ABRUPTO |
correio para
jppereira@gmail.com
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30.4.04
23:59
(JPP)
na TSF, hoje � tarde, a habitual diferen�a de tratamento noticioso conforme as pessoas (e, claro, conforme as pol�ticas). Neste caso, entre Dur�o Barroso, Jorge Sampaio e Lou��. As declara��es do Presidente da Rep�blica sobre a Europa e os EUA s�o, pelo menos, t�o pol�micas como as de Dur�o Barroso sobre Espanha. S� que, no segundo caso, �gera-se� a pol�mica indo imediatamente perguntar a terceiros sobre se pensam que elas v�o �prejudicar� as rela��es com Espanha. O mote � dado pelas perguntas dos jornalistas e, neste caso, mais que justificado. N�o seria normal fazer o mesmo e ir perguntar a terceiros se as palavras de Jorge Sampaio n�o prejudicam as nossas rela��es com os EUA, e se os conselhos aos novos pa�ses europeus n�o s�o paternalistas? Tamb�m me parece mais que justificado S� que ningu�m o faz. E quanto a Lou��? Porque � que ningu�m se lembra de lhe perguntar se, depois dos desmentidos da CGD e da aus�ncia de provas que revelou para as suas graves acusa��es, n�o deveria tirar consequ�ncias e pedir, pelo menos, desculpa? Qual qu�, o homem tem um estatuto especial, pode acusar todos de tudo, com a sua total arrog�ncia moral, que ningu�m se importa.
13:09
(JPP)
Foi interessante o Barnab� lembrar-se de tudo e mais alguma coisa � e algumas mem�rias do 25 de Abril ser�o referidas pelo seu m�rito e informa��o nos Estudos sobre o Comunismo � e esquecer-se do passado colectivo das organiza��es que lhe s�o pr�ximas, em particular o Bloco de Esquerda. H� muita gente que se incomoda com o seu passado, o que n�o � o meu caso, como se sabe. Tamb�m me irrita a mim essa falta de mem�ria selectiva. O Barnab�, por causa disso, atacou Dur�o Barroso, que n�o � o melhor exemplo dessa amn�sia. Mas, e as organiza��es que tamb�m se esquecem do seu passado? Onde � que h� qualquer mem�ria colectiva do que foram e porque � que mudaram? Ou n�o mudaram? Por exemplo, quando � que a UDP deixou de ser mao�sta? Sabem? E quando � que deixou de ser marxista-leninista, com aquele �partido comunista� a controlar a �frente�? Quando � que o PSR deixou de ser trotsquista, ou, como eles diziam, �marxista-revolucion�rio�? Deixou? � curioso que sabemos mais da genealogia das mudan�as dos ex-comunistas, que se juntaram ao BE, do que sabemos dos seus esquerdistas. O que � que Fazenda ou Lou�� disseram em 1975, 1976, 1980, 1990, de que n�o se lembram hoje? Onde est� a reflex�o que certamente fizeram? Ou tiveram sempre raz�o? Ou apenas �evolu�ram� como o 25 de Abril?
12:46
(JPP)
Vendo o Guggenheim em Bilbau quem � que podia alguma vez imaginar que um edif�cio de Gehry n�o fosse car�ssimo? Claro que o Parque Mayer tinha que encravar, ou , em alternativa, gastar-se-� tanto dinheiro que o seu impacto visual, qualidade e uso tem que estar garantidos. Eu n�o digo que n�o valha a pena, mas exige-se muito mais prud�ncia ou ent�o aquela ousadia que vem de muito estudo e de uma grande intui��o de gosto, que duvido tenha havido ou exista.
12:35
(JPP)
Para breve: um eclipse da Lua, dois cometas, uma passagem de V�nus em frente ao Sol. Para os cometas, ainda n�o se sabe se como vai ser o espect�culo. Para a Lua, as palavras enviadas por Jos� Matos: �Na pr�xima Ter�a, vamos ter um eclipse total da Lua. O nosso sat�lite entrar� na sombra da Terra �s 19:48. Pouco a pouco, ir� escurecer at� atingir a fase de totalidade �s 20:52. A essa hora a Lua acabou de nascer no nosso horizonte, o que quer dizer que n�o vamos ver o come�o do eclipse. Mesmo assim, vale a pena ver o meio e o fim.� Para o tr�nsito de V�nus, o livro de Nuno Crato/Fernando Reis/Lu�s Tirapicos da Gradiva, tem as explica��es e os �culos que permitem ver o pequeno ponto a atravessar a orbe solar. Sem esses �culos, olhar para o Sol cega.
11:36
(JPP)
![]() O livro publicado por Basta Ya, Euskadi, Del Sue�o a la Verguenza. Guia �til del Drama Vasco, Barcelona, 2004, � uma boa introdu��o actualizada ao �drama basco�.
11:21
(JPP)
O Guggenheim em Bilbau tem fama de valer a pena ser visitado pelo edif�cio de Gehry, mas de, como museu, �ter poucas coisas�. Tem de facto �poucas coisas�, ![]() Mas, como a sorte me protege, est� no museu uma exposi��o das mais interessantes para se perceber, a quente, o frio devastador do discurso est�tico contempor�neo. Solid�o, morte, terror, gestos �ridos, perplexidade sem respostas, fealdade, solid�o, outra vez em tudo, aparece nas fotografias, nos filmes, e nos objectos de Moving Pictures. ![]() ![]() ![]() ![]() ![]()
09:58
(JPP)
Com excep��o do "domina o �rabe", o que n�o � verdade, uma s�ntese fiel do que disse em Espanha est� aqui.
09:45
(JPP)
Para os meus amigos bascos e navarros, esta poesia sobre a "besta" que t�o bem conhecem. The Rhyme of the Beast Lo, the Beast that rioteth, Sick with hate and coveting -- To the sons of men he saith, I will show you a new thing. This, the Earth, which was the Lord's, Prodigal of rose and vine, I will desolate with swords Till it own that it is mine. Every brow must bear my brand Every wrist must wear my steel, Every throat be for my hand, Every neck be for my heel. I will thrust into your souls Unnamed terrors and despairs -- Populate the air with ghouls And the sea with murderers. While I prove that war is war, Saints shall mourn and angels weep, Star commiserate with star, Deep cry out to shuddering deep; Tigers marvel in their lust At the tale of blood and pain, Pity move the insensate dust, And the very stones complain. I will twist the tongue of Truth Till her speech be nought but lies, I will kill the faith of Youth, And the hope in Age's eyes. Not the altar, nor the tomb, Nor the Sufferer on the Tree, Nor the babe within the womb Shall be sacred unto me. I will rend and rage and cog, Rob and ravish till I die; I will be the Supreme Hog, And the world shall be my sty. (Thomas William Hodgson Crosland)
01:44
(JPP)
as paredes com palavras de �dio numa l�ngua estranha, o euskera, uma l�ngua inventada pela pol�tica nacionalista. L� longe, escrito num muro do cemit�rio, �gora ETA�. Por uma vez num s�tio apropriado.
01:27
(JPP)
onde, para fazer uma vulgar confer�ncia sobre o terrorismo, tenho que ter protec��o policial.
01:06
(JPP)
h� uma geografia do medo. Em Portugal ningu�m liga. S� quando h� mortos passa um pequeno sobressalto. Mas os mortos s�o s� a parte de cima do iceberg, a maioria do gelo est� debaixo de �gua. Ningu�m liga. Preferem-se causas ex�ticas, politicamente mais aceit�veis, ideologicamente correctas, multiculturais, altermundialistas. O que a ETA conseguiu s� se consegue entender completamente l�. Quando as conversas sobre pol�tica se transformam num sussurro incomodado, quando num restaurante ou num bar passa perto outra pessoa. Quando, por todo o lado, aparece uma hist�ria de viol�ncia ou coragem. �Sabe, foi aqui, vinha a entrar e dois etarras metralharam-no. Levou vinte e oito tiros e sobreviveu.� (� porta do Di�rio de Navarra) �Tinha estado a ver as fotografias do casamento dele. Depois mataram-no�. (No parlamento regional.) �� preciso ser valente para ser alcaide em X. � uma mulher valente.� (Em X.) 29.4.04
21:25
(JPP)
O Abrupto esteve interrompido porque o seu autor foi falar de terrorismo, a terras onde ele existe. Detalhes em breve. 27.4.04
08:41
(JPP)
Sala de espect�culos da municipalidade. Madame la maire adjointe na sala. No palco, a Orquestra Ligeira do Ex�rcito, resumindo OLE. Sem acento, mas est� l� subentendido. Come�a a fun��o para comemorar o 25 de Abril. E aqueles militares, homens e mulheres, alinhadinhos nas suas fardas, transfiguram-se numa orquestra que envergonha a do Casino Estoril. Desde a soldado Biscoito, que canta de Am�lia ao Elvis, passando pela cabo Tuca, at� a um sargento que enche o palco com uma bela voz e � daquelas pessoas que se sabe que se estiver numa sala toda a gente se diverte, tudo se torna "ligeiro".Benny Goodman, Elvis, can��es de cabaret, os nossos sargentos - a patente dominante - fazem muito bem o que est�o a fazer. Mas estava-se em Puteaux e quando a cabo Tuca anunciou que se iria tocar e cantar m�sica portuguesa, um medley da Am�lia, e uma raps�dia de can��es do Minho ao Algarve, a sala soltou um som de agrado fundo, de perten�a.
08:28
(JPP)
Espa�o Boris Vian. Municipalidade comunista com dez por cento de portugueses. Grande f�brica da Peugeot. Uma rapariga portuguesa/francesa? pergunta mesa a mesa: "Voc� quer morue ou pintade?". Os nossos bravos compatriotas na festa do 25 de Abril organizada pela Associa��o Cultural Desportiva dos Portugueses Benfica de Ach�res querem "morue", n�o querem a "pintada" e emocionam-se com a "Gr�ndola , vila morena".
08:11
(JPP)
Cada Coisa Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. N�o florescem no inverno os arvoredos, Nem pela primavera T�m branco frio os campos. � noite, que entra, n�o pertence, L�dia, O mesmo ardor que o dia nos pedia. Com mais sossego amemos A nossa incerta vida. � lareira, cansados n�o da obra Mas porque a hora � a hora dos cansa�os, N�o puxemos a voz Acima de um segredo, E casuais, interrompidas, sejam Nossas palavras de reminisc�ncia (N�o para mais nos serve A negra ida do Sol) � Pouco a pouco o passado recordemos E as hist�rias contadas no passado Agora duas vezes Hist�rias, que nos falem Das flores que na nossa inf�ncia ida Com outra consci�ncia n�s colh�amos E sob uma outra esp�cie De olhar lan�ado ao mundo. E assim, L�dia, � lareira, como estando, Deuses lares, ali na eternidade, Como quem comp�e roupas O outrora comp�nhamos Nesse desassossego que o descanso Nos traz �s vidas quando s� pensamos Naquilo que j� fomos, E h� s� noite l� fora. (Ricardo Reis) * Bom dia! 26.4.04
19:29
(JPP)
por causa do 25 de Abril. Em breve, haver� not�cias sobre alguns pequenos 25 de Abril em que participei junto com emigrantes. Com "morue" e sem "morue", com m�sica ou sem ela, com maires comunistas e em "zonas livres de armas nucleares" e com o fundo de... Paris � uma festa. 25.4.04
23.4.04
18:44
(JPP)
![]() Sobe, sobe, pequeno "Esp�rito", para as montanhas altas. N�o s�o altas? S�o, s�o. T�o longe que s�o sempre altas.
07:23
(JPP)
Dr. Sigmund Freud Discovers the Sea Shell Science, that simple saint, cannot be bothered Figuring what anything is for: Enough for her devotions that things are And can be contemplated soon as gathered. She knows how every living thing was fathered, She calculates the climate of each star, She counts the fish at sea, but cannot care Why any one of them exists, fish, fire or feathered. Why should she? Her religion is to tell By rote her rosary of perfect answers. Metaphysics she can leave to man: She never wakes at night in heaven or hell Staring at darkness. In her holy cell There is no darkness ever: the pure candle Burns, the beads drop briskly from her hand. Who dares to offer Her the curled sea shell! She will not touch it!--knows the world she sees Is all the world there is! Her faith is perfect! And still he offers the sea shell . . . What surf Of what far sea upon what unknown ground Troubles forever with that asking sound? What surge is this whose question never ceases? (Archibald MacLeish) * Bom dia! 22.4.04
19:36
(JPP)
Hoje , h� oitenta e nove anos, duas divis�es coloniais francesas na frente de Ypres notaram que as granadas lan�adas pelos alem�es espalhavam um fumo diferente. Os soldados come�aram a cair no ch�o, com um enjoo intenso seguido de desmaio. Muitos morreram. O Tribune de Nova Iorque chamava-lhe gases �asfixiantes�. Era um composto de cloro. O primeiro ataque generalizado com gases da guerra tinha sido realizado. A m�e de todas as armas do nosso s�culo, nosso, do XXI, come�ara a sua tenebrosa fun��o.
16:21
(JPP)
e quase em sil�ncio, muda quase tudo. Isto ser� votado hoje por uma maioria PSD-PP-PS, no �mbito de uma revis�o constitucional que abre o caminho � Constitui��o europeia. � Os tratados da Uni�o Europeia e as normas das suas institui��es s�o aplic�veis na ordem interna portuguesa. � Portugal pode exercer "em comum, em coopera��o ou pelas institui��es da Uni�o, os poderes necess�rios � constru��o e aprofundamento da Uni�o Europeia". Verdadeira vota��o de �sistema�, de establishment. O PSD e o PS evitam fazer barulho, do PP nem um sussurro. Como se n�o fosse importante. Agora � ainda mais vital a luta pelo referendo, logo que haja o texto definitivo da Constitui��o, com os arranjos finais dos governos no Conselho. Se houver coragem de levar o texto da Constitui��o a todos os votos poss�veis, referendos, parlamentos, etc., na maioria dos pa�ses europeus � e deste ponto de vista a decis�o de Blair � muito positiva - a UE ganha um acrescento de legitimidade democr�tica, de que bem precisa h� muito tempo. Mas duvido que o texto, de g�nese duvidosa numa Conven��o que se arrogou poderes que n�o tinha, e fruto de todas as ambiguidades da Europa de hoje, passe esse escrut�nio.
11:12
(JPP)
![]() em algo que nunca nenhum mortal tinha visto. O mundo cresce. Um pouco mais de esfor�o, senhor Malthus, que ainda n�o � desta.
11:00
(JPP)
Hoje prev�-se a ida a plen�rio, no Parlamento Europeu, de um documento que exige, s� ele, mil e quinhentas vota��es. Fazem-se esfor�os de bom senso para as diminuir, mas ningu�m quer prescindir da sua emenda sobre a divis�o do artigo X ou Y.
09:03
(JPP)
Everyday she takes her morning bath, she wets her hair Wraps a towel around her as she's heading for the bedroom chair Slipping into stockings, stepping into shoes, Dipping in her pocket of her rain coat... It's just another day... At the office where the papers grow, she takes a break Drinks another coffee and she finds it hard to stay awake It's just another day... So sad, so sad... Sometimes she feels so sad Alone in her apartment she'd dwell Till the man of her dreams comes to break the spell Ah... Stay... Don't stand around And he comes and he stays but he leaves the next day So sad... Sometimes she feels so sad As she posts another letter to the sound of five, People gather round her and she finds it hard to stay alive It's just another day... (Paul Mc Cartney e os Wings, cortesia de A.) 21.4.04
09:56
(JPP)
![]() N�o sei quantas vezes li descri��es dos �ltimos momentos de Hitler no seu bunker berlinense, mas o pr�prio facto de ter acabado de ler mais uma mostra o fasc�nio que esses momentos t�m. N�o sou s� eu, � uma multid�o de pessoas que esgota e torna em best sellers tudo o que diga respeito a estes dias de Abril de 1945. Em bom rigor, sabe-se muito, e o que n�o se sabe dificilmente se ir� saber. N�o � sequer o mist�rio das vers�es contradit�rias sobre os momentos finais de Hitler que explicam, nos dias de hoje, o interesse pelo fim do Reich. � o pathos da personagem Hitler e da sua corte final, e a tentativa de explica��o de algo muito dif�cil de explicar: a puls�o destrutiva, o Gotterdamerung macabro desses dias. Pode tamb�m ser que procuremos encontrar uma racionalidade para algo intrinsecamente irracional e inexplic�vel, e o nosso fasc�nio seja afinal o tra�o de uma recusa psicol�gica face ao que n�o tem explica��o, ao que de todo n�o controlamos. O livro de Joachim Fest � magn�fico porque combina uma descri��o narrativa depurada dos �ltimos dias do bunker , incluindo o que se sabe das fontes sovi�ticas entretanto tornadas dispon�veis, com uma interpreta��o sobre Hitler e os seus companheiros dos �ltimos dias, em particular Goebbels. A sua tese - Hitler nunca "construiu", s� destruiu, era movido por uma vontade de destrui��o que nos �ltimos dias da guerra se voltou tamb�m contra os alem�es - salienta a singularidade da personagem. Sem Hitler tudo seria diferente, mas Hitler � uma excep��o hist�rica, nunca quis deixar qualquer "obra" que n�o fosse a terra queimada, onde povos e na��es sucumbiram. Pouco a pouco, a for�a da sua personalidade, a sua vontade inquebr�vel, seleccionou uns poucos seguidores que espelhavam a mesma vontade de destruir, hipnotizou muitos outros numa obedi�ncia cega, e depois, pela corrup��o do dinheiro e do poder, alargou essa base dos fan�ticos para os oportunistas. Estes deixaram-no no fim , os outros acabaram com ele ou como ele. E n�o foi s� Goebbels e a mulher, que se suicidaram depois de matarem os seis filhos, mas muitos outros oficiais das SS, motoristas, secret�rias, que ficaram at� ao fim, quase cem pessoas nos �ltimos dias de Abril. Fest retrata bem essa comunidade alucinada, que tentou continuar a guerra at� ao �ltimo berlinense, at� ao �ltimo alem�o, uma guerra j� perdida. Uma das perplexidades nesta atitude � o seu car�cter pouco "moderno", numa �poca em que as guerras terminam quase de forma burocr�tica, algo para que o regime nazi tinha tamb�m apet�ncia. Veja-se Eichmann revisto por Hanna Arendt. Mas n�o. Hitler queria levar tudo e todos consigo, num acto de imola��o que inclu�a uma suprema vingan�a contra todos os que o tinham "tra�do", inclusive o povo alem�o, e, de certo modo, contra si pr�prio, porque tinha mostrado "fraqueza", tinha-se enredado em compromissos a que agora atribu�a a derrota. (Continua)
08:31
(JPP)
La synagogue Ottomar Scholem et Abraham Loeweren Coiff�s de feutres verts le matin du sabbat Vont � la synagogue en longeant le Rhin Et les coteaux o� les vignes rougissent l�-bas Ils se disputent et crient des choses qu'on ose � peine traduire B�tard con�u pendant les r�gles ou Que le diable entre dans ton p�re Le vieux Rhin soul�ve sa face ruisselante et se d�tourne pour sourire Ottomar Scholem et Abraham Loeweren sont en col�re Parce que pendant le sabbat on ne doit pas fumer Tandis que les chr�tiens passent avec des cigares allum�s Et parce qu'Ottomar et Abraham aiment tous deux Lia aux yeux de brebis et dont le ventre avance un peu Pourtant tout � l'heure dans la synagogue l'un apr�s l'autre Ils baiseront la thora en soulevant leur beau chapeau Parmi les feuillards de la f�te des cabanes Ottomar en chantant sourira � Abraham Ils d�chanteront sans mesure et les voix graves des hommes Feront g�mir un L�viathan au fond du Rhin comme une voix d'automne Et dans la synagogue pleine de chapeaux on agitera les loulabim Hanoten ne Kamoth bagoim tholahoth baleoumim (Guillaume Apollinaire) * Bom dia! 20.4.04
17:50
(JPP)
![]() Vale a pena, vale mesmo a pena, porque as respostas � pergunta dizem muito sobre os intelectuais, mais do que sobre o liberalismo.
17:37
(JPP)
Que vota��es s�o estas? Um pouco de tudo, muita mat�ria ambiental, muita regulamenta��o. Um dos n�cleos mais importante da vota��o de hoje foi um "relat�rio sobre a proposta de directiva do PE e do Conselho relativa �s pilhas e acumuladores assim como �s pilhas e acumuladores usados". Porqu� t�o elevado n�mero de emendas e t�o grande af� dos deputados sobre estes textos? Em grande parte, devido � movimenta��o dos grupos de interesse europeus ligados �s ind�strias respectivas e, num outro sentido, �s cada vez mais poderosas e fortemente subsidiadas ind�strias ambientais. Cada grupo de interesses encontra, nos partidos pol�ticos, diferentes "ecologias", umas mais pr�ximas da "ind�stria", outras mais pr�ximas do "ambiente" (e tamb�m da "ind�stria" do ambiente). O conflito entre estes interesses traduz-se numa chuva de emendas, pr� ou contra a "ind�stria", com os deputados a actuar em fun��o de grupos de interesse. Se isto, na cultura pol�tica portuguesa, � visto como vergonhoso, nos pa�ses mais industrializados, em particular do norte da Europa, � tido como normal. ![]() � por essas e por outras que h� quase cem emendas ao relat�rio das pilhas.
17:04
(JPP)
Desde ontem que a Telepac resolveu avariar-me a caixa do correio, e, numa fabulosa demonstra��o de como as quest�es dos bits se podem tratar como as dos �tomos, apesar de avisada, ainda n�o conseguiu resolver o problema. Por isso, amigos que enviaram correio verdadeiro, v�rus que dizem "hi" e "hello" , e vendedores de Vicodin e Xanax, t�m que esperar mais um pouco, n�o se sabe bem porqu�.
14:46
(JPP)
hoje, votou-se, em duas horas, seiscentos e vinte artigos, emendas, resolu��es, etc. Seiscentas e vinte e duas vota��es.
14:40
(JPP)
Um filme muito interessante sobre os trotsquistas passou na televis�o francesa. Ou melhor, apenas sobre um grupo trotsquista, a ex-OCI / Parti des Travailleurs, os "lambertistas", e ficaram de fora os trotsquistas do grupo de Krivine, a que est� ligado o PSR de Francisco Lou��, na IV Internacional. Os "lambertistas" t�m uma fama muito pr�pria e uma "cultura" de partido que lhes vem da conjuga��o de serem um grupa ultra-conspirativo, muito fechado e sect�rio, com uma pr�tica de "entrismo" nos sindicatos e partidos "burgueses", sem revelarem as suas reais convic��es ideol�gicas. Os "lambertistas" tiveram a sua hora de gl�ria quando se soube que Leonel Jospin, ent�o primeiro ministro, tinha mentido sobre a sua perten�a ao grupo e, j� secret�rio geral do PS, reunia clandestinamente com Lambert para lhe passar informa��es e receber instru��es. A reportagem da televis�o mostrava as extensas rela��es, pactadas ou escondidas, entre o PSF, o sindicato Force Ouvri�re, e o grupo de Lambert, e o modo como este actuava fornecendo servi�os de seguran�a, "limpando" as salas de opositores, organizando grupos para vaias, etc., etc. N�o em 1968, mas hoje. O Parti des Travailleurs tem uma face menos simp�tica do que a LCR de Krivine, mas os m�todos e as tradi��es n�o variam muito. Em Portugal, ningu�m faria uma reportagem deste g�nero sobre o am�vel Bloco.
09:45
(JPP)
Ontem, a TSF passava uma pe�a da sua correspondente italiana sobre as reac��es em It�lia � decis�o de Zapatero de retirada das tropas espanholas do Iraque. A pe�a, informativa e rigorosa, referia que, "por um lado", havia "alguns analistas" que entendiam que a It�lia devia seguir o caminho da Espanha, sem citar nomes, e, "por outro", a maioria dos editorialistas da imprensa italiana, incluindo os jornais hostis a Berlusconi, criticavam Zapatero. Seguia-se uma lista dos argumentos desses editoriais, incluindo o "parecer" que se cedia aos grupos terroristas, at� � quebra de uma posi��o comum europeia por Zapatero, numa altura decisiva para a negocia��o com os EUA, coisas de que se fala pouco em Portugal, dominados que estamos pelo notici�rio pros�lito sobre o Iraque. At� aqui tudo bem. S� que, nos notici�rios seguintes da TSF, esta pe�a passa a ser introduzida apenas pelo primeiro "lado", aquele que notoriamente quase n�o tem papel na economia informativa da correspondente, ou seja, tudo se resume aos italianos quererem seguir o exemplo de Zapatero. Bem sei que isto � uma gota de �gua numa chuva cont�nua, mas era t�o clara a manipula��o da pr�pria pe�a jornal�stica, que merece ser registada. * No Mar Salgado outros exemplos do "costume" sobre Bush e Kerry.
09:22
(JPP)
Fim do grosso dos trabalhos manuais, princ�pio do fino. O Abrupto volta hoje � normalidade, se � isso que se lhe pode chamar.
09:20
(JPP)
Ali N�o Havia Ali n�o havia eletricidade. Por isso foi � luz de uma vela morti�a Que li, inserto na cama, O que estava � m�o para ler � A B�blia, em portugu�s (coisa curiosa), feita para protestantes. E reli a "Primeira Ep�stola aos Cor�ntios". Em torno de mim o sossego excessivo de noite de prov�ncia Fazia um grande barulho ao contr�rio, Dava-me uma tend�ncia do choro para a desola��o. A "Primeira Ep�stola aos Cor�ntios" ... Relia-a � luz de uma vela subitamente antiq��ssima, E um grande mar de emo��o ouvia-se dentro de mim... Sou nada... Sou uma fic��o... Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo? "Se eu n�o tivesse a caridade." E a soberana luz manda, e do alto dos s�culos, A grande mensagem com que a alma � livre... "Se eu n�o tivesse a caridade..." Meu Deus, e eu que n�o tenho a caridade! ... (�lvaro de Campos) * Bom dia! 19.4.04
07:30
(JPP)
Drum In the early morning before the shop opens, men standing out in the yard on pine planks over the umber mud. The oil drum, squat, brooding, brimmed with metal scraps, three-armed crosses, silver shavings whitened with milky oil, drill bits bitten off. The light diamonds last night's rain; inside a buzzer purrs. The overhead door stammers upward to reveal the scene of our day.Philip Levine We sit for lunch on crates before the open door. Bobeck, the boss's nephew, squats to hug the overflowing drum, gasps and lifts. Rain comes down in sheets staining his gun-metal covert suit. A stake truck sloshes off as the sun returns through a low sky. By four the office help has driven off. We sweep, wash up, punch out, collect outside for a final smoke. The great door crashes down at last. In the darkness the scents of mint, apples, asters. In the darkness this could be a Carthaginian outpost sent to guard the waters of the West, those mounds. could be elephants at rest, the acrid half light the haze of stars striking armor if stars were out. On the galvanized tin roof the tunes of sudden rain. The slow light of Friday morning in Michigan, the one we waited for, shows seven hills of scraped earth topped with crab grass, weeds, a black oil drum empty, glistening at the exact center of the modern world. (Philip Levine) * Bom dia! 18.4.04
11:42
(JPP)
![]() Com novas cabe�as, embora o corpo esteja j� na meia idade, o �Esp�rito� e a �Oportunidade� correm mais depressa. Depois n�o digam que n�o � a cabe�a que manda. Pittura � cosa mentale. Este � o caminho para a cratera Endurance, e �Oportunidade�, boa sonda americana, aprendeu as suas li��es de hist�ria. Recordou-se da marcha dos m�rmons para o lago salgado. "Tamb�m eu l� chegarei". Ao outro lado.
10:39
(JPP)
A Joana Pereira de Castro devo esta lembran�a de � uma das mais belas �early morning� jamais escritas.� Tem toda a raz�o: �De t�o �bvia, sempre pensei que j� tivesse sido inclu�da no Abrupto e na altura nem a sugeri. Qual n�o foi o meu espanto quando, na minha leitura integral, n�o a vi. Como � poss�vel ainda n�o ter sido inclu�da? Anda algu�m distra�do? �. Eu, que ainda h� pouco a tinha lido como "never ending story". ![]() Juliet. Wilt thou be gone? it is not yet near day: It was the nightingale, and not the lark, That pierc'd the fearful hollow of thine ear; Nightly she sings on yond pomegranate tree: Believe me, love, it was the nightingale. Romeo. It was the lark, the herald of the morn, No nightingale: look, love, what envious streaks Do lace the severing clouds in yonder east: Night's candles are burnt out, and jocund day Stands tiptoe on the misty mountain tops. I must be gone and live, or stay and die. Juliet. Yond light is not daylight, I know it, I: It is some meteor that the sun exhales To be to thee this night a torch-bearer And light thee on the way to Mantua: Therefore stay yet, thou need'st not to be gone. Romeo. Let me be ta'en, let me be put to death; I am content, so thou wilt have it so. I'll say yon gray is not the morning's eye, 'Tis but the pale reflex of Cynthia's brow; Nor that is not the lark whose notes do beat The vaulty heaven so high above our heads: I have more care to stay than will to go.-- Come, death, and welcome! Juliet wills it so.-- How is't, my soul? let's talk,--it is not day. Juliet. It is, it is!--hie hence, be gone, away! It is the lark that sings so out of tune, Straining harsh discords and unpleasing sharps. Some say the lark makes sweet division; This doth not so, for she divideth us: Some say the lark and loathed toad change eyes; O, now I would they had chang'd voices too! Since arm from arm that voice doth us affray, Hunting thee hence with hunt's-up to the day. O, now be gone; more light and light it grows. (Shakespeare) 17.4.04
10:09
(JPP)
Continuam os trabalhos manuais, com preju�zo do Abrupto. Vamos ver se melhoram as coisas neste fim de semana.
10:08
(JPP)
Comme le champ sem� en verdure foisonne, De verdure se hausse en tuyau verdissant, Du tuyau se h�risse en �pi florissant, D'�pi jaunit en grain que le chaud assaisonne : Et comme en la saison le rustique moissonne Les ondoyants cheveux du sillon blondissant, Les met d'ordre en javelle, et du bl� jaunissant Sur le champ d�pouill� mille gerbes fa�onne : Ainsi de peu � peu cr�t l'empire Romain, Tant qu'il fut d�pouill� par la Barbare main, Qui ne laissa de lui que ces marques antiques, Que chacun va pillant : comme on voit le glaneur Cheminant pas � pas recueillir les reliques De ce qui va tombant apr�s le moissonneur. (Joachim du Bellay) * Bom dia! 16.4.04
15.4.04
07:20
(JPP)
Venho de longe e trago no perfil, Em forma nevoenta e afastada, O perfil de outro ser que desagrada Ao meu actual recorte humano e vil. Outrora fui talvez, n�o Boabdil, Mas o seu mero �ltimo olhar, da estrada Dado ao deixado vulto de Granada, Recorte frio sob o unido anil... Hoje sou a saudade imperial Do que j� na dist�ncia de mim vi... Eu pr�prio sou aquilo que perdi... E nesta estrada para Desigual Florem em esguia gl�ria marginal Os girass�is do imp�rio que morri... (Fernando Pessoa)
00:44
(JPP)
Ouvindo a auto-propaganda elogiosa que a RTP Internacional ( e a nacional) passa incessantemente sobre os m�ritos de si pr�pria ( o que no contexto actual, significa elogiar o governo que a �reformou�), no intervalo dos sucessivos jogos de futebol, dos concursos, etc, ouvindo as palmas socialistas e bloquistas em nome da ideologia do �servi�o p�blico�, penso: quando eu for grande e se for do governo quero ter uma televis�o como esta. 14.4.04
22:12
(JPP)
tem sido um pouco abandonado, porque o autor tem estado a fazer trabalho manual, na tradi��o maoista dir�o os amargos e os c�nicos, na tradi��o mon�stica dir�o os ben�volos. Pouco a pouco voltar� aos eixos, eixos muito pr�prios mas constantes.
21:58
(JPP)
Hoje a Waterstone�s estava cheia de novos livros ingleses e americanos. Cada estante tinha livros a chamar: �comprem-me�. Foi-lhes feita a a vontade. Como resistir, nestes dias de anivers�rio do saque de Constantinopla, a Jonathan Phililips, The Fourth Crusade and the Sack of Constantinople, Londres, Jonathan Cape; ou a John Keegan, The Iraq War, Londres, Hutchinson, por aquele que melhor escreve sobre a �face da batalha� na guerra; ou a mais uma biografia de peter Ackroyd, Chaucer, Londres , Chatto and Windus e a �e a ... ![]() ![]() A menina da caixa sorriu mais que o Smiley e disse-me �volte r�pido�. Percebo-a muito bem.
11:53
(JPP)
O "Esp�rito" mudou de "mente", l� na solid�o marciana. Maravilhas do software, respondendo � d�vida de Descartes de como � que um "fantasma" podia mandar numa "m�quina". O "Esp�rito" mudou de "fantasma", de "alma", de "mente" e fez reboot com sucesso. Est� melhor agora, move-se com mais agilidade, dorme mais profundamente, lembra-se melhor. Deve andar a tomar qualquer coisa. 13.4.04
12:56
(JPP)
Artigo de Domingos Lopes, �Iraque � um ano depois�, no P�blico de hoje. Em it�lico, encontra-se o texto de Domingos Lopes, os coment�rios est�o em tipo normal. Foi mais ou menos un�nime a ideia de que a resist�ncia � ocupa��o do Iraque irrompeu de forma surpreendente logo ap�s o Presidente dos EUA ter declarado o fim da guerra. Ningu�m estaria a contar que, ap�s a derrota espectacular do ex�rcito de Saddam Hussein, a resist�ncia surgisse quase no dia seguinte a essa declara��o. N�o � verdade. A julgar pelo que todos afirmavam, esperava-se resist�ncia, at� numa dimens�o muito superior � que existe. Os que previam o apocalipse, agora valorizam a �surpresa�, o argumento muda conforme d� jeito. Assim � f�cil. A credibilidade da pol�tica externa dos EUA est� cada vez mais abalada. A m�e de todas as justifica��es foi o perigo da exist�ncia das armas de destrui��o maci�a. Verdade. Ora, hoje, os pr�prios defensores deste monumental embuste mudaram de agulha, deixando cair aquilo que consideram ser o motivo essencial para desencadear a guerra e a ocupa��o, e falam da import�ncia da democracia no Iraque (partindo do pressuposto que o derrube da ditadura por via de uma guerra conduziu � tal democracia) e do combate ao terrorismo. N�o � verdade. Houve quem, na administra��o americana, falasse sempre da �mudan�a de regime� e da democratiza��o, e fosse criticado por isso. Vale a pena trazer para a tona desta discuss�o o quanto a propaganda dos EUA apostou na ideia de que o problema da resist�ncia tinha a ver com o facto de Saddam andar � solta. Ele representava o alento para largos sectores da sociedade iraquiana que resistia. N�o � verdade que a �propaganda� fizesse depender tudo de Saddam. Assim � f�cil. Aconteceu a sua pris�o, ali�s do modo mais obsceno poss�vel, inimagin�vel para todos os que se batem por valores t�o importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra. A exibi��o do buraco onde foi apanhado mostrou a todo o mundo que n�o era aquele homem, vivendo como um rato, que dirigia a resist�ncia que todos os dias explode em diversas frentes. � verdade que a passagem das imagens n�o se devia ter feito (e n�o a captura, o que � diferente), mas ser� que justifica a descri��o empolada: �a sua pris�o, ali�s do modo mais obsceno poss�vel, inimagin�vel para todos os que se batem por valores t�o importantes como os direitos humanos, incluindo o dos prisioneiros de guerra�, � mais uma falsa indigna��o. Como � que depois se descrevem viol�ncias como a morte e mutila��o dos americanos em Falluja? A pris�o de Saddam Hussein n�o conteve em nada as ac��es da resist�ncia, antes pelo contr�rio. Nos �ltimos tempos recrudesceram os seus actos, sendo hoje contabilizado em mais de 600 as baixas dos EUA, registadas depois de declarado o fim da guerra. N�o � verdade. Se exceptuarmos os acontecimentos das �ltimas semanas, os atentados contra os americanos tinham baixado significativamente, com uma viragem para alvos iraquianos, muitos deles tendo mais a ver com viol�ncia sect�ria do que com a ocupa��o. Quando vemos as manifesta��es (via televis�o) do povo iraquiano, imediatamente percebemos que n�o � a Al-Qaeda, nem outras organiza��es terroristas que conseguem mobilizar aquelas multid�es. � a popula��o que se move. � a sua identidade e cultura que sentimos que eles sentem humilhadas. Nunca ningu�m atribuiu as manifesta��es � Al Qaeda. As manifesta��es s�o pouco importantes e localizadas, a n�o ser que se contem como manifesta��es as peregrina��es xiitas. Dizer que � a �popula��o que se move� � puramente ideol�gico, porque a �popula��o� inclui Basra, a segunda cidade, todo o norte curdo e muitas outras zonas e cidades em que existe acalmia, ou apenas pequenos incidentes e que, por isso, n�o fazem parte do mapa. Assim � f�cil. Naquele pa�s, ber�o da civiliza��o, as tropas dos EUA significam para os iraquianos um ultraje � sua arabicidade e ao seu car�cter iraquiano. Como � que se sabe? �Arabicidade�? E os iraquianos que n�o s�o �rabes? Em boa medida a quest�o pode ser esta: os EUA calcularam mal? A sua arrog�ncia imperial levou-os a pensar que a sua tecnologia militar seria suficiente para vencer o povo iraquiano depois de derrubado o ditador? Os americanos desconheciam o poder dos xiitas, maiorit�rios no Iraque? O desejo e a aspira��o de autonomia e independ�ncia por parte dos curdos? O papel da minoria sunita, submetida � comunidade xiita? Quem pode ou podia ignorar que a tomada de poder pelos xiitas (bem prov�vel) pode refor�ar a lideran�a iraniana? E h� outras perguntas que se colocam: na Administra��o da �nica superpot�ncia mundial n�o se sabia isto? S�o perguntas v�lidas. Ou por se saber que tudo "isto" conduziria a um profundo agravamento da situa��o no M�dio Oriente e no mundo desencadearam a guerra e a ocupa��o, porque a partir dessa instabilidade mant�m o dom�nio da regi�o, mant�m a Europa fora dela, ap�s terem conseguido dividi-la em velha e nova, segundo as palavras de Rumsfeld. Teoria da conspira��o pura. �, por�m, ponto assente que na situa��o reinante no Iraque e na Palestina o terrorismo n�o foi estancado, antes pelo contr�rio. N�o se esque�a o Afeganist�o, onde tudo vem mostrando que a guerra, para al�m de ter retirado os taliban do poder, quase nada resolveu. A instabilidade � total. Tal como no Iraque e na Palestina. Do ponto de vista factual ou � adivinha��o ou � falso. A �instabilidade no Afeganist�o� � localizada, e dizer que a �guerra nada resolveu� � absurdo. Assim � f�cil. Por isso, um ano depois, o balan�o da ocupa��o mostra que ela constituiu um enorme falhan�o em todas as frentes: na descoberta das armas de destrui��o maci�a; na democratiza��o do Iraque; na luta contra o terrorismo; na implementa��o do Roteiro da Paz; na busca da estabilidade para a regi�o e para o mundo. Tudo misturado e tudo reduzido a um ano de validade. Ou se acerta num ano, ou se muda tudo. Quem � que estabeleceu este prazo? Assim � f�cil. A esta luz cabe com toda a justi�a esta pergunta: que est� a GNR a fazer naquele atoleiro? Em termos individuais cada um arrisca a vida como entende, incluindo por dinheiro... Em termos de pol�tica externa este passo coloca o pa�s num contexto de hostilidade com o Iraque e todo o mundo �rabe e mu�ulmano de modo absolutamente desnecess�rio e para defender a pol�tica dos EUA, a qual � hoje claramente repudiada em Portugal, na Europa e no mundo. A seguir a Bush outros vir�o, tal como a seguir a Aznar chegou Zapatero. Outros protagonistas chegar�o ao Iraque e a todo o M�dio Oriente. As contas ser�o feitas afinal. Este � o recado pol�tico leg�timo, n�o pode ser examinado factualmente. No final, o autor identifica-se como vice-presidente do Conselho Portugu�s para a Paz e Coopera��o. Esta organiza��o tem uma hist�ria conhecida e ultra-documentada, sendo o principal instrumento da pol�tica externa sovi�tica do �pacifismo� unilateral, a favor do Pacto de Vars�via e contra a OTAN. Era financiada e controlada pela URSS. Nunca se afastou uma linha dessa pol�tica externa e por isso compreende-se a genealogia do seu anti-americanismo.
04:41
(JPP)
WHEN I HEARD THE LEARN'D ASTRONOMER. When I heard the learn'd astronomer; When the proofs, the figures, were ranged in columns before me; When I was shown the charts and the diagrams, to add, divide, and measure them; When I, sitting, heard the astronomer, where he lectured with much applause in the lecture-room, How soon, unaccountable, I became tired and sick; Till rising and gliding out, I wander'd off by myself, In the mystical moist night-air, and from time to time, Look'd up in perfect silence at the stars. (Walt Whitman) * Bom dia! Ainda na noite escura. 12.4.04
12:59
(JPP)
Jos� Matos enviou-me esta "poeira" especial: "H� 43 anos um jovem cosmonauta de 27 anos de idade preparava-se para fazer um voo hist�rico. Devia estar nervoso a esta hora. Pela manh� partir� rumo ao espa�o. A bordo da pequena c�psula Vostok dar� uma volta � Terra em cerca de 90 minutos � velocidade espantosa de 28 000 km/h. Partir� �s 9h07 da manh� e voltar� � terra m�e �s 10h55. Amanh� � o dia dele. Se fosse vivo teria 70 anos de idade. "
09:21
(JPP)
Para Constantinopla, no dia do saque, e que coube, muitos anos depois, no "Je suis" de Verlaine. Je suis l'Empire � la fin de la d�cadence... Je suis l'Empire � la fin de la d�cadence, Qui regarde passer les grands Barbares blancs En composant des acrostiches indolents D'un style d'or o� la langueur du soleil danse. L'ame seulette a mal au coeur d'un ennui dense, L�-bas on dit qu'il est de longs combats sanglants. O n'y pouvoir, �tant si faible aux voeux si lents, O n'y vouloir fleurir un peu cette existence! O n'y vouloir, � n'y pouvoir mourir un peu! Ah! tout est bu! Bathylle, as-tu fini de rire? Ah! tout est bu, tout est mang�! Plus rien � dire! Seul un po�me un peu niais qu'on jette au feu, Seul un esclave un peu coureur qui vous n�glige, Seul un ennui d'on ne sait quoi qui vous afflige! (Paul Verlaine) * Bom dia!
01:12
(JPP)
![]() Nicetas Choniates descreveu com f�ria o saque das igrejas, a destrui��o das rel�quias. Na Hagia Sophia, o altar foi destru�do para os materiais preciosos poderem ser divididos pelos soldados. Os cruzados fizeram entrar dentro da igreja mulas e cavalos, para puxarem carros com o saque. Na confus�o, alguns ca�ram, escorregando no pavimento de m�rmore. Os �odiosos b�rbaros� roubaram as mais sagradas rel�quias da cidade: um frasco com o sangue de Cristo, um fragmento da cruz, restos dos corpos de S. Jo�o Baptista e dos ap�stolos. Os crist�os gregos ortodoxos lembram-se disto como se fosse hoje. * Hoje, h� oitenta e cinco anos, Virginia Woolf l� com entusiasmo Moll Flanders, de Defoe: "a great writer surely to be there imposing himself on me after 200 years". * Hoje, h� dez anos, John Gielgud comemora noventa anos e foi amo�ar com o deputado conservador Gyles Brandreth, que tamb�m tinha convidado Glenda Jackson para a ocasi�o. Chegou � uma em ponto . Gyles disse-lhe que era uma grande honra que ele tivesse aceite o convite. Gielgud respondeu: "Oh, I'm delighted to have been asked. All my real friends are dead, you know". 11.4.04
22:00
(JPP)
![]() Finalmente um bom livro publicado em Fran�a sobre o Iraque, � revelia do anti-americanismo dominante, com an�lises muito interessantes sobre o que se passou e passa. Para os que todos os dias falam dos �mentirosos�, h� aqui uma lista impressionante de mentiras e desinforma��o em grande escala dos media franceses e de muitas outras institui��es internacionais tidas como reputadas. Entre muitos exemplos dessas opera��es de desinforma��o, veja-se a c�lebre hist�ria dos saques dos museus de Bagdad, mas n�o s�. H� muitas mais. Vale a pena ler.
10:45
(JPP)
Manuel Carvalho escreveu ontem no P�blico um editorial com o t�tulo "A Derrocada da Nation Building", onde defende a ideia de que as na��es livres e democr�ticas n�o t�m qualquer legitimidade para desencadear pol�ticas externas que levem � democratiza��o do mundo �rabe ditatorial e embri�o das formas mais diversas do terrorismo actual emergente. Afirma o jornalista que "o conceito de "nation building" n�o passa de uma ideologia extremista, uma combina��o perigosa de messianismo com voluntarismo, que � completamente destitu�da de qualquer sentido da Hist�ria". Ora, penso que com esta argumenta��o, apoiada no medo e no voltar costas ao medievalismo pol�tico em que est� subjugado grande parte do mundo �rabe, s� engrandece os pr�prios terroristas, dando-lhes raz�o na afirma��o por eles proferida de que "n�o queremos c� ningu�m na nossa casa" (como se a casa deles fosse um antro de paz, democracia e liberdade). Ser� que as na��es mais desenvolvidas do mundo, onde a democracia e a liberdade s�o conceitos adquiridos, n�o t�m a legitimidade de, em nome da seguran�a de um mundo cada vez mais globalizado e da defesa do combate � pobreza em que (sobre)vive a popula��o �rabe (pobreza essa que fomenta o �dio ao mundo ocidental), dizia, n�o t�m a legitimidade de orientar pol�ticas que levem � democratiza��o do mundo �rabe? Para mim, essa legitimidade � total... De facto, penso que, tal como aconteceu na Europa Ocidental, ap�s a 2� Guerra Mundial e na Europa de Leste ap�s a queda do muro de Berlim, j� para n�o falar dos casos do Jap�o ou da �frica do Sul, a melhor forma de se garantir um mundo mais pac�fico e menos desigual em termos de desenvolvimento humano �, precisamente, atrav�s da cria��o de condi��es de fomento da democracia e da liberdade nos pa�ses onde reina a ditadura e a censura. O exemplo do Iraque poder� ser o princ�pio de um processo de democratiza��o de uma regi�o do mundo onde a falta de uma educa��o dos jovens assente em pilares t�o b�sicos como a democracia e a liberdade, tem levado ao fortalecimento do fundamentalismo isl�mico e do �dio ao Ocidente. Urge, agora, travar esta batalha, para que as pr�ximas gera��es possam viver num mundo mais pac�fico e harmonioso... (Pedro Peixoto) O intervencionismo pol�tico em nome de diversas variantes de �nation building� era (e �) considerado �natural�, desde que n�o tenha a m�o do �imp�rio�, ou seja entendido contra o �imp�rio�, ou seja, os EUA. Hoje, a linha de demarca��o de tudo � o americanismo / anti-americanismo, principalmente este �ltimo. Cada vez � mais importante esta demarca��o, forma rediviva de nacionalismos e p�s-comunismos, sob o �albergue espanhol� da anti-globaliza��o. E quando se juntam �direitas� e �esquerdas�, quase sempre debaixo de mantos nacionalistas, ou �anti-imperialistas�, o conjunto � poderoso. Porque �nation building� � o terminus de muito daquilo que � hoje a ideologia das rela��es internacionais. O �intervencionismo humanit�rio�, por exemplo. A guerra do Kosovo, por exemplo. A interven��o no Ruanda, na Serra Leoa, por exemplo. Se recuarmos ao passado, o que era o �internacionalismo prolet�rio�, o programa revolucion�rio mundial, sen�o uma reconstru��o do mundo feita pela revolu��o? Depois a ONU, lugar actual de todas as ambiguidades. Repito o que disse ontem na SIC: caso a ONU "tomasse conta" do Iraque hoje, para al�m da quest�o crucial de saber com que tropas garantia a estabilidade do pa�s, que �programa � teria para a sua miss�o no Iraque? Seria diferente do das tropas da coliga��o? Entregaria o poder aos iraquianos, mas a quem? �s mil�cias armadas de Sadr? Aos torcion�rios do Baas? Deixaria a ONU as cidades iraquianas entregues aos bandos de kalashnikov que aterrorizam, antes de tudo, outros iraquianos? Abriria caminho para a guerra civil? � demasiado simples: ou a administra��o da ONU seria uma fuga internacional de responsabilidades, significando uma forma disfar�ada de retirada dos �estrangeiros� para os iraquianos se matarem uns aos outros, ou teria um programa muito parecido com o dos americanos. Faria �nation building� como fez em Timor, e est� a fazer de facto no Kosovo.E que regime pol�tico deixaria atr�s (ou tentaria deixar atr�s)? Uma ditadura ou um regime democr�tico? Armas ou elei��es? Depois, � volta do �nation building� h� os tabus que ningu�m quer discutir. Por exemplo, as fronteiras. N�o � verdade que ningu�m mexa nas fronteiras: a Checoslov�quia e a Eti�pia fizeram-no. Mas em todo o resto do mundo, as mais absurdas fronteiras permanecem intactas mesmo quando s�o fontes de end�micos conflitos civis. Por exemplo, a �limpeza �tnica�. Tal pr�tica era aceit�vel no passado: que o digam os gregos da Anat�lia e os turcos da Europa, quando, sob a �gide da Sociedade das Na��es, se fizeram as transfer�ncias das popula��es. Algu�m lhes perguntou se queriam ser mudados? Ningu�m; os gregos do Mar Negro, que nunca tinham conhecido a Gr�cia, foram obrigados � for�a a sair das suas casas, das suas igrejas milenares, para irem para um pa�s desconhecido. Pelas Na��es Unidas da �poca. (Continua)
08:16
(JPP)
Robert Bruce Lockhart, �c�nsul� ingl�s na R�ssia revolucion�ria, espi�o e conspirador, preso depois do atentado de Dora Kaplan contra Lenine, e que escapou por pouco de ser passado pelas armas, hoje, h� setenta e cinco anos, escrevia no seu di�rio mais uma reminisc�ncia bolchevique. Krupskaia teria pedido ao marido, Lenine, que tomasse conta da sua m�e, moribunda. Ela estava cansada. Disse-lhe: �se ela te pedir alguma coisa, chama-me�. Lenine sentou-se ao lado da cama, pegou num livro e come�ou a ler. Quando Krupskaia voltou para ver a m�e, esta estava morta. Krupskaia ficou furiosa com Lenine: �Porque � que n�o me disseste nada?�. �Mas a tua m�e n�o me pediu nada�. Lockhart anota �Still Lenin was not inhuman�. ![]() Hoje, h� cinquenta e nove anos, os soldados da 8� Divis�o Blindada do Terceiro Ex�rcito americano chegaram �s colinas que encimam Weimar. L� em baixo, a cidade continha as sombras de Goethe, Schiller, Nietzsche, Bach, Liszt, seus ilustres moradores. Na colina de Ettersberg, encontraram os restos cuidadosamente preservados do carvalho que tantas vezes acolheu Goethe. As �ltimas m�os que tinham acariciado o tronco da �rvore tinham sido as dos SS que salvaram os restos do carvalho destru�do depois de um bombardeamento. Os membros das SS estimavam a mem�ria de Goethe, ou ent�o sabiam que Mefist�feles rondara a �rvore. � sua volta estendia-se Buchenwald, o primeiro campo de concentra��o que os americanos encontraram. Os soldados americanos vomitavam, incapazes de ver o que viam. Face � barb�rie, a cultura pode muito pouco.
07:47
(JPP)
O Florir O florir do encontro casual Dos que h�o sempre de ficar estranhos... O �nico olhar sem interesse recebido no acaso Da estrangeira r�pida ... O olhar de interesse da crian�a trazida pela m�o Da m�e distra�da... As palavras de epis�dio trocadas Com o viajante epis�dico Na epis�dica viagem ... Grandes m�goas de todas as coisas serem bocados... Caminho sem fim... (�lvaro de Campos) * Bom dia! 10.4.04
12:09
(JPP)
Neste momento dif�cil, em que se torna cada vez mais evidente que se cometeu um erro estrat�gico com a �Opera��o Iraque�, torna-se pertinente saber o que � essencial e o que � acess�rio. O fantasma do Vietname est� compreensivelmente presente. Nenhuma guerra se ganha sem mobiliza��o da sociedade que a sustenta! N�o estou seguro, de modo nenhum, que o 11 de Setembro constitua um marco de sustenta��o para mobilizar a sociedade norte-americana para aguentar este desafio no Iraque. Fugir aqui seria ainda mais catastr�fico do que foi no Vietname, mas pode muito bem suceder� O problema � que n�o me parece que haja, nem mesmo na sociedade norte-americana, consci�ncia do que significa estar em guerra contra a selvajaria nihilista. Mais do que nunca haveria que ter presente a natureza desta �guerra de civiliza��o� (n�o se trata tanto de civiliza��o contra civiliza��o, mas da CIVILIZA��O contra o nihilismo. As cita��es seguintes do fil�sofo Andr� Glucksmann s�o um contributo para tal: �Todos somos pasajeros de um Titanic en potencia�, dado que �los terroristas se han arrogado ante el mundo el derecho a matar a quien sea�. Distinguir entre una Europa �preocupada por los derechos del ciudadano, serena, al abrigo de cualquier avi�n suicida� y un �Estados Unidos, tan pronto imperialista y belicoso, tan pronto aislacionista y egoistamente autista, rapidamente castigado all� donde peca�, aumentando, como tan miserablemente ha hecho Francia, la tensi�n transatl�ntica, equivale, para Glucksmann, a esconder la cabeza debajo del ala. Algo a lo que, seg�n nuestro autor, se unen tantos cuantos pretenden distinguir, entre varias civilizaciones �recortadas siguiendo una l�nea de puntos de religiones� igualmente impotentes para contener los desbordamientos de viol�ncia que provocan� como quienes buscan �fusionar el conjunto inmaculado de los desfavorecidos y de los peque�os contra el Imp�rio (americano) de los poderosos y ricos�. Lo que configura una civilizaci�n no es, seg�n Glucksmann, lo que la une, sino lo que busca destruirla. Y lo que hoy busca destruirnos a todos no es ya el adversario �nico y bien definido de la guerra fria, sino �una adversidad polimorfa no menos implacable�, para la que hay un nombre tajante: nihilismo.. En efecto: �Hitler ha muerto, Stalin est� enterrado, pero proliferan los exterminadores. No olvidemos que casi la mitad de la humanidad ha celebrado m�s o menos discretamente la haza�a de Mohammed Atta. El porvenir est� en suspenso. Para existir, Europa debe superar esse desafio posnuclear. Con � y no contra � Estados Unidos. No se trata de escoger entre multipolaridad o hegemonia, sino entre nihilismo y civilizaci�n�. (Texto de Jacobo Mu�oz com cita��es de Andr� Glucksmann no Suplemento de El Mundo, El Cultural (1-7 Abril de 2004, p�ginas 14 e 15), (Edmundo Moreira Tavares) Poemas enviados / lembrados The Double Shame At first you did not love enough And afterwards you loved too much And you lacked the confidence to choose And you have only yourself to blame. (Stephan Spender) (por Maria Jos� Oliveira) Desd�m Andas dum lado pr� outro Pela rua passeando; Finges que n�o queres ver Mas sempre me vais olhando � um olhar fugidio Olhar que dura um instante, Mas deixa um rasto de estrelas O doce olhar saltitante� � esse rasto bendito Que atrai�oa o teu olhar Pois � t�o leve e fugaz Que eu nem o sinto passa! Quem tem uns olhos assim E quer fingir o desd�m, N�o pode nem um instante Olhar os olhos de Algu�m�.. Por isso vai caminhando�. E se queres a muita gente Demonstrar que me desprezas Olha os meus olhos de frente!.. (Flor Bela Espanca) ( por Maria Rodrigues) Um Portugal �numa imagem� enviada por Jos� Martins ![]() (...) a sua teimosia em rela��o � defesa dessa figura sinistra que foi o Savmbi, desculpe que lhe diga mas parece doen�a. Se soubesse e imaginasse quem ele foi, tinha mais cautela em fazer cita��es de um �serial killer� compulsivo, um racista empedernido, um psicopata como o Hitler, o Staline, o Pol Pot e outros membros da galeria de homens sinistros, que todos conhecemos da Hist�ria. E olhe que nada disto � propaganda do regime comunista de Luanda. � a triste verdade. De resto, o Savimbi era �marxista�. Leia o �Guia Pr�tico do Quadro� da autoria dessa figura sinistra e s� por a�, poder� deduzir o resto. � conhecido o seu acervo documental. Se quiser um �manual�, tenho gosto em dar-lhe um exemplar fotocopiado. Quero ainda revelar-lhe um facto horr�vel: nos meses que antecederam a Independ�ncia de Angola, a coliga��o da UNITA e FNLA, conseguiu expulsar o MPLA do Planalto Central. Por todo o Planalto, ainda se encontravam muitos portugueses, espalhados por vilas, aldeias e lugarejos. Quase todos eram comerciantes e acreditavam que podiam continuar em Angola, mesmo ap�s a Independ�ncia.. Quando a sua vida se tornou imposs�vel (falta de alimentos, viol�ncia org�aca), procuraram os caminhos da Nova Lisboa. No percurso, foram todos mortos nos postos militares da UNITA/FNLA que existiam ao longo das estradas. Conhe�o um oficial superior da UNITA (que n�o tem interesse nenhum em mentir), a quem foi ordenado a assassinato de um comerciante portugu�s de quem era amigo e que num gesto de humanidade, salvou-o, vestindo-o com uma batina de padre. E assim, l� foi o homem passando pelos �contr�is�, at� chegar s�o e salvo a Nova Lisboa, de onde partiu para Portugal, na c�lebre ponte a�rea. Sabe bem que isto � genoc�dio. (Ant�nio Augusto Oliveira)
10:18
(JPP)
The Realists Hope that you may understand! What can books of men that wive In a dragon-guarded land, Paintings of the dolphin-drawn Sea-nymphs in their pearly wagons Do, but awake a hope to live That had gone With the dragons? I THE WITCH Toil and grow rich, What�s that but to lie With a foul witch And after, drained dry, To be brought To the chamber where Lies one long sought With despair? II THE PEACOCK What�s riches to him That has made a great peacock With the pride of his eye? The wind-beaten, stone- grey, And desolate Three Rock Would nourish his whim. Live he or die Amid wet rocks and heather, His ghost will be gay Adding feather to feather For the pride of his eye. (Yeats) * Bom dia! 9.4.04
23:25
(JPP)
Hoje, h� cento e trinta e nove anos, h� t�o pouco tempo, o general Robert E. Lee, comandante das tropas confederadas, chegou � casa de Wilmer McLean em Appomattox Court House, no estado de Virg�nia. Levava o uniforme de gala. � sua espera estava outro general, Ulysses S. Grant, seu contraparte no ex�rcito da Uni�o, com o uniforme comum dos soldados da Uni�o, apenas com a sua patente. Lee vinha render-se, Grant concedeu-lhe os generosos termos da rendi��o que Lincoln tinha sugerido. Acabara a guerra civil. Hoje, h� vinte e quatro anos, Stephan Spender estava no aeroporto de Seattle e pagou uma conta com cart�o de cr�dito. O empregado perguntou-lhe se era parente do �poeta�. �Sou eu�. �Gee, a near-celebrity�. J� n�o h� empregados destes.
09:41
(JPP)
Poemas dos Dois Ex�lios Paira no amb�guo destinar-se Entre long�nquos precip�cios, A �nsia de dar-se preste a dar-se Na sombra vaga entre supl�cios, Roda dolente do parar-se Para, velados sacrif�cios, N�o ter terra�os sobre errar-se Nem ilus�es com interst�cios, Tudo velado, e o �cio a ter-se De leque em leque, a aragem fina Com consci�ncia de perder-se... Tamanha a flama e pequenina Pensar na m�goa japonesa Que ilude as sirtes da Certeza. (Fernando Pessoa) * Bom dia! 8.4.04
23:24
(JPP)
Neste momento, o que me lembra sempre � um discurso que ouvi de Savimbi, na Jamba. Savimbi, que era um excepcional orador, fez um daqueles discursos torrenciais, em v�rias l�nguas (portugu�s, ingl�s, umbundo, e outras l�nguas nativas). Falava para todos, para os seus homens, para os jornalistas estrangeiros, para Luanda, para os seus convidados, para Pret�ria, para Washington. Falou para mim directamente uma ou duas vezes, uma delas pedindo-me a confirma��o de que �Salazar tamb�m ao princ�pio tinha feito coisas boas, mas depois n�o se quis ir embora, n�o � verdade, dr. Pacheco? �. Eu fiquei sem saber o que dizer, porque para mim Salazar nunca tinha feito �coisas boas�. Felizmente ele passou adiante. Mas o que me lembra hoje foi uma parte em que Savimbi disse que os angolanos tinham pago um pre�o muito caro pelo Vietnam e pela forma como os americanos dele tinham sa�do. Para mim, que combatera a interven��o americana, participara na manifesta��o ilegal contra a guerra, escrevera panfletos, a frase de Savimbi era o reverso que n�o se pensara, n�o se vira: o destino dos angolanos, como dos outros povos, que pagavam o pre�o do refluxo americano, pelo campo aberto aos sovi�ticos (e aos cubanos) em �frica. Savimbi contava como ficara sozinho, e fora empurrado para os sul-africanos pelo abandono americano, que s� mudara com Reagan. No Iraque, tudo parece t�o dif�cil, quase imposs�vel. Na hist�ria h� momentos assim, em que cresce a vontade de largar tudo, esquecer tudo e passar para outra. Foi esse tamb�m o efeito psicol�gico da ofensiva do Tet no Vietnam, que hoje se sabe ter sido um acto de desespero que colocou o chamado �vietcong� no limiar da exaust�o militar. Mas politicamente foi um enorme sucesso psicol�gico. No Iraque, est�-se nesse momento �vietnamita�, numa guerra muito mais crucial para o futuro mundial do que era a do Vietnam. Os domin�s existiam e tombaram com Saig�o, mas o comunismo j� estava oco, n�o iria durar uma d�cada. Hoje � diferente. A hist�ria tamb�m mostra que, nesses momentos de derrotismo, algu�m perde muito mais do que aqueles que se podem dar ao luxo de sair, feridos, � certo, mas vivos. No Vietnam, foram os vietnamitas transformados em boat people, e os povos como os angolanos a quem falava Savimbi. No Iraque, ser�o, em primeiro lugar, os iraquianos, que nenhum cen�rio de abandono deixa sem ser entregues a um banho de sangue sect�rio. Depois ser�o os alvos da Al Qaeda, todos n�s, descendentes dos �cruzados�.
09:02
(JPP)
Canciones de el alma que se goza de aver llegado al alto estado de la perfecti�n, que es la uni�n con Dios, por el camino de la negaci�n espiritual En una noche escura con ansias en amores inflamada �o dichosa ventura! sal� sin ser notada estando ya mi casa sosegada. ascuras y segura por la secreta escala, disfra�ada, �o dichosa ventura! a escuras y en celada estando ya mi casa sosegada. En la noche dichosa en secreto que naide me ve�a, ni yo mirava cosa sin otra luz y gu�a sino la que en el cora��n ard�a. Aqu�sta me guiava m�s cierto que la luz de mediod�a adonde me esperava quien yo bien me sav�a en parte donde naide parec�a. �O noche, que guiaste! �O noche amable m�s que la alborada! �oh noche que juntaste amado con amada, amada en el amado transformada! En mi pecho florido, que entero para �l solo se guardaba all� qued� dormido y yo le regalaba y el ventalle de cedros ayre daba. El ayre de la almena quando yo sus cavellos esparc�a con su mano serena en mi cuello her�a y todos mis sentidos suspend�a. Qued�me y olbid�me el rostro reclin� sobre el amado; cess� todo, y dex�me dexando mi cuydado entre las a�ucenas olbidado. (San Juan de la Cruz) 7.4.04
09:26
(JPP)
Lembrado por Jo�o Carlos Pascoinho, esta felicidade �matinal� de Raymond Carver. Uma tradu��o portuguesa de Jorge Sousa Braga, in�dita fora da blogosfera, pode ser lida no Quartzo, Feldspato e Mica. Happiness So early it's still almost dark out. I'm near the window with coffee, and the usual early morning stuff that passes for thought. When I see the boy and his friend walking up the road to deliver the newspaper. They wear caps and sweaters, and one boy has a bag over his shoulder. They are so happy they aren't saying anything, these boys. I think if they could, they would take each other's arm. It's early in the morning, and they are doing this thing together. They come on, slowly. The sky is taking on light, though the moon still hangs pale over the water. Such beauty that for a minute death and ambition, even love, doesn't enter into this. Happiness. It comes on unexpectedly. And goes beyond, really, any early morning talk about it. (Raymond Carver) * Bom dia!
00:16
(JPP)
Hoje , h� cento e nove anos, Oscar Wilde foi preso depois de ter perdido o processo de difama��o que pusera contra o pai de um dos seus amantes, �Bosie�, Lord Alfred Douglas. O pai de �Bosie� provou em tribunal que Wilde era homossexual e este foi preso e condenado a dois anos de trabalhos for�ados. Longe est�o os tempos em que Wilde descrevia �Bosie� umas vezes como um �narciso�, outras como um �jacinto�: "he lies like a hyacinth on the sofa and I worship him." 6.4.04
11:42
(JPP)
uma obra genial, os Dubliners, de Joyce. N�o sei de quem � a tradu��o, que espero seja boa. Mas que a obra � genial, �. Veja-se este in�cio de "Eveline", uma das hist�rias: "She sat at the window watching the evening invade the avenue. Her head was leaned against the window curtains, and in her nostrils was the odour of dusty cretonne. She was tired." � preciso dizer alguma coisa? � (se n�o fosse, n�o havia hist�ria), mas quando se come�a assim ...
11:27
(JPP)
Este Seu Escasso Campo Este, seu �scasso campo ora lavrando, Ora solene, olhando-o com a vista De quem a um filho olha, goza incerto A n�o-pensada vida. Das fingidas fronteiras a mudan�a O arado lhe n�o tolhe, nem o empece Per que conc�lios se o destino rege Dos povos pacientes. Pouco mais no presente do futuro Que as ervas que arrancou, seguro vive A antiga vida que n�o torna, e fica, Filhos, diversa e sua. (Ricardo Reis) * Eu sei que n�o � "early morning", mas mesmo assim, bom dia! 5.4.04
09:21
(JPP)
Hoje, h� quatro mil e duzentos e cinquenta e dois anos, um barco de madeira encalhou no cimo de um monte. O seu piloto tinha ent�o seiscentos e um anos e acabara de salvar o mundo, como n�s o conhecemos. Do barco sa�ram duas abelhas, e dois p�ssaros. Birds and bees. Sa�ram um elefante e uma elefanta, um sard�o e uma sardanisca, um ornitorrinco e uma ornitorrinca, uma amiba, uma multid�o de pequenas e grandes coisas a dois e umas a um. Os que estavam agora a sair eram os que tinham aceite o convite do homem, os que o recusaram tinham desaparecido da face da terra. H� momentos. O homem que se chamava No�, demorara cento e vinte anos a fazer aquele barco. Chovera quarenta dias, cento e cinquenta ficara a terra inundada. Depois Deus chamou um vento forte para secar a terra. Demorou tamb�m mais de um m�s para secar. No� ent�o enviou um corvo e uma pomba como batedores do estado do mundo. A pomba regressou com um ramo de oliveira. No� percebeu que era tempo de recome�ar. �Crescei e multiplicai-vos�. O mundo estava puro outra vez. N�o ia durar muito assim. (Agrade�amos ao bispo James Usser ter feito estes Annals of the World , para nosso sustento cronol�gico.)
08:28
(JPP)
La Templanza, Adorno Para La Garganta M�s Precioso Que Las Perlas De Mayor Valor Esta concha que ves presuntuosa, por quien blasona el mar �ndico y moro, que en un bostezo concibi� un tesoro del sol y el cielo, a quien se miente esposa; esta peque�a perla y ambiciosa, que junta su soberbia con el oro, es defecto del n�car, no decoro, y mendiga beldad, aunque preciosa. Bastaba que la gula el mar pescara, sin que avaricia en �l tendiera redes con que la vanidad alimentara. Floris, mejor con la templanza puedes adornar tu garganta, que con rara perdici�n rica, que del Ponto heredes. (Francisco de Quevedo)
01:10
(JPP)
A Lua com um halo perfeito. Para os que olham a noite, um pequeno prazer geom�trico. O mundo est� nos seus eixos. 4.4.04
22:15
(JPP)
![]() "Enquanto os rovers andam por Marte � procura de �gua, a sonda Cassini continua a sua aproxima��o discreta a Saturno. E as imagens que chegam at� n�s s�o espectaculares. No seguinte site , pode ver-se a �ltima das imagens. Al�m do planeta s�o vis�veis tr�s luas. � esquerda mesmo debaixo dos an�is v�-se Mimas, mais abaixo � vis�vel Dione e � direita aparece Enc�lado. A imagem foi tirada no in�cio de Mar�o quando a nave estava a 56.4 milh�es de km do planeta. As tr�s luas surgem muito pequeninas no ecr� do computador, conv�m limpar o p� para se verem bem. " (Jos� Matos)
11:02
(JPP)
Hoje, h� duzentos e dez anos, 15 de Germinal do ano II, foram guilhotinados Pierre Dillon, como �brigand de la Vend�e�, Jean Fran�ois d�Arche , �ex-noble�, Michel Lacroix, desertor, os irm�os Louis, Nicolas e Michel, tecel�es, como �sediciosos�, os �contra-revolucion�rios� de Tirpied, cant�o de Avranches, um carpinteiro, um trabalhador rural, um �domestique du cur��, entre outros; os marselhenses Padre Barthelemi Vian, um propriet�rio, um �commis des domaines nationaux�, entre outros; uns �federalistas� do departamento das Bouches du Rh�ne; etc., etc. Este "etc." � grande. A Revolu��o continua.
10:01
(JPP)
Morning in the Burned House In the burned house I am eating breakfast. You understand: there is no house, there is no breakfast, yet here I am. The spoon which was melted scrapes against the bowl which was melted also. No one else is around. Where have they gone to, brother and sister, mother and father? Off along the shore, perhaps. Their clothes are still on the hangers, their dishes piled beside the sink, which is beside the woodstove with its grate and sooty kettle, every detail clear, tin cup and rippled mirror. The day is bright and songless, the lake is blue, the forest watchful. In the east a bank of cloud rises up silently like dark bread. I can see the swirls in the oilcloth, I can see the flaws in the glass, those flares where the sun hits them. I can't see my own arms and legs or know if this is a trap or blessing, finding myself back here, where everything in this house has long been over, kettle and mirror, spoon and bowl, including my own body, including the body I had then, including the body I have now as I sit at this morning table, alone and happy, bare child's feet on the scorched floorboards (I can almost see) in my burning clothes, the thin green shorts and grubby yellow T-shirt holding my cindery, non-existent, radiant flesh. Incandescent. (Margaret Atwood) 3.4.04
17:06
(JPP)
Numa nota publicada em 25 de Janeiro de 2004 no Abrupto e nos Estudos sobre o Comunismo, publiquei esta cr�tica: �Num artigo de hoje do P�blico S�o Jos� Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE: �Os m�todos [de tortura] usados passavam, por exemplo, por queimar os presos com cigarros. Era tamb�m usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres.� Nenhuma destas coisas � verdade, a n�o ser excepcionalmente. A PIDE torturava e torturava por sistema, n�o � isso que est� em causa. Mas n�o utilizava queimaduras que deixavam marcas e muito menos despia as mulheres �usualmente�. H� um ou outro relato , muito raro, de queimaduras de cigarro, e ,a n�o ser num caso de mulheres presas do Cou�o em que humilha��es directas de car�cter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A PIDE insultava as �companheiras� de tudo quanto havia, mas n�o as despia. Afirmar isto � n�o compreender de todo os quadros de mentalidade que presidiam ao regime A lei n�o chegava � PIDE, como os PIDEs se gabavam, mas chegava a mentalidade e a �moral� sexual (ou a falta dela). � completamente inveros�mil o que se diz no artigo.� Esta nota motivou uma reac��o indignada de S�o Jos� Almeida e de outros jornalistas do P�blico no Gl�ria F�cil, reafirmando a veracidade e o fundamento do que se escrevera no artigo. Entendi nada dizer porque todas as pessoas que conhecem a hist�ria da repress�o em Portugal sabem do completo infundado das afirma��es de S�o Jos� Almeida e n�o valia a pena qualquer coment�rio pelo que era uma manifesta��o de ignor�ncia solid�ria. Agora, no mesmo jornal, Irene Pimentel , que se prepara para terminar o estudo mais completo sobre a PIDE, vem dizer exactamente o mesmo. H� apenas um caso conhecido e nenhuma pr�tica "habitual" como dissera S�o Jos� Almeida: �Nos anos 60, a ideia da emancipa��o das mulheres tamb�m chega � PIDE e come�aram as torturas �s mulheres. As do Cou�o foram as primeiras", conta Irene Pimentel.. (�) A historiadora apenas tem conhecimento de um caso de tortura sexual a uma mulher. "� um caso conhecido, foi Concei��o Matos, que foi submetida � tortura da est�tua, estando menstruada, obrigada a despir-se e a limpar-se com a roupa, diante dos agente. Entre eles estava uma mulher, a c�lebre agente Madalena, que tinha fama de muito violenta com os presos". Ficava bem, at� pelo tom habitual de arrog�ncia moral que foi usado, que se reconhecesse o erro.
12:34
(JPP)
Uma Aurora Borealis em Eau Claire nos EUA, enviada por Pen�lope que "desfaz de noite, o que faz de dia...." "Sobre as quest�es esquerda/direita, nomeadamente sobre a moderna ascens�o dos partidos extremistas, � esquerda e � direita, lembrei-me de ter lido num jornal espanhol (El Pais?) um cronista que fazia uma interessante analogia com o futebol: antes os jogadores preferiam conduzir a bola at� � �rea do advers�rio pelo centro do campo, agora a estrat�gia � ir pelos extremos. Uma nova tend�ncia que, segundo ele, surgiu primeiro no futebol e depois na politica." (S�rgio Pinto) "As imagens s�o de alguma forma mais chocantes do que as do 11 de Setembro. Porque n�o � uma mortandade � dist�ncia, sob a queda de avi�es ou de edif�cios. H� a interven��o directa de pessoas, no contacto com os cad�veres, cavando um fosso cultural maior do que tudo o resto. Mais do que pelo regozijo primal pela morte, acima de tudo repele o total desrespeito pelos mortos, o macabro brincar com os corpos, o horror da sua exposi��o p�blica. A diferente forma de encarar essa realidade torna aqueles iraquianos menos humanos os nossos olhos ocidentais: perpetua as difuldades de compreens�o e impede a empatia." (Artur Furtado) "Sobre Saramago quero esclarecer que tive, desde que me lembro, uma posi��o mais visceral do que racional: n�o li e n�o gosto. S� que com o tempo o visceral vai diminuindo e o racional consolidando-se, mas o resultado mant�m-se inalterado: n�o li e n�o gosto. Se antes eu acreditava que n�o iria morrer sem ler o �Memorial do Convento� que at� iria gostar, cada vez mais me apetece n�o ler� Saramago falou e Portugal inteiro parou e escutou. Com a sua presumida e agora pomposa (desde o Nobel) �selfconsciousness� e atordoado com a sua lucidez contestat�ria vem glosar as vantagens do voto em branco. Que ele o fa�a, � inteiramente leg�timo e a democracia que eu defendo d�-lhe esse espa�o e esse direito. Que seja ouvido como um iluminado profeta (eu fico com a sensa��o que o Rei Vai Nu), que a televis�o e a imprensa, e at� os blogues (Causa Nossa) lhe d�em dimens�o de acontecimento de Estado j� contesto. Se de cada vez que um escritor, de m�rito igual ou superior ao de Saramago, editasse um livro, Portugal parasse, n�o se fazia nada no Pa�s. " (Joana Pereira de Castro) "Li ontem esta passagem "Do we have any right to know the painful details of Eliot�s marital problems just because he is famous and dead? Is such information necessary or even relevant to a propoer reading of his poetry? These are fascinating and intricate questions" Eu pensei nisso ao ler o que Martin Amis divulgou sobre o pai na autobiografia que publicou recentemente. Nessa altura senti-me incomodada ao aprender sobre os problemas que Kingsley Amis tinha em satisfazer sexualmente a segunda mulher. Tamb�m foi uma revela��o saber sobre as suas fobias extremas, que por exemplo n�o conseguia estar s�zinho em nenhum lugar. Imagino que o Martin se deve ter posto no lugar do pai e deve ter sabido que o pai n�o haveria de gostar que estas coisas se soubessem. Mas mesmo assim foi para a frente, desculpando-se que � a pr�tica comum. � uma pr�tica errada e imoral mas como toda a gente faz ningu�m questiona. " (MCP)
10:35
(JPP)
![]() ��s vezes h� espelhos cru�is. Em Kaczynski, o Unabomber, autor de tr�s mortes e vinte e seis feridos com o envio de cartas bombas, algumas das coisas habitualmente escondidas no pensamento banal da esquerda est�o cruelmente � vista. N�o se compreende por isso que ningu�m se interesse por ele e pelo seu destino. Ele que � a vers�o da esquerda de uma tradi��o cl�ssica de terrorismo pol�tico, que encontra em Tim Mc Veigh, o bombista das mil�cias que fez ir pelos ares um edif�cio municipal, matando uma pequena multid�o, o seu contraponto � direita. Falei em �pensamento banal� j� para me prevenir de alguma generaliza��o abusiva, mas � muito por amabilidade, porque � t�o �banal� como �essencial�. Banal aqui tamb�m quer dizer �comum�, que todos t�m. O que Kaczynski fez, como o fez e porque o fez, tem uma profunda tradi��o nas ra�zes do terrorismo pol�tico, como instrumento de engenharia social, e esta tradi��o � mais constitutiva da esquerda do que se possa imaginar, e, para alguns, desejar . H� em Kaczynski aquilo que, de h� duzentos anos para c�, se pode denominar a determina��o terrorista, a decis�o sem hesita��o em punir os males sociais como instrumento de exemplo e de alarme, ou de pura vingan�a e de medo, em nome de objectivos mais altos e puros de regenera��o social. Os intelectuais s�o excelentes para estes objectivos, porque t�m aquela dose de abstrac��o que faz esquecer os homens concretos em nome das constru��es ideais feitas em nome da utopia. Numa das suas �ltimas cartas a um grupo radical ecologista que se opunha ao corte de madeiras, Kaczynski anunciava-se dizendo que ele (no plural majest�tico do �n�s�) fora o autor do assassinato do presidente da Calif�rnia Forestry Association. E afirmava que para ele a �Terra est� primeiro�, a vida dos homens certamente que depois. A utopia tem as costas largas, at� porque a �Terra� pesa muito . Kaczynski � um intelectual acima da m�dia, consistente e fan�tico, com aquela singularidade de prop�sito, sem desvios nem distrac��es, que permite criar uma obra. A de Kaczynski, para al�m do Manifesto anti-tecnol�gico, que, � for�a de amea�as, conseguiu publicar no Washington Post e no New York Times , eram as pequenas encomendas bomba contra cientistas, executivos de companhias de avia��o, de computadores, e de serra��o de madeiras . O Manifesto ficar� na hist�ria dos textos revolucion�rios e o seu sucesso no Internet � revelador da sua perten�a a uma tradi��o consistente do pensamento anti-tecnol�gico americano. Mas os escritos de Kaczynski, em particular o seu di�rio descoberto na cabana em que vivia, s�o, no seu tom cruel e obsessivo, uma actualiza��o de ideias muito antigas. Ou�a-se o seu di�rio em 29 de Dezembro de 1979 : �nalgumas das minhas notas mencionei um plano de vingan�a contra a sociedade. O plano era destruir um avi�o em pleno voo. No fim do Ver�o, princ�pio do Outono, constru� um engenho que me ficou caro porque tive que ir a Gr. Falls para comprar os materiais, incluindo um bar�metro e muitos cartuchos para a p�lvora � � E continua por a� adiante com os detalhes dos materiais e do seu custo, com aquela mesma meticulosidade com que uma crian�a monta uma constru��o do Lego, ou um burocrata nazi calcula o custo per capita dos fornos cremat�rios . Onde � que eu j� ouvi isto ? No Catecismo Revolucion�rio de Netchaiev, elogiado por Bakunine; no anarquista do Agente Secreto de Conrad , empacotado em dinamite, pronto a explodir � primeira suspeita da pol�cia; no c�lebre di�logo de Sade junto de um vulc�o em que se compara a capacidade de destrui��o da natureza (vulc�es, terramotos, tempestades) com o poder das bombas que um qu�mico pode construir. Kaczynski faz aqui o papel do qu�mico anti-tecnol�gico, construindo as suas bombas segundo o pr�ncipio do small is beautiful , cuidadosamente executadas com pe�as de madeira trabalhada, cujos estilha�os destru�ram v�rios corpos. Porque, ningu�m tenha ilus�es, as bombas do Unabomber eram para matar . Imagino alguns dos meus leitores a encolherem os ombros e a dizerem: mas o que � que a esquerda tem a ver com isto? N�o condenou sempre a esquerda a viol�ncia �separada� da �luta de massas�? N�o. O que na tradi��o da esquerda se faz � escolher o �bom� terrorismo, e rejeitar o �mau� terrorismo conforme as �pocas, as conveni�ncias, os mandantes e os executantes. Nunca � esquerda se estabeleceu uma verdadeira distin��o de princ�pio contra o terror, nem tal se podia fazer, dada a vis�o da rela��o do homem �naturalmente bom� com uma sociedade �naturalmente m� �. Os marxistas acham que a sua condena��o do terrorismo individual e que a sua condi��o de aceita��o apenas da associa��o do terror �s �massas� e aos movimentos revolucion�rios lhes basta. N�o basta, nem ali�s na hist�ria estas distin��es alguma vez tiveram verdadeiro sentido. Os partidos comunistas condenavam essencialmente o terrorismo que n�o controlavam , ou aquele que estrategicamente n�o lhes seguia os timings e os alvos. Quando �Carlos� se passeava pela Hungria, pela RDA e pela Rom�nia, e intervalava para ir a Damasco ou ao Yemen, e n�o ao contr�rio, os pac�ficos burocratas da Stasi, do KGB ou da Securitate, com quem ele brindava nas festas de fam�lia, pediam-lhe s� que n�o estragasse as visitas de estado de Brejnev. E ele n�o estragava. S� que Kaczynski ainda era do tempo da p�lvora e n�o do Semtex. Mas n�o �, a seu modo, um homem de �princ�pios�, de uma f� inabal�vel a mesma f� que a nossa esquerda ( e direita ) radical chic admira no dr. Cunhal ou em Che Guevara? Qual � a verdadeira diferen�a entre Kaczynski a matar cientistas por Express Mail da sua cabana do Montana e o Che a matar uns desgra�ados soldados bolivianos, t�o camponeses como os camponeses que ele queria trazer para a �sua� revolu��o? Ou de Kaczynski com o dr. Abigael Guzm�n, o camarada Gonzalo, do Sendero Luminoso, ou com o comandante Marcos, do Ex�rcito de Liberta��o Zapatista, t�o versado na Internet e no marketing da imagem revolucion�ria e da atrac��o sado-masoquista pela m�scara? As �massas�? Mas que �massas�? Os �ideais�? Mas o que n�o falta a Kaczynski s�o �ideais�. A luta por uma sociedade �melhor�? Mas pensam que o Unabomber n�o est� convencido de que destruir os malef�cios da avia��o e dos computadores n�o nos faz viver �melhor�? N�o, n�o � por a�. Porque o que une estes homens todos � uma mesma identidade obsessiva, contra a hist�ria, contra os factos, contra a realidade, contra os homens concretos, pela abstrac��o de uma utopia, com as melhores das inten��es. Que s� eles acham que o s�o. E de que o Inferno est� cheio."
10:14
(JPP)
![]() O �Esp�rito� atravessou esta plan�cie pedregosa. Come�a a ficar cansado, mas ainda tem umas colinas long�nquas para onde se dirigir. N�o se v�em nesta fotografia porque est�o � sua frente e o olhar � para tr�s, para a travessia feita. Caminha, pois, pequeno �Esp�rito� para onde � mais alto.
09:20
(JPP)
Esta carta matinal de Juanico, dizendo "n�s por c� todos bem", como em todas as guerras, todos os soldados fazem. Llegu�, se�ora t�a, a la Mamora, Donde entre nieblas vi la otra ma�ana, Desde el seguro de una partesana, Confusa multitud de gente mora. Pluma acudiendo va tremoladora Andaluza, extreme�a y castellana, Pidiendo, si vitela no mongana, Cualque fresco rumor de cantimplora. Allan� alguno la enemiga tierra Ech�ndose a dormir; otro soldado, Gastador vigilante, con su pico Biscocho labra. Al fin, en esta guerra No vi m�s fuerte, sino el levantado. De la Mamora. Hoy mi�rcoles. Juanico. (Luis de G�ngora y Argote) * Bom dia !
01:03
(JPP)
Noite de luar h�mido, humidade baixa, silenciosa, � volta das novas folhas das �rvores. 2.4.04
19:39
(JPP)
Hoje, h� cinquenta e sete anos, Simone de Beauvoir atravessa o sul dos EUA num autocarro expresso. Partiu �s nove da manh� para chegar a Jacksonville, �s duas da madrugada. Sentou-se na cadeira, reclinou-se, verificou que havia uma pequena l�mpada para ler � noite. Vendiam-se Coca Colas e sandes no interior do autocarro. Mais confort�vel do que os autocarros em Fran�a. Tudo bem, menos a terra que atravessava � o Sul racista , a terra da �grande trag�dia� que a perseguia como uma obsess�o. Os brancos ressentidos pela beleza dos negros. Os brancos que ali perdiam toda a �gentileza americana�. 1.4.04
06:53
(JPP)
Retic�ncias Arrumar a vida, p�r prateleiras na vontade e na a��o. Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado; Mas que bom ter o prop�sito claro, firme s� na clareza, de fazer qualquer coisa! Vou fazer as malas para o Definitivo, Organizar �lvaro de Campos, E amanh� ficar na mesma coisa que antes de ontem � um antes de ontem que � sempre... Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei. Sorrio ao menos; sempre � alguma coisa o sorrir... Produtos rom�nticos, n�s todos... E se n�o f�ssemos produtos rom�nticos, se calhar n�o ser�amos nada. Assim se faz a literatura... Santos Deuses, assim at� se faz a vida! Os outros tamb�m s�o rom�nticos, Os outros tamb�m n�o realizam nada, e s�o ricos e pobres, Os outros tamb�m levam a vida a olhar para as malas a arrumar, Os outros tamb�m dormem ao lado dos pap�is meio compostos, Os outros tamb�m s�o eu. Vendedeira da rua cantando o teu preg�o como um hino inconsciente, Rodinha dentada na relojoaria da economia pol�tica, M�e, presente ou futura, de mortos no descascar dos Imp�rios, A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o sil�ncio da vida... Olho dos pap�is que estou pensando em arrumar para a janela, Por onde n�o vi a vendedeira que ouvi por ela, E o meu sorriso, que ainda n�o acabara, inclui uma cr�tica metafisica. Descri de todos os deuses diante de uma secret�ria por arrumar, Fitei de frente todos os destinos pela distra��o de ouvir apregoando, E o meu cansa�o � um barco velho que apodrece na praia deserta, E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secret�ria e o poema... Como um deus, n�o arrumei nem uma coisa nem outra... (�lvaro de Campos)
� Jos� Pacheco Pereira
In�cio |