ABRUPTO

31.1.04
 


 


ORGULHO 7 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS

Bernardo est� cansado, tem febre, tem frio. Mas, no grau do orgulho sobre o qual est� a escrever, est�o as grandes verdades de Deus e da experi�ncia humana dos erros do �curioso�, do �culpado�. Bernardo sabe que n�o est� a escrever para ningu�m. Passados meia d�zia de s�culos, tempo irris�rio para a verdade, ningu�m sequer o vai entender. A sua pena paira no vazio, como a maldi��o que Jorge Lu�s Borges encontrou para Melanchton em �Um te�logo na Morte�:

Os anjos me disseram que, quando Melanchton morreu, lhe foi oferecida no outro mundo uma casa ilusoriamente igual �quela que possu�ra na Terra. (A quase todos os rec�m-chegados � eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que n�o morreram). Os objetos dom�sticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Quando Melanchton despertou nessa casa, reatou suas tarefas liter�rias como se n�o fosse um morto e escreveu durante alguns dias sobre a salva��o pela f�. Como era seu h�bito, n�o disse uma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram essa omiss�o e mandaram pessoas a interrog�-lo. Melanchton lhes falou: "Demonstrei de maneira irrefut�vel que a alma pode dispensar a caridade e que para entrar no c�u basta a f�". Dizia isso com soberba e n�o sabia que j� estava morto e que seu lugar n�o era o c�u. Quando os anjos ouviram essa afirmativa o abandonaram.

Em poucas semanas, os m�veis come�aram a se encantar at� se tornarem invis�veis, com exce��o da poltrona, da mesa, das folhas de papel e do tinteiro. Al�m disso, as paredes do aposento se mancharam de cal e o assoalho de um verniz amarelo. Sua pr�pria roupa j� estava muito mais ordin�ria. Continuava, entretanto, escrevendo, mas como persistia na nega��o da caridade, foi transferido para uma sala subterr�nea, onde estavam outros te�logos como ele. Ali ficou preso alguns dias e come�ou a duvidar de sua tese e lhe deram permiss�o de voltar. A roupa que vestia era de couro cru, mas procurou imaginar que a que tivera antes fora uma simples alucina��o e continuou elevando a f� e denegrindo a caridade. Uma tarde, sentiu frio. Ent�o percorreu a casa e comprovou que as demais pe�as j� n�o correspondiam �s de sua casa na Terra. Uma delas estava cheia de instrumentos desconhecidos; outra estava t�o reduzida que era imposs�vel entrar nela; outra n�o tinha sofrido modifica��o, mas suas janelas e portas davam para grandes dunas. A do fundo estava cheia de pessoas que o adoravam e lhe repetiam que nenhum te�logo era t�o s�bio quanto ele. Essa adora��o agradou-o, mas como uma das pessoas n�o tinha rosto e outras pareciam mortas, acabou se aborrecendo e desconfiando delas. Determinou-se ent�o a escrever um elogio da caridade, mas as p�ginas que escrevia hoje apareciam apagadas amanh�. Isso aconteceu porque eram feitas sem convic��o.

Recebia muitas visitas de gente morta recentemente, mas sentia vergonha de mostrar-se num lugar t�o s�rdido. Para fazer-lhes crer que estava no c�u, entrou em acordo com um feiticeiro dos que estavam na pe�a dos fundos, e este os enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Era s� as visitas se retirarem, reapareciam a pobreza e a cal; �s vezes isso acontecia um pouco antes.

As �ltimas not�cias de Melanchton dizem que o m�gico e um dos homens sem rosto o levaram at� as dunas e que agora ele � como que um criado dos dem�nios.


Mas Bernardo tem uma miss�o, como Melanchton. Agora defronta um dos mais int�mos sinais do pecado do orgulho: as �desculpas�, a que o Profeta chamava as �palavras da mal�cia�.
 


HOJE , NOT�CIAS DE BLOOMSBURY

Hoje, 31 de Janeiro de 1932, Harold Nicholson v� um rato morto na �lily-pond� (como traduzir?). Escreve no seu di�rio : �I feel like that mouse � static, obese and decaying.�Vita Sackville-West, a mulher de Nicholson, n�o se impressiona, discute as finan�as caseiras. Mas Nicholson est� mal disposto. �Arrange my books sadly. Weigh myself sadly. Have put on eight pounds. Feel ashamed of myself, my attainements, and my character. Am I a serious person at all?�. Vita quer que ele escreva, podia ganhar 2000 libras num romance. Nicholson quer l� saber. N�o � um dia brilhante em Bloomsbury.
 


O COLECCIONADOR / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS

 


ORGULHO 6 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS

Presun��o. A presun��o � o �ltimo grau do orgulho antes de entrarmos no pecado, nos graus do pecado. Bernardo sabe que agora j� n�o � apenas a ilus�o do �curioso�, a sua agita��o, o seu progressivo autismo, a perda de exig�ncia, a facilidade c�moda, o conforto psicol�gico que est�o em causa. Agora trata-se de escolhas fora da gra�a divina, agora trata-se de cair numa vertente inclinada sem retorno.

Bernardo pergunta-se: com que m�o escrevo? A que pune ou a que esquece? A do fogo ou a da �gua? Bernardo olha para a neve l� fora. Na primeira frase est� a palavra �culpado�, porque Bernardo preza a severidade, uma alta exig�ncia consigo pr�prio, detesta as flutua��es do humor. (N�o � de sensibilidades antigas que falamos?) O �culpado� continua a justificar-se, agora no patamar de se perder :

Je n'ai point fait cela; ou bien il dit: Je l'ai fait il est vrai, mais j'ai bien fait, ou si j'ai eu tort de le faire, la faute n'est pas grande, d'autant plus que je ne l'ai pas fait avec mauvaise intention.

Palavras, palavras servem para tudo � pensa o monge. Bernardo fora poeta na sua juventude, agora j� n�o �. Sabe bem como h� palavras para justificar tudo (como as minhas? Hesita). E continua:

Si, comme Adam et �ve, il est convaincu de l'avoir fait, il s'efforce d'en rejeter la faute sur un autre qui l'a conseill�. Or, comment celui qui entreprend avec cette audace de justifier les fautes les plus manifestes, pourra-t-il jamais aller d�couvrir avec humilit�, � son abb�; les mauvaises pens�es qui se glissent secr�tement dans son coeur?
 


EARLY MORNING BLOGS 127

Fragmento de um dos grandes poemas do s�culo XX, Zone, de Apollinaire, esta �rua industrial�, para os meus momentos urbanos matinais:

J'ai vu ce matin une jolie rue dont j'ai oubli� le nom
Neuve et propre du soleil elle �tait le clairon
Les directeurs les ouvriers et les belles st�no-dactylographes
Du lundi matin au samedi soir quatre fois par jour y passent
Le matin par trois fois la sir�ne y g�mit
Une cloche rageuse y aboie vers midi
Les inscriptions des enseignes et des murailles
Les plaques les avis � la fa�on des perroquets criaillent
J'aime la gr�ce de cette rue industrielle
Situ�e � Paris entre la rue Aumont-Thi�ville et l'avenue des Ternes


*

Bom dia, les belles st�no-dactylographes!


30.1.04
 


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: ESP�RITO E OPORTUNIDADE A TRABALHAR



As duas sondas come�am a fornecer elementos sem precedentes na explora��o espacial: primeira an�lise microsc�pica de uma rocha num planeta que n�o a Terra (Spirit), primeira an�lise do espectro de uma rocha num planeta que n�o a Terra (Spirit), e primeiro modelo a tr�s dimens�es feito no interior de uma cratera (Opportunity). Est� tudo aqui.

 



29.1.04
 


ENCONTRO

com v�timas do terrorismo. Corpos estragados, sem pernas. Cicatrizes na cara. L�bios reconstru�dos. Apertar uma m�o que quase n�o tem ossos, com os dedos em posi��es imposs�veis. Como se faz? Que press�o se usa? Em que posi��o coloco os meus dedos? N�o h� nada como ver. Ver bem. Sentir. Apertar a m�o.
 


ORGULHO 5 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS

A jact�ncia � descrita por Bernardo como uma excita��o permanente, uma vontade de se mostrar, uma permanente publicidade de si mesmo. O "curioso", preso pelo orgulho, procura intensamente interlocutores, procura conversas, procura pol�micas. O "curioso" moderno podia telefonar muito ou ter um blogue:

"Il a faim et soif de gens qui l'entendent, � qui il d�bite toutes ses vanit�s; devant qui il r�pande toutes ses pens�es et � qui il dise ce qu'il est et ce qu'il vaut. L'occasion de parler lui est-elle offerte, si la conversation roule sur les lettres, on l'entend citer les anciens et les modernes, les jugements se succ�dent sur ses l�vres, et les expressions ampoul�es r�sonnent. "

O monge mais grave observa com humor - Bernardo trai-se aqui - o "rio de vaidades", a torrente de "gra�as", o "fluxo de palavras" que revela a jact�ncia. Observa o "curioso" a so�obrar no grau seguinte do orgulho : a singularidade. Acha-se �nico, acha-se predestinado, acha que o que lhe acontece � singular. Passa de imediato � arrog�ncia.

O "curioso" arrogante convence-se: "ele acredita em tudo o que lhe dizem, louva tudo o que faz e torna-se desatento sobre o caminho que segue". Perdeu o seu verdadeiro caminho, segue o caminho dos outros, mas n�o o sabe. Desde que sinta que agradou a algu�m, distrai-se de procurar em si o caminho de Deus. Torna-se suscept�vel � lisonja. Caminha para a presun��o.

( Em que pensa Bernardo na sua cela? Pensa em Abelardo, o advers�rio, pensa nos monges, o ex�rcito de Deus, pensa nos homens pelos quais n�o tem caridade. Ou melhor , pelos quais n�o come�a por ter caridade. No fim do Tratado rezar� por eles.)
 


EARLY MORNING BLOGS 126

H� manh�s assim. De Cesare Pavese (cortesia de Maria Teresa Goul�o):

Pensieri di Deola

Deola passa il mattino seduta al caff�
e nessuno Ia guarda. A quest'ora in citt� corron tutti
sotto il sole ancor fresco dell'alba. Non cerca nessuno
neanche Deola, ma fuma pacata e respira il mattino.
Fin che � stata in pensione, ha dovuto dormire a quest'ora
per rifarsi le forze: la stuoia sul letto
la sporcavano con le scarpacce soldati e operai,
i clienti che fiaccan la schiena. Ma, sole, � diverso:
si pu� fare un lavoro pi� fine, con poca fatica.
Il signore di ieri, svegliandola presto,
l'ha baciata e condotta (mi fermerei, cara,
a Torino con te, se potessi) con s� alla stazione
a augurargli huon viaggio.

E' intontita ma fresca stavolta,
e le piace esser lihera, Deola, e bere il suo latte
e mangiare brioches. Stamattina � una mezza signora
e, se guarda i passanti, fa solo per non annoiarsi.
A quesr'ora in pensione si dorme e c'� puzzo di chiuso
- la padrona va a spasso - � da stupide stare l� dentro.
Per girare Ia sera i locali, ci vuole presenza
e in pensione, a trent'anni, quel p� che ne resta, si � perso.

Deola siede mostrando il profilo a uno specchio
e si guarda nel fresco del vetro. Un po' pallida in faccia:
non � il fumo che stagni. Corruga le ciglia.
Ci vorrebbe la voglia che aveva Mar�, per durare
in pensione (perch�, cara donna, gli uomini
vengon qui per cavarsi capricci che non glieli toglie
n� la moglie n� l'innamorata) e Mar� lavorava
instancabile, piena di brio e godeva salute.
I passanti davanti al caff� non distraggono Deola
che lavora soltanto la sera, con lente conquiste
nella musica del suo locale. Gettando le occhiate
a un cliente o cercandogli il piede, le piaccion le orchestre
che la fanno parere un'attrice alla scena d'amore
con un giovane ricco. Le basta un cliente
ogni sera e ha da vivere. (Forse il signore di ieri
mi portava davvero con s�). Stare sola, se vuole,
al mattino, e sedere al caff�. Non cercare nessuno.


(Poesie, Einaudi, Torino 1961)
 


VER A NOITE

Neve, neve, neve. Diferente da chuva, a neve com o vento sobe, contra a gravidade. Contra a gravidade.

28.1.04
 


ORGULHO 4

Ele mergulhou a m�o na neve, para a limpar do contacto com o impuro, e continuou. Ele, servo de for�as terr�veis, ele, a voz da obedi�ncia, ele, o inclemente, ele. Prossigamos. Sigamos a ordem. A jact�ncia.
 


ORGULHO 3 / NOTAS SOBRE AS FORMAS DE SENSIBILIDADE ANTIGAS

Os textos de Bernardo sobre o segundo e o terceiro graus do orgulho s�o muito claros na descri��o da natureza humana do orgulhoso, preso na "ligeireza do esp�rito " e na "alegria imbecil". Escrevendo h� mil anos, o nosso monge sabe do que fala.

O "curioso", dominado pela "mobilidade dos seus olhos", come�a ent�o a olhar para cima e para baixo, num momento de contradi��o que em breve abandonar�:

d'un c�t� il s�che mis�rablement de jalousie et de l'autre il sourit dans son orgueil � de pu�rils sentiments de grandeur; vain ici, mauvais l�, il est partout orgueilleux ; car ce n'est que par amour de sa propre excellence qu'il ne peut voir sans douleur qu'il a des sup�rieurs, de m�me qu'il ne peut songer qu'il a des inf�rieurs sans en ressentir de la joie. �

Fala ent�o por todo o lado , com "palavras t�o abundantes quanto v�s, tanto cheias de risos como de l�grimas, mas sempre insensatas". Mas este � um momento de transi��o , porque o olhar do �curioso� sofre uma interessante muta��o : com o tempo deixa de olhar para cima e passa apenas a olhar para baixo.

Il restreint donc sa curiosit�, du c�t� o� elle e ne peut lui montrer que son propre n�ant et l'excellence d'autrui, pour la reporter; tout enti�re dans le sens oppos�, afin de noter avec soin en quoi il lui semble qu'il excelle lui-m�me sur les autres et de ne rien perdre de sa joie en ne voyant plus rien de ce qui l'afflige. De cette mani�re, son coeur qui avait commenc� par �tre tour � tour en proie � la joie et � la tristesse, commence � ne plus �prouver qu'une sotte joie.

Bernardo compara o orgulhoso neste estado a um bal�o cheio de ar, cheio do �vento da vaidade�, explodindo de actividade:

� Il y a de la bouffonnerie dans ses mani�res, l'enjouement brille sur son visage et la vanit� �clate dans toute sa d�marche; il plaisante volontiers, volontiers aussi il s'abandonne au rire ; cela se con�oit, car en m�me temps qu'il a effac� de sa m�moire le souvenir de tout ce qu'il y a en lui de m�prisable et de triste, il a group� sous les yeux de son �me tout le bien qu'il se conna�t ou qu'il se suppose, attendu qu'il ne pense que ce qu'il lui pla�t et se met peu en peine du reste, s'il le peut; enfin il ne peut plus ni retenir ses rires ni dissimuler sa sotte joie. �

Abre-se o caminho � jact�ncia, o grau (o degrau) seguinte do orgulho.

 


NEVE

Neve, neve a perder de vista. Finalmente. Camus dizia que o vento era a "coisa mais limpa do mundo". A neve tamb�m. Coisa lustral, primeira, de gente dura e "limpa".

27.1.04
 


PITON DE LA FOURNAISE HOJE






De regresso aos vulc�es. Acabou a erup��o do Piton de la Fournaise do fim do ano passado. Foi pequena. Come�ou agora outra.

 


SOBRE A "A MINHA R�SSIA"

"Se percebi bem, das diferentes crueldades do passado vividas pela popula��o russa, a aten��o priorit�ria deveria ser dada � da "grande guerra patri�tica", pelo argumento de que est� naturalmente mais presente o impacto emocional (nomeadamente nas fam�lias das v�timas) do que em outros momentos de grande dor.

Das minhas leituras e reflex�es, e dos dois anos e tal que levo de viver em Moscovo, conversas com russos inclu�das, confesso que continuo a ter o mesmo pr�jug� com que aqui cheguei: enquanto a R�ssia n�o fizer o "trabalho de casa" do que foi realmente a Revolu��o, a conquista e manuten��o no poder dos bolcheviques, a Guerra Civil, a pervers�o de valores que se instalou durante o Stalinismo (como a resigna��o � cobardia, como alertou Bulgakhov) - n�o haver� futuro democr�tico como o entendemos. A an�lise (ou auto-an�lise pelos russos) de outros per�odos-chave (como a invas�o do territ�rio nacional russo pelos alem�es ou a Guerra Fria) parece-me, perdoe-me a franqueza, uma distrac��o, como aqueles devaneios que desviam o estudante da obrigac�o mais chata de estudar a mat�ria principal.

Muita e boa historiografia concorda que a Grande Guerra Patri�tica foi um enorme bal�o de oxig�nio para o regime stalinista, que lhe deu uma legitimidade (imerecida) por ter desempenhado a fun��o de salvaguardar a independencia da Na��o. Como um evento brilhante que apagasse as mazelas anteriores que ningu�m quer revisitar.

Assim como se apelou, muito justamente, ao fim do processo de "denial" em Fran�a relativamente � repress�o na Arg�lia, ao "denial" americano em rela��o ao Vietname, ou at� ao nosso em rela��o � experi�ncia colonial, h� que ver a import�ncia de superar o imenso "denial" russo em rela��o aqueles momentos anteriores de dor, mesmo se desses est� j� quase tudo morto."


(Jorge Torres Pereira)
 


 


MASTURBA��O DA DOR 2 (Actualizado)

"H� quem se enoje, sim.
S� espero que receba dezenas de milhar de respostas como a minha e delas d� nota no ABRUPTO, para reconforto de quem faz da dec�ncia o ideal poss�vel desta vida. T�o assediada pelas "estrat�gias velhacas" de que falava Camilo (a prop�sito de gatos, mas n�o interessa, o epigrama assenta como luva ao comportamento, hoje generalizado, dos nossos concidad�os)."


(J V Mascarenhas)


"As reac��es em termos de coment�rios, oscilaram entre o insultuoso - "Quem diria: a flor mais sens�vel da blogosfera a dar uma de dur�o, que nem quer saber. �s obtuso, est�pido, bruto e, ainda por cima, finges que n�o �s. Os meus parab�ns, deves ter feito o pleno" - o indignado - "Se for estupidez ficar comovido com a morte, em directo, de um homem, ent�o eu sou muito est�pido. Como fui est�pido no 11 de Setembro de 2001. Uma morte � triste. Uma morte em directo � comovente. Lamento que n�o seja capaz de o sentir! Lamento por si" - o do espectador empatizante - "�s vezes s�o acontecimentos como este que no abanam e nos fazem perceber que nos andamos a preocupar com coisas que n�o valem a pena e a� voltamos a casa de damos um abra�o especial a quem amamos porque fomos abanados" - e o apoiante - "Nunca pensei dizer isto, mas concordo inteiramente contigo. S� a vida em directo � percept�vel??! E o resto? Nunca morreu ningu�m antes disto? Mas devemos ser opini�o isolada na blogoesfera"

Poucos ficam indiferentes. � quase como se o h�ngaro fosse a nossa Princesa Diana.

E pergunto-me: e se fosse o Figo ou o Nuno Gomes? Teriam direito ao mesmo tipo de emo��o caso se tratasse da morte em combate de um dos nossos GNR's no Iraque?

Agora que � um caso pass�vel de sofrer um bom estudo sociol�gico, �. Lembro-me que o que me deixou mais perto deste estado catat�nico em que vejo as maior parte dos meus concidad�os, alimentados que s�o pela verdadeira shark frenzy dos OCS, numa serpente ourobouros de sentimentos exacerbados, foi assistir � explos�o da Challenger - fiquei de boca aberta, descrente, frente ao televisor. E n�o sei dizer o porqu� desta diferen�a; s� posso invocar o facto de o futebol me ser perfeitamente indiferente."


(Alexandre Monteiro)


"O problema da nossa comunica��o social vem sempre depois�

Assisti a um realizador da SportTV que se recusou durante essa perturbadora emiss�o a fazer um grande plano do jogador que lutava pela vida.
Ouvi os locutores da R�dio (TSF) sem conseguirem racionalizar tudo a que assistiam.
Vi o ar transtornado do jornalista da TVI e do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa quando deram a not�cia durante o habitual coment�rio.
Ouvi os rep�rteres de pista (R�dio e TV) com imensa dificuldade em descrever tudo que se passava.
Penso que no meio desta atmosfera emotiva se um de n�s pensar, sentir que a ambul�ncia demorou mais um minuto daquilo que poderia demorar, que faltava aparentemente um aparelho qualquer, n�o ser� natural um momento de interroga��o de indigna��o, mais ligada ao desespero do que � raz�o?
Nada disso � racional, poder� ser extremamente injusto, mas nada tem haver com o que li algures na blogesfera e descrevia a atitude dos jornalistas como; �avidamente procurada num eventual bode expiat�rio que daria alimento aos abutres por muitos e largos dias.� Durante aqueles breves, mas eternos momentos n�o acredito na exist�ncia de qualquer tipo de �ra�a de abutres�.
O problema vem depois.
Quando a mesma imagem (uma imagem de morte) � repetida centenas de vezes. Minuto ap�s minuto, hora ap�s hora, dia ap�s dia, at� deixar de nos chocar/emocionar e deixar de �vender�.
Ser� que ningu�m nas nossas televis�es se questiona?"


(Rui M.)


"Porqu� polemizar at� na morte ? Bastava um �at� sempre Feh�r � em vez do post com o infeliz titulo que escolheu ."

(Jorge Bento)
 


ORGULHO 2

Antes de entrar na �ligeireza do esp�rito�, leia-se este fabuloso texto em que Bernardo se dirige a L�cifer, tratando-o por tu, e como o Anjo perdido, com uma familiaridade sem sombra de medo. Para Bernardo, o dem�nio parece ser ainda um deles, irremediavelmente perdido pelo orgulho, mas feito da mat�ria dos anjos. Usa os tr�s nomes para o designar: o que traz a luz, o que traz a noite, o que traz a morte.

O toi qui te levais le matin, Lucifer, ou plut�t Noctifer et m�me Mortifer, jadis tu prenais ton essor de l'Orient au Midi, et voil� que, changeant de direction, je te vois tendre vers l'Aquilon! Mais plus ton vol est rapide pour t'�lever, plus je te vois tomber vite vers le Couchant. je voudrais bien pourtant, � ange curieux, examiner moi-m�me de plus pr�s la pens�e intime de ta curiosit� : �J'�l�verai, dis-tu, mon tr�ne � l'Aquilon (Isa., XIV, 13). � Il ne peut �tre question dans ta bouche d'un Aquilon ni d'un tr�ne mat�riels, puisque tu es un pur esprit; � l'Aquilon � pourrait donc bien signifier les futurs r�prouv�s et � ce tr�ne, �le pouvoir qui t'est accord� sur eux. Plus ta science te rapproche de la prescience de Dieu, en comparaison du reste des anges, plus aussi tu distingues avec perspicacit� ceux qui ne re�oivent pas un rayon de la sagesse et ne se font point remarquer par la ferveur de l'esprit. Les trouvant vides, tu �tablis en eux ton empire, tu les remplis de la lumi�re de ton astuce, tu les enflammes des ardeurs de ta malice et, de m�me que le Tr�s-Haut se trouve par sa sagesse et sa bont� � la t�te de tous les fils de l'ob�issance, ainsi tu te trouves � la t�te de tous les fils de l'orgueil; tu es leur roi, tu les gouvernes par ton astucieuse perversit� et par ta perverse fourberie, et voil� comment tu pr�tends ressembler � Dieu. �

Encontrando-os vazios, tu estabeleceste neles o teu imp�rio�, tu �est�s � frente de todos os filhos do orgulho� e leva-los para a condena��o. Como o orgulho � uma forma de cegueira, dominados pela falsa seguran�a, os homens esquecem-se que L�cifer n�o det�m os �fios� �ltimos do poder, os �fios da obedi�ncia�. L�cifer n�o foi capaz de prever a sua queda. A sua surpresa � o acto do poder de Deus, a puni��o do orgulho, a mais humana das puni��es

Mais je me demande si tu as pr�vu ta chute en pr�sence de Dieu aussi bien que tu avais pr�vu ta principaut� sous ses yeux? Si tu l'as pr�vue, quelle ne fut point ta folie de vouloir dominer au prix de semblables malheurs et d'aimer mieux r�gner � des conditions si mis�rables que de servir dans la f�licit�? Ne valait-il pas mieux pour toi participer � ces plaies lumineuses que d'�tre le prince des t�n�bres? Mais j'aime mieux croire que tu n'as rien pr�vu, soit, comme je l'ai dit plus haut, que ne songeant qu'� la bont� de Dieu, tu te sois dit: Il ne me punira point, et que cette pens�e impie t'ait port� � l'irriter ou, qu'� la vue du premier rang � occuper, la poutre de l'orgueil se soit tout � coup tellement accrue dans ton oeil qu'elle t'ait emp�ch� de voir le pr�cipice.�

Em que teria pensado L�cifer enquanto ca�a? Reproduziria a sua soberba, explicando-se, justificando tudo pela inevitabilidade das coisas, pela fraqueza de si? Ou teria percebido? Bernardo n�o responde; Milton f�-lo mais tarde, de outra maneira.
 


WHERE WHEELS HAD WORN THE PLACE

 


CADERNOS DE CAMUS 11

Novos textos publicados.
O que escrevi ontem em "Dois Caminhos" n�o significa que v� abandonar os Cadernos de Camus. Enquanto n�o existir uma equipa que tome conta deles, e j� h� v�rios volunt�rios, garanto a sua publica��o com as contribui��es enviadas.
 


EARLY MORNING BLOGS 125

Quando as manh�s s�o as mesmas e trazem consigo o benef�cio dos gestos de sempre, os poetas ingleses contam-nas com forte dose de secura atenta. Hoje h� um poema de Jonathan Swift, meio s�rdido, meio feito do habitual, mas o tom n�o � t�o diferente como pode parecer de um poema de Eliot que aqui se publicou.

A Description of the Morning

Now hardly here and there a hackney-coach
Appearing, show'd the ruddy morn's approach.
Now Betty from her master's bed had flown,
And softly stole to discompose her own.
The slip-shod 'prentice from his master's door
Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor.
Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs,
Prepar'd to scrub the entry and the stairs.
The youth with broomy stumps began to trace
The kennel-edge, where wheels had worn the place.
The small-coal man was heard with cadence deep;
Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep."
Duns at his lordship's gate began to meet;
And brickdust Moll had scream'd through half a street.
The turnkey now his flock returning sees,
Duly let out a-nights to steal for fees.
The watchful bailiffs take their silent stands;
And schoolboys lag with satchels in their hands.


(Swift)

*

Bom dia � Betty e � Moll!


26.1.04
 


MASTURBA��O DA DOR

Ser� que ainda h� algu�m saud�vel a quem enoje esta gigantesca encena��o de masturba��o da dor, em que fora de qualquer respeito, equil�brio, genu�na e recatada tristeza, se entrega o pa�s sob o comando do espect�culo televisivo?

H�, de certeza. Com vontade de fugir desta insuport�vel mediocridade. Desta falta de respeito pelos mortos. Desta falta de dignidade. Desta falta de ar.
 


TRI�NGULO AMOROSO

Dizia-se antigamente que o tri�ngulo amoroso perfeito era entre a Kolkoziana, o oper�rio e o tractor. A minha vers�o moderna � entre mim, a sonda Spirit e a sonda Oportunity. Enquanto durar, este � o s�tio que mais visito para ver os meus dois outros lados.
 


CADERNOS DE CAMUS 10

Publicada a correspond�ncia Camus - Barthes de 1955.
 


ORGULHO 1

Continuando. O melhor texto que conhe�o sobre o orgulho � de Bernardo de Clairvaux. � um texto severo , como se podia esperar, impregnado de uma disciplina �ltima face ao divino, mas, em cada linha , um retrato inultrapass�vel dum sentimento que , se pensarmos um pouco, � estranho. Se o virmos do lado prometaico, como os rom�nticos o viam, ele � o fundamento da humanidade: sem orgulho o homem n�o rouba o fogo divino. Mas essa forma de orgulho n�o � a mais interessante.

Bernardo percebe essa estranheza, mas v�-a com uma sensibilidade diferente. O orgulho n�o � para ele um sentimento evidente nos homens, �, num certo sentido, um sentimento puramente diab�lico. Como nasce o orgulho? Na parte II do Tratado dos Doze Graus do Orgulho (utilizo a vers�o francesa das obras de Bernardo que se encontra aqui ) ele come�a onde menos se esperava, mas acertando completamente. Come�a na �curiosidade� , na �curiosidade� como �agita��o do corpo�:

"Le premier, degr� de l'orgueil est la curiosit�. Vous la reconna�trez � ces signes. Si vous voyez un moine dont jusqu'alors vous �tiez parfaitement s�r, commencer, partout o� il se trouve, debout, en marche ou assis, � tourner les yeux de c�t� et d'autre, � lever la t�te et � avoir s l'oreille au guet, tenez pour certain que ces changements ext�rieurs sont le signe d'un changement int�rieur ; car � l'homme qui se pervertit, fait des signes des yeux, frappe du pied et parle avec les doigts (Prov., VI, 12); � cette agitation inaccoutum�e du corps est l'indice d�une maladie de l'�me qui d�bute et qui la rend moins circonspecte, insouciante de ce qui la concerne et curieuse, au contraire, de ce qui a rapport aux autres. "

A que se deve esta desaten��o? Aos sentidos, � distrac��o dos sentidos, � desaten��o de si, � perda do �cora��o� por via dessas �duas aberturas�, os olhos e as orelhas. Eva e L�cifer foram curiosos e perderam-se por isso.

Bernardo procura um espelho capaz para essas �duas aberturas�, encontra-o na terra

"O� vas-tu donc, � curieux, quand tu sors de toi et, pendant ce temps-l�, � quel gardien te confies-tu? D'ailleurs comment oses-tu bien lever les yeux au ciel contre lequel tu as p�ch� ? Regarde la terre pour apprendre � te conna�tre; elle te remettra en face de toi, car tu n'es que de la terre et tu retourneras � la terre."

O que ele diz � : antes de te distra�res no mal, antes de cederes ao orgulho de olhar para cima, confronta-te com a tua mortalidade, porque � mais verdadeira. Mas, se continuares �curioso�, chegar�s ao �segundo grau� do orgulho : a �ligeireza de esp�rito�.

(Continua)
 


DOIS CAMINHOS

Nestes dias de dois caminhos, �s vezes penso que devia deixar Camus a outrem. Gosto de Camus porque escreve sobre a culpa sem culpa, contrariamente a quase tudo que se faz e diz hoje, que constru�mos um mundo impregnado pela culpa. (O Mystic River, para usar um exemplo contempor�neo, retrata isso mesmo, um mundo mergulhado em culpa, no que n�o se fez e devia fazer, no que nos aconteceu e a culpa � nossa, na culpa dos outros que tamb�m � nossa, como se um pecado universal de omiss�o fizesse parte da comunidade dos homens, ou o pecado original nos conduzisse a um mundo sem salva��o. O nosso destino � sentir culpa. Muito judeu, muito cat�lico-americano, muito americano p�s-guerra civil, muito Nova Iorquino das classes altas, muito Woody Allen, sem o humor e sem a m�e judia.).

Camus � demasiado dos nossos dias. O seu absurdo � quotidiano, est� tamb�m inscrito no modo como se v� tudo hoje. A descren�a preparou o mundo para a �exist�ncia�, para esse mundo angustiado da permanente medida com o que nos falta. De novo, Camus faz a diferen�a com o culto da alegria, com uma sensibilidade que quase � nietzschiana sem a confian�a dos golpes de martelo de Zaratustra. Mas tudo medido, talvez me deva voltar para outro lado.

A mim interessam-me as formas de sensibilidade arcaicas, alheias, antigas, n�o este mundo pegajoso da culpa, ou o ar cinzento do absurdo. Devia dedicar-me a outros escritos que nos s�o t�o alheios como Plut�o. Como, por exemplo, os desse homem t�o terr�vel como Bernardo de Clairvaux, S. Bernardo para os crist�os. Era sobre ele que devia abrir um blogue.
 


TWO ROADS DIVERGED

 


EARLY MORNING BLOGS 124

H� dias, h� manh�s, de dois caminhos. Como em Robert Frost, h� um que n�o se segue. Prefere-se sempre o Holzwege.

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


(Robert Frost)

 


CADERNOS DE CAMUS 9

Novos textos publicados.

25.1.04
 


A MINHA R�SSIA 2

Feita por Ilya Repin.









(Texto em breve)
 


HOJE, EM 1851,

Le�o Tolstoy foi a uma festa e perdeu a cabe�a � apaixonou-se �ou imaginou� que se apaixonara. A cabe�a n�o devia de facto estar muito boa, porque tamb�m comprou um cavalo, �que n�o precisava de todo�.
 


CADERNOS DE CAMUS 8

Il les ex�cutait de sa propre main : �II faut, disait-il, payer de sa personne.�

(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


CADERNOS DE CAMUS 7

Pour rester un homme dans le monde d'aujourd'hui, il ne faut pas seulement une �nergie sans d�faillance et une tension ininterrompue, il faut encore un peu de chance.

(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


CADERNOS DE CAMUS 6

Novas notas publicadas.
 


GRANDE "OPORTUNIDADE"!



Grande alegria!
 


THE TIDE RISES, THE TIDE FALLS

 


PIDES ALFARRABISTAS

"H� dias, em conversa com um antigo colega de curso, este contou-me uma hist�ria que lhe foi contada pelo professor Jos� Morgado (um excelente professor, de quem fui aluno em cinco cadeiras) que imediatamente me fez lembrar o seu texto �PORTUGAL NO SEU MELHOR � OS PIDES FILATELISTAS�. Por diversas vezes, agentes da PIDE que fizeram rusgas em casa do professor Morgado roubaram-lhe livros (e real�o que estou a falar realmente de roubos e n�o de apreens�es) que depois venderam a livrarias. Por mais que uma vez o professor Morgado teve que fazer uma ronda pelas livrarias para os recuperar, pagando-os, naturalmente. Chegou a haver livros que teve que comprar por tr�s vezes: uma em condi��es normais e duas voltando a compr�-los a livreiros."

(Jos� Carlos Santos)
 


O PS J� TEM CANDIDATO PRESIDENCIAL

Nos tempos mais recentes, � dif�cil ver iniciativa mais est�pida do que a do PS, ao encher Lisboa de cartazes atacando Santana Lopes nominalmente, dando-lhe o relevo pol�tico e a visibilidade que ele (mais que tudo) pretende. Os cartazes s�o in�cuos como ataque pol�tico. O PS devia compreender que, num munic�pio, nunca se faz oposi��o eficaz c� fora se n�o se faz l� dentro. E l� dentro a teia de interesses paralisa a oposi��o municipal socialista, que at� agora n�o se ouviu. O advogado que suscitou as quest�es do t�nel criou mais inc�modo do que o PS todo junto. Mas causou-o tamb�m ao PS porque revelou a enorme ambiguidade do seu discurso de oposi��o que, em tudo o que � relevante, balbucia ao lado.
 


TORTURAS DA PIDE

Num artigo de hoje do P�blico, S�o Jos� Almeida escreve o seguinte sobre as torturas utilizadas pela PIDE:

Os m�todos [de tortura] usados passavam, por exemplo, por queimar os presos com cigarros. Era tamb�m usual interrogar os presos despidos, sobretudo quando se tratava de mulheres.�

Nenhuma destas coisas � verdade, a n�o ser excepcionalmente. A PIDE torturava e torturava por sistema, n�o � isso que est� em causa. Mas n�o utilizava queimaduras que deixavam marcas e muito menos despia as mulheres �usualmente�. H� um ou outro relato , muito raro, de queimaduras de cigarro, e, a n�o ser num caso de mulheres presas do Cou�o, em que humilha��es directas de car�cter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A PIDE insultava as �companheiras� de tudo quanto havia, mas n�o as despia.

Afirmar isto � n�o compreender de todo os quadros de mentalidade que presidiam ao regime. A lei n�o chegava � PIDE, como os PIDEs se gabavam, mas chegava a mentalidade e a �moral� sexual (ou a falta dela). � completamente inveros�mil o que se diz no artigo.
 


EARLY MORNING BLOGS 123

Pouco para dizer, muito para ler, muito para fazer. Muito para dizer. Como as mar�s e as manh�s.

The Tide Rises, the Tide Falls

The tide rises, the tide falls,
The twilight darkens, the curlew calls;
Along the sea-sands damp and brown
The traveller hastens toward the town,
And the tide rises, the tide falls.

Darkness settles on roofs and walls,
But the sea, the sea in darkness calls;
The little waves, with their soft, white hands,
Efface the footprints in the sands,
And the tide rises, the tide falls.

The morning breaks; the steeds in their stalls
Stamp and neigh, as the hostler calls;
The day returns, but nevermore
Returns the traveller to the shore,
And the tide rises, the tide falls.


(Henry Wadsworth Longfellow)

24.1.04
 


A MINHA R�SSIA

Esta � a minha R�ssia, � qual me preparo para voltar em breve. Intensa, emotiva, violenta, uma terra sem indiferen�a, moldada pelo espa�o e pela morte, ainda ferida pelas crueldades do passado, da �grande guerra patri�tica�, esse momento peculiar de grande dor. Teve outros antes, mas desses est� j� quase tudo morto. Desta guerra n�o, ainda vive muita gente, ainda s�o os pais, os irm�os, os primos, que ca�ram nas ceifas de 1941-5.

Preparo-me. N�o se visita a R�ssia sem prepara��o. Olho para um dos �meus� s�tios, no n�mero 20 da rua Jdanov (agora Malaya Pokrovskaya), na cidade t�rtara de Yelabuga, para a pequena casa reconstru�da onde, em 1941, Tsvetaeva se matou.
 


CADERNOS DE CAMUS 5

Novas notas publicadas
 


CADERNOS DE CAMUS 4

La libert� sexuelle nous a apport� au moins ceci que la chastet� et la sup�riorit� de la volont� sont maintenant possibles. Toutes les experiences, les femmes retenues ou libres, ardentes ou r�veuses, et soi-m�me d�chain� ou circonspect, triomphant ou incapable de desir, le tour est fait. Il n'y a plus de myst�re ni de refoulement. La libert� de l'esprit est alors presque complete la ma�trise presque toujours possible.

(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


CADERNOS DE CAMUS 3

Les Anciens et les Classiques f�minisaient la nature. On y entrait. Nos peintres la virilisent. Elle entre dans nos yeux, jusqu'� les d�chirer.

(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


CADERNOS DE CAMUS 2

30 avril. [1958]
Martin du Gard. Nice. Il se tra�ne avec son rhumatisme articulaire. 77 ans. �Devant la mort rien ne tient plus, non pas m�me mon oeuvre. Il n'y a rien, rien...� �Oui c'est bon de ne pas se sentir seul � (et ses yeux se remplissent de larmes). Nous prenons rendez-vous pour juillet au Tertre �Si je suis en vie. � Mais toujours ce m�me coeur s'int�ressant a tout.


(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


CADERNOS DE CAMUS

Maman. Si l'on aimait assez ceux qu'on aime, on les emp�cherait de mourir.

(Carnets III , Mars 1951- D�cembre 1959)
 


THE CITY DRIFTS

 


EARLY MORNING BLOGS 122

Passando mais pela cidade do que o costume, a manh� amanhece urbana. Para recordar �the halcyon late mornings�, passadas e por vir, este belo poema de Lawrence Ferlinghetti:

The Changing Light

The changing light
at San Francisco
is none of your East Coast light
none of your
pearly light of Paris
The light of San Francisco
is a sea light
an island light
And the light of fog
blanketing the hills
drifting in at night
through the Golden Gate
to lie on the city at dawn
And then the halcyon late mornings
after the fog burns off
and the sun paints white houses
with the sea light of Greece
with sharp clean shadows
making the town look like
it had just been painted

But the wind comes up at four o'clock
sweeping the hills

And then the veil of light of early evening

And then another scrim
when the new night fog
floats in
And in that vale of light
the city drifts
anchorless upon the ocean


(Lawrence Ferlinghetti)

23.1.04
 


BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS 3

Coloquei novas contribui��es recebidas nos Cadernos de Camus. A partir de agora, para n�o sobrecarregar o Abrupto, colocarei a� as novas notas sobre Camus.
 


BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS - ENTRADAS TIPO

Les collines au-dessus de Mers-el-K�bir comme un paysage parfait.

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)



*

Le vent, une des rares choses propres du monde.

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)

*

Sur l'�chafaud, madame du Berry : "Encore un minute. monsieur le bourreau".

(Carnets I , Mai 1935-Fevrier 1942)

[A frase completa parece ter sido "Encore un moment, monsieur le bourreau, un petit moment." Para que queria a du Barry o "petit moment" ? Ou ser� que na hora da morte mesmo um minuto � bem vindo? (JPP)]
 


BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS

Come�am a aparecer as primeiras contribui��es para um blogue sobre os Cadernos de Camus. Numa fase ainda experimental, estou a public�-las no Abrupto e simultaneamente em Cadernos de Camus , um blogue inteiramente provis�rio apenas para teste. Utiliza um template de s�rie e n�o tem qualquer trabalho gr�fico, nem liga��es, nem nada. Serve s� para arrancar, depois arranja-se uma �casa� mais digna para Camus.

Como tenho dito, a minha contribui��o � apenas para o arranque; espero que depois uma equipa tome conta do projecto e lhe d� continuidade. Nesta fase inicial, para al�m dos coment�rios, era igualmente importante que fossem colocados mais fragmentos dos Cadernos em linha, para suscitar outros coment�rios.


Eduardo Gra�a - Cadernos de Camus


Releio o Caderno n� 1 (Maio de 1935/Setembro de 1937) e anoto os meus sublinhados vigorosos, aquando da primeira leitura, na segunda metade dos anos 60. Achei que nesta primeira abordagem n�o os devia ignorar. Eis o meu primeiro sublinhado:

Jovem eu pedia �s pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade cont�nua, uma emo��o permanente.
Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras. E as suas emo��es, a sua amizade, os seus gestos nobres mant�m a meus olhos o seu aut�ntico valor de milagre: um absoluto resultado da gra�a.�


Tenho dificuldade em interpretar as raz�es que me levaram, com 20 anos, a fazer esta escolha mas seria capaz, hoje, de sublinhar de novo com acrescidas raz�es.

Com respeito �s escolhas de JPP � curioso que os meus sublinhados de juventude se situam imediatamente antes e depois das cita��es escolhidas por JPP. Sublinhei a frase imediatamente anterior � cita��o de JPP com o t�tulo �A civiliza��o contra a cultura�, ou seja,

As filosofias valem aquilo que valem os fil�sofos. Maior � o homem, mais a filosofia � verdadeira.

E ainda mais extraordin�rio a coincid�ncia de ter sublinhado as cita��es imediatamente anterior e posterior daquela outra que JPP escolheu com o t�tulo: �Poder consolador do inferno�, quais sejam:

Combate tr�gico do mundo sofredor. Futilidade do problema da imortalidade. Aquilo que nos interessa, � de facto o nosso destino. Mas n�o �depois�, �antes�.�

E esta outra:

Regra l�gica. O singular tem valor de universal.
-il�gica: o tr�gico � contradit�rio.
-pr�tica: um homem inteligente em certo plano pode ser um imbecil noutros.


As minhas escolhas de juventude podiam ser as minhas escolhas actuais. As minhas escolhas actuais v�o mais al�m mas encaminham-se, quase sempre, para uma faceta da reflex�o em que Camus olha a natureza e os outros com assumido desprendimento pelas coisas materiais sempre deixando transparecer um problema nunca resolvido na sua vida: a sua rela��o com o sucesso. Como transparece no texto final deste Caderno n� 1 quando escreve:

��N�o � necess�rio entregarmo-nos para parecer mas apenas para dar. H� muito mais for�a num homem que n�o parece sen�o quando � preciso. Ir at� ao fim, � saber guardar o seu segredo. Sofri por estar s�, mas por ter guardado o meu segredo venci o sofrimento de estar s�. E hoje n�o conhe�o maior gl�ria que viver s� e ignorado. Escrever, minha profunda alegria!...

Extractos, in Cadernos (1962-Editions Gallimard), tradu��o de Gina de Freitas, Colec��o Miniatura das Edi��es �Livros do Brasil�, incluindo: Caderno n�1 (Maio de 1935/Setembro de 1937), Caderno n�2 (Setembro de 1937 a Abril de 1939) e Caderno n�3 (Abril de 1939 a Fevereiro de 1942).

(Eduardo Gra�a)
 


DI�RIOS E M�QUINAS DO TEMPO

Hoje, em 1935, a neve caiu sobre as rosas em Nova Orleans. Edward Robb Ellis , um dos grandes diaristas americanos, registou no seu di�rio a excita��o. �Estes sulistas dificilmente poderiam estar mais excitados, a n�o ser que come�asse uma outra guerra entre os Estados�. Outro diarista. Arthur F. Munby, hoje, em 1864, ouviu, pela primeira vez, o barulho do comboio na nova linha de Charing Cross, o �dull wearing hum� da �maldita m�quina�. Hoje, em 1848, a Charles Greville, contaram-lhe umas hist�rias sobre as crian�as reais. Grenville anota que �talvez� possam ser interessantes para julgar o seu car�cter quando crescerem.



Tamb�m sei que amanh�, em 1662, Pepys conheceu a mulher do seu tio Fenner. N�o gostou. Tamb�m amanh� , em 1927, Virg�nia Woolf toma ch� com Vita Sackville-West. Esta mostra-lhe umas cartas de Dryden e, no meio delas, aparece uma carta de amor de Lord Dorset. Da carta cai uma madeixa de cabelo dourado. Virg�nia pega nela : �One had a sense of links fished up in the light which are usually submerged�.

Liga��es, links.


22.1.04
 


LIVROS � PELOS LEITORES DO ABRUPTO

Curiosa e interessante (para mim) a sua refer�ncia ao livro de Karl Lowith Histoire et Salut...Acabei de ler a semana passada um outro seu livro, My Life in Germany Before and After 1933, London, The Athlone Press, 1994.

No momento actual em que se discute na Europa o renascer do anti-semitismo, das novas leis em Fran�a sobre a laicidade, este pequeno livro � de uma actualidade impressionante: uma esp�cie de autobiografia desde a Rep�blica de Weimar passando pelo seu ex�lio, primeiro na It�lia de Mussolini, e acabando no Jap�o.
Neste "relat�rio" (� assim que Lowith o classifica) ele conta , de uma forma assustadora, como � que um alem�o culto e refinado (n�o s� ele mas toda uma gera��o de pensadores brilhantes) se v� transformado num judeu abjecto perseguido pelos nazis no seu pr�prio pa�s e, mais tarde, em It�lia.
O drama do que Lowith a� conta n�o reside tanto na cr�tica ao regime nazi mas nas reac��es individuais ao fen�meno do nazismo: a sua fam�lia, o seu quotidiano, os colegas e amigos, confrontados com op��es terr�veis onde a vida e a morte se misturam com o dia a dia de cada um. Aquilo de ele refere, com uma not�vel clareza descritiva , como "the political zoology of racial percentages". Como disse, impressionou-me a actualidade deste pequeno livro na Europa dos nosso dias.(�).

Um apontamento final: existe uma tradu��o portuguesa de um livro dele, O Sentido da Hist�ria, Edi��es 70, Lisboa, 1991, que eu creio ser o mesmo livro Histoire et Salut . Mas n�o tenho a certeza. O meu exemplar n�o refere o t�tulo original em alem�o.
"

(Jo�o Costa)


"The Civil War - An Illustrated History, de Geoffrey C. Ward, Ken Burns e Ric Burns � o "reading companion" de uma s�rie documental ("The Civil War") que foi exibida em 1991 pelo PBS americano.

A avaliar pelo livro, que comprei h� uma s�rie de anos em Nova Iorque - e que � um monumento documental e pict�rico fant�stico, que recomendo vivamente - a s�rie, (que nunca vi, mas � considerada "a film masterpiece and landmark in historical storytelling") deve merecer ser vista.

N�o sei se � a mesma que agora seguiu e a que se refere no seu post. De qualquer modo, e como deve acontecer com os bons produtos de boas televis�es (sejam p�blicas ou privadas) est� dispon�vel em DVD.

J� agora, a PBS, at� tem uma p�gina sobre a s�rie.
"

(Miguel Almeida Motta)
 


CORREIO

est� irremediavelmente atrasado. Muitas cartas ficar�o por responder, apesar de eu estar a fazer uma revis�o, pelo menos desde o in�cio do ano, entre as cerca de 2800 missivas com atraso desde Maio do ano passado. Depois, por um vicio antigo meu, quanto mais quero responder a uma mensagem ou carta, quanto mais eu a marco como de resposta obrigat�ria, mais ela se atrasa. Vou ver se me redimo durante os pr�ximos quinze dias, com disciplina prussiana a responder ao correio. � que n�o queria que desistissem porque o correio � uma das mais vivas recompensas de escrever o Abrupto.
 


 


BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS

Tenho estado a trabalhar na ideia. Reservei no Blogger o nome, embora a escolha da plataforma final possa ser noutro s�tio, e com um tratamento gr�fico melhorado dada a am�vel oferta do autor da Retorta. Rust never sleeps.
H� j� uma lista de pessoas interessadas em colaborar, incluindo alguns especialistas camusianos. A minha proposta � fazerem-se aqui algumas experi�ncias e depois passar-se tudo, com armas e bagagens, para um blogue aut�nomo com uma equipa para o moderar, visto que eu n�o tenho condi��es de tempo, a n�o ser para colaborar.

Seguem-se alguns exemplos, abertos ao coment�rio: tr�s fragmentos do primeiro Caderno, datados de 1935-7. Os textos s�o tirados da edi��o francesa da Gallimard, mas no futuro podem-se usar tradu��es, incluindo a portuguesa (de h� muito esgotada) dos Livros do Brasil, colec��o Miniatura. Para n�o infringir os direitos de autor, os textos ter�o que ser usados fragmentariamente.


*

La civilisation contre la culture.
Imp�rialisme est civilisation pure. Cf. Cecil Rhodes. � L'expansion est tout � - les civilisations sont des ilots - La civilisation comme aboutissement fatal de la culture (Cf. Spengler).
Culture : cri des hommes devant leur destin.
Civilisation, sa d�cadence : d�sir de l'homme devant les richesses. Aveuglement.
D'une theorie politique sur la M�diterran�e.
� Je parle de ce que je connais.�



[Hannah Arendt refere-se a esta frase "Expansion is everything" e ao desespero de Rhodes com a sua vontade do todo: "these stars... these vast worlds which we cannever reach. I would annex the planets if I could". Para uma an�lise desta frase por Arendt veja-se aqui. (JPP)]

*

Pouvoir consolant de l'Enfer.

1) D'une part, souffrance sans fins, n'a pas de sens pour nous - Nous imaginons des r�pits.

2) Nous ne sommes pas sensibles au mot �ternit�. Inappreciable pour nous. Sinon dans la
mesure o� nous parlons de �seconde �ternelle �.

3) L'enfer, c'est la vie avec ce corps � qui vaut encore mieux que l'an�antissement.


*

Etre profond par insincerit�.

[A discutir: a mentira � da natureza do humano. Ali�s, a mentira �, por sua natureza, profundamente social. Nenhuma sociedade sobreviveria sem a mentira, porque a mentira protege. Mas os homens est�o cada vez mais a permitir a generaliza��o de tecnologias da �verdade�, sem perceber a disrup��o que elas provocam. Telem�veis com GPS, com c�maras que filmam em tempo real. Continua a ser poss�vel mentir com todos esses mecanismos, mas torna-se tecnologicamente mais dif�cil. Haver� exclu�dos da mentira, prisioneiros da verdade, com uma vida social mais pobre? (JPP)]
 


SERVI�OS DE INFORMA��ES

Independentemente do m�rito da �ltima escolha para presidir ao SIS, n�o se compreende porque raz�o o Governo (e a oposi��o) entendem que ju�zes e magistrados s�o escolhas �bvias para estarem � frente dos servi�os de informa��es. � frente daqueles servi�os deve estar quem perceba, compreenda, tenha sensibilidade e conhecimento � de informa��es. Eles j� est�o t�o fragilizados que n�o podem prescindir de alguma din�mica � de informa��es. Este tipo de escolhas confunde o controlo da legalidade dos servi�os com a sua direc��o, sendo que o controlo, para ser eficaz, deve estar fora e n�o dentro dos servi�os. Este tipo de escolhas revela que ainda persiste uma mentalidade complexada sobre o papel das informa��es de seguran�a.
 


ONDE EST� O PROGRAMA?

Pretendendo escrever sobre a quest�o da liberdade de voto (ou n�o) dos deputados do PSD na Assembleia, quis consultar o Programa do PSD, de cuja �ltima vers�o fui um dos co-autores. O texto � relevante para essa quest�o, assim como o dos Estatutos. Com surpresa, verifiquei que o Portal Social Democrata, que abunda de informa��o sobre o Governo, n�o tem em linha o documento mais importante para qualquer partido pol�tico. Est�o l� uns �Princ�pios Program�ticos� e os programas eleitorais e de Governo. Ainda procurei para ver se estava em qualquer remoto lugar do Portal. Nada.

A n�o ser que esteja t�o escondido que nem o motor de busca o encontra, este � um exemplo de degrada��o ideol�gica da actividade partid�ria. Depois n�o adianta jurar por S� Carneiro.

 


 


EARLY MORNING BLOGS 121

Hoje estamos nas l�nguas pr�ximas, para uma manh� de Lorca, escrita em Granada, em Abril de 1919 (cortesia de Filipe Castro, do long�nquo Texas, USA). Tamb�m para este poema, Abril � o m�s mais cruel. Ainda n�o estamos em Abril, temos dist�ncia, �el sue�o de las distancias�. Continuemos

ALBA

Mi coraz�n oprimido
Siente junto a la alborada
El dolor de sus amores
Y el sue�o de las distancias.
La luz de la aurora lleva
Semilleros de nostalgias
Y la tristeza sin ojos
De la m�dula del alma.
La gran tumba de la noche
Su negro velo levanta
Para ocultar con el d�a
La inmensa cumbre estrellada.
�Qu� har� yo sobre estos campos
Cogiendo nidos y ramas
Rodeado de la aurora
Y llena de noche el alma!
�Qu� har� si tienes tus ojos
Muertos a las luces claras
Y no ha de sentir mi carne
El calor de tus miradas!
�Por qu� te perd� por siempre
En aquella tarde clara?
Hoy mi pecho est� reseco
Como una estrella apagada.


(Federico Garcia Lorca )

*
Bom dia!
 


SENA TRADUTOR DE CAVAFY

De uma carta de Roger Miguel Sulis (Professor convidado de l�ngua e literatura grega moderna na Universidade Federal de Santa Catarina, Florian�polis, Brasil, e um dos respons�veis pelo arquivo.cavafis ):

O p�blico brasileiro tamb�m deve ao poeta Jorge de Sena a primeira vers�o dos poemas do alexandrino. � o pr�prio poeta portugu�s que lembra o fato ao escrever um artigo para o Suplemento Liter�rio de O Estado de S�o Paulo, em 28 de junho de 1962, que creio possa ser de algum interesse. Cito:

�Apliquei-me � tradu��o para o portugu�s dos seus poemas, e guardo como das melhores recorda��es da minha vida liter�ria o conv�vio e a correspond�ncia com aquele velhinho infatig�vel e extravagante, o dr. Mavrogordato, a quem fiquei devendo esclarecimentos, corre��es, verifica��es, e as fotografias in�ditas de Cavafy que possuo. Feitas pelo texto de Mavrogordato, ignorante que sou de qualquer grego antigo ou moderno (para l� daquelas palavrinhas que o estudo da filosofia nos obriga a saber), as minhas tradu��es foram, com o aux�lio dele, conferidas pelos originais, esses originais escritos numa l�ngua viva para Cavafy, mas estranha mesmo para os gregos modernos, cuja cr�tica nunca abundou em reconhecer �quele vagabundo (que o era) de Alexandria, grandeza compar�vel � clamorosamente oferecida a �modernos� como Seferis ou Palamas.�

Esta primeira tradu��o para o portugu�s, portanto, foi feita atrav�s do ingl�s e n�o do grego pelo poeta que aqui havia chegado em 1959, fugido da ditadura salazarista e que daqui tamb�m iria fugir, seis anos depois, por causa de outra ditadura, para os Estados Unidos. O desconhecimento da l�ngua grega est� explicitado no poema �Em Creta, com o Minotauro�: �Tamb�m eu n�o sei grego, segundo as mais seguras informa��es.� � sintom�tico que a poesia de um estrangeiro como Kav�fis chegue ao Brasil pelas m�os de um estrangeiro como Sena, constantemente atravessado pelo tema do ex�lio: �(...) Nem eu, nem o Minotauro,/ teremos nenhuma p�tria�.

Seu artigo para o Suplemento Liter�rio de O Estado de S�o Paulo cont�m a tradu��o de �A espera dos b�rbaros� que assim chega ao Brasil no in�cio da d�cada de 60, um momento de conflito entre o fortalecimento dos la�os com o capitalismo internacional e a for�a ut�pica de setores da esquerda, que nos levam � chegada dos b�rbaros com o golpe militar de 64 e a novo ex�lio do poeta:

�Nascido em Portugal, de pais portugueses, e pai de brasileiros no Brasil, serei talvez norte-americano quando l� estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem, se usam e se deitam fora, com todo o respeito necess�rio � roupa que se veste e que prestou servi�o. Eu sou eu mesmo a minha p�tria. A p�tria de que escrevo � a l�ngua de que por acaso de gera��es nasci. (...)�

Kav�fis poderia assinar este texto
.�

(R.M.Sulis)

21.1.04
 


 


EARLY MORNING BLOGS 120

Auden falando do "flash / Of morning's levelled gun.", que se espera e n�o vem.

That night when joy began
Our narrowest veins to flush,
We waited for the flash
Of morning's levelled gun.

But morning let us pass,
And day by day relief
Outgrows his nervous laugh,
Grown credulous of peace,

As mile by mile is seen
No trespasser's reproach,
nd love's best glasses reach
No fields but are his own.


Bom dia!

20.1.04
 


PROTO � BLOGUISMO

Mais nomes e obras a serem analisados: com prioridade, o di�rio de Paul Morand, Journal Inutile 1968-1972, publicado pela Gallimard. Forte candidato a juntar-se aos Cadernos de Camus e Valery..

J�nger, Benjamin, mesmo Stendhal. Portugueses poucos, para al�m de Pessoa, talvez malgr� lui.
 


NAS TRADU��ES

ficamos quase sempre presos ao amor � primeira vista. Foi assim comigo, com os alem�es que Quintela traduziu, H�lderlin e Rilke, os Quatro Quartetos da �tica, o Cavafy de Sena, Joyce e Pound de Haroldo de Campos, os gregos de Maria Helena da Rocha Pereira. Em cada um destes casos, depois � dif�cil desmontar o som original, mesmo que a tradu��o seja �melhor�.

19.1.04
 


SOBRE UMA TRADU��O DE CAVAFY

A tradu��o de Cavafy, que reproduzi no "Early Morning Blogs 117", suscitou muita discuss�o sobre a sua qualidade e rigor. V�rias notas em blogues se lhe referiram (por exemplo no Absorto , na Bomba Inteligente ) , assim como em correspond�ncia que me foi enviada. Recebi igualmente uma c�pia de uma carta de um dos tradutores (R. M. Sulis , respons�vel pelo arquivo.cavafis ), enviada � autora do Bomba Inteligente, e sobre a qual espero os coment�rios da destinat�ria original antes de eventualmente a publicar, caso a Carla Hil�rio entenda n�o o fazer ela pr�pria.

Por raz�es de long�nqua autobiografia, conhe�o bem este poema e as suas tradu��es. Quando Jorge de Sena publicou as suas antologias de tradu��es, eu trabalhava na Editorial Inova no Porto e acompanhei a sua prepara��o, provas e correc��es. Sobre dois dos autores traduzidos por Sena, Cavafy e Emily Dickinson, tenho correspond�ncia com ele da �poca. Ora uma das maledic�ncias associadas a Sena era saber de que l�ngua fazia algumas tradu��es, visto que ele era omisso sobre se sabia grego ou n�o. Assisti a uma muito interessante discuss�o privada com ele, em que participou o Eug�nio de Andrade, sobre uns poemas de Safo. Sena era uma personagem �larger than life� e quer o conhecimento epistolar, quer pessoal, que com ele tive, a primeira vez que veio a Portugal depois de um longo ex�lio, dava umas p�ginas de mem�rias bem animadas.

Sabendo o car�cter �criativo� das tradu��es de Sena, as tradu��es do arquivo.cavafis, como ali�s as de Magalh�es e Pratsinis, feitas directamente do grego, tinham uma tens�o verbal que n�o existia nas mais fluidas tradu��es de Sena, reconstru�das num portugu�s mais fluente porque pouco preso ao original grego. Interessava-me a compara��o.

 


COMPLACENCIES OF THE PEIGNOIR

 


EARLY MORNING BLOGS 119

Hoje, o primeiro poema de �Sunday Morning� de Wallace Stevens, quando o dia ainda parece �wide water�. J� n�o � , mas parece.

Complacencies of the peignoir, and late
Coffee and oranges in a sunny chair,
And the green freedom of a cockatoo
Upon a rug mingle to dissipate
The holy hush of ancient sacrifice.
She dreams a little, and she feels the dark
Encroachment of that old catastrophe,
As a calm darkens among water-lights.
The pungent oranges and bright, green wings
Seem things in some procession of the dead,
Winding across wide water, without sound.
The day is like wide water, without sound,
Stilled for the passing of her dreaming feet
Over the seas, to silent Palestine,
Dominion of the blood and sepulchre.


(Wallace Stevens)
 


VER A NOITE (Corrigido)

Est� uma noite muito fria, escura, quase silenciosa. Pela primeira vez, de h� muito tempo, o c�u mostra parte do seu esplendor, com as constela��es bem vincadas. Com os olhos mais habituados ao escuro, come�am a delinear-se a Via L�ctea, Orionte, Escorpi�o, as Ursas. Orionte, como sempre, manda na noite e em mim, pela voz de Robert Frost:

You know Orion always comes up sideways.
Throwing a leg up over our fence of mountains,
And rising on his hands, he looks in on me
Busy outdoors by lantern-light with something
I should have done by daylight, and indeed,
After the ground is frozen, I should have done
Before it froze, and a gust flings a handful
Of waste leaves at my smoky lantern chimney
To make fun of my way of doing things,
Or else fun of Orion's having caught me.�

 


NOT�CIAS DA SUBS�DIO - DEPEND�NCIA E N�O S�

Com algum espanto, - ainda me resta algum face � �lata� (desculpem o plebe�smo, mas � a palavra mais apropriada) do nosso mundo dos subs�dios culturais - li este an�ncio no P�blico:

ARTE EM CAMPO
0 Instituto das Artes comunica que se encontra em elabora��o o seu programa de actividades art�sticas e culturais descentralizado, paralelo ao evento Euro 2004. Este projecto denomina-se Arte em Campo. 0 Instituto convida os criadores residentes em Portugal apresentarem projectos em volta da tem�tica do Euro 2004 nas diversas �reas de ac��o do Instituto (Arquitectura, Artes Visuais, Dan�a, Design, M�sica, Teatro, Transdisciplinaridade e Arte Experimental) at� dia 2 de Fevereiro, com vista ao seu poss�vel apoio e integra��o na programa��o. A avalia��o da viabilidade das propostas ser� efectuada por uma equipa transdisciplinar do Instituto das Artes.

Paulo Cunha e Silva, Director

14 de Janeiro de 2004


Para al�m do espantoso jarg�o do texto (o que s�o as categorias �Transdisciplinaridade�, ou �Arte Experimental�?), este �concurso paralelo ao evento Euro 2004�, ou seja aos jogos de futebol, deve de facto ser muito estimulante � �cria��o�. Em quinze dias, entre a data do an�ncio e o fim do prazo, os �criadores�, animados de s�bita inspira��o futebol�stica, devem fazer propostas ao dito Instituto, devidamente or�amentadas presume-se. Depois �uma equipa transdisciplinar do Instituto das Artes� far� a avalia��o, com certeza na base de um protocolo de gosto �criativo� e dos bons costumes futebol�sticos. Ser� que se pode fazer um cartaz provocat�rio � categoria Design - denunciando os milh�es que foram para o Euro, para ser colocado diante de todos os est�dios ? Ser� que se pode fazer uma performance � categoria Teatro - com uma bancada em f�ria a fazer de macaco quando aparece um futebolista negro? Nem pensar, isto � arte do Estado e o Estado patrocina o "evento".

Ah, grandes �criadores�! Tanto dinheiro deitado fora!

18.1.04
 


PORTUGAL NO SEU MELHOR � OS PIDES FILATELISTAS

Os frequentadores dos arquivos da PIDE e dos Tribunais Plen�rios podem verificar que muita correspond�ncia apreendida pela PIDE e que � anexada como prova tem os selos cortados nos envelopes. Os PIDEs filatelistas l� iam coleccionando uns selos nacionais e estrangeiros. Ent�o a correspond�ncia de origem internacional, nos anos sessenta, motivada pelas campanhas da Amnistia Internacional, est� toda cortada. Fabulosa concep��o de provas, fabulosa mesquinhez, pequenez, mediocridade de pac�vios mangas de alpaca, de pistola e m�o para a bofetada. Grande retrato do Portugal da ditadura: os PIDEs filatelistas.
 


PIRAMO E TISBE OU O QUE TORNOU AS AMORAS COR DE SANGUE




Sobre a hist�ria de Piramo e Tisbe (referida no poema de Gongora dos Early Morning de hoje), para o Tempo Dual.

A hist�ria �, como todas as hist�rias cl�ssicas, simples, quase trivial. Um par de namorados adolescentes, Piramo e Tisbe, contrariados pelas suas fam�lias, vivem lado a lado. �Falam� atrav�s de uma fenda na parede da casa que � m�tua. Mais do que falam, respiram juntos. Depois decidem fugir e marcam um ponto de encontro, junto de um t�mulo. Tisbe chega primeiro e encontra uma leoa que acabara de matar uma presa e tem as garras ensanguentadas. Foge, mas deixa cair o seu v�u. A leoa rasga-o e suja-o de sangue. Chega Piramo e pensa que Tisbe foi morta e suicida-se. Tisbe chega e, encontrando o amante a morrer, mata-se tamb�m. S�o enterrados junto a uma amoreira cujos frutos ficam para sempre tintos de sangue.

A fenda, o equivoco tr�gico, a cor das amoras.

Depois , como � uma hist�ria primeira, primeva, como � inventada pela primeira vez, t�o carregada de s�mbolos, de met�foras, de espessura, de sentido durante dois mil anos vive e se reproduz e se reinventa sem cessar. Por ela passaram todos mas a melhor fonte � Ovidio nas Metamorfoses. Aqui fica um excerto da parte mais dram�tica

Pyrame, clamavit, quis te mihi casus ademit?
Pyrame, responde! tua te carissima Thisbe
nominat; exaudi vultusque attolle iacentes!
ad nomen Thisbes oculos a morte gravatos
Pyramus erexit visaque recondidit illa.
Quae postquam vestem suam cognovit et ense
vidit ebur vaccum, "tua te manus" inquit "amorque
perdidit, infelix! est et mihi fortis in unum
hoc manus, est et amor: dabit hic in vulnera vires.
persequar extinctum letique miserrima dicar
causa comesque tui: quique a me morte revelli
heu sola poteras, poteris nec morte revelli.


(Vou ver se arranjo uma tradu��o portuguesa.)

Em seguida, hist�ria fez caminho em toda a literatura cl�ssica e renascentista. Est� por todo o lado, em Dante , em Petrarca (I Trionfi) , Boccacio, Chaucer, Shakespeare. Existe na Internet um exaustivo ensaio sobre a sua influ�ncia na literatura espanhola.

Vem , por exemplo , no Quixote, neste soneto de Cervantes;

El muro rompe la doncella hermosa
que de P�ramo abri� el gallardo pecho;
parte el Amor de Chipre, y va derecho
a ver la quiebra estrecha y prodigiosa.
Habla el silencio all�, porque no osa
la voz entrar por tan estrecho estrecho;
las almas, s�, que amor suele de hecho
facilitar la m�s dif�cil cosa.
Sali� el deseo de comp�s, y el paso
de la imprudente virgen solicita
por su gusto su muerte; ved qu� historia:
Que a entrambos en un punto, �oh extra�o caso!,
los mata, los encubre y resucita
una espada, un sepulcro, una memoria


E o mesmo acontece em Portugal, a mesma hist�ria, a mesma influ�ncia. Cam�es nos Lus�adas:

Os dons que d� Pomona, ali natura
Produz diferentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ela se d�o muito melhores;
As cerejas purp�reas na pintura;
As amoras, que o nome t�m de amores;
O pomo, que da p�tria P�rsia veio,
Melhor tornado no terreno alheio.


Numa redondilha

Tisbe morreu por P�ramo,
a ambos matou o Amor;
a mim, vosso desfavor.
Tisbe pelo seu amante
morreu com amor sobejo;
mas eu mais morto me vejo.


E na �cloga VII

Olhai, Ninfas, as �rvores al�adas,
A cuja sombra andais colhendo flores,
Como em seu tempo foram namoradas,
Que inda agora o tronco sente as dores.
Vereis tamb�m, se fordes alembradas,
Como a cor das amoras � de amores;
Em sangue dos amantes na verdura
Testemunha � de Tisbe a sepultura.


E agora continua aqui.
 


N�O ERA BEM ISSO �

que eu pretendia, mas agrade�o a todos que me felicitaram por ter conseguido colocar em sil�ncio um canal de televis�o durante dez segundos em hor�rio nobre. Tamb�m n�o penso que tenha sido a primeira vez desde o 25 de Novembro, algu�m j� o deve ter feito. Obra era ter "tocado" integralmente o 4' 33''. O m�rito � de John Cage e , claro, da SIC.
 


PROCURA / N�O PROCURES

 


EARLY MORNING BLOGS 118

Vamos para Gongora e para uma poesia saud�vel dos prazeres ( e n�o para uma poesia dos prazeres saud�veis, uma contradi��o nos seus termos) numa bela manh� de inverno, �naranjada y aguardiente�. J� n�o falo de Tisbe que os costumes n�o o permitem. As duas primeiras linhas s�o o mote.


Ande yo caliente,
y r�ase la gente.
Traten otros del gobierno
del mundo y sus monarqu�as,
mientras gobiernan mis d�as
mantequillas y pan tierno,
y las ma�ana de invierno
naranjada y aguardiente,
y r�ase la gente.

Coma en dorada vajilla
el pr�ncipe mil cuidados
como p�ldoras dorados,
que yo en mi pobre mesilla
quiero m�s una morcilla
que en el asador reviente,
y r�ase la gente.

Cuando cubra las monta�as
de plata y nieve el enero,
tenga yo lleno el brasero
de bellotas y casta�as,
y quien las dulces patra�as
del rey que rabi� me cuente,
y r�ase la gente.

Busque muy en hora buena
el mercader nuevos soles;
yo conchas y caracoles
entre la menuda arena,
escuchando a Filomena
sobre el chopo de la fuente,
y r�ase la gente.

Pase a media noche el mar
y arda en amorosa llama
Leandro por ver su dama;
que yo m�s quiero pasar
de Yepes a Madrigar
la regalada corriente,
y r�ase la gente.

Pues Amor es tan cruel,
que de P�ramo y su amada
hace t�lamo una espada,
do se junten ella y �l,
sea mi Tisbe un pastel,
y la espada sea mi diente,
y r�ase la gente.


(Luis de Gongora)

17.1.04
 


P�GINA DE DONATIVOS DO WEBLOG

Este � o endere�o da p�gina de donativos volunt�rios do servi�o Weblog.com.pt, resultado do trabalho dedicado de Paulo Querido, a que muita gente deve o facto de ter blogues alojados em Portugal gratuitamente. � o caso dos Estudos sobre o Comunismo. Existe uma p�gina de donativos para minimizar os custos suportados, que creio dever ser apoiada sem reservas, porque sou da escola dos que pensam que �n�o h� almo�os gr�tis�; felizmente posso pagar os meus, e mais alguma coisa para que mesmo os que n�o os podem pagar, os recebam. Felizmente o Estado ainda n�o � dono da blogosfera portuguesa - l� chegar� um dia, ou j� chega com o Sapo - e por isso pretendo contribuir para uma das raras actividades culturais que n�o vive de subs�dios.

Embora o Abrupto esteja alojado no Blogger, coloco este apelo aqui porque penso ser mais eficaz.
 


O QUE � QUE SE L� NA MORTE?



Ser� que o para�so � assim? Ser� que se vai poder ler?
 


EARLY MORNING BLOGS 117

De h� muito tempo que faltava Cavafy na manh�, arrastando um mundo que se v� sempre a acabar como se estivesse a come�ar, o mundo que se olha com os olhos do fim, mas que n�o sabemos se est� apenas no principio. Quando esse olhar est� nas terras certas, onde � frente est� o mar, o mar onde tudo aconteceu, o mar dos deuses, o mar de Ulisses , o mar dos n�ufragos, o mar dos marinheiros, �hei de deter-me aqui�.

MAR DA MANH�

Hei de deter-me aqui. Tamb�m eu contemplarei um pouco a natureza.
Do mar da manh� e do c�u inube
azuis brilhantes, e margem amarela; tudo
belo e grandiosamente iluminado.

Hei de deter-me aqui. E me enganar que os vejo
(em verdade os vi por um momento ao deter-me)
e n�o tamb�m aqui minhas fantasias,
minhas recorda��es, as imagens do prazer.


[51, 1915]

ΘΑΛΑΣΣΑ ΤΟΥ ΠΡΩΙΟΥ

Εδώ ας σταθώ. Κι ας δω κ� εγώ την φύσι λίγο.
Θάλασσας του πρωιού κι ανέφελου ουρανού
λαμπρά μαβιά, και κίτρινη όχθη� όλα
ωραία και μεγάλα φωτισμένα.

Εδώ ας σταθώ. Κι ας γελασθώ πως βλέπω αυτά
(τα είδ� αλήθεια μια στιγμή σαν πρωτοστάθηκα)�
κι όχι κ� εδώ τες φαντασίες μου,
τες αναμνήσεις μου, τα ινδάλματα της ηδονής.


[51, 1915]

(Tradu��o de R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolac�pulos, em arquivo.cavafis)

Nota: sendo esta atmosfera o que �, muita gente se vai irritar com o grego, muita gente se irrita com o que ignora. Mas h� quem saiba grego (n�o � o caso do Abrupto que tem escassos conhecimentos escolares de grego) e, quando se pode dar mais informa��o em vez de menos, d�-se mais.

16.1.04
 


PERGUNTA COMPLETAMENTE PROVOCAT�RIA



Qual ser� a situa��o do "n�o pagamos, n�o pagamos", com entoa��o?
 


VER A NOITE

Brilha, com intensidade, a "estrela da tarde". Tamb�m l� chegaremos.
 


LUA, MARTE, TUDO 3 (FEITO PELOS LEITORES DO ABRUPTO)

Constatei que de facto a miss�o da ISS perdeu muita da sua popularidade nos EUA ap�s o acidente ocorrido com o Vaiv�m no passado Ver�o. Os custos desde esse acidente aumentaram brutalmente do lado americano, visto que e' o Vaiv�m o principal veiculo usado para chegar ate' 'a ISS. Para alem disso parece ter havido uma derrapagem geral das contas da miss�o.

Li o seu texto "Lua, Marte, Tudo" depois de ter assistido ontem na CNN ao debate sobre o discurso feito por George Bush. Parece-me haver um �bvio entusiasmo na NASA com este an�ncio, basta ver o s�tio da NASA, mas alguns dos cientistas entrevistados mostraram-se bastante c�pticos e acharam algumas declara��es confusas. E' dif�cil definir a fronteira entre a boa vontade de empreender um projecto destes e a campanha eleitoral para as pr�ximas presidenciais americanas. Os intervenientes no debate mostraram de forma clara esta preocupa��o.

Como ja referi em email anterior a ESA tem um programa ja ha dois anos com o objectivo de levar uma miss�o tripulada a Marte, o programa Aurora. Nesta p�gina pode ver o calend�rio previsto.

Chegada entre 2030 e 2033. O Canada j� se associou 'a miss�o.
Por isso n�o faz muito sentido a sua classifica��o de "o habitual", em rela��o aos objectivos europeus.
A Europa/ESA/ESO neste momento esta envolvida em todas as "aventuras" mais importantes que se seguem nos pr�ximos anos, a saber:

- O programa Aurora que culminara com uma miss�o tripulada a Marte.

- O projecto ALMA ao qual se v�o juntar os EUA e o Japao.

- O pr�ximo telesc�pio espacial para o vis�vel, em conjunto com os EUA

Para alem disso neste momento a Europa atrav�s da ESA e do ESO tem dois projectos que s�o lideres: o VLT (ESO) que e' s� o melhor "telesc�pio" jamais constru�do pelo homem, e o INTEGRAL que e' o melhor instrumento que temos no espa�o para observar radia��o de alta energia (raios X e raios gama). Estes n�o s�o projectos menores ou miss�es habituais. S�o grandes projectos, que representam em si grandes aventuras t�cnicas, menos medi�ticas do que pisar um planeta, mas cientificamente bem mais relevantes.


(Rui Silva , Klepsydra)


Creio que ningu�m contesta � pelo menos aqui � a ideia de se tentar ir a Marte. Eu n�o tenho perdido uma �nica das conferencias de imprensa da NASA, desde que o primeiro rover deu sinal de vida e a maioria dos meus amigos esta t�o excitada como eu.

O que se discute e o facto desta administra��o andar a retirar dinheiro das universidades, ter metido um yuppie do CityBank a frente do Smithsonian, nao honrar a promessa do Bill Clinton de dar dinheiro a NOAA (a NASA do fundo do mar) e vir agora falar de Marte em ano de elei��es. Ainda por cima ningu�m percebe porque e que esta administra��o quer excluir a Europa do programa espacial (American supremacy in space foi a expressao do presidente).

Sobretudo quando o deficit j� vai a caminho de meio trili�o de d�lares, a guerra e um atoleiro sem sa�da, e cada vez e mais claro que quem vai pagar a factura e a classe media.


(Filipe Castro , Texas, USA )

O cidad�o comum n�o est� em condi��es de poder formular ju�zos acerca do m�rito cient�fico, tecnol�gico ou mesmo civilizacional, do programa ora anunciado pelo Presidente do EUA.
Contudo, qualquer cidad�o, nomeadamente se for potencial eleitor em Novembro pr�ximo, o que nos est� vedado a n�s - portugueses -, pode e deve questionar-se sobre o significado desse an�ncio e do momento escolhido.
Se o Chefe de Estado dos EUA n�o nos tivesse habituado, nas �ltimas d�cadas, a in�meros an�ncios sobre os mais diversos assuntos que dizem respeito � vida da sociedade estadunidense e por arrastamento a uma parte significativa da comunidade humana, eu ficaria surpreso: Afinal algu�m assumia a responsabilidade de apontar um rumo a uma Humanidade carente de ideias catalisadoras que dessem um novo sentido � sua dif�cil Exist�ncia.
Mas, afinal, confesso, n�o passa de um logro:A actual comunidade humana vai, dia-a-dia, continuar a defrontar-se com os mesmos problemas de sempre, independentemente de estarem reunidas ou n�o as condi��es pol�ticas, or�amentais,cient�ficas e tecnol�gicas para iniciar t�o ut�pico projecto.
Cr�dito teria se tal an�ncio fosse antecipado de humilde manifesta��o de vontade de l�deres incontestados da comunidade cient�fica e tecnol�gica ao apresentar uma proposta fundamentada da real necessidade presente e/ou futura de tal aventura.

(Jo�o M. Farias da Silva)

Uma das mais fortes emo��es da minha vida, tive-a ao ver partir uma das miss�es do Space Shuttle. N�o � tanto o ambiente de grande festa popular e de alegria genu�na que se instala � volta, em pequenas cidades �com vista� para o lan�amento ou nas estradas pr�ximas, com �six-packs�, e m�sica, e risos e conversas. Nem as chamas dos foguetes, que de repente fazem dia a meio da noite. Nem o som que chega uns segundos mais tarde, reverberando, fazendo tremer o ch�o. � sobretudo pensar-se que gente sonha uma coisa daquelas, e lhe dedica a vida, a a realiza, e que gente vai l� no nariz de toda aquela for�a e perigo terr�vel. � gente do melhor, seguramente, valentes, sonhadores, poetas, grandes cora��es e cabe�as. Um anti-americanista prim�rio (e secund�rio tamb�m) ficaria perplexo v�rios dias antes de voltar a acoitar-se na sua rotina e azedume.

(Jos� Mendon�a da Cruz)

Um programa de pesquisa espacial bem feito, do tipo a que duma forma geral nos habituaram os americanos da NASA e, que infelizmente a Ag�ncia Espacial Europeia n�o o conseguiu em plenitude, � um feito de que os humanos se podem e devem orgulhar, porque demonstra engenho. Al�m do mais os resultados cient�ficos e tecnol�gicos adquiridos, aplicados ao nosso quotidiano s�o sempre uma mais valia.

Quem n�o se recorda das aplica��es resultantes das tecnologias usadas nos projectos Gemini e Apolo e, ainda em fase de estudo do Space Shuttle, aplicadas �s ci�ncias que assistem o comum dos mortais? Os campos da meteorologia, da medicina, da cirurgia, das comunica��es, da electr�nica, ficaram enriquecidos por esses avan�os tecnol�gicos. Em resumo, o programa espacial americano da NASA poder� certamente, mais uma vez, ter aspectos t�cnicos altamente positivos. �, portanto, de apoiar entusiasticamente este projecto, do ponto de vista cient�fico e t�cnico.

Cumpre aos especialistas analisar esse programa, de forma a criticar o que nele est� mal e contribuir para o melhorar.

Outra coisa � as considera��es pol�ticas acerca deste assunto.

Neste caso, as aplica��es militares, a oportunidade e, outros considerandos, s�o temas para an�lise pol�tica. Quanto aos custos deste investimento, porque se trata realmente dum investimento, que naturalmente s�o elevados, n�o devem ser discutidos na base de se n�o seria melhor a sua aplica��o noutros projectos.

Com efeito, o que se deveria discutir n�o s�o os custos deste programa, mas sim de outros, como por exemplo os de armamento, os custos de guerras preventivas, os de obras sumptu�rias e quejandos. A qualidade de vida mede-se pelos resultados dos investimentos e uma racional utiliza��o dos recursos e, por isso, um programa espacial � um meio para a melhorar.


(Rui Silva)
 


 


LUA, MARTE, TUDO 2

Tenho recebido muita correspond�ncia sobre esta nota. N�o est� esquecida, mas s� amanh� poderei public�-la. Obrigado pelo interesse.

Vejam entretanto, no endere�o da NASA , as primeiras fotos do "esp�rito" livre.

15.1.04
 


LUA, MARTE, TUDO

Muito do que se l� sobre o an�ncio do programa espacial americano, para al�m do habitual anti-bushismo e das gra�olas ignorantes, mostra uma enorme indiferen�a e insensibilidade ao tipo de desafio, ao tipo de aventura (esta � das poucas coisas que hoje merece esse nome), que � a explora��o espacial. Pode-se contestar quase tudo no programa americano ( bom, poder pode, mas n�o deve, a coisa � feita por cientistas da mat�ria e, por muito est�pidos que se ache serem os pol�ticos americanos, n�o foram eles que escreveram o papel), mas sem ele pouca coisa haver� no pr�ximo meio s�culo para al�m do habitual. O habitual � necess�rio, e a� os europeus t�m um papel, mas sem o excepcional n�o se avan�a.

Talvez a mais revolucion�ria proposta do programa seja o abandono do Space Shuttle e a constru��o de raiz de um novo ve�culo espacial.

*

"Estou de acordo que o programa espacial americano s� deve ser criticado por pessoas com compet�ncia t�cnica para o fazerem, mas isto s� se refere a cr�ticas ao programa em si. Em contrapartida, se se levantar o problema de se querer saber se aquele dinheiro n�o seria melhor empregue noutra coisa, a� j� estamos a discutir pol�tica e n�o ci�ncia. E a�, numa sociedade democr�tica, todos podem expressar as suas opini�es. Quero acrescentar que, pessoalmente, tenho grande dificuldade em imaginar alguma actividade na qual aquele dinheiro fosse mais bem empregue. Quem, por exemplo, teria apostado em 1910 que a avia��o teria o futuro que teve?"

(Jos� Carlos Santos)
 


EARLY MORNING BLOGS 116

� dif�cil escrever melhor sobre a noite como faz em "Ins�nia" o nosso �lvaro de Campos. � dificil escrever melhor sobre "a alegria dessa esperan�a triste" que vem com a madrugada. A juntar ao poema de Larkin, na s�rie mais negra destes poemas matinais.

N�o durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma ins�nia da largura dos astros,
E um bocejo in�til do comprimento do mundo.

N�o durmo; n�o posso ler quando acordo de noite,
N�o posso escrever quando acordo de noite,
N�o posso pensar quando acordo de noite �
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o �pio de ser outra pessoa qualquer!

N�o durmo, jazo, cad�ver acordado, sentindo,
E o meu sentimento � um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
� Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me n�o sucederam
� Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que n�o s�o nada,
E at� dessas me arrependo, me culpo, e n�o durmo.

N�o tenho for�a para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
L� fora h� o sil�ncio dessa coisa toda.
Um grande sil�ncio apavorante noutra ocasi�o qualquer,
Noutra ocasi�o qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simp�ticos �
Versos a dizer que n�o tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, n�o durmo, sinto e n�o sei em que sentir.
Sou uma sensa��o sem pessoa correspondente,
Uma abstra��o de autoconsci�ncia sem de qu�,
Salvo o necess�rio para sentir consci�ncia,
Salvo � sei l� salvo o qu�...

N�o durmo. N�o durmo. N�o durmo.
Que grande sono em toda a cabe�a e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

� madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperan�a triste,
Porque sempre �s alegre, e sempre trazes esperan�a,
Segundo a velha literatura das sensa��es.

Vem, traz a esperan�a, vem, traz a esperan�a.
O meu cansa�o entra pelo colch�o dentro.
Doem-me as costas de n�o estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado do�am-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas s�o? N�o sei.
N�o tenho energia para estender uma m�o para o rel�gio,
N�o tenho energia para nada, para mais nada...
S� para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos s�o sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, l� fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas n�o durmo.


14.1.04
 


DELORS

Publicou uma esp�cie de mem�rias em entrevista, que n�o comprei e n�o li. Talvez venha a comprar, mas os livros pol�ticos franceses deste tipo s�o sempre muito decepcionantes, feitos � pressa e demasiado jornal�sticos. Mas, � noite, vi uma longe entrevista a Delors no terceiro canal franc�s, conduzida por Christine Ockrent e com o apoio de v�rios jornalistas como Serge July. A entrevista era am�vel e respeitosa, mas Delors mostrava todas as suas qualidades, r�pido, ir�nico e experiente. Aquele homem j� viu muito, j� teve que aturar muito, j� negociou muito. N�o custa reconhecer a marca de um pol�tico de qualidade, mesmo que n�o se concorde com o que diz.

Se a entrevista fosse mais curta, ficaria pelo par�grafo anterior. Mas, � medida que avan�ava, em particular quando entrou July a perguntar, ou a querer que Delors fizesse um eco das suas afirma��es, numa cumplicidade incomodativa para quem via, alguma coisa se come�ou a deteriorar. Cada vez que Delors falava uma falta crescia, uma aus�ncia se tornava cada vez mais real: os povos, os europeus, as pessoas... a democracia. E cada vez mais emergia esse tra�o do curr�culo dos politicos franceses, a alta administra��o p�blica, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitima��o democr�tica do que est� a fazer. Ele est� convencido de que est� a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas tamb�m � ele que sabe qual � a direc��o para onde devem "andar" e n�o lhe passa pela cabe�a perguntar a ningu�m.
 


EARLY MORNING BLOGS 115

genuinamente populares, do povo. Como o autor do Abrupto recebe muitas vezes conselhos bem intencionados para ser "mais populista", e menos "elitista", algum dia teria que ceder � tenta��o. Eis pois hoje quatro prov�rbios meteorol�gicos sobre a manh�, cheios da intensa sabedoria de quem se levanta cedo, anda nos campos e tem que prever o tempo e dorme (quando pode) a sesta:

Aurora ruiva: vento ou chuiva.

Rigor da noite: chuva de manh�.

Sol que muito madruga pouco dura.

Manh� de n�voa: tarde de sesta.


*

Aqui onde estou est� uma "manh� ruiva", logo vento e "chuiva". N�o sei como est� a p�tria. Bom dia!

13.1.04
 


ONDE � QUE EU J� OUVI ISTO?

"Je sais que vous savez que j'ai su que vous aviez d�couvert celui qui savait que vous ne saviez pas ce que je savais, etc."

Paul Valery, Cahiers 1894-1914 , v. VIII, p.399
 


PROTO-BLOGUISMO : CADERNOS DE CAMUS E DE VALERY 2

H� muitas diferen�as de conte�do, estilo e algumas na forma. De um modo geral, as entradas de Valery s�o mais afirmativas que as de Camus, mas os tempos tamb�m s�o outros: Valery concentra-se nos anos 1894-1914 e os de Camus v�o de 1935 a 1959. As certezas de Valery s�o mais expostas, mas a verdade � que Camus tamb�m as t�m, o que acontece � que as coloca muitas vezes como d�vidas. Nesse sentido os Cadernos de Camus est�o mais pr�ximos da nossa sensibilidade e os de Valery s�o de mat�ria mais "cl�ssica". H� partes parecidas com as de textos de Goethe, preocupa��es semelhantes Mas isto s�o primeiras impress�es que tem normalmente o defeito de desaparecerem � medida que a leitura vai progredindo.
 


PROTO-BLOGUISMO : CADERNOS DE CAMUS E DE VALERY

Tenho estado a comparar os Cadernos de Camus, com os de Valery, para ver da sua semelhan�a com esta esp�cie de proto-blogues. N�o tenho d�vidas sobre a adequa��o dos de Camus, mas os de Valery, muito mais extensos - quase quatro vezes mais do que os de Camus - n�o os conhecia. Tenho estado a l�-los com a vantagem de andar para tr�s e para a frente, de volume em volume, e s� esta forma de leitura j� revela diferen�as. Os Cadernos de Camus podem mais facilmente ser lidos sem ordem , os de Valery , como mant�m uma unidade de mat�ria por muitas dezenas de notas, s�o mais dif�ceis de ler desta forma err�tica.
 


PROTO-BLOGUISMO

Interessa-me procurar uma esp�cie de genealogia do tipo de escrita dos blogues. Di�rios, cadernos de notas, colec��es de ditos, aforismos, tem a forma pr�xima e, nalguns casos, mais do que a forma, dos blogues. E n�o s� : obras fragmentadas tamb�m encaixam bem no modelo, obras que desapareceram e de que ficaram apenas fragmentos como as dos pr�-socr�ticos.
 


TRIVIA (Actualizada)

De manh�, num carro, com dois amigos italianos. O motorista p�ra num sem�foro. Ao lado um esgoto de �guas pluviais entupido. Nada de especial, em Portugal ningu�m ligaria nenhuma, s� uma po�a de �gua que leva os pe�es a terem que se desviar. Aqui n�o, a efic�cia alem� � perturbada pela agua castanha � vista de todos. Um carro dos servi�os municipais chega e dois homens tiram a tampa e enfiam uma mangueira no buraco para o desentupir. No carro, ningu�m consegue tirar os olhos da opera��o, a mais trivial das tarefas, a n�o ser o motorista que n�o se interessa. Todos esperavam o momento em que a �gua se sumisse rapidamente pelo buraco desimpedido, o momento perfeito, a teoria das cat�strofes em acto. O sem�foro mudou antes do fim da opera��o, o carro arranca. Se a nossa cabe�a mandasse ficaria ali, � espera.

De facto , os homens gostam mesmo de ordem. Alguns homens. Intelectuais.

*

"Conclus�o errada. S� tem a haver com o facto de voc�s virem duma classe privilegiada que se pode preocupar com coisas como um esgoto entupido. O motorista estava a pensar em coisas mais s�rias. "

(Maria Cristina Perry)

12.1.04
 


OS C�US DA FRAN�A

est�o inabit�veis. Aterrar em Paris com ventos quase cicl�nicos � pouco recomend�vel.

11.1.04
 


BIBLIOFILIA 9 / FARENHEIT 451

Os livros que se estragam, apanham �gua e colam, comem-se por dentro, perderam sentido; sem capa, sem parte das folhas, est�o irremediavelmente perdidos, mesmo para mim que os conservo at� ao limite. Queimo-os. � um destino mais nobre que o papel a peso. As cinzas s�o um bom adubo. Hoje � dia de queima.
 


OBJECTOS EM EXTIN��O

Agora que os seus objectos em extin��o parecem estar extintos, gostava de lhe dar conta de um objecto extinto algo curioso para os nossos dias. Trata-se de um cart�o do Minist�rio do Ex�rcito, do Servi�o de Recenseamento e Mobiliza��o de Sol�pedes, em que se descrevem os tra�os f�sicos de um sol�pede, cujo propriet�rio �Em caso de mobiliza��o ou de emerg�ncia grave [...] dever� - sob pena de pris�o militar ou na de incorpora��o em Dep�sito Disciplinar e da apreens�o do sol�pede acima mencionado sem direito a qualquer indemniza��o - apresent�-lo no local, dia e horas que forem indicados por edital, jornais, r�dio ou aviso individual.� Pelo mesmo documento, o propriet�rio � obrigado a levar o pobre sol�pede a uma inspec��o anual. O cart�o data de 1954.

(Alexandra Soares Rodrigues)

 


 


EARLY MORNING BLOGS 114

Eu que, em muitos dias, aqui desejo os bons-dias e que, no in�cio do ano, desejei os bons-anos, encontro-me com este serm�o do Padre Ant�nio Vieira, no qual ele mostra a avareza do nosso desejar:

"Em um Mundo, digo, t�o avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom-dia, ter obriga��o de dar bons-anos, dificultoso empenho! E na minha opini�o cresce ainda mais esta dificuldade, porque isto de dar bons-anos, entendo-o de diferente maneira do que comummente se pratica no Mundo. Os bons-anos n�o os d� quem os deseja, sen�o quem os assegura. A quantos se desejaram nesta vida, a quantos se deram os bons-anos, que os n�o lograram bons, sen�o mui infelizes? Segue-se logo, pr�pria e rigorosamente falando, que n�o d� os bons-anos quem s� os deseja, sen�o quem os faz seguros".

(Como isto est� tudo ligado, o genial padre fez este serm�o cerca de quarenta anos antes dos trabalhos de Pepys, que temos acompanhado na Londres dos Fan�ticos.)

Bom dia!
 


VER A MESMA NOITE

outra vez, quando est� a acabar. H� p�ssaros que s� cantam nesta altura da noite.
 


VER A NOITE

Nevoeiro, poeira de �gua por todo o lado. H� um p�ssaro diferente a piar. Ou talvez um mocho, atrasado no seu dever.
 


COMO SE TIVESSE POUCAS COISAS PARA FAZER 2

agora vou todos os dias ler o �dia� de Samuel Pepys.

H� 344 anos, no dia de hoje, Samuel Pepys andou a passear por Londres, de um lado para o outro, a tratar dos seus assuntos e a conversar sobre as malfeitorias dos Fan�ticos. A sua mulher fez o mesmo, indo a casa do Senhora Hunt, uma amiga. Pepys encontrou-a a�:

So to Mrs. Hunt, where I found a Frenchman, a lodger of hers, at dinner, and just as I came in was kissing my wife, which I did not like, though there could not be any hurt in it..�

10.1.04
 


BIBLIOFILIA 8



David J. Eicher, The Longest Night. A Military History of the Civil War, Pimlico, 2002

Foi o meu companion book quando vi a s�rie sobre a guerra civil americana, e confirmou a sensa��o de conflito �pico, gigantesco e devastador, que os filmes davam. Centrado nos aspectos militares do conflito, mostra o papel inovador que tem a guerra quando, puxando os homens at� aos limites, mobiliza recursos que a paz nunca traz e eleva a imagina��o e a criatividade. � infeliz que seja assim, mas � muito assim, talvez porque o medo e o desespero sejam poderosos factores de inven��o.

Maurice Sartre, L�Anatolie hell�nistique de l�Eg�e au Caucase, Paris, Armand Colin, 2003

� um livro escolar excelente, uma coisa que os franceses, que t�m s�lidas escolas de hist�ria antiga, produzem. Folheio-o para me recordar das pequenas aldeias da Anat�lia, praticamente sem nunca terem sido escavadas, fora das rotas tur�sticas, melhor sinal do poder do tempo e da mudan�a. Escrevi no Abrupto sobre uma delas, Alexandria de Troas.

Katl L�with, Histoire et Salut. Les pr�suppos�s th�ologiques de la philosophie de l�histoire, Paris , Gallimard, 2002

N�o li, olhei para um ou outro cap�tulo, mas tem o f�lego da grande filosofia alem�, uma mistura de sistematicidade e voo te�rico, uma filosofia que respira o ar do mundo, e por isso se d� t�o bem com a teologia, com uma vontade de totalidade que, aplicada � hist�ria, d� resultados muito interessantes. Voltarei a falar deste livro.
 


 


EARLY MORNING BLOGS 113

um pouco tardios. Aqui fica, de Castilho, inclu�da no Tesouro Po�tico da Inf�ncia de Antero, esta ilustra��o de que tamb�m h� luta de classes nas manh�s, em que uns podem dormir e outros n�o t�m direito ao sono. Para os amadores das viagens no tempo e da Idade M�dia, e da Terra M�dia, este tumulto matinal.


Manh�s frescas de Setembro,
Quando o orvalho est� a cair,
Frescas manh�s de Setembro,
Quem as pudera dormir!

Durma-as El-rei nos seus pa�os,
E o pastor no seu redil,
As aves nas suas folhas,
As feras no seu covil;

Coas damas os seus maridos;
Cada qual segundo a si;
Que para os tristes monteiros...
Tais sonos n�o os h� a�!

Em. luzindo a estrela de alva,
E ainda antes do seu luzir,
Dom Fuas Roupinho alcaide
Das mantas os faz sair.

Voam corc�is e sabujos;
Apupa, apupa clarim;
Que esta sina de fragueiros
N�o tem descanso nem fim.

Tremei, g�ndaras e montes,
O feras, fugi, fugi;
Que logo.., nem p�s ao gamo,
Nem val� f�ria ao javali;

S� se lhes valer a n�voa,
Que maior nunca se viu!
Indo todos l� perdidos,
Buzina ao longe se ouviu...

Buzina do alcaide � ela!
Vai a chamar... e a fugir!
Tr�s o som correi, cavalos,
Enquanto se pode ouvir;

Nem caminhos, nem atalhos;
Rasgar fragas e alcantis,
Que este apupar de Dom Fuas
E de correr javalis!

Tudo ia em redemoinho...
Homens, corc�is e mastins,
Ladridos, brados, relinchos,
Fragor de armas e clarins!

E encontra donde o som vinha
�s cegas era o seu ir;
E a buzina era j� perto...
Quando cessou de se ouvir!

Pararam todos � escuta;
E estando a escutar assim,
Sentiram perto o mar fundo
Quebrar com muito motim.

Rompeu-se co sol a n�voa,
E ao resplandor que luziu,
Sobre penha, que duzentas
Bra�as pende ao mar, se viu

Um cavalo! e o bom Dom Fuas,
Que o remessara at� ali,
Saltar por terra, clamando:
� Por ti, Senhora, � por ti!

Prostrou-se humilde e deu gra�as,
Depois benzeu-se e surgiu.
E ora ouvireis que palavras
Aos monteiros proferiu.


*

E mais n�o disse, se n�o metade do blogue atravessava o Rio Letes. Bom dia!
 


VER A NOITE

Est� uma Lua cheia, violenta, poderosa, mas invis�vel. Todo o c�u est� coberto de nuvens, mas as nuvens reflectem a luz p�lida dispersa, meio fluorescente, da cor dos telem�veis, embora menos intensa. As chuvas j� trouxeram muita �gua para dentro da terra e o som da pequena corrente da mina ouve-se mais alto. Um c�o ladra ao longe, como � costume nas noites. Est� um vago nevoeiro l� em baixo.
 


COMO SE TIVESSE POUCAS COISAS PARA FAZER

agora vou todos os dias ler o �dia� de Samuel Pepys. Hoje, h� 344 anos, Pepys mant�m esta magn�fica mistura entre a maldi��o dos �tempos interessantes� e as del�cias do cabrito. Ontem, h� 344 anos, �my wife and I lay very long in bed to-day talking and pleasing one another in discourse.� Hoje, os �Fan�ticos� (seitas protestantes puritanas) estragaram-lhe o dia:

Waked in the morning about six o�clock, by people running up and down in Mr. Davis�s house, talking that the Fanatiques were up in arms in the City. And so I rose and went forth; where in the street I found every body in arms at the doors. So I returned (though with no good courage at all, but that I might not seem to be afeared), and got my sword and pistol, which, however, I had no powder to charge; and went to the door, where I found Sir R. Ford, and with him I walked up and down as far as the Exchange, and there I left him. In our way, the streets full of Train-band, and great stories, what mischief these rogues have done; and I think near a dozen have been killed this morning on both sides. Seeing the city in this condition, the shops shut, and all things in trouble, I went home and sat, it being office day, till noon.

9.1.04
 


NOTAS CHEKOVIANAS 9



Chekov, autor de blogue, na sec��o dos humor�sticos. Chekov divertindo-se nas �perguntas colocadas por um matem�tico louco� (de The Undiscovered Chekhov. Fifty-One Newly Translated Stories, tradu��es da casa):

Ptolomeu nasceu no ano de 223 antes de Cristo e morreu depois de ter chegado � idade de oitenta e quatro anos. Levou metade da sua vida a viajar, e um ter�o a divertir-se. Qual � o pre�o de um quilo de pregos e ser� que Ptolomeu se casou?�

�Na festa do Ano Novo, 200 pessoas foram expulsas do baile de m�scaras do Teatro Bolshoi por brigarem. Se os rufi�es foram 200, qual era o n�mero dos convidados que estavam b�bados, vagamente b�bados, que praguejavam e que tentaram, mas n�o conseguiram , envolver-se em brigas?�

E por a� adiante.
 


QUADRATURA DO C�RCULO

tem "um flashback da semana" como subt�tulo. O primeiro passa no pr�ximo domingo e, para os amadores, pode-se aqui encontrar, em portugu�s, a enuncia��o do problema cl�ssico da matem�tica que lhe d� o t�tulo.

Um dia se far� a hist�ria do programa, que tem na sua vers�o actual dois dos membros originais - eu e Jos� Magalh�es. O jornalista moderador original foi Em�dio Rangel, depois substitu�do por Carlos Andrade. O terceiro membro da quadratura foi o mais mut�vel: come�ou por ser Vasco Pulido Valente, depois Miguel Sousa Tavares, Nogueira de Brito e, por fim, Ant�nio Lobo Xavier.

Para responder �s d�vidas de Vital Moreira, h� que ter em conta que a composi��o pol�tica do programa foi sempre mudando com este terceiro elemento. O Vasco Pulido Valente vinha da candidatura de Soares e era tido como pr�ximo do PS; s� mais tarde, j� fora do programa, teve a sua passagem parlamentar como independente nas listas do PSD. No in�cio, Magalh�es era comunista e fez a sua transi��o para o PS tamb�m nas discuss�es do programa. Miguel Sousa Tavares era independente, mas foi sempre mais pr�ximo da �rea socialista do que do PSD. A composi��o actual fixou-se com Nogueira de Brito, e com Ant�nio Lobo Xavier em sua substitui��o, mas tamb�m, no caso do PP, ambos entraram para o programa numa altura em que estavam bastante afastados da direc��o do partido. Duvido que, se o Flashback tivesse a preocupa��o de assegurar uma representa��o ao espelho do parlamento, conseguisse a variabilidade de posi��es e discuss�es que por l� passaram.
 


MENSAGEM / MENSAGEIRO



A distin��o mensagem / mensageiro �, nos meios de comunica��o social modernos, uma fal�cia.

"Electric circuitry profoundly involves men with one another. Information pours upon us, instantaneously and continuously. As soon as information is acquired, it is very rapidly replaced by still newer information. Our electrically-configured world has forced us to move from the habit of data classification to the mode of pattern recognition. We can no longer build serially, block-by-block, step-by-step, because instant communication insures that all factors of the environment and of experience co-exist in a state of active interplay." (McLuhan The Medium is the Massage: An Inventory of Effects)

A desenvolver.

8.1.04
 


NOTAS CHEKOVIANAS 8

The Undiscovered Chekhov. Fifty-One Newly Translated Stories, Duckbacks, 2002.
Lido com muito prazer, com um entusiasmo p�gina a p�gina crescente, com surpresa, porque nunca se sabe o que � que est� na p�gina seguinte. De fragmento em fragmento, Chekov diverte-se com pequenas anedotas, ou conta tudo que h� de tr�gico no mundo, em meia d�zia de linhas, como s� ele sabe contar.
 


SOBRE VICTOR S�

foram feitas actualiza��es e complementos na nota em baixo. N�o queria que, pela inexorabilidade do esquecimento r�pido do ecr� dos blogues, ficassem esquecidas a quem interesse.
 


EM COMPLEMENTO (Actualizado)



ao que escrevi hoje no P�blico, n�o escapa a ningu�m que a not�cia da Focus vem na mesma sequ�ncia de fugas de informa��o manipuladas. Tr�s nomes escolhidos num �lbum que tem mais de cem, para provocar esc�ndalo, com o esc�ndalo garantido na Assembleia da Rep�blica, para ampliar ainda mais uma estrat�gia de politiza��o do processo da Casa Pia. � tudo t�o transparente.

Espero que, se alguma vez houver uma acusa��o contra um �pol�tico de barbas�, o Minist�rio P�blico cumpra o seu dever e mostre a minha fotografia num �lbum de �pol�ticos de barbas�. Porque � que n�o o h�-de fazer? S� se n�o procurar a verdade, nem investigar como deve ser.

Espero em seguida, que essa circunst�ncia, verificada ser irrelevante porque eu n�o sou o �pol�tico de barbas�, seja protegida pelo segredo de justi�a, para n�o permitir que uma opini�o popular, que distingue mal as minud�ncias jur�dicas, n�o me meta no mesmo saco dos eventuais culpados. Espero tamb�m que os �rg�os de comunica��o social, que nunca aprendem nada com a milion�sima manipula��o em que s�o levados a colaborar, em muitos casos deliberadamente porque sabem o que fazem e querem fazer o que fazem, percebam que n�o h� nada de interesse p�blico em nomear pol�ticos que fazem parte obrigat�ria de um �lbum que � mostrado a uma crian�a violada e que sabe que o foi por �um pol�tico conhecido�. A pol�cia n�o cumpria o seu dever se n�o mostrasse fotografias de pol�ticos conhecidos, ou ser� que se espera que ela presuma quais s�o os que podem ser suspeitos ou n�o? Porqu�? Porque s�o homossexuais? Porque frequentam o Elefante Branco? Porque s�o solteiros? Porque s�o diferentes e maus pais de fam�lia?

Espero tamb�m que um �rg�o de comunica��o social que, sem forte e justificada raz�o de interesse p�blico, atentasse contra o bom nome de algu�m atrav�s da viola��o do segredo de justi�a para fins especulativos, tivesse duras penas, como acontece em democracias t�o amigas da liberdade e t�o consolidadas como a inglesa. Porque, deixemo-nos de subterf�gios, a exist�ncia de san��es para proteger um direito constitucional obrigaria � maior responsabilidade de uma comunica��o social que, salvo honrosas excep��es, chegada a estes momentos decisivos, n�o mostra nenhuma.

Eu sei que espero demais, mas � assim que deveria ser.

*

Veja-se coment�rio em Aviz.
 


SOBRE VICTOR S� (Actualizado)

"Quando, ontem � noite, fui confrontado com o seu texto sobre Victor de S�, tive dificuldade em acreditar que estivesse a ler bem, tendo de rel�-lo mais do que uma vez, para tentar apagar a impress�o amarga que me deixou. Desde logo pela inoportunidade da coisa, � luz da forma��o da generalidade dos portugueses, que nos leva a n�o gostar de ouvir tratar mal aqueles que acabam de morrer.

Venho � li�a por duas raz�es: por ser filho do visado, e por ser, como ele, um construtor e defensor do 25 de Abril (j� perceber� onde quero chegar !).

Porque sou filho de Victor de S�, tenho de dizer-lhe que o Senhor n�o o conheceu, pura e simplesmente. Ou nesse �pouco� que o conheceu �pessoalmente�, o senhor estava fora do seu ju�zo� � que Victor de S� nem era arrogante, nem dogm�tico, nem sect�rio. E desde sempre. Lembro-me bem de muitas vezes ter ouvido a gente da �Situa��o� dizer: ah�se todos os comunistas fossem como o senhor doutor!

Meu Pai foi uma pessoa invulgarmente simp�tica no seu trato com toda a gente, t�mida, at� (que � o contr�rio de arrogante), dialogante, pedagogicamente anti-dogm�tica.

A corrida dos alunos �s suas aulas, quer na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, quer na Universidade Lus�fona; o entusiasmo dos seus ouvintes e interlocutores, antes e depois do 25 de Abril, em tantos e tantos col�quios nas rep�blicas de Coimbra, nas escolas secund�rias, nas colectividades, nos sindicatos e outras muitas associa��es, s�o a nega��o da sua afirma��o.

Sempre combateu os dogmas: afastou-se muito cedo da religi�o, e, mais tarde, de outros dogmas que caracterizam o partido em que militou.

Mas o mais notoriamente p�blico das suas qualidades, � mesmo o seu pendor profunda e autenticamente pedag�gico na busca da verdade. Foi isso uma das raz�es da sua partida para o ex�lio: poder estudar a Hist�ria Contempor�nea Portuguesa, liberto das mentiras que a envolviam no seu pa�s mergulhado no obscurantismo. E assim, num not�vel af� cient�fico, reescreveu a hist�ria do Liberalismo em Portugal, dando um contributo pioneiro para a releitura do nosso passado recente, e abrindo caminho a novas gera��es de investigadores. A culminar essa apaixonante actividade, instituiu mesmo, em 1990, o Pr�mio de Hist�ria Contempor�nea Victor de S�, que anualmente galardoa os mais qualificados trabalhos cient�ficos que a ele concorrem, tendo acontecido no passado m�s de Dezembro a sua 13� edi��o, ao longo de cuja vida alcan�ou grande prest�gio.

No seu ensino, quer no formal (como professor universit�rio), quer no informal (como pai, ensa�sta e orador) sempre praticou e estimulou o sentido cr�tico, como elemento essencial no dif�cil caminho da aproxima��o � Verdade. Ali�s, foi essa exacta qualidade que, nos anos sessenta, na Sorbonne, o fez �deitar fora� o seu primeiro ano de investiga��o, ao constatar que havia factos que tinha descoberto, que n�o encaixavam na vers�o oficial da historiografia do nosso S�culo XIX; e, em consequ�ncia, enveredou pela busca de outros factos que, tendo ocorrido, n�o eram trazidos � luz da Hist�ria oficial, e por isso distorciam o conhecimento, e o pr�prio entendimento do Liberalismo em Portugal.

Antes disso, o seu empenho activo e criativo na actividade cultural, designadamente atrav�s da cria��o da Biblioteca M�vel (nos anos 40, senhor doutor, muito antes das Bibliotecas da Gulbenkian e obviamente sem apoios, ou seja, �s suas exclusivas custas, para disponibilizar livros por empr�stimo aos seus �assinantes�), � absolutamente uma �marca de �gua� da personalidade de Victor de S�, de que faz igualmente parte a cria��o da Livraria Victor � Centro Cultural do Minho, tamb�m desde os anos 40, tantas vezes vasculhada pela PIDE, at� uma vez encerrada, numa tentativa desesperada do Regime de vergar, pela fome de toda a fam�lia � que n�o tinha outros rendimentos � a for�a indom�vel daquele Cidad�o pela Liberdade, e que teve a resist�ncia activa dos pr�prios colegas livreiros (todos da Situa��o !), que, num corajoso gesto de solidariedade, venderam os artigos aos nossos clientes, debitando-os � nossa livraria, at� � sua reabertura, v�rios dias depois.

Poderia juntar outros elementos biogr�ficos, mas n�o � altura disso. Como Filho, estou naturalmente demasiado magoado para o fazer agora.

Se por estas poucas palavras se pode verificar que aquilo que o senhor diz no seu texto n�o tem qualquer fundamento, a minha 2� raz�o de escrever isto diz-lhe respeito a si, apetecendo-me perguntar-lhe: quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabec�o ?!

Porque h�-de V. escrever sobre tudo, o que sabe e o que n�o sabe? � doen�a ? Ou � uma incontrol�vel for�a interior ? Ou simplesmente uma express�o de possidonismo, caracter�stica dum sujeito que se julga superior aos outros, desde logo porque n�o � da Prov�ncia ? Mas haver� pior provincianismo do que esse ?

O seu texto, t�o curto, ali�s, expele um fel que lhe vem das entranhas, na forma de algumas poucas palavras: �comunistas provincianos do Minho, de Famalic�o, Braga, mesmo do Porto�, que �depois do 25 de Abril, quando tiveram algum poder, eram intransigentes e bem pouco democratas�; a �ortodoxia agressiva� que �perpassava nos textos� �sobre o movimento oper�rio�.

Bom, sobre o Movimento Oper�rio, Victor de S� produziu investiga��o cient�fica, na qual n�o cabe aquilo que o senhor diz.

E os comunistas provincianos do Minho�ser�o diferentes dos de Viseu, Coimbra, ou do Sul ? Porque � que isola exactamente esses do Minho, especialmente de Famalic�o e Braga (esqueceu-se dos de Guimar�es !) ? Julgo perceber o seu �dio especial aos Democratas de Braga, retratados no importante volume �Interven��o Pol�tica�, selec��o e edi��o de Humberto Soeiro para o per�odo 1940-1970: eles, esses democratas, marcaram com coragem a iniciativa da Oposi��o, tantas vezes obrigando a defini��o de atitudes que seriam diferentes, ou at� inexistentes, sem a sua iniciativa. E dando guerra sem quartel � Ditadura, criaram, com os democratas do resto do Pa�s, as condi��es para o 25 de Abril. De facto era diferente em Braga a luta contra a Ditadura, onde pesava o poder imenso da Igreja, terrivelmente fechada e com uma hierarquia profundamente irmanada com o Regime, onde s� havia 2 estabelecimentos de ensino secund�rio oficiais (em contrapartida a 14 semin�rios), onde havia o tal Santos da Cunha, mas tamb�m o C�nego Melo. Mas curiosamente, o seu texto n�o se vira para a actividade dessa gente contra o Regime Democr�tico: apenas critica as suas v�timas, poupando os algozes.

� por isso que escrevo este texto: para expressar a minha revolta pelo papel envenenador que o senhor realiza atrav�s das suas interpreta��es pol�ticas. Dantes, a PIDE e o Santos da Cunha, agora � o democrata Pacheco Pereira !

Al�m disso, a honestidade intelectual manda, e o rigor cient�fico exige, que se apeie do seu pedestal de "Deus" e reflicta sobre essa declarada (por si) contradi��o sobre o Homem Victor de S� (permita-me que use a mai�scula, em vez da min�scula pequenamente utilizada por si). A sua D�vida deveria lev�-lo a ir mais longe no racioc�nio, antes de se pronunciar sobre um Homem que acaba de morrer, e nos deixa Obra de vulto: "ainda hoje n�o sei como � que nesta rectid�o, motivada pelas ideias, se define uma mora, se h� uma moral" ... Ao menos por um momento, formule cientificamente uma hip�tese: a sua tese estar� certa, ou porque n�o se ajusta � pessoa visada, deve ser revista a tese?!"


(Victor Louro)

"Li com aten��o o coment�rio do Dr. Jos� Pacheco Pereira, �NECROLOGIAS�, publicado no Blog (www.abrupto.blogspot.com) sobre o meu av� Victor S�.
N�o posso deixar de enumerar algumas inprecis�es �s suas notas biogr�ficas (ver estudos sobre o comunismo e notas finais) e efectuar uma cr�tica ao Dr. Jos� Pacheco Pereira por julgar que a sua liberdade de express�o (palavra t�o cara ao meu Av� e � minha fam�lia) lhe serve para formular incompreens�veis adjectiva��es de car�cter sobre um HOMEM, e passo a citar: �...tenho dele uma impress�o de arrog�ncia dogm�tica e sect�ria, muito comum nos comunistas provincianos do Minho, de Famalic�o, de Braga, mesmo do Porto. Acresce que ele escrevia sobre o movimento oper�rio, e a mesma ortodoxia agressiva perpassava nos textos. Depois do 25 de Abril, quando tiveram algum poder, eram intransigentes e bem pouco �democratas� - que marcou e foi um exemplo para v�rias Gera��es.

Victor de S�, independentemente do Partido Pol�tico a que cada um pertence, foi e � reconhecido como um destacado vulto da vida cultural e pol�tica do Distrito de Braga e do Pa�s. � considerado um anti-fascista �mpar, na coragem e frontalidade e um lutador pela liberdade e democracia do s�culo XX.

Em 1942 iniciou a luta contra o regime salazarista. Os Democratas de Braga �um n�cleo de resist�ncia e forma��o ideol�gica�, do qual faziam parte Victor S�, Armando Bacelar, Lino Lima, Francisco Salgado Zenha, Fl�vio Martins, Humberto Soeiro (entre outros), marcou a luta nacional contra o regime fascista. O documento dirigido �Aos Portugueses� e assinado por 100 democratas em 31 de Janeiro de 1959, que terminava dizendo a Salazar para �abandonar o poder� foi um dos documentos mais importantes da oposi��o ao regime fascista. O documento foi projectado e redigido por Lino Lima e Victor de S�. Depois de impresso, foram distribu�dos por diversas regi�es do Pa�s, do Minho ao Algarve.

Escreveu ent�o no dia 3 de Janeiro de 2003 Jos� Pacheco Pereira, que Victor S� era �arrogante�, �sect�rio� e �pouco democr�tico�. Para esclarecer tamanha enormidade, nada melhor que uns pequenos excertos publicados no livro �testemunho de um tempo de mudan�a� promovido pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho. Este livro reuniu alguns editoriais que Victor S� publicou no �Correio do Minho�, no per�odo compreendido entre 3 de Maio de 1974 e 2 de Fevereiro de 1975, durante o qual foi director provis�rio e n�o remunerado daquele di�rio bracarense.

1. Sobre o provincianismo de que fala Pacheco Pereira � �� preciso salvaguardar que a Universidade do Minho contribua efectivamente para uma actualiza��o e cientifica��o do pensamento, e nunca para a consolida��o dos valores regionais negativos, que muitas vezes s�o glorificados como tradicionais.
Uma Universidade Regional n�o pode ser um centro de pensamento folcl�rico, mas sim um farol a irradiar, no meio das trevas, a luz patente e civilizadora da raz�o e da ci�ncia.
Doutro modo, mais se consagrar� o pensamento provinciano � de que j� estamos abundantemente servidos � do que o pensamento cr�tico e inovador.
Esta � a problem�tica fundamental que tem de presidir � defini��o de objectivos da Universidade do Minho. Porque, quanto � sua exist�ncia e pr�ximo funcionamento, isso nem sequer est� posto em causa� (Correio do Minho, 29 de Janeiro de 1975)

2. A Arrog�ncia, Sectarismo e falta de democracia de que fala Pacheco Pereira � �Os exemplos vindos do alto eram sempre os da subservi�ncia e os da corrup��o. Esses � que eram os bons, esses � que eram os triunfadores. Logo, quem quisesse passar por bom e ser triunfador, tinha de proceder a essa aut�ntica �actualiza��o de car�cter�.
Os honestos e os capazes, esses n�o eram exemplo a seguir, porque eram os perseguidos e considerados como perigosos.
Foi assim que, ao cabo de 48 anos de continuidade fascista, uma boa parte da popula��o portuguesa embora cada vez mais revoltada contra a opress�o do regime, encontrava-se na realidade incapacitada de fazer uma correcta avalia��o em que o pa�s se encontrava, incapacitado tamb�m de saber escolher caminhos novos para arrancar Portugal do atoleiro para que nos tinham atirado 13 anos j� de guerra colonial. (Correio do Minho, 5 de Outubro de 1974)

Pacheco Pereira tece ainda no seu blog e sobre Victor S� o seguinte coment�rio �No entanto, quando se faz de Deus e se escrevem estes balan�os de vida, fica uma sensa��o contradit�ria sobre o homem.�
Digo-lhe com toda a certeza que o Mundo n�o � feito de �impress�es�, muito menos das suas. Na Vida de Victor S� n�o h� contradi��es, pois o �balan�o de vida� est� cheio de causas onde a Liberdade, a Democracia e a Cultura foram a chama da sua for�a!"

(...)


(Marcos S�)


*

O texto de Marcos S� inclui algumas rectifica��es e complementos � biografia dos Estudos sobre o Comunismo, que ser�o a� analisadas (em particular, a quest�o da data da entrada de Victor S� para o PCP).

Veja-se igualmente o coment�rio de Vital Moreira em Causa Nossa .
 


UM BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS 2

As respostas que tenho recebido s�o muito positivas. Vamos esperar mais algum tempo (vir�o certamente mais respostas e propostas) e depois enviarei uma nota para se come�ar a fazer uma experi�ncia.
 


A FOR�A DO "ESP�RITO"

Agora que nos entusiasmamos com as fotografias de Marte, enviadas pela for�a do �esp�rito�, vale a pena ler (ver) a colec��o de 25 fotografias hist�ricas consideradas pela Astronomy no seu �ltimo n�mero como as �melhores� de sempre. A maioria das fotografias nada tem de espectacular. A que mais me impressiona � a vista do sistema solar pela sonda Voyager 1 a 4 bili�es de milhas da terra - � t�o dif�cil de perceber em formato pequeno que desisti de a colocar (pode ser vista aqui). Mas toda a hist�ria do nosso olhar pelo universo est� l�, o lado escondido da Lua, Plut�o pela primeira vez, os espectogramas que Hubble consultou, os vulc�es de Io, e a sempre magnifica Sombrero, a gal�xia mexicana em Virgo.
 


THE ELEMENTS OF DISBELIEF ARE / VERY STRONG IN THE MORNING



 


EARLY MORNING BLOGS 112


Hoje � dia de �Melancholy Breakfast�, cortesia de Jo�o Costa, um grande poema pequeno, com esse verso certeiro do fim a servir de bandeira para estes dias de cinza.

Melancholy Breakfast

Melancholy breakfast
blue overhead blue underneath

the silent egg thinks
and the toaster's electrical
ear waits

the stars are in
"that cloud is hid"

the elements of disbelief are
very strong in the morning


(Frank O'Hara)

*

Bom dia!

7.1.04
 


A QUADRATURA DO C�RCULO

ou o Flashback de novo, igual em tudo ao original, o mesmo Carlos Andrade, o mesmo Jos� Magalh�es, o mesmo Ant�nio Lobo Xavier, o mesmo eu, na SIC Not�cias no domingo. Saudades de discutir.
 


UM BLOGUE SOBRE OS CADERNOS DE CAMUS

Repito aqui uma sugest�o que j� tinha feito h� uns meses: usar os cadernos de Camus como texto inicial para um blogue de literatura e filosofia, e, a partir dos seus textos, colocar outros textos, meta-textos sobre as entradas originais de Camus, numa esp�cie de trabalho colectivo, uma never ending story de inspira��o camusiana. Para este tipo de coisas os blogues s�o uma boa f�rmula e o resultado pode vir a ser publicado mais tarde em livro. (Agora que escrevo isto, outros textos tamb�m dariam blogues interessantes, certas partes da B�blia por exemplo.)

Para resultar bem, ter� que haver modera��o, um grupo respons�vel. Se houver volunt�rios, passa-se � pr�tica.
 


PROTO-HIST�RIA DOS BLOGUES



Blogues antes de haver blogues encontram-se em muitos di�rios, em particular nos di�rios, ou colec��es de notas arranjadas cronologicamente. Textos como os cadernos de Camus e Paul Valery, ou os di�rios de Tolstoi, ou os fragmentos de Kafka, j� foram aqui referidos como paradigmas de escrita que se aproxima ( e nalguns casos se afasta) do modelo dos blogues. Os blogues s�o herdeiros dessa escrita e a ideia original de usar os celebres di�rios de Samuel Pepys, colocando-os em linha, de forma a coincidir com as datas do m�s, revela as diferen�as e as semelhan�as do quotidiano com quatrocentos anos de diferen�a.

Foi assim que Pepys passou o dia do senhor , o domingo de 6 de Janeiro de 1660, tal como escreveu no seu blogue:

"(Lord�s day). My wife and I to church this morning, and so home to dinner to a boiled leg of mutton all alone. To church again, where, before sermon, a long Psalm was set that lasted an hour, while the sexton gathered his year�s contribucion through the whole church. After sermon home, and there I went to my chamber and wrote a letter to send to Mr. Coventry, with a piece of plate along with it, which I do preserve among my other letters. So to supper, and thence after prayers to bed."

 


TINTAS SECRETAS

� muito interessante a lista dos dez mais antigos documentos americanos por desclassificar existentes nos Arquivos Nacionais dos EUA. S�o os seguintes:

Memo, Heingelman to Marlenck 2 pages Created 30 October 1917

Report: Detection of Secret Ink 6 pages Created 01 January 1918

Pamphlet on Invisible Photography & Writing, Synthetic Ink,... 2 pages Created 01 January 1918

U.S. Naval Mines, Mine Anchor, Mark VI 21 pages Created 26 January 1918

Report: Secret Inks 1 page Created 16 March 1918

U.S. Naval Mines, Mine Anchor, Mark VI 42 pages Created 01 May 1918

Ordnance Pamphlet 575, Enemy Mines 62 pages Created 01 June 1918

German Secret Ink Formula 1 pages Created 14 June 1918

Report: German Secret Ink Formula 3 pages Created 14 June 1918

Ordnance Pamphlet 643 Mine Mark VI and Mods. Description and Operation 114 pages Created 01 January 1938



Embora, num ou noutro caso, a desclassifica��o n�o se tenha dado porque provavelmente nunca foi pedida, h� um padr�o no seu conjunto. Todos s�o documentos da I Guerra Mundial, com uma excep��o, e t�m a ver com muni��es e tintas secretas. As tintas secretas, que tanto entusiasmo suscitaram nos livros de espionagem da primeira metade do s�culo XX, parecem ainda hoje ter interesse operacional. Segundo uma recusa de desclassifica��o de um destes documentos, (James Madison Project v. NARA, No. 98-2737 (D.D.C. Mar. 5, 2002), a CIA ainda utiliza algumas destas f�rmulas.

Embora muito raramente, ainda nos anos sessenta e at� ao 25 de Abril, tintas secretas eram usadas nas comunica��es mais protegidas dos grupos radicais clandestinos contra o regime, em conjunto com variantes de c�digos do tipo "one time pad". Ainda me lembro de escrever uma ou outra carta com tinta secreta, com o texto nas entrelinhas de uma carta vulgar, como precau��o suplementar em rela��o a nomes de pessoas que j� seguiam tamb�m em c�digo. Se calhar dava jeito, nessa altura, conhecer estas "german secret inks", porque desconfio que a f�rmula que us�vamos era muito primitiva e a PIDE n�o teria muita dificuldade em revel�-la.
 


EARLY MORNING BLOGS 111

n�o podiam regressar melhor do que com uma manh� camoneana, a da Ode V. Verdade seja dita que, onde estou, a "noite grave" continua e as "naus" dificilmente se podem alegrar, porque n�o h� "raios" nenhuns. Deixo de parte, como � evidente, qualquer "luz" dos "olhos vossos", porque isso n�o � mat�ria de blogue.

Ode V

Nunca manh� suave,
Estendendo seus raios pelo Mundo,
Depois de noite grave,
Tempestuosa, negra, em mar profundo,
Alegrou tanta nau, que j� no fundo
Se viu em mares grossos,
Como a luz clara a mim dos olhos vossos.

Aquela fermosura
Que s� no virar deles resplandece,
Com que a sombra escura
Clara se faz, e o campo reverdece,
Quando meu pensamento se entristece,
Ela e sua viveza
Me desfazem a nuvem da tristeza.

O meu peito, onde estais,
�, pera tanto bem, pequeno vaso;
Quando acaso virais
Os olhos, que de mim n�o fazem caso,
Todo, gentil Senhora, ent�o me abraso
Na luz que me consume
Bem como a borboleta faz no lume.

Se mil almas tivera
Que a t�o fermosos olhos entregara,
Todas quantas tivera
Pelas pestanas deles pendurara;
E, enlevadas na vista pura e clara,
Posto que disso indinas,
Se andaram sempre vendo nas meninas.

E v�s, que descuidada
Agora vivereis de tais querelas,
De almas minhas cercada,
N�o pud�sseis tirar os olhos delas.
N�o pode ser que, vendo a vossa entre elas,
A dor que lhe mostrassem,
Tantas ũa alma s� n�o abrandassem.

Mas, pois o peito ardente
Ũa s� pode ter, fermosa Dama,
Basta que esta somente,
Como se fossem duas mil, vos ama,
Pera que a dor de sua ardente flama
Convosco tanto possa
Que n�o queirais ver cinza ũa alma vossa.


(Cam�es)

6.1.04
 


TEMPO, TEMPO

a caminho. Mesmo assim (ou assim mesmo?), pego o tempo a caminho. Em breve, volto. Cada vez mais breve. At� j�.
 


NENHUM, NENHUM

tempo para o Abrupto. Volto em breve.

4.1.04
 


 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Sobre NECROLOGIAS

Um pouco � margem do tema deste post lamento a liga��o "provincianismo-Minho" que, embora sirva aqui apenas para adjectivar, bem ou mal, o indiv�duo em causa, nos remete para a eterna vis�o "de Lisboa e Porto e o resto � paisagem" ainda presente no imagin�rio colectivo nacional, sublinhada pela generosa inclus�o "mesmo" de uma cidade como o Porto nessa classifica��o.

Julgo que nos dias de hoje, mesmo os maiores cidad�os do mundo n�o deixam nunca de ter presente os diferentes graus de identidade geogr�fica por onde se movem, ou por onde j� passaram, sejam de n�vel regional, nacional ou civilizacional. A falta de um desses elementos parece-me dif�cil de acontecer a quem quer que seja, podendo, talvez mesmo, acumular diferentes "n�veis", como os muitos migrantes que, mudando de cidade dentro de um mesmo pa�s, alteram o pr�prio sotaque.

Por outro lado, no nosso pa�s, a dicotomia capital-prov�ncia ter-se-� acentuado no s�culo passado gra�as a anos de isolamento do exterior, centralismo excessivo t�pico de um pa�s pouco desenvolvido, e pela longa manuten��o de um imp�rio colonial com sede em Lisboa. A rotulagem de Braga como "prov�ncia" foi ainda brutalmente ampliada pelo seu conhecido posicionamento pol�tico durante as passadas d�cadas, tendo a cidade sido absolutamente ostracizada ap�s o 25 de Abril, o que s� n�o se reflectiu no seu desenvolvimento, ironicamente, pela "ditadura" que se auto imp�s.

Num mundo global, em que os tra�os de perten�a regional dos sujeitos continuam insistentemente a sobreviver (embora j� condenados � extin��o vezes sem conta) e se v�o integrando noutros de n�vel mais vasto, correspondentes aos diferentes palcos por onde se movem, n�o ser�, isso sim, sinal de provincianismo, a tentativa de manuten��o desse velho e sufocante paradigma de divis�o geogr�fica "capital-prov�ncia"? Vista de Berlim ou Bruxelas, haver� alguma coisa mais provinciana que a velha revista do Parque Mayer?


(Luis Pedro Machado)

3.1.04
 


NECROLOGIAS

Est� visto que o dia est� fadado para necrologias. Deve ser sina dos dias bonitos de Inverno. Leio no Aviz e no Almocreve das Petas not�cias sobre o suic�dio de Eduardo Guerra Carneiro. S�o escritas com saudade, amizade, proximidade e com o inc�modo, com a culpa, que os suicidas espalham � sua volta.

Eu tamb�m estive neste of�cio dos mortos, a escrever uma nota necrol�gica sobre Victor S� para os Estudos sobre Comunismo. Com uma diferen�a: no pouco que conheci pessoalmente de Victor S�, nunca tive a menor simpatia pelo homem. Tenho dele uma impress�o de arrog�ncia dogm�tica e sect�ria, muito comum nos comunistas provincianos do Minho, de Famalic�o, de Braga, mesmo do Porto. Acresce que ele escrevia sobre o movimento oper�rio, e a mesma ortodoxia agressiva perpassava nos textos. Depois do 25 de Abril, quando tiveram algum poder, eram intransigentes e bem pouco �democratas�.

No entanto, quando se faz de Deus e se escrevem estes balan�os de vida, fica uma sensa��o contradit�ria sobre o homem. Ele teve uma vida que a PIDE, e essa personagem sinistra que era Santos da Cunha, se encarregaram de estragar com af�. E ele voltava ao mesmo, a fazer as mesmas coisas, com uma persist�ncia que s� uma f� poderosa e moderna como era o comunismo explicava. Ainda hoje n�o sei como � que nesta rectid�o, motivada pelas piores ideias, se define uma moral, se h� uma moral. Garanto-vos que, visto de perto, n�o � simples.
 


SEM V�S O QUE S�O OS MEUS OLHOS ABERTOS?

 


EARLY MORNING BLOGS 110

Devia falar de manh�s, � luz destas manh�s esplendorosas de Inverno, com sol e frio. Mas hoje fico pelo tempo, o que nunca se fixa, o que faz as manh�s diferentes:

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque n�o vos fixais?
Que passais como a �gua cristalina
Por uma fonte para nunca mais!....

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
� Porque ides sem mim, n�o me levais?

Sem v�s o que s�o os meus olhos abertos?
� O espelho in�til, meus olhos pag�os!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas m�os,
Flex�o casual de meus dedos incertos,
� Estranha sombra e movimentos v�os
.�

(Camilo Pessanha)

*

Bom dia!

*

Breve nota de engano meu: afinal o poema de Eleanor Farjeon, musicado por Cat Stevens, j� tinha sido publicado h� 60 manh�s atr�s. Obrigado a Jos� Carlos Santos que o enviou originalmente e que me recordou o erro.
 


VER A NOITE

N�o deve andar muita gente l� fora, a estas horas. Nas terras ali fora, no campo, sem ser de carro, a p�. Est� uma noite estranha, uma combina��o de vento forte com rajadas muito frias, mesmo muito frias. � luz de uma metade de Lua, com algumas estrelas ao fundo, num c�u apesar de tudo negro. O frio manda, atravessando as �rvores sem folhas. Ao longe, numa �rvore iluminada para as festas, as pequenas luzes oscilam furiosamente com o vento. N�o temos florestas �negras�, mas, se as tiv�ssemos, n�o era hora para atravessar nenhuma.

2.1.04
 


PRAISE FOR THE SWEETNESS OF THE WET GARDEN

 


EARLY MORNING BLOGS 109

Este �Morning has broken� cantado por Cat Stevens, enviado pela Isabel Goul�o, representa para mim parte de uma mem�ria especial, gravada pelo mesmo processo inapag�vel pelo qual um som ou um cheiro nos trazem todo um mundo. O poema � de Eleanor Farjeon, uma escritora menor, amiga de D.H. Lawrence e Robert Frost, entretanto esquecida. A voz de Cat Stevens era a �nica que me acompanhava numa casa em que estive escondido da PIDE antes do 25 de Abril, e durante tempo demais, quase �s escuras pelo que era dif�cil ler, esperava que o meu �nico contacto com o mundo exterior me trouxesse jornais, comida e , acima de tudo, not�cias sobre o que podia estar a desabar � nossa volta, os amigos presos, a ansiedade em perceber o que se estava a passar, com os t�nues meios que se podiam usar. O �nico disco que havia naquela casa era de Cat Stevens e eu tinha que o ouvir muito baixo. N�o sei quantas vezes o ouvi, mas foram muitas.

1)
Morning has broken like the first morning,
blackbird has spoken like the first bird.
Praise for them singing, praise for the morning,
praise for them springing, fresh from the world.

(2)
Sweet the rain's new fall sunlit from heaven,
like the first dewall on the first grass.
Praise for the sweetness of the wet garden,
sprung in completeness where his feet pass.

(3)
Mine is the sunlight ! Mine is the morning
born on the one light Eden saw play !
Praise with elation, praise every morning
God's recreation of the new day.


(Cat Stevens / Eleanor Farjeon)

1.1.04
 


IMAGENS

dos �ltimos dias : uma montanha andina de Frank Church, de 1859, uma ponte tirolesa de madeira de Lovis Corinth, o jovem em cima da cama � de Sara Rossberg, de 1985, um ribeiro de Courbet, e um �gobelet d�argent� de Chardin no Ano Novo. � assim, uma poeira de imagens e de coisas, que assenta, pouco a pouco, no branco do ecr�.
 


BIBLIOFILIA 7



Livros que estou a ler, ensaios para tr�s e para a frente, mas que podem ser recomendados em absoluto, mesmo antes de chegar ao fim.

Joan Didion, Political Fictions, Nova Iorque, Vintage International, 2001

Jornalismo pol�tico bem escrito, bem documentado e agressivo. Jornalismo pol�tico de revista, encomendado com anteced�ncia, o que permite aos autores acompanhar o seu tema (um pol�tico, uma campanha, um esc�ndalo) em tempo real. Veja-se o soberbo �Clinton Agonistes�, que come�a assim:

No one who ever passed through an American public high school could have watched William Jefferson Clinton running for Office in 1992 and failed to recognize the familiar predatory sexuality of the provincial adolescent�.

Tanta coisa interessante em Portugal que dava livros destes, o caso D. Branca, o Big Brother, a Casa Pia, e n�o h� nada do g�nero�

Esther de Lemos, Estudos Portugueses, Porto. Elementos Sudoeste, 2003

Apesar do �Esther�, esta senhora, que s� conhecia das publica��es da Uni�o Nacional, colige aqui uma s�rie de ensaios sobre a literatura portuguesa muito interessantes. S�o sobre obras que deixamos de ler, como as Vinte Horas de Liteira de Camilo. Mostram a solidez da cr�tica liter�ria do passado, esquecida nas p�ginas do Com�rcio do Porto, do Graal e do Panorama, sem qualquer paralelo no f�lego te�rico e no cuidado anal�tico, com a dos dias de hoje.

Louis Menand, The Metaphysical Club. A Story of Ideas in Am�rica, Nova Iorque, Farrar, Staruss and Giroux, 2000

Um estudo do enorme impacto da Guerra Civil Americana na hist�ria das ideias at� � Primeira Guerra Mundial.
 


MAIS "UTENTES"

"O que me levou a escrever este coment�rio foi a troca de posts entre os dois [Vital Moreira e JPP] face �s no��es de utente e consumidor, justamente a prop�sito da sa�de. Talvez discorde de ambos, mas vamos por partes.

No plano da utiliza��o das referidas "comiss�es de utentes" , nomeadamente pelo PCP com o intuito exclusivo de aproveitamento de um canal de batalha partid�ria, instrumentalizando as ditas comiss�es, nos casos que conhe�o � boa maneira do PC que conhecemos. Por raz�es profissionais (trabalho em planeamento e desenvolvimento local) dei com casos em que as mesmas pessoas me apareceram em reuni�es do sector da sa�de, do sector dos transportes, etc. sempre como "representantes" da comiss�o de utentes do respectivo sector ou ainda de "amigos do hospital x". N�o posso aqui discordar mais de Vital Moreira na medida em que n�o sendo "a paternidade" das comiss�es de utentes do PCP, aquele partido usa-as , as que pode, como terreno partid�rio e portanto nesse caso n�o s�o "os utentes (...) organizados em "grupos de interesse" com for�a suficiente para contrabalan�ar o peso dos sindicatos de funcion�rios e das ordens profissionais", at� porque, muitas vezes, aquelas pessoas nem sequer s�o "utentes", por exemplo, de transportes p�blicos, mas est�o ali como militantes partid�rios para ocupar, digamos, "tempo de antena". Ora, n�o � disto que o exerc�cio da cidadania precisa, a meu ver, mas sim da participa��o activa dos cidad�os enquanto tal e n�o enquanto militantes funcion�rios de um partido com uma l�gica que nada tem a ver com a l�gica da democracia participativa onde os cidad�os, enquanto tal, exercem direitos e deveres c�vicos (citizenship - no sentido de rela��o jur�dica entre o cidad�o e o Estado) mas ainda, e disso a nossa democracia � ainda mais deficit�ria, de uma cidadania "em ac��o" (citizenry). O trabalho na comunidade local (community work), onde ter�amos muito a aprender com experi�ncias locais enra�zadas em culturas democr�ticas como as do norte da am�rica (EUA e Canad�).

L� fora, para usar a express�o de Vital Moreira, n�o se trata de "comiss�es de utentes", mas sim de cidad�os que assumem na pr�tica, em pleno, essa condi��o, nomeadamente ao n�vel territorial de proximidade aos problemas reais e � vida quotidiana dos mesmos cidad�os, isto �, ao n�vel das respectivas comunidades locais.

No plano dos conceitos de utente e consumidor, no modelo de sociedade e respectiva economia, em que vivemos, � enquanto consumidores que tamb�m deveremos exercer a nossa cidadania e n�o vejo que "venha mal ao mundo" por sermos consumidores, tamb�m de servi�os p�blicos, e nessa condi��o, precisamente, sermos consumidores activos e n�o meros utentes passivos de um servi�o que � visto como obriga��o que o Estado tem em prestar aos "utentes de servi�os p�blicos". Numa sociedade em que os cidad�os t�m tamb�m deveres como contribuintes, entre outros, e a� sim, o Estado tem tamb�m deveres face a esses cidad�os, tendo preocupa��es sociais, nomeadamente, no sentido de conferir poder aos que dele mais afastados est�o. Portanto, independentemente de estar ou n�o de acordo com a forma e o modelo de empresarializa��o dos hospitais - n�o � isso que se discute aqui - julgo que a ideia de menoriza��o do nosso papel de consumidor e de valoriza��o do nosso suposto papel de "utente" � err�nea.

Em primeiro lugar porque o consumidor n�o � um "simples consumidor", mas �, ou deveria ser cada vez mais, isso sim, um consumidor-cidad�o, activo, tamb�m, e por maioria de raz�o, numa economia de mercado, onde o seu papel � crucial ao funcionamento da mesma. Em segundo lugar porque a l�gica do consumo inevitavelmente numa sociedade que nele se baseia estendeu-se igualmente aos servi�os. Certamente que consumir servi�os de sa�de, de educa��o, de cultura, n�o � equivalente de consumir detergentes, mas tamb�m o consumo de obras de arte n�o � equivalente do consumo de dent�fricos, mas nem por isso todos eles deixam de ser pr�ticas de consumo uma vez levadas a efeito no �mbito de uma economia de mercado. E sabemos bem que a produ��o de servi�os de sa�de, educa��o, cultura, etc. se faz, crescentemente, tendo em conta a sua mercadoriza��o, e n�o vejo que, tamb�m por a�, "venha mal ao mundo", assim os crit�rios de concorr�ncia que a tal obrigam sejam claros e pautados pela optimiza��o da qualidade e excel�ncia face � sua procura no mercado por consumidores cada vez mais informados e exigentes.

O que � fundamental � que os direitos e deveres de consumidores e produtores estejam acautelados e que os cidad�os tenham, tamb�m enquanto consumidores, crescente poder. Quanto ao "utente" ele parece-me fazer parte de outra era. Justamente uma era em que o cidad�o era tratado, no "guichet", como mero utente, sem direitos e apenas com obriga��es de rever�ncia face ao Estado. O ideal seria, de facto, caminharmos para uma sociedade de consumidores activos, respons�veis e com poder de exerc�cio activo da sua cidadania. O que precisamos � da express�o organizada dos cidad�os (tamb�m como consumidores de servi�os p�blicos e privados) e n�o de "utentes"...
"

(Walter Rodrigues)

"Sou o Presidente da Direc��o da Associa��o de Utilizadores do IP4 e ser� bom esclarecer a g�nese desta associa��o, e at� do seu nome (que � utilizadores e n�o utentes propositada e precisamente pela ordem de ideias exposta no seu coment�rio de 2"6.12).

O coment�rio de Rui M. � todo ele injusto pela sua generaliza��o e ligeiro at� na identifica��o da comiss�o do IC19 que n�o � de utilizadores mas sim de utentes e isso faz muita diferen�a - at� para se perceber quem � prolongamento e quem n�o �.

A nossa associa��o constituiu-se regularmente por escritura p�blica e tem em andamento o processo do seu reconhecimento legal; nas fichas de ades�o para s�cios recolhemos sugest�es e opini�es de todas as cerca de 1000 pessoas que se associaram; a todas elas envi�mos convocat�rias para a assembleia geral que elegeu os �rg�os socias onde explicit�mos os objectivos estatut�rios da associa��o pelos quais temos regido toda a nossa actividade; todas as folhas de recolha de assinaturas (cerca de 11000) duma peti��o que entreg�mos ao PM tinham o texto completo e o fundamento legal da peti��o; temos as nossas continhas implacavelmente documentadas; a direc��o � composta de um militante partid�rio (eu, efectivamente, que at� me vi a contribuir para um programa eleitoral mais por ser da "sociedade civil" - outro termo bonito - que por ser militante, e mesmo quando enquanto militante at� tenho algum empenho em produzir documentos e propostas; outra boa quest�o: n�o poderiam os partidos abertamente ter actividade nestas causas das associa��es? n�o ser�o elas escapes para o anquilosamento dos partidos?) de resto, na direc��o, � mais um inform�tico paraquedista, uma jurista, um eng.�, um piloto de ralis, um benfiquista e a associa��o de estudantes do Piaget de Macedo de Cav.

Houve no nosso caso um s�rio processo de legitima��o e a meia d�zia de pessoas que constitui a nossa direc��o � gente de bem (n�o � que os militantes do PCP n�o o sejam, claro est�...). A democracia custa a praticar, mas consegue-se, e era bom que Rui M. soubesse que h� quem tente e n�o ande aqui pela imagem, nem cede nos princ�pios. Sendo pertinente a observa��o de Rui M. quanto � legitimidade, porque de facto j� pensei muitas vezes que posso numa entrevista estar a ser apresentado como representante de pessoas que nunca pediram ou quiseram ser representadas por esta associa��o, mas esta pode ser uma quest�o da qualidade do jornalismo que se faz mais que da legitimidade de quem � entrevistado; Dispenso-me de elencar o que tem sido a nossa actividade, as nossas campanhas, as nossas propostas, n�o obstante muitas vezes, por n�o saberem o que fazemos ou dizemos de facto nos ponham na boca palavras que nunca dissemos.

(�)

Rui M. n�o sabe por ex. que nunca fizemos qualquer manifesta��o, qualquer corte de estrada; que todas as nossas iniciativas visaram sempre um prop�sito de sensibiliza��o (por pouco eficaz que esta possa ser). O termo utilizadores foi por n�s propositadamente usado como fuga, como alternativa ao termo utentes e o termo associa��o tamb�m foi propositadamente usado, e legalizado, como alternativa a esse das comiss�es, bastante mais f�ceis de constituir.
O coment�rio dos telefonemas aos jornalistas � tamb�m ele injusto, mas neste caso para os jornalistas, pois pressup�e que os mesmos n�o t�m crit�rio para escolher ou avaliar a credibilidade de quem entrevistam. E no nosso caso at� nem � por telefonemas, � por mail. Dizemos o que vamos fazer, se cobrem a iniciativa cobrem, se n�o cobrem n�o cobrem. O resultado � o mesmo que se n�o tiv�ssemos um milhar de associados, � verdade, mas sabe muito melhor assim, sabe a democracia. E olhe que tamb�m j� prov�mos muitas vezes o sabor � demagogia e o que � curioso � que essa �-nos sempre servida por "democratas" dos partidos (todos, at� do meu)."


(Lu�s Mota Bastos)


 


INTERNET PIMBA

Para os que acreditam que as tecnologias provocam revolu��es sem media��o social, ou seja, sem ser em conjuga��o com os factores sociais que as condicionam, pode-se ver um interessante retrato da Internet atrav�s das procuras mais comuns no Yahoo em 2003. Presumo que os resultados omitem as procuras com termos ligados ao sexo, (que ainda devem ser mais comuns no Google) embora o Yahoo tenha deixado elementos para se perceber a sua import�ncia atrav�s de estat�sticas sobre o caso Paris Hilton que nos enche o correio de spam.
�, s�o as literacias a montante e a jusante que explicam tudo, n�o o mero acesso a novas tecnologias. N�o � s� a televis�o que � pimba.

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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