempos do Clinton, quando havia menos crimes, os sal�rios subiam mais depressa que a infla��o, a seguran�a no trabalho era uma prioridade, era ilegal mandar merc�rio para os rios, etc. Ela desatou aos berros, a dizer que o Bush era �a good man,� e eu insisti: �Mas o seu poder de compra desceu, n�o desceu? Deixe-me adivinhar: o seu cheque da redu��o dos impostos deve ter sido para a� 200 d�lares e a subida do seu seguro de sa�de deve andar na ordem dos 1.000, n�o �?� Era. �E os seus netos? Ainda t�m programas � borla a seguir � escola? N�o?! Agora voc� tem de pagar, n�o �?� Ela interrompeu-me aos berros �Isso n�o interessa nada! Eu estou mais pobre e est� tudo mais caro, sim senhor, mas isso � por causa da Economia! O que interessa � que os homossexuais se querem casar e anda para a� tudo a fazer abortos!�

Al�m da Mossad, da Christian Coalition e dos bilion�rios a quem ele perdoa os impostos, este � que � o eleitorado do Bush. E eu acho que o Vital Moreira tem toda a raz�o quando diz que esta gente � bronca e ignorante! Como eram broncos e ignorantes os que votaram no Hitler."


(Filipe Castro)

*

berry kush, besh kurry
Eu sou inteligente e, n�o votando bush, tenho d�vidas se votaria kerry
A n�o ser que eu seja do partido socialista, onde se pratica o voto �til.


(E.M.)
 


EARLY MORNING BLOGS 335

A Drink With Something In It


There is something about a Martini,
A tingle remarkably pleasant;
A yellow, a mellow Martini;
I wish I had one at present.
There is something about a Martini,
Ere the dining and dancing begin,
And to tell you the truth,
It is not the vermouth--
I think that perhaps it's the gin.


(Ogden Nash)

*

Sem nos levarmos demasiado a s�rio, bom dia!

14.10.04
 


A LER / INTEND�NCIA

A nota de Jo�o Miranda A regula��o reduz o pluralismo no Blasf�mias.

Em complemento da quest�o p�blico / privado na comunica��o social coloquei no VERITAS FILIA TEMPORIS um dos v�rios artigos que publiquei (desde 1987 pelo menos) defendendo que o estado n�o seja dono de meios de comunica��o social. Nem poucos, nem muitos, nenhuns.

A FRONDA (Maio 2002)
 


ELE H� MOMENTOS

em que n�o se deve escrever sem pensar duas vezes. Vital Moreira f�-lo na seguinte nota no Causa Nossa:
�Dos tr�s debates p�blicos entre Kerry e Bush, este n�o ganhou nenhum e perdeu inequivocamente dois deles (o primeiro, sobre pol�tica externa, e o terceiro, realizado ontem, sobre pol�tica interna), em que Kerry triunfou em toda a linha. Perante a patente superioridade do candidato democrata, os eleitores norte-americanos ser�o est�pidos?�

A pergunta final n�o tem qualquer sentido numa democracia.

Primeiro, porque a performance nos debates n�o � o �nico crit�rio para uma escolha eleitoral. H� elementos intang�veis � para o bem e para o mal - na rela��o entre eleitos e eleitores que incluem a percep��o de outras qualidades e defeitos para al�m da argumenta��o racional. A confian�a, por exemplo. Depois, porque os eleitores em democracia s�o sempre mais �inteligentes� do que a sobranceria da frase de Vital Moreira que os divide entre �inteligentes� (que votam Kerry) e �est�pidos� (que votam Bush). Mesmo quando votam em Chavez.
 


COISAS SIMPLES


N. G. Wentzel
 


EARLY MORNING BLOGS 334

Siren Song


This is the one song everyone
would like to learn: the song
that is irresistible:

the song that forces men
to leap overboard in squadrons
even though they see the beached skulls

the song nobody knows
because anyone who has heard it
is dead, and the others can't remember.

Shall I tell you the secret
and if I do, will you get me
out of this bird suit?

I don'y enjoy it here
squatting on this island
looking picturesque and mythical

with these two faethery maniacs,
I don't enjoy singing
this trio, fatal and valuable.

I will tell the secret to you,
to you, only to you.
Come closer. This song

is a cry for help: Help me!
Only you, only you can,
you are unique

at last. Alas
it is a boring song
but it works every time.


(Margaret Atwood)

*

Bom dia!

13.10.04
 


UM VULC�O QUE CUMPRE O SEU DEVER


Monte S. Helena, um vulc�o muito perigoso. Hoje de manh�, uma erup��o de lava, na foto s� vis�vel pela coluna de fumo.
 


A LER

Um grande poema "qu�mico" de Ruy Belo, "�cidos e �xidos", colocado no Porto de Abrigo. Uma amostra:

"Simples quest�o de tempo �s e a certas circunst�ncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Est�s e nunca est�s e o vento vem e vergas
e h� tamb�m a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servid�es quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, h� os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te do�a? Dividias-te
entre o fim do ver�o e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Hor�rio de trabalho, uma fam�lia, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres v�tima de olhares
Que resto d�s? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto"
 


INTEND�NCIA

Actualizado O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DERRIDA.
 


CORREIO

Neste momento 5152 mensagens de correio para este blogue esperam por ser respondidas. Sei que � imposs�vel faz�-lo e muitas, a esmagadora maioria, ficar�o sem resposta. S�o 5152 mensagens lidas, todas lidas com aten��o, e as suas m�ltiplas vozes t�m feito muito pelo Abrupto e muito do Abrupto. Algumas, daquelas a que mais obriga��o tinha de dar resposta, s�o �s vezes as mais atrasadas, porque precisam de mais do que uma resposta. O correio dos leitores e dos amigos d� for�a ao Abrupto, � parte do meu tempo mais �til, e espero que esta nota n�o desencoraje ningu�m de escrever. Continuarei a fazer todos os esfor�os para responder ao maior n�mero de mensagens, mas a cortesia obriga-me a dar esta explica��o para as faltas de resposta.
 


SCRITTI VENETI

Em breve, mais do mesmo.
 


AR PURO

F. G. Waldm�ller
 


EARLY MORNING BLOGS 333

Before Dawn


Life! Austere arbiter of each man's fate,
By whom he learns that Nature's steadfast laws
Are as decrees immutable; O pause
Your even forward march! Not yet too late
Teach me the needed lesson, when to wait
Inactive as a ship when no wind draws
To stretch the loosened cordage. One implores
Thy clemency, whose wilfulness innate
Has gone uncurbed and roughshod while the years
Have lengthened into decades; now distressed
He knows no rule by which to move or stay,
And teased with restlessness and desperate fears
He dares not watch in silence thy wise way
Bringing about results none could have guessed.


(Amy Lowell)

*

Bom dia!

12.10.04
 


UM ABSURDO, MAS UM ABSURDO T�PICO 4

Uma not�cia antiga que vale a pena ler.
 


UM ABSURDO, MAS UM ABSURDO T�PICO 3

As autoridades nacionais esperavam pelos 21.10 para verem o tempo de antena e n�o foram informadas da mudan�a. Tiveram a surpresa de ver a hora mudada. Pelo contr�rio, militantes do PSD tiveram mais sorte e foram informados previamente da mudan�a de hor�rio por SMS enviado do partido.

Qual � a verdadeira natureza da interven��o de ontem? Se foi tempo de antena, seguiu os tr�mites habituais? Por que raz�o n�o houve uma normal comunica��o ao pa�s do Primeiro-ministro? Para ser obrigat�ria a passagem nas televis�es? Foram usados os meios do estado e da televis�o p�blica? Se n�o foi tempo de antena, o que foi? Como � que o filme da RTP foi parar � SIC antes de ser emitido pela RTP? Como � que se sente a televis�o p�blica no meio disto tudo?

Porque � que tudo isto � relevante? Porque os procedimentos est�o na ess�ncia da sa�de da democracia.

 


O CONTRADIT�RIO

A minha proposta do absoluto, completo, total, genial, contradit�rio ao tempo de antena de ontem � o epis�dio da s�rie "Sim Senhor Primeiro-Ministro" intitulado �A emiss�o ministerial�. Poucas vezes se fez uma s�tira pol�tica t�o certeira para as circunst�ncias presentes como esse epis�dio. Est� l� tudo. Corram para os DVD e vejam o epis�dio, e, como hoje nos notici�rios vale tudo, ponham-no l� em hor�rio nobre. Garanto-vos que o Primeiro-ministro pedir� a Marcelo Rebelo de Sousa que volte de imediato. Tudo, tudo , menos isto. Quadros modernos, fato escuro, m�o nos �culos, penteado, as "coisas que o partido gosta", olhar de frente ou de lado, sondagens, tudo, tudo est� l�. Falta Strawinsky, mas ouvindo bem , n�o h� uma m�sica ao fundo...
 


AR PURO


J. Weissenbruch
 


EARLY MORNING BLOGS 332

Mus�e des Beaux Arts


About suffering they were never wrong,
The Old Masters; how well, they understood
Its human position; how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water; and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
had somewhere to get to and sailed calmly on.


(Auden)

*

Bom dia!
 


FALTA DE DIGNIDADE

� o que se mostra neste par�grafo que Luis Delgado escreve contra Eduardo Cintra Torres:

"Um vendedor de antenas parab�licas, que se acha cr�tico de televis�o, e da Imprensa em geral, passou aos insultos pessoais. Diz tudo do seu car�cter e estatura mental. Trate-se, ECT. Interne-se, num hospital psiqui�trico."

Se fosse na URSS seria sem d�vida assim. Em Portugal, este tipo de palavras, tem tamb�m uma velha tradi��o. No Agora, antes do 25 de Abril, os mais velhos sabem o que era. O problema � que este homem manda no Di�rio de Not�cias, no Jornal de Not�cias, na TSF, no 24 Horas, etc., etc.

11.10.04
 


UM ABSURDO, MAS UM ABSURDO T�PICO 2

O truque � fazer com que, durante uma hora, em sucessivas televis�es, em horas desfasadas, passe o tempo de antena, em vez de ser simult�neo como devia. O m�todo � fazer combina��es contradit�rias, em segredo, com diferentes canais. � uma falta de lealdade com os que s�o enganados, e imagino como � que se dever� sentir a �televis�o p�blica�, ludibriada. Conv�m dizer aos aprendizes de feiticeiros que passam por cima de tudo, - regras, normas, leis, bons costumes, educa��o, - que n�o vai dar resultado. � essa a li��o do "ru�do" nas tentativas anteriores. No actual momento, todas estas habilidades v�o continuar a gerar mais ru�do do que a passar a mensagem. E ainda bem, porque os procedimentos s�o cruciais em democracia.

 


UM ABSURDO, MAS UM ABSURDO T�PICO

Como � poss�vel fazer uma comunica��o como Primeiro-ministro ao pa�s, anunciar a sua hora de transmiss�o, e depois negociar a sua divulga��o como exclusivo antes dessa hora com uma esta��o de televis�o? Ou, n�o sendo bem assim, permitir a divulga��o casu�stica de um "tempo de antena"? � falta de respeito pelos portugueses. Puro e simples. Mas � t�pico de um estilo de enorme arrog�ncia para com todos n�s. Mandamos, podemos fazer o que entendemos desde que d� resultados. Sem contradit�rio.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: QUOTAS EM ATRASO

"� espantoso os p�ssimos sinais que temos dado na Europa a respeito dos nossos compromissos internacionais no Observat�rio Europeu do Sul (ESO) e no laborat�rio de part�culas do CERN. Estamos a dois meses de ser expulsos do primeiro por falta de pagamento de quotas, uma situa��o lament�vel e que nunca se tinha visto na Europa. Portugal deve actualmente ao ESO cerca de quatro milh�es de euros e se n�o pagar tudo at� � pr�xima reuni�o do Conselho do ESO, em 7 e 8 de Dezembro, ser� expulso desta organiza��o, com a consequente proibi��o do acesso aos telesc�pios do ESO. E j� agora se formos expulsos n�o temos direito a reivindicar qualquer devolu��o do dinheiro pago em quotas anuais e j�ia no passado. Nos 42 anos de vida do ESO, n�o h� mem�ria de uma situa��o destas. Nem no ESO nem no CERN onde tamb�m temos quotas em atraso. Esta situa��o j� se arrasta desde o tempo do governo de Dur�o Barroso e est� a dar uma p�ssima imagem do pa�s junto dos nossos parceiros europeus. � este o Portugal que queremos? Um pa�s que nem sequer paga as quotas das organiza��es a que pertence? "

(Jos� Matos)
 


INTEND�NCIA

Colocado no VERITAS FILIA TEMPORIS , a Lagartixa e o Jacar� 7.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DERRIDA

"Morreu Jacques Derrida. No long�nquo ano de 1980 colaborei numa das primeir�ssimas tradu��es integrais (registe-se hoje: imperfeita) que ele conheceu em Portugu�s. N�o ganhei, por isso, inscri��o em qualquer galeria; na verdade, nunca o conheci nem vi pessoalmente e muito do que fiz ou pensei depois seguiu por caminhos e linguagens bem diferentes. Mas a obriga��o de respeito pelo dizer e pelo pensar de outr�m em que aquela tradu��o me institu�a, deixou em mim um v�nculo compreens�vel que a not�cia da morte me torna dolorosamente claro.

Na conjuntura geocultural das d�cadas que se seguiram, tornou-se imposs�vel pronunciar o nome de Derrida sem activar de imediato um sistema de oposi��es bin�rias que (prolongando no plano da cultura outras guerras menos �florais�) op�em a deliquesc�ncia do �francesismo� � s�lida tradi��o anglo-americana, o desconstrucionismo (entendido sem mais especifica��es como sin�nimo de relativismo) ao racionalismo epistemol�gico e �tico, o �pensamento de 68� � tradi��o liberal, etc., etc.

Pessoalmente, n�o poderei dizer que essas oposi��es sejam em absoluto infundadas (e que o �derrida�smo� internacionalizado n�o tenha mesmo sido mesmo um dos seus pilares). Para o Jos� Pacheco Pereira, no entanto, considerados muitos dos seus textos, tais oposi��es parecem muitas vezes mat�ria de facto.

Sabe-se como estes sistemas classifica��o para consumo alargado, uma vez institu�dos no espa�o intelectual e medi�tico, facilmente funcionam por si mesmos (tanto para os ep�gonos como para os advers�rios), para al�m de qualquer escuta efectiva e de qualquer desejo de pensar. Talvez, por isso ao ler hoje esta entrevista impressionante ao Le Monde de um homem e de um pensador que (sabemo-lo n�s agora) sabia ent�o que morreria em breve, dei comigo a pensar que o Jos� Pacheco Pereira n�o desdenharia (nem pelo tom nem pelo conte�do) afix�-la nesse espa�o singular de comunica��o p�blica que � o seu �blog�.
"

(Joaquim Torres Costa)

*

"Diz Joaquim Torres Costa que a entrevista de Derrida � impressionante. Tamb�m achei, como acho impressionante quase tudo o que leio de Derrida. Acho deveras impressionante a vacuidade filos�fica e o pedantismo intelectual de Derrida, de que a entrevista ao Le Monde � um bom testemunho. Trivialidades embrulhadas num discurso oracular como � La survivance, c'est la vie au-del� de la vie, la vie plus que la vie� ou a conversa sobre aprender a viver e a ideia de que viver � sobreviver, insinuando que � preciso ser tranquilamente pessimista e pesaroso para se ser profundo. Ali�s o que afirma tem tanto de trivial e desinteressante que nem sequer se d� ao inc�modo de oferecer qualquer vest�gio de argumento (quem sabe se para exemplificar a desconstru��o a que o discurso l�gico e racional deve ser submetido). Talvez por isso abundem associa��es vagas de ideias no lugar dos argumentos. Ser� por isso que sugere n�o haver mais do que umas dezenas de leitores competentes dos seus livros em todo o mundo?

Tudo indica que Derrida almeja a irrefutabilidade: se algu�m mostrar que o que afirma � contradit�rio, inconsistente, ou simplesmente falso, ele pode sempre responder que n�o foi compreendido; pode at� acrescentar, como o tem feito, que a ideia de contradi��o e de inconsist�ncia precisam de ser desconstru�das (ser� que a ideia de desconstru��o tamb�m tem de ser desconstru�da e tamb�m ela n�o passa de mais uma narrativa como outra qualquer?) Nada do que se possa objectar atinge o alvo, at� porque o discurso n�o tem �centro�. Assim, Derrida consegue colocar-se olimpicamente acima da cr�tica e tornar-se irrefut�vel. Da� o estatuto divino, imune � cr�tica, que adquiriu na �rea de influ�ncia da cultura filos�fica francesa, a qual, como sublinha Jacques Bouveresse, mais parece uma comunidade de crentes do que uma comunidade filos�fica. Sim, porque fora da�, Derrida quase s� � export�vel para os departamentos de literaturas e de estudos femininos. Afinal de que serve discutir um fil�sofo irrefut�vel? Felizmente a esmagadora maioria da actividade filos�fica mundial n�o perde grande tempo com vacas sagradas como Derrida, Deleuze, Lyotard e companhia. Bem pode Derrida apelidar-se de fil�sofo �intransigente� e �incorrupt�vel� como, de forma insultuosamente pedante, afirma nesta entrevista."


(Aires Almeida)
 


O PORTO DEBAIXO DO IMENSO VENTO

Recorda��o recente, mem�ria antiga. Vendo de noite as �rvores do Pal�cio, as grandes tileiras batendo umas contra as outras, sob uma chuva de folhas. N�o se via o ch�o, tantas as folhas. Um ru�do que passeava surdo, de �rvore em �rvore, no meio das ruas interiores, �s escuras. Amea�ador, mas familiar. N�o sei quando, h� muitos anos, mas j� devo ter visto este vento por aqui. Uma trovoada s�bita nestas mesmas �rvores, toda a gente a fugir dos restaurantes que havia na rua. Rua? Se a mem�ria me n�o falha �avenida�, talvez �Avenida das T�lias�. Lojas de farturas? As emiss�es experimentais da televis�o num barrac�o? E de repente chuva e vento e uma amea�a. Lembro-me hoje para tr�s, ser� que nesse tempo me lembrava para a frente? Suspeito que sim, suspeito que sabia j� deste momento, num Pal�cio de absoluta fic��o, sem farturas, sem restaurantes, sem televis�o a preto e branco, sem inoc�ncia. Sabia que ia ser assim.
 


SCRITTI VENETI: RELENDO �MORTE EM VENEZA�

A precis�o da l�ngua alem�, que t�o apropriada a torna para a filosofia, em todo o seu esplendor: Thomas Mann no in�cio da novela fala do �desejo da viagem�, usando a palavra Reiselust, em vez do termo mais comum Wanderlust. Wanderlust era para Mann insuficiente: �esp�rito�, �vontade�, �predisposi��o� para viajar parecia-lhe pouco. Por isso, seco e duro, preciso, usa Reiselust porque Aschenbach tinha uma puls�o para viajar, uma intima��o interior para viajar. Na mesma frase, esta Reiselust � associada a uma �febre�, a uma �intensidade pr�xima da paix�o�, uma �avidez�. Ele n�o foi a Veneza porque lhe apeteceu, mas porque tinha que ir, tinha que ir morrer em Veneza.
 


AR PURO


Edward W. Waite
 


EARLY MORNING BLOGS 331

Sailing To Byzantium


I
That is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
--Those dying generations--at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unaging intellect.

II
An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

III
O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

IV
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


(Yeats)

*

Bom dia!

10.10.04
 


SCRITTI VENETI

Em breve, mais do mesmo.
 


COISAS SIMPLES


W. de Zwart
 


EARLY MORNING BLOGS 330

Columbus


Once upon a time there was an Italian,
And some people thought he was a rapscallion,
But he wasn't offended,
Because other people thought he was splendid,
And he said the world was round,
And everybody made an uncomplimentary sound,
But he went and tried to borrow some money from Ferdinand
But Ferdinand said America was a bird in the bush and he'd rather have a berdinand,
But Columbus' brain was fertile, it wasn't arid,
And he remembered that Ferdinand was married,
And he thought, there is no wife like a misunderstood one,
Because if her husband thinks something is a terrible idea she is bound to think it a good one,
So he perfumed his handkerchief with bay rum and citronella,
And he went to see Isabella,
And he looked wonderful but he had never felt sillier,
And she said, I can't place the face but the aroma is familiar,
And Columbus didn't say a word,
All he said was, I am Columbus, the fifteenth-century Admiral Byrd,
And, just as he thought, her disposition was very malleable,
And she said, Here are my jewels, and she wasn't penurious like Cornelia the mother of the Gracchi, she wasn't referring to her children, no, she was referring to her jewels, which were very very valuable,
So Columbus said, Somebody show me the sunset and somebody did and he set sail for it,
And he discovered America and they put him in jail for it,
And the fetters gave him welts,
And they named America after somebody else,
So the sad fate of Columbus ought to be pointed out to every child and every voter,
Because it has a very important moral, which is, Don't be a discoverer, be a promoter.


(Ogden Nash)

*

Bom dia!

9.10.04
 


O QUE INTERESSA A ESTE BLOGUE?



(Gravura da Hypnerotomachia Poliphili.)
 


CONTRADIT�RIO

Quem far� segunda feira o "contradit�rio" � interven��o do Primeiro-ministro? Tenho a certeza que ele deseja que seja o PS, reduzindo o "contradit�rio" ao dom�nio do confronto pol�tico directo entre partidos.
 


QUEM MANDA NA INFORMA��O DA TVI?

A situa��o dif�cil de Jos� Eduardo Moniz � compreens�vel, mas o que ele disse � negado pela realidade. Ele permitiu uma interfer�ncia patronal na linha editorial da esta��o, e isto � um ponto sem retorno. Tendo em conta o que diz o Expresso, que n�o foi desmentido por nenhum dos intervenientes na conversa, est�-se perante um caso t�pico de interfer�ncia patronal na linha editorial de um �rg�o de comunica��o social. A TVI � agora menos livre. Tem que ter o tom certo, o tom menor, nas cr�ticas ao governo. Tem que ter cuidado, o cuidado que nunca teve que ter com os governos Guterres e Dur�o Barroso. Todos os jornalistas da TVI sabem disso, n�o o querem aceitar, n�o o devem aceitar, mas sabem-no. Esta � uma das pervers�es da situa��o corrente.
 


APRENDENDO COM VITORINO NEM�SIO

�A mec�nica cl�ssica, teia de causa a efeito n�o ficou anulada pelo facto de se ter passado a trabalhar com frenesim na camara de Wilson, e logo na catapulta de grande feiticeiro que � o ciclotr�o, acelerador de part�culas desmandadas. Enquanto houver graves triviais para a queda (e � no meio desses que vivemos), a velha mec�nica h�-de valer. O que a crise da F�sica nos ensina � n�o s� a relatividade restrita e a geral, mas a relatividade de tudo. O mundo da medida depende do observador que mede. Quem mede ou especta o �nfimo mete sem querer o metro e e luneta no �nfimo. O que parecia indivis�vel � que � o que quer dizer �tomo � revela-se partido em poucos; cada pouco do pouco � outra soma de poucos. O cont�nuo aparente, de repente pontua-se. Mas o que seguia pontuado � o descont�nuo � transforma-se em bichas de rabiar � e � toda a Mec�nica Ondulat�ria com seus comprimentos e cristas, sua difrac��o e interfer�ncia.

Como manda o bom m�todo, n�o extrapolemos da F�sica para a Filosofia: mas mantenhamos entre as duas maneiras de saber um discreto confronto simbolista.�


(Enviado por RM)
 


A LER

De Francisco Jos� Viegas, LIBERDADE no Aviz. � assim mesmo, o resto s�o divers�es.

Uma das divers�es, e que � a linha de orienta��o nalguns colaboradores da Lusomundo em vias de promo��o ou promovidos, � a seguinte: bom, isto � mais uma asneira do governo, do ministro (o contradit�rio am�vel para minimizar os danos e parecer distanciado), era melhor que n�o tivesse acontecido, mas tamb�m n�o � nada de especial, nada de grave. Marcelo n�o � inocente e est� a usar-nos que nem uns patinhos (o apelo ao incomodo de n�o se ser suficientemente inteligente para se perceber o "jogo do professor"), mas o que � importante � que o governo governe. J� foi esta a linha seguida nas "asneiras" anteriores. Come�a a perceber-se demais.
 


INTEND�NCIA

Vers�o corrigida de UMA NOT�CIA DOS BLOGUES IGNORADA PELA COMUNICA��O SOCIAL.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE KAREN JOY FOWLER, THE JANE AUSTEN BOOK CLUB

Trata-se de um bom ant�doto � neura generalizada embora e infelizmente amplamente justificada. (�) Algumas mulheres, umas na casa dos 50 anos e outras a chegar aos 30 anos, e um homem acabado de chegar aos quarenta anos, que gosta de fic��o cient�fica e Ursula le Guin, encontram-se mensalmente para conversar sobre os seis romances de Jane Austen. � claro que o homem, que s� agora e a prop�sito destes encontros come�ou a ler Jane Austen, est� apaixonado por uma das mulheres (uma das de 50 para consolo e esperan�a deste grupo!), mas no final revela-se um entusiasta Austenite. Tamb�m � claro que todos acabam por falar mais de si pr�prios e da sua vida do que dos romances, mas Jane Austen est� sempre presente e as hist�rias das suas vidas parecem tecidas com fios dos ditos romances.

Para al�m de ser uma leitura cativante, divertida e inteligente, este livro est� recheado de frases (ou senten�as) cheias de �pocket wisdom� e �ptimas para serem citadas.
�How could I have let myself forget that most marriages end in divorce?�
Sylvia asked. �You don�t learn that in Austen. She always has a wedding or two at the end.� �

� � In real life�, said Grigg, �women want the heel, not the soul.� �

� � I once broke up with a boy because he wrote me an awful poem,� Jocelyn said. � �Your twin eyes.� Don�t most people have twin eyes? All but an unfortunate few? You think it shouldn�t matter. You think how nice the sentiment is and how much work went into it. But the next time he goes to kiss you, all you can think is �Your twin eyes� � �

� Why bother to send teenagers to school at all? Their minds were so clogged with hormones they couldn�t possibly learn a complex system like calculus or chemistry, much less the wild tangle of a foreign language. Why put everyone to the aggravation of making them try? Prudie thought that she could do just the rest of it - watch for signs of suicide or weapons or pregnancy or drug addiction or sexual abuse - (�)
(�) Here at school every breath she took was a soup of adolescent pheromones. Three years of concentrated daily exposure - how could this not have an effect?
She�d tried to defuse such thoughts by turning them medicinally, as needed, to Austen. Laces and bonnets. Country lanes and country dances. Shaded estates with pleasant prospects. But the strategy had backfired. Now often as not, when she thought of whist, sex came also into mind.�

� You can marry someone you�re lucky to get or you can marry someone who�s lucky to get you. I used to think the first was best. Now I don�t know.�

� (�) � A dance is about who you�ll dance with. Who will ask you? Who will say yes, if you ask? Who you�ll be forced to say yes to. A dance is about its enormous potential for joy or disaster.
�You remove all that - you provide a band at an event where husbands just dance with their wives - and the only part of the dance you�ve got is the dancing.�
�Don�t you like to dance?� Sylvia asked.
�Only as an extreme sport,� Allegra answered. �With the terror removed, not so much.� �

� � I don�t read much women�s stuff. I like a good plot�. Mo said.
Prudie finished her drink and set the glass down so hard you could hear it hit. �Austen can plot like a son of a bich,� she said. �Bernardette, I believe you were telling us about your first husband�� �

� � (�)You�ve done so many things and read so many books. Do you believe in happy endings?�
� Oh my lord, yes.� Bernardette�s hands were pressed against each other like a book, like a prayer. �I guess I would. I�ve had about a hundred of them.� �

� Sylvia was not an happy-ending sort of person herself. In books, yes, they were lovely. But in life everyone has the same ending, and the only question is who will get to it first.�

� � I�m afraid we don�t have the same taste in novels,� Bernardette said (�) He encouraged Bernardette to talk more; he said listening to her would improve his English. A week later Bernardette had added Se�or Obando to her Life List.
She was married again.�

� Grigg had never quite gotten it. If we�d started with Patrick O�Brian, we could have then gone to Austen. We couldn�t possibly go the other direction.
We�d let Austen into our lives, and now we were all either married or dating. Could Patrick O�Brien have done this? �


(J.)
 


COISAS SIMPLES


Zorn
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: SELOS

Hoje, a Astronomy Picture of Today, � um selo sovi�tico sobre o "dark side of the Moon".
 


UMA NOT�CIA DOS BLOGUES IGNORADA PELA COMUNICA��O SOCIAL (Vers�o corrigida)

(Que eu saiba com excep��o de uma pe�a na SIC, pouco desenvolvida)

No dia 22 de Setembro o Bloguitica escrevia isto
[1912] MENSAGEM CIFRADA
(�)Quem foi que, muito recentemente, andou a conversar com quase todos os embaixadores de Portugal em pa�ses da Uni�o Europeia perguntando se, nos respectivos pa�ses, havia programas de televis�o em que um comentador com perfil pol�tico fazia an�lise � vida pol�tica interna sem ser sujeito a contradit�rio?


O Bloguitica � um blogue cujo autor assina o que escreve. No dia 4 de Outubro, o Ministro dos Assuntos Parlamentares disse o seguinte sobre os coment�rios de Marcelo:
"Em toda a Europa, trata-se de um caso �nico. N�o h� em pa�s algum uma pessoa a perorar 45 minutos sobre pol�tica sem ser sujeita ao contradit�rio e apenas a defender os seus interesses pessoais".

A rela��o entre uma coisa e outra � evidente. Agora o Notas Verbais acrescenta um s�rie de detalhes, nomes, datas e circunst�ncias:
Inc�modo. Maioria dos embaixadores na UE escandalizados.
H� duas semanas, sim. O assessor do PM M�rio Miranda Duarte, pelo menos assim nos asseguram de quatro capitais (�) contactou todos os embaixadores portugueses nas capitais da Uni�o Europeia no sentido de apurar se em cada um dos pa�ses h� um programa como o que Marcelo Rebelo de Sousa manteve na TVI, ou seja - um coment�rio pol�tico sem estar sujeito, em tempo �til, a escrut�nio de pol�ticos ou partidos visados. (�) Esta iniciativa foi considerada escandalosa e despropositada para as suas fun��es pela maioria esmagadora dos Embaixadores, os quais l� foram adiantando dados sobre cada realidade televisiva local.

Deve dizer-se que:

1 - O MNE, designadamente o gabinete do ministro Ant�nio Monteiro, n�o foi ouvido nem achado nessa esp�ria �actividade diplom�tica� do assessor do PM (nem sequer � o mais graduado para o efeito) que se permitiu entrar em linha directa com os Embaixadores;

2 - O diplomata Nuno Brito, principal respons�vel da assesoria diplom�tica do PM, ter� sido marginalizado nessa inciativa, por aquilo que alguns Embaixadores verdadeiramente revoltados nos dizem, ao que acrescentamos: algumas vezes temos discordado de Nuno Brito mas consideramo-lo um ex�mio profissional. (�)

O autor destas linhas � an�nimo. Assina �Anaximandro� e n�o se limita a fornecer informa��o factual, produz coment�rios. Pelo seu blogue percebe-se que � algu�m do interior do MNE e da carreira diplom�tica, com acesso a informa��o interna. Como a informa��o � an�nima, ter� que ser verificada, mas o seu grau de detalhe facilita a verifica��o. (Segundo informa��o entretanto recebida o autor do blogue ter-se-� j� identificado numa nota como o jornalista Carlos Albino, correspondente diplom�tico do Di�rio de Not�cias).

A import�ncia desta quest�o � a sua gravidade. � a imagem de Portugal que fica afectada pela utiliza��o do aparelho do Estado, e da diplomacia, para quest�es de �ndole partid�ria. Para al�m de mostrar o car�cter organizado da ofensiva contra o espa�o de opini�o de Marcelo, e a sua origem, n�o numa iniciativa individual de um ministro , mas sim no Primeiro-ministro.
 


A LER

as notas e seguir as liga��es sobre o "caso Marcelo"no Blasf�mias.

O artigo no Expresso, sem liga��o, de Nicolau Santos, sobre porque raz�o o "caso Granadeiro" � t�o (ou mais) grave do que o "caso Marcelo".

O fabuloso texto de Luis Delgado "Os censores de servi�o" no Di�rio Digital. Um dos censores sou eu. Cito:
"Ser� que um Pacheco ou um Arons, quando dizem o que disseram, nunca perceberam que est�o a ofender e a qualificar de mentecaptos e incapazes, centenas e centenas de jornalistas, que afinal se deixariam manipular, pressionar e vergar �s ordens de um qualquer administrador ou director? N�o percebem que isso � um insulto grave? E os jornalistas, igualmente, tamb�m ainda n�o entenderam que est�o a ser humilhados."

Para se compreender melhor o sentido do que diz Delgado veja-se esta lista de publica��es, de que, neste momento, � ele mesmo o principal respons�vel, citada no pedido de demiss�o de Silva Peneda. Peneda soube pelos jornais da escolha de Delgado:
"Comunicado
Constatei que o exerc�cio de fun��es de Presidente de Conselho de Administra��o n�o Executivo da Empresa Global Publica��es, S.A. detentora, entre outros, dos seguintes T�tulos: Jornal de Not�cias, 24 Horas, Di�rio de Not�cias, Not�cias Magazine, Grande Reportagem, Motor 24, National Geographic, Playstation 2, Volta ao Mundo e Evas�es, deixou de ter sentido �til.
Decidi, por isso, abandonar essas fun��es bem como as de Administrador n�o Executivo da Lusomundo Media, SGPS, S.A.
Esta decis�o foi hoje comunicada de forma fundamentada ao Presidente do Conselho de Administra��o da Lusomundo Media, SGPS, S.A. por ocasi�o da primeira reuni�o convocada daquele Conselho, ap�s os acontecimentos que provocaram a minha decis�o."

Lisboa, 8 de Outubro de 2004
Jos� Albino da Silva Peneda"
 


EARLY MORNING BLOGS 329

The Emperor of Ice-Cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

(Wallace Stevens)

*

Bom dia!

8.10.04
 


A LER

"A imprensa do Governo" de Henrique Monteiro no Expresso Online.
 


AR PURO


Weissenbruch
 


EARLY MORNING BLOGS 328

He andado muchos caminos

He andado muchos caminos
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares
y atracado en cien riberas.

En todas partes he visto
caravanas de tristeza,
soberbios y melanc�licos
borrachos de sombra negra.

Y pedantones al pa�o
que miran, callan y piensan
que saben, porque no beben
el vino de las tabernas.

Mala gente que camina
y va apestando la tierra...

Y en todas partes he visto
gentes que danzan o juegan,
cuando pueden, y laboran
sus cuatro palmos de tierra.

Nunca, si llegan a un sitio
preguntan a d�nde llegan.
Cuando caminan, cabalgan
a lomos de mula vieja.

Y no conocen la prisa
ni aun en los d�as de fiesta.
Donde hay vino, beben vino,
donde no hay vino, agua fresca.

Son buenas gentes que viven,
laboran, pasan y sue�an,
y un d�a como tantos,
descansan bajo la tierra.

(Antonio Machado)

*

Bom dia!

7.10.04
 


AR PURO



N�o � um quadro. � a Astronomy Picture of the Day e mostra a beleza do mundo.
 


A LER

A nota de CAA AGORA A S�RIO no Blasf�mias.
 


PASMO, TRISTEZA E REVOLTA

Cada vez se percebe mais que o �PPD-PSD� n�o � o PSD, mas um pequeno grupo que se comporta como tal. Basta ver como as escolhas cruciais (no aparelho da comunica��o dominado pelo estado, no controlo dos servi�os de informa��es, nas autarquias, etc.) est�o a ser feitas apenas pela fidelidade individual ao Primeiro-ministro.

Agora tudo vai depender de se saber at� que ponto h� for�as end�genas no PSD, para manter o car�cter reformista e moderado do partido, hipotecado a uma viragem � direita que o descaracteriza e o afasta do legado pol�tico de S� Carneiro, hipotecado a uma perda de vontade pol�tica de governar para reformas, deixando ao PS a ambi��o de pedir uma maioria absoluta, de que desistimos h� muito. Para isso vai ser crucial saber se o pr�ximo Congresso se realizar� em condi��es de liberdade efectiva e n�o como um plebiscito ao Primeiro-ministro e sob a chantagem emocional de manter ou n�o o partido no governo. Duvido, pelo caminho que as coisas levam, mas j� duvidei mais. (E ainda duvidaria menos se se criasse uma nova incompatibilidade impedindo de serem delegados ao Congresso todos os militantes que foram nomeados pelo governo para os muitos cargos recentemente distribu�dos�).

O pior que poderia acontecer ao PSD seria a repeti��o do unanimismo apressado que se verificou, cilindrando tudo e todos, no af� de manter o poder, mesmo que a solu��o encontrada n�o tivesse prepara��o nem compet�ncia, como ali�s todos os sinais j� apontavam. Prestamos um mau servi�o a Portugal, esquecendo que antes do partido est� o pa�s. Esta � uma frase que gostamos muito de repetir, mas que muito se esqueceu nos idos de Junho. O resultado � uma experi�ncia governativa desastrosa que vai penalizar o partido duramente, descredibilizando-o, e amea�a entregar o poder ao PS durante muito tempo. Vai demorar tempo at� que o PSD deixe de ser parte do problema e volte a ser a solu��o para uma governa��o cred�vel, reformista, honesta, s�lida, de gente competente e dedicada, com vontade de servir o bem p�blico, e que, segura do que faz, n�o tem medo dos comentadores. Eu sei que este � o desejo profundo de muitos e muitos militantes e eleitores do PSD, que assistem com pasmo, tristeza e revolta aos dias de hoje.
 


RIGOROSOS E ESPECIOSOS

Os blogues s�o um campo de observa��o muito interessante da capacidade humana de arranjar pretextos para as mais absurdas das posi��es. N�o digo que seja apenas um mal dos outros, � certamente tamb�m meu.

Uma das absurdidades que aqui se manifestam � a substitui��o do rigor, pela especiosidade, pela mania que nada se pode dizer, ou fazer antes de tudo se saber e, mesmo assim, se o que se sabe n�o serve, antes de se saber mais ainda. Esta espiral de precau��es tem como �nico objectivo, n�o aceitar ou n�o querer tirar conclus�es do que toda a gente afinal j� sabe.

Vem isto a prop�sito da hist�ria das �press�es�. Querem-nos convencer que n�o se pode falar de press�es do governo sobre a TVI , sem a implaus�vel comprova��o pela TVI ou pelo governo. Bem podem esperar sentados. N�s, os comuns mortais, n�o precisamos de mais nada: �precipitamo-nos a tirar conclus�es�, �com m� f�, porque quando um Ministro, pr�ximo do Primeiro-ministro, um Ministro insisto, (ou isso n�o significa nada neste governo?), diz o que disse, n�o � preciso mais nada.

Em qualquer democracia o que ele fez s�o press�es. S�o press�es para Marcelo, s�o press�es para a Media Capital, s�o press�es para a AACS, s�o press�es para toda a gente, menos para os especiosos. Ele n�o � um comentador, ele � o membro de um executivo. Executivo, reparem bem. Faz parte dos que mandam. Reparem bem. N�o s�o s� palavras, t�m por tr�s a possibilidade de dar e de negar, de aprovar ou recusar, de fazer ou de desfazer, de empregar ou desempregar. � por isso que s�o press�es e n�o s�o in�cuas.
 


AR PURO E ESCURO


J. C. Dahl
 


EARLY MORNING BLOGS 327

La Montagne qui accouche

Une Montagne en mal d'enfant
Jetait une clameur si haute,
Que chacun au bruit accourant
Crut qu'elle accoucherait, sans faute,
D'une Cit� plus grosse que Paris :
Elle accoucha d'une Souris.

Quand je songe � cette Fable
Dont le r�cit est menteur
Et le sens est v�ritable,
Je me figure un Auteur
Qui dit : Je chanterai la guerre
Que firent les Titans au Ma�tre du tonnerre.
C'est promettre beaucoup : mais qu'en sort-il souvent ?
Du vent.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

6.10.04
 


POBRE PA�S

o nosso. Isto est� pior do que se imaginava, e eu sempre o imaginei muito mal. Ouvi, com alguma impaci�ncia confesso, os apelos a um "talvez n�o venha a ser t�o mau como se prev�", que me pareciam da ordem da extrema bondade e de uma f� absoluta. Mas por que raz�o tinha que acreditar em milagres em pol�tica, quando n�o acredito neles no dia a dia?

Depois, a confirma��o vinha em excesso, era tudo t�o mau, t�o mau que ultrapassava as piores expectativas. Eu sei e eles sabem. Esta � que � a quest�o: eles sabem que tem sido p�ssimo, asneiras sobre asneiras, como se a realidade viesse a correr a galope mostrar que milagres, se os h�, � noutra esfera. N�o. Aqui as coisas s�o o que s�o. Se s�o m�s, continuam m�s. O pior � que eles sabem que j� perderam muito, e o desnorte e o desespero instalam-se. E com o desnorte vem ao de cima a tentativa de controlo, usando todos os meios do estado. Fraquezas, fragilidades perigosas, porque quanto mais fracos mais perigosos.


PS: sobre o que aconteceu hoje com a sa�da de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, n�o vale a pena adiantar muito mais do que j� disse no Abrupto. Na Quadratura do C�rculo discutimos o assunto, antes de ser conhecida a sa�da, e n�o � preciso mudar nada. Tamb�m n�o houve contradit�rio na Quadratura do C�rculo: todos , eu, o Ant�nio Lobo Xavier e o Jos� Magalh�es estamos de acordo em criticar o grosseiro ataque � liberdade de express�o, s� n�o sab�amos que ia ter sucesso. Amanh� no P�blico sai um artigo, que tamb�m j� tinha escrito antes, e a que n�o tenho que mudar uma v�rgula.
 


EARLY MORNING BLOGS 326

On the Extinction of the Venetian Republic


Once did She hold the gorgeous east in fee;
And was the safeguard of the west: the worth
Of Venice did not fall below her birth,
Venice, the eldest Child of Liberty.
She was a maiden City, bright and free;
No guile seduced, no force could violate;
And, when she took unto herself a Mate,
She must espouse the everlasting Sea.
And what if she had seen those glories fade,
Those titles vanish, and that strength decay;
Yet shall some tribute of regret be paid
When her long life hath reached its final day:
Men are we, and must grieve when even the Shade
Of that which once was great is passed away.


(William Wordsworth)

*

Bom dia!

 


KENNEDY E A "ESQUERDA"

Seria bom lembrar ao secret�rio-geral do PS que n�o � muito prudente aplicar a dicotomia europeia esquerda/direita � pol�tica americana sem dar asneira. Dizer que Kennedy � da "esquerda americana" � no m�nimo bizarro. Kennedy, o amigo da Mafia, o invasor da Ba�a dos Porcos, o "eu sou berlinense", encaixa mal na classifica��o, se a levarmos a s�rio. J� Lyndon Johnson, por estranho que pare�a, encaixa melhor.

5.10.04
 


DESAFIO

Por que raz�o o Ministro dos Assuntos Parlamentares n�o desafia Marcelo Rebelo de Sousa para um debate sobre a governa��o, em que assegurar� ele mesmo o contradit�rio face ao "�dio", �s "mentiras e falsidades" proferidas todos os domingos "por um comentador que tem um problema com o primeiro-ministro" Pedro Santana Lopes. Tenho a certeza que Marcelo aceitaria e que as televis�es competiriam entre si pelo debate. � certamente mais sensato e corajoso do que propor a censura dos coment�rios de Marcelo.

 


SCRITTI VENETI 15



Em S. Michele in Isola, a ilha dos mortos, procurei Ezra Pound, que sabia l� estar. Campa a campa, n�o aparecia. Havia uma n�voa matinal e as grandes arvores, ciprestes dos cemit�rios, escondiam a luz. O verde abundante era carregado. Naquela parte da ilha n�o estava ningu�m excepto um casal de dois homens, americanos, que tamb�m procurava Pound. Perguntaram-me se eu sabia. N�o sabia. Procuramos juntos, eu fui para outra ala, onde havia marinheiros ingleses, na sua maior parte mortos no final do s�culo XIX, as campas partidas e abandonadas. Morreram longe. Febres, naufr�gios. De repente encontraram-no, pouco mais do que uma placa de pedra � face do solo, coberta de heras e folhas ca�das. Fui ter com eles e um debru�ou-se e, com enorme gentileza, sacudiu com a m�o as folhas que tinham ca�do em cima do EZRA POVND. Nestes gestos simples agradece-se muita coisa, fez-se sil�ncio. Algum inc�modo. Onde estiver, o velho poeta fascista deve ter dado pela car�cia.
 


SCRITTI VENETI

Em breve, mais do mesmo.
 


OUTRO VULC�O QUE SE TOMA A S�RIO


Monte S. Helena
 


A LER

No Bloguitica a s�rie "SANTANA LOPES E GOMES DA SILVA", "GOMES DA SILVA NA BLOGOSFERA", "O VENTR�LOCO E A MARIONETE".

Trata-se nem mais nem menos do que denunciar algo que numa democracia sempre seria tido como muito grave: um apelo de responsabilidade do Primeiro-ministro, via Ministro dos Assuntos Parlamentares, � utiliza��o do aparelho de Estado para punir um delito de opini�o de um comentador pol�tico, que fala numa televis�o privada, em moldes que s� a ambos dizem respeito, � TVI e a Marcelo Rebelo de Sousa. � de liberdade de express�o que se trata, e isso por si s� justificaria a demiss�o do ministro.

4.10.04
 


INTEND�NCIA

Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS os textos da Lagartixa e o Jacar� de duas semanas de Setembro de 2004.
 


 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: POESIA BRIT�NICA CONTEMPOR�NEA

"N�o resisto a enviar-lhe mais um poema que ajuda um pouco a compreender a marginaliza��o de figuras como Bunting pelo establishment liter�rio brit�nico. �, de facto, curioso verificar como a poesia brit�nica contempor�nea mais genial e inovadora circula, ainda hoje, de forma quase clandestina em pequenas revistas e edi��es marginais (muitas vezes a cargo dos pr�prios poetas), e � ignorada quer pelo meio acad�mico, quer pelas principais revistas e jornais liter�rios. Como escreve o poeta e cr�tico ingl�s "dissidente" Clive Bush, no seu livro sugestivamente intitulado Out of Dissent, "the truly innovative are marginalised beyond the borders of silent itself." Talvez daqui a um s�culo se ou�a falar mais deles!
Aqui vai o poema:


Deconstruction Co.

Dear Sir, they write, we want clean literature,
nothing controversial or near the truth,
nothing committed, what we recommend
is writers' work for the establishment,
it's the best way to get reviewed, we hope
you'll consider the TLS,
and give up wearing mascara, lipstick,
it's bad for the image. You know, men just don't,
the Brit author is macho, conformist,
and wouldn't think like you to make a life
of poetry, who ever would?
And our advice is not to keep apart
surrounded by a small adoring cult
who look and act like you, but to participate

in parties, literary functions,
things that get you on. You seem to have no friends
in publishing, and not to be a parasite,
and this will never do. You're exclusive
and have too much mystique, what do you do
to write such censored off-beat books
that have reviewers chop your hands and feet,
and yes, we're told you wear leopardskin boots
and that's outrageous. Please, be sensible,
adopt the Andrew Motion style of dress,
blended conventionality. We hear
you have too many women friends,
all of them beautiful, and that's not done,
in terms of advancement, men stick with men.
We feel you need another reprimand
for all those seething derisive reviews
have failed to stop you writing. 30 books?
We'd burn the lot. And please pay for the stamp.

(Jeremy Reed)

PS. Curiosamente, aquele poema de Bunting que colocou no Abrupo h� uns dias atr�s, "What the Chairman Told Tom", refere a situa��o de um poeta brilhante do norte de Inglaterra, Tom Pickard, a quem foi recusado qualquer apoio que lhe permitisse dedicar-se � poesia.

(Daniela Kato)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

"Pela primeira vez desde o primeiro ano de trabalho, cerca de 24 anos volvidos, n�o fui colocado no quadro da zona pedag�gica de Bragan�a. Do n�mero 89 da lista graduada no ano lectivo anterior passei neste para mais de 500. Raz�o: opus-me a usar m�todos incorrectos, isto �, apresentar um atestado m�dico de uma doen�a incapacitante ou de ascendente ou descendente directo como o apontam ter feito mais de 60% dos meus colegas de 1.� Ciclo no distrito. Fui aconselhado por alguns, a grande maioria estava a faz�-lo, por�m sempre acreditei na transpar�ncia e lisura de processos, fundamentalmente porque sou educador e estes s�o valores subjacentes ao acto educativo! Estava redondamente enganado, colegas t�o ou mais saud�veis, com muito menos anos de servi�o e gradua��o acad�mica ultrapassaram-me. Um qualquer m�dico menos "atento" ou sem �escr�pulos� possibilitou-lhes este expediente manhoso que foi simples artif�cio para obter boa coloca��o para preju�zo de milhares de professores e de muitos outros que necessitariam, por raz�es de sa�de, desta especificidade. Imperdo�vel! Da entidade patronal, o Minist�rio da Educa��o, a garantia de fiscaliza��o redundou em nada, pois os destacamentos prosseguiram normalmente. O que interessava era come�ar o ano lectivo, quando o mais l�gico e justo seria suspender o destacamento por condi��es espec�ficas nos distritos em que claramente os n�meros indiciavam ilegalidades e situa��es menos claras. Dos sindicatos nem uma palavra para esta abomin�vel situa��o, numa atitude corporativista e intoler�vel. Da ordem dos m�dicos nem o mais pequeno passo para uma investiga��o, quando os ind�cios s�o mais que �bvios. "

(Jos� Alegre Mesquita)

*

"Coloca��es de Professores: tudo est� mal quando acaba bem

Depois da publica��o da lista de coloca��es em 28 de Setembro de 2004, h� definitivamente algo que n�o bate certo.
Numa mensagem anterior, levant�mos a hip�tese da natureza matem�tica do problema impedir a resolu��o do mesmo. Na mesma mensagem, foi feita a sugest�o de divulgar os dados do problema de forma a aproveitar o conhecimento existente sobre esse tipo de problemas por qualquer pessoa que por eles se interesse. Julgamos que ainda se vai a tempo de aproveitar esta oportunidade de Divulga��o Cient�fica.
Este assunto ir rapidamente desaparecer dos notici�rios, n�o quer dizer que tenha sido resolvido. Das duas uma: ou o algoritmo � correcto e d� uma lista sem erros, ou n�o � correcto e desrespeita as regras do concurso (excluindo a arrepiante hip�tese de os profissionais encarregues do sistema inform�tico n�o serem capazes de lidar com uma base de dados, implementar um algoritmo ou ordenar uma lista, e excluindo outras hip�teses igualmente assustadoras).
Sugere-se que o algoritmo utilizado seja divulgado - s� assim se poder� saber se as regras do concurso foram desrespeitadas ou n�o.
Sendo esta sugest�o, porventura, demasiado ambiciosa, ficamos � espera do que a Comiss�o de Inqu�rito ter� a dizer sobre problemas NP...
Bom ano lectivo!"


(Filipe Pereira e Alvelos / Ac�cio Costa)
 


SCRITTI VENETI 14

Na loja Internet, de onde de vez em quando escrevo, chegado aqui no labirinto das ruas por um simples @ colado nas paredes com uma seta, parece que est� sempre a chover. De noite, a sensa��o era mais forte. Parava de escrever, e olhava para a vitrina a ver se estava a chover. Nada. Era o canal atr�s cujo ru�do das �guas chega como se fosse chuva. Ali chove sempre, n�o se pode fugir.
 


SCRITTI VENETI 13



O que � a cultura? Eu respondo olhando esta escultura que est� num dos lados da Catedral de S. Marcos. Nada do que ela representa existe, a n�o ser o doge ajoelhado. Existe? N�o existe nenhum doge que se tenha ajoelhado diante de um le�o. N�o h� na terra nenhum le�o alado, com face humana, segurando um livro. O le�o olha para a cidade, para o mar, o doge para o le�o. Tudo � s�mbolo, sobre s�mbolo, sobre s�mbolo. O le�o representa, como se sabe, uma abstrac��o: a rep�blica. A primeira palavra do livro � outra abstrac��o, mais desejada do que tudo, �Pax�. O doge ajoelha-se perante abstrac��es: o poder est� no le�o e n�o no doge, o le�o fala-lhe de paz e mostra o livro aberto ao povo, que n�o se v�, mas v�.

� isto a cultura: uma inven��o da imagina��o humana, contra natura, contra o terror, contra o caos, por uma ordem superior feita de um teatro de conven��es simb�licas que nos protegem, e que s�o a civiliza��o. Tudo muito fr�gil, tudo constru�do, tudo inventado, tudo quase no limiar de nada. O doge pode p�r-se a p� e matar o le�o, ou o le�o comer o doge, o livro cair para a popula�a o destruir, a primeira palavra pode n�o ser �Pax�, mas guerra. A cultura � uma fr�gil defesa, mas existe. Est� ali, em pedra, s�mbolo de obedi�ncia do homem a conven��es abstractas que ele criou e que s� existem quando h� vontade que existam. Nada depende mais da vontade do que a cultura e a civiliza��o. Somos n�s que as fazemos, somos n�s que as desfazemos.
 


EARLY MORNING BLOGS 325

A list of some observation. In a corner, it's warm.
A glance leaves an imprint on anything it's dwelt on.
Water is glass's most public form.
Man is more frightening than its skeleton.
A nowhere winter evening with wine. A black
porch resists an osier's stiff assaults.
Fixed on an elbow, the body bulks
like a glacier's debris, a moraine of sorts.
A millennium hence, they'll no doubt expose
a fossil bivalve propped behind this gauze
cloth, with the print of lips under the print of fringe,
mumbling "Good night" to a window hinge.


(Joseph Brodsky)

*

Bom dia!

3.10.04
 


SCRITTI VENETI 12












Numa rua que n�o tem mais de tr�s metros de largura, a Casselleria, est� a pequena livraria Filippi, especializada em livros sobre Veneza. L� estava uma edi��o moderna da Hypnerotomachia Poliphili, e uma s�rie de livros antigos e modernos sobre a cidade. Vi, com gosto, no cat�logo a frase de Aulio G�lio que d� nome ao blogue irm�o VERITAS FILIA TEMPORIS.
 


SCRITTI VENETI 11



Na ilha dos mortos, um retrato da dor absoluta. Bambino mio.
 


SCRITTI VENETI 10

Veneza tem duas caras. Uma, a da beleza infinita, do orgulhoso poder, da vontade imperial de uma rep�blica aristocr�tica e comercial, um pequeno estado eficaz e civilizado. Outra, � a da decad�ncia. � verdade que a decad�ncia toca a tudo e a todos, mas, nos momentos decisivos da hist�ria, essa decad�ncia nem sempre se v�. Os gregos deca�ram pouco a pouco, mas para se falar da decad�ncia dos gregos � quase preciso saltar dois mil anos. Os romanos conheceram a decad�ncia e, nalgumas p�ginas magn�ficas, Gibbon fala dessa decad�ncia de forma pungente, no retrato que faz das personagens do fim do imp�rio. � muito uma decad�ncia de valores, que, a seu tempo, corr�i tamb�m as pedras. Poetas como Bellay e pintores como Piranesi identificaram essa decad�ncia nas ru�nas imperiais, mas estavam a falar mais de mil anos depois, e no caso deste �ltimo, no limiar de uma sensibilidade rom�ntica que gostava de ru�nas.

Mas em Veneza h� uma esp�cie de decad�ncia sempre presente, como se estivesse literalmente nas costas da cidade �seren�ssima�, como se a cidade se pudesse deixar do lado dos m�rmores e chegar ao lado da terra, de uma terra que misturada com a �gua produz lama e n�o transpar�ncia. A cidade, talvez porque sempre teve presente o mau cheiro do metano, do enxofre, da podrid�o, das �guas mortas dos canais, suspeitou sempre que alguma coisa estava a morrer dentro de si. As epidemias, a peste, tamb�m ensinavam isso regularmente aos venezianos, que sabiam que viviam numa terra miasm�tica e num porto onde arribavam mercadorias, mas tamb�m ratos e doen�as.



Um homem retrata isso melhor que ningu�m, Ant�nio Canal dito Canaletto, mais nas suas gravuras do que nas suas pinturas. Sempre que Veneza n�o me est� presente no olhar, mas na mem�ria, � antes de tudo Canaletto que vejo. Ningu�m como ele retrata a fronteira de tr�s, o abandono das constru��es do passado, os remendos de madeira sobre a pedra, os panos transformados em farrapos, as personagens perdidas num caminho esbo�ado na terra, mas que n�o conduz a lado nenhum.
 


INTEND�NCIA

Corrigida a nota SCRITTI VENETI 4, acrescentada de umas fotos telef�nicas, ou seja , m�s.
 


SCRITTI VENETI 9



Eu n�o sei se h� segredos nesta cidade. N�o deve haver nenhum que sobre. N�o h� pedra, inscri��o, graffiti, po�o, canal obscuro, rua perdida, jardim interior, sobre o qual n�o se tenha escrito. N�o h� lenda, fantasma, assombra��o, raio de sol, posi��o da lua, sil�ncio s�bito, sobre o qual n�o se tenha escrito. Passeia-se em Veneza, longe dos turistas, para os lados de tr�s da cidade, para junto da Madonna do Orto, onde tudo parece diferente da multid�o entre San Marco e o Rialto e olha-se para os p�s e v�-se o tra�o de mil palavras tamb�m ali. A �ltima vaga de palavras, o �ltimo recenseamento dos segredos, veio dos amadores de Corto Maltese trazidos pelos mist�rios e as sombras. �, n�o h� segredos. E, no entanto, que faz ali aquela marca de giz que parece um �mega�

2.10.04
 


SCRITTI VENETI 8



N�o � todos os dias. Ter nas minhas m�os, tocar ao de leve, a Hypnerotomachia Poliphili.

*

Cortesia da Isabel Goul�o fico a saber que o livro tamb�m existe na Biblioteca Nacional. A ficha completa � esta:

COLUMNA, Franciscus, O.P. 1433-1527,
Hypnerotomachia Poliphili / [adc. Leonardus Crassus, Johannes Baptista Scytha e Andreas Maro] . - Venezia : Aldo Manuzio, Dezembro 1499. - [234] f. : il. ; 2� . - HC 5501, GW 7223, Pell 3867, Polain 1126, IGI 3062, Goff C-767, BMC V 561 (IB 24500). - Assin.: 2//4 a-y//8 z//10 A-E//8 F//4. - Grav. ilustrando o texto sobre desenhos de autor desconhecido; cap. grav. - Variante na f. [5], l.5: O E final da palavra SANEQVE raspado e subst�tuido por AM (cfr. GW)
BN F. 4710 Microfilme
 


TELEVIS�ES

Em It�lia h� um caso actual muito parecido com o do crime de Figueira, em que tamb�m se procura um corpo de uma crian�a, sendo os familiares suspeitos. As televis�es italianas s�o o que s�o, mas nem imaginam a diferen�a do tratamento e a respira��o dos notici�rios, apesar de tudo centrados no que conta: pol�tica, nacional e internacional, economia, eventos. Mesmo em It�lia, insisto.
 


INTEND�NCIA

Corrigido os SCRITTI VENETI 3 e acrescentadas umas fotos de telefone, de m� qualidade.
 


SCRITTI VENETI 7

Acabou finalmente a rodagem do filme sobre o libertino. Desmontou-se a forca, que estava fora do seu s�tio hist�rico, mais � frente do que devia. O local certo era entre as colunas de S. Marcos e S. Teodoro, o lugar mais aziago da cidade. H� um dito veneziano do g�nero: �ainda te ponho a ver as horas�, porque o condenado a �ltima coisa que via era o grande rel�gio em frente. Via o seu �ltimo minuto.

(foto de telefone)

(Note-se, de passagem, que Casanova nunca correu tal risco. A sua pris�o tornada c�lebre pela fuga do inexpugn�vel c�rcere de Piombi, mesmo atr�s do Pal�cio, nos telhados da ala renascentista, foi por blasf�mia e suspeitas de alquimia, crimes que na �poca j� s� levavam � pris�o quando o comportamento era demasiado escandaloso ou quando serviam de pretexto para suspeitas pol�ticas.)
 


SCRITTI VENETI 6

Tarde na noite, por volta das quatro, cinco da manh�, os jornais encontram-se com os pen�ltimos bo�mios. O barco dos jornais, um dos que dizem �trasporto cose�, vai, de cais em cais, com a sua equipe de dois homens deixar os jornais do dia. Um atira os ma�os do barco, outro recebe-os e coloca-os numa arca de metal com cadeado. Depois, partem r�pido para o cais seguinte. Mais tarde, o povo das tabacarias desce da cidade at� junto � �gua a buscar as novidades. Nos cais, pequenos grupos, semi-adormecidos, encostam-se aos vidros � espera do vaporetto, o 1 ou o 42, para a grande volta circular.
 


OS ACENTOS COMO FORMA DE CHUVA

Hoje, finalmente, choveu nas minhas palavras. Mesmo longe, consegui ter acentos. Ja j� � j�.

1.10.04
 


SCRITTI VENETI 5

Continua o filme sobre o Casanova entre o Palacio dos Doges e as colunas de S. Marcos e S. Teodoro. Ao meu lado passa um cardeal conversando com uma camponesa, um peralvilho pega numa garrafa de agua e poe uma mochila as costas. Um coche dourado repete vezes sem conta a mesma cena de trazer alguem para junto do cadafalso. Umas vezes tapam os cavalos pretos com uma colcha, outra variam a companhia do cocheiro e o cocheiro, outras colocam um criado qualquer dependurado na porta. O mesmo coche faz por cinco, sempre igual, sempre diferente. As pombas entram no cenario `as centenas, os segurancas dizem aos turistas: "No flash". Se fosse a Guerra das Estrelas ficava a ver, assim fujo para a Riva dei Schiavoni. Aproxima-se o por do Sol sobre as ilhas, e sempre posso falar com o Leao e o Crocodilo.

(Sem acentos)
 


CLUBE DOS JORNALISTAS

Presumo que uma entrevista que dei ao Clube dos Jornalistas da 2 ter� passado ontem na televis�o. Nela cometo um erro que queria corrigir: embora tenha havido ocasi�es em que a SIC Noticias ultrapassou a 2 em audi�ncias, isso n�o � a regra mas a excep��o.
 


SCRITTI VENETI 3



De manha cedo. Na ilha dos mortos. Campa de Brodsky, abandonada, num canto de cemit�rio evang�lico. No meio da campa, um pinheiro manso tenta crescer. Um ramo de flores ressequidas. Em cima da l�pide, um monte de pedrinhas e conchas segura um pequeno colar barato de fantasia. Um rebu�ado dourado. No ch�o, de um lado, uma garrafa pequena de lemoncello, um seixo. Do outro lado, uma pasta de pl�stico com pap�is, suja da chuva e um vaso com canetas e l�pis. Cheio. Deixei mais uma. Coisas.

 


SCRITTI VENETI 4




Um velho encosta o corpo nos Tetrarcas. N�o sei se nos de Ocidente, ou nos de Oriente.

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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