ABRUPTO

31.7.04
 


BLUE MOON


(Cortesia de Astronomy Picture of the Day)

Hoje � noite de Lua Azul, de �blue moon�, duas luas cheias no mesmo m�s. Desde Novembro de 2001, n�o havia nenhuma. V�-la-ei a cair para dentro de quatro paredes brancas, por entre os ramos de um loureiro.
 


INTEND�NCIA

ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO


em actualiza��o.
 


OUVINDO �SWINGING ON A STAR�






divertindo-me, sem inoc�ncia que sobre. N�o � que estes velhos tipos das can��es de Hollywood sabiam todas as perguntas certas: vejam l� se a mula, o porco e o peixinho �slippery� n�o andam a� � volta? Perguntem ao Bing Crosby.

Would you like to swing on a star
Carry moonbeams home in a jar
And be better off than you are
Or would you rather be a mule?

A mule is an animal with long funny ears
Kicks up at anything he hears
His back is brawny but his brain is weak
He's just plain stupid with a stubborn streak
And by the way, if you hate to go to school
You may grow up to be a mule

Or would you like to swing on a star
Carry moonbeams home in a jar
And be better off than you are
Or would you rather be a pig?

A pig is an animal with dirt on his face
His shoes are a terrible disgrace
He has no manners when he eats his food
He's fat and lazy and extremely rude
But if you don't care a feather or a fig
You may grow up to be a pig

Or would you like to swing on a star
Carry moonbeams home in a jar
And be better off than you are
Or would you rather be a fish?

A fish won't do anything, but swim in a brook
He can't write his name or read a book
To fool the people is his only thought
And though he's slippery, he still gets caught
But then if that sort of life is what you wish
You may grow up to be a fish
A new kind of jumped-up slippery fish

And all the monkeys aren't in the zoo
Every day you meet quite a few
So you see it's all up to you
You can be better than you are
You could be swingin' on a star�


(Johnny Burke, Jimmy Van Heusen)
 


O MAR


Johann Christian Dahl

Como � que se pode olhar para o mar sem solid�o? Como � que se pode olhar para o mar e ter que ver antes a multid�o t�xtil a cores, ver a praia, n�o a praia da areia mas a praia dos corpos, a balb�rdia?

(Eu sei que esta nota � reaccion�ria. Eu sei da hist�ria toda. Eu sei que tamb�m aqui h� um bem escasso e suposto ser para todos, logo estar cheio. Eu sei que desde que a Frente Popular concedeu f�rias pagas, tamb�m os oper�rios t�m direito ao seu Deauville particular. Eu sei que a ecologia acabou naquele dia, eu sei que a terra � pequena e as gentes muitas. Eu sei que cada chin�s tem direito inalien�vel ao seu autom�vel e frigor�fico, pese embora � camada de ozono, a abund�ncia da abund�ncia. Eu sei que hoje a praia � o povo voltado de costas a dourar, ou pelo menos uma parte substancial do dito. Eu sei disso tudo. Mas, Senhor, porque n�o nos d�s mais espa�o, para se poder olhar o mar como deve ser?)


*

Mas, Senhor, porque n�o nos d�s mais espa�o, para se poder olhar o mar como deve ser?� D� e generosamente, por esta costa fora. Onde? Em todos os recantos onde s� se chegue a p� e com mais de dez minutos de caminhada."

(M.H.)
 


EARLY MORNING BLOGS 268

maggie and milly and molly and may


maggie and milly and molly and may
went down to the beach(to play one day)

and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn't remember her troubles,and

milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles:and

may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose(like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea


(e. e. cummings)

*

Maggie and milly and molly and may, bom dia!

30.7.04
 


POEIRA DE 29 DE JULHO



Hoje, h� cento e trinta e dois anos, Whistler pintava um dos seus mais famosos retratos, o de Thomas Carlyle. Carlyle n�o queria posar mais do que uma ou duas vezes, Whistler acabou por exigir que o fizesse muitas vezes. Carlyle achava a experi�ncia insuport�vel, e, todas as vezes que se movia um pouco, Whistler berrava: �Por amor de Deus, n�o se mexa!� Carlyle, que j� estava com pouca paci�ncia, acabou por perceber que o que mais interessava a Whistler era o seu casaco... Dizia de Whistler �que era a mais absurda criatura � face da terra�. Pode ter sido, mas que o casaco ficou bem pintado neste Arrangement in Grey and Black Number 2, ficou.

29.7.04
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DO OUTRO LADO DO ESPELHO

"A prop�sito deste nosso cada vez mais pobre pa�s, lembrei-me de uma das cenas de Alice do Outro Lado do Espelho de Lewis Carroll; em que depois de passar para a casa do espelho, Alice descobre que quando quer ir ter com alguma coisa, tem de caminhar no sentido contr�rio. Hilariante situa��o.
Pois parece-me, que n�s por c�, na terra da realidade, definimos as pol�ticas, definimos os objectivos, escolhemos os pol�ticos e estabelecemos as metas (agora de dois em dois anos), e caminhamos, igualmente, em sentido contr�rio. Com a �via diferen�a de que enquanto Alice se aproxima do desejado, n�s nos afastamos cada vez mais."

(Ivo Monteiro)
 


EARLY MORNING BLOGS 267

Hymn to the Neck


Tamed by starched collars or looped by the noose,
all hail the stem that holds up the frail cranial buttercup.
The neck throbs with dread of the guillotine's kiss, while
the silly, bracelet-craving wrists chafe in their handcuffs.
Your one and only neck, home to glottis, tonsils,
and many other highly specialized pieces of meat,
is covered with stubble. Three mornings ago, undeserving
sinner though she is, yours truly got to watch you shave
in the bath. Sap matted your chest hair. A clouded
hand mirror reflected a piece of your cheek. Vapor
rose all around like spirit-infested mist in some fabled
rainforest. The throat is the road. Speech is its pilgrim.
Something pulses visibly in your neck as the words
hand me a towel flower from your mouth.


(Amy Gerstler)

*

Bom dia!

28.7.04
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: FOGO PURO



Esta mancha est� a atravessar o Sol por estes dias. Poucas imagens existem que retratem tanta viol�ncia, o tumulto do Inferno, do absoluto inabit�vel, como estas correntes de plasma, estes rios de fogo puro contorcendo-se, presos por for�as ainda maiores do que as suas, presos pelas linhas invis�veis da natureza, presos pela gravidade, presos pelo campo magn�tico do Sol.

(Esta magnifica imagem � de um astr�nomo amador Jack Newton.)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O EGO POL�TICO

"De como o ego pol�tico se manifesta nas conversas faladas e escritas:

(1) Do Programa "Outras Conversas" em 25 de Julho de 2004 Entrevista ao Dr. Marques Mendes:

"As minhas ideias, as minhas convic��es..."

Quais? J� agora faz-nos o favor de nos dizer quais s�o? Muito obrigado!

(2) Da "�nica" do Expresso de 24 de Julho de 2004. Entrevista ao Dr. Jos� S�crates:

"Sou um animal feroz"

"Fui ao estrangeiro pela primeira vez aos 20 anos"

"A televis�o mata (...) Eu estive l� ano e meio"

"Acho escandalosos os ordenados dos gestores"

"Tamb�m sou um esteta"

(3) O que est� escondido:

Na mesma entrevista a S�crates fala-se de g�nero:

(...)"A nova fam�lia � baseada na igualdade entre g�neros ."

Fala-se tamb�m de beleza:

"Receita de mulher: As feias que me perdoem mas beleza � fundamental. Sim, tamb�m sou um esteta".

Ser� que a igualdade entre g�neros � compat�vel com a idolatria da beleza e o medo do fog�o?

Ent�o quem faz a comida l� em casa? A criada? Vem de fora? Ou l� em casa n�o se come?
(...)"

(H. Preto)


 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SUD�O

"(...) estranho o seu sil�ncio sobre a situa��o no Sud�o e estranho mais ainda porque me recordo das suas palavras cr�ticas sobre a in�rcia da comunidade internacional, nomeadamente da ONU, aquando do genoc�dio no Ruanda.

No seguimento do recorrente conflito no Iraque e, utilizando as suas palavras, "numa altura em que nada acontece de relevante", seria bom que "as televis�es, o mais poderoso meio de comunica��o social" dispensassem alguns segundos para o seguinte:

O Congresso americano aprovou por unanimidade uma resolu��o considerando a crise do Darfur um genoc�dio e pediu a interven��o urgente dos Estados Unidos. Foi entregue um projecto americano no Conselho de Seguran�a da ONU a prever san��es contra Cartum caso o Governo n�o desarme as mil�cias �rabes.
O Congresso pediu tamb�m � Administra��o do Presidente George W. Bush que assuma a palavra genoc�dio e que lidere uma ac��o internacional para lhe p�r cobro, eventualmente uma interven��o unilateral para impedir o genoc�dio caso as Na��es Unidas n�o intervenham. A juntar a isto o Ex�rcito brit�nico est� preparado para enviar 5000 soldados para o Darfur.

As associa��es a outras interven��es militares e o mediatismo de palavras como petr�leo, interesses econ�micos e neo-imperialismo ficam para um pr�ximo coment�rio."

(Lu�s Faria)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O "DIRECTOR DE ESCOLA"...

"Pensar � cada vez mais raro�talvez venha a ser mesmo rotulado, num futuro pr�ximo, de acto pouco recomend�vel. J� quase ningu�m usa um discurso pr�prio. Ouve-se, at� ao fio, r�plicas e colagens das j� banalidades, alheias, na comunica��o social e no meiozinho de cada um de n�s. Pensar est� mesmo fora de moda. Fala bem, voc�, na nossa menoridade c�vica, no caso, barrigadas de futebol versus aus�ncia de debate do programa do governo. Mas que programa? H� dias, quando o programa foi conhecido, procurei avidamente as p�ginas das inten��es e das medidas na Educa��o� l� s� encontrei, al�m de umas banalidades, umas deseduca��es como a figura de Director de Escola que j� n�o existe�e de resto�aus�ncia."

(Concei��o Lopes)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: FOGO


Foto do fogo de Mafra de ontem, enviada por Ant�nio Rodrigues 2.� Comandante QH Bombeiros Volunt�rios da Pontinha.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: �A different kind of life? I didn�t know life came in kinds.�

"Quando Coetzee ganhou o Nobel e vi as not�cias desencadeadas pela atribui��o do pr�mio, mais do que o que li escrito sobre ele e por ele, gostei do que as suas fotografias me revelavam. Uma cara de tra�os equilibrados e finos, um ar elegante, quase seco e asc�tico. Fiquei com vontade de conhecer a sua obra e por diversas vezes os seus livros me saltaram para a m�o, mas acabei sempre por sacudi-los por tanto me incomodar a capa de �Disgrace� com aquele c�o faminto e sarnento no meio de �nada�, ou melhor de lixo parco, met�lico, seco e desolado.

(�)Aderi de imediato � escrita de frases curtas e depuradas de Coetzee que, apesar da eleg�ncia e subtileza, n�o deixa de ser acutilante e por vezes quase cir�rgica tom que lhe � dado pela sensa��o de dist�ncia, alguma ironia e por vezes algum humor quase negro: frisando a ambival�ncia da palavra �negro� no contexto deste romance. Os di�logos s�o espelho desta linguagem e transmitem de forma clara, na minha opini�o, mais do que a �condi��o humana� em abstracto a condi��o do �ser homem�, �ser divorciado�, �ter sido marido�, �ser sul-africano�, �ser �branco-sul-africano�, �ser pai�, �ser filha�, �ser branca no meio de negros�, e todos os outros �ser isto ou aquilo�. As personagens atrav�s do di�logo (�Disgrace� � um romance pouco descritivo) mostram sem contempla��es ou convenientes compromissos a ess�ncia deles mesmos e das suas op��es, algumas delas ditadas por um �fado� ao qual n�o escapam e que � indissoci�vel do �ser��.

Retomaria o adjectivo met�lico ao qual juntaria o est�ril para qualificar muito mais no livro: as rela��es entre as personagens, o tipo de interac��es sexuais no romance mesmo quando aparentemente existe desejo ele aparece sempre com n�o correspondido; uma pequena excep��o: a recorda��o sensual dos primeiros tempos com Rosalind. Tamb�m a paisagem rural tem esse cunho est�ril do metal, tal como a presen�a constante como pano de fundo dos c�es. A marca do �est�ril� est� presente at� na criatividade fecunda (a ��pera�, por exemplo, que nunca evolui) e tem apenas uma excep��o marcada pela viol�ncia do destino.

A desola��o da desagrad�vel capa do c�o � um bom ind�cio do que espera o leitor ao abrir o romance; mas a beleza da linguagem, a riqueza das personagens e o absurdo dos seus dilemas, dificilmente se adivinharia."

(JPC)

 


O INC�NDIO DE BOTICAS

� como se fosse na minha terra, aos p�s de minha casa. Tamb�m eu tive �casa� em Boticas e quando l� cheguei tinha havido um grande inc�ndio, a sul do que ocorreu agora, na mata que ia de Boticas para a Praia de Vidago. No Inverno, as luzes do carro eram �engolidas� pelo negro que cobria tudo � volta. N�o sabia que este fen�meno existia: por mais brilhantes que fossem os far�is, m�ximos ligados, e a subida da encosta para Pinho era feita quase �s escuras. A mesma escurid�o caminha agora na direc��o do Larouco, monte de nome mais antigo que a coloniza��o romana, e as faces dos que combatem o inc�ndio s�o de meus amigos e conhecidos. Corrijo: em Boticas, os conhecidos s�o amigos. Espero que tudo acabe em bem, ou em menos mal.

 


SABEDORIA POPULAR

Para os que, distra�dos, a esquecem : �o peixe apodrece pela cabe�a�.

 


POEIRA DE 28 DE JULHO

Hoje, h� sessenta e dois anos, uma jovem judia holandesa, Etty Hillesum, dirigiu-se para a sua caixa do correio. L� estava um envelope com um formul�rio para preencher como �judia�. Eram sete e meia da manh�. Etty sabia o que estava a come�ar dentro daquele envelope e suspeitava como ia acabar. Entregou-se primeiro a Deus, depois a Rilke e a Jung, por esta ordem. Pensou: �vou deixar que a cadeia deste dia se desenrole elo a elo, n�o vou interferir, apenas ter f�.� Depois: �trarei Jung e Rilke comigo, aconte�a o que acontecer�. Olhou para a sua casa: aconte�a o que acontecer �estes dois �ltimos anos brilhar�o sempre no limite da minha mem�ria como uma paisagem gloriosa�. For�ou interiormente a mem�ria: �quando tiver que me ir embora, levarei tudo comigo.

IR EMBORA. Etty decidiu voluntariamente ir para Westerbork, o campo de tr�nsito. Pr�xima paragem: Auschwitz. L� morreu, com vinte e nove anos, pouco mais de um ano depois deste dia, abandonada por Deus e com o seu Jung e o seu Rilke.
 



Fede Galizia
 


EARLY MORNING BLOGS 266

Home

I didn't know I was grateful
for such late-autumn
bent-up cornfields

yellow in the after-harvest
sun before the
cold plow turns it all over

into never.
I didn't know
I would enter this music

that translates the world
back into dirt fields
that have always called to me

as if I were a thing
come from the dirt,
like a tuber,

or like a needful boy. End
Lonely days, I believe. End the exiled
and unraveling strangeness.


(Bruce Weigl)

*

Bom dia!

27.7.04
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: GIGANTOMAKHIA






Mimas, o gigante, filho da castra��o de Urano, l� est�, parecido com a �Estrela da Morte� da Guerra das Estrelas, brilhando no escuro. Quando Herschel o descobriu era apenas um ponto de pouca luz. Agora mostra-se � Cassini, quase partido pelo impacto que lhe moldou a cratera, mas sem se ver o corpo destru�do pelo ferro em brasa, com que H�rcules o matou, nem os cabelos negros que Hes�odo ( ou Apolodoro, ou Pausanias, n�o me recordo) dizia que ele tinha.

 


TEORIA POL�TICA DO SABONETE: �SABONETIZ�VEL� / �N�O-SABONETIZ�VEL�

Agora passa a haver uma nova categoria pol�tica, desenvolvendo uma velha afirma��o de Rangel sobre a capacidade da televis�o para vender presidentes como sabonetes. Essa categoria, formulada por um par de opostos, � �sabonetiz�vel� / �n�o-sabonetiz�vel�. Proponho um novo bar�metro medindo a qualidade virtual de �sabonetiz�vel�, a confrontar depois com as audi�ncias do �sabonete�.

 


LEITURA OBRIGAT�RIA

Nota de Gabriel Silva "CORTES? AQUI N�O, OBRIGADA!" no Blasf�mias.

Nota de "Neptuno" "UM DIA SEM DEMAGOGIA" no Mar Salgado .
 


EARLY MORNING BLOGS 265

A Cada Qual


A cada qual, como a 'statura, � dada
A justi�a: uns faz altos
O fado, outros felizes.
Nada � pr�mio: sucede o que acontece.
Nada, L�dia, devemos
Ao fado, sen�o t�-lo.

(Ricardo Reis)

*

Bom dia!
 


UM MILH�O DE "PAGEVIEWS"

J� h� algum tempo que o Abrupto ultrapassou um milh�o de "pageviews". J� o devia ter assinalado, mas, no meio desta confus�o toda, passou. Obrigado aos seus leitores.

26.7.04
 


A CAMINHO DO ZERO

As televis�es, o mais poderoso meio de comunica��o social, falam de inc�ndios e futebol. Os inc�ndios justificam-se, embora n�o se justifique de todo a explora��o das pessoas atingidas pelo fogo, das suas emo��es e do seu medo. Nestas ocasi�es, a c�mara e o microfone s�o coisas obscenas. O futebol, numa altura em que nada acontece de relevante, tornou-se um cont�nuo, as televis�es j� n�o sabem viver sem futebol.

Tudo o resto n�o existe. Algu�m se deu ao trabalho, na televis�o generalista e ,por maioria de raz�o, na p�blica, de fazer uma discuss�o s�ria do programa de governo, essa coisa �nfima frente ao futebol? Assim se consolida a nossa menoridade c�vica.
 


BIBLIOFILIA



Com os livros vindos de Bruxelas, est�o alguns que ainda nem sequer folheei. Para o amador de livros � como se os tivesse comprado hoje. Dois entre eles: Iaroslav Lebedynsky, Les Cosaques. Une Societ� Guerri�re entre Libert�s et Pouvoirs. Ukraine- 1490-1790, Paris, Editions Errance, 2004 e Hans K�ng, The Catholic Church, Londres Phoenix Press, 2002.
Deles darei not�cia.

 


POEIRA DE 26 DE JULHO

Hoje , h� setenta e um anos, Elizabeth Smart sentia-se pregui�osa. Os dias passavam e tinha a sensa��o que n�o fazia nada. Lia . Estava a ler o Amante de Lady Chatterley. Ao almo�o comentou com as amigas que estava a ler o �livro proibido�. Uma das suas companheiras de almo�o indignou-se: �I think it�s perfectly disgusting to want to read a book my country won�t allow�.

Elizabeth n�o sabia bem o que lhe dizer. �Ser� que n�o quer formar a sua pr�pria opini�o?� N�o queria, estava bem assim.
 



Roy Lichtenstein, Washing Machine
 


UMA CASA EMPACOTADA

A �minha� casa belga chegou empacotada. Dividida em caixas de cart�o: livros, computador, lou�a � FR�GIL -, pap�is �que estavam em cima da mesa�, material de escrit�rio. Os m�veis falam por si, n�o precisam de etiqueta. �Objectos�, quadros, mais livros.

A geografia transporta o tempo. Quem olhar� agora da varanda sobre o jardim da Porte de Halle? A �bouquinerie marxiste-leniniste� continuar� por quanto tempo? A mercearia grega, com a fila clara das garrafas de retsina, est� aberta ou fechada? E L�Ecrit Vint com o seu sil�ncio? Como crescer� a crian�a que l� costumava estar? O Vasco continuar� a ir aos livros na Waterstone's e a dizer "se n�o fosse este v�cio fic�vamos ricos". E o meu supermercado de estima��o, escondido numa garagem, com uma fila de pedintes � porta e cem l�nguas l� dentro? E o caf� do Porto? Nevar� no escuro, como numa noite, de repente. �Rien ne m'est s�r que la chose incertaine�.

 


EARLY MORNING BLOGS 264

If You Get There Before I Do

Air out the linens, unlatch the shutters on the eastern side,
and maybe find that deck of Bicycle cards
lost near the sofa. Or maybe walk around
and look out the back windows first.
I hear the view's magnificent: old silent pines
leading down to the lakeside, layer upon layer
of magnificent light. Should you be hungry,
I'm sorry but there's no Chinese takeout,
only a General Store. You passed it coming in,
but you probably didn't notice its one weary gas pump
along with all those Esso cans from decades ago.
If you're somewhat confused, think Vermont,
that state where people are folded into the mountains
like berries in batter. . . . What I'd like when I get there
is a few hundred years to sit around and concentrate
on one thing at a time. I'd start with radiators
and work my way up to Meister Eckhart,
or why do so few people turn their lives around, so many
take small steps into what they never do,
the first weeks, the first lessons,
until they choose something other,
beginning and beginning their lives,
so never knowing what it's like to risk
last minute failure. . . .I'd save blue for last. Klein blue,
or the blue of Crater Lake on an early June morning.
That would take decades. . . .Don't forget
to sway the fence gate back and forth a few times
just for its creaky sound. When you swing in the tire swing
make sure your socks are off. You've forgotten, I expect,
the feeling of feet brushing the tops of sunflowers:
In Vermont, I once met a ski bum on a summer break
who had followed the snows for seven years and planned
on at least seven more. We're here for the enjoyment of it, he said,
to salaam into joy. . . .I expect you'll find
Bibles scattered everywhere, or Talmuds, or Qur'ans,
as well as little snippets of gospel music, chants,
old Advent calendars with their paper doors still open.
You might pay them some heed. Don't be alarmed
when what's familiar starts fading, as gradually
you lose your bearings,
your body seems to turn opaque and then transparent,
until finally it's invisible--what old age rehearses us for
and vacations in the limbo of the Middle West.
Take it easy, take it slow. When you think I'm on my way,
the long middle passage done,
fill the pantry with cereal, curry, and blue and white boxes of macaroni, place
the
checkerboard set, or chess if you insist,
out on the flat-topped stump beneath the porch's shadow,
pour some lemonade into the tallest glass you can find in the cupboard,
then drum your fingers, practice lifting your eyebrows,
until you tell them all--the skeptics, the bigots, blind neighbors,
those damn-with-faint-praise critics on their hobbyhorses--
that I'm allowed,
and if there's a place for me that love has kept protected,
I'll be coming, I'll be coming too.

(Dick Allen)

*

Bom dia!

25.7.04
 


APRENDAM A CONGA, QUE VAI SER �TIL,

Ouvindo Doris Day a cantar "(I Ain't Hep To That Step, But I'll) Dig It�, a can��o que Fred Astaire usa para �levar� Paulette Godard em Second Chorus. Parece que a Godard nunca tinha dan�ado verdadeiramente e por isso n�o teve outro rem�dio sen�o aprender a conga, a mazurka, a polka e o charleston (como pot-pourri, n�o est� mal).

DIG IT!
(Johnny Mercer/H.Borne)

(Band members:)

Dig it! Dig it! Dig it Doris on the vocal chorus!


I never could do the conga

Could never get through the conga

But if you say do the conga

I ain't hep to that step

But I'll dig it

I never could see mazurkas

They're poison to me, mazurkas

But if it's to be mazurkas

I ain't hep to that step

But I'll dig it

When they invented the charleston

I was a total flop

But say if you want to charleston

I'll never stop

I'll dance till I drop

I never could dig the polka

The corniest jig, the polka

But if you say dig the polka

I ain't hep to that step

But I'll dig it!

I ain't hep but I'll dig it!


Ou�am a letra, e depois digam-me se n�o vamos todos ter que dan�ar isto tudo e mais alguma coisa, em particular a tarantela.


 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: FONS VITAE



N�o � de hoje, j� tem quatro anos e foi tirada pelo sat�lite TRACE. O Sol abrindo-se, explodindo-se, num abra�o maior do que a Terra. Neste abra�o cabemos todos .
 


EARLY MORNING BLOGS 263

PINTA EL ENGA�O DE LOS ALQUIMISTAS

Podr� el vidro llorar partos de Oriente?
�Cabr� su habilidad en los crisoles?
�Ser� la Tierra ad�ltera a los Soles,
Por concebir de un horno siempre ardiente?

�Destilar�s en ba�os a Occidente?
�Podr�n lo mismo humos que arreboles?
�Abreviar�n por ti los Espa�oles
El precioso naufragio de su gente?

Osas contrahacer su ingenio al d�a;
Pretendes que le parle docta llama
Los secretos de Dios a tu osad�a.

Doctrina ciega y ambiciosa fama:
El oro miente en la ceniza fr�a,
Y cuando le promete, le derrama.

(Francisco de Quevedo)


*

Bom dia!


24.7.04
 


INTEND�NCIA

- O �ltimo (para j�) POBRE PA�S de ontem actualizado.

- VERITAS FILIA TEMPORIS

- Viver na Twilight Zone (Outubro 2001)

- Feito pelo Cavaleiro Andante (Outubro 2002)


- ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO

em actualiza��o.

Sobre Carlos Paredes / "Franco", militante comunista.


De uma nota da PIDE de 4 de Mar�o de 1959.
 


BIBLIOFILIA






Escrevi na S�bado sobre a antologia de ensaios editada por David Lavery, This Thing of Ours. Investigating the Sopranos, Columbia University Press , 2002, livro sobre o qual j� tinha feito uma nota no Abrupto . Para a semana coloco em linha.
 


EARLY MORNING BLOG 262

La Poule aux oeufs d'or

L'avarice perd tout en voulant tout gagner.
Je ne veux, pour le t�moigner,
Que celui dont la Poule, � ce que dit la Fable,
Pondait tous les jours un oeuf d'or.
Il crut que dans son corps elle avait un tr�sor.
Il la tua, l'ouvrit, et la trouva semblable
A celles dont les oeufs ne lui rapportaient rien,
S'�tant lui-m�me �t� le plus beau de son bien.
Belle le�on pour les gens chiches :
Pendant ces derniers temps, combien en a-t-on vus
Qui du soir au matin sont pauvres devenus
Pour vouloir trop t�t �tre riches ?

(La Fontaine)

*

Bom dia!

 


BRINCAR �S CASINHAS

O que � que aqueles g�nios das finan�as e da economia, que nos andaram a dizer que este governo tinha, que nos garantiram que �nunca� permitiriam pol�ticas despesistas e insensatas, os �avalistas� do governo para evitar �loucuras�, fizeram em Conselho de Ministros para impedir que o Primeiro-ministro ande a brincar �s casinhas despachando meia d�zia de governantes menores para gabinetes fora de Lisboa, sem qualquer nexo, racionalidade ou vantagem?

 


LEITURA OBRIGAT�RIA

Nota de Jo�o Miranda no Blasf�mias intitulada Orgasmo M�ltiplo.
 



Juan Gris

23.7.04
 


POBRE PA�S

o nosso.

No dia 26 de Junho escrevi o seguinte:

eu quero um governo que pense em Portugal em primeiro lugar, que n�o se importe de perder as elei��es, se estiver convicto que pol�ticas dif�ceis s�o vitalmente necess�rias. N�o quero uma comiss�o eleitoral uninominal (ou binominal) que far� tudo apenas com um fito: ganhar as pr�ximas elei��es.
Porque esse ser� o seu programa n�o escrito.

Nada do que aconteceu at� hoje nega o que disse. N�o h� nenhuma raz�o econ�mica para a baixa do IRS, a n�o ser os seus efeitos eleitorais. N�o h� nenhuma raz�o para esta absurda cria��o de embaixadas do governo em cidades do litoral (no Alentejo, o �litoral� � interior), a n�o ser a pouca sorte (para n�s) do Ricardo Costa ter feito a pergunta que fez e ter encravado o orgulho vol�til do Primeiro-Ministro em meia d�zia de promessas insensatas. Para qu�: para facilitar a concess�o de audi�ncias ou a distribui��o de benesses? In�til e caro. E h� mais. Pode estar a esbo�ar-se uma nova subsidia��o ao subemprego com entradas pela porta do cavalo na fun��o p�blica para absorver o desemprego. O que � que tudo isto tem em comum? Sabemos todos demasiado bem.

*

"A par dos inconvenientes que todos vemos, adivinho tamb�m algumas vantagens em ter secretarias de Estado noutras cidades do pa�s e reuni�es "saltitantes" do Conselho de Ministros.

1) Para os pr�prios governantes � fundamental terem a percep��o permanente de que h� vida fora de Lisboa. Um dos problemas recorrentes � precisamente que mesmo as pessoas com origem fora da capital se esquecem disso quando "emigram" para o Governo. Lisboa � grande, Lisboa � muito melhor do que o resto do pa�s em in�meros aspectos (e especialmente na vitalidade econ�mica, digo eu que sou do Porto), Lisboa faz aparecer em quem l� est� a "s�ndrome Vitorino" em rela��o ao resto do pa�s.

2) Em paralelo com os aspectos estritamente racionais, h� um efeito emocional positivo na proximidade f�sica entre o "povo" e os governantes que depois se traduz em maior participa��o c�vica, em maior dinamismo econ�mico, etc., etc. (Esta afirma��o carecia de alguma justifica��o adicional, mas agora n�o vai dar tempo...) J� sei tamb�m que a "deslocaliza��o" n�o ir� abranger todo o pa�s, mas mais vale pouco do que nada.

3) Sempre achei que o Governo tenta fazer coisas demais. Mais vale pouco mas bem. Tenho muito receio de grandes planos, especialmente com este Primeiro-Ministro. Prefiro projectos simples (que podem no entanto ser passos interm�dios de algo mais ambicioso) com resultados que possam ser avaliados rigorosamente num prazo razoavelmente curto.
Ao realizar reuni�es fora de Lisboa, o Governo vai ser pressionado a apresentar resultados concretos dessas estadias. Pode ser que assim seja obrigado a adoptar uma postura realista e respons�vel � o portugu�s deixa-se iludir frequentemente por medidas populistas, mas n�o � eternamente enganado e acaba por ver a luz. ;-)"

(Tiago Azevedo Fernandes)

   


TRETAS

O P�blico escreve hoje seguinte: "O PSD exigiu a Pedro Santana Lopes que houvesse um lugar de secret�rio de Estado atribu�do a este partido no Minist�rio da Defesa de Paulo Portas e foi, por isso, que � �ltima hora a lista dos secret�rios de Estado foi alterada." Gostava muito de saber quem � o sujeito da frase, quem � esse "PSD" que "exige" coisas ao Primeiro-Ministro. O nosso jornalismo comprova todos os dias que h� gente capaz de comer tudo o que se lhes d�.
 


EARLY MORNING BLOGS 261


Libert�

Le vent impur des �tables
Vient d'ouest, d'est, du sud, du nord.
On ne s'assied plus aux tables
Des heureux, puisqu'on est mort.

Les princesses aux beaux r�bles
Offrent leurs plus doux tr�sors.
Mais on s'en va dans les sables
Oubli�, m�pris�, fort.

On peut regarder la lune
Tranquille dans le ciel noir.
Et quelle morale ?... aucune.

Je me console � vous voir,
A vous �treindre ce soir
Amie �clatante et brune.

(Charles Cros)

*

Bom dia!
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: EXACTAMENTE COMO ELES S�O



sem qualquer pintura, sem sombra, sem maquilhagem, sem falsas cores. Se l� estiv�ssemos, e n�o a pequena m�quina, � isto que ver�amos. Tom sobre tom perfeito.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:: "We certainly do not forget you as soon as you forget us. It is, perhaps, our fate rather than our merit."

"Di�logo (�) entre Anne Elliot e Captain Harville sobre como amam os homens e as mulheres. � Jane Austen; Persuation cap�tulo XXIII (e pen�ltimo). Claro que o Captain Wentworth que deixa cair a pena enquanto finge escrever, � o objecto do amor e devo��o de Anne e as emo��es n�o se ficam com o fim deste di�logo. S�o p�ginas finais de grande beleza e emo��o de uma das mais lindas hist�rias de amor que a Literatura nos oferece e que �salvam� este romance �menor� de Jane Austen."

(Enviado por JPC)

"Poor Fanny! she would not have forgotten him so soon!"

"No," replied Anne, in a low, feeling voice. "That I can easily believe."

"It was not in her nature. She doted on him."

"It would not be the nature of any woman who truly loved."

Captain Harville smiled, as much as to say, "Do you claim that for your sex?" and she answered the question, smiling also, "Yes. We certainly do not forget you as soon as you forget us. It is, perhaps, our fate rather than our merit. We cannot help ourselves. We live at home, quiet, confined, and our feelings prey upon us. You are forced on exertion. You have always a profession, pursuits, business of some sort or other, to take you back into the world immediately, and continual occupation and change soon weaken impressions."

"Granting your assertion that the world does all this so soon for men (which, however, I do not think I shall grant), it does not apply to Benwick. He has not been forced upon any exertion. The peace turned him on shore at the very moment, and he has been living with us, in our little family circle, ever since."

"True," said Anne, "very true; I did not recollect; but what shall we say now, Captain Harville? If the change be not from outward circumstances, it must be from within; it must be nature, man's nature, which has done the business for Captain Benwick."

"No, no, it is not man's nature. I will not allow it to be more man's nature than woman's to be inconstant and forget those they do love, or have loved.

I believe the reverse. I believe in a true analogy between our bodily frames and our mental; and that as our bodies are the strongest, so are our feelings; capable of bearing most rough usage, and riding out the heaviest weather."

"Your feelings may be the strongest," replied Anne, "but the same spirit of analogy will authorise me to assert that ours are the most tender. Man is more robust than woman, but he is not longer lived; which exactly explains my view of the nature of their attachments. Nay, it would be too hard upon you, if it were otherwise. You have difficulties, and privations, and dangers enough to struggle with. You are always labouring and toiling, exposed to every risk and hardship. Your home, country, friends, all quitted. Neither time, nor health, nor life, to be called your own. It would be hard, indeed" (with a faltering voice), "if woman's feelings were to be added to all this."

"We shall never agree upon this question," Captain Harville was beginning to say, when a slight noise called their attention to Captain Wentworth's hitherto perfectly quiet division of the room. It was nothing more than that his pen had fallen down; but Anne was startled at finding him nearer than she had supposed, and half inclined to suspect that the pen had only fallen because he had been occupied by them, striving to catch sounds, which yet she did not think he could have caught.

"Have you finished your letter?" said Captain Harville.

"Not quite, a few lines more. I shall have done in five minutes."

"There is no hurry on my side. I am only ready whenever you are. I am in very good anchorage here," (smiling at Anne,) "well supplied, and want for nothing. No hurry for a signal at all. Well, Miss Elliot," (lowering his voice,) "as I was saying we shall never agree, I suppose, upon this point.

No man and woman, would, probably. But let me observe that all histories are against you--all stories, prose and verse. If I had such a memory as Benwick, I could bring you fifty quotations in a moment on my side the argument, and I do not think I ever opened a book in my life which had not something to say upon woman's inconstancy. Songs and proverbs, all talk of woman's fickleness. But perhaps you will say, these were all written by men."

"Perhaps I shall. Yes, yes, if you please, no reference to examples in books. Men have had every advantage of us in telling their own story.

Education has been theirs in so much higher a degree; the pen has been in their hands. I will not allow books to prove anything."

"But how shall we prove anything?"

"We never shall. We never can expect to prove any thing upon such a point.

It is a difference of opinion which does not admit of proof. We each begin, probably, with a little bias towards our own sex; and upon that bias build every circumstance in favour of it which has occurred within our own circle; many of which circumstances (perhaps those very cases which strike us the most) may be precisely such as cannot be brought forward without betraying a confidence, or in some respect saying what should not be said."

"Ah!" cried Captain Harville, in a tone of strong feeling, "if I could but make you comprehend what a man suffers when he takes a last look at his wife and children, and watches the boat that he has sent them off in, as long as it is in sight, and then turns away and says, `God knows whether we ever meet again!' And then, if I could convey to you the glow of his soul when he does see them again; when, coming back after a twelvemonth's absence, perhaps, and obliged to put into another port, he calculates how soon it be possible to get them there, pretending to deceive himself, and saying, `They cannot be here till such a day,' but all the while hoping for them twelve hours sooner, and seeing them arrive at last, as if Heaven had given them wings, by many hours sooner still! If I could explain to you all this, and all that a man can bear and do, and glories to do, for the sake of these treasures of his existence! I speak, you know, only of such men as have hearts!" pressing his own with emotion.

"Oh!" cried Anne eagerly, "I hope I do justice to all that is felt by you, and by those who resemble you. God forbid that I should undervalue the warm and faithful feelings of any of my fellow-creatures! I should deserve utter contempt if I dared to suppose that true attachment and constancy were known only by woman. No, I believe you capable of everything great and good in your married lives. I believe you equal to every important exertion, and to every domestic forbearance, so long as--if I may be allowed the expression--so long as you have an object. I mean while the woman you love lives, and lives for you. All the privilege I claim for my own sex (it is not a very enviable one; you need not covet it), is that of loving longest, when existence or when hope is gone."

She could not immediately have uttered another sentence; her heart was too full, her breath too much oppressed.

"You are a good soul," cried Captain Harville, putting his hand on her arm, quite affectionately. "There is no quarrelling with you. And when I think of Benwick, my tongue is tied."


22.7.04
 



Leger
 


EARLY MORNING BLOGS 260


En la televisi�n


Televisi�n. De pronto campo

Confuso de gentes, un d�a

Cualquiera.

Si es guerra, no hay crimen.

Se ve a un prisionero. Camina

Con paso forzado hacia donde

Se concentra alguna milicia

Que sin m�s,

vivir cotidiano,

-No hay pompa-dispara, no avisa.

La figura del prisionero

Se doblega, casi ca�da.

Inmediatamente un anuncio

Sigue.

Mercenarias sonrisas

Invaden a trav�s de m�sica.

�Y el horror, ante nuestra vista,

De la muerte?

Nivel a cero

Todo. Todo se trivializa.

Un caos, y no de natura,

Va sumergiendo nuestras vidas.

�De qu� poder�o nosotros,

Inocentes, somos las v�ctimas?


(Jorge Guill�n)


*

Bom dia!

 

21.7.04
 


UMA EUROPA � REVELIA DA DEMOCRACIA

O acordo que deu a Presid�ncia do Parlamento Europeu aos socialistas neste primeiro mandato mostra o desprezo dos grandes grupos pol�ticos pela democracia. Normal seria que quem ganhasse as elei��es europeias ficasse a presidir ao Parlamento, e seria o PPE a ter a Presid�ncia. Foi esse um dos argumentos principais do PPE contra as pretens�es do socialista M�rio Soares em 1999, e pareciam-me ter sentido. Mas agora j� � tudo ao contr�rio - o PPE, que ganhou as elei��es, s� ter� a Presid�ncia na segunda parte do mandato porque isso favorece os planos eleitorais dos partidos alem�es do PPE. Os eleitores votaram maioritariamente PPE, mas v�o ter o PSE, porque, por raz�es diferentes, a ambos conv�m que assim seja. A vontade eleitoral expressa nas urnas interessa pouco.

(Diga-se, de passagem, que a elei��o de Jos� Barroso nada tem a ver com este acordo, cujas linhas gerais j� se preparavam desde antes das elei��es.)

 


� SOLTA

e mandando, � o caos.
 



Lucien Freud
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES (Actualizado)

"Pode ser um preciosismo mas n�o deixa de ser interessante.
Pedro Santana Lopes afirmou, antes da constitui��o do Governo que a propor��o de pastas ministeriais atribu�das ao CDS/PP se manteria. Ora, tal n�o se verificou: 3 ministros em 17 no anterior Governo representa 17,6% enquanto que 4 ministros em 19 representa 21,0% do actual Governo. Em termos relativos o CDS/PP viu aumentar em 19,3%, (21-17,6)/17,6, o n�mero de minist�rios sob a sua al�ada. � um aumento significativo em termos quantitativos.!"
(MJM)

*

"Penso que quando se fazem contas com percentagens, deve-se apenas somar e subtrair. � verdade que aumentou o peso do PP, mas apenas 3,4% (21 - 17,6). Imaginemos que o Governo tinha 100 ministros: se 18 eram do PP e passam a ser 21, aumentaram 3 em 100, e n�o 19 em 100. Em todo o caso, era imposs�vel manter o equil�brio inalterado com 19 ministros, uma vez que o peso do PP diminuir�a para 15,8% se mantivesse tr�s ministros."

(Paulo Almeida)

*

"Envio-lhe um poema de Vinicius de Moraes, "Gente Humilde", a que volto agora, nestes tempos em que a gente humilde do nosso pa�s est� t�o longe ... t�o longe de tudo, e em que � mais urgente recordar as palavras que esbofeteiam as consci�ncias adormecidas."

(Pedro Leite Alves)

Gente Humilde

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar

Igual a como quando eu passo no sub�rbio
Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar
E a� me d� como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar

S�o casas simples, com cadeiras na cal�ada
E na fachada escrito em cima que � um lar
Pela varanda flores tristes e baldias
Como a alegria que n�o tem onde encostar

E a� me d� uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu n�o ter como lutar
E eu que n�o creio, pe�o a Deus por minha gente
� gente humilde, que vontade de chorar

(Vinicius de Moraes)

*

"Perante o div�rcio recente de muitas personalidades do PSD, e porventura da vida politica e social portuguesa, de confrontos ou de alternativas s�rias e sensatas a Santana Lopes, recordei-me do texto que envio abaixo, citado do "Il Gattopardo" de Tommasi di Lampedusa (...).
A recorda��o deste texto n�o foi sem susto -enfim, daqueles razoavelmente moderados que ocorrem quando constatamos, em alguns livros maiores, um n�mero impressionante de analogias com a realidade - porque, por um lado ,aquele grupo de politicos que, com credibilidade e valores, como Mario Soares, Cavaco Silva, Freitas do Amaral,etc, ou mais recente, Ant�nio Vitorino, Dur�o Barroso ou outros, me parece que se assemelham cada vez mais com o Principe de Salina; e por outro lado, dou comigo a pensar que o Principe pode ter raz�o: que apesar de aqui e ali, parecer vislumbrar-se alguns acenos de sobressalto da sociedade civil, no fundo, a maioria dos Portugueses se acha desde j� perfeita, inclusive muitas, demasiadas, das suas ditas 'elites' e 'for�as vivas' � esquerda e � direita- e que, revestindo tudo com f�tebois (que ali�s eu aprecio muito, dentro dos seus limites naturais) e outros fogos-f�tuos, aspiram a um grande sono sem serem acordados por exig�ncias de reforma, de mudanc,a, de rigor e de empenho. "

(Artur Frias Rebelo)

(...) Volle fare un ultimo sforzo; si alz� e l'emozione conferiva Pathos alla sua voce: "Principe, ma � proprio sul serio che lei si rifiuta di fare il possibile per alleviare, per tentare di rimediare allo stato di povert� materiale, di cieca miseria morale nelle quali giace questo che � il suo stesso popolo? Il clima si vince, il ricordo dei cattivi governi si cancella, i Siciliani vorranno migliorare; se gli uomini onesti si ritirano, la strada rimarr� libera alla gente senza scrupoli e senza prospettive, ai Sed�ra; e tutto sar� di nuovo come prima, per altri secoli. Ascolti la sua coscienza, principe, e non le orgogliose verit� che ha detto. Collabori."

Don Fabrizio gli sorrideva, lo prese per la mano, lo fece sedere vicino a lui sul divano: "Lei � un gentiluomo, Chevalley, e stimo una fortuna averlo conosciuto; Lei ha ragione in tutto; si � sbagliato soltanto quando ha detto: 'i Siciliani vorranno migliorare.' Le racconter� un aneddoto personale. Due o tre giorni prima che Garibaldi entrasse a Palermo mi furono presentati alcuni ufficiali di marina inglesi, in servizio su quelle navi che stavano in rada per rendersi conto degli avvenimenti. Essi avevano appreso, non so come, che io posseggo una casa alla Marina, di fronte al mare, con sul tetto una terrazza dalla quale si scorge la cerchia dei monti intorno alla citt�; mi chiesero di visitare la casa, di venire a guardare quel panorama nel quale si diceva che i Garibaldini si aggiravano e del quale, dalle loro navi non si erano fatti una idea chiara.

Vennero a casa, li accompagnai lass� in cima; erano dei giovanottoni ingenui malgrado i loro scopettoni rossastri. Rimasero estasiati dal panorama, della irruenza della luce; confessarono per� che erano stati pietrificati osservando lo squallore, la vetust�, il sudiciume delle strade di accesso. Non spiegai loro che una cosa era derivata dall'altra, come ho tentato di fare a lei. Uno di loro, poi, mi chiese che cosa veramente venissero a fare, qui in Sicilia, quei volontari italiani.'They are coming to teach us good manners' risposi 'but won't succeed, because we are gods.' 'Vengono per insegnarci le buone creanze ma non lo potranno fare, perch� noi siamo dei.' Credo che non comprendessero, ma risero e se ne andarono.

Cosi rispondo anche a Lei; caro Chevalley: i Siciliani non vorranno mai migliorare per la semplice ragione che credono di essere perfetti: la loro vanit� � pi� forte della loro miseria; ogni intromissione di estranei sia per origine sia anche, se si tratti di Siciliani, per indipendenza di spirito, sconvolge il loro vaneggiare di raggiunta compiutezza, rischia di turbare la loro compiaciuta attesa del nulla; calpestati da una diecina di popoli differenti essi credono di avere un passato imperiale che da loro diritto a funerali sontuosi. Crede davvero Lei, Chevalley, di essere il primo a sperare di incanalare la Sicilia nel flusso della storia universale? Chiss� quanti imani mussulmani, quanti cavalieri di re Ruggero, quanti scribi degli Svevi, quanti baroni angioini, quanti legisti del Cattolico hanno concepito la stessa bella follia; e quanti vicer� spagnoli, quanti funzionali riformatori di Carlo III; e chi sa pi� chi siano stati? La Sicilia ha voluto dormire, a dispetto delle loro invocazioni; perch� avrebbe dovuto ascoltarli se � ricca, se � saggia, se � onesta, se � da tutti ammirata e invidiata, se � perfetta, in una parola?'

(Il Gattopardo, Giuseppe Tommasi di Lampedusa)


 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS VISTOS PELOS LEITORES DO ABRUPTO


"Uma leitura diagonal da transcri��o completa das comunica��es entre Houston e o Mar da Tranquilidade, onde o m�dulo lunar aterrou, tamb�m � �til para constatar o not�vel grau de concentra��o com que Neil Armstrong e Aldrin executaram todas as tarefas necess�rias � alunagem, � sa�da do m�dulo e ao estudo da superf�cie. Com efeito, tirando os momentos protocolares - a frase de Armstrong, a chamada do Presidente dos EUA e a leitura da placa comemorativa deixada na Lua - nenhum dos homens deixou transparecer, durante as duas horas e meia em que se aventuraram na superf�cie lunar (duas horas em que o planeta inteiro por cima das suas cabe�as acompanhou atentamente cada um dos seus passos), nenhuma emo��o com a paisagem diante si. Mais do que nas suas tarefas, eles estavam plenamente conscientes do privil�gio e da gigantesca responsabilidade neles depositada. De toda a troca de comunica��es, alguns raros momentos deixam a descoberto, no entanto, a �nsia dos dois astronautas, algo perfeitamente vis�vel quando, logo ap�s aterrarem, pedem autoriza��o a Houston para saltarem o per�odo de sono inicialmente previsto e come�arem imediatamente a prepara��o para caminharem na Lua. Com uma paisagem daquelas pela janela, � imposs�vel censur�-los.

Foi hoje, h� trinta e cinco anos."

(Pedro)
 


EARLY MORNING BLOGS 259

We Wear the Mask


WE wear the mask that grins and lies,
It hides our cheeks and shades our eyes,�
This debt we pay to human guile;
With torn and bleeding hearts we smile,
And mouth with myriad subtleties.

Why should the world be over-wise,
In counting all our tears and sighs?
Nay, let them only see us, while
We wear the mask.

We smile, but, O great Christ, our cries
To thee from tortured souls arise.
We sing, but oh the clay is vile
Beneath our feet, and long the mile;
But let the world dream otherwise,
We wear the mask!


(Paul Laurence Dunbar)

*

Bom dia!

20.7.04
 


OREMOS

Come�ou a normalidade anormal. Adaptemo-nos. Revoltemo-nos. Oremos. O que soa melhor ainda � o oremos, mas s� com o batalh�o dos Santos todos. E mais a Sant�ssima Trindade. E mais o Olimpo. E mais...
 



Juan Genoves
 


EARLY MORNING BLOGS 258
                                                             
The world is too much with us; late and soon,    
Getting and spending, we lay waste our powers:    
Little we see in nature that is ours;    
We have given our hearts away, a sordid boon!  
  
 This Sea that bares her bosom to the moon;    
The Winds that will be howling at all hours    
And are up-gathered now like sleeping flowers;    
For this, for every thing, we are out of tune;   
 
It moves us not�Great God! I'd rather be    
A Pagan suckled in a creed outworn;    
So might I, standing on this pleasant lea,  
  
Have glimpses that would make me less forlorn    
Have sight of Proteus coming from the sea,    
Or hear old Triton blow his wreathed horn.
 
 (William Wordsworth) 
 
*
 
Bom dia!

19.7.04
   



Juan Gris
 


EARLY MORNING BLOGS 257
 
In the Long Run

IN the long run fame finds the deserving man.
The lucky wight may prosper for a day,
But in good time true merit leads the van,
And vain pretense, unnoticed, goes its way.
There is no Chance, no Destiny, no Fate,
But Fortune smiles on those who work and wait,
            In the long run.

In the long run all goodly sorrow pays,
There is no better thing than righteous pain,
The sleepless nights, the awful thorn-crowned days,
Bring sure reward to tortured soul and brain.
Unmeaning joys enervate in the end,
But sorrow yields a glorious dividend
            In the long run.

In the long run all hidden things are known,
The eye of truth will penetrate the night,
And good or ill, thy secret shall be known,
However well 't is guarded from the light.
All the unspoken motives of the breast
Are fathomed by the years and stand confest
            In the long run.

In the long run all love is paid by love,
Though undervalued by the hosts of earth;
The great eternal Governemnt above
Keeps strict account and will redeem its worth.
Give thy love freely; do not count the cost;
So beautiful a thing was never lost
            In the long run.

(Ella Wheeler Wilcox)
 
*
 
Bom dia! In the long run ...

18.7.04
 


POEIRA DE 18 DE JULHO
 
Hoje, h� cento e setenta e tr�s anos, Mary Shelley ouviu Paganini a tocar. Ficou hist�rica, escreveu �he had the effect of giving me hysterics�. Assim mesmo. Acrescentou: �poderia passar a minha vida a ouvi-lo, porque nada foi mais sublime�. Outros tempos.
 


CAT�LOGO DE ATITUDES
 
Nenhuma d�vida, d�vidas, benef�cio da d�vida, complac�ncia, fila de cumprimentos, palmas, muitas palmas, e �agora � que vai ser�.
 


INTEND�NCIA
 
OS VINTE LIVROS PORTUGUESES � actualizado  

 VERITAS FILIA TEMPORIS

Carta a um Amigo da UDP sobre a mudan�a (Outubro 1994)
 
Mem�rias da "Leitura" (Dezembro 1994)


 
  
  
  
  
  
 


Traidora Tradu��o - A Grande Perturba��o: A Lux�ria (Julho 2004)� , a cr�tica a Simon Blackburn, Lust, Oxford University Press, 2004 , publicada na S�bado da semana passada. 
 
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: RENTE AO CH�O


 
correu por aqui um qualquer, r�pido, flu�do. No ch�o de Marte.
 


EARLY MORNING BLOGS 256

A Considerable Speck
(Microscopic)

A speck that would have been beneath my sight
On any but a paper sheet so white
Set off across what I had written there.
And I had idly poised my pen in air
To stop it with a period of ink
When something strange about it made me think,
This was no dust speck by my breathing blown,
But unmistakably a living mite
With inclinations it could call its own.
It paused as with suspicion of my pen,
And then came racing wildly on again
To where my manuscript was not yet dry;
Then paused again and either drank or smelt--
With loathing, for again it turned to fly.
Plainly with an intelligence I dealt.
It seemed too tiny to have room for feet,
Yet must have had a set of them complete
To express how much it didn't want to die.
It ran with terror and with cunning crept.
It faltered: I could see it hesitate;
Then in the middle of the open sheet
Cower down in desperation to accept
Whatever I accorded it of fate.
I have none of the tenderer-than-thou
Collectivistic regimenting love
With which the modern world is being swept.
But this poor microscopic item now!
Since it was nothing I knew evil of
I let it lie there till I hope it slept.

I have a mind myself and recognize
Mind when I meet with it in any guise
No one can know how glad I am to find
On any sheet the least display of mind.

(Robert Frost)
 
*
 
Bom dia!

17.7.04
 


BIBLIOFILIA: UMA M�QUINA DO TEMPO 
  
Na mesma feira comprei este Anu�rio de 1944, uma verdadeira m�quina do tempo. Raro, mesmo raro, � encontrar livros destes. Primeiro porque � um livro consum�vel, de usar (logo deteriorar) e deitar fora, depois porque � enorme, quase duas mil e quinhentas p�ginas, pesad�ssimo, com capa dura, dif�cil de manusear.
 
Agora que � um fabuloso retrato desse ano de viragem, 1944, �. L� est�o as fotografias de Carmona e Salazar, como nas publica��es sovi�ticas, e todo um mundo de pequenos artigos, fotografias, e endere�os, rua a rua, por profiss�es e ramos de neg�cio, um retrato de um mundo desaparecido, de empresas hoje inexistentes, de um Portugal t�o diferente. Valeu os euros que custou, porque � raro ver este tipo de livros no mercado alfarrabista. 
 


BIBLIOFILIA

 

 
Descoberta, numa feira de livros ao ar livre, esta raridade de M�rio Saa, um dos poucos textos anti-semitas publicados em Portugal no s�culo XX. L� se l� isto: 

e isto:
 

 


OS VINTE LIVROS PORTUGUESES

Aqui h� uns anos respondi a um desses inqu�ritos sobre os livros da �vida�, neste caso portugueses. Encontrei essa resposta que reproduzo a seguir:

Os vinte livros portugueses da �vida� (at� agora) s�o mais de vinte. Aqui segue uma lista apressada (comme il faut pour les journaux...), que pode deixar de fora algum enorme esquecimento s�bito.
Primeiro, os �romances� como a �Nau Catrineta�, a que se segue o Amadis de Gaula. O terceiro � a Menina e Mo�a de Bernardim, a que se soma o Crisfal. Depois vem a l�rica de S� de Miranda e de Cam�es. Do primeiro me perseguir� sempre um verso : �que farei quando tudo arde?�. Depois os Lus�adas. Depois a "navega��o" que todos n�s fizemos sobre a forma de Peregrina��o de Fern�o Mendes Pinto e da Hist�ria Tr�gico-Mar�tima. Depois os alt�ssimos Padre Ant�nio Vieira nos Serm�es e a �floresta� e o �p�o� do Padre Manuel Bernardes, o mais belo portugu�s em prosa. Depois salto para o s�culo XIX, bem para dentro da nossa fluidez moderna, longe da rocha cl�ssica: o �Noivado do Sepulcro� de Soares de Passos que sei de cor, e j� a partir para o s�culo XX, os excessos de Eug�nio de Castro e a Clepsidra de Camilo Pessanha. Inumer�veis livros de E�a, os Maias, A Cidade e as Serras, Conde de Abranhos, o Fradique, Os Contos e, com a �ramalhal figura�, As Farpas. Tamb�m Oliveira Martins. E de J�lio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, cujas primeiras p�ginas � talvez o princ�pio de um livro portugu�s que mais vezes li, v�-se l� saber porqu�. Depois o n�mero treze (il faut tricher...) � Pessoa, ele mesmo e �lvaro de Campos e Ricardo Reis, este �ltimo o preferido. Catorze, s�o as tradu��es para portugu�s que Paulo Quintela fez de Rilke e de H�lderlin - e que s�o livros seminais do portugu�s po�tico do s�culo XX. V�m a seguir tr�s prosadores - Raul Brand�o do H�mus, Ruben A. e Nuno Bragan�a - e um ensaista, o Eduardo Louren�o de Heterodoxia. E, por fim, de Eug�nio de Andrade, Herberto Helder, Cesariny e Joaquim Manuel Magalh�es, as �poesias todas�.
Se tudo o mais desaparecesse, mesmo com enormes injusti�as, continuava a poder haver Portugal e a sua l�ngua. Sem isto n�o havia.

Verifico agora pelo menos uma enorme injusti�a e esquecimento, Ces�rio Verde.

*

"Como "escolher" os livros portugueses mais representativos da nossa literatura, se a pr�pria escola ajuda t�o pouco? Nasci numa casa sem livros, que os foi ganhando com as minhas escolhas, um pouco arbitr�rias... Seguindo o seu exemplo, fiz uma lista dos livros ou textos que mais me marcaram. (Alguns marcaram-me pela negativa - n�o gostei deles - e n�o os inclu�.) Falta conhecer muitos, bem sei. Haja tempo para mais!

A minha lista:
"Auto da Barca do Inferno" - Gil Vicente "Os Lus�adas" e "L�rica" (C�rculo de Leitores) - Lu�s Vaz de Cam�es "Peregrina��o" - Fern�o Mendes Pinto "Serm�es" (P�blico) - Padre Ant�nio Vieira "Folhas Ca�das" e "Romanceiro"- Almeida Garrett "As Pupilas do Senhor Reitor" - J�lio Dinis "Os Maias" - E�a de Queir�s "O Primo Bas�lio" - E�a de Queir�s "S�" - Ant�nio Nobre "O Livro de Ces�rio Verde" - Ces�rio Verde "Mensagem" - Fernando Pessoa "O Guardador de Rebanhos" - Alberto Caeiro "Livro do Desassossego" - Bernardo Soares "Charneca em Flor" e "Livro de M�goas" - Florbela Espanca "Poemas de Deus e do Diabo" e "Filho do Homem" - Jos� R�gio "H�mus" - Ra�l Brand�o "O Fogo e as Cinzas" - Manuel da Fonseca "Manh� Submersa" - Virg�lio Ferreira "Livro Sexto" - Sophia de Mello Breyner Andresen "As M�os e os Frutos" - Eug�nio de Andrade "Memorial do Convento" e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" - Jos� Saramago


N�o faltar� na sua lista o Gil Vicente?..."

(ASN)

*

"Gra�as � escola de ent�o, no meu caso, e ao contr�rio da leitora ASN, a bons professores de portugu�s, e a uma casa cheia de livros, abriu-se cedo todo um mundo para mim.
Tamb�m concordo com a leitora que se surpreende (verbo definitivamente na moda como a comunica��o social nos lembrou toda a semana que passou) da aus�ncia de Gil Vicente. No meu caso, e gostando de quase toda a sua obra nomeadamente do "Auto da Barca do Inferno" tenho prefer�ncia pelo "Auto da Alma".
Tamb�m estranhei a aus�ncia daquele que por muitos � considerado o melhor romance de l�ngua portuguesa do s�c. XX. Do Vitorino Nem�sio "Mau tempo no Canal".
(A minha lista seria diferente, mas estes dois casos s�o os que mais me chamaram a aten��o)
"

(JPC)


 


DESPESISMO

H� duas formas de despesismo: uma, � gastar mais dinheiro; outra, � gastar mal o dinheiro. Normalmente andam a par.
 


EARLY MORNING BLOGS 255

La Grenouille qui veut se faire aussi grosse que le Boeuf


Une Grenouille vit un Boeuf
Qui lui sembla de belle taille.
Elle, qui n'�tait pas grosse en tout comme un oeuf,
Envieuse, s'�tend, et s'enfle, et se travaille,
Pour �galer l'animal en grosseur,
Disant : "Regardez bien, ma soeur ;
Est-ce assez ? dites-moi ; n'y suis-je point encore ?
- Nenni. - M'y voici donc ? - Point du tout. - M'y voil� ?
- Vous n'en approchez point. "La ch�tive p�core
S'enfla si bien qu'elle creva.
Le monde est plein de gens qui ne sont pas plus sages :
Tout bourgeois veut b�tir comme les grands seigneurs,
Tout petit prince a des ambassadeurs,
Tout marquis veut avoir des pages.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

16.7.04
 


BIBLIOFILIA











Jos� Ribeiro Ferreira, Amor e Morte na Cultura Cl�ssica, Coimbra, Ariadne Editora, 2004

Vale mesmo a pena. Afinal est� aqui quase tudo. Quase.
 


OS MINISTROS DE SALAZAR

sabiam que n�o eram ministros quando os seus sucessores apareciam nomeados. Antigamente era prepot�ncia autorit�ria, hoje � essencialmente m� educa��o. Aconteceu.

 


MINIST�RIOS DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA, ATEN��O DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA 2

Nesta diferen�a de tratamento, h� dois aspectos interessantes: um, o peso do Estado na economia, e a sua politiza��o; outro, a ignor�ncia da comunica��o social sobre o mundo universit�rio e cient�fico. Um dos efeitos da� decorrentes � que se sabe sempre quem s�o os gestores que v�o para os governos e se ignora sempre quem s�o os universit�rios. De uns, h� sempre filmes e fotografias; de outros, nem o nome certo se conhece.


 


MINIST�RIOS DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA, ATEN��O DE PRIMEIRA E DE SEGUNDA

Na aten��o que a comunica��o social d� ao governo, prevalece uma vis�o muito arcaizante da governa��o: centra-se tudo na economia e nas finan�as, e pouco nas �reas mais qualitativas, como a educa��o, a ci�ncia, o ambiente, a cultura. Esta disfun��o da aten��o comunicacional � espelhar face � dos pol�ticos, que tamb�m consideram essa a parte secund�ria dos governos.

Num certo sentido, as primeiras s�o instrumentais, as segundas fundamentais. Andou tudo muito atento �s pastas econ�micas e financeiras, e desatento em rela��o �s pastas estrat�gicas para o nosso futuro. Esqueceu-se que, enquanto os interesses econ�micos nunca deixam um vazio no governo, no resto as coisas fiam mais fino e mais dif�cil.


 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O BELO E O TERR�VEL




est�o aqui. Kant reconheceria os seus conceitos. H� nesta mec�nica silenciosa do grande planeta dos An�is uma sombra que se estende como o terror sublime e que apaga tudo. H� um frio especial, uma solid�o especial l� longe. O mais humano s�o os pequenos pontos que parecem defeitos da fotografia, Encelado, Prometeu e Epimeteu, fragmentos de mundos. Um rapaz pequeno deve ter medo desta fotografia como da noite escura. Um rapaz grande, n�o sei.
 


UM ABRA�O

Desesperada Esperan�a. Por raz�es muito pr�prias.

 


SOBRE A UNESCO

(Em breve, logo que tenha tempo. Entretanto esta not�cia do P�blico diz quase tudo quanto h� a dizer.)
 


FUTURO PRESIDENTE DA COMISS�O ATACA POL�TICA EXTERNA DE PORTUGAL

Quando se pronunciou sobre a �arrog�ncia� e o �unilateralismo� americano, que, pelos vistos, �detesta�, (n�o percebo se na �poca da Cimeira das Lajes essa �arrog�ncia� era menor), o futuro Presidente da Comiss�o Europeia atacou a pol�tica externa portuguesa, criando dificuldades para Portugal.

 


 


EARLY MORNING BLOGS 254

Epitaph


Beyond the traceries of the auroras,
The fires of tattered sea foam,
The ghost-terrain of submerged icebergs;
Beyond a cinder dome's black sands,
Beyond peninsula and archipelago,
Archipelago and far-flung islands,
You have made of exile a homeland,
Voyager, and of that chosen depth, a repose.

The eel shimmers and the dogfish darts,
A dance of crisscrosses and trespasses
Through distillate glints and nacreous silts,
And the sun, like fronds of royal palm
Wind-torn, tossed, lashes upon the wake,
But no lamplight mars or bleaches your realm,
A dark of sediment, spawn, slough, and lees,
Runoff, pitch-black, from the rivers of Psalms.

(Eric Pankey)

*

Bom dia!


15.7.04
 


UMA PERGUNTA SIMPLES

Porque � que "surpreender" � t�o importante?

*

"N�o me parece que seja por acaso que a l�ngua Inglesa � t�o f�rtil no uso da voz passiva. Ser� que � �surpreender� que � �t�o importante� ou ser� que �ser surpreendido� tem primazia?"

(JPC)
 


POBRE PA�S

o nosso.
Ouvindo a confrangedora s�rie de banalidades e vacuidades, ditas com ar pomposo, por S�crates, o candidato com mais apoios no PS.
A crise que nestes dias se revelou, e que j� c� estava, � muito pior do que se imagina.
 


EARLY MORNING BLOGS 253

L'Ane charg� d'�ponges, et l'Ane charg� de sel


Un Anier, son Sceptre � la main,
Menait, en Empereur Romain,
Deux Coursiers � longues oreilles.
L'un, d'�ponges charg�, marchait comme un Courrier ;
Et l'autre, se faisant prier,
Portait, comme on dit, les bouteilles :
Sa charge �tait de sel. Nos gaillards p�lerins,
Par monts, par vaux, et par chemins,
Au gu� d'une rivi�re � la fin arriv�rent,
Et fort emp�ch�s se trouv�rent.
L'Anier, qui tous les jours traversait ce gu�-l�,
Sur l'Ane � l'�ponge monta,
Chassant devant lui l'autre b�te,
Qui voulant en faire � sa t�te,
Dans un trou se pr�cipita,
Revint sur l'eau, puis �chappa ;
Car au bout de quelques nag�es,
Tout son sel se fondit si bien
Que le Baudet ne sentit rien
Sur ses �paules soulag�es.
Camarade Epongier prit exemple sur lui,
Comme un Mouton qui va dessus la foi d'autrui.
Voil� mon Ane � l'eau ; jusqu'au col il se plonge,
Lui, le Conducteur et l'Eponge.
Tous trois burent d'autant : l'Anier et le Grison
Firent � l'�ponge raison.
Celle-ci devint si pesante,
Et de tant d'eau s'emplit d'abord,
Que l'Ane succombant ne put gagner le bord.
L'Anier l'embrassait, dans l'attente
D'une prompte et certaine mort.
Quelqu'un vint au secours : qui ce fut, il n'importe ;
C'est assez qu'on ait vu par l� qu'il ne faut point
Agir chacun de m�me sorte.
J'en voulais venir � ce point.


(La Fontaine)

*

Repito: l� qu'il ne faut point / Agir chacun de m�me sorte. N�o sei porqu� mas suspeito que vamos ter muito La Fontaine e Esopo nestes tempos. Ou melhor, sei: a sabedoria deles, � muita e s� ela nos protege da for�a enorme que nos leva a voar cada vez mais baixo e a achar que ainda estamos muito longe do ch�o. Sejam bem-vindos, o corvo, a raposa, os m�ltiplos ratos, a r�, os burros, etc., etc.,,

Bom dia!

14.7.04
 


ATEN��O

Circula na Internet um texto intitulado "PACHECO PEREIRA NO SEU MELHOR ..." que me � atribu�do. Podem deitar ao lixo. � falso.
   


BIBLIOFILIA

O que encontramos dentro dos livros usados.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: AS OUTRAS NUVENS



l� em cima, no canto esquerdo. Nuvens como as nossas (em Marte h� outras), anunciando o Inverno pela fresca manh�. Tudo como sempre: simples. N�s � que complicamos.
 


LEITURA OBRIGAT�RIA

a nota dos Jaquinzinhos intitulada o Ministro das Bolachas, sobre do que falamos quando falamos do Minist�rio da Agricultura. Um retrato da nossa administra��o p�blica e um bom exemplo do "trabalho" dos blogues.
 


EARLY MORNING BLOGS 252

EL INFANTE ARNALDOS

�Qui�n hubiera tal ventura sobre las aguas del mar
como hubo el infante Arnaldos la ma�ana de San Juan!
Andando a buscar la caza para su falc�n cebar,
vio venir una galera que a tierra quiere llegar;
las velas trae de sedas, la ejarcia de oro terzal,
�ncoras tiene de plata, tablas de fino coral.
Marinero que la gu�a, diciendo viene un cantar,
que la mar pon�a en calma, los vientos hace amainar;
los peces que andan al hondo, arriba los hace andar;
las aves que van volando, al m�stil vienen posar.
All� habl� el infante Arnaldos, bien oir�is lo que dir�:
�Por tu vida, el marinero, d�gasme ora ese cantar.
Respondi�le el marinero, tal respuesta le fue a dar:
�Yo no canto mi canci�n sino a qui�n conmigo va.


(An�nimo)

*

Bom dia!

13.7.04
 


ALTOGETHER, ELSEWHERE, VAST / HERDS OF REINDEER MOVE ACROSS


Roy Lichtenstein
 


EARLY MORNING BLOGS 251

The Fall Of Rome

The piers are pummelled by the waves;
In a lonely field the rain
Lashes and abandoned train;
Outlaws fill the mountain caves.

Fantastic grow the evening gowns;
Agenst of the Fisc pursue
Absconding tax-defaulters through
The sewers of provincial towns.

Private rites of magic send
The temple prostitutes to sleep;
All the literati keep
An imaginary friend.

Cerebrotonic Cato may
Extol the Ancient Disciplines,
But the muscle-bound Marines
Mutiny for food and pay.

Caesar's double-bed is warm
As an unimportatnt clerk
Writes I DO NOT LIKE MY WORK
On a pink official form.

Unendowed with wealth or pity
Little birds with scalet legs,
Sitting on their speckled eggs,
Eye each flu-infected city.

Altogether elsewhere, vast
Herds of reindeer move across
Miles and miles of golden moss,
Silently and very fast.


(W.H. Auden)

*

Bom dia!

12.7.04
 


VERITAS FILIA TEMPORIS

Para me complicar ainda mais a vida resolvi, a exemplo do que fazem a Bloguitica e a Causa Nossa, criar um blogue secund�rio para armazenar alguns textos que j� n�o est�o em linha e que penso terem utilidade no debate actual. O que l� est� dito, em conjun��o com a data (tenho a ilus�o que a data � relevante...), podem servir para precisar melhor o que penso.

O primeiro texto � "As Tr�s Fontes E As Tr�s Partes Da Social-Democracia Portuguesa" (Novembro 1992)

NOTA: as vers�es dos textos e a formata��o final ainda s�o provis�rias.

 


TEMPOS DUROS 3: O ARGUMENTO HEGELIANO

J� se esperava que voltasse, e em for�a, aquilo a que chamo o argumento hegeliano. O argumento hegeliano pode ser exposto assim: o que tem que ser, tem muita for�a; logo, o que acontece teve que acontecer; logo o que acontece tem que acontecer. N�o adianta esbracejar (e reparem como eu uso j� uma palavra condenada pelo rid�culo, �esbracejar�, que � para entrar bem dentro do argumento hegeliano e de uma das suas sequelas: ou se fica �senhor�, ou se fica �escravo�). A for�a do que ��, � inelut�vel, e era disto que gostavam os hegelianos de direita, e, de um modo geral, os que aceitam o que �, porque o que � tem muita for�a e eles nenhuma. Os de esquerda gostavam do princ�pio da nega��o e n�o gostavam da �nega��o da nega��o�. Mas isso � para o BE, que se construiu na base da nega��o da �nega��o da nega��o� (por isso � que s�o p�s-trotsquistas e s�o muito afirmativos da nega��o - dos outros).

Daqui decorrem depois m�ltiplas conclus�es, todas elas assentes na inevitabilidade do que ��. O que �� ganha ent�o uma explica��o retrospectiva, intelectual, afectiva, e, a um dado momento, moral. Entra ent�o em funcionamento o famoso �caixote do lixo da hist�ria�, para onde v�o todos os que o �� nega, pelo pr�prio facto de existir. O �� s� pode ter sido feito de qualidades e virtudes, sen�o como � que seria ��? Pelo contr�rio, os que o �� nega t�m que ter algum mal intr�nseco, ou s�o irrealistas (leia-se parvos, j� que n�o conhecem a realidade que gerou o ��), ou s�o pregui�osos (argumento contradit�rio com o anterior, porque n�o h� labor que contrarie a marcha inevit�vel da Hist�ria, ou seja, da realidade), ou ent�o n�o fizeram o que o �� fez, mesmo que isso tenha sido condenado quando o �� ainda n�o o era. Mas a vit�ria que transforma o n�o-ser em ser d�-lhe retrospectivamente o direito de ver os defeitos transformados em virtudes. Veja-se como exemplo de argumento hegeliano o editorial do P�blico de hoje.

Esta forma de argumento hegeliano esquece a �ironia� da Hist�ria, com H grande, que tamb�m vem em Hegel, e que neste caso se chama a �partida inesperada� ou a �deser��o inimagin�vel�, mas n�o importa. A for�a do �� � tanta que at� o inesperado se torna esperado. N�o esperavam, pois n�o? Deviam era ter-se posto na bicha da Hist�ria.

O �� antes de ser j� o era. Inevitavelmente. Ali�s � onde vai desaguar o argumento hegeliano: tudo o que acontece � inevit�vel, o que explica o cem a zero. E o cem tem muita for�a, n�o �?
 



Hans Memling
 


EARLY MORNING BLOGS 250

Recuerdo


WE WERE very tired, we were very merry--
We had gone back and forth all night on the ferry.
It was bare and bright, and smelled like a stable--
But we looked into a fire, we leaned across a table,
We lay on a hilltop underneath the moon;
And the whistles kept blowing, and the dawn came soon.

We were very tired, we were very merry--
We had gone back and forth all night on the ferry,
And you ate an apple, and I ate a pear,
From a dozen of each we had bought somewhere;
And the sky went wan, and the wind came cold,
And the sun rose dripping, a bucketful of gold.

We were very tired, we were very merry,
We had gone back and forth all night on the ferry,
We hailed "Good morrow, mother!" to a shawl-covered head,
And bought a morning paper, which neither of us read;
And she wept, "God bless you!" for the apples and pears,
And we gave her all our money but our subway fares.


(Edna St.Vincent Millay)

*

Bom dia!
 


COME�OU

A entrevista de Santana Lopes � SIC, para al�m de um exerc�cio de simula��o pol�tica t�o exagerado quanto ao Presidente que ro�a o absurdo - nenhum Primeiro Ministro que se preza se coloca de forma t�o subserviente sob a tutela presidencial � mostra, infelizmente, que j� come�ou a revelar-se a marca de �gua do entrevistado. As �nicas coisas que foram ditas de concreto � n�mero de minist�rios, descentraliza��o de minist�rios, o Minist�rio da Agricultura em Santar�m � s�o claramente coisas ditas sem qualquer pensamento de fundo, estudo, prepara��o e pondera��o sobre a estrutura do Governo e o modo como se relaciona com o pa�s. S�o daquelas coisas que s�o ditas e, depois, se levadas � pr�tica na forma como foram �prometidas�, representam �experi�ncias� com custos enormes. S�o caras, desorganizam o pouco que funciona e n�o resolvem problema nenhum.

N�o, n�o � m� vontade. � que � exactamente isto que � o costume.

11.7.04
 


O BIBLI�FILO


Ilustra��o retirada de Bertrand Galimard Flavigny, �tre Bibliophile - Petit Guide Pratique, Anglet, Atlantica, 2004
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DITOS DO CHIFRUDO RECOLHIDOS POR GIL VICENTE

"E que dizia o chifrudo, ao entrar de penetra na Feira convocada por Merc�rio? Que alegava o demo para poder assentar arraiais naquilo que n�o lhe pertencia?

Dizia que "eu bem me posso gabar, e cada vez que quiser, que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender, e acho quem me comprar. E mais, vendo muito bem, porque sei bem o que entendo; e de tudo quanto vendo n�o pago siza a ningu�m por tratos que ande fazendo.Quero-me fazer � vela nesta santa feira nova. Verei os que v�m a ela, e mais verei quem m' estorva de ser eu o maior dela".

E questionado sobre porque n�o vende ele a Verdade, valor t�o mais caro e �til ao Povo, remata o Diabo a quest�o, assim respondendo: "a verdade pera qu�? Cousa que n�o aproveita, e aborrece, pera que �?"

Mentiras, enganos, homens que se vendem, homens que se compram, homens mexeriqueiros, homens mentirosos, homens lisonjeiros, assim eram os homens do Portugal quinhentista, "os homens de merda" que em vez de servir a P�tria se serviam a si pr�prios em primeiro lugar. Deles se queixava em 1546 o Vice-Rei da �ndia, Dom Jo�o de Castro em carta ao seu filho, enquanto esperava em v�o pelas caravelas que de Portugal tinham sido enviadas para o aliviar do Cerco que sofria em Diu: "e estou para me enforcar dessas caravelas l� n�o serem, e merda para elas e para os que v�o dentro, e para Gomes Vidal, porque s�o homens de merda que n�o sabem navegar sen�o para tomarem portos e comerem p�o fresco e rab�os e saladas, e andarem �s putas; e dizei-o assim ao capit�o e a Vasco da Cunha e a Fr. Paulo, porque j� n�o hei-de falar sen�o desta maneira; e merda para mestre Diogo e para quantos ap�stolos v�m de Portugal, porque eu sirvo muito bem El-Rei nosso senhor, e eles s�o grandes hip�critas, que querem haver bispados para darem renda a seus filhos e terem mancebas gordas."

Era essa a grande maioria da nossa "gesta her�ica" dos Descobrimentos, � essa tamb�m quase toda a nossa classe dirigente, no dealbar do s�culo XXI.

Diz o povo que prefere mil vezes um Diabo que n�o conhece a um Anjo que conhece de ginjeira. E eu digo que, se, � sua maneira, o Diabo de Gil Vicente era um mercador honesto - "vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta tr�s mil, todas de nova maneira, cada �a t�o subtil, que n�o vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores. Vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos, que aqui trago comigo" - j� Santana Lopes consegue dizer as coisas que diz sem se rir, parecendo completa e totalmente genu�no.

E isso, sen�o fosse t�o perigoso, seria deveras caricato. Como as pe�as de Gil Vicente.

Que, mais do que com�dias, s�o verdadeiras trag�dias portuguesas.
"

(Alexandre Monteiro)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRANCERIA

"Sou seu leitor habitual e escrevo-lhe esta mensagem para reagir ao seu artigo no P�blico �Crise? Que crise?�, na edi��o de 8 de Julho. Penso que o seu texto tem um problema b�sico: ele cria uma imagem romanceada do povo portugu�s e revela alguma sobranceria em rela��o a esse mesmo povo. Poderia dizer-se que isso � estranho, vindo da parte de um intelectual e pol�tico activo, mas provavelmente n�o �. Esta hist�ria (na realidade, trata-se de uma pequena pe�a liter�ria, n�o um texto de opini�o tradicional) mostra com nitidez um dos instintos mais comuns da elite nacional, nomeadamente um certo desprezo pelo que essa mesma elite imagina ser o povo. Quero dizer com isto que as suas personagens mexem, t�m consist�ncia, parecem vivas, mas duvido que elas correspondam a um exemplo demasiado significativo do povo portugu�s. Podiam muito bem ser franceses (teria de colocar uns �rabes a complicar o cen�rio suburbano), podiam ser alem�es (ajudaria um pouco mais de ang�stia existencial). Acho que, do ponto de vista liter�rio, estas personagens t�m o problema do artif�cio causado pela falta de viv�ncia. H� coisas justas no texto. Tamb�m me surpreenderam os sinais de patriotismo superficial e um pouco hist�rico, a futebol�ndia (express�o sua, a meu ver feliz); acho que tem raz�o quando pensa (o sentido talvez mais profundo do artigo) que h� muitas pessoas a viverem mal. Talvez o nosso pa�s seja um pouco bipolar, incapaz de se avaliar, oscilando entre o melhor e o pior, entre a histeria e a depress�o, hesitando entre a modernidade e a par�quia, indeciso entre Europa e isolamento. O povo portugu�s tem certamente muitos defeitos e virtudes. Mas frequentemente, quando ou�o ou leio alguns coment�rios de intelectuais portugueses, fico sempre com a sensa��o de estranheza que provocam as vis�es distorcidas ou incompletas que eles t�m do seu pr�prio povo."

(Lu�s Naves)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OS JORNALISTAS S�O AS FONTES

Sobre TEMPOS NOVOS 2

"Os jornalistas s�o as fontes. A figura do jornalista enquanto espectador da realidade e seu reporter objectivo n�o existe mais (engra�ado como o termo reporter vai caindo no esquecimento). Penso mesmo que nunca existiu, mas a falta de vergonha em admiti-lo � hoje cada vez maior.

Tal como os costureiros se converteram em criadores de moda, tamb�m os jornalistas se converteram em criadores de not�cias. A no��o de verdade � intrinseca � mensagem e n�o resultante de um qualquer crit�rio exteriormente verific�vel, ou como poderia Descartes dizer "Eu escrevo logo existe".

Da� eu achar que os jornalistas se classificam hoje no grupo de profiss�es do Marketing, onde incluo os Rela��es P�blicas, os Criativos de Publicidade, os Organizadores de Eventos e por a� fora. Um jornalista � cada vez mais um profissional que algu�m tem � m�o, pago para criar a realidade que se quer transmitir, dentro da m�xima do marketing que consiste em oferecer o produto certo ao p�blico alvo certo tendo em vista a satisfa��o de uma determinada necessidade (aqui sou mais mauzinho que os te�ricos do marketing afirmando que as necessidades s�o m�tuas, tanto de quem vende como de quem compra).

Penso que nada disto � novo. O que � grave � a falta de prepara��o dos p�blicos alvo para as t�cnicas de marketing que lhes s�o aplicadas. Para os carros, aparelhagens e televisores existe o conceito de defesa do consumidor. Mas tudo quanto seja defender o consumidor de not�cias, �, at� ver, censura.

Por mim, h� muito que deixei de ler jornais e ver telejornais como um relato daquilo que se passou durante o dia. Hoje sento-me frente ao televisor e tento perceber quem � que est� a tentar vender o qu� a quem."


(M�rio Almeida)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CONF�CIO ...

Como escrevia (?) Conf�cio - escreveu mesmo, ou s� ensinou? - tratemos primeiro de n�s pr�prios, da nossa fam�lia, da nossa cidade, e se tudo estiver bem, o Estado estar� bem. Ou mais ou menos assim: �Quando os pensamentos s�o sinceros, a alma torna-se perfeita. Quando a alma se torna perfeita, o homem est� em ordem. Quando o homem est� em ordem, a sua fam�lia tamb�m fica em ordem. Quando a fam�lia est� em ordem, o estado que ele dirige tamb�m pode alcan�ar a ordem. E quando os estados alcan�am a ordem o mundo inteiro goza de paz e felicidade.�

Texto atribu�do a CONF�CIO (Kung Fu-Tz�), Os Grandes Pensadores, de Will Durant, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1965


(Paulo Salgado)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DISCORDO COMPLETAMENTE ...

"Discordo completamente da equival�ncia que faz entre as pol�ticas culturais de Carrilho e Santana Lopes. O facto de, para usar a sua express�o, um falar para as vanguardas e outro para as retaguardas, � diferen�a de n�o pouca monta. O que nos temos de perguntar �: que l�gica subjaz a cada uma das pol�ticas? No caso de Santana Lopes, do que se trata � de gerar clientelas, como voc� muito bem apontou, e como se viu nos jantares de apoio com Eunice Mu�oz, Ruy de Carvalho e uns tantos actores de revista. Que eu saiba nuca vi apoio expl�cito de Lu�s Miguel Cintra, Jorge Silva Melo ou Jo�o M�rio Grilo � figura de Carrilho ou ao PS. Goste-se ou n�o do bolchevismo chique que foi a pol�tica cultural de Carrilho (para utilizar a expres�o de Jorge Silva Melo) � ineg�vel que apoiou trabalhos art�sticos que normalmente n�o sobreviveriam se tivessem de contar apenas com o p�blico. E deve ser essa a orienta��o de qualquer pol�tica cultural hoje: abrir espa�os onde possam emergir propostas que sejam radicalmente heterog�neas em rela��o aos modelos culturais dominantes, que s�o os que garantem sucesso imediato. Ou o acto est�tico como utopia antropol�gico, como o concebeu Ernst Bloch."

(Bruno Peixe Dias)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: CHORAR OU N�O CHORAR EIS A QUEST�O

"N�o chorou hoje o Presidente."

(Jo�o)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. VISTO DE LONGE

"N�o sei se ria, se bata palmas, ou se fique no mais profundo dos am�os - tal como se encontra o Abrupto neste preciso momento. Daqui do Brasil, para um figueirense habituado � pol�tica espectaculo do Lula e de todos os outros, n�o h� espa�o para ficar tomado pelo espanto, nem como S� de Miranda, envergonhado. Tudo isto come�ou � muito, com M�rio Soares fazendo da pol�tica a arte do circo, ou neste caso, da telenovela. Sampaio soube ver isso com precis�o e intelig�ncia: s�o os desejos do Povo que importam. O Povo - ou a sua grande maioria - quer novela, bandidos que prometem e n�o cumprem, mulheres despeitadas suspirantes, mocinhos da mais fina l�bia que viram her�is em uma s� penada.
O Presidente foi sensato, poupou dinheiro ao Pa�s e uma escandalosa derrota ao Partido Socialista. Quanto ao mocinho que virou her�i.. bom, a ver vamos quanto tempo falta para disparar sobre o pr�prio p�.
"

(Paulo Madureira, S�o Paulo - Brasil)

*

"Estou chocado com esta decis�o do Presidente da Republica. Estou verdadeiramente chocado.
Podem usar os argumentos formais que quiserem. A verdade � que nem eu, nem ningu�m, alguma vez teve a possibilidade de dizer que n�o queria o Santana Lopes como primeiro ministro.
Estou profundamente arrependido de, h� 10 anos, quando tive de optar entre o Sampaio e o Cavaco ter feito a escolha errada. Nunca, como agora, estive t�o pr�ximo de tomar a decis�o de n�o voltar para Portugal. Estou verdadeiramente sem palavras.
"

(Lu�s Aguiar-Conraria, Economics Doctoral Student, Cornell University)

*

"N�o tenho muito a dizer, se n�o que isto que se est� a passar no nosso pais s� me faz lembrar este poema de Florbela Espanca:

Nostalgia

Nesse Pa�s de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as j�ias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por l� que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse Pa�s onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

� meu Pa�s de sonho e de ansiedade,
Nao sei se esta quimera que me assombra, � feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Nao sei por onde vim...
Ah! Nao ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim!

Florbela Espanca

nao sei exactamente porqu�, mas deve ser por estar longe...

ANS

PS: vivo na dinamarca
"
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O HOMEM EM ECLIPSE

O homem em eclipse


Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi s� manobra espertice
um dois tr�s e pronto � noite
que nem a lua apare�a
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros cairam ao mar
com cabe�a pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradi��o cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu s�tio
um desaparafuso terr�vel


Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da l�ngua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar


M�rio Cesariny, nobil�ssima vis�o, Colec��o Poesia e Verdade, Guimar�es & C.� Editores, 1976

Enviado por Jorge Daniel Carvalho.
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES. "O BE N�O � UM PP INVERTIDO"

"Ouvi-o esta noite na Quadratura do C�rculo, naturalmente concordando e discordando de si e sobre isso nada h� a dizer, mas n�o resisto a reflectir escrevendo-lhe sobre algo n�o por me soar discordante, mas por me soar dissonante, desafinado, o seu �p� ao BE.

O BE � um partido anti-sistema? Eu acho que o � a n�vel da utopia, embora, como qualquer de n�s, viva abaixo das suas utopias. Mas o BE n�o � um partido de sem-terra e exclu�dos do sistema, nem um ninho de desperados e banqueiros- anarquistas, nem o bra�o legal de um grupo guerrilheiro como o JPP �s vezes parece supor. Basta acompanh�-lo de perto para ver que quem milita e simpatiza � cada vez mais gente (como eu) fortemente dependente e integrada no sistema, que n�o viveria tr�s meses se o Estado colapsasse, e que n�o � disso inconsciente.

Diz o JPP que o PS s� perde ao deixar correr como plaus�vel um qualquer acordo com o BE, e tem raz�o ao diz�-lo, s� que deveria dizer tamb�m que o BE perderia muito mais nesse quadro. O BE n�o � um PP invertido, P.Portas eventualmente ganha apoios por conseguir levar o PSD para a direita e a cumprir os seus des�gnios, pois dirige uma confraria de interesses pr�ticos, mas Lou�� perderia metade dos votos se comprometesse a sua liberdade cr�tica num acordo com o PS, pois representa uma aglutina��o de escapes te�ricos, mas cujos apoiantes sabem muito bem que com um governo PS-BE adeus concertos de elites no C.C.B, adeus almo�os � conta do Instituto, adeus esperadas mais-valias bolsistas aquando da retoma.

O BE tem ganho com o esvaziamento do centro pol�tico, naturalmente, mas n�o manteria os ganhos colando-se ao centro quando o harm�nio inverter o movimento, mas sim reservando-se o papel de referencial e contraponto duma esquerda que sabe que no canto europeu de hoje n�o existem nem ferramentas nem mat�ria prima para um programa de esquerda. Quem pensa que existem s�o as Ana Gomes, n�o os Lou��s. Nesta resigna��o ao poss�vel, mas sempre acenando � utopia, at� acharemos po�tico a devolu��o da Bruxelas de um 1� Ministro (Vitorino) novinho em folha em troca do velho que levou, pode crer.
"

(L.Corte Real)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SIRI USTVED, PHILIP ROTH E NAGUIB MAHFUZ E OS "ESTADOS DE ALMA"

"De tanto ler sobre a boa literatura americana contempor�nea, decidi que teria de me obrigar a l�-la. Tinha um romance comprado h� uns meses com um lindo t�tulo �What I loved� de Siri Ustved, escritora norueguesa h� muito nos EUA e a conhecida mulher de Paul Auster. Tenho uma forma (n�o temos todos?) muito subjectiva de escolher e comprar livros, n�o a saberia explicar, mas o que � um facto � que, como j� me vou conhecendo um pouco, n�o me costumo enganar e a grande parte das vezes fico satisfeita com o que compro, querendo repetir a dose. Comecei pelo �What I loved� continuei com o �The Human Stain� de Philip Roth, mas pelo meio quis respirar do �meu� ar e li um pequeno livro de Naguib Mahfuz (j� vi escrito Mahfouz!) �As Noites das Mil e Uma Noites� (da edi��o �Pr�mio Nobel� barata e de capa dura que a FNAC tem, s� n�o percebi que tipo de tradu��o era, fiquei com a sensa��o que era tradu��o da vers�o espanhola!). Foi este �ltimo que referi, que me levou aos estados de alma. N�o se trata de um romance: � mais uma sequ�ncia com alguma l�gica de pequenas hist�rias ou contos passados no �mundo real� (?) e fora dos pal�cios onde Sherazade vive (feliz para sempre?) depois de ter escapado da morte. Encontramos algumas personagens que j� conhec�amos tipo Aladino, Sindbad, e tamb�m g�nios do bem e g�nios do mal que manobram as personagens, criam conflito ou resolvem problemas; o poder do dinheiro e a corrup��o; o amor e o desej; e a todo o momento nos confrontamos com o bem e como mal (s� num pequeno e subtil momento, que se relaciona com a pr�pria Sherazade, senti a hesita��o do narrador em rela��o ao bem ou mal e a essa nitidez de fronteiras!). Com este livro respira-se um ar fresco e de simplicidade (...) existencial e psicol�gica que me encantou. E que em tudo contrasta com o ar mais turvo que se respira nos dois romances americanos que referi. S�o, no entanto, dois bons romances e nunca poderia dizer o contr�rio."

SIRI USTVED

"O de Siri Ustved tem uma bela linguagem e � escrito com muita sensibilidade, alguma nostalgia que vai aumentando � medida que o romance se desenvolve e existe nele uma interessante teia de personagens com interliga��es ora subtis, ora bizarras, ora ins�litas, ora profundas, entre elas; e este elemento, esta teia, � para mim a grande for�a do romance. O romance de Philip Roth est� muit�ssimo bem escrito, tem uma linguagem forte, original e cuidada. Tenho, no entanto, pouca simpatia pela linguagem excessivamente crua, e as ocasionais p�ginas cheias de �four letters words� ou descri��es hiper-realistas da guerra no Vietnam s�o passadas a velocidade turbo com uma leitura diagonal que faria inveja a muitos! (Dantes nunca fazia isto, hoje j� n�o tenho paci�ncia para, quando posso escolher, fazer o que n�o gosto ou o que n�o quero). O tipo de narrador escolhido, uma personagem menor, mas pivot importante do enredo fez-me lembrar o �Quiet American� de Graham Green. Dito isto: foi com verdadeiro prazer que li este livro, n�o s� pela qualidade da escrita mas tamb�m pelas ideias e sentimentos veiculados de forma curiosa, intensa e viva, e nalguns momentos que considerei muito belos senti o impulso de parar e reler a frase ou o par�grafo (sou, normalmente, leitora lenta que gosta de apreciar o que l�, e este meu impulso � o meu melhor cumprimento). Mas (pois �: � agora que entra o �mas�) foi um prazer maioritariamente cerebral, n�o tendo existido uma completa entrega m�tua, embora em dois ou tr�s momentos a fa�sca tenha surgido. A total ades�o afectiva parece portanto ser fundamental para que um romance se torne n� �O� romance!"

PHILIP ROTH e NAGUIB MAHFUZ

"A explica��o que hoje tenho para dar (talvez descubra outras) tem uma dimens�o quase infantil, e � o que me afasta afectivamente, e diria quase sistematicamente, desta literatura. Trata-se da identifica��o e/ou simpatia pelo her�i/hero�na, ou pelas personagens de uma forma geral, pela parte do leitor � eu. No livro de Naguib Mahfuz h� essa ades�o (no bom ou mau sentido que ser�, ent�o, a repulsa) autom�tica e instant�nea �s personagens, e o mesmo se passou, talvez n�o t�o automaticamente, mas em crescendo, aquando da leitura das atormentadas personagens da literatura russa com personagens em que n�s nos revemos. As personagens desta moderna literatura americana n�o me provocam muito, nem simpatia nem repulsa. Sinto-as um pouco longe, como se n�o fossem feitas da �mesma massa�, como se tivessem uma alma diferente, num mundo que n�o � o meu, com complicados problemas existenciais (aos quais me sinto alheia) criados pelos excessos que referi, e rapidamente suprimidos e anestesiados pelas terapias, pelos Xanax, pelos Viagra. Parece que os problemas s�o problemas que se consomem como outro qualquer bem que se compra no supermercado para consumo imediato ou a presta��es, tudo dentro do esp�rito consumista da vis�o do mundo do outro lado do Atl�ntico. Adiro mais facilmente a um �g�nio� do mal que, sentado na borda de um lago, conspira sobre a melhor maneira de tornar a vida de duas simp�ticas pessoas infernais, do que a um homem de 71 anos que se fez passar por branco sendo negro, e que tem problemas por isso e por ter um caso (digo um caso n�o digo amor ou paix�o) com uma mulher mais nova com um passado marcado pela trag�dia e que � analfabeta funcional. Essa dimens�o afectiva de ades�o �s personagens, como as crian�as que se rev�em nos her�is, nas princesas, falha entre mim leitora e estes romances por pouca empatia para com as personagens."

"Neste livro que referi de Naguib Mahfuz os estados de alma ainda n�o tinham sido inventados. Nos romances russos os estados de alma parecem ter raz�o de existir, ou melhor, a exist�ncia e a raz�o de existir parecem chamar os estados de alma, h� uma forte dimens�o de �trag�dia� de fado, de inevitabilidade. Como j� referi, nos romances americanos fica sempre aquela impress�o de maior superficialidade, de problemas criados por quem tudo tem, da aus�ncia da inevitabilidade do fado; nestes romances fica a sensa��o que tudo est� nas m�os das personagens, nas suas op��es. E talvez seja esse conjunto de circunst�ncias que a minha ades�o simpatia/repulsa n�o acontece da mesma forma. Mas lerei mais americanos e conviverei com os seus �inventados� estados de alma. Daqui a uns tempos!"

(JPC)
 


BIBLIOFILIA

Esta "bibliofilia" ficou esquecida e incompleta l� no limbo em baixo.


Simon Blackburn, Lust, Oxford University Press, 2004







Escrevi sobre esta Lux�ria na S�bado desta semana e, logo que a revista for ela pr�pria para o limbo, na pr�xima semana, colocarei aqui o texto.




Bertrand Galimard Flavigny, �tre Bibliophile - Petit Guide Pratique, Anglet, Atlantica, 2004


Para vos dar o "sabor" deste livro, veja-se a cita��o com que ele abre:

Le bibliophile est un mammif�re bip�de et bigame, habitant g�n�ralement les villes et parfois la campagne, surtout l��t�. Il ya deux esp�ces, celui qui ne lit pas , celui qui lit.� (Alfred Dinar, La fortune des livres, 1939)
 


EARLY MORNING BLOGS 249

"Speech"�is a prank of Parliament

"Speech"�is a prank of Parliament�
"Tears"�is a trick of the nerve�
But the Heart with the heaviest freight on�
Doesn't�always�move�


(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

10.7.04
 


APOLOGIA DA DIVERSIDADE DO MUNDO


Christian Gottlieb Geissler
 


EARLY MORNING BLOGS 248

� in�til dizer o que se pensa.
Se � frouxa a frase, � nada; e � v� se � intensa
Cada um compreende s� o que sente,
E entre alma e alma a estupidez � imensa�
.

(Fernando Pessoa, lembrado por Pedro Marques Lopes)

*

Chegados � fase do �que fazer?�, vamos come�ar a falar do que � poss�vel fazer, na sequ�ncia que se usava nas velhas reuni�es associativas: �Informa��es. An�lise da situa��o. Medidas a tomar�. � s� um come�o.Bom �nimo!

Bom dia!

9.7.04
 


AMANH�

voltarei a falar dos TEMPOS DUROS que a� est�o.
Adeus, sil�ncio.
 


 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre a ICONOLOGIA DA FUTEBOL�NDIA

"A �blusa patri�tica da Senhora do Presidente�: reac��o minha um pouco tardia, agora que j� ningu�m se lembra. Euro qu�? E andava JPP preocupado com a s�ndrome de abstin�ncia! Agora s�o transfer�ncias, contrata��es, mudan�as de camisolas, medalhas, lavar de roupa suja, e todo o frenesim da pr�-�poca!
Fiquei mais tranquila por ter percebido que n�o fui a �nica a estremecer de emo��o com a vis�o de t�o subtil gesto patri�tico e respectivo adere�o, (n�o v� o diabo tec�-las e ter sido cria��o personalizada, especialmente para o evento, do Augustus). Qual �suspense� para saber que cria��o levaria a Senhora em causa ao Casamento Real Espanhol! Nas meias-finais e na final do Euro, as nossas expectativas foram amplamente recompensadas e creio que n�o deixou nenhuma alma lusitana indiferente. Nada � deixado ao acaso nesta espontaneidade que o Futebol convida!

(H� casos em que nem com treino, nem com educa��o, nem com os dois!)

(n�o, n�o � maldade� antes fosse�)
"

(JPC)

*

Sobre TEMPOS DUROS

Le peuple avait sur la Convention une fen�tre ouverte, les tribunes publiques, et, quand la fen�tre ne suffisait pas, il ouvrait la porte et la rue entrait dans l�assembl�e.� Victor Hugo, Quatrevingt-treize.

V�o longe os tempos da Conven��o.

Vivemos em tempo de abulia, s� os interesses corporativos determinam alguns movimentos e fazem barulho. Mas os interesses corporativos s�o, por natureza, reaccion�rios. O acantonamento dos discursos � esquerda e � direita n�o vai se n�o separar as claques, cada vez mais fanatizadas e menos esclarecidas. Fora delas, a multid�o, continuar� indolente. Como separar as manas siamesas e marcar a demagogia?

Compete-nos escolher, claro, mas a demagogia l� estar� a pegar na m�o de muita gente.


(Rui Fonseca)

*

Exacto; e � preciso n�o esquecermos a "pergunta de Croce" ( de Benedetto Croce), citada por Bobbio: " se dall'uso di un certo metodo nasce un certo sistema, cadendo il sistema, resta valido il metodo?" (Norberto Bobbio, "Dal fascismo alla democrazia; il regimi, le ideologie, le figure e le culture politiche", Baldini&Castoldi, Milano 1997 pp224).

(Filipe Nunes Vicente)
 


EARLY MORNING BLOGS 247

Como el viento


Como el viento a lo largo de la noche,
Amor en pena o cuerpo solitario,
Toca en vano a los vidrios,
Sollozando abandona las esquinas;

O como a veces marcha en la tormenta
Gritando locamente,
Con angustia de insomnio,
Mientras gira la lluvia delicada;

S�, como el viento al que un alba le revela
Su tristeza errabunda por la tierra,
su tristeza sin llanto,
su fuga sin objeto;

Como �l mismo extranjero,
Como el viento huyo lejos.
Y sin embargo vine como luz.


(Luis Cernuda)

*

Bom dia!

8.7.04
 


TEMPOS DUROS

Aproximam-se tempos duros na nossa vida pol�tica, seja qual for a decis�o do PR. Haver� um maior radicalismo no discurso pol�tico, efeito da deser��o do centro e do refor�o dos extremos. Os alinhamentos, parte artificiais, parte naturais, das �esquerdas� e das �direitas� em blocos trar�o mais veneno ideol�gico do que clarifica��o. Todos v�o falar uma linguagem do passado, que � a que vem ao de cima quando o debate se faz debaixo das bandeiras da �esquerda� e da �direita�, num mundo cuja complexidade est� para al�m do legado da revolu��o francesa e da revolu��o industrial que constru�ram essa dualidade arcaica. Depois da Bomba, depois do Holocausto, depois do Gulag, depois da globaliza��o, depois da revolu��o medi�tica (no sentido de McLuhan), depois da Rede e das redes, depois do terrorismo apocal�ptico, depois de tanta coisa, ainda tendemos a sentar-nos na Conven��o como descrevia Victor Hugo no Quatre-vingt-treize:

�Qui voyait l'Assembl�e ne songeait plus � la salle. Qui voyait le drame ne pensait plus au th��tre. Rien de plus difforme et de plus sublime. Un tas de h�ros, un troupeau de l�ches. Des fauves sur une montagne, des reptiles dans le marais. A droite, la Gironde, l�gion de penseurs; � gauche, la Montagne, un groupe d'athl�tes."


Todos v�o acentuar a identidade dos extremos, que passar�o a falar por dentro dos grandes partidos, adormecidos e acomodados, presos ao poder pela clienteliza��o interna. O PP e o BE ser�o os fi�is de partidos que, ao abandonarem o centro pol�tico, perdem a possibilidade de terem maiorias est�veis de governo, maiorias absolutas. Nem o Diabo tem capacidade para escolher.
Temos que ser n�s.
 


INGENUIDADES

Existe em certos sectores da direita e da esquerda intelectual portuguesa a ilus�o que um governo Santana Lopes ser� um governo que prosseguir� pol�ticas liberais, ou, como pejorativamente agora se diz, �neo-liberais�. Enganam-se completamente. Se h� coisa que em Portugal sofrer� com o populismo � o discurso genuinamente liberal. O populismo � nacionalista, defensor da closed shop, �social� e clientelar. O populismo ser� alicer�ado em duas coisas muito pr�ximas na vida pol�tica portuguesa: um discurso social, que pode mesmo chegar a ser socializante, e na gest�o de clientelas. � uma f�rmula muito eficaz em Portugal, potenciada agora pela forma como actuam os media.

Ali�s a experi�ncia de Santana Lopes na �rea da cultura � disso um bom exemplo. N�o difere, a n�o ser nas clientelas e na simb�lica cultural, da de Manuel Maria Carrilho. Um falava para as "vanguardas" outro para as "rectaguardas", ambos subsidiavam activamente. Basta ver como Eduardo Prado Coelho, um bom bar�metro nos momentos decisivos, hesitou em condena-la, como num celebre debate - com�cio sobre a reconvers�o do Parque Mayer que passou na televis�o h� uns anos. � uma pol�tica � Malraux / Lang, com uma forte componente estatista e proteccionista, feita a favor da gl�ria do estado, e pela gl�ria dos governantes, a forma mais eficaz da propaganda moderna.
 


 


ARTIGO DO P�BLICO

Est� publicado truncado da primeira frase:

"CRISE? QUE CRISE?

N�o. N�o � sobre a crise, nem sobre futebol, nem sobre Santana Lopes. Sobre todas estas coisas j� disse o que tinha a dizer para j�. � sobre o que est� atr�s, ao lado, em cima, � frente. N�s, os portugueses. Onde est� o meu casal que protestava na Ponte 25 de Abril, h� exactos dez anos?

*

Mais velho, certamente." (O resto est� l�.)


Estou � procura a ver se coloco no Abrupto o artigo sobre o casal que atravessa a Ponte, publicado h� dez anos. O casal � o mesmo, mudado pelo tempo. A crise tamb�m � a mesma, mudada pelo tempo.

 


EARLY MORNING BLOG 246

D�serts o� j'ai v�cu dans un calme si doux


D�serts o� j'ai v�cu dans un calme si doux,
Pins qui d'un si beau vert couvrez mon ermitage,
La cour depuis un an me s�pare de vous,
Mais elle ne saurait m'arr�ter davantage.

La vertu la plus nette y fait des ennemis ;
Les palais y sont pleins d'orgueil et d'ignorance ;
Je suis las d'y souffrir, et honteux d'avoir mis
Dans ma t�te chenue une vaine esp�rance.

Ridicule abus�, je cherche du soutien
Au pays de la fraude, o� l'on ne trouve rien
Que des pi�ges dor�s et des malheurs c�l�bres.

Je me veux d�rober aux injures du sort ;
Et sous l'aimable horreur de vos belles t�n�bres,
Donner toute mon �me aux pensers de la mort.


(Fran�ois Maynard)

*

Bom dia!

7.7.04
 


EARLY MORNING BLOGS 245

Pa�s de la ausencia
extra�o pa�s,
m�s ligero que �ngel
y se�a sutil,
color de alga muerta,
color de nebl�,
con edad de siempre,
sin edad feliz.

No echa granada,
no cr�a jazm�n,
y no tiene cielos
ni mares de a�il.
Nombre suyo, nombre,
nunca se lo o�,
y en pa�s sin nombre
me voy a morir.

Ni puente ni barca
me trajo hasta aqu�,
no me lo contaron
por isla o pa�s.
Yo no lo buscaba
ni lo descubr�.

Parece una f�bula
que yo me aprend�,
sue�o de tomar
y de desasir.
Y es mi patria donde
vivir y morir.

Me naci� de cosas
que no son pa�s;
de patrias y patrias
que tuve y perd�;
de las criaturas
que yo vi morir;
de lo que era m�o
y se fue de m�.

Perd� cordilleras
en donde dorm�;
perd� huertos de oro
dulces de vivir;
perd� yo las islas
de ca�a y a�il,
y las sombras de ellos
me las vi ce�ir
y juntas y amantes
hacerse pa�s.

Guedejas de nieblas
sin dorso y cerviz,
alientos dormidos
me los vi seguir,
y en a�os errantes
volverse pa�s,
y en pa�s sin nombre
me voy a morir.


(Gabriela Mistral)


*

Bom dia!

6.7.04
 



Klimt
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "O SEU PORTUGAL � DIFERENTE DO MEU"

"O seu Portugal � diferente do meu. O seu Portugal � diferente daquele que nestas �ltimas 3 semanas fez um povo soltar-se e esquecer-se de querelas e rixas pol�ticas. Dito isto, parecer� certamente que sou mais um daqueles jovens que desprezam a pol�tica e n�o est�o devidamente alertados para a sua import�ncia. Interesso-me por pol�tica, milito num partido e mesmo assim n�o consigo compreender as suas cr�ticas incessantes contra o futebol. Chego at� a perder algum tempo formulando poss�veis explica��es para tamanho r�p�dio. Aconselho-o a repensar a sua inf�ncia, procurar algum especialista, para ajud�-lo a desembara�ar-se de uma qualquer frustra��o que o leva a lan�ar sobre o futebol o an�tema de indignidade. Sei que me vai dizer que n�o, que n�o � o futebol em si que � indigno, mas sim a aten��o excessiva - a seu ver - que merece por parte da comunica��o social e especialmente pelo tal "servi�o p�blico", como faz quest�o de notar ou da t�o afamada promiscuidade futebol-pol�tica. Mas n�o � s� isso. O Sr. n�o gosta mesmo de futebol. Mas repare, as pessoas j� perceberam. Escusa de insistir. Escusa de se lamentar pelo estado pretensamente sub-desenvolvido do pa�s, que para si, se manifesta na paix�o desenfreada dos portugueses pelo Futebol. Fale do que sabe. A an�lise sociol�gica nunca foi o seu forte.
Aposto que ter� sido um daqueles que mais torceu para que Portugal perdesse no dia 4. Seja sincero. N�o escamoteie a verdade. O que o senhor gosta � de um povo deprimido e enconchado numa realidade pacata e tacanha. Deixe o povo sonhar (o futebol � algo que tende a propici�-lo).

Relembrando agora um artigo seu no P�blico.. COISAS QUE T�M QUE (LHE) SER DITAS

- Seja coerente. Criticar tudo e todos n�o � solu��o. Defina-se. Uma cr�tica pressup�e a adop��o de uma solu��o contraposta, de um modelo que contrarie o criticado. A continuar assim, arrisca-se a ser comparado ao Miguel Sousa Tavares. Ser sempre do contra n�o o credibiliza. Procure ser a favor de alguma coisa. (Tanto esp�rito contest�rio poder� inclusive ser conotado com um comunismo let�rgico ou at� com experi�ncias mais radicais, como p. ex., o anarquismo). N�o quero que me reveja num qualquer Lu�s Filipe Menezes (abomino o personagem), mas cumpre perguntar: d�-me o nome de um l�der do PSD que n�o tenha contestado?

- Deixe de estudar o comunismo. Acho rid�culo. � algo que nunca percebi: um homem que se assume de centro-direita perder tanto tempo a estudar aquilo que mais veementemente critica. Fizesse antes uma biografia s�ria sobre S� Carneiro, ao inv�s daquela que fez sobre �lvaro Cunhal, e teria tido um muito maior reconhecimento. N�o sei se se conseque aperceber, mas a esquerda come�a a gostar de si. V� em si um aliado.

- Aprenda qualquer coisa com o Lobo Xavier.

- Os esoterismos n�o ficam bem a um homem, para mais ainda, de direita.

- Se n�o sente o pa�s como o resto dos portugueses, n�o se esforce muito. N�o queira ser mais um fleum�tico incompreendido, por estar "acima do seu tempo". Acredite: n�o �. "

(Tiago Geraldo)
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O QUE � ISTO?



N�o sei. N�o se sabe. Ningu�m sabe muito bem como interpretar as primeiras imagens do solo de Tit�, a Lua de Saturno que parece viva. Gelo puro, parece haver. Lagos de metano, n�o aparecem. Continua a n�o se descobrir nenhum l�quido fora da terra. Nuvens com uma composi��o qu�mica estranha, mol�culas grandes de mais, tamb�m h�. �gua, parece haver, �misturada com outras coisas�, disse um cientista. �Outras coisas�? �Parece um gelado a derreter-se� disse outro. Uma esp�cie de congelador com as mat�rias primordiais, disse outro.

Magn�fico, estamos bem.Sempre a abrir.
 


EARLY MORNING BLOGS 244

La Fortune et le jeune Enfant


Sur le bord d'un puits tr�s profond
Dormait �tendu de son long
Un Enfant alors dans ses classes.
Tout est aux Ecoliers couchette et matelas.
Un honn�te homme en pareil cas
Aurait fait un saut de vingt brasses.
Pr�s de l� tout heureusement
La Fortune passa, l'�veilla doucement,
Lui disant : Mon mignon, je vous sauve la vie.
Soyez une autre fois plus sage, je vous prie.
Si vous fussiez tomb�, l'on s'en f�t pris � moi ;
Cependant c'�tait votre faute.
Je vous demande, en bonne foi,
Si cette imprudence si haute
Provient de mon caprice. Elle part � ces mots.
Pour moi, j'approuve son propos.
Il n'arrive rien dans le monde
Qu'il ne faille qu'elle en r�ponde.
Nous la faisons de tous Echos.
Elle est prise � garant de toutes aventures.
Est-on sot, �tourdi, prend-on mal ses mesures ;
On pense en �tre quitte en accusant son sort :
Bref la Fortune a toujours tort.


(La Fontaine)

*

Bom dia! Como diz a f�bula: fiem-se na Virgem e n�o corram...

5.7.04
 


POBRE PA�S

o nosso.
No dia em que o Primeiro-ministro se demite, e em plena crise pol�tica, todos os notici�rios da televis�o, trinta minutos depois, s� falam de futebol. Mastigam e mastigam e mastigam. Particularmente escandaloso no chamado �servi�o p�blico�, onde tudo o que � importante para Portugal e o mundo passa envergonhadamente na faixa de baixo a correr.
Vai ser bonito ver como vai funcionar a s�ndrome de abstin�ncia, quando, pela en�sima milion�sima vez, j� n�o se puder falar de futebol.
 


PONTO SEM RETORNO


Eugene Delacroix, Prise de Constantinople par les Crois�s
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES


"Segunda-feira perguntem aos jovens que apitam a noite toda por uma vit�ria num jogo de futebol �o que � Portugal?�

Segunda-feira saberemos um pouco menos o que � Portugal.
"

(Jo�o Miguel Amaro Correia)

*

"Decorrente do �essencial e acess�rio� (� impressionante como estes conceitos todos parecem unir-se num s�, mas essa reflex�o fica para os fil�sofos da linguagem) vou referir brevemente o �ser e parecer�. Hoje o que parece �, e um dos exemplos, entre tantos outros que poderia dar, mais gritante deste equ�voco na nossa sociedade s�o os �famosos�. Habitu�mo-nos a olhar para os famosos como exemplos de algo conquistado, de m�rito e esfor�o, ou do puro �glamour� que justificava a fama daqueles cuja profiss�o os expunha aos olhos de todos (locutores de televis�o, actores, cantores, etc). Hoje � com alguma pena, sen�o mesmo com desdenhosa indiferen�a, que olhamos para os �famosos� que a sociedade fabrica. N�o s�o famosos que se imp�em por terem conquistado ou feito algo de relevo, n�o o s�o por m�rito, nem sequer t�m �glamour�. S�o de uma banalidade confrangedora, e em vez de fazerem �sonhar� alto com o seu trabalho, conquista, m�rito ou �glamour�, a sua �igualdade� desperta sentimentos baixos de maledic�ncia e inveja. Os famosos por m�rito pr�prio est�o nessa am�lgama da �fama� que j� n�o faz ningu�m sonhar alto. Hoje qualquer pessoa � mediatizada e fabricam-se famosos a uma velocidade alucinante, que tamb�m rapidamente caiem no esquecimento. Tamb�m aqui a fasquia dos �crit�rios de qualidade� desce para essa no��o de �ficarmos todos mais iguais�.

(JPC)
 


EARLY MORNING BLOGS 244

Sonnet XVI: To the Lord General Cromwell


On the proposals of certain ministers at the Committee for Propagation of the Gospel

Cromwell, our chief of men, who through a cloud
Not of war only, but detractions rude,
Guided by faith and matchless fortitude,
To peace and truth thy glorious way hast plough'd,

And on the neck of crowned Fortune proud
Hast rear'd God's trophies, and his work pursu'd,
While Darwen stream with blood of Scots imbru'd,
And Dunbar field, resounds thy praises loud,

And Worcester's laureate wreath; yet much remains
To conquer still: peace hath her victories
No less renown'd than war. New foes arise

Threat'ning to bind our souls with secular chains:
Help us to save free Conscience from the paw
Of hireling wolves whose gospel is their maw.


(Milton)

*

Bom dia realidade!

4.7.04
 


ELOGIO DO ALMOCREVE DAS PETAS



Este � o log�tipo dos blogues de que eu gosto mais. N�o gosto das letras, mas sim do fundo.

Que mais me interessa. Que mais me lembra. Quem j� viveu em casas antigas reconhece aquele s�t�o, aquelas paredes, aqueles pap�is, aquele ar, aquela poeira que est� em cima de tudo. Reconhece o que aquilo �, os restos de vidas outras. Tudo aquilo j� teve outro sentido. J� foi novo. Aqueles restos de jornais j� foram lidos com interesse. Aqueles restos de mob�lias, cadeiras a que falta uma perna, m�rmores de toucador partidos, camas de ferro enferrujadas, pequenas demais para os gigantescos adolescentes de hoje, espelhos sem espelho. Coisas que n�o servem, nem ningu�m quis deitar fora. At� um dia.

Que mais Luz tem naquela luz. Que n�o me deixa parar de olhar. A Luz � plat�nica, � a luz da caverna: olhamos mas n�o vemos nada. Brilha demais.

O autor an�nimo do Almocreve � um homem �antigo�, percebe-se. Iniciado, percebe-se. Alimentado por aquela Luz, percebe-se. As leituras, percebem-se. O s�tio de Lisboa, percebe-se. Os alfarrabistas, percebe-se. Aquela mistura de surrealismo com bibliofilia, percebe-se. Aquela mistura de radicalismo pol�tico com mem�ria, percebe-se. O bom observador percebe quase tudo daquele anonimato, mas n�o interessa. O homem sabe o que � um �almocreve�, sabe o que s�o �petas� e sabe o que � o �Almocreve das Petas�. E produz uma fala �nica, uma mistura �nica, uma leitura �nica.
 


ICONOLOGIA DA FUTEBOL�NDIA (Actualizado)

(Subs�dios para um livro da Taschen)

1) A gravata da sorte do Primeiro-ministro.

2) O balne�rio como local onde se aprisionam os dem�nios do azar.

3) As meninas a cantarem o �Com uma for�a� transformado em �come-me � for�a�.

4) Uma portuguesa segura uma est�tua de N. S. de F�tima com um cachecol da selec��o.

5) A bandeira com os pagodes chineses.

6) A blusa patri�tica da Senhora do Presidente da Rep�blica.

7) O Presidente a chorar quando entregava as medalhas aos jogadores.

(Continua)
 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES : A GRAVATA DO PRIMEIRO MINISTRO, A IDA PARA O BALNE�RIO DE GILBERTO MADAIL E , PORQUE N�O, ESCREVER PARA O ABRUPTO

"Se bem me lembro era este o nome de um daqueles primeiros programas revolucion�rios da SIC, que louvam o realismo emotivo, igualit�rio e massificador e que, �por junto� e incluindo zapping, n�o devo ter conseguido ver mais de 5 minutos! Hoje roubo-lhe o t�tulo! Como sub-t�tulo proponho o �In vain have I struggled� (para citar o her�i de Jane Austen in �Pride and Predjudice�).

Fica aqui um duplo pedido de perd�o: por tornar o Abrupto �c�mplice� dos meus impulsos de irracionalidade, e por tentar explic�-los. Quando da primeira vez que exprimi o desejo de uma vit�ria futebol�stica da nossa Selec��o numa nota para a�, para al�m da vontade natural de que ela ocorresse, andava mesmo nauseada com tanto tronco nu de ingl�s de cerveja na m�o. Mas Portugal venceu! Da segunda vez que escrevi para a� essa inten��o de vit�ria, foi �por brincadeira� e ela ia atrelada a uma outra nota. Mas Portugal venceu! Quando me lembrei que dessas duas vezes tinha escrito para a�, e Portugal tinha ganho, disse para comigo: �N�o! N�o vou ficar presa a essas tretas sem nexo nem objectividade; nem nada nem ningu�m tem que aturar tais pseudo-supersti��es. N�o volto a escrever essa inten��o!� Repeti esta resolu��o (s� n�o digo mantra porque � muito palavrosa e devo ter variado os voc�bulos) v�rias vezes, para tentar apaziguar a exalta��o emotiva e irracional que � o rasto deixado pelo futebol em n�s. Tentei.

Mas hoje cedo de manh�, pouco ap�s aquele m�gico momento que � o �gathering oneself together�, j� s� tinha um pensamento e uma preocupa��o: encontrar oportunidade de, sem vergonha, para a� escrever: Espero que Portugal ven�a!

Porque se, por acaso, Portugal perder, que n�o seja por eu n�o ter cumprido o meu �ritual� e n�o ter exprimido a minha �f� (at� coro ao escrever esta palavra: isto sim, isto � que � pecado!) A irracionalidade venceu! E a vergonha na cara (que nunca est� ausente por muito tempo) obrigou-me a estas explica��es.
"

(JPC)
 


EARLY MORNING BLOGS 243

La fortune de l'Hermaphrodite


Les dieux me faisaient na�tre, et l'on s'informa d'eux
Quelle sorte de fruit accro�trait la famille,
Jupiter dit un fils, et V�nus une fille,
Mercure l'un et l'autre, et je fus tous les deux.

On leur demande encor quel serait mon tr�pas
Saturne d'un lacet, Mars d'un fer me menace,
Diane d'une eau trouble, et l'on ne croyait pas
Qu'un divers pronostic marqu�t m�me disgr�ce.

Je suis tomb� d'un saule � c�t� d'un �tang,
Mon poignard d�gain� m'a travers� le flanc,
J'ai le pied pris dans l'arbre, et la t�te dans l'onde.

� sort dont mon esprit est encore effray� !
Un poignard, une branche, une eau noire et profonde
M'ont en un m�me temps meurtri, pendu, noy�.


(Fran�ois Tristan L'Hermite)

*

Bom dia!

3.7.04
 


TEMPOS NOVOS 3

Estamos em tempos de elevada intoxica��o dirigida � comunica��o social. Ela � feita por mestres que sabem muito bem o que fazer para obter resultados. Um exemplo: o artigo do P�blico de hoje intitulado Santana Apreensivo com Novos Desafios. Exemplos de �recados� transmitidos com sucesso:

"O novo presidente do PSD, Pedro Santana Lopes, reconhece a situa��o de dificuldade em que se encontra para (eventualmente) formar Governo sob o olhar atento do Presidente da Rep�blica e para liderar um partido, onde apesar do consenso alargado continua a ser olhado por desconfian�a por alguns sectores. Por isso, Santana n�o querer� hostilizar nenhuma das alas do PSD - a "limpeza" que alguns sociais-democratas previam n�o dever� concretizar-se. E tem emitido sinais de que est� disposto a receber a contribui��o de quase todos os lados - leia-se, mesmo do lado dos cavaquistas.
(...)
O discurso de Santana t�m sido o de reconcilia��o, quando no final da semana passada alguns sectores do PSD come�aram por recear que, assim que este chegasse � lideran�a do partido e formasse Governo, quisesse "correr" com quem no passado o criticou.
(...)
Fonte pr�xima do autarca de Lisboa garante que Santana "n�o far� um Governo de amigos".


N�o s�o nada mais que �recados�; n�o s�o factos, s�o frases que fica bem dizer-se e inten��es que n�o se sabe que fundamento t�m, ou se t�m o significado que lhes � atribu�do. Aqui junta-se o wishfull thinking, a suggestio falsi e a interpreta��o em causa pr�pria � um �recado� com sucesso.
 


POEIRA DE 3 DE JULHO

Hoje, h� quarenta e quatro anos, Kenneth Williams (o actor ingl�s da s�rie Carry On, �exercises in wholesale vulgarity, adenoidal whinnying and the double entendre�, escrevia um cr�tico, mas que tamb�m representara Ibsen, Shaw, Wilde e fizera uma revista intitulada Partilha a minha alface, boa para o Parque Mayer), limpou o seu apartamento e foi fazer compras.

Foi ao talho comprar um bife para o almo�o. O talhante olhou para ele e disse: �I think you�re a lot of prime meself, there you are � four & six pence my angel�.� Acrescenta Kenneth : �I giggled & felt like a little school girl- It was nice.

*

Hoje, h� cento e catorze anos, o conde Tolstoy acordou mal-humorado.

(a seguir)

 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CI�MES


("Esp�rito" observa uma rocha chamada "bread-basket")

Onde est�s tu? Com que ent�o, distra�do com a fresca da Cassini, ainda por cima com o Huygens �s costas, que j� n�o nos ligas nenhuma� N�s aqui a trabalhar, a fazer furinhos no deserto, a olhar de perto as pedras, a descer buracos sem saber se somos capazes de subir outra vez, a subir montanhas sem saber se somos capazes de as descer outra vez, e tu corres atr�s dos an�is? E em que ficam os dedos? Eu aqui a mexer no �cestinho do p�o�. Maledetto, vai l� falar italiano com a Cassini, essa mafiosa meio americana, meio europeia, meio italiana, que n�s aqui somos filhas s� do Imp�rio.
 


EARLY MORNING BLOGS 242

La G�nisse, la Ch�vre, et la Brebis, en soci�t� avec le Lion


La G�nisse, la Ch�vre, et leur soeur la Brebis,
Avec un fier Lion, seigneur du voisinage,
Firent soci�t�, dit-on, au temps jadis,
Et mirent en commun le gain et le dommage.
Dans les lacs de la Ch�vre un Cerf se trouva pris.
Vers ses associ�s aussit�t elle envoie.
Eux venus, le Lion par ses ongles compta,
Et dit : "Nous sommes quatre � partager la proie. "
Puis en autant de parts le Cerf il d�pe�a ;
Prit pour lui la premi�re en qualit� de Sire :
"Elle doit �tre � moi, dit-il ; et la raison,
C'est que je m'appelle Lion :
A cela l'on n'a rien � dire.
La seconde, par droit, me doit �choir encor :
Ce droit, vous le savez, c'est le droit du plus fort
Comme le plus vaillant, je pr�tends la troisi�me.
Si quelqu'une de vous touche � la quatri�me,
Je l'�tranglerai tout d'abord. "


(La Fontaine)

*

Bom dia � "la G�nisse, la Ch�vre, et la Brebis"! Cuidado com o Le�o!
 


TEMPOS NOVOS 2

Se se confirmar o desmentido categ�rico de Cavaco Silva ao Expresso (que ouvi referido no programa Expresso da Meia Noite) de que teria feito qualquer declara��o de apoio a Santana Lopes, estamos perante um segundo exemplo da desinforma��o ocorrida ontem. Coordenada, organizada e intencional, destinada a obter efeitos pol�ticos imediatos. A refor�ar o sentimento de inevitabilidade, a desmoralizar e confundir. Algu�m est� a �trabalhar� a �informa��o� muito a s�rio.

Insisto. Est� na altura dos jornalistas fazerem aquilo que sempre disseram que fariam quando as suas "fontes" deliberadamente mentem: denunciar os seus nomes.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CORNUC�PIA





da abund�ncia.

Vale a pena ir quase de hora a hora aqui , para ver as fotografias, os gr�ficos, os mapas, que jorram das antenas da Cassini para a terra sobre esse mundo complexo que � Saturno. An�is, falhas nos an�is, pequenos sat�lites quase invis�veis ( pontinhos que se deslocam com nomes da mitologia grega), cores verdadeiras, filtros, etc., etc. A ci�ncia planet�ria a dar passos de Atlas.

2.7.04
 


TEMPOS NOVOS

Como se viu com a forma como foi "relatada" aos jornalistas a interven��o e o voto de Manuela Ferreira Leite no Conselho Nacional, j� se percebeu como est� a funcionar uma estrat�gia de "informa��o", ou seja, uma central de desinforma��o. Coordenada, organizada e intencional, destinada a obter efeitos pol�ticos imediatos. Os jornais foram manipulados para contarem mentiras. Manuela Ferreira Leite nem pediu desculpas, nem votou Santana Lopes.

Est� na altura dos jornalistas fazerem aquilo que sempre disseram que fariam quando as suas "fontes" deliberadamente mentem: denunciar os seus nomes.
 



Guillaume Vogels
 


EARLY MORNING BLOGS 241

THE ROAD AND THE END


I SHALL foot it
Down the roadway in the dusk,
Where shapes of hunger wander
And the fugitives of pain go by.
I shall foot it
In the silence of the morning,
See the night slur into dawn,
Hear the slow great winds arise
Where tall trees flank the way
And shoulder toward the sky.

The broken boulders by the road
Shall not commemorate my ruin.
Regret shall be the gravel under foot.
I shall watch for
Slim birds swift of wing
That go where wind and ranks of thunder
Drive the wild processionals of rain.

The dust of the traveled road
Shall touch my hands and face.


(Carl Sandburg)

*

Bom dia!

1.7.04
 


ARTIGO DO P�BLICO

Para quem me pediu uma liga��o, visto que n�o existe na edi��o di�ria do jornal, est� aqui.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: RENDA


Chegou e come�ou a ver a renda de que somos feitos.
Fotografia de hoje, n�o editada, de parte dos an�is de Saturno feita pela sonda Cassini.
Hoje.
 


VERS�O PORTUGUESA DA F�BULA DE LA FONTAINE DOS EARLY MORNING BLOGS DE HOJE

Vers�o da f�bula �Os ratos reunidos em conselho� de Jo�o de Deus Ramos, enviada por Rui Fonseca:

Algures, entre muitos gatos
Um havia
Que era, segundo a fama que corria,
O mais temido ca�ador de ratos.

Focinho de arreganho,
De grande rabo
E de eri�ado pelo,
Para o murganho
V�-lo,
Era do diabo!....

Nenhum rato ca�a na tolice
De sair, sem cautela, do buraco,
Por mais fraco
Que o est�mago sentisse.

N�o, porque ele era o espectro, era a tortura
Que rala, que aniquila, que consome!
Ele era a fome
E a sepultura!

O ca�ador, por�m, n�o era monge;
E numa linda noite de luar
Soube-se no lugar
Que andava longe�

Ent�o,
(Vejam aqui os homens neste espelho
Como eles, f�teis, tantas vezes s�o)
Os ratos reuniram em conselho.

Diziam: - Isto assim n�o pode ser;
Antes a morte que tal sorte:
Passar dias e dias sem comer!

E logo alvitrou um, com alvoro�o:
-Sabem o que � preciso?
� p�r-lhe um guiso
Ao pesco�o�
Com um guiso ele pr�prio nos previne�
Muito embora no ch�o se agache e roje,
Ao menor movimento o guiso tine,
E a gente foge�

-Bravo! - gritaram todos � muito bem!
� assim mesmo! Assim!
Mas quem h�-de ir atar o la�o? Quem?

Eu n�o, que n�o sou tolo! � afirmou um.
Nem eu � disse outro. E enfim,
N�o foi nenhum.

H� destes casos neste mundo a rodos;
Se � preciso coragem numa ac��o,
Todos concordam, ningu�m diz que n�o,
Mas chegado o momento, faltam todos!

 


P�TALA


Jessie Gordon, o t�tulo da pintura � este poema chin�s an�nimo:

You let fall in the dust
The red tulip I gave you
I picked it up
It became white
In that brief moment
It snowed on our love.
 


POBRE PA�S

o nosso, t�o parecido com aquele a que Unamuno se dirigia falando do Quixote:

"Esto es una miseria, una completa miseria. A nadie le importa nada de nada. Y cuando alguno trata de agitar aisladamente este o aquel problema, una u otra cuesti�n, se lo atribuyen o a negocio o a af�n de notoriedad y ansia de singularizarse.
No se comprende aqu� ya ni la locura. Hasta del loco creen y dicen que lo ser� por tenerle su cuenta y raz�n. Lo de la raz�n de la sinraz�n es ya un hecho para estos miserables. Si nuestro se�or Don Quijote resucitara y volviese a esta su Espa�a andar�an busc�ndole una segunda intenci�n a sus nobles desvar�os busc�ndole una segunda intenci�n a sus nobles desvar�os. Si uno denuncia un abuso, persigue la injusticia, fustiga la ramploner�a, se preguntan los esclavos: �qu� ir� buscando en eso? �A qu� aspira? Unas veces creen y dicen que lo hace para que le tapen la boca con oro; otras que es por ruines sentimientos y bajas pasiones de vengativo o envidioso; otras que lo hace no m�s sino por meter ruido y que de �l se hable, por vanagloria; otras que lo hacen por divertirse y pasar el tiempo, por deporte. �L�stima grande que a tan pocos les d� por deportes semejantes!.

F�jate y observa. Ante un acto cualquiera de generosidad, de hero�smo, de locura, a todos esos est�pidos bachilleres, curas y barberos de hoy no se les ocurre sino preguntarse: �por qu� lo har�? Y en cuanto creen haber descubierto la raz�n del acto -sea o no la que ellos se suponen- se dice: �bah!, lo ha hecho por esto o por lo otro. En cuanto una cosa tiene raz�n de ser y ellos la conocen perdi� todo su valor la cosa. Para eso les sirve la l�gica, la cochina l�gica."


Duas coisas mais. Dedico este texto � Teresa Gouveia, que n�o sofre de ac�dia e que mostra uma coisa interessante nesta crise � as mulheres s�o mais tesas que os homens.
A segunda � que est� tudo no Quixote, o livro onde mais se aprende de cada vez que se l�, mil vezes que se tenha lido.
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CHEGOU

a sonda Cassini com o m�dulo Huygens �s costas, a Saturno. Est� a 1.5 bili�es de quil�metros da terra. � obra.

*

"� perturbante a sua preferencia pela NASA e o seu desprezo pelo que a ESA faz neste campo. Bem sei que o proprio Pacheco Pereira ja louvou a capacidade de inspirar da NASA e criticou o suposto cinzentismo europeu. Mas agora que a missao Cassini-Huyghens esta a chegar ao seu ponto culminante, espero que a fundamental participacao da ESA nesta missao tenha o devido destaque Vem isto acerca do seu do seu post de 23/06, 9:03, "Andar com a cabeca no ar", onde fornece uma serie de links bem interessantes para varias missoes da NASA. Noto que nao parece conhecer este link.

Recomendo-lhe que leia os links acerca das seguintes missoes:

SOHO e Ulysses: estas 2 missoes revolucinaram o estudo do Sol pode ser entusiasmante ver robots em Marte, mas a ciencia que saiu desta missoes cinzentas nao tem paralelo
Giotto: ja completada, foi uma das mais bem sucedidas missoes "deep space", com varios encontros proximos com cometas
Rosetta: vai tentar arpoar e pousar - sim, isso mesmo - num cometa Estas 2 missoe sao o melhor em estudo dos cometas, e em pilotagem! Ninguem pode dizer que a ESA nao tem missoes espectaculares.

Mars e Venus Express - Uma ja esta em Marte, a outra seguira para Venus. Usam como base o desenho da Rosetta, e fazem muita ciencia

E finalmente a missao NASA/ESA Cassini-Huygens, que vai atingir o ponto culminante quando o modulo Huygens tentar pousar en Tita. Esperemos que tudo corra bem!
"

(Nuno Anjos)

*

"Venho fazer um reparo a um dado escrito no "Abrupto". Est� escrito que "a sonda Cassini com o m�dulo Huygens [...] Est� a 1.5 bili�es de quil�metros da terra." Isso, escrito em portugu�s, ou franc�s - seria igual, - n�o est� correcto. Em ingl�s, sim estaria correcto.

De facto, tomando as dist�ncias da Terra e de Saturno ao Sol, mais especificamente o semi-eixo maior das elipses que constituem as suas �rbitas, com valores, respectivamente, 1427 e 149.6 milh�es de quil�metros, segue-se que as dist�ncias m�nima e m�xima da Terra a Saturno s�o, aproximandamente,

1427 - 149.6 = 1277,4 milh�es de quil�metros
1427 + 149.6 = 1576,6 milh�es de quil�metros

Ora, em franc�s ou portugu�s, um bili�o � um milh�o de milh�es, pelo que � incorrecto simplificar o segundo resultado para 1,5 bili�es de quil�metros. J� entre os anglo-sax�nicos, um "billion" � um milhar de milh�es (a que os franceses chamam "milliard").

Conclus�o: ao fazer tradu��es de grandes n�meros h� que ter aten��o a esta diferen�a, para n�o introduzir um factor mil, esp�rio.
"

(Ana N.)

 


EARLY MORNING BLOGS 240

Conseil tenu par les Rats


Un Chat, nomm� Rodilardus
Faisait des Rats telle d�confiture
Que l'on n'en voyait presque plus,
Tant il en avait mis dedans la s�pulture.
Le peu qu'il en restait, n'osant quitter son trou,
Ne trouvait � manger que le quart de son sou,
Et Rodilard passait, chez la gent mis�rable,
Non pour un Chat, mais pour un Diable.
Or un jour qu'au haut et au loin
Le galant alla chercher femme,
Pendant tout le sabbat qu'il fit avec sa Dame,
Le demeurant des Rats tint chapitre en un coin
Sur la n�cessit� pr�sente.
D�s l'abord, leur Doyen, personne fort prudente,
Opina qu'il fallait, et plus t�t que plus tard,
Attacher un grelot au cou de Rodilard ;
Qu'ainsi, quand il irait en guerre,
De sa marche avertis, ils s'enfuiraient en terre ;
Qu'il n'y savait que ce moyen.
Chacun fut de l'avis de Monsieur le Doyen,
Chose ne leur parut � tous plus salutaire.
La difficult� fut d'attacher le grelot.
L'un dit : "Je n'y vas point, je ne suis pas si sot";
L'autre : "Je ne saurais."Si bien que sans rien faire
On se quitta. J'ai maints Chapitres vus,
Qui pour n�ant se sont ainsi tenus ;
Chapitres, non de Rats, mais Chapitres de Moines,
Voire chapitres de Chanoines.
Ne faut-il que d�lib�rer,
La Cour en Conseillers foisonne ;
Est-il besoin d'ex�cuter,
L'on ne rencontre plus personne.


(La Fontaine)

*

Bom dia!

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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