ABRUPTO |
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29.2.04
23:25
(JPP)
Hoje, a Carla Hil�rio Quevedo fala da etimologia da palavra �nostalgia�: �Nostalg�a n�o � uma palavra antiga, mas "n�stos" e "�lgos" s�o. "N�stos" significa o regresso a casa ou a viagem e trata-se de um voc�bulo que apareceu na Odisseia de Homero, pois onde havia de ser? "�lgos", significa dor de alma, desgosto e ter� sido S�focles quem primeiro escreveu a palavra (o que tamb�m me parece cred�vel). "Alg�a" � o plural do neutro "�lgos". A nostalgia ser� a dor pelo regresso a casa. H� quem lhe chame a saudade de casa. � isso, mas mais forte, mais profundo e n�o s�.� H� uma outra palavra alem�, de alguma maneira intraduz�vel, que exprime um sentimento pr�ximo: heimatlos. Nostalgia e heimatlos n�o s�o a mesma coisa , mas s�o dois sentimentos antigos a merecerem ser analisados nas notas sobre as sensibilidades.
23:04
(JPP)
Hoje, neste dia para acertar o calend�rio com a m�quina do Universo, h� oitenta e quatro anos, Katherine Mansfield, escrevia no seu di�rio uma premoni��o da morte: �Oh, I failed today; I turned back, looked over my shoulder, and immediately it happened, I felt as though I too were struck down. The day turned cold and dark on the instant. It seemed to belong to summer twilight in London, to the clang of the gates as they close the garden, to the deep light painting the high houses, to the smell of leaves and dust, to the lamp-light, to that stirring of the senses, to the langour of twilight, the breath of it on one's cheek, to all those things which (I feel to-day) are gone from me for ever . . . I feel today that I shall die soon and suddenly: but not of my lungs.� Morreu tr�s anos depois, com 35 anos, mesmo de tuberculose. Hoje, tamb�m num ano destes com um dia a mais, h� trinta e dois anos, Paul Morand colecciona as �petites naivet�s�, as incongru�ncias de Proust. Numa altura no Swann, disse que o corpo de Odette era perfeito, mais � frente fala da sua �imperfei��o�, etc., etc. Se Morand fizesse o mesmo exerc�cio com a nossa Agustina ocupava metade do di�rio. Depois anota que os ingleses pontuam a sua conversa��o com �See what I mean? Get me? Do you understand?� �como se se dirigissem a imbecis". See what I mean?
11:59
(JPP)
da Ana S� Lopes, no P�blico, � um muito interessante e conseguido exemplo do tumulto superficial que passa hoje por ser o prot�tipo das rela��es afectivas modernas. Milhares de �Vanessas� animam-se com o �debate� para pensarem que est�o vivas. S� d�o por ela do seu estado quando envelhecem, porque as "Vanessas" envelhecem mal. J� se nota. Para o mesmo retrato de comportamentos, a "Sofia" e o "Sebasti�o" do sex in lisbon s�o tamb�m prot�tipos interessantes.
11:47
(JPP)
Para o debate sobre as formas de sensibilidade, MCP envia uma cita��o de Aldous Huxley, de Sobre a Democracia e Outros Estudos. A cita��o � interessante para se perceber como os que vencem acham sempre que perdem. Exactamente quando o sentimentalismo se torna o padr�o dominante, empurrado pela sensibilidade rom�ntica, Huxley fala do �ex�lio dos sentimentos�� pelo capital, pelo neg�cio. "J� mencionei os nossos �xitos modernos em coordenar as tend�ncias naturais no sentido da viol�ncia. A organiza��o dos desportos como substituto de encontros mais sangrentos, a consagra��o social do �xito desportivo e a sujei��o dos jogos � moralidade s�o feitos not�veis. Em compara��o o nosso fracasso em tratar adequadamente do sexo ou das emo��es, parece-nos ainda mais extraordin�rio. Nem o sexo nem as emo��es conduzem ao �xito profissional. Na verdade, elas militam muitas vezes contra ele. O nosso m�todo de tratar o sexo � ainda o m�todo tradicional cat�lico. Mas houve raz�es transcendentes para a institui��o cat�lica do matrim�nio e do celibato. N�s n�o temos tais raz�es. O melhor que podemos dizer � que a modera��o em assuntos sexuais � desej�vel porque qualquer intemperan�a no sentido do amor ou da lux�ria interfere com a nossa capacidade para o neg�cio, qualquer infrac��o ao c�digo comummente aceite � um estorvo na corrida para o �xito. � o mesmo com as emo��es. H� muito pouca utilidade profissional para o sentimento. Da� a revivesc�ncia dessa estranha ideia dos est�icos, de que o sentimento � de algum modo intrinsecamente efeminado, que � uma fun��o inferior da mente, que deve ser, em todas as circunst�ncias suprimido. Do s�c. XVIII em diante, apenas com uns breves intervalos, o puramente razo�vel tem sido o homem ideal. Os sentimentos foram exilados para uma escurid�o exterior"
11:33
(JPP)
Ao colocar Sousa Franco como cabe�a de lista nas europeias, o PS inicia uma opera��o de reabilita��o pol�tica do governo Guterres (com implica��es ou n�o para as presidenciais). Sousa Franco � um dos principais respons�veis pelo descalabro das finan�as p�blicas, talvez o factor singular mais importante na derrota do PS nas elei��es legislativas. Esta reabilita��o causar� problemas ao PS, porque trar� ainda mais confus�o para a (j� confusa) posi��o do PS sobre o d�fice, que nunca ningu�m assumiu como virtuoso. Sousa Franco far� isso contra os �mineiros� e �cavadores�, que sabem muito bem porque raz�o o PS perdeu as elei��es e querer�o esquecer esse governo o mais depressa poss�vel. O resto � tamb�m previs�vel: escolhendo Sousa Franco, o PS s� vai discutir pol�tica interna, usando como pretexto europeu a �Cimeira de Lisboa�. Tamb�m, a seu modo, far� o seu �For�a Portugal!�. O que ningu�m quer mesmo discutir � a situa��o da UE e o papel de Portugal na Europa, a Constitui��o Europeia e as suas op��es, o direct�rio a fazer-se e o sistema de alian�as nacional. O consenso europeu torna tabu estas discuss�es.
11:21
(JPP)
� uma frase mais que desapropriada para uma campanha europeia. Vejam s� como ela soa se viesse de outro pa�s: gostam de �For�a Alemanha!� , ou �For�a Fran�a!�, ou �For�a Espanha!�? Parece grito de claque de futebol, ainda por cima nacionalista, e pouco europeu. � aqui que se v� a m�o do PP. Tomada a s�rio, n�o significa nada. Tomada � letra, significa v�rias coisas perigosas e enganadoras. O programa europeu unificador de PSD, PS e PP (pelas raz�es de oportunidade conhecidas) � o da Constitui��o Europeia: maior integra��o pol�tica, ced�ncias de soberania, mais Europa, menos Estados-na��es. Onde � que est� o �For�a Portugal!�? O que � que significa? O contr�rio do que parece.
11:06
(JPP)
Alguns leitores do Abrupto queixam-se dos poemas em ingl�s e pedem tradu��es. � medida do poss�vel, haver� tradu��es em portugu�s. Segue esta, cortesia de Vasco Gra�a Moura, do poema de Larkin Talking in Bed dos �Early Morning Blogs 139�: Falar Na Cama Falar na cama devia ser de resto, o mais f�cil, deitados remonta t�o atr�s, como emblema de um par a ser honesto. Mas passa mudo o tempo em seus vagares. L� fora, o vento, n�o de todo lesto, Faz e dispersa nuvens pelos ares. Ao longe, em seu negrume h� as cidades. N�o, nada cuida de n�s. Nada a mostrar porque � que a tal dist�ncia do isolamento s�o ainda mais dif�ceis de encontrar palavras doces e verdadeiras prestes, ou n�o inverdadeiras nem agrestes. (Philip Larkin)
05:46
(JPP)
H� poemas que seduzem o viajante, mesmo que n�o sejam sobre viagens. �Et si je redeviens / Le voyageur ancien�, para onde irei? Partirei de novo, isso � certo. Parto sempre por fidelidade � viagem. Talvez um dia nalguma �vieille Ville�, chegue. Le Pauvre Songe Peut-�tre un Soir m'attend O� je boirai tranquille En quelque vieille Ville, Et mourrai plus content : Puisque je suis patient ! Si mon mal se r�signe, Si j'ai jamais quelque or, Choisirai-je le Nord Ou le pays des Vignes ?... - Ah, songer est indigne Puisque c'est pure perte ! Et si je redeviens Le voyageur ancien, Jamais l'auberge verte Ne peut bien m'�tre ouverte. (Rimbaud) 28.2.04
16:08
(JPP)
Em Shakespeare, All's Well That Ends Well : HELENA: Monsieur Parolles, you were born under a charitable star. PAROLLES: Under Mars, I. HELENA: I especially think, under Mars. PAROLLES: Why under Mars? HELENA: The wars have so kept you under that you must needs be born under Mars. PAROLLES: When he was predominant. HELENA: When he was retrograde, I think, rather. PAROLLES: Why think you so? HELENA: You go so much backward when you fight. PAROLLES: That's for advantage. HELENA: So is running away, when fear proposes the safety; but the composition that your valour and fear makes in you is a virtue of a good wing, and I like the wear well.
12:41
(JPP)
There was a young lady from Mars Who walks in the middle of the stars She bites the rock Obeying her clock: "Tastes as good as the food of the Czars!" Como n�o � em it�lico, � meu, com sugest�es de Paulo Tavares.
12:16
(JPP)
Hoje a �Oportunidade� tem uma oportunidade. Acordou com Fats Domino e tem um programa simples: morder um bocado de Marte. Toda a gente sabe que os homens v�m de Marte, e as mulheres de V�nus. Bom, a sonda � feminina, mas vem da Terra. Vamos ver a convic��o da mordidela, � filha de V�nus!
09:56
(JPP)
Hoje, talvez por ser este dia estranho, 28, que umas vezes � o do fim, outras o de antes do fim, a hist�ria das palavras est� cheia desta poeira. Hoje, h� cento e noventa e nove anos, Stendhal come�a a sua paix�o por M�lanie Guibert, uma actriz secund�ria. Ela ainda n�o sabe de nada. Ele vai para a cama sentindo �che mi distruggo pensando a ella�. Assim mesmo, em italiano. Pavese tamb�m n�o estava muito bem. Hoje, h� sessenta e nove anos, perguntava: �Como � que ela me feriu? Talvez no dia em que levantou o bra�o para saudar algu�m do outro lado da rua.� Depois insistia: �isto n�o tem nada a ver com est�tica, isto � dor�. Filos�fico, teorizava: �A minha hist�ria de amor com ela n�o � feita de cenas dram�ticas, mas de momentos preenchidos com as mais subtis das percep��es�. Desculpas. Momentos. Momentos. Se andarmos um pouco para tr�s da Grande Divis�ria das Sensibilidades, o s�culo XIX, ontem, h� trezentos e quarenta e tr�s anos, o nosso Samuel Pepys pensava noutros momentos. Ontem, comeu peixe, mas o peixe era teol�gico: �Then I called for a dish of fish, which we had for dinner, this being the first day of Lent; and I do intend to try whether I can keep it or no.� Vamos ver como � que est� a vontade do sr. Pepys.
09:15
(JPP)
Um poema duro, �p�treo�, de Carlos Drummond de Andrade, pela manh�. Nem tudo � am�vel. Acordar, viver Como acordar sem sofrimento? Recome�ar sem horror? O sono transportou-me �quele reino onde n�o existe vida e eu quedo inerte sem paix�o. Como repetir, dia seguinte ap�s dia seguinte, a f�bula inconclusa, suportar a semelhan�a das coisas �speras de amanh� com as coisas �speras de hoje? Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento, qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua p�rpura demente? E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora, algoz do inocente que n�o sou? Ningu�m responde, a vida � p�trea. (Carlos Drummond de Andrade)
01:07
(JPP)
N�o est� uma noite magnificente, mas est� uma bela Lua. Metade de Lua, para ser exacto, brilhando com grande intensidade, mas sem tornar a noite branca. Os grandes planetas, dispersos pela ecl�ptica, preparam-se para se juntarem em Mar�o. N�o est� uma noite l�mpida, mas parece l�mpida. O que brilha, brilha com for�a tanto maior quanto est� s� no c�u. 27.2.04
19:23
(JPP)
H� dois dias, h� cento e noventa e seis anos, Stendhal matou os primeiros quadr�pedes da sua vida: tr�s lebres. No mesmo dia, h� quarenta sete anos, Sylvia Plath, para variar, estava bem disposta: o marido, Ted Hughes, tinha ganho um pr�mio liter�rio. Escreveu no seu di�rio: �Entre n�s dois, publicaremos uma estante inteira de livros, antes de desaparecermos.� E �faremos um monte de filhos saud�veis e brilhantes!� Dois filhos depois, quatro anos depois, meteu a cabe�a num fog�o a g�s e matou-se. Byron, hoje, h� cento e noventa anos, escreve sobre as mulheres. Ele acha que h� qualquer coisa de �very softening in the presence of a woman�, mesmo que n�o se esteja apaixonado. Byron estranha os seus pr�prios sentimentos, at� porque n�o tem �very high opinion of the sex�. 26.2.04
08:33
(JPP)
Hoje, em Marte, atrav�s do "Esp�rito", n�s olhamos para n�s. A sonda vai olhar para a Terra e tirar uma fotografia. Sorriam. Uma nova palavra: "yestersol", ontem, em Marte, porque os dias em Marte se chamam "sol". A "Oportunidade" teve ontem, "yestersol", um grande despertar: "Rock Around the Clock", por Bill Haley and his Comets. O barulho em Marte deve ter sido tanto que at� a geologia mudou.
06:21
(JPP)
Cinzento e branco. C�u cinzento e neve branca. As primeiras pessoas na rua passam como se planassem, como se estivessem num quadro e fossem uma mancha movente. Ainda estou para perceber se andam depressa ou devagar, porque n�o andam, deslizam. A neve tem efeitos muito estranhos. Para dar cor, violenta cor, am�vel cor, um cummings em que as palavras dan�am num outro ar. Sem neve. Ou com neve l� fora. may i feel said he... may i feel said he (i'll squeal said she just once said he) it's fun said she (may i touch said he how much said she a lot said he) why not said she (let's go said he not too far said she what's too far said he where you are said she) may i stay said he (which way said she like this said he if you kiss said she may i move said he is it love said she) if you're willing said he (but you're killing said she but it's life said he but your wife said she now said he) ow said she (tiptop said he don't stop said she oh no said he) go slow said she (cccome?said he ummm said she) you're divine!said he (you are mine said she) (e.e. cummings) 25.2.04
23:53
(JPP)
No coment�rio ao �jax de S�focles, continuarei a falar das formas antigas de sensibilidade associadas � honra, � igualdade nas armas, aos juramentos, aos deveres da amizade. Enquanto n�o avan�o mais nesse coment�rio, fica aqui como intermezzo e para a antologia destas coisas arqueol�gicas, um poema de D. H. Lawrence sobre o conflito entre o desejo e o amor rom�ntico. O desejo � mais antigo, mas �It has always been a failure� nos tempos de hoje. Ah, in the past, toward rare individuals I have felt the pull of desire; Oh come, come nearer, come into touch: Come physically nearer, be flesh to my flesh - But say little, oh say little, and afterwards, leave me alone. Keep your aloneness, leave me my aloneness - I used to say this, in the past - but now no more It has always been a failure. They have always insisted on love and on talking about it and on the me and thee and what we meant to each other. So now I have no desire any more Except to be left, in the last resort, alone, quite alone.
16:35
(JPP)
Ontem, h� oitenta e nove anos, o embaixador franc�s em S. Petersburgo, Maurice Pal�ologue, teve um encontro inesperado. O embaixador estava a visitar uma senhora muito activa na Cruz Vermelha, Madame O. , quando irrompe na sala um homem alto, vestido com um caftan negro,"do g�nero que os mujiks mais abastados usam" , e beijou a senhora com estrondo na m�o. Rasputin. Come�ou uma conversa de surdos. Rasputin queixa-se da condi��o do povo russo, da mis�ria sofrida. Pal�ologue suspeita que ele quer tirar a R�ssia da guerra e que � um homem do kaiser. Rasputin indigna-se: " O imperador Guilherme... porqu�, n�o sabe que ele � inspirado pelo Diabo?" E voltou a queixar-se do "sofrimento das massas". A conversa azedou outra vez, at� que Rasputin perguntou: "Ser� que a R�ssia vai ter Constantinopla?" "Sim se ganharmos", disse o embaixador. Maurice Pal�ologue era , como o seu nome indica, descendente dos imperadores de Biz�ncio. "Ent�o o povo russo n�o lamentar� ter sofrido tanto, e estar� disposto a sofrer ainda mais." Beijou Madame O. , abra�ou o embaixador e saiu batendo com a porta. Antes tinha dito que n�o era Ministro das Finan�as do czar, mas sim "Ministro da sua alma". Foi morto um ano e meio depois.
14:37
(JPP)
era apenas uma quest�o de tempo at� que as m�quinas marcianas come�assem a ser tratadas como humanos: de hoje, do s�tio da NASA, "a careful and patient Spirit waits to drive into "Middle Ground.". Muito bem. � assim que elas funcionam a 100%. N�o h� quem fale �s plantas?
11:29
(JPP)
Morning Song Love set you going like a fat gold watch. The midwife slapped your footsoles, and your bald cry Took its place among the elements. Our voices echo, magnifying your arrival. New statue. In a drafty museum, your nakedness Shadows our safety. We stand round blankly as walls. I'm no more your mother Than the cloud that distills a mirror to reflect its own slow Effacement at the wind's hand. All night your moth-breath Flickers among the flat pink roses. I wake to listen: A far sea moves in my ear. One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral In my Victorian nightgown. Your mouth opens clean as a cat's. The window square Whitens and swallows its dull stars. And now you try Your handful of notes; The clear vowels rise like balloons. (Sylvia Plath)
11:02
(JPP)
De longe, de outro carnaval, olho com estranheza o carnaval portugu�s. Num pa�s machista, em que a cultura masculina dominante � machista, em que os valent�es de caf�, de escrit�rio, de praia, de carro, proliferam, subitamente chega o carnaval e todos eles descem � rua vestidos de mulher, aos magotes, aos milhares, exibindo as mamas falsas e os collants. H� qualquer coisa de estranho em tudo isto. 24.2.04
11:01
(JPP)
Uma das raz�es porque estes homens est�o � frente de tudo, j� uma vez o escrevi, � porque t�m a alegria de descobrir. Uma imensa curiosidade, muito estudo, e uma imensa alegria. Hoje est� isto escrito no balan�o do �Esp�rito�: �The wake-up song this morning (Sunday evening Pacific time) was "Samba De Marte" by Beth Carvalho from her "Perolas Do Pagode" album. The lyrics include a verse about waking up the rover on Carnival Day. This song was written by Beth Carvalho after she heard that one of her songs was used to wake up Mars Pathfinder's Sojourner rover during the 1997 mission. This is quite appropriate, as this spirited sol 50 also began on Carnival day in Brazil! � Espero que, com tanta festa, a m�quina n�o se ponha a fazer asneiras.
10:49
(JPP)
Hoje, h� setenta anos, Elizabeth Smart escreveu no seu di�rio: �� noite, empurrei a mob�lia para a parede e dancei no meu quarto vestida com o fato de banho. Jazz. Ravel. Mozart. Jazz. Os ritmos de que n�o se escapa.� Elizabeth tinha uma paix�o absoluta pelo poeta George Baker, mesmo antes de o conhecer, e afirmou sempre que acreditava no �amor verdadeiro�, indiferente �s circunst�ncias da vida. Escreveu-lhe v�rias cartas, at� que um dia se encontraram numa paragem de autocarro, para depois se separarem e reencontrarem de novo. Teve dele quatro filhos, e escreveu em 1945, a partir dessa hist�ria de amor, um romance de culto: By Grand Central Station I Sat Down and Wept. O livro, escreveu um cr�tico, era �emotionally pompous, yet entirely endearing�, e nele se escreviam coisas como esta: 'Often a star was waiting for you to notice it. A wave rolled toward you out of the distant past, or as you walked under an open window, a violin yielded itself to your hearing. All this was mission. But could you accomplish it? Weren't you always distracted by expectation, as if every event announced a beloved. � Outra coisa que Elizabeth teve de Baker foi um bocado de l�bio, que lhe arrancou numa f�ria. No seu di�rio, a seguir a contar a sua solit�ria dan�a, acrescentou: �You must dance. Abandon all else.� Sensibilidades modernas.
07:11
(JPP)
Noite das coisas simples, antiqu�ssimas, lustrais, sem a dist�ncia de qualquer explica��o. Pela manh�, a mesma pequena fala nocturna: When Memory is full Put on the perfect Lid -- This Morning's finest syllable Presumptuous Evening said � (Emily Dickinson) 23.2.04
21:01
(JPP)
de outro caminho, tr�s pequenos poemas de Auden: "The underground roads Are, as the dead prefer them, Always tortuous." "When he looked the cave in the eye, Hercules Had a moment of doubt." "Leaning out over The dreadful precipice, One contemptuous tree." para a viagem.
16:17
(JPP)
H� trinta e cinco anos, hoje, Paul Morand levou o seu chow-chow "B�b�" ao veterin�rio. Estava irritado com De Gaulle, que parecia acreditar que, fazendo ofertas de um condom�nio europeu franco-brit�nico aos ingleses, os separava dos EUA. Morand achava uma enorme asneira e comentava: �deixar a pol�tica externa nas m�os de um militar que a pratica aos 77 anos� era a mesma coisa que �colocar uma navalha nas m�os dum macaco�. Depois cita Xenofonte sobre como se distingue a qualidade de um cavalo pelo toque dos cascos. N�o est� mal. Ontem como hoje.
12:08
(JPP)
A pe�a de S�focles tem duas partes distintas: uma, mais valorizada, o conflito de �jax com a sua honra perdida e o seu suic�dio; outra, a discuss�o muito violenta sobre se o seu corpo deve ou n�o ser enterrado. � uma discuss�o semelhante � de Ant�gona, mas que, nalguns aspectos, me parece mais interessante porque envolve n�o apenas a autoridade do Estado, mas tamb�m a autoridade militar, a autoridade de homens de armas sobre homens de armas. A autoridade n�o entre diferentes, mas a autoridade entre iguais. Aparentemente, todos os sentimentos presentes em �jax s�o-nos contempor�neos: a honra, a amizade, a devo��o amorosa e filial, o respeito pela autoridade, a fidelidade aos costumes, etc. Aparentemente, porque, como muitas vezes acontece na leitura dos antigos, tudo parece semelhante, mas h� um �tomo de diferen�a crucial. Esse �tomo de diferen�a � quase sempre minimalista, um n� de estranheza, uma incompreens�o, que n�s, modernos, tomamos como sinal de anacronismo. � mais do que isso: � sentir diferente. Por exemplo: o papel da viol�ncia, traduzida no espect�culo da crueldade. Toda a pe�a est� cheia de descri��es da morte que traduzem uma familiaridade intensa com a morte violenta. Em �jax, s�o animais que parecem degolados, esquartejados, rasgados nos quadris, com a espinha quebrada. S�o animais, mas �jax pensava que estava a matar homens, e a cada ferida mortal num animal, a cada tortura que ele lhes queria infligir, � para um humano que a sua espada se dirige. � este espect�culo repulsivo para os companheiros de �jax? � somente na medida em que � o sinal da loucura do guerreiro, nada mais. Fora disso, � trivial, normal, mesmo educativo, fossem animais ou homens. �jax considera que o seu filho tem que naturalmente ver a cena da carnificina dos animais, porque o quer educado para seguir o pai, ser guerreiro: �Ergue-o, ergue-o at� aqui. Ele n�o se atemorizar� ao ver esta carnificina de h� pouco, se na verdade sair ao pai. � preciso trein�-lo como um poldro nas duras regras do pai e igualar � dele a sua natureza. � filho, que sejas mais feliz que o teu pai, mas igual em tudo o mais. E que nunca sejas vil.� (Tradu��o de Maria Helena Rocha Pereira, S�focles , Trag�dias, Coimbra , Minerva, 2003. Esta ser� a tradu��o utilizada.) O n� �antigo� traduz-se aqui pelas �duras regras do pai�. (Continua)
10:47
(JPP)
![]() O Sol, o mesmo, o nosso Sol, bate-lhe por tr�s, e a sombra alonga-se. Ou est� a nascer, ou a p�r-se, e a sua luz ilumina o trabalhador infatig�vel, o �Esp�rito�. A m�quina est� a fazer covas na areia, imaginando a praia long�nqua que todos temos na mem�ria. Talvez amanh�, quando o Sol se levantar de novo, haja um castelo na areia.
09:21
(JPP)
Morreu Maria Helena de Freitas, uma voz da r�dio ao servi�o da paix�o pelo canto e pela �pera. Inimit�vel no seu �O Canto e os seus Int�rpretes�, era uma mulher que vinha de um outro Portugal, j� arqueol�gico: o anterior � cultura de massas. Quem quiser saber como era esse estrato geol�gico enterrado bem fundo, tente ouvir a entrevista que deu a Jo�o Pereira Bastos, um retrato da nossa vida intelectual e musical, cheio de aprecia��es de pessoas (como S�rgio) e anedotas da elite que frequentava o S. Carlos e sabia de d�s de peito. Que os int�rpretes celestes correspondam ao seu apurado ouvido e gosto. N�o lhe faltam escolhas.
06:16
(JPP)
Frank O�Hara, cujos poemas t�m aparecido aqui nas �ltimas manh�s, teve uma morte est�pida: atropelado por um buggy na praia. Aconteceu na �early morning� de 24 de Julho de 1966. Voltar� aqui mais vezes, mas o Abrupto nocturno hoje fala franc�s, e por isso pela manh� encontrar�o o bret�o sin�filo Victor Segalen. Ele escreveu, em nome de uma outra forma de estar, este �loge et pouvoir de l'absence Je ne pr�tends point �tre l�, ni survenir � l'improviste, ni para�tre en habits et chair, ni gouverner par le poids visible de ma personne, Ni r�pondre aux censeurs, de ma voix ; aux rebelles, d'un oeil implacable ; aux ministres fautifs, d'un geste qui suspendrait les t�tes � mes ongles. Je r�gne par l'�tonnant pouvoir de l'absence. Mes deux cent soixante-dix palais tram�s entre eux de galeries opaques s'emplissent seulement de mes traces altern�es. Et des musiques jouent en l'honneur de mon ombre ; des officiers saluent mon si�ge vide ; mes femmes appr�cient mieux l'honneur des nuits o� je ne daigne pas. �gal aux G�nies qu'on ne peut r�cuser puisqu'invisibles, - nulle arme ni poison ne saura venir o� m'atteindre. (Victor Segalen) * Vindo do lado de l'absence, este bom dia! 22.2.04
22:50
(JPP)
De passagem, o �jax shakespereano � diferente do da trag�dia de S�focles, at� porque a hist�ria de Troilus e Cressida se passa antes do incidente das armas. H� uma parte interessante sobre o orgulho, a soberba, aplicada neste caso a Ulisses (vejam-se os textos aqui publicados sobre Bernardo de Clairvaux). �AJAX What is he more than another? AGAMEMNON No more than what he thinks he is. AJAX Is he so much? Do you not think he thinks himself a better man than I am? AGAMEMNON No question. AJAX Will you subscribe his thought, and say he is? AGAMEMNON No, noble Ajax; you are as strong, as valiant, as wise, no less noble, much more gentle, and altogether more tractable. AJAX Why should a man be proud? How doth pride grow? I know not what pride is. AGAMEMNON Your mind is the clearer, Ajax, and your virtues the fairer. He that is proud eats up himself: pride is his own glass, his own trumpet, his own chronicle; and whatever praises itself but in the deed, devours the deed in the praise. AJAX I do hate a proud man, as I hate the engendering of toads. NESTOR Yet he loves himself: is't not strange?� (Shakespeare, Troilus and Cressida ) (Continua)
19:24
(JPP)
Por exemplo, �jax, o senhor de Salamina, na tragedia de S�focles. Na trag�dia, �jax, cheio de raiva por ter sido preterido na distribui��o das armas de Aquiles, tem um acesso de loucura e mata os animais do ex�rcito, convencido de que estava a matar os seus rivais. Acordado da sua loucura, mostra-se predisposto ao suic�dio para reparar a sua honra, e todos o tentam dissuadir. Num primeiro momento, �jax parece desistir, o que enche de felicidade os seus companheiros, mas depois mata-se atirando-se para cima da sua espada, numa cena de suic�dio diante dos espectadores, rara na trag�dia cl�ssica. Que faz �jax de diferente, de �antigo�? Suicida-se para reparar a sua honra perdida, suicida-se por dever. Ele n�o � um guerreiro derrotado, ele n�o conduziu os seus homens � morte, ele n�o tem, como o samurai que comete harakiri, qualquer fidelidade para com o seu senhor que o deva levar � morte ritual. Ele � um guerreiro livre, rei de si pr�prio, reconhecido como o mais corajoso depois de Aquiles. A sua independ�ncia, associada �s suas virtudes marciais, tornavam-no universalmente temido e odiado pelos seus pares. Como o seu amigo Teucro afirmou, n�o viera para Tr�ia por raz�es em que all the argument is a cuckold and a whore (Shakespeare, Troilus and Cressida) mas pelo seu juramento. Era fiel ao seu juramento, estava l�. Detestava Ulisses, Menelau, Agam�mnon. Como acontece em todas as trag�dias, ele n�o era o verdadeiro culpado, o culpado subjectivo, visto que os deuses (Atena, neste caso) o levaram a cometer tal acto num momento de loucura. Mas tinha uma culpabilidade objectiva, que levou � puni��o divina: perdera a �sensatez� no seu conflito de invejas e rivalidades com os seus pares. � esta combina��o entre a sensatez, a honra e a repara��o �ltima da honra pela morte nobre que n�o � moderna. (Continua)
11:44
(JPP)
Hoje, h� cento e quarenta e nove anos, a rainha Vit�ria foi visitar os soldados feridos que tinham vindo dos campos de batalha da Crimeia. Estes soldados eram dos Coldstreams, um regimento escoc�s criado no s�culo XVII, c�lebre pela dureza dos seus soldados, tropas de fronteira, tropas de ch�o. � prov�vel que os feridos que a Rainha foi ver tivessem vindo da batalha de Inkermann, travada em Novembro de 1854, numa manh� de nevoeiro. Foi uma �batalha de soldados�, batalha de infantaria, a mais cruel das batalhas, opondo ingleses e russos. O resultado foi indeciso, ningu�m ganhou, as batalhas decisivas da guerra s� se deram depois. No seu di�rio, a rainha anotou a impress�o dram�tica que teve ao ver os jovens amputados, atravessados por tiros na face, �tristemente� feridos. A emo��o da rainha � genu�na e a sua preocupa��o com a situa��o desses soldados tamb�m: �os que ser�o desmobilizados receber�o pens�es m�nimas que n�o ser�o suficientes para viver�. Promete fazer tudo o que possa, e alguma coisa sabe-se que fez.
11:17
(JPP)
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10:37
(JPP)
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02:59
(JPP)
S�o quase tr�s da manh�, como no poema de Frank O�Hara. ( �It is almost three�, ser� de tarde ou de noite? Como n�o h� ru�do, deve ser de noite). Eu sei que a manh� ainda est� longe, mas para mim j� � �pequena manh� e fica dito o que � preciso. Se fosse antigamente diria que encheria a minha l�mpada. Agora n�o � preciso encher nada e mesmo a de O�Hara, dava pouca luz: �I don�t glow at all�.. At Joan's It is almost three I sit at the marble top sorting poems, miserable the little lamp glows feebly I don't glow at all I have another cognac and stare at two little paintings of Jean-Paul's, so great I must do so much or did they just happen the breeze is cool barely a sound filters up through my confused eyes I am lonely for myself I can't find a real poem if it won't happen to me what shall I do (Frank O'Hara) * Bom dia!
01:04
(JPP)
H� uma paz especial enquanto a dama em baixo domina a p�gina. Escrevendo, fa�o-a desaparecer pouco a pouco, ou de repente. Ela leva o livro, um livro de ora��es, consigo. Regressa invis�vel � sua S�, esquecida de todos, na noite escura e fria que l� deve estar. De um lado o rio, do outro a rua que ia para a cadeia, por onde passa o barulho dos el�ctricos. Que pensar� Maria desse som alheio? Continuar� a ler na escurid�o? Pode ser. Ela l� sem olhos, ela l� sem corpo, ela l� sem saber quem �. Adeus, velha av�, empurrada pelas letras, muito, muito tempo depois. Serei gentil. 21.2.04
12:14
(JPP)
![]() Uma antiga parente minha, Maria de Vilalobos (casada com Lopo Fernandes Pacheco), l� assim na morte. Ele, no seu t�mulo, ao lado, por cima do corpo tem uma enorme espada e um c�o de ca�a, acompanhando quatro s�ries obsessivas das serpentes do bras�o. Ela descansa com um livro, lendo para a eternidade.
09:40
(JPP)
Hoje, h� cento e dois anos, como o tempo passa depressa!, Robert Musil foi ao teatro de variedades, � revista, com uns amigos. Uma das �chanteuses�, uma das coristas, n�o era feia e tinha roupa interior cinzenta. O grupo dele estava um pouco enfastiado e resolveu n�o convidar nenhuma das meninas para a mesa. Mas Musil meteu conversa com a menina da roupa interior cinzenta, que estava acompanhada pela m�e. Pensou: se ela viesse para a nossa mesa, eu comportar-me-ia �decentemente� com ela. Bons pensamentos, pobre Musil! Enquanto ele estava com esses pensamentos delicados, um dos amigos levou a rapariga para o jardim com abundantes maus pensamentos e pr�ticas. �G�nio�, exclamou Musil, fantasma do Parque Mayer, homem sem qualidades.
01:21
(JPP)
![]() Ainda falta muito para a manh�. Mas a minha noite est� trocada pelo dia, as horas tortas, a noite longu�ssima. Fica por isso j� um matinal poema de Frank O�Hara, para quem amanh� come�ar o dia. Bom dia! Morning I've got to tell you how I love you always I think of it on grey mornings with death in my mouth the tea is never hot enough then and the cigarette dry the maroon robe chills me I need you and look out the window at the noiseless snow At night on the dock the buses glow like clouds and I am lonely thinking of flutes I miss you always when I go to the beach the sand is wet with tears that seem mine although I never weep and hold you in my heart with a very real humor you'd be proud of the parking lot is crowded and I stand rattling my keys the car is empty as a bicycle what are you doing now where did you eat your lunch and were there lots of anchovies it is difficult to think of you without me in the sentence you depress me when you are alone Last night the stars were numerous and today snow is their calling card I'll not be cordial there is nothing that distracts me music is only a crossword puzzle do you know how it is when you are the only passenger if there is a place further from me I beg you do not go (Frank O'Hara ) 20.2.04
19.2.04
14:28
(JPP)
Numa rara estadia lisboeta mais prolongada do que � costume, vou ver se fa�o o trajecto do autor de blogues perfeito: se vou � FNAC do Chiado, se marco encontros para o Magn�lia, se passo pela Ler Devagar, enfim, a ver se me civilizo. N�o se zanguem com o t�tulo, porque a curiosidade antropol�gica sou eu.
08:55
(JPP)
Se estiv�ssemos no dia de ontem, h� trezentos e quarenta e tr�s anos, talvez pud�ssemos ter um dia como o de Pepys: trabalhou no escrit�rio de manh�, almo�ou em casa "only my wife and I, which is not yet very usual.". � tarde foi a febre consumista, comprou luvas e seda com a mulher e uma amiga. � noite juntou toda a gente e mais uns amigos em casa, serviu vinho (do Reno?) e a��car. O a��car ainda era uma raridade. Falaram de qu�? Dos pol�ticos, claro, para dizer mal. O Rei (Carlos II, Stuart) , dizia-se, parecia j� ter casado (em segredo presume-se) e ter dois filhos. Era boato. Mas a Pepys n�o lhe desagradava a situa��o, tanto mais que colocava o Duque de York longe do trono. Qual era o problema com o Duque? Tinha uns amigos cat�licos, m�s companhias. Foi h� trezentos e quarenta e tr�s anos? N�o parece.
08:28
(JPP)
![]() avan�a pouco a pouco. Este � o mapa do que j� viu o "Esp�rito" e do caminho que o vai levar at� � cratera Bonneville. Do outro lado do planeta, a "Oportunidade" vai ser "acordada" com Trench Town Rock de Bob Marley. Deus n�o dorme na NASA e h� m�sicas para tudo.
07:45
(JPP)
Este era o poema marcado no volume de Auden. N�o � sobre a manh�, mas tem dentro muitas mannh�s. � sobre como se olha o c�u com um s� olho e se v� tudo. Roman Wall Blues Over the heather the wet wind blows, I've lice in my tunic and a cold in my nose. The rain comes pattering out of the sky, I'm a Wall soldier, I don't know why. The mist creeps over the hard grey stone, My girl's in Tungria; I sleep alone. Aulus goes hanging around her place, I don't like his manners, I don't like his face. Piso's a Christian, he worships a fish; There'd be no kissing if he had his wish. She gave me a ring but I diced it away; I want my girl and I want my pay. When I'm a veteran with only one eye I shall do nothing but look at the sky. (W. H. Auden)
00:43
(JPP)
ecl�ticas at� ao limite. Tudo misturado. No bolso ainda est� o belo pequeno volume de Auden, hardbound da Everymen�s Library Pocket Poets. O poema para amanh� est� marcado pelo bilhete do vaporetto, outro, para altura nenhuma, pela fita de nastro amarela. E ou�o sem ter coragem para desligar � as mulheres da country a cantar com uma for�a sem paralelo. A grande Patsy Cline a cantar I Fall To Pieces I fall to pieces each time I see you again I fall to pieces, how can I be just your friend? You want me to act like we've never kissed You want me to forget, pretend we've never met And I've tried and I've tried but I haven't yet You walk by and I fall to pieces e Tammy Winette, quase num grito, Sometimes its hard to be a woman Giving all your love to just one man You'll have bad times And he'll have good times Doing things that you don't understand But if you love him you'll forgive him Even though he's hard to understand And if you love him Oh be proud of him 'Cause after all he's just a man Stand by your man� Devia ser proibido. 18.2.04
21:16
(JPP)
The ice was all around : It cracked and growled, and roared and howled, Like noises in a swound ! (Coleridge) Para quem como eu gosta do frio, do frio muito forte, de gelo , da neve, daquele bloco de ar fr�gido que nos molda por fora e nos amea�a cristalizar por dentro, estou a ler o livro certo: Stephen J. Pine, The Ice, uma obra sobre a Ant�rtida.
13:45
(JPP)
passo-me entre as terras da Europa. N�o houve "early morning", mas fica, at� chegar, um grande e mais que apropriado poema de Frank O'Hara. Fica em ingl�s, mas vou traduzi-lo mais tarde, para a s�rie das Sensiblidades: Lines For The Fortune Cookies I think you're wonderful and so does everyone else. Just as Jackie Kennedy has a baby boy, so will you--even bigger. You will meet a tall beautiful blonde stranger, and you will not say hello. You will take a long trip and you will be very happy, though alone. You will marry the first person who tells you your eyes are like scrambled eggs. In the beginning there was YOU--there will always be YOU, I guess. You will write a great play and it will run for three performances. Please phone The Village Voice immediately: they want to interview you. Roger L. Stevens and Kermit Bloomgarden have their eyes on you. Relax a little; one of your most celebrated nervous tics will be your undoing. Your first volume of poetry will be published as soon as you finish it. You may be a hit uptown, but downtown you're legendary! Your walk has a musical quality which will bring you fame and fortune. You will eat cake. Who do you think you are, anyway? Jo Van Fleet? You think your life is like Pirandello, but it's really like O'Neill. A few dance lessons with James Waring and who knows? Maybe something will happen. That's not a run in your stocking, it's a hand on your leg. I realize you've lived in France, but that doesn't mean you know EVERYTHING! You should wear white more often--it becomes you. The next person to speak to you will have a very intriquing proposal to make. A lot of people in this room wish they were you. Have you been to Mike Goldberg's show? Al Leslie's? Lee Krasner's? At times, your disinterestedness may seem insincere, to strangers. Now that the election's over, what are you going to do with yourself? You are a prisoner in a croissant factory and you love it. You eat meat. Why do you eat meat? Beyond the horizon there is a vale of gloom. You too could be Premier of France, if only ... if only... (Frank O'Hara) 17.2.04
19:11
(JPP)
Se na blogosfera se olhar s� para dentro, n�o ser� dif�cil deixar de encontrar algum des�nimo, em particular de quem j� c� est� h� algum tempo. O meio � �cido, mais do que pol�mico, e atrai os �cidos. J� h� algum tempo o Pedro Mexia sublinhava e com raz�o que a aflu�ncia de jornalistas transportava para a blogosfera um estilo de discuss�es que, no fundo, projectam a agenda pol�tica dos jornais para os blogues. Nalgum dos blogues ent�o criados, os jornalistas pol�ticos davam o curso livre �s suas opini�es sobre a pol�tica e os pol�ticos, que n�o podiam explicitar nos seus jornais (embora n�o fosse dif�cil encontrar a comunidade de opini�es entre o que escreviam nos seus jornais e nos blogues, dada a politiza��o do meio.) Em si n�o h� mal nenhum em que isto aconte�a, h� at� um efeito de transpar�ncia. O que sucede � que a massa cr�tica da blogosfera portuguesa � pequena e os efeitos perversos, que j� c� estavam, acentuaram-se. Os temas estreitaram-se e as classifica��es tornaram-se comuns. Passou a haver uma esp�cie de patrulhamento da actualidade, quase uma exig�ncia de pronunciamento. �Ou falas sobre isto ou ent�o�� E o �ent�o� eram sempre julgamentos de car�cter, cobardia, oportunismo, conveni�ncia. O julgamento de car�cter tornou-se obsessivo, mais do que o debate pol�tico, que esse nunca fez mal a ningu�m. Depois a composi��o pol�tica da blogosfera pareceu alterar-se. Digo pareceu, porque n�o acho que a altera��o tenha sido essa. N�o havia antes hegemonia da �direita� e agora h� da �esquerda�, o que aconteceu foi a sobreposi��o de um fen�meno de �des-familiaridade�, com o refluxo do conflito iraquiano. Os amigos e conhecidos foram sucessivamente sendo substitu�dos por estranhos, os c�rculos de influ�ncia, que eram tamb�m de troca de reconhecimento, foram-se desagregando, e isso torna os blogues um meio mais duro, menos satisfat�rio em termos psicol�gicos. Mais do que a pol�tica mudou o estilo e a dimens�o, e uma sensa��o que a blogosfera � agora mais hostil do que cozy. Depois tamb�m, como em todas as coisas, as modas mudaram e os blogues j� n�o s�o novidade. Isto � um factor de selec��o poderoso porque acentua os crit�rios de qualidade do conte�do do blogue, em detrimento do facto do facto de se usar a forma blogue. Os que t�m alguma coisa a dizer, e ainda s�o alguns, continuar�o a ter leitores. O Abrupto nunca foi pensado como tendo como primeiro interlocutor os outros blogues, mas o mundo exterior, as pessoas que n�o vivem dentro da blogosfera, mas na atmosfera. Como todos os blogues n�o � imune ao meio, mas n�o � escrito em primeiro lugar para a comunidade, mas para quem vem de fora, como acontece com a maioria dos seus leitores. O Abrupto continuar�, limitado pelo meu tempo e circunst�ncias. Fora disso, e como o seu autor n�o � muito de arroubos ou surtos, n�o vejo que haja qualquer raz�o previs�vel no horizonte para que acabe.
15:26
(JPP)
V�rios aspectos da vida portuguesa servem de exemplo para se perceber o car�cter absolutamente novo da hist�ria, a sua capacidade de ser imprevis�vel e criadora. Coisas triviais, que aceitamos como normais, mas que h� vinte anos, n�o mais do que isso, seriam consideradas t�o imposs�veis que ningu�m as poderia antever sequer. Por exemplo: que tropas portuguesas estariam na B�snia e no Iraque, que nas ruas de Lisboa e um pouco por todo o pa�s se falasse russo, ucraniano e moldavo, que nas bancas de jornais existisse imprensa nessas l�nguas, ao lado do Di�rio de Not�cias.
10:27
(JPP)
Pepys teve um dia feliz, ontem, h� trezentos e quarenta e tr�s anos: o seu �Lord�, Sir Edward Mountagu, conde de Sandwich, verificou-lhe as contas e pagou-lhe uma consider�vel quantia. Depois jantaram e foram ao teatro, mas a pe�a n�o o entusiasmou: "I saw �The Virgin Martyr,� a good but too sober a play for the company.� ![]() A pouco mais de um m�s de morrerem, Scott e os seus companheiros est�o enterrados na tempestade. Evans d� sinais de perturba��o mental. Ontem , h� noventa e dois anos, Scott anotou no seu di�rio: �it�s no use meeting troubles halfway, and our sleep is all too short to write more.� ![]() �At last I am alone. At last there is nothing between us. I have been reading my letters to you in the library this evening.You are so engraved on my brain that I think of nothing else. Everything I look `at is part of you. And there seems no point in life now you are gone. I used to say: `I must eat my meal properly as Lytton wouldn't like me to behave badly when he was away.' But now there is no coming back. No point in `improvements'. Nobody to write letters to. Only the interminable long days which never seem to end and the nights which end all too soon and turn to dawns. All gaiety has gone out of my life and I feel old and melancholy. All I can do is to plant snow drops and daffodils in my graveyard!� Depois queimou alguns objectos pessoais de Lytton, deu a roupa, �the bodily companions�, aos caseiros. Escreveu: �In a few years what will be left of him? A few books on some shelves, but the intimate things that I loved, all gone� Daqui a dias, Dora Carrington mata-se com um tiro. J� tinha tentado antes, sem conseguir.
07:08
(JPP)
Pela manh�, ainda seren�ssima, a voz do grande sedutor, George Gordon (Lord Byron), ele pr�prio habitante destas pedras. I stood in Venice, on the Bridge of Sighs, A palace and a prison on each hand: I saw from out the wave her structures rise As from the stroke of the enchanter's wand: A thousand years their cloudy wings expand Around me, and a dying Glory smiles O'er the far times, when many a subject land Looked to the wing�d Lion's marble piles, Where Venice sate in state, throned on her hundred isles! She looks a sea Cybele, fresh from ocean, Rising with her tiara of proud towers At airy distance, with majestic motion, A ruler of the waters and their powers: And such she was--her daughters had their dowers From spoils of nations, and the exhaustless East Poured in her lap all gems in sparkling showers: In purple was she robed, and of her feast Monarchs partook, and deemed their dignity increased. In Venice Tasso's echoes are no more, And silent rows the songless gondolier; Her palaces are crumbling to the shore, And music meets not always now the ear: Those days are gone--but Beauty still is here; States fall, arts fade--but Nature doth not die, Nor yet forget how Venice once was dear, The pleasant place of all festivity, The revel of the earth, the masque of Italy! (Byron) * Bom dia! 16.2.04
23:53
(JPP)
![]() Vindos dos leitores do Abrupto: Da Maria Teresa Goul�o: Em " Cidades Invis�veis" de Calvino, Kublai Kan, o imperador, interpela Marco Polo acerca de um cidade de que ele nunca fala - Veneza- e este responde: "Para distingir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que est� impl�cita. Para mim � Veneza. As imagens da mem�ria, depois de fixadas com as palavras apagam-se. Talvez eu tenha medo de perder Veneza toda de uma vez, se falar dela. Ou talvez, ao falar de outras cidades, j� venha a perd�-la. A cidade existe e tem um segredo: s� conhece partidas e nunca regressos.� Calvino, Cidades Invis�veis De RPR da Hipatia: "Ci sono a Venezia tre luoghi magici e nascosti. Uno in CALLE DELL'AMOR DEGLI AMICI : un secondo vicino al PONTE DELLE MERAVEGIE : il terzo in CALLE DEI MARRANI nei pressi di San Geremia in ghetto vecchio. Quando i veneziani sono stanchi delle autorit` costituite vanno in questi tre luoghi segreti e aprendo le porte che stanno nel fondo di quelle corti se ne vanno per sempre in posti bellissimi e in altre storie.....". Hugo Pratt, Sirat Al-Bunduqiyyah "H� muitas e muitas luas, um d�lar eram 870 liras e eu era um homem de trinta e dois anos. Tamb�m o mundo era mais leve, dois bili�es de almas mais leve, e o bar da stazione a que eu chegara nessa fria noite de Dezembro estava vazio. Fiquei ali parado, ` espera da �nica pessoa que conhecia na cidade. Ela chegou bastante atrasada." Joseph Brodsky, Marca de Agua 14.2.04
16:25
(JPP)
Muito interessante texto sobre a vida dos cientistas que acompanham as duas sondas marcianas e a sua adapta��o a estarem simultaneamente em tr�s tempos diferentes. Por exemplo, agora est�-se em SOL (o dia marciano) 41 , 23.41 na cratera Gusev, ou seja, est� de noite e m�quina parada, e SOL 21, 11.41, em Meridiani e o Sol brilha e tempo de trabalhar para a Opportunity. Se o Abrupto fosse a TSF ou a RTP nos dias �patri�ticos� de Timor, com o sinal hor�rio de Dili, devia por no blogue as horas marcianas.
13:17
(JPP)
![]() Amanh�, quando chegar e olhar para a �gua da laguna seren�ssima, lembrar-me-ei. J� ser� tarde para escrever, j� n�o ser� �early morning�, mas se fosse seria assim In winter you wake up in this city, especially on Sundays, to the chiming of its innumerable bells, as though behind your gauze curtains a gigantic china teaset were vibrating on a silver tray in the pearl-gray sky. You fling the window open and the room is instantly flooded with this outer, pearl-laden haze, which is part damp oxygen, part coffee and prayers. No matter what sort of pills, and how many, you've got to swallow this morning, you feel it's not over for you yet. No matter, by the same token, how autonomous you are, how much you've been betrayed, how thorough and dispiriting is your self-knowledge, you assume there is still hope for you, or at least a future. (Brodsky, Watermark) (Marcas de �gua, watermark, filigranas, coisas que os filatelistas conhecem. Impressas quase no limite da invisibilidade e no entanto verdadeiras marcas de posse, garantias de genuinidade, riscos subtis de perten�a. J� quase n�o se usam.)
13:11
(JPP)
All�geance Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe o� il va dans le temps divis�. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima? Il cherche son pareil dans le voeu des regards. L'espace qu'il parcourt est ma fid�lit�. Il dessine l'espoir et l�ger l'�conduit. Il est pr�pond�rant sans qu'il y prenne part. Je vis au fond de lui comme une �pave heureuse. A son insu, ma solitude est son tr�sor. Dans le grand m�ridien o� s'inscrit son essor, ma libert� le creuse. Dans les rues de la ville il y a mon amour. Peu importe o� il va dans le temps divis�. Il n'est plus mon amour, chacun peut lui parler. Il ne se souvient plus; qui au juste l'aima et l'�claire de loin pour qu'il ne tombe pas? Ren� Char, Eloge d'une soup�onn�e
10:29
(JPP)
O homem antigo tudo sabe, tem a maldi��o de n�o ter surpresas. Ele centra-se num c�none, n�o numa varia��o. Surpresas s� da natureza, n�o dos homens. Os antigos sabiam que nada h� de mais previs�vel que os sentimentos vulgares, essa esp�cie de rel�gio programado para a satisfa��o comum, para os prazeres pobres. Por isso � tudo t�o previs�vel. A ideia que as pessoas s�o imprevis�veis, que os arroubos sentimentais, que as mudan�as, que os surtos s�o a ess�ncia da vida est� ligada � sensibilidade moderna, de g�nese rom�ntica. Emily Dickinson, que s� tinha vida sentimental na cabe�a, elogiou essa �surpresa�: Surprise is like a thrilling�pungent� Upon a tasteless meat Alone�too acrid�but combined An edible Delight. Nada seria mais alheio aos antigos. Eles sabem o que atrai na �surpresa� de Dickinson: ela � profundamente desresponsabilizante, porque ef�mera. As palavras perdem o valor, os gestos s�o repeti��es, a usura � vaidosa, mas � usura. � o mundo das trinta moedas que Cristo, que, n�o sendo romano era universal, tomou como s�mbolo da sua trai��o. Tamb�m ele sabia antes o que se ia passar. As pessoas modernas fazem exactamente, exactamente, o que se espera que elas fa�am. � por isso que s�o modernas.
06:24
(JPP)
Hoje � o dia do amor liofilizado. N�o demorou duzentos anos at� que a paix�o rom�ntica, com o seu pathos curto, egoc�ntrico e intensamente artificial, desse lugar na sensibilidade moderna a uma fic��o comercial do amor. A primeira (a paix�o satisfeita) faz mais mal que o segundo (o marketing) , mas as coisas s�o como s�o. Para ir para outro lado, pela manh�, a conversa da noite: Talking In Bed Talking in bed ought to be easiest Lying together there goes back so far An emblem of two people being honest. Yet more and more time passes silently. Outside the wind's incomplete unrest builds and disperses clouds about the sky. And dark towns heap up on the horizon. None of this cares for us. Nothing shows why At this unique distance from isolation It becomes still more difficult to find Words at once true and kind Or not untrue and not unkind. (Philip Larkin)
01:39
(JPP)
Aug�rios. Hoje h� um p�ssaro que canta ou que grita, minuto a minuto, no meio da noite. O que far� um p�ssaro cantar assim, quando ningu�m o ouve? 13.2.04
21:57
(JPP)
O �Esp�rito� caminha para Mimi, uma rocha. N�o se admirem se a rocha responder: ![]() S�, Mi chiamano Mim�, ma il mio nome � Lucia. La storia mia � breve: a tela o a seta ricamo in casa e fuori... Son tranquilla e lieta ed � mio svago far gigli e rose. Mi piaccion quelle cose che han s� dolce mal�a, che parlano d'amor, di primavere, di sogni e di chimere, quelle cose che han nome poesia... Lei m'intende? J� se viram coisas mais estranhas e a confraternidade das rochas est� cheia de surpresas.
18:52
(JPP)
![]() A RTP anunciou hoje que prev� transmitir entre 400 a 500 horas sobre o Euro 2004. Espantoso! Se uma pessoa se sentasse, no in�cio do Euro 2004, numa cadeira podia estar vinte dias consecutivos, sem dormir um minuto a ver futebol. Isto num evento que dura m�s e meio. E sem contar com a parte dos notici�rios com futebol e o mais que se ver� Espantosa no��o de servi�o p�blico que transforma tudo o que acontece em Portugal e o mundo nuns breves momentos envergonhados, e obviamente perdidos, desse grande des�gnio nacional que � o futebol. Podiam mudar o nome do pa�s para Futebol�ndia e vender bilhetes � entrada.
18:35
(JPP)
O Bloco de Esquerda gosta de nos tratar por parvos. Esta semana resolveu dedicar a sua aten��o aos medicamentos, �s drogas terap�uticas, mat�ria sem d�vida nobre. Por singular coincid�ncia, que nada tem a ver com a sua posi��o sobre as drogas leves, escolheu como medicamento a estudar a � cannabis. Certamente por acaso, entre mil e uma subst�ncias com possibilidade de terem efeitos terap�uticos, escolheu a am�vel erva de que se fazem uns entusiasmantes fumos. E l� veio a trupe comunicacional tom�-los a s�rio e contribuir para nos tomar a n�s por parvos.
16:24
(JPP)
Sobre PERGUNTAS CERTAS SOBRE AS FARM�CIAS Aquilo que escreveu no Abrupto sobre as farm�cias fez-me lembrar a seguinte hist�ria que li h� anos atr�s numa publica��o francesa. Uma revista de defesa dos consumidores enviou um rep�rter a dez farm�cias. O rep�rter tinha um bon� com o s�mbolo da revista e levava consigo uma pasta com o mesmo s�mbolo. Em todas as farm�cias perguntou se venderiam produtos para reduzir o peso a qualquer pessoa que os tentasse comprar, independentemente de parecer ou n�o que a pessoa em quest�o n�o precisaria de tais produtos. Em todas elas lhe disseram que, caso o produto n�o parecesse indicado para a pessoa em quest�o, tentariam explicar-lhe os potenciais inconvenientes para a sa�de. Em seguida, enviaram da revista uma funcion�ria �s mesmas dez farm�cias, mas desta vez sem nada na sua apar�ncia que a ligasse � revista. Se a mem�ria n�o me engana, a senhora em quest�o tinha 1m67 de altura e 55kg de peso. Em todas as farm�cias pediu um determinado produto para emagrecer e em nove delas venderam-lho sem fazerem qualquer pergunta ou coment�rio. S� na d�cima farm�cia levantaram algumas d�vidas sobre se o produto seria o mais adequado. (Jos� Carlos Santos) Perguntas simples sobre o regime das farm�cias: 1. A margem de comercializa��o � de 20%? 2. Algu�m sabe quantos neg�cios podem aplicar uma margem deste teor? 3. � verdade que os juros cobrados pela Associa��o Nacional de Farm�cias ao estado, pelas d�vidas no pagamento das comparticipa��es, s�o de 12% ao ano? 4. Quantas vilas e aldeias deste pa�s com menos de 5000 habitantes posuem farm�cia? 5. Existe algum estudo sobre quantas farm�cias corem o risco de fechar caso a lei venha a liberalizar a instala��o de novas farm�cias? (M. Barrona) 12.2.04
12:26
(JPP)
Daqui a uma semana, come�a em Veneza o festival de poesia er�tica em honra do poeta libertino Zorzi Alvise Baffo. A multid�o dos prazeres e os cognoscenti misturar-se-�o com os �acad�micos�, os apreciadores de grappa e, de um modo geral, os amadores de antigas sensibilidades. S�o tempos de Carnaval e, num canto qualquer perdido da cidade, ser�o ainda tempos venezianos e n�o japoneses, nem americanos, nem alem�es. A alma de Aretino ressuscitar�, Casanova voltar� a passar pelas ruas � noite. N�o se recomenda.
11:51
(JPP)
![]() Veneza , hoje de manh�, muito cedo, junto da paragem dos barcos em S.Tom�, no Canal Grande em direc��o a Rialto. Cinzento.
11:36
(JPP)
Hoje , h� setenta e sete anos atr�s, Virg�nia Woolf descobria que tinha pouco cabelo e essa situa��o n�o se iria alterar. Virg�nia escreve que, agora que n�o tinha mais �any claims to beauty�, havia que tirar proveito disso: �Having no longer, I think, any claims to beauty the convenience of this alone makes it desirable. Every morning I go to take up [my] brush and twist that old coil round my finger and fix it with hairpins and then with a start of joy, no I needn't. In front there is no change behind I'm like the rump of a partridge. This robs dining out of half in terrors.� Tamb�m hoje, h� cinquenta e tr�s anos atr�s, John Steinbeck inaugurou o seu novo quarto para escrever. Tudo no s�tio, mesa e cadeiras confort�veis, l�pis agu�ado, �paper persuasive�, boa luz e ��no writing�. �Now that I have everything, we shall see whether I have anything. It is exactly that simple.� Nesse ano Steinbeck escreveu East of Eden.
09:22
(JPP)
Do outro g�nio, para al�m de Cam�es e Pessoa, este �Num Bairro Moderno�. Como o bom dia ficaria l� em baixo t�o longe, vai dado desde aqui, e quando chegarem �s �duas frugais ab�boras carneiras", voltem ao pr�ncipio. Dez horas da manh�; os transparentes Matizam uma casa apala�ada; Pelos jardins estacam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada. Rez-de-chauss�e repousam sossegados, Abriram-se, nalguns, as persianas, E dum ou doutro, em quartos estucados, Ou entre a rama dos pap�is pintados, Reluzem, num almo�o, as porcelanas. Como � saud�vel ter o seu aconchego, E a sua vida f�cil! Eu descia, Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde eu agora quase sempre chego Com as tonturas duma apoplexia. E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marm�reo duma escada, Como um retalho de horta aglomerada, Pousara, ajoelhando, a sua giga. E eu, apesar do sol, examinei-a: P�s-se de p�; ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algod�o azul da meia, Se ela se curva, esguedelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos. Do patamar responde-lhe um criado: �Se te conv�m, despacha; n�o converses. Eu n�o dou mais.� E muito descansado, Atira um cobre l�vido, oxidado, Que vem bater nas faces duns alperces. Subitamente - que vis�o de artista! - Se eu transformasse os simples vegetais, � luz do Sol, o intenso colorista, Num ser humano que se mova e exista Cheio de belas propor��es carnais?! B�iam aromas, fumos de cozinha; Com o cabaz �s costas, e vergando, Sobem padeiros, claros de farinha; E �s portas, uma ou outra campainha Toca, fren�tica, de vez em quando. E eu recompunha, por anatomia, Um novo corpo org�nico, aos bocados. Achava os tons e as formas. Descobria Uma cabe�a numa melancia, E nuns repolhos seios injectados. As azeitonas, que nos d�o o azeite, Negras e unidas, entre verdes folhos, S�o tran�as dum belo cabelo que se ajeite; E os nabos - ossos nus, da cor dp leite, E os cachos de uvas - os ros�rios de olhos. H� colos, ombros, bocas, um semblante Nas posi��es de certos frutos. E entre As hortali�as, t�mido, fragrante, Como dalgu�m que tudo aquilo jante, Surge um mel�o, que me lembrou um ventre. E, como um feto, enfim, que se dilate, Vi nos legumes carnes tentadoras, Sangue na ginja v�vida, escarlate, Bons cora��es pulsando no tomate E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. O sol dourava o c�u. E a regateira, Como vendera a sua fresca alface E dera o ramo de hortel� que cheira, Voltando-se, gritou-me, prazenteira: �N�o passa mais ningu�m!... Se me ajudasse?!...� Eu acerquei-me dela, sem desprezo; E, pelas duas asas a quebrar, N�s levant�mos todo aquele peso Que ao ch�o de pedra resistia preso, Com um enorme esfor�o muscular. �Muito obrigada! Deus lhe d� sa�de!� E recebi, naquela despedida, As for�as, a alegria, a plenitude, Que brotam dos excessos de virtude Ou duma digest�o desconhecida. E enquanto sigo para o lado oposto, E ao longe rodam as carruagens, A pobre afasta-se, ao calor de Agosto, Descolorida nas ma��s do rosto, E sem quadris na saia de ramagens. Um pequerrucho rega a trepadeira Duma janela azul; e, com o ralo Do regador, parece que joeira Ou que borrifa estrelas; e a poeira Que eleva nuvens alvas a incens�-lo. Chegam do gigo emana��es sadias, Oi�o um can�rio - que infantil chilrada! - Lidam m�nages entre as gelosias, E o sol estende, pelas frontarias, Seus raios de laranja destilada. E pitoresca e audaz, na sua chita, O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, Duma desgra�a alegre que me incita, Ela apregoa, magra, enfezadita, As suas couves repolhudas, largas. E, como grossas pernas dum gigante, Sem tronco, mas atl�ticas, inteiras, Carregam sobre a pobre caminhante, Sobre a verdura r�stica, abundante, Duas frugais ab�boras carneiras. (Ces�rio Verde)
00:09
(JPP)
Hoje, h� oitenta e nove anos, Kafka queixava-se que as discuss�es da senhoria com um vizinho n�o o deixavam escrever. �Desespero absoluto�! Ser� que sou perseguido por senhorias que n�o me deixam trabalhar, pergunta Kafka? Simone de Beauvoir, pelo contr�rio, n�o tinha que aturar senhorias. Passou este dia, h� cinquenta e sete anos, a barafustar contra os costumes americanos. Beauvoir estava em Nova Iorque e irrita-se com as montras preparadas para o Dia de S. Valentim, cheias de cora��ezinhos. Os americanos �gastam o tempo� com isto, anota irritada. Ainda mais a irrita o costume de cantar �Parab�ns a voc�� nos locais p�blicos. Estou com ela. 11.2.04
17:30
(JPP)
Sobre AUG�RIOS No post de hoje do Abrupto: �Os antigos acreditavam nos aug�rios. N�s n�o.� N�o acredito! Basta ver as p�ginas de astrologia e coisas ainda mais estranhas nos jornais! Mas como � poss�vel dizer isso quando um professor (Boaventura Sousa Santos) numa universidade escreve um livro onde se l�: �A ci�ncia moderna n�o � a �nica explica��o poss�vel da realidade e n�o h� sequer qualquer raz�o cient�fica para a considerar melhor que as explica��es alternativas da metaf�sica, da astrologia, da religi�o, da arte ou da poesia (Um Discurso Sobre as Ci�ncias: p. 52) Ou seja, BSS escreve preto no branco que ci�ncia = astrologia = religi�o = arte. Quando algu�m escreveu contra este disparate, veio o vice-rei dos p�s-modernos, o Eduardo Prado Coelho, numa defesa brilhante, dizer que �BSS pensa exactamente o contr�rio daquilo que est� a expor... uma caracter�stica fenomenol�gica para a sociologia". � espantoso como se atreve a dizer�. Ou seja, o EPC diz que BSS pensa o contr�rio do que escreveu! Brilhante! E ainda diz o Pacheco Pereira que n�s n�o acreditamos em aug�rios! Era bom! (Alexandre Silva) Sobre CL�SSICOS O Pacheco Pereira chama a aten��o para a "sensibilidade contempor�nea (�), que ser� muito diferente (ou distante) da sensibilidade de outros tempos. Talvez o seja. Ou talvez sejam outras coisas que mudaram, mas n�o a sensibilidade. Ou talvez seja sobre a no��o de "sensibilidade" que se alimente o equ�voco. Concordo plenamente que h� hoje um apetite renovado pelos cl�ssicos, que n�o � apenas uma moda mas talvez a intui��o de que algures se perdeu o fio ou se emaranhou o novelo e que vale a pena recapitular o percurso para destrin�ar os n�s que entretanto nos confundiram. A este prop�sito, ainda que aparentemente sem prop�sito nenhum, recomendo-lhe vivamente um livro recente: Reformation de Diarmaid MacCulloch (Penguin Books). (Francisco de Sousa Fialho) Sobre OS NOVOS DESCOBRIMENTOS : A ALEGRIA Creio que a afirma��o que faz no seu post (�) de que ter� sido "[n]a rocha Adirondack onde foi feito o primeiro buraco jamais realizado num outro planeta" n�o estar� totalmente correcta. Tanto quanto julgo lembrar-me, os primeiros buracos foram sido abertos na Lua, pelos astronautas do programa Apollo, com uma broca Black and Decker sem fios. (Paulo Alves)
07:02
(JPP)
A n�voa ainda � muita, a manh� pequena. Pessoa acordava assim na figura de Caeiro: Todos os dias acordo com alegria e pena. Antigamente acordava sem sensa��o nenhuma; acordava. Tenho alegria e pena porque perco o que sonho E posso estar na realidade onde est� o que sonho. N�o sei o que hei-de fazer das minhas sensa��es. N�o sei o que hei-de ser comigo sozinho. Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo. (Alberto Caeiro) * Bom dia!
01:50
(JPP)
![]() ![]() 10.2.04
22:05
(JPP)
andou o �Esp�rito� num s� dia: 21 metros. O recorde anterior era de 7. E h� mais: rugas e estrias feitas pelo vento. Pelo tempo. Tudo aqui.
21:51
(JPP)
Hoje, num dia muito semelhante ao meu, h� 343 anos, Samuel Pepys escreveu: �Took physique all day, and God forgive me, did spend it in reading of some little French romances�
12:00
(JPP)
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11:50
(JPP)
Cada vez mais me conven�o que a frequ�ncia dos cl�ssicos (que � mais que a leitura) � , como se dizia numa antiga classifica��o de filmes, s� para adultos com s�rias reservas. E n�o � pela libertinagem pag�, pelas obscenidades, pela crueza das cenas, � pelas ideias, � pelo modo de sentir, � pelo modo de viver. T�o alheio, t�o alheio, � sensibilidade contempor�nea.
11:38
(JPP)
s�o feitas num artigo de Vital Moreira, hoje no P�blico sobre as raz�es da manuten��o de um conjunto de privil�gios corporativos dos farmac�uticos. S� para a pequena hist�ria acrescento que h� alguns anos numa sess�o de �brainstorming� no PSD, destinada a sugerir novas iniciativas legislativas, eu fiz as mesmas perguntas � porque raz�o s� os farmac�uticos � que podem ser donos de farm�cias, porque raz�o n�o � livre e concorrencial a abertura de farm�cias, porque raz�o certos medicamentos de consumo e acesso corrente, que s�o suficientemente in�cuos para n�o necessitarem de receita m�dica (como as aspirinas), n�o se vendem nos supermercados como acontece em muitos pa�ses � e deparei com uma r�pida e taxativa reac��o de alguns meus colegas parlamentares, como se isso fosse um tabu indiscut�vel. Percebi. Nota: n�o � preciso ser adivinho para ver como v�o surgir reac��es r�pidas e vigorosas ao que diz Vital Moreira. * Em geral as considera��es de Vital Moreira sobre o regime proteccionista das farm�cias s�o para mim indiscut�veis. Mas h� duas quest�es que VM se esquece de referir no artigo do P�blico. A primeira e que viola todos os princ�pios b�sicos de concorr�ncia � a limita��o de propriedade a apenas um estabelecimento. Quer para os farmac�uticos, quer para outros que venham no futuro a ser propriet�rios, esta medida � manifestamente injusta. Imaginemos o que seria limitar o Sr. Belmiro de Azevedo a apenas um hipermercado. Toda a gente acharia escandaloso. A segunda quest�o reside na limita��o do lucro imposta, e bem, pelo Estado. Tratando-se de um bem de primeira necessidade, os medicamentos t�m o pre�o fixado pelo estado e da� que para compensar os propriet�rios sejam impostos limites territoriais e de capita��o. Imagine-se por exemplo aldeias ou pequenas povoa��es, onde a maioria da popula��o � idosa e com baixos rendimentos. N�o h� por certo grande consumo de cosm�tica farmac�utica ou de brinquedos para beb�. Assim, o lucro da farm�cia � constitu�do em grande parte pela venda de medicamentos em que o pre�o � fixado pelo Estado. Havendo v�rias farm�cias e atendendo ao reduzido n.� de pessoas, percebe-se que dificilmente qualquer uma delas resistiria financeiramente. Por outro lado, nas grandes cidades, nomeadamente Lisboa, o problema da concorr�ncia n�o se coloca, pelo menos na maior parte do territ�rio. Se n�o vejamos o exemplo da zona de Alvalade que na mesma rua tem cinco farm�cias. (Ricardo Sousa)
11:24
(JPP)
Na muito interessante carta que Rui Oliveira ( do Superflumina) me enviou acrescenta, numa parte que n�o publiquei anteriormente, o seu �enorme fasc�nio� pelo �conceito de imita��o� cl�ssico. Acrescenta �Os rom�nticos, na �nsia da originalidade, deitaram este conceito ao opr�brio, mas quanto mais se l� a literatura que vai do s�c. XV ao XVIII, podemos ver como esse conceito era essencial para a produ��o de uma obra original.� Nestas notas sobre formas antigas de sensibilidade, no fundo, sentimentos em extin��o ou extintos, o valor da �imita��o�, com o seu sentido do c�none da palavra po�tica, sistematicamente repetido e recriado, a caminho de uma ideia de perfei��o formal, traduz tamb�m um mundo no qual a tradi��o e o respeito pelo adquirido antigo eram uma pedra s�lida para o presente e para o futuro. Como muita coisa que os rom�nticos, pais da sensibilidade contempor�nea, estragaram, est� esse sentido de continuidade e perman�ncia, assim como a dura disciplina, do �fabbro�, da �fabrica��o� criativa.
09:42
(JPP)
O s�tio da NASA onde s�o apresentados para o grande p�blico os resultados dos trabalhos das sondas marcianas transpira da alegria da descoberta. Os t�tulos � como por exemplo �Spirit Self-motivates� ou �Opportunity Views of a Rock Called Stone Mountain� � s�o o retrato dessa alegria dos cientistas que est�o � frente de um projecto que est� a correr muito bem, em que cada dia h� novas surpresas. Por exemplo, ontem, porque � que a rocha Adirondack onde foi feito o primeiro buraco jamais realizado num outro planeta, parece ter sido queimada a ma�arico? N�o era suposto. Deve-se dormir pouco de entusiasmo na Calif�rnia.
09:05
(JPP)
Sobre NOTAS SOBRE AS FORMAS ANTIGAS DE SENSIBILIDADE �Quanto as formas de sensibilidade propriamente ditas, por exemplo, lembro-me muito bem de um videograma da Universidade Aberta da responsabilidade de J�lio Machado Vaz com o t�tulo, salvo erro, "Pedagogia Homossexual na Gr�cia Antiga". Essa forma de educa��o chocaria tremendamente a sensibilidade moderna. Mas, o poema de Estrat�o de Sardes que publicou levou-me a escrever (�) A tradu��o de Marguerite Yourcenar n�o � esclarecedora acerca do sexo do escravo: Jeune esclave Si tu ne savais rien, j'h�siterais peut �tre / Mais tu re�us d�j� les le�ons de ton ma�tre, / Il s'endort pr�s de toi aussit�t content�. / Moi, je t'offre l'amour, la tendre intimit�, / Le rire, le propos qui succ�de au baiser, / La douce libert�, parfois, de refuser. Mas conhecendo outros poemas de Estrat�o, n�o � dif�cil prever que ser� um escravo e n�o uma escrava. Obviamente n�o conhecendo o grego �-me dif�cil ter uma opini�o definitiva sobre o assunto. No entanto, se houve, efectivamente, na tradu��o portuguesa, uma altera��o ao sexo � algo que, na hist�ria da tradu��o, foi recorrente por v�rios motivos (nomeadamente morais), mas que tamb�m hoje em dia (por motivos politicamente correctos) tamb�m acontece. A tradu��o tamb�m tem a sua ideologia. Lembro-me por exemplo das tradu��es que conhe�o do poema 16 de Catulo (sem d�vida um g�nio, mas com muitos poemas que ainda hoje escandalizariam muitas pessoas). O primeiro (e �ltimo tamb�m, pois � repetido) verso "Pedicabo ego uos et irrumabo" � traduzido, na edi��o das Belles Lettres que tenho(de 1982, mas 1.� edi��o 1923), por "[Je vous donnerai des preuves de ma virilit�]". Tenho presente que Jorge de Sena traduziu este poema sem traduzir este verso, deixando-o assim mesmo no in�cio e no fim do poema. A �nica tradu��o expl�cita que tenho do poema � brasileira, feita nos anos 90 (penso eu). H�, por assim dizer, um certo pudor que se manteve at� h� muito pouco tempo. Em 1789, Miguel do Couto Guerreiro fez uma tradu��o de Ov�dio cujo t�tulo come�ava assim "Cartas de Ov�dio chamadas Heroides, expurgadas de toda a obscenidade, e traduzidas em Rima vulgar." Na "Prefa��o" a esta tradu��o, o tradutor escreve: "Ningu�m espera as palavras e frases do Autor: essas no original as tem; o que se espera na Tradu��o � o conceito que essas palavras e frases significam, expresso com energia e eleg�ncia. Contudo, achar�s que em alguns lugares n�o concorda o meu sentido com o do Autor: assim sucede todas as vezes que ele se faz indigno dessa conc�rdia. Os bons costumes clamavam que ou omitisse totalmente o que o Autor dizia nesses lugares, ou o suprisse com pensamentos honestos e decentes. Algumas vezes omiti, onde o sentido n�o ficava mutilado; por�m, onde ficava, supri com pensamentos pr�prios, querendo antes que nesta parte me culpasses de infiel, que de imitador. Lembrou-me mandar imprimir esses lugares com diversa letra, mas tamb�m me lembrou que isso mesmo excitaria a curiosidade de alguns leitores, para que os fossem ver no original, e � melhor livr�-los desse trabalho." No entanto, como digo, neste caso n�o sei se a tradu��o que apresentou tem algo a ver com esse pudor. Mas � sempre interessante verificar estes casos (� claro que a partir destas afirma��es pode fazer-se bastantes outros coment�rios sobre a tradu��o, mas fica para outra altura). (Rui Oliveira , Superflumina) Sobre OS NOSSOS OLHOS MARCIANOS "Tenho acompanhado a miss�o da Opportunity e da Spirit nas �ltimas semanas, mas n�o estava mesmo � espera da imagem com que me deparei pela primeira vez no Abrupto, tirada pela Opportunity do seu p�ra-quedas e parte do escudo t�rmico a alguams centenas de metros de dist�ncia. N�o � estranho ter este rob� em Marte a tirar fotografias de 360� em sua volta e perceber que os �nicos ind�cios de "vida" s�o os nossos pr�prios vestigios? Isto �, olhar em redor e s� vermo-nos a n�s pr�prios, reflectidos nos aparelhos e mecanismos usados para ali chegar? Admir�vel." (Pedro)
07:28
(JPP)
Voltaram as andorinhas. Aproxima-se a Primavera, a esta��o de todos os enganos. A manh� continua qu�mica. Em sua honra este elogio ao �mais pr�tico dos s�is�: Num Monumento � Aspirina Claramente: o mais pr�tico dos s�is, o sol de um comprimido de aspirina: de emprego f�cil, port�til e barato, compacto de sol na l�pide sucinta. Principalmente porque, sol artificial, que nada limita a funcionar de dia, que a noite n�o expulsa, cada noite, sol imune �s leis de meteorologia, a toda a hora em que se necessita dele levanta e vem (sempre num claro dia): acende, para secar a aniagem da alma, quar�-la, em linhos de um meio-dia... (Jo�o Cabral de Melo Neto) * Bom dia! 9.2.04
21:28
(JPP)
![]() Olham da �Oportunidade� para tr�s para verem o para quedas e o inv�lucro que a trouxeram. Longe, a �Oportunidade� emancipou-se, j� est� noutra.
21:14
(JPP)
A uma jovem escrava Fosses tu ainda inocente talvez reconsiderasses antes de te falar H� tempos no entanto que recebes li��es do teu amo que adormece a teu lado mal o deixas satisfeito. Eu ofere�o-te o amor a terna intimidade o riso e essa suave conversa que prolonga o acto da carne. A doce liberdade (se assim o entenderes) de n�o aceitares nenhuma destas coisas. (Estrat�o de Sardes) A tradu��o do poema � de Jorge Sousa Braga. Recordo-me , embora n�o possa agora verificar que, na vers�o de Yourcenar, n�o era uma �jovem escrava� , mas �um jovem escravo�. O poema de Estrat�o faz parte de uma antologia de poemas intitulada posteriormente Musa puerilis, ou seja uma s�rie de poemas ped�filos, e foi recolhido nalgumas vers�es da Antologia Palatina e censurado noutras. Johann Jacob Reiske, um grande helenista alem�o do s�culo XVIII, dizia do v�cio de Estrat�o : Computrescat in illo coeno qui animum ad meliora nequit attollere.
09:57
(JPP)
O autor do Abrupto est� um pouco febril, um pouco "tocado", como se diria no s�culo XIX e na Montanha M�gica, e teve que cancelar todos os compromissos itinerantes. Das duas, uma: ou o blogue fica em servi�os m�nimos, ou ent�o beneficia dessa vaga perturba��o corporal. Se come�ar a delirar, ent�o desliguem tudo.
06:27
(JPP)
Todas as manh�s esque�o "my morning wishes", para acompanhar a pressa dos dias: Days Daughters of Time, the hypocritic Days, Muffled and dumb, like barefoot dervishes, And marching single in an endless file, Bring diadems and fagots in their hands. To each they offer gifts, after his will,-- Bread, kingdoms, stars, or sky that holds them all. I, in my pleach?d garden, watched the pomp, Forgot my morning wishes, hastily Took a few herbs and apples, and the Day Turned and departed silent. I, too late, Under her solemn fillet saw the scorn. (Ralph Waldo Emerson) * Bom dia, �s primeiras luzes, que passar�o tamb�m depressa. 8.2.04
20:27
(JPP)
O tempo que nos chega como poeira de actos. Ontem, em 1856, Tolstoy teve uma enorme discuss�o com Turgenev. Os dois homens n�o gostavam por a� al�m um do outro, embora, como se dizia na �poca, se frequentarem. Tolstoy escreveu no seu Di�rio �Turgenev � muito aborrecido� . Em casa de Tolstoy , Turgenev dan�ou um can-can para os filhos do anfitri�o. �Triste can-can� escreveu Tolstoy. No campo de concentra��o de Bergen-Belsen, hoje, em 1945, Abel Herzberg dependurou o casaco num arm�rio para depois descobrir que lhe tinham roubado os bot�es. H� s�tios onde tudo � precioso.
12:19
(JPP)
![]() Um buraco perfurado numa rocha marciana. Como seria o som? N�s temos l� olhos, mas n�o temos ouvidos, e Marte tem uma atmosfera t�nue, mas existente. Logo, deve ouvir-se alguma coisa. Haver� eco? Haver� outros sons que ningu�m previu? Rugidos do interior, silvos do vento, rochas a ca�rem. Sons de alegria ou tristeza? De medo ou de curiosidade? E a broca? Que enorme estranheza deve ter sido...
09:26
(JPP)
Abro as portas matinais do Abrupto com este poema de Emily Dickinson: "Morning" -- means "Milking" -- to the Farmer -- Dawn -- to the Teneriffe -- Dice -- to the Maid -- Morning means just Risk -- to the Lover -- Just revelation -- to the Beloved -- Epicures -- date a Breakfast -- by it -- Brides -- an Apocalypse -- Worlds -- a Flood -- Faint-going Lives -- Their Lapse from Sighing -- Faith -- The Experiment of Our Lord E n�o � preciso nada mais. Bom dia!
01:07
(JPP)
Sem �ncora. Soltos, sem pouso, sem pensamento. Avi�es, barcos, carros. Ar, terra e mar, Marinhagem em cada porto. Chegar e partir, chegar a partir. Faces, de passagem. Quando � que ao judeu errante Deus perdoa n�o lhe ter dado �gua? 7.2.04
03:17
(JPP)
Ao fim de uma longa, longa viagem que a cada etapa mais longe me punha de casa, deixando-me em muitas outras, retorno. Em homenagem � F�nix Renascida, esta � fragilidade da vida Esse baixel nas praias derrotado Foi nas ondas Narciso presumido; Esse farol nos c�us escurecido Foi do monte libr�, gala do prado. Esse n�car em cinzas desatado Foi vistoso pav�o de Abril florido; Esse Estio em Ves�vios encendido Foi Z�firo suave, em doce agrado. Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel Sentem nos auges de um alento vago, Olha, cego mortal, e considera Que �s rosa, Primavera, Sol, baixel, Para ser cinza, eclipse, inc�ndio, estrago. (Francisco de Vasconcelos) * Bom dia, mesmo antes da bela aurora. 5.2.04
08:11
(JPP)
N�o sei se � poss�vel escrever melhor, cada palavra no s�tio perfeito, numa certeza de que h� beleza na terra (n�o sei bem para que olhos) e � poss�vel tudo, ou quase nada, "a much of a which of a wind". � por este lado e por mais nenhum. what if a much of a which of a wind gives the truth to summer's lie; bloodies with dizzying leaves the sun and yanks immortal stars awry? Blow king to beggar and queen to seem (blow friend to fiend: blow space to time) -when skies are hanged and oceans drowned, the single secret will still be man what if a keen of a lean wind flays screaming hills with sleet and snow: strangles valleys by ropes of things and stifles forests in white ago? Blow hope to terror; blow seeing to blind (blow pity to envy and soul to mind) -whose hearts are mountains, roots are trees, it's they shall cry hello to the spring what if a dawn of a doom of a dream bites this universe in two, peels forever out of his grave and sprinkles nowhere with me and you? Blow soon to never and never to twice (blow life to isn't: blow death towas) -all nothing's only our hugest home; the most who die, the more we live. (e.e.cummings) * Bom dia!
07:55
(JPP)
"Because the city is static while we are moving. The tear is proof of that. Because we go and beauty stays. Because we are headed for the future, while beauty is the eternal present. The tear is an attempt to remain, to stay behind, to merge with the city. But that's against the rules. The tear is a throwback, a tribute of the future to the past. Or else it is the result of subtracting the greater from the lesser: beauty from man. The same goes for love, because one's love, too, is greater than oneself." (Joseph Brodsky, Watermark, cortesia de Maria Teresa Goul�o) 4.2.04
22:34
(JPP)
Hoje s� se pode ver Veneza bem � noite, quando os turistas se retiraram para os seus hot�is da periferia, ou se foram embora nos seus autocarros. Um minuto s�, um minuto na noite junto da laguna, quando h� lua e tudo parece descansar. E as pedras de m�rmore picado para n�o se escorregar, que j� viram tudo, que j� foram pisadas por todos, descansam sob o peso apenas da humidade, e os sons antigos ainda se podem ouvir por breves instantes. Esse minuto, �s primeiras horas da madrugada, antes da bruma, vale uma vida para quem a queira assim oferecer.
21:52
(JPP)
Conta Paul Morand, que viveu em Veneza, que o Gazzetino da cidade publicava os nomes de todos os que ca�am � �gua. Escorregavam e ca�am. Byron, no meio de uma aventura amorosa, tomou um banho for�ado no dia 18 de Maio de 1819. A carta libertina de Byron em que ele conta como foi fazer de trit�o for�ado - "I flounced like a Carp, and went dripping like a Triton to my Sea-nymph" - pertence de pleno direito � s�rie das �sensibilidades antigas�. Byron est� ent�o a escrever o Don Juan.
19:45
(JPP)
![]() O que me agrada nestes textos dispersos n�o � aquilo que os tornou c�lebres: a descri��o da condi��o servil, as condi��es de vida nos campos russos. S�o as descri��es da natureza que aparecem nos interst�cios, a observa��o pr�xima de um mundo rural que j� n�o existe , vistos por olhos que j� n�o h�, porque j� n�o v�em o que Turgenev via. As �rvores, as folhas, o orvalho, os caminhos, os sons, a luz.
10:54
(JPP)
De onde estou � cedo, de onde me l�em � tarde. A que horas deixa de ser "early morning"? Mas, ainda assim, Light Breaks Where No Sun Shines Light breaks where no sun shines; Where no sea runs, the waters of the heart Push in their tides; And, broken ghosts with glowworms in their heads, The things of light File through the flesh where no flesh decks the bones. A candle in the thighs Warms youth and seed and burns the seeds of age; Where no seed stirs, The fruit of man unwrinkles in the stars, Bright as a fig; Where no wax is, the candle shows its hairs. Dawn breaks behind the eyes; From poles of skull and toe the windy blood Slides like a sea; Nor fenced, nor staked, the gushers of the sky Spout to the rod Divining in a smile the oil of tears. Night in the sockets rounds, Like some pitch moon, the limit of the globes; Day lights the bone; Where no cold is, the skinning gales unpin The winter's robes; The film of spring is hanging from the lids. Light breaks on secret lots, On tips of thought where thoughts smell in the rain; When logics die, The secret of the soil grows through the eye, And blood jumps in the sun; Above the waste allotments the dawn halts. (Dylan Thomas) 3.2.04
16:29
(JPP)
Trabalhando nos Cadernos de Camus, encontrei esta frase da Queda apropriada para os eventos recentes: "Observe os seus vizinhos, se calha de haver um falecimento no pr�dio. Dormiam na sua vida mon�tona e eis que, por exemplo, morre o porteiro. Despertam imediatamente, atarefam-se, enchem-se de compaix�o. Um morto no prelo, e o espect�culo come�a, finalmente. T�m necessidade de trag�dia, que � que o senhor quer?, � a sua pequena transcend�ncia, � o seu aperitivo."
13:40
(JPP)
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06:15
(JPP)
Manh� urbana, ruas de trabalho, "working girls". I know it all. Working Girls THE working girls in the morning are going to work-- long lines of them afoot amid the downtown stores and factories, thousands with little brick-shaped lunches wrapped in newspapers under their arms. Each morning as I move through this river of young- woman life I feel a wonder about where it is all going, so many with a peach bloom of young years on them and laughter of red lips and memories in their eyes of dances the night before and plays and walks. Green and gray streams run side by side in a river and so here are always the others, those who have been over the way, the women who know each one the end of life's gamble for her, the meaning and the clew, the how and the why of the dances and the arms that passed around their waists and the fingers that played in their hair. Faces go by written over: "I know it all, I know where the bloom and the laughter go and I have memories," and the feet of these move slower and they have wisdom where the others have beauty. So the green and the gray move in the early morning on the downtown streets. (Carl Sandburg) * Bom dia! Eu sei que ainda � cedo... 2.2.04
20:11
(JPP)
Estava convencido, e disse-o j� na sexta-feira passada, quando se gravou a Quadratura do C�rculo, que iriam ocorrer viol�ncias diversas nos jogos de futebol do fim-de-semana, consequ�ncia do ambiente de histeria colectiva incentivado pelo tratamento televisivo da morte do jogador h�ngaro. N�o � preciso ser nenhum adivinho para saber que a excita��o colectiva tem resultados. Est�o � vista. Acrescento a minha perplexidade perante a natural aceita��o por todos, autoridades e popula��o, de que um jogo de futebol seja tratado quase como uma opera��o militar, como aconteceu no Porto-Sporting. � suposto ser um espect�culo desportivo, de paz e amizade, n�o �?
15:44
(JPP)
![]() �Peut-�tre, fr�re Geoffroy, en voyant que j'ai d�crit les degr�s de l'orgueil, au lieu de ceux de l'humilit�, direz-vous que j'ai fait autre chose que ce que vous attendiez de moi et que je vous avais promis. A cela je r�pondrai que je ne puis vous enseigner que ce que j'ai appris et qu'il ne me semblait pas qu'il m'appart�nt de vous d�crire les degr�s ascendants, quand je sais beaucoup mieux descendre que monter. � Na sua cela, Bernardo est� agitado. Chegou ao fim do seu texto, mas n�o sabe como acab�-lo. Deve orar ou pedir a Deus um milagre salv�fico, ou descansar pelo dever cumprido de a�oitar os pecadores? Como � que se confrontam os pecadores que t�m a voz do pecado, que assumem a identidade do pecado, que t�m uma forma t�o pr�pria de pecado que este se lhes entranha no corpo todo, aqueles para quem pecar � um �orgulho�? Ele acredita pouco na sua reden��o, embora saiba que o tempo os tornar� amargos e desesperados. Todos os espelhos lhes mostrar�o o tempo, todos os rel�gios tocar�o cada vez mais alto. Todas as palavras soar�o a falso se repetidas. O in�quo repetir� tudo, repetir� mil vezes tudo, num esfor�o intenso de esquecer o que disse a Deus, o que prometeu a Deus, mas a l�ngua saber� cada vez mais a areia e ele sente as palavras a ca�rem de velhas. Uma maldi��o antiga o persegue: de cada vez que olha para uma �rvore, uma folha cai para recusar o seu olhar. Talvez o tempo os ensine, o passar dos dias, a diferen�a entre o conv�vio com as vozes �ligeiras� e a alegria pura dos Momentos. Mas L�cifer distribuir� as �guas do esquecimento com abund�ncia e as distrac��es s�o muitas. Bernardo escreve ent�o dois cap�tulos totalmente confusos. Percebe-se que ele quer rigor e impiedade, mas que a sombra da Virgem lhe pede caridade. Pede ora��es e desaconselha ora��es, revela a surpresa de Deus, actuando ao acaso e onde menos era previsto, salvando uns e poupando outros. Colecciona cita��es da B�blia sem grande nexo. A Virgem lembra-lhe que ele ainda tem um pequeno fio de ferro na m�o. Bernardo acaba ent�o o seu tratado, sem verdadeiro fim, mas com a convic��o que n�o falar� mais disso. Ponto. �En effet, si en allant � Rome vous rencontrez un homme qui en revient et que vous lui demandiez la route qui y m�ne, pourra-t-il vous en enseigner une meilleure que celle par laquelle il en vient? En vous disant par quels ch�teaux, quelles villas, quelles villes, quels fleuves et quelles montagnes il a pass�, il vous indique en m�me temps le chemin qu'il a parcouru et celui que vous devez suivre � votre tour, en sorte que vous devrez, en allant � Rome, passer par les m�mes endroits qu'il a travers�s pour en venir. Ainsi, peut-�tre, dans mes degr�s descendants trouverez-vous les degr�s ascendants que vous reconna�trez en les gravissant, beaucoup mieux dans votre coeur que dans mon �crit. � Assim seja.
10:58
(JPP)
Como se l� estivesse: aqui ![]() e aqui ![]() e aqui ![]() e aqui ![]() Todas as imagens s�o de h� uma hora.
08:31
(JPP)
![]() �Si celui qui en est arriv� l� n'est pas touch� de la gr�ce de Dieu (or ceux qui sont dans cet �tat en sont bien difficilement touch�s), de fa�on � sa soumettre en silence au jugement que tout le monde porte de lui, il ne tarde point � devenir effront� et impudent, et � tomber par la r�bellion, d'autant plus f�cheusement au dixi�me degr� de l'orgueil, qu'il y tombe d'une mani�re tout � fait d�sesp�r�e. Alors celui qui s'�tait content� dans son arrogance de m�priser ses fr�res en secret, se mettant en r�volte ouverte, m�prise son sup�rieur m�me.� A convic��o do pecado mostra-se ent�o em todo o esplendor. O orgulhoso j� n�o peca apenas, defende activamente a liberdade de pecar. Como dizem os Prov�rbios: �Quando o pecador caiu no fundo do abismo do pecado, ele despreza tudo�. Perdeu as refer�ncias, o norte, a pedra. Antes, tinha na sua vida uma barra de ferro que o atravessava, que lhe dava consist�ncia moral, que n�o o deixava afastar-se da vis�o divina. Pagava essa barra com as suas penit�ncias, mas tinha uma direc��o e uma paz. Os medos humanos dissipavam-se � volta da barra. Agora, o mundo � feito de gelatina, um gigantesco bordel atr�s do qual est� uma dan�a macabra. Tudo agora se resume �s pequenas trocas da vaidade, a exerc�cios de massagem do ego. O orgulhoso despreza agora o que o mantinha de p�. Conta a sua hist�ria a todos, e enaltece o valor da sua rebeli�o. Os dem�nios d�o vozes a todos para lhe responderem que sim, que grande valor tem a rebeli�o do �curioso�. Ele sente-se bem � mesa da confus�o das vozes, sem perceber em que coro j� canta. Entrou no �ltimo grau do orgulho: o h�bito de pecar. Bernardo escreve o julgamento, pr�ximo de fechar o seu tratado: "Mais lorsque, par un terrible jugement de Dieu, les premiers crimes ont �t� suivis de i'impunit�, on revient volontiers � ce qui a e procur� du plaisir et plus on y revient, plus on y trouve d'attrait. A mesure que la concupiscence se r�veille, la raison s'endort et les cha�nes de l'habitude se resserrent. Le malheureux est entra�n� dans l'ab�me du p�ch� et livr� � la tyrannie de ses vices; emport� par le torrent de ses d�sirs charnels, il oublie sa raison et la crainte de Dieu, et finit, l'insens�! par dire dans son coeur : � Il n'y a pas de Dieu (Psalm. XIII, 1)." (Em seguida, quase a conclus�o)
08:06
(JPP)
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08:03
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H� manh�s assim , em que se sa� assim da noite, invictus. Bernardo n�o gostaria. Out of the night that covers me, Black as the pit from pole to pole, I thank whatever gods may be For my unconquerable soul. In the fell clutch of circumstance I have not winced nor cried aloud. Under the bludgeonings of chance My head is bloody, but unbow'd. Beyond this place of wrath and tears Looms but the Horror of the shade, And yet the menace of the years Finds and shall find me unafraid. It matters not how strait the gate, How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate: I am the captain of my soul. (William Ernest Henley) * Bom dia!
01:22
(JPP)
Clouds Down the blue night the unending columns press In noiseless tumult, break and wave and flow, Now tread the far South, or lift rounds of snow Up to the white moon's hidden loveliness. Some pause in their grave wandering comradeless, And turn with profound gesture vague and slow, As who would pray good for the world, but know Their benediction empty as they bless. They say that the Dead die not, but remain Near to the rich heirs of their grief and mirth. I think they ride the calm mid-heaven, as these, In wise majestic melancholy train, And watch the moon, and the still-raging seas, And men, coming and going on the earth. (Rupert Brooke) 1.2.04
23:46
(JPP)
Ant�nio Vitorino � dos poucos pol�ticos portugueses que � entrevistado quase sem contradit�rio, mas sim de forma reverencial pelos jornalistas (parto do princ�pio de que Marcelo n�o d� entrevistas na TVI...). Ele pode expor o que quiser, controlar todos os temas e ouvir dos jornalistas elogios rasgados em plena entrevista. N�o � novo, j� � habitual, mas n�o deixa de ser interessante�
22:27
(JPP)
Muitos leitores me escreveram sobre a nota �Masturba��o da dor�, apoiando-a ou criticando-a. Se tivesse tido alguma possibilidade de publicar esses coment�rios imediatamente a seguir - n�o pude por falta de tempo - , t�-lo-ia feito. Agora parece-me excessivo voltar ao tema. No entanto, se algum dos leitores que me enviaram opini�es substantivas entender que o deva fazer, fa�a o favor de me informar. Essas opini�es revelariam a diversidade de posi��es dos leitores do Abrupto, acompanhando as linhas do incipiente debate nacional. Digo incipiente porque, se nos blogues a quest�o foi discutida, j� o foi menos nos outros media, em particular na pr�pria televis�o. Muitas vezes ca�mos no erro de pensar que, pelo facto de se discutir um assunto na blogosfera, o mesmo se passa l� fora. N�o � o caso.
22:09
(JPP)
Na noite, Bernardo mostrou aos anjos o que j� tinha escrito. Os anjos corrigiram uma frase: �Faz parte da sua infinita plasticidade [do orgulho] fazer de conta que sofria, que hesitava, quando j� tinha em si a direc��o do pecado.� N�o � a �direc��o do pecado�, � a convic��o do pecado. O pecado convence. O �curioso� j� fala com outra voz, j� n�o � dele o que diz. Dentro dele s� h� ecos, vozes, sussurros, amabilidades, conveni�ncias, usos, lixo da superficialidade, etiquetas da "ligeireza de esp�rito". J� tudo voa baixo. Os anjos � noite visitavam-no porque Bernardo era fiel. Ent�o corrigiu a frase e deu mais um passo no conhecimento do �curioso� que revela agora a sua face. E continou a escrever: "Quelle confusion pour l'orgueilleux, quand sa supercherie est d�couverte, la paix de son �me et sa gloire amoindrie, sans que sa faute soit effac�e pour cela? Il finit par �tre reconnu de tous et jug� par tous, et l�indignation est d'autant plus violente, alors qu'on d�couvre en m�me temps la fausset� de tout ce qu'on avait pens� d'abord de lui. "
12:53
(JPP)
![]() Para os interessados em biografias, na arte da biografia, nos m�todos da biografia: vale a pena lerem Michael Holroyd, Works on Paper. The Craft of Biography and Autobiography, Londres, Abacus, 2002. A ler, o ensaio sobre Katherine Mansfield, entre outros.
12:21
(JPP)
![]() Recome�ou. Encheu-se da crueldade de Deus, para al�m do cansa�o, da febre e da doen�a, e continuou a falar do orgulho. Bernardo sabia que o orgulho era , por assim dizer, �dial�ctico�. Faz parte da sua infinita plasticidade fazer de conta que sofria, que hesitava, quando j� tinha em si a direc��o do pecado. Escreveu: "Il y a des personnes qui, lorsqu'elles s�entendent reprocher des choses par trop manifestes, comprennent que, si elles entreprennent de se justifier, elles ne r�ussissent point � se faire croire, ont recours � un moyen plus subtil de se tirer d'affaire, et r�pondent par un aveu plein de fourberie de leur faute: � Il en est en effet, est-il �crit, qui s'humilient malicieusement et dont le fond du coeur est plein de tromperie (Eccli., XIX, 23). � Ils baissent les yeux, courbent la t�te et font briller, s'ils le peuvent, une ou deux larmes ; leur voix est �touff�e par les soupirs et leurs paroles sont entrecoup�es par les sanglots�
09:10
(JPP)
Hoje o poema escapa ao tema matinal, talvez porque a bruma est� mais densa e viver dentro de uma nuvem d� outros olhos. Hoje temos M�rio Benedetti, o mesmo que escreveu noutro poema esta confiss�o: me jode confesarlo porque lo cierto es que hoy en d�a pocos quieren ser tango la natural tendencia es a ser rumba o mambo o chachach� o merengue o bolero o tal vez casino e que, num sentido n�o muito distante, escreveu este: Windows 98 Antes del fax del modem y el e-mail la verg�enza era s�lo artesanal la mecha se encend�a con un f�sforo y uno escrib�a cartas como bulas antes los besos iban a tu boca hoy abedecen a una tecla send mi coraz�n se acurruca en su sofware y el mouse sale a buscar el disparate cuando me enamoraba de una venus mis sentimientos no eran inform�ticos pero ahora debo perdir permiso hasta para escribir con el news gothic te urjo amor que cambies de formato prefiero recibirte en times new roman m�s nada es comparable a aquel desnudo que era tu signo en tiempos de la remigton (M�rio Benedetti) * Bom dia!
� Jos� Pacheco Pereira
In�cio |