ABRUPTO |
correio para
jppereira@gmail.com
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31.12.03
10:48
(JPP)
Apenas um hino, o Morning Hymn, de Charles Wesley, e chega. Vai na l�ngua original, mas, mais tarde, vale a pena tentar a tradu��o. Assim seja. Christ, whose glory fills the skies, Christ, the true, the only light, Sun of Righteousness, arise, Triumph o'er the shades of night: Day-spring from on high, be near: Day-star, in my heart appear. Dark and cheerless is the morn Unaccompanied by thee, Joyless is the day's return, Till thy mercy's beams I see; Till thy inward light impart, Glad my eyes, and warm my heart. Visit then this soul of mine, Pierce the gloom of sin, and grief, Fill me, Radiancy Divine, Scatter all my unbelief, More and more thyself display, Shining to the perfect day. * Bom dia! 30.12.03
19:46
(JPP)
PAUL VALERY, AUTOR DE BLOGUE ![]() �Ao ler os TLS que assino, mas raramente tenho o tempo para ter o prazer de os ler, encontrei na edi��o de 14 de Novembro a cr�tica da publica��o dos Cahiers de Val�ry. Durante 50 anos, todos os dias, pela madrugada (entre as 5h00 e as 7h00), Paul Val�ry encheu 260 livros de anota��es, preechendo 28.000 p�ginas. Estas notas, sobre tudo e mais alguma coisa, mostram que Val�ry pode bem ser o maior "early morning blogger" do s�c. XX. Agora, com a edi��o da tradu��o inglesa, de apenas parte do corpus total, talvez se veja, mais uma vez, o renascimento do autor de "Le Cimiti�re mari,�, que parece reaparecer ao sabor de modas liter�rias. Curiosamente, o homem que escreveu "Introdu��o ao m�todo de Leonardo Da Vinci", outro blogger(se considerarmos os seus cadernos de anota��es), nunca conseguiu definir um m�todo de classifica��o dos seus pr�prios Cahiers. Mas entendemos os esfor�o, do poeta que escreveu "Ce qui n�est pas clair, n�est pas fran�ais". Da nova edi��o: �My great work, seems to have been, from the Notebooks, the search for expression of everything through observations of myself. I � without name � I, simple negation � (Not-I).�(C, XXV, 466)� Latinista Ilustre SOBRE O DESTINO DA BIBLIOTECA CRUZ MALPIQUE �Algum familiar (�) do Dr. Cruz Malpique escreveu um desabafo acerca da doa��o feita pelo referido Dr. Cruz Malpique ao ent�o Liceu Nacional Alexandre Herculano de todo o seu esp�lio que ficou num espa�o conhecido como a Biblioteca Cruz Malpique. Sou Professora da agora Escola Secund�ria Alexandre Herculano (no ano passado escola Secund�ria de Alexandre Herculano) resultante da fus�o do "velho Alexnadre" (que sei ter sido o seu "liceu") e do "velho Rainha". Estou nesta Escola h� "apenas" 22 anos (�) Ainda me lembro muito bem do Dr. Cruz Malpique: n�o s� de o ver pelos corredores do "Alexandre" como tamb�m de o ver por estes lados, no "Foco" onde, creio, morava! A BIblioteca Cruz Malpique foi sempre um espa�o tido em grande considera��o na Escola. Foi sempre um espa�o bem cuidado, nunca esquecido mas talvez n�o se tenha feito uso dele como o teria querido o Dr. Cruz Malpique: aberto � comunidade discente para que esta pudesse ter acesso a toda a informa��o a� guardada. A partir deste ano lectivo, data de uma reformula��o total de Escola a n�vel de comunidade escolar e de log�stica interna, foi com muito agrado que vi este espa�o t�o bonito ser a sala de estar da Escola Secund�ria de Alexandre Herculano e n�o s�! � nesta Biblioteca que se realizam as sess�es do Conselho Pedag�gico da nossa Escola e creio que, muito brevemente, ir� ser posta ao acesso dos alunos tamb�m mantendo-se assim viva a vontade do Dr. Cruz Malpique. Hove tamb�m, h� muito pouco tempo, uma Feira do Livro a n�vel de escola que teve lugar neste espa�o. " (Manuela Pimenta ) .
14:10
(JPP)
publicadas na Uni�o Indiana nos anos cinquenta. A quem interessar, coloquei alguns exemplos nos Estudos sobre Comunismo.
10:53
(JPP)
No Causa Nossa, Vital Moreira criticou a nota �Utentes� do Abrupto. Aqui fica um extracto da argumenta��o, que vale a pena ler no seu conjunto: "Francamente, n�o percebo a condena��o. O termo "utente" � desde h� muito a designa��o corrente e oficial dos benefici�rios dos servi�os p�blicos, entre n�s e l� fora. As leis da sa�de est�o cheias do termo "utentes". A recente lei da entidade reguladora da sa�de utiliza a no��o nada menos do que 13 vezes. E n�o � nenhuma excep��o. Ao contr�rio do que sustenta JPP, existe uma diferen�a essencial entre "utente" e "consumidor", pois aquele designa justamente os que recorrem aos servi�os p�blicos, enquanto o segundo denomina os aquisidores finais de produtos mercantis.� Rui M. escreve sobre o mesmo termo e o seu uso: �S�o comiss�es de utentes, comiss�es de utilizadores etc. Sem d�vida puro PCP, mas quem �legitima� esta realidade � a comunica��o social. Quando meia d�zia de pessoas fazem uma manifesta��o e intitulam-se (por exemplo) Comiss�o de utilizadores do IC19 e isso � repetido at� � exaust�o por tudo que � televis�o, jornal ou r�dio, de repente milhares de cidad�os est�o supostamente representadas por meia d�zia de pessoas sem que tenha havido qualquer processo de legitima��o dessa representa��o. O mais interessante � que o legislador pensou e criou na lei este tipo de associa��o, mas � mais f�cil reunir algumas pessoas e fazer uns telefonemas para alguns jornalistas, o resultado � o mesmo.�
10:16
(JPP)
Por lembran�a do Vasco Gra�a Moura, aqui ficam os galos, os mesmos galos que ou�o pela manh�. Olhando para baixo, depois de um campo que se transforma em lago no inverno, vejo a terra de Rui Belo, cortada por uma estrada mort�fera, a que v�m dar as colinas que cerram o vale. Como todas as estradas portuguesas, vai-se pouco a pouco enchendo de restaurantes, parques de autom�veis � venda (uma novidade dos �ltimos anos), a ocasional f�brica de concentrado de tomate (espanhola), que trabalha s� sazonalmente. Os restos apodrecem como o menino de sua m�e: lagares, adegas abandonadas, quintas antigas entregues ao mato, ru�nas do tempo em que o vinho era o senhor do Ribatejo. Velharias � o que mais h� e os antiqu�rios passam, predando os montes de cadeiras partidas, pias de pedra, �nforas, arcas, os mil e um objectos j� sem fun��o, pesos, medidas, gigantescos funis, alguidares, alambiques. Aqui e ali, roseiras espl�ndidas sobrevivem. OS GALOS J� os galos tilintam na manh� numa m�ltipla voz aonde vibra a voz de dedos em cristais mais que dedais de dedos na mais fina porcelana J� os galos tilintam na manh� h� j� p�o mole e lombo assado nas primeiras lojas se voltamos dos touros e sentimos fome e mais que o p�o nos sabe o p�o quebrar nos dentes em vendas novas era ainda vivo o Carlos vivo agora na voz que a madrugada envia �s dunas deste dia mais que o tempo se escondia nos revela talvez timidamente mas decerto sabiamente J� os galos � beira do mais puro amanhecer que touca o c�u da mais fina das f�mbrias pouco antes de acender os m�ximos o sol esse infractor do c�digo da estrada que nem mesuro em cima de n�s procede � muta��o da luz j� os galos que s�o o s�mbolo da voz que abre e logo quebra numa ab�bada de �nfora moem os n�s da voz na f�mbria da manh� A esta hora de equil�brio luminar os galos s�o os r�gidos e estritos observantes do ritual restrito da destrui��o quando de crista erguida uns aos outros passam a vida �nica v�tima afinal a imolar S� quando se consome a vida se mant�m e sei agora como o sabem bem esses tenores sapientes saborosos exigentes que t�m na garganta a m�sica dif�cil que precede o abrir do novo dia Madrugai galos madrigais de madrugadas � galos � manh� � vida � nada (Rui Belo) 29.12.03
23:29
(JPP)
![]() Isto das idades, das idades relacionadas com o sexo e o amor, � , sabe-se, muito complicado. Vamos, nos pr�ximos meses, ter � saciedade, discuss�es sobre o sexo e a idade, consentimento ou falta dele, crian�as a comportarem-se como adultos e adultos a comportarem-se como predadores. Muito complicado. Tenho-me lembrado muitas vezes como na literatura portuguesa, quando havia inoc�ncia ou falta dela, as idades ro�avam a perigosa pedofilia. O Carlos e a Joaninha de Garrett, diz Silva Carvalho, parece pedofilia. Ele gostava demasiado de a ver saltar para o seu colo com seis anos. Camilo Castelo Branco (que se casou com 16 anos) fez a Teresa do Amor de Perdi��o com 15. Que a coisa n�o era inequ�voca percebeu-o o autor que abriu uma excep��o para a sua hero�na: "Os poetas cansam-nos a paci�ncia a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paix�o perigosa, �nica e inflex�vel. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze anos � uma brincadeira; � a �ltima manifesta��o do amor �s bonecas; � a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-m�e, que a est� da fronde pr�xima chamando: tanto sabe a primeira o que � amar muito, como a segunda o que � voar para longe. Teresa Albuquerque devia ser, porventura, uma excep��o no seu amor." Na poesia, lembro-me desta mesma ambiguidade. Castilho, que tinha a desculpa de ser cego, fazia a coisa aos treze anos: �J� tenho treze anos, que os fiz por Janeiro; madrinha, casai-me com Pedro Gaiteiro.� E Machado de Assis lembrando-se de uma Menina e Mo�a (com que idade a teriam levado de casa dos seus pais?) e tendo dois olhos, sabia-a Est� naquela idade inquieta e duvidosa, Que n�o � dia claro e � j� o alvorecer; Entreaberto bot�o, entrefechada rosa, Um pouco de menina e um pouco de mulher. (�) � que esta criatura, ador�vel, divina, Nem se pode explicar, nem se pode entender: Procura-se a mulher e encontra-se a menina, Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher! Por a� adiante. Muito complicado.
22:27
(JPP)
A prop�sito da minha nota sobre o Cabedelo e o Rio Douro, Manuel Matos recorda este texto de Fanny Owen de Agustina: �O rio Douro n�o teve cantores. Teve-os o Mondego e o Tejo tamb�m. Mas, para al�m das cristas do Mar�o, em vez do ala�de e da guitarra havia o repique dos sinos ou o seu dobrar espa�ado. Havia o tiro certeiro dos ca�adores de perdiz, l� pelas bandas da Muxagata e do Cach�o da Valeira. E o clarim das guerrilhas ouvia-se atrav�s da poeira de neve que cobria os barrancos de Sabroso. O rio Douro ficou banido da l�rica portuguesa com a sua catadura feroz pouco pr�pria para animar os gorjeios dos bernardins, que s�o sempre lamurientos e que � beira de �gua lavam os p�s e os pecados. E, no entanto, trata-se de um rio majestoso como n�o h� outro. Eu vi-o em Zamora e n�o o reconheci; diz-se que as margens eram carregadas de pinheiros e da� o seu nome dum que quer dizer madeira. Mas entra em Portugal � m� cara. Enovela o caudal sobre penhascos, muge e ressopra como um touro com molhelha de couro preto a subir uma cal�ada. N�o creio que os poetas o habitem; e, no entanto, Dante t�-lo-ia amado e preferido; como preferiu os estaleiros incandescentes de Veneza e os t�mulos abertos das arenas de Arles, para descrever o inferno. Por c�, s�o brandas as liras; com o aguilh�o da fome, �s vezes saltam umas revoltas que vibram na Cal�ope alguma bordoada. Com o ferr�o do amor, n�o se cometem sen�o delitos em forma de soneto ou de sextilhas. Epopeias s�o raras, as musas s�o mimosas e n�o ardentes.�
12:28
(JPP)
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09:16
(JPP)
Estas �Contrariedades� de Ces�rio Verde parecem o acordar de muitos bloguistas, azedos e zangados com a import�ncia que o mundo lhes d�. O poema � t�o certeiro, t�o certeiro, sobre as nossas mediocridades combatentes, que n�o resisto em amanhecer com ele. Bom dia! NATURAIS - CONTRARIEDADES Eu hoje estou cruel, fren�tico, exigente; Nem posso tolerar os livros mais bizarros. Incr�vel! J� fumei tr�s ma�os de cigarros Consecutivamente. D�i-me a cabe�a. Abafo uns desesperos mudos: Tanta deprava��o nos usos, nos costumes! Amo, insensatamente, os �cidos, os gumes E os �ngulos agudos. Sentei-me � secret�ria. Ali defronte mora Uma infeliz, sem peito, os dois pulm�es doentes; Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes E engoma para fora. Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! T�o l�vida! O doutor deixou-a. Mortifica. Lidando sempre! E deve a conta � botica! Mal ganha para sopas... O obst�culo estimula, torna-nos perversos; Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, Por causa dum jornal me rejeitar, h� dias, Um folhetim de versos. Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta No fundo da gaveta. O que produz o estudo? Mais duma redac��o, das que elogiam tudo, Me tem fechado a porta. A cr�tica segundo o m�todo de Taine Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa Muit�ssimos pap�is in�ditos. A imprensa Vale um desd�m solene. Com raras excep��es merece-me o epigrama. Deu meia-noite; e em paz pela cal�ada abaixo, Um sol-e-d�. Chuvisca. O populacho Diverte-se na lama. Eu nunca dediquei poemas �s fortunas, Mas sim, por defer�ncia a amigos ou a artistas. Independente! S� por isso os jornalistas Me negam as colunas. Receiam que o assinante ing�nuo os abandone, Se forem publicar tais cousas, tais autores. Arte? N�o lhes conv�m, visto que os seus leitores Deliram por Zaccone. Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, Obt�m dinheiro, arranja a sua coterie; E a mim, n�o h� quest�o que mais me contrarie Do que escrever em prosa. A adula��o repugna aos sentimentos finos; Eu raramente falo aos nossos literatos, E apuro-me em lan�ar originais e exactos, Os meus alexandrinos... E a t�sica? Fechada, e com o ferro aceso! Ignora que a asfixia a combust�o das brasas, N�o foge do estendal que lhe humedece as casas, E fina-se ao desprezo! Mant�m-se a ch� e p�o! Antes entrar na cova. Esvai-se; e todavia, � tarde, fracamente, Oi�o-a cantarolar uma can��o plangente Duma opereta nova! Perfeitamente. Vou findar sem azedume. Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, Conseguirei reler essas antigas rimas, Impressas em volume? Nas letras eu conhe�o um campo de manobras; Emprega-se a r� clame, a intriga, o an�ncio, a blague, E esta poesia pede um editor que pague Todas as minhas obras... E estou melhor; passou-me a c�lera. E a vizinha? A pobre engomadeira ir-se-� deitar sem ceia? Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. E feia Que mundo! Coitadinha! (Ces�rio Verde) 28.12.03
11:06
(JPP)
Ou�o de Ant�nio Caldara a orat�ria Maddalena ai piedi di Cristo. O autor � veneziano, os cantores e o maestro da Schola Cantorum Basiliensis. O original da orat�ria est� na Biblioteca Nacional de Viena, o quadro que ilustra o disco � de Quentin Massys, um flamengo, e est� num museu em Berlim. A editora do disco tem um nome em latim, Harmonia Mundi, e � francesa. As personagens da orat�ria incluem, para al�m de Madalena e Cristo, um �Amor Terrestre� e um �Amor Celeste� que falam em italiano. � a �velha Europa� no seu apogeu, s� que com uma pequena incongru�ncia bastante mais importante do que a geografia: Cristo e Madalena s�o orientais, levantinos. Esquecemo-nos. 27.12.03
10:30
(JPP)
Para as minhas �rvores, �wise trees�, preparadas para o inverno, de William Carlos Williams este poema: All the complicated details of the attiring and the disattiring are completed! A liquid moon moves gently among the long branches. Thus having prepared their buds against a sure winter the wise trees stand sleeping in the cold.
02:05
(JPP)
Foram-se atrasando por estes dias. Aqui fica a lista no sentido em que se l� o blogue: do presente para o passado: Os barcos saindo (para as Am�ricas?) s�o para Caspar David Friedrich, �Lebenstufen�, as idades da vida. Pintou-os (as) em 1830. De Flores van Dijck , natureza morta com queijos, que foi a nossa mesa de Natal. O velho que se afasta � uma cena de primavera na Jutl�ndia de A. L. Ring de 1892. Skagen de novo. O pequeno almo�o � Hockney � um postal de s�rie de P. Renaud / P. Buisson, bonitinho com as cores estivais, decorativo mas sem grande valor. O Tamisa em Chiswick, �the quiet river� , de Victor Pasmore de 1942-3, mostra a tardia presen�a de Whistler , ou a impossibilidade da paisagem inglesa sem Turner. O patinador � o Reverendo Robert Walker, pintado por Henry Raeburn no final do s�culo XVIII, a planar num lago qualquer da Esc�cia. No Guardian saiu um artigo sobre esta pintura ir�nica. As flores de boas festas s�o de um bordado a seda de Jean Revel, feito em Lyon por volta de 1735. Num pequeno porto de pesca, o �velho cais� St. Andrews � de Myles Birker Foster. A lareira com objectos � de Ann Redpath e foi pintada por volta de 1944. Como o quadro de Pasmore, um anacronismo. A cara riscada � de Arnulf Rainer, Gloria, 1971. E, por fim, a noite estrelada de Van Gogh de 1888. J� n�o h� estrelas assim. 26.12.03
22:17
(JPP)
Mas que nome mais absurdo para chamar a uma pessoa que est� doente e que precisa de tratamentos m�dicos, e que por isso vai a um hospital! Esta dos "utentes" e das "comiss�es de utentes" � puro PCP, que as usa como um prolongamento da ac��o pol�tica e sindical, em particular dirigida contra os hospitais privados. Os hospitais que tratem bem dos doentes, e deixem l� os "utentes": os doentes s�o pessoas, os "utentes" s�o consumidores ...
22:08
(JPP)
A espantosa inefic�cia do nosso Estado, onde ele devia funcionar para proteger o bem p�blico, est� patente numa s�rie de reportagens passadas a esta hora pela RTP2, intitulada Planeta Azul, e cujo respons�vel � Ant�nio Marques . Os filmes s�o not�veis pela sua modera��o, nada de radicalismo ambientalista, imagens e coment�rio sereno e informado. Trata-se de uma s�rie de filmes sobre a completa ilegalidade e impunidade de actividades como as pedreiras e os areeiros n�o autorizados, diante dos olhos de toda a gente, pura economia paralela, sem impostos nem lei, destruindo recursos naturais, e deixando o ambiente alterado, a paisagem devastada, as �guas polu�das. Ningu�m parece responsabilizar-se por uma actividade pesada, feita com escavadoras e cami�es de muitas toneladas, em pleno dia, t�o evidentemente ilegal que as autoridades ouvidas apenas balbuciam de coniv�ncia ou impot�ncia. Depois de ver estes filmes, como pode algu�m alegar desconhecimento? C�maras? Direc��es-gerais e burocracia do Estado? Pol�cias? Finan�as? Governo? N�o podem.
11:12
(JPP)
O Douro � o meu rio, e uma vez por ano aqui venho ganhar for�a moral. Nem pensamentos, nem sensa��es, nem �viagens interiores�, for�a moral, se � que eu sei o que isso �. Olha-se o rio, no fim do seu curso turbulento, a acabar aqui, como quem n�o quer a coisa, e enche-se o corpo de determina��es, deveres, obriga��es. Cruel, n�o �, este Douro? Este � o meu rio. Devia ir ver o Eug�nio, mas n�o fui. Est� uma luz imensa, o brilho do inverno brilhando sem limites, transportado pelo frio. A mar� est� muito baixa, acho at� que nunca a vi t�o baixa. As pedras trai�oeiras, que mataram muita gente na barra do Porto, est�o � vista com o seu dorso negro. N�o h� uma gota de vento, se o vento fosse �gua estava todo bem dentro do rio. No c�u, um enorme X feito pelos avi�es, um dos bra�os perdia-se para o lado das Am�ricas. � o bra�o do desejo. As pessoas s�o as mesmas de sempre, os fi�is do Cabedelo. Um pai, passeando muito devagar com um filho, tentando que o olhar dele passe pela m�o para o corpo pequeno que disciplinadamente alinha o passo com o corpo grande. Depois, o povo das casas pequenas, o povo envelhecido do Douro Faina Fluvial, que ainda se encontra nos caf�s da Foz, empurrado pelos condom�nios de luxo que, de cima, da colina, v�o pouco a pouco tomando conta de tudo. Pescadores de fim de semana que v�o para o molhe, os velhos pescadores da Foz do Douro, os antigos carpinteiros e calafates do pequeno estaleiro que havia junto ao rio. N�o h� mulheres no Cabedelo, e os homens do s�tio conhecem-se � dist�ncia pela cara e pelas m�os: cara cortada pelo vento, nariz corro�do pelo �lcool, m�os que j� pegaram em tudo. Hoje, quem v� este rio, calmo, pequeno pela mar� baixa, n�o diz nada do que ele vale. Rio sinistro, rio profundo, rio mortal, rio primordial. Para o ano, se houver rio, voltarei.
10:20
(JPP)
Uma manh� shakespeareana para recome�ar de novo o quotidiano, ap�s esta excep��o perturbadora do Natal: Full many a glorious morning have I seen Flatter the mountain-tops with sovereign eye, Kissing with golden face the meadows green, Gilding pale streams with heavenly alchemy; Anon permit the basest clouds to ride With ugly rack on his celestial face And from the forlorn world his visage hide, Stealing unseen to west with this disgrace. Even so my sun one early morn did shine With all-triumphant splendour on my brow; But out, alack! he was but one hour mine; The region cloud hath mask'd him from me now. Yet him for this my love no whit disdaineth; Suns of the world may stain when heaven's sun staineth. (Shakespeare) * Bom dia! 24.12.03
11:58
(JPP)
Tardios, mas neste dia de pr�-Natal, fi�is � �nica coisa que nunca acaba: o tempo. De Jo�o Cabral de Melo Neto, A m�o daquele martelo nunca muda de compasso. Mas t�o igual sem fadiga, mal deve ser de oper�rio; ela � por demais precisa para n�o ser m�o de m�quina, a m�quina independente de opera��o oper�ria. De m�quina, mas movida por uma for�a qualquer que a move passando nela, regular, sem decrescer: quem sabe se algum monjolo ou antiga roda de �gua que vai rodando, passiva, gra�ar a um fluido que a passa; que fluido � ningu�m v�: da �gua n�o mostra os sen�es: al�m de igual, � cont�nuo, sem mar�s, sem esta��es. E porque tampouco cabe, por isso, pensar que � o vento, h� de ser um outro fluido que a move: quem sabe, o tempo. * Bom dia! Bom Natal! 23.12.03
21:50
(JPP)
Muitos dos mais originais e interessantes portugueses, loucos ou perseverantes, exc�ntricos ou normal�ssimos, morrem sem sequer n�s sabermos que morreram. Fora da luz p�blica, fora das celebridades de quinze minutos, fora das revistas de todas as modas, em particular das liter�rias e culturais, vidas inteiras desaparecem num esquecimento, nem sempre desejado. Foi o que aconteceu, perante a ignor�ncia e a indiferen�a geral, a Orlando Vitorino e ao embaixador Humberto Morgado. N�o conheci o primeiro pessoalmente, mas recordo-me de uma entrevista televisiva em que ele respondia com grande rigor te�rico e lexical aos disparates de uma jornalista, com um mau feitio soberbo e magn�fico que Vitorino cultivava. A coisa acabou mal, como n�o podia deixar de ser, com o homem que era uma combina��o de reaccion�rio e anarquista t�o radical que dificilmente comunicava com o comum dos mortais. Adepto da �filosofia portuguesa�, acabou candidato � Presid�ncia da Rep�blica sem honra nem gl�ria. Soube, por um testemunho, que nos seus �ltimos dias continuava completamente l�cido e articulado, s� que o que pensava e dizia nada tinha a ver com qualquer realidade actual, como se tivesse ficado numa esp�cie de limbo a-hist�rico por cima de todas as nuvens. Se calhar foi toda a vida assim, s� que ningu�m deu por ela. Talvez ele. O embaixador Morgado conheci nos trabalhos para o livro sobre Cunhal, com a fama de �embaixador vermelho�, elegante como s� os homens antigos, falando com uma voz suave e senhor de uma mem�ria clar�ssima. Falava da sua gera��o, apanhada nos dilemas pol�ticos dos anos trinta, ele que fora membro do Bloco Acad�mico Anti-Fascista, e dos factos de que tinha sido uma rara, sen�o �nica, testemunha portuguesa, como a guerra civil chinesa entre comunistas e nacionalistas. Sentia-se nele uma nostalgia muito calma, quase dir�amos diplom�tica, como se negociasse com as suas mem�rias juvenis um qualquer tratado de apaziguamento, uma mansid�o procurada, que prescindia de revolta com a injusti�a que sentia no fim prematuro da sua carreira.
13:41
(JPP)
O ContraFactos & Argumentos tem a seguinte entrada : "Contas secretas em Portugal: the recent trip of Imelda Marcos to European destinations in October was not due to medical reasons but to check on her family�s deposits in European banks. [...] the Marcos family still maintains several secret accounts in European banks, particularly in London and Portugal." Acontece que eu viajei recentemente com a senhora Marcos, numa viagem de avi�o a partir de Lisboa, em que, com a minha excep��o, ela e a sua corte ocupavam a classe executiva. Era um espect�culo digno de se ver. A senhora vinha acompanhada por um senhor alto e com porte militar, ambos muito discretos e sem praticamente falarem nem um com o outro, nem com ningu�m. A Senhora dos Sapatos � uma figura marcante, imponente, daquelas pessoas que se percebe estarem habituadas a mandar como quem respira. Atr�s vinham duas aias, ou damas de companhia, ou criadas, e um seguran�a. N�o se percebia bem a qualidade das senhoras, mas a dama levantava um dedo e uma ia logo falar-lhe e fazer qualquer coisa que ela pedia. Era uma cena oriental ou antiga, na Europa j� n�o h� disto.
13:20
(JPP)
Uma coisa que nunca tinha visto: numa festa televisiva na cadeia, � Jo�o Bai�o que anuncia a um grupo de presos que eles v�o ser libertados. J� se namora, se casa, se vive (no Big Brother), se nasce (o ultimo filho da �gata esteve para nascer em directo), se julga, se reconcilia parentes desavindos ou perdidos, se prende, se faz tudo dentro de um programa de televis�o. Ainda n�o se morre porque se presume que s� ter� audi�ncias a primeira vez, mas mesmo isso vir�. A televis�o como ersatz � o pren�ncio das vantagens da virtualidade como "realidade" para os pobres. Os pobres far�o tudo "virtualmente", os ricos poder�o pagar a realidade. O problema � saber quanto tempo falta at� sermos incapazes de distinguir.
10:46
(JPP)
Uma manh� tecida pelos galos de Jo�o Cabral de Melo Neto, para esta brilhante manh� de pr�-Natal, com um c�u muito azul e sem r�stia de vento: TECENDO A MANH� Um galo sozinho n�o tece uma manh�: ele precisar� sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manh�,desde uma teia t�nue, se v� tecendo, entre todos os galos. 2 E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manh�) que plana livre de arma��o. A manh� toldo de um tecido t�o a�reo que, tecido, se eleva por si: luz bal�o. Jo�o Cabral de Melo Neto * Bom dia!
10:17
(JPP)
![]() Li um muito interessante ensaio de Eduardo Pitta que saiu recentemente em op�sculo intitulado A Fractura. A condi��o homossexual na literatura portuguesa contempor�nea, Angelus Novus Editora, 2003. O autor identifica os momentos e os autores, homossexuais ou n�o, em que a homossexualidade surge na literatura portuguesa. E s�o bastantes: Pessoa, S� Carneiro, Botto, Eug�nio de Andrade, Gaspar Sim�es, Cesariny, Luiz Pacheco, Al Berto, Ant�nio Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalh�es, Frederico Louren�o, entre outros. Faltam alguns que teria interesse ver analisar como, por exemplo, Pedro Homem de Mello, um poeta com uma obra irregular mas em que brilham meia d�zia de grandes poemas de clara inspira��o homossexual. Escrito numa linguagem mais tensa do que � habitual num ensaio liter�rio, formulando uma tese inicial que depois fica dilu�da no texto (sobre a dificuldade de aplicar ao caso portugu�s o padr�o da literatura gay americana), o ensaio enuncia as rela��es do relato homossexual na literatura com uma ��tica da desobedi�ncia�, a pretexto de Cesariny. Revela tamb�m alguns temas favoritos do desejo homossexual nacional, como o do �magala�, dando primazia � tropa de ch�o em vez da do mar, tradicionalmente com mais presen�a na literatura da homossexualidade. Vale a pena ler. 22.12.03
10:39
(JPP)
Hoje, mais leve, depois do Larkin, Wednesday Morning, 3. AM, de Simon e Garfunkel: I can hear the soft breathing Of the girl that I love, As she lies here beside me Asleep with the night, And her hair, in a fine mist Floats on my pillow, Reflecting the glow Of the winter moonlight. She is soft, she is warm, But my heart remains heavy, And I watch as her breasts Gently rise, gently fall, For I know with the first light of dawn I'll be leaving, And tonight will be All I have left to recall. Oh, what have I done, Why have I done it, I've committed a crime, I've broken the law. For twenty-five dollars And pieces of silver, I held up and robbed A hard liquor store. My life seems unreal, My crime an illusion, A scene badly written In which I must play. Yet I know as I gaze At my young love beside me, The morning is just a few hours away. Bom dia!
10:29
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![]() Estou a ler, de Gore Vidal, Inventing a Nation. Washington, Adams, Jefferson, editado pela Yale University Press. No fim, direi alguma coisa menos impressionista, mas o livro � desde j� recomend�vel. Para al�m de ser escrito sobre um grupo de pessoas a todos os t�tulos excepcional, a iconoclastia de Vidal �, como dizem os ingleses, refreshing. A pol�tica de Vidal � um pouco como a de Michael Moore, mas Vidal escreve muito bem, o que faz toda a diferen�a. 21.12.03
10:43
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![]() Come�ou pelas letras das m�sicas matinais e pela procura da letra perdida do �Early Morning Blues� de Nat King Cole, de que tenho um disco em que ele canta, mas em que penso que h� um erro na numera��o das can��es. O meu leitor Jiminy Cricket fez ali�s consultas a v�rios locais especializados e n�o encontrou nada. Nat King Cole s� tocava e n�o cantava e por isso, desde o in�cio, por ironia, os �early morning� assentam num equ�voco de n�meros. Das can��es passou-se para os poemas, e a manh�, triste e gloriosa, marcava a aurora destas pequenas letras electr�nicas. Muitos leitores colaboraram e colaboram na sua escolha e h� poemas para mais cem manh�s. Os �early morning blogs� continuar�o, desviando ocasionalmente para todos os lados, semper fidelis a uma const�ncia e persist�ncia dos actos, que faz parte da �filosofia da alcova� do autor. Hoje h� um belo e duro poema, Aubade de Philip Larkin. Por coincid�ncia, falei sobre ele, no ex�lio da semana passada, com VGM, e um leitor dedicado, Jo�o Costa, enviou-o. Para servir os aug�rios da coincid�ncia, aqui est�, �work has to be done�. Aubade I work all day, and get half-drunk at night. Waking at four to soundless dark, I stare. In time the curtain-edges will grow light. Till then I see what's really always there: Unresting death, a whole day nearer now, Making all thought impossible but how And where and when I shall myself die. Arid interrogation: yet the dread Of dying, and being dead, Flashes afresh to hold and horrify. The mind blanks at the glare. Not in remorse - The good not done, the love not given, time Torn off unused - nor wretchedly because An only life can take so long to climb Clear of its wrong beginnings, and may never; But at the total emptiness for ever, The sure extinction that we travel to And shall be lost in always. Not to be here, Not to be anywhere, And soon; nothing more terrible, nothing more true. This is a special way of being afraid No trick dispels. Religion used to try, That vast, moth-eaten musical brocade Created to pretend we never die, And specious stuff that says No rational being Can fear a thing it will not feel, not seeing That this is what we fear - no sight, no sound, No touch or taste or smell, nothing to think with, Nothing to love or link with, The anasthetic from which none come round. And so it stays just on the edge of vision, A small, unfocused blur, a standing chill That slows each impulse down to indecision. Most things may never happen: this one will, And realisation of it rages out In furnace-fear when we are caught without People or drink. Courage is no good: It means not scaring others. Being brave Lets no one off the grave. Death is no different whined at than withstood. Slowly light strengthens, and the room takes shape. It stands plain as a wardrobe, what we know, Have always known, know that we can't escape, Yet can't accept. One side will have to go. Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring In locked-up offices, and all the uncaring Intricate rented world begins to rouse. The sky is white as clay, with no sun. Work has to be done. Postmen like doctors go from house to house. Philip Larkin 20.12.03
21:06
(JPP)
j� realizadas: actualiza��o dos arquivos, alinhamento do texto e imagens com o t�tulo na p�gina vis�vel.
20:05
(JPP)
e perigosa, a cena dos jornalistas da televis�o e operadores de c�mara, a perseguir, a alta velocidade, a carrinha onde seguia o embaixador Ritto para a pris�o. N�o h� qualquer conte�do informativo na cena, que claramente viola todas as leis de tr�nsito e p�e desnecessariamente em perigo os profissionais da televis�o e quem estiver na rua. Vale tudo.
12:32
(JPP)
![]() a todos. "N�o descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. "O qu�, por caminhos t�o estreitos?..." Mas s� h� um mundo. A felicidade e o absurdo s�o dois filhos da mesma terra. S�o insepar�veis. O erro seria dizer que a felicidade nasce for�osamente da descoberta absurda. Acontece tamb�m que o sentimento do absurdo nas�a da felicidade. "Acho que tudo est� bem", diz �dipo, e essa frase � sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem. Ensina que nem tudo est�, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfa��o e o gosto das dores in�teis. Faz do destino uma quest�o do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de S�sifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo � a sua coisa." (Camus)
11:18
(JPP)
Alguns trabalhos de manuten��o, melhoria gr�fica, coloca��o de arquivos em linha, actualiza��o do correio, est�o a ser feitos para desenvolver o Abrupto. Daqui a pouco, ainda hoje, voltamos. 19.12.03
18:06
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16:42
(JPP)
"S� agora � que vi a correspond�ncia da nossa amiga Am�lia Pinto Pais e o soneto que V. publicou. Ela tem raz�o, a meu ver: o soneto n�o tem aquele quid camoniano, a provocar a "guinada" que refiro no meu texto que ela cita. � com certeza mais tardio, mais acabadinho e mais preocupado com uma satura��o mais ou menos engenhosa e for�ada de repeti��es anaf�ricas, oposi��es e simetrias com que o Cam�es nunca se teria importado t�o sistematicamente... E sobretudo n�o tem tens�o de nenhuma esp�cie entre as suas v�rias partes. Joga com os conceitos, mas n�o os faz viver expressivamente, nem tem aquele toque de experi�ncia vivida que teria se fosse do grande Lu�s... Provavelmente, como diz a A.P.P., � do Baltasar Esta�o. " (Vasco Gra�a Moura) �Colocou, creio que ontem-pelo menos eu dei-me conta ontem - no seu blogue um soneto que indicou ser de Cam�es. Gostei do soneto, mas n�o me 'cheirou' muito a que fosse de Cam�es, antes de algu�m mais claramente maneirista (Cam�es tamb�m o foi, em parte e sabemo-lo desde os estudos de Jorge de Sena e de Aguiar e Silva) ou mesmo do Barroco. Como sabe a quest�o do c�none da L�rica de Cam�es n�o est� nem nunca esteve clarificado e receio bem que em Portugal nunca venha a ser feito estudo s�rio sobre tal, que implicaria vasta equipa de investigadores e o percorrer, nomeadamente, os cancioneiros de m�o, sobretudo espanh�is, dos s.XVI e XVII. O seu amigo e meu conhecido e estimado Vasco da Gra�a Moura desenvolveu num saboros�ssimo poema a respeito do O dia em que nasci moura e pere�a a sua interessante teoria do abalo (contra a a qual nada tenho, ali�s...): de que um soneto ou poema de Cam�es � sempre um poema de Cam�es e d� sempre um abalo...por isso ele entendia ser o referido soneto de Cam�es, ao contr�rio do Aguiar e Silva... Em suma: hoje, e at� prova em contr�rio, tem-se como assente de que, apesar de tudo, a edi��o mais fidedigna das Rimas � a de Costa Pimp�o(que infelizmente tive como professor e com quem nada aprendi, antes pelo contr�rio...- felizmente tamb�m tive o Aguiar e Silva). Tenho outras edi��es da L�rica e numa delas aparece,de facto, o soneto que refere - na de M.de Lurdes Saraiva para Imprensa Nacional (1980).L� se diz, contudo,no II volume, p�g. 450 que o soneto foi �Publicado por Juromenha.* Figura no Cancioneiro de Fernandes Tom�s como sendo da autoria de Baltazar Esta�o.Foi editado entre as poesias deste autor em 1604, motivo que levou Carolina Michaelis a rejeitar a introdu��o no corpus camoniano. Nenhum dos editores modernos o inclui. Tema e forma levam a inseri-lo entre os lugares comuns da �poca. Nada no poema permite atribui-lo a Cam�es.� A referida autora acrescenta em nota que �Juromenha publicou, em nota, um soneto espanhol se tema e estrutura id�nticos, que encontrou num manuscrito do s�culo XVII, e que tem como incipit �Con tiempo passa el a�o, mes y hora�. *edi��o de Juromenha:1860-1868 (nota minha) Estas coisas tornam-se dif�ceis de aclarar enquanto n�o houver, de facto, uma edi��o definitiva...O Aguiar e Silva discute amplamente a quest�o do c�none camoniano no livro Cam�es:Labirintos e Fasc�nios -editado pela Cotovia em 1994 - livro que vale a pena ser lido, nomeadamente, e entre outros, pela an�lise que nele se faz da Ilha de V�nus. Bem...em suma: a mim n�o me provocou o tal �abalo�...e penso mesmo que o soneto n�o � de Cam�es...talvez, sim, de Baltazar Esta�o. (...) s� h� verdadeira certeza de autoria daquilo que vem na 1�edi��o das Rimas, a de 1595 -mesmo essa, como se v�, p�stuma.� (Am�lia Pais) 18.12.03
10:03
(JPP)
A principal conspira��o contra o meu sono, pass�vel de se falar num blogue, � a BBC Learning. Mais um engano do professor Marcelo, que acha que sabe como eu ocupo as noites. Adiante. Ontem , era alta a madrugada, passava um filme sobre Nancy Mitford, a mais literata das irm�s Mitford. As irm�s s�o de facto curiosas, duas eram nazis, uma comunista, e a outra, proto-comunista, gostava de um franc�s gaullista que era feio, tinha m� pele e lidava mal com os excessos de "infatuation" da senhora. Todas traziam da sua in�til vida aristocr�tica a mesma incapacidade de fazer qualquer coisa sem a transformar numa "joke", sendo todas as coisas "muito": muito nazis, muito comunistas e muito amantes da Fran�a tricolor. Descobri-as atrav�s da mais improv�vel (minto, a mais improv�vel seria de facto Unity), a comunista Jessica Mitford, de cujos livros, inevitavelmente divertidos, sobre a vida no Partido Comunista Americano, fiz uma recens�o h� muitos anos. O seu mundo � muito brit�nico e quase inexport�vel, com uma mistura de sofistica��o viperina e elegante, com uma quase aus�ncia de educa��o formal. O pai, Lord Redesdale, achava que as mulheres n�o deviam ser educadas, e ali�s ele pr�prio pouco mais sabia do que ca�ar, dizer umas piadas, e fazer a vida de gentlemen's farmer. Nancy, numa entrevista, falava dele dizendo que o seu problema era que verdadeiramente "n�o tinha nada para fazer" . Num assento de baptismo aparecia como profiss�o "honorable". H� imensa literatura sobre as irm�s, figuras de culto para uma vasta galeria que vai dos que gostavam de ser nobres ingleses ou meninas debutantes com amigos muito homossexuais, aos litterati. Mas a corte e a superficialidade de muita coisa mitfordiana n�o impede o interesse, e l� se foi o sono. Depois de dois dias de pris�o domicili�ria, a penar pelos destinos perdidos da Confer�ncia Inter Governamental, depois de Assia Djebar, as Mitford s�o um descanso.
08:27
(JPP)
Longe da p�tria, l�ngua da p�tria. Com os early mornings na v�spera dos cem, (cem � um n�mero gigantesco na blogosfera, que me faz competir com Matusal�m), o poema salta das manh�s, parte do tempo, para ser sobre o tempo todo, um dos fios do Abrupto. De Cam�es , este "prado": Com o tempo o prado seco reverdece, Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso, Com o tempo para o rio caudaloso, Com o tempo o campo pobre se enriquece, Com o tempo um louro morre, outro floresce, Com o tempo um � sereno, outro invernoso, Com o tempo foge o mal duro e penoso, Com o tempo torna o bem j� quando esquece, Com o tempo faz mudan�a a sorte avara, Com o tempo se aniquila um grande estado, Com o tempo torna a ser mais eminente. Com o tempo tudo anda, e tudo p�ra, Mas s� aquele tempo que � passado Com o tempo se n�o faz tempo presente. 17.12.03
17:28
(JPP)
"O Figaro tem um editorial interessante sobre o problema dos feriados judaico e mu�ulmano, a introduzir em Fran�a, talvez como compensa��o pela proibi��o dos v�us. Menciona a aus�ncia de qualquer pedido das comunidades, para a institui��o dos feriados; a falta de necessidade, uma vez que os fi�is dessas religi�es t�m justifica��o de faltas por motivos religiosos; as dificuldade pr�ticas na defini��o de um dia para o feriado mu�ulmano (um ponto controverso, segundo o editorial); o risco de criar incomodidade na comunidade crist�, que viu recentemente desaparecer o feriado de segunda feira de Pentecostes, e pode interpretar esta quest�o como uma perda em detrimento de judeus e mu�ulmanos; o poss�vel benef�cio para a Frente Nacional de Le Pen, a poucos meses das elei��es regionais. Termina com a defesa dos feriados crist�os existentes, por fazerem parte da Hist�ria, tal como as catedrais preservadas com o dinheiro do Estado." (Paulo Almeida)
16:32
(JPP)
Uma breve nota sobre o artigo "As Perguntas, o Porto e Pacheco Pereira" de Paulo Rangel no P�blico de hoje, criticando uma nota do Abrupto. Todo o artigo vive de uma pretensa diferen�a de agenda e interesses entre o que o autor chama "sociedade civil" e os "pol�ticos". O autor afirma falar em nome da "sociedade civil". Acho espantosa esta caracteriza��o da "sociedade civil" como oposta aos "pol�ticos", para fazer passar, com um mecanismo auto-legitimador, exactamente o mesmo tipo de discurso, apenas com a diferen�a que ele � emitido por pessoas que n�o t�m (ou ainda n�o t�m) actividade pol�tica institucionalizada. Para existir essa dicotomia, era preciso encontrar uma autonomia para esse discurso da "sociedade civil" e, no caso dos debates do Porto, o que se passa � que a sua agenda foi toda ela profundamente politizada. As "perguntas" dos debates s�o para o estado e os pol�ticos, nenhuma outra esp�cie de interlocu��o da sociedade e com a sociedade � prevista. N�o se pergunta � universidade o que ela faz pelas empresas; �s empresas, o que elas fazem como mecenato; aos intelectuais portuenses o que eles fazem sem subs�dios, aos sindicatos que mundo do trabalho desejam fora da reivindica��o, nunca se fala do voluntariado e do seu papel. Ali�s, se alguma coisa revela esta s�rie de col�quios, � exactamente a incapacidade da "sociedade civil" (se � justo chamar assim aos organizadores dos debates, o que duvido, pela sua clara agenda pol�tica) de discutir qualquer quest�o sem a subordinar a uma l�gica de reivindica��o ao estado , aos governos, aos partidos, ou seja, � pol�tica. Se isto � a "sociedade civil", em acto de reflex�o, parece-me t�o parecida com os partidos e a pol�tica institucional, que n�o sei onde esteja a diferen�a. N�o � pelo facto de os organizadores dos col�quios n�o serem pol�ticos eleitos ou com cargos institucionais, que os torna "sociedade civil".
15:53
(JPP)
do Liberdade de Express�o, com v�nia. A reboque "Bush n�o � um intelectual. Bush � na verdade est�pido! Os Barnab�s e os Bloguistas de Esquerda s�o intelectuais. Est�o h� um dia a racionalizar os factos produzidos por um homem est�pido. Agora perguntam: ent�o e o Bin Laden? Ent�o e as Armas de Destru���o Maci�a? Como j� antes tinham perguntado: ent�o e Saddam? E como j� antes tinham previsto a derrota americana, a nova Estalinegrado, uma guerra civil no Iraque, o novo Vietname. De cada vez que uma previs�o (ou ser� um desejo?) n�o se confirma � preciso actualizar a litania. Moral desta hist�ria: intelectuais inteligentes tendem a andar a reboque dos factos criados por est�pidos homens de ac��o."
09:55
(JPP)
Se algu�m me dissesse, se eu me imaginasse, que ia ver, teria jurado que n�o. Era exactamente o prot�tipo das coisas que eu nunca veria: numa mesa de caf� liter�rio, duas mulheres com o desenvolto aspecto e a l�ngua f�cil de feministas francesas e literatas (v� , s� com esta frase se pode fazer um tratado de misogenia ou coisas piores...), numa sala cheia de jovens estudantes e intelectuais by the book, atentos e reverentes, com aquela postura de quem tem muitos col�quios, confer�ncias, encontros com escritores, lan�amentos, em cima da pele. Enfim, o mundo do Prado Coelho. ![]() Depois falava e falava, com um gosto pela fala densa, culta, o franc�s que deve ser semelhante ao �rabe de Boumedienne, passando da Arg�lia para a Fran�a, sempre num registo cosmopolita e apaixonado. Acabou por falar pouco da sua obra (que eu desconhe�o, mas sobre a qual se pode encontrar informa��o aqui), mas tudo o que dizia era interessante. � este o problema dos pecados mortais.
09:28
(JPP)
Por outra manh� (cortesia de Vasco Gra�a Moura), esta "dolce color" dantesca: Dolce color d'or�ental zaffiro, che s'accoglieva nel sereno aspetto del mezzo, puro infino al primo giro, a li occhi miei ricominci� diletto, tosto ch'io usci' fuor de l'aura morta che m'avea contristati li occhi e 'l petto. Lo bel pianeto che d'amar conforta faceva tutto rider l'or�ente, velando i Pesci ch'erano in sua scorta. I' mi volsi a man destra, e puosi mente a l'altro polo, e vidi quattro stelle non viste mai fuor ch'a la prima gente. (Purgatorio, Canto I)
08:49
(JPP)
Nos pa�ses frios, o frio v�-se. Olha-se pela janela, � luz cinzenta da manh�, e sabemos que est� frio. H� uma deser��o geral das ruas: nem pessoas, nem p�ssaros, nada. N�o h� ainda neve, mas a humidade nos telhados est� branca. O branco vai tomando conta de tudo o que era verde. O verde cresce com as chuvas de Outono, mas, � medida que o Inverno se instala, o branco come�a em baixo, no ch�o, e em cima, nos telhados, e vai descendo at� se encontrar. L� para Janeiro, uma paz camponesa subjugar� a cidade. Acho que o Natal se destina a prepar�-la, com uma �ltima s�rie de brilhos, antes de vir esse tapete que abafa os sons, p�ra os movimentos, recolhe o gado, alimenta o fogo, p�ra quase tudo. 16.12.03
17:33
(JPP)
Na Biblioteca municipal de Colmar est� um pequeno caderno, com o tamanho dos antigos cadernos de significados, com o t�tulo manuscrito D'un Carnet de poche ,e assinado Rilke. Nele, Rilke escreveu meia d�zia de poemas em franc�s, numa letra comum, apesar de elegante e regular. Percebe-se, pela aus�ncia de correc��es, que os poemas foram passados a limpo. O poeta enviou-o, em 1926, de um sanat�rio su��o, a um seu amigo e tradutor franc�s, Maurice Betz. Depois de v�rias vicissitudes da fam�lia Betz, acabou por ir parar � Biblioteca de Colmar. Foi agora editado em facsimile por uma editora local, Le Verger Editeur. � um livrinho fr�gil e pequeno que fala assim : Hiver J'aime les hivers d'autrefois qui n'�taient point encore sportifs, On les craignait um peu; tant ils �taient durs et vifs......
14:59
(JPP)
![]() Depois, pouco a pouco, acumulam-se os problemas, todos eles � volta da condi��o da mulher. H� mulheres mu�ulmanas que se recusam a seguir num elevador s�zinhas com homens, que se recusam a ser observadas num hospital por m�dicos masculinos, empresas que n�o querem empregadas de v�u a atender o p�blico. Uma empres�ria dizia que n�o podia ter empregadas que se recusavam apertar a m�o aos clientes, nem aceitava um conselho que um mu�ulmano lhe tinha dado de "as p�r a trabalhar longe dos olhos dos outros". Protestava: "como � que eu posso ter empregadas que tenho que esconder por serem mulheres?" �. A caixa de Pandora est� aberta. Embora os franceses, com o seu jacobinismo exacerbado, tenham agravado o problema, fa�a-se a justi�a de considerar que este � (cada vez mais) europeu.
13:55
(JPP)
como come�ar? Hard politics, suave cultura, divaga��es, faineanter com as palavras? Faineanter. v. n. Estre faineant, estre � ne rien faire, par paresse. Demeurer � faineanter. il n'a fait tout le jour que faineanter. (Dictionnaire de L'Acad�mie fran�aise, Premi�re �dition, 1694) Como come�ar? 15.12.03
12:14
(JPP)
Estou de novo de judeu errante. Voo de uma terra para outra, de outra para outra, porque devo, nalgum passado distante, ter recusado �gua, abrigo, palavras a algu�m. A �nica geologia que conhe�o � a das nuvens, estrato a estrato, paz e turbul�ncia, uma a seguir � outra. Do alto, nenhuma caneta toca a terra, nem sequer a fr�gil e imortal sequ�ncia de bits, de sins e n�os electr�nicos - "el�ctricos", diria McLuhan, com raz�o - desce os 39000 p�s para tocar o ch�o. Sil�ncio, pois, na terra, branco absoluto nas p�ginas brilhantes do ecr�. At� breve, p�ssaros. 14.12.03
12:16
(JPP)
dos �ltimos dias. O Mois�s amea�ador � de Rembrandt; as flores s�o de um mosaico de Iznik; os barcos, ao vento da hist�ria, s�o de Caspar David Friedrich; o turbante, um pormenor de um quadro de Vittore Carpaccio; o comboio, da capa de um livro da Puffin do in�cio dos anos cinquenta; e o cartaz contra o �lcool � belga e mostra o povo, os criados , a beberem de mais. As classes altas pelos vistos n�o bebiam.
12:06
(JPP)
finalmente a erup��o, no dia 7 de Dezembro, com um tempo t�o nebuloso que ningu�m a viu come�ar. Not�cias aqui.
11:46
(JPP)
se se confirmar, � um acontecimento importante. A chamada "resist�ncia", nome viciado e program�tico, � , como com maior rigor a imprensa de refer�ncia internacional a descreve, um movimento para-militar ligado �s estruturas do partido de Saddam , o Baath. Sendo assim, a queda de estruturas de comando pol�tico-militar, que est�o por tr�s dos ataques, � relevante para o seu desmantelamento. Podem continuar os atentados, podem at� aumentar de intensidade, mas o problema continua a ser essencialmente militar e deve ser tratado como tal.
10:43
(JPP)
![]() "A ilus�o est� em pensar que os progressos na integra��o europeia v�m da laboriosa arquitectura pol�tica que se constr�i e n�o de algo mais substantivo, como seja, pe�o desculpa por lembrar este pequeno pormenor-, a vontade dos povos. (�) Nunca como agora as elites pol�ticas europeias se comportaram de forma t�o iluminista,- elas � que sabem o que � melhor para a Europa - tentando por todos os meios evitar debates e consultas nacionais." Esta b�sica premissa democr�tica nunca foi a central no modo como � apresentada aos portugueses a quest�o europeia, quer pelos governantes, quer pela comunica��o social. O que � sistematicamente relatado na imprensa portuguesa (em particular na cobertura puramente ideol�gica �franco-alem� que Teresa de Sousa faz no P�blico) � sempre a montante e a juzante desta quest�o, que nunca � enunciada como pr�via. Nem se fala das alternativas, t�o forte � a situa��o de facto que se quis criar com o Tratado de Nice e a falsa Conven��o. "Existe uma alternativa ? Certamente que sim . Os �pequenos passos� propostos por Jean Monnet , um processo mais lento , mais seguro , que pudesse ganhar ra�zes , tornar-se tradi��o , consolidar-se num ambiente de riqueza e paz que ele pr�prio garantia . Que consolidasse o euro , o mercado comum , a politica externa e de seguran�a comum , as institui��es comunit�rias, o alargamento . Sempre sem passar ao passo seguinte , sem um s�lido apoio pol�tico nas democracias europeias . Porque nunca se foi ao longe nestes processos a n�o ser devagar ." �H� um modelo alternativo da Europa, muito mais seguro do que o desvio de Nice e do que o programa, perigoso e de m� f�, do "p�s-Nice": � o modelo de Maastricht e Amesterd�o, assente no euro, no pequeno refor�o dos poderes do Parlamento Europeu, no salto em frente da "pol�tica externa e de seguran�a comum", no avan�o do ex�rcito europeu. � um modelo n�o testado, n�o experimentado, porque todos est�o com demasiada pressa e n�o conhecem a hist�ria. Este modelo aguenta o alargamento muito melhor do que as veleidades experimentais federalistas. Precisa de vontade pol�tica para que cada uma das suas componentes funcione e ganhe experi�ncia, precisa de tempo para se perceber o que pode funcionar bem e o que tem que se rectificar, precisa tamb�m que o alargamento se fa�a de forma diferente, simultaneamente mais solid�rio e mais realista. Se os nossos iluminados governos experimentassem ser um pouco mais conservadores, talvez tivessem resultados mais revolucion�rios.� O que � que � mais grave? � que o falhan�o da CIG tem pouco a ver com estes argumentos, ou com a vontade de mudar o caminho seguido nos �ltimos anos. Pelo contr�rio, � um seu subproduto. Eles v�o continuar, em privado, a discutir os votos; em p�blico, a erguer a bandeirinha das estrelas.
09:53
(JPP)
Hoje, manh� de brunch imposs�vel, ficamos pelo Dejeuner du Matin (cortesia de Pedro Catanho de Menezes Cordeiro). Il a mis le caf� Dans la tasse Il a mis le lait Dans la tasse de caf� Il a mis le sucre Dans le caf� au lait Avec la petite cuiller Il a tourn� Il a bu le caf� au lait Et il a repos� la tasse Sans me parler Il a allum� Une cigarette Il a fait des ronds Avec la fum�e Il a mis les cendres Dans le cendrier Sans me parler Sans me regarder Il s'est lev� Il a mis Son chapeau sur sa t�te Il a mis Son manteau de pluie Parce qu'il pleuvait Et il est parti Sous la pluie Sans une parole Et moi j'ai pris Ma t�te dans ma main Et j'ai pleur�. (Jacques Pr�vert) * Bom dia!
00:55
(JPP)
![]() Mal levantei os olhos, o c�u foi riscado por um meteorito. Ainda h� demasiada lua para se poder tomar partido do escuro mais frio, mas, � volta de Or�on, as estrelas brilhavam. O meteorito atravessou de Norte para Sul, um trajecto pouco habitual. Durou o costume, quase nada. N�o deu tempo. 13.12.03
12:23
(JPP)
voltamos aos textos que ouvimos e lemos e reparamos em coisas novas, ou num novo brilho das palavras, ou num novo saber, ou apenas num esplendor renovado da mesma beleza. Desta vez, foi uma pergunta que se tornou insistente, exigente. Estava a ler o texto do Requiem Alem�o de Brahms, mas o texto b�blico soa sempre diferente noutra l�ngua: Jacobi 5,7 So seid geduldig. / Assim, ent�o, tende paci�ncia. Denn alles Fleisch ist wie Gras / Pois toda carne � como a erva und alle Herrlichkeit des Menschen / e toda a gl�ria do homem wie des Grases Blumen. / � como as flores do campo. Das Gras ist verdorret / A erva seca und die Blume abgefallen. / e a flor murcha. Petri 1,25 Aber des Herrn Wort bleibt in Ewigkeit. / Mas a palavra do Senhor perdura eternamente. � apenas um frgamento, nem sequer dos mais importantes e dram�ticos do texto, e o que me interessou foi a frase �toda carne � como a erva�. A pergunta que me fiz , nem sequer muito presa ao sentido do texto, foi: quantos nazis, quantos torcion�rios, ouviram este Requiem com emo��o, sentiram estas palavras, marteladas na nossa mem�ria crist� desde a inf�ncia? Com genu�na emo��o? Certamente muitos. H� qualquer coisa de errado na feitura dos humanos. Um bug, uma linha solta do programa, mesmo no s�tio mais crucial, n�o no logos, mas no ethos.
10:29
(JPP)
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10:17
(JPP)
A caminho do centen�rio. Pela manh� �should I not pause in the light to remember God? �, perguntava Aiken? N�o sei. Fica com todos esta �morning song� dif�cil de definir, um retrato de uma porta que se abre �on the winds of space for I know not where� todos os dias. Passamos para qualquer lado? N�o sei, tamb�m. Morning Song Of Senlin It is morning, Senlin says, and in the morning When the light drips through the shutters like the dew, I arise, I face the sunrise, And do the things my fathers learned to do. Stars in the purple dusk above the rooftops Pale in a saffron mist and seem to die, And I myself on a swiftly tilting planet Stand before a glass and tie my tie. Vine leaves tap my window, Dew-drops sing to the garden stones, The robin chips in the chinaberry tree Repeating three clear tones. It is morning. I stand by the mirror And tie my tie once more. While waves far off in a pale rose twilight Crash on a white sand shore. I stand by a mirror and comb my hair: How small and white my face!-- The green earth tilts through a sphere of air And bathes in a flame of space. There are houses hanging above the stars And stars hung under a sea. . . And a sun far off in a shell of silence Dapples my walls for me. . . It is morning, Senlin says, and in the morning Should I not pause in the light to remember God? Upright and firm I stand on a star unstable, He is immense and lonely as a cloud. I will dedicate this moment before my mirror To him alone, and for him I will comb my hair. Accept these humble offerings, cloud of silence! I will think of you as I descend the stair. Vine leaves tap my window, The snail-track shines on the stones, Dew-drops flash from the chinaberry tree Repeating two clear tones. It is morning, I awake from a bed of silence, Shining I rise from the starless waters of sleep. The walls are about me still as in the evening, I am the same, and the same name still I keep. The earth revolves with me, yet makes no motion, The stars pale silently in a coral sky. In a whistling void I stand before my mirror, Unconcerned, I tie my tie. There are horses neighing on far-off hills Tossing their long white manes, And mountains flash in the rose-white dusk, Their shoulders black with rains. . . It is morning. I stand by the mirror And surprise my soul once more; The blue air rushes above my ceiling, There are suns beneath my floor. . . . . . It is morning, Senlin says, I ascend from darkness And depart on the winds of space for I know not where, My watch is wound, a key is in my pocket, And the sky is darkened as I descend the stair. There are shadows across the windows, clouds in heaven, And a god among the stars; and I will go Thinking of him as I might think of daybreak And humming a tune I know. . . Vine-leaves tap at the window, Dew-drops sing to the garden stones, The robin chirps in the chinaberry tree Repeating three clear tones. Conrad Aiken (Senlin: A Biography) * Bom dia! 12.12.03
22:39
(JPP)
�O GOVERNO TEM QUE EXPLICAR MELHOR AS SUAS POL�TICAS� "N�o � costume, mas estou em desacordo absoluto. Um governo que explique o que faz pode ter a ades�o de mais gente que compreende o problema. Isto pode levar a que a agita��o social seja menor e que, por isso, o tempo e energia gastos com o assunto sejam aproveitados noutras coisas mais �teis. (e tamb�m nos poupava aos constantes sobressaltos medi�ticos, o que j� n�o � pouca coisa). Por outro lado, se as pol�ticas se explicam a si pr�prias, como compreender que o PS tenha governado como governou? Governou bem? Se Ant�nio Guterres n�o se tivesse ido embora, o PS teria governado, pelo menos, oito anos. Ao fim de quanto tempo se imp�em as pol�ticas? (positivas ou negativas, tanto faz). N�o haver� aqui o risco de a demagogia prevalecer, para que se possam ganhar elei��es? N�o � a isso que se chama "navegar � vista"? seguir pol�ticas de curto prazo, ainda que erradas, para obter a satisfa��o imediata do povo e a manuten��o do poder? E se as pessoas n�o acreditarem nos governantes por n�o entenderem as politicas? Votam noutro, claro. Mas isso nem sempre quer dizer que as politicas estivessem erradas. Vale a pena? Para no fim poder dizer:" Se queres, toma! se n�o vou-me embora". Ser� isto o "interesse nacional"? Ou ser� antes interpretado como a hist�ria do passarinho e da gaiola de M�rio Soares? A quem aproveita? E como � que se ganha a confian�a enquanto as pol�ticas impopulares n�o d�o os resultados pretendidos? Com agita��o social? A explica��o n�o deve substituir a confian�a, mas sim ajudar a criar a confian�a (sem demagogias...)." (JA Lencastre) MASOQUISMO ACTIVO "Ciclo de debates organizados pelo P�BLICO" 1- Ao contr�rio do que escreveu, a resposta � pergunta do primeiro debate n�o foi "ningu�m". Bem pelo contr�rio. Bastava conhecer o trabalho desenvolvido por um dos participantes (Sobrinho Sim�es) e percebia logo que nunca poderia tirar essa conclus�o. 2- Quanto a perguntas que j� cont�m em si as respostas, cito duas do seu artigo de hoje no "P�BLICO": "Tem sentido suscitar a quest�o presidencial nos dias de hoje?"; "Tem sentido dramatizar a rela��o com o Presidente da Rep�blica?". 3- � evidente que n�o h� perguntas inocentes. As do ciclo de debates com a Cat�lica tamb�m n�o s�o. Como elemento da "redac��o do Porto", digo-lhe que essas interroga��es s�o aquelas que s�o colocadas por qualquer cidad�o do Porto minimamente interessado pela qualidade de vida do s�tio onde trabalha e/ou reside. Basta ver os resultados do estudo encomendado pela pr�pria C�mara do Porto, hoje divulgado na imprensa, para perceber que "os xiitas" n�o est�o s� radicados na redac��o de um jornal. 4- N�o sei onde quer chegar com a frase "quase que apostaria, dobrado contra singelo, que foi a redac��o do Porto que escolheu as perguntas", mas posso-lhe garantir que a formula��o das perguntas � tanto da responsabilidade dos "xiitas" como da dos "cat�licos". (Raposo Antunes)
19:41
(JPP)
![]() H�, neste momento, tr�s blogues portugueses na lista do Top 100 da Technorati: o Abrupto em 69, o Gato Fedorento em 75 e O Meu Pipi em 100. � um acontecimento muito significativo , se se tiver em conta que s�o acompanhados 1.359.000 blogues e as limita��es do espa�o da Internet em l�ngua portuguesa. Penso que n�o tem precedentes para nenhum endere�o portugu�s. 11.12.03
07:16
(JPP)
Saio da noite com Thoreau, quase para o dia. De facto, a luz da noite � is more proportionate to our knowledge than that of day. It is no more dusky in ordinary nights than our mind's habitual atmosphere, and the moonlight is as bright as our most illuminated moments are.� Com olhos de mocho, caminho de novo.
01:22
(JPP)
L� fora est� uma �harvest moon�, ainda mais brilhante atrav�s do frio. Como as �rvores perderam a folha, mais luz chega ao ch�o intacta. Apenas o p� da humidade impede que tudo fique branco. O melhor texto que conhe�o sobre noites como esta foi escrito por Henry David Thoreau, chama-se �Night and Moonlight� e foi publicado em The Atlantic Monthly Magazine, em Novembro de 1863. � assim a lua : �Great restorer of antiquity, great enchanter! In a mild night, when the harvest or hunter's moon shines unobstructedly, the houses in our village, whatever architect they may have had by day, acknowledge only a master. The village street is then as wild as the forest. New and old things are confounded. I know not whether I am sitting on the ruins of a wall, or on the material which is to compose a new one. � 10.12.03
22:21
(JPP)
![]() Um testemunho muito interessante em Blog-sem-nome. �H� evidentemente v�rios �ngulos sob os quais se pode observar esta quest�o, mas, no essencial, n�o se tratar� de um exemplo flagrante daquela velha tens�o entre a Liberdade e a Igualdade? Do lado dos defensores da Igualdade - geralmente de Esquerda - � maior a tend�ncia para a proibi��o; existem raz�es v�lidas para se discutir isso, mas o que me recordam em primeiro lugar � uma famosa frase de Rousseau, segundo a qual, o Homem deve ser libertado, ainda que seja contra a sua vontade. Nem tanto ao mar, nem tanto � terra: parece-me evidente haver situa��es nas quais deva ser suprimido o uso do v�u, ou, pelo menos, haja a necessidade de poder identificar visualmente um cidad�o; de resto, porque n�o poder�o as pessoas andar vestidas como bem lhes apete�a? O facto de o Estado ser laico, n�o implica, como �s vezes se confunde, que deva ser ateu (uma outra forma de religi�o), e que imponha esse ate�smo a todos. A minha liberdade e os meus direitos, n�o s�o minimamente beliscados pelo facto de uma mulher mu�ulmana usar burka. Se o faz contra a sua vontade, a� aplica-se a lei geral do pa�s, mas conv�m, pelo menos, perguntar. N�o vale a pena tentar reparar o que n�o est� estragado...� (Ricardo Peres) �Sempre que se abordam assuntos deste tipo fico sempre com a ideia de que se enunciam princ�pios te�ricos muito meridianos, muito politicamente correctos, mas nunca se tiram as consequ�ncias pr�ticas desses princ�pios. Se h� igualdade religiosa num pa�s europeu como Portugal como � que se justifica a exist�ncia de feriados religiosos crist�os? Seguindo os mesmos meridianos princ�pios n�o dev�amos abolir os feriados religiosos crist�os em Portugal? Ou ent�o n�o deveriam ser celebrados os feriados mu�ulmanos, hindus, judaicos,...? Pode dizer-se � pela tradi��o, tamb�m era tradi��o muito coisa que hoje � considerada ilegal! H� cerca de um m�s em It�lia, um mu�ulmano p�s uma escola p�blica em tribunal (num estado que defende a separa��o da Igreja do Estado e que considera a igualdade das religi�es), pois mantinha um crucifixo na sala de aulas do filho. Perante a letra da lei, perante o esp�rito da lei, o juiz tomou a �nica decis�o razo�vel, mandou retirar o crucifixo... penso que o juiz foi suspenso, houve grande agita��o das consci�ncias, n�o sei se houve recurso, se o crucifixo ainda l� est� ou n�o... Perante os princ�pios te�ricos muito meridianos e muito politicamente correctos, sorrio ao pensar qual seria a posi��o se os governos decidissem acabar com os feriados religiosos crist�os na Europa, eu pessoalmente sou religioso e sou crist�o (e sou contra os feriados religiosos), as minhas cren�as s�o minhas e s� minhas, s�o um assunto privado e ponto final, e se lhes dou algum valor, mesmo sem feriados, terei de arranjar tempo na minha agenda para, por exemplo, celebrar o Corpo de Deus. N�o sou mulher, mas penso poder ser defens�vel um ponto de vista em que o v�u possa passar a ser usado como s�mbolo de resist�ncia contra a diferen�a de tratamento. � verdade que a vida n�o � preto e branco, e que h� muitas cambiantes de cinza, mas gostava que todos (cidad�os e governos) assumissem sem subterf�gios as consequ�ncias das ideias que defendem, a atmosfera seria mais saud�vel e quem profere senten�as (como esta) teria de equacionar todas as rela��es de causa efeito.� (Carlos Pereira da Cruz) �O v�u ou a burka � a met�fora da invisibilidade da mulher nos regimes isl�micos. Proibir o seu uso nos regimes democr�ticos ocidentais ter� efeitos nulos pois a Lei para um mu�ulmano � o Cor�o e n�o qualquer conjunto de leis que regulamentam as nossas sociedades ocidentais. A premissa da qual partem os nossos legisladores � a de que a lei tem car�cter universal, ou seja, � aplic�vel a todos os cidad�os de um determinado Estado. Este "contracto" entre os Estado legislador o os seus cidad�os � uma das bases dos regimes democr�ticos tais como os entendemos actualmente. Para um mu�ulmano (quer viva ou n�o na Europa) este "contracto" n�o tem validade,� sem efeito. Para ele, esta discuss�o nem sequer faz sentido pois � mulher (seja ela mu�ulmana ou n�o) � vedado qualquer acesso � cidadania. Neste debate, a mulher mu�ulmana permanece invis�vel. � , por isso mesmo, um debate imposs�vel.� (Jo�o Costa) �Relativamente ao seu texto sobre o v�u isl�mico, parece-me que deviamos ter presente que o v�u pode ser: - um s�mbolo pol�tico de uma certa interpreta��o do isl�o; - um s�mbolo cultural e/ou religioso. Por outro lado n�o devemos confundir o v�u com a burka; o primeiro pode ser um elemento de vestu�rio feminino de acrescida beleza; a �ltima � claramente s�mbolo de uma sociedade quase medieval. Quanto � utiliza��o do v�u como s�mbolo pol�tico, � perfeitamente natural que este nos cause apreens�o. S�o v�rios os grupos (sociais, politicos e religiosos) de natureza intolerante que se t�m desenvolvido no Ocidente � sombra da nossa toler�ncia. Muito facilmente esses grupos passam da intoler�ncia � viol�ncia. A grande dificuldade � distinguir claramente que tipo de utiliza��o se faz do v�u. Convinha evitar ju�zos precipitados e generaliza��es. Um homem que use kippa poder� ser acusado de ser um judeu radical? Um homem com pele escura e turbante colorido ser� necess�riamente um militante sikh fan�tico? Parece-me que estamos perante uma encruzilhada...� (Marco Ant�nio Oliveira)
22:14
(JPP)
sempre me pareceu um falso problema. O governo tem � que governar melhor, n�o �explicar melhor�. As boas pol�ticas explicam-se a si pr�prias e as pol�ticas impopulares tem sucesso quando os seus autores t�m credibilidade. As pessoas torcem o nariz, protestam, mas, ou acreditam nos governantes ou n�o. N�o h� marketing que, a prazo, transforme uma m� pol�tica numa boa, nem �explica��o� que substitua a confian�a.
19:09
(JPP)
![]() "Zefiro torna, e di soavi odori l'aer fa grato, e'l pie discioglie a l'onde, e mormorando tra le verdi fronde, fa danzar al bel suon su'l prato i fiori." Fica s� o in�cio do soneto de Ottavio Rinuccini , mas h� m�sica de Claudio Monteverdi para as palavras.
18:56
(JPP)
O ciclo de debates organizados pelo P�blico intitulado "Conversas Cruzadas sobre o Porto" (em que participei), assenta numa s�rie de fabulosas perguntas. Todas s�o exemplares pelo facto de, sem excep��o, j� conterem em si a resposta e n�o serem por isso verdadeiras perguntas. Eis a s�rie autopunitiva e gloriosamente masoquista: "A quem serve a ci�ncia que se faz no Porto?" "Que influ�ncia pol�tica tem hoje o Porto no contexto nacional?" "Cultura: h� vida para al�m de Serralves?" "Porto, capital do trabalho ou de coisa nenhuma?" "Economia: o Porto perdeu velocidade ou parou no tempo?" As respostas dentro das perguntas s�o respectivamente: a ningu�m, nenhuma, n�o h�, de coisa nenhuma, perdeu velocidade e parou no tempo. Os autores parecem os xiitas auto-flagelando-se ao ritmo das perguntas. Quase que apostaria, dobrado contra singelo, que foi a redac��o do Porto que escolheu as perguntas.
18:21
(JPP)
�Mas a verdadeira coragem est� no 'sem esperan�a', ser capaz de n�o ter esperan�a, de viver sem esperan�a, a� sim � dif�cil. Os cl�ssicos achavam que era assim que se vivia mais feliz. O que � que eles sabiam, que n�s n�o queremos aprender?" (JPP) Talvez a diferen�a esteja no Cristianismo. E nesse caso a quest�o n�o est� no que os cl�ssicos sabiam, mas no que n�s sabemos (e estamos a desaprender)." (Jos� Luiz Ferreira)
17:47
(JPP)
![]() "Eu diria mais, � um sinal de resist�ncia de comunidades isl�micas � nossa ideia civilizacional e aos valores que a sustentam. � tamb�m um problema da condi��o da mulher no Isl�o. " N�o concordo com o ponto de vista desta leitora. E se concordasse tamb�m diria que os h�bitos judeus de uma certa forma de vestir e a utiliza��o de certos adornos seriam uma imposi��o daquela comunidade �s restantes. Nos EUA e em outros paises, onde certas comunidades judias se regem por valores mais conservadores e tradicionais, n�o h� leis jacobinas que impoem aos judeus vestirem-se � ocidental. Como disse em anteriror mail, n�o acho que tenhamos o direito de dizer a terceiros o que � certo ou errado. De facto, muitas mulheres isl�micas querem seguir alguns desses costumes culturais ou religiosos e n�o somos n�s que devemos interferir na sua liberdade como eles/elas n�o t�m direito de o fazer na nossa. No entanto, n�o quero eu dizer com isto que n�o concorde com a "igualdade e pluralismo" para ambos os sexos mas compete-nos a n�s fazer isso em outros pa�ses? Porque n�o olhamos para a nossa realidade onde a religi�o dominante preserva o papel da mulher como secund�rio?" (Nuno Figueiredo) �Gostaria de fazer alguns reparos 'a discuss�o sobre o v�u isl�mico na Alemanha, pais onde vivo h� cerca de 8 anos. A discuss�o alema, embora por vezes use argumentos semelhantes aos da discuss�o francesa, e' na raiz algo diferente. E' que embora os alem�es n�o sejam profundamente religiosos, ha' na Alemanha, sobretudo no ocidente, uma consci�ncia de identidade crista que contrasta com o laicismo (ideol�gico) franc�s. A separa��o entre estado e religi�o nao anda aqui na ponta das l�nguas. O argumento mais usado diz respeito ao facto de o v�u ser um s�mbolo de repress�o sobre a mulher no Isl�o. O argumento mais calado e' uma certa antipatia pela comunidade de dois milh�es e meio de turcos, muitos dos quais n�o se integraram no grau que seria desej�vel. Ao contrario do que afirma a leitora Ana Aguiar, o v�u e' proibido nalguns lugares de trabalho, por exemplo em certos armaz�ns que consideram que uma vendedora de veu afasta os clientes. No entanto o caso mais medi�tico, que se arrastou pelos tribunais nos �ltimos anos, e' o de uma professora de origem iraniana no estado de Baden-Wuerttemberg que faz quest�o de dar aulas de v�u, tendo a oposi��o dos pais dos alunos, da escola e do dito estado. Curiosamente, existem algumas dezenas de professoras na Ren�nia do Norte-Vestefalia que usam o v�u, sem que tal tenha sido posto em causa. Num programa televisivo de humor algu�m observou que "agora as �nicas mulheres de v�u que podem entrar naquela escola s�o as empregadas da limpeza". Eu nunca proibiria o v�u. Uma mu�ulmana com um curso superior e a exercer um emprego e' na minha opini�o emancipada o suficiente para n�o precisar de ser defendida pelo estado de s�mbolos de repress�o. (Note-se que na Alemanha mais de 50% das mulheres s�o donas de casa, em Portugal menos de 30%.) Tenho notado que muitas mu�ulmanas com estudos superiores usam o v�u como s�mbolo cultural ou forma de protesto, da mesma forma que muitos "verdes" usam cachec�is coloridos, cabelos desgrenhados e so' comem vegetais. Ou seja, de s�mbolo de repress�o social o v�u parece ter passado a s�mbolo contra a repress�o social. O argumento de que s�mbolos religiosos devem ficar fora da sala de aula e' algo que tamb�m n�o posso aceitar pela minha condi��o de cat�lico. Sou a favor de uma freira poder dar aulas de v�u e de cruz ao pesco�o, como acontece em muitas escolas em Portugal. Tamb�m n�o tenho medo de que uma professora mu�ulmana converta a minha filha ao Isl�o pelo simples facto de usar o v�u, nem acredito que tal fen�meno aconte�a regularmente. Sou da opini�o de que nenhum estado tem o direito de perguntar porque e' que uma professora usa um pano na cabe�a. Seja por op��o religiosa, como s�mbolo cultural, porque acha que lhe fica bem, porque tem o cabelo ralo ou faz quimioterapia, o estado n�o tem nada a ver com isso. O que interessa e' saber se e' boa professora ou n�o." (Filipe Paccetti Correia)
15:14
(JPP)
dos �ltimos dias, incluem um cachimbo, em �Pipe er Formes Academiques� de Marcel Broodthaers, de 1969-70 e outro Rik Wouters �mulher deitada�, de 1912.
10:09
(JPP)
![]() "Tenho uma pequena diverg�ncia sobre uma opini�o tua a prop�sito da toler�ncia nos costumes religiosos mu�ulmanos na Europa. Acho que tudo o que implique viol�ncia, f�sica ou moral sobre as mulheres ( neste caso, residentes europeias), deve ser corajosamente combatido. Mesmo que isso implique ir contra os princ�pios do Isl�o ou do Thora! Como, no passado, houve quem lutasse contra as restri��es que a mulher/M�e sofria nos direitos e liberdades e garantias ( � assim que se diz, n�o �?) devido a certas leituras "machistas"dos Evangelhos, temos que manter a mesma "batalha". Acho que o Governo franc�s faz bem quando pro�be a sinistra burkha ( na escola e em qualquer espa�o p�blico). A Europa claudicar� se , a bem da toler�ncia na diversidade de costumes, deixar que jovens ou menos jovens, s� porque se inserem em comunidades de ra�z isl�mica , tomem atitudes que choquem a cultura de liberdade de express�o em que felizmente se vive na Europa. " (Rui Carp) �A quest�o do v�u � uma � qual costumo prestar bastante aten��o, quanto mais n�o seja por ter sido o t�pico do meu primeiro (e pen�ltimo...) artigo publicado num jornal. Agradou-me bastante a sua posi��o, por dizer que se inclina para um dos lados (n�o proibir o uso do v�u) mas sem deixar de ver os problemas que isso pode acarretar. Algo que, a meu ver, envenena muitos debates consiste na incapacidade que muitas pessoas revelam em admitir que, ao contr�rio do que acontece nos filmes, o Bem, a Verdade e a Justi�a nem sempre est�o do mesmo lado e que, muitas vezes, princ�pios que consideramos fundamentais entram em conflito. Foi o que se passou, por exemplo, com as �touradas de morte� em Barrancos (designa��o particularmente idiota, pois todas as touradas s�o de morte): os que as defendiam s� mencionavam a tradi��o sem levarem em conta os direitos dos animais e os que as atacavam faziam exactamente o contr�rio. Especificamente sobre a quest�o do v�u, devo dizer que a considero secund�ria se a compararmos com o facto de essas alunas se recusarem, muitas vezes, a ter aulas de educa��o f�sica e de Biologia. E quero p�r �nfase no �se recusarem�, pois � falsa a ideia muito espalhada segundo a qual esses comportamentos s�o sempre impostos pelos pais. N�o me esque�o que, quando teve lugar a primeira pol�mica em Fran�a sobre o uso do v�u, o pai de uma das alunas disse aos jornalistas algo como �vou ver se a conven�o, mas n�o estejam � espera que lhe bata s� para ela parar de usar o v�u�. (Jos� Carlos Santos) �H� duas d�cadas que (tanto quanto me consigo lembrar) as primeiras fric��es medi�ticas a prop�sito dos costumes isl�micos na Europa atingiram as manchetes dos jornais e da opini�o p�blica. Vivia eu nesse per�odo em Inglaterra quando se falou das raparigas de origem paquistanesa que ap�s a puberdade passavam a ficar em casa impedidas de frequentar a escola e outros locais onde se cruzassem com rapazes. Tamb�m se falaram nos carneiros que se imolavam (de acordo com as precisas recomenda��es do Isl�o) nas ruas, perante o olhar escandalizado e at�nito do mais comum ingl�s, para a festa religiosa que acontece umas semanas ap�s o fim do Ramad�o e cujo nome de momento n�o me recordo. O problema do v�u, como diz JPP, n�o � simples. E n�o � simples porque n�o � um problema de v�u! � um problema cultural e de acultura��o (embora tenha sempre problemas com este conceito), ou neste caso de n�o acultura��o, das comunidades isl�micas na nossa sociedade ocidental e dos valores que nala est�o subjacentes; por exemplo, os direitos humanos. Se o v�u fosse um problema de moda, a� estaria totalmente de acordo com JPP com a cr�tica que faz �s autoridades francesas (ou outras). Porque, e como tamb�m reconhece JPP, o v�u n�o � um problema de moda. Eu diria mais, � um sinal de resist�ncia de comunidades isl�micas � nossa ideia civilizacional e aos valores que a sustentam. � tamb�m um problema da condi��o da mulher no Isl�o. S� que esta "nossa" civiliza��o � aquela que, em a quase esmagadora maioria, escolheu e escolhe todos os dias viver, trabalhar, enriquecer e aproveitar. Sem querer ser reducionista creio que n�o nos faria mal lembrar a velha m�xima: "Em Roma s� romano", pois parece-me que estamos demasiado t�midos na defesa dos nossos valores mais b�sicos da igualdade. Hoje � o v�u, depois a impossibilidade das raparigas frequentarem escolas mixtas, praticarem desporto, serem atendidas por m�dicos homens no hospital, at� um dia serem repatriadas contra a sua pr�pria vontade para casarem com familiares desconhecidos no Paquist�o no Bangladesh em Marrocos. A muitos destes factos temos fechado os olhos, os ouvidos e a boca. Creio que um debate s�rio e desapaixonado se imp�e para que a autoridade n�o surja nem como jacobina nem como aleat�ria. � no entanto minha convic��o que, para o hoje de muitas mulheres isl�micas"c�" e para o amanh� de todos (homens e mulheres de "c�" e de "l�"), a nossa legisla��o seja clara e firme na preserva��o da igualdade e pluralismo. Se n�o vejo solu��o f�cil, sei no entanto o que n�o quero para o futuro da minha filha e do meu filho. � (Joana Pereira de Castro) �N�o sei ate que ponto e conhecedor da l�ngua alem�, nem se le os di�rios ou seman�rios alem�es, mas o coment�rio em rela��o a discuss�o sobre o v�u n�o esta correcto. O Die Zeit, o FaZ e a revista Spiegel publicaram na altura (Agosto, Setembro) muitas reportagens de background e artigos de opini�o, alem das noticias em si. O v�u n�o e proibido em lado nenhum. Encontra-se muita gente em restaurantes e lojas que trabalham de v�u. Em servi�os mais "formais" (nao sei como lhes chamar) tipo seguradoras e bancos e raro. N�o e proibido, mas acho que nunca vi nenhum em 4 anos em Berlim. Em atendimento ao p�blico em servi�os do estado nunca vi. Acho que muita gente n�o ia gostar. Quanto as escolas, n�o h� professoras a ensinar de v�u. Chegou este ano ao fim o caso de uma professora mu�ulmana de Baden-W�rtenberg a quem foi recusado um lugar a dar aulas se insistisse no uso do v�u. Este caso ja se arrastava ha 2 ou 3 anos. A professora processou o estado Baden-W�rtenberg por n�o a deixar dar aulas de v�u, baseando-se no direito a livre exerc�cio de uma religi�o garantido na constitui��o. Varios (2 ou 3) tribunais nao lhe deram raz�o, ate que este ano chegou ao Bundesverfassungsgericht - BVG -, o TC alem�o. O BVG n�o deu raz�o a ningu�m. A decis�o foi que n�o e inconstitucional proibir por lei a exibi��o de s�mbolos religiosos; mas para impedir a professora de dar aulas, tem de existir essa lei. Tudo baseado no conflito de 2 artigos da Constitui��o: o que protege o direito ao livre exerc�cio da religi�o, e o que define o estado como laico. Basicamente, passou a batata quente outra vez para os estados. Que tamb�m n�o sabem muito bem o que h�o-de fazer. J� houve h� uns tempos uma discuss�o semelhante por causa das cruzes nas escolas da Baviera, que tamb�m e um estado laico, teoricamente. Na altura o BVG decidiu que as cruzes podem estar nas salas de aula, desde que ningu�m se queixe. Quer dizer, um aluno ou pai pode requerer que as cruzes sejam retiradas, alegando que se quer exige uma educa��o laica. Que na pratica nao funciona, e outra historia... O que eu acho? Os mu�ulmanos n�o s�o obrigados a usar v�u. ou seja, podem ser mu�ulmanos sem o usar. Custa-me a crer que uma mulher que acredite que Deus a "obriga" a andar de cabe�a coberta e nunca se perguntou porque nao exige o mesmo aos homens v� ser capaz de tratar raparigas e rapazes numa escola de maneira igual, e de lhes ensinar a todos que s�o iguais, ou seja, tem em geral potencialidades iguais e direitos iguais. Mas aceito que isto e discut�vel (nao a igualdade) e so ate certo ponto defens�vel... A maior parte das pessoas com quem falei disto, mulheres e homens, n�o sabem muito bem o que pensar, com agir, sem ferir direitos nem liberdades deles pr�prios e dos outros." (Ana Aguiar)
00:34
(JPP)
Segundo os jornais, Paulo Portas disse que M�rio Soares ter� �sofrido recentemente �tr�s derrotas�. A saber: �Jo�o Soares (filho) perdeu as elei��es para a C�mara Municipal de Lisboa; Maria Barroso (mulher) n�o se manteve � frente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP); Jorge Sampaio � o Presidente da Rep�blica.� Portas, como dirigente partid�rio, pode falar do primeiro e do �ltimo facto como �derrotas�, nunca do segundo, o afastamento de Maria Barroso da Cruz Vermelha, pelo Ministro da Defesa, ele pr�prio. Porque, se � assim, as raz�es para o afastamento de Maria Barroso foram motivos pol�ticos e por ser esposa de M�rio Soares, e isso configura um acto de retalia��o inaceit�vel num estado democr�tico. Pela boca morre o peixe. 9.12.03
08:50
(JPP)
![]() N�o � um debate simples, nem tem solu��es simples. Pessoalmente sou a favor da maior liberdade na maneira como as pessoas querem afirmar a sua identidade, logo acho que a via francesa de legislar proibindo o v�u nas escolas, � autorit�ria e tipicamente jacobina. Mas n�o posso esquecer que h� um problema com a condi��o da mulher no Isl�o, que implica um conflito de valores com a nossa ideia civilizacional de igualdade e dignidade humana, que o v�u n�o � hoje apenas um forma de vestir segundo um c�digo religioso, mas transporta uma simbologia pol�tica e que o pluralismo cultural n�o se sobrep�e no sistema de valores � liberdade e � sua �tica.
06:49
(JPP)
Hoje, pela manh� e para a manh�, chega a cavalaria pesada: �Morning at the Window �de T.S. Eliot, �They are rattling breakfast plates in basement kitchens, And along the trampled edges of the street I am aware of the damp souls of housemaids Sprouting despondently at area gates. The brown waves of fog toss up to me Twisted faces from the bottom of the street, And tear from a passer-by with muddy skirts An aimless smile that hovers in the air And vanishes along the level of the roofs.� Bom dia! 8.12.03
16:52
(JPP)
Entro no metro em Rogier, n� central dos subterr�neos. Est�o temperaturas negativas l� fora e mais gente desce a estes interiores. Piranesi gostaria de aqui estar, nestes modernos Carceri d'Invenzione, neste centro comercial de andares desconexos dando para ruas com n�veis diferentes, onde nada comunica � escadas que s� unem dois andares, lojas que cortam a passagem, elevadores intermedi�rios, trajectos confusos. O frio acentua a grosseria das roupas pobres, as pessoas parecem embrulhos. Uma muito jovem m�e, desajeitada, empurra um carrinho de beb�, sem m�os para uma �rvore de Natal made in China, e com outro filho a transportar uns fios dourados para a �rvore e um pacote de leite. A crian�a cansa-se e pousa o pacote de leite e o grupo afasta-se aos solavancos, deixando o leite no meio do ch�o. Ningu�m diz nada. Na parte da cidade subterr�nea , niveau metro, h� uma rixa entre dois grupos de negros. Quest�es de territ�rio. De um s�tio para comer (como lhe chamar? Snack bar? Restaurante? Caf�?), onde se preparam waffles que deixam um cheiro adocicado � toda a volta, levanta-se um grupo de mulheres como uma mola para ver a rixa como se lhes dissesse respeito. Se calhar dizia. Eram todas brancas, embora tamb�m fossem imperfeitamente brancas. Antilhesas? Hisp�nicas, de qualquer long�nqua Espanha? Os corredores subterr�neos enchem-se de improp�rios num franc�s alto e grosso e musical. De todos os lados come�am a correr seguran�as para separar os grupos. S�o todos mais pequenos que os negros. As coisas acalmam-se. C� em baixo, tenho que escolher entre o 56 Debussy e o 55 Silence. Escolho Silence, mas conto sair bem antes de l� chegar. 7.12.03
11:57
(JPP)
No PSD toda a gente � �s� carneirista� e a invoca��o a S� Carneiro serve para tudo, mesmo para justificar pol�ticas que ele explicitamente recusou nos seus textos (por exemplo, quando S� Carneiro explica com clareza, em plena AD, como � que o CDS tinha tido que �abandonar� o seu �conservadorismo� para permitir a coliga��o; esta, que eu saiba, n�o caiu por isso). Por isto mesmo, a obra de S� Carneiro, que, com distancia��o, merece um tratamento hist�rico, permanece ignorada, e �s vezes ocultada. A publica��o dos seus textos em manhosas edi��es partid�rias j� antigas, ou em �lbuns de luxo, torna-os efectivamente inacess�veis. Apesar de haver um jornal do partido e um Instituto Francisco S� Carneiro, ningu�m tomou a iniciativa, normal para tanto �s� carneirismo�, de fazer um local na Internet que agrupe os seus textos, tanto quanto poss�vel integrais, mas que podem ser complementados por uma escolha de cita��es mais acess�veis. A essas p�ginas podiam-se acrescentar alguns ensaios s�rios sobre a hist�ria da personagem e da sua ac��o pol�tica, testemunhos, documentos. A exist�ncia de um local destes seria uma contribui��o para a nossa hist�ria contempor�nea, de valor acrescentado muito para al�m do PSD.
11:02
(JPP)
De volta � l�ngua italiana, faltava Eugenio Montale. Dele fica aqui um poema sobre a hist�ria, logo tamb�m sobre o tempo. Li��o? N�o h� li��o, apenas a de que o tempo nos submete: �la storia non � intr�nseca /perch� � fuori. � E 'fora' n�o mandamos n�s. La storia I La storia non si snoda come una catena di anelli ininterrotta. In ogni caso molti anelli non tengono. La storia non contiene il prima e il dopo, nulla che in lei borbotti a lento fuoco. La storia non � prodotta da chi la pensa e neppure da chi l'ignora. La storia non si fa strada, si ostina, detesta il poco a paco, non procede n� recede, si sposta di binario e la sua direzione non � nell'orario. La storia non giustifica e non deplora, la storia non � intrinseca perch� � fuori. La storia non somministra carezze o colpi di frusta. La storia non � magistra di niente che ci riguardi. Accorgersene non serve a farla pi� vera e pi� giusta. II La storia non � poi la devastante ruspa che si dice. Lascia sottopassaggi, cripte, buche e nascondigli. C'� chi sopravvive. La storia � anche benevola: distrugge quanto pi� pu�: se esagerasse, certo sarebbe meglio, ma la storia � a corto di notizie, non compie tutte le sue vendette. La storia gratta il fondo come una rete a strascico con qualche strappo e pi� di un pesce sfugge. Qualche volta s'incontra l'ectoplasma d'uno scampato e non sembra particolarmente felice. Ignora di essere fuori, nessuno glie n'ha parlato. Gli altri, nel sacco, si credono pi� liberi di lui. (Eugenio Montale, Satura)
00:28
(JPP)
fiz uma nota nos Estudos sobre o Comunismo, a pretexto do dossier que o P�blico hoje publicou, de autoria de S�o Jos� Almeida, e que inclui uma interessante entrevista com a filha de Maria Lamas. 6.12.03
13:14
(JPP)
de ontem, era um "interior dum aguafortista", de 1909, de Rik Wouters, e est� em Antu�rpia. N�o sei se se diz em portugu�s "aguafortista", ou "aquafortista", do franc�s "aquafortiste". Mas "�gua-forte" (belo nome, daqueles que n�o se repara a n�o ser quando nos aparecem de repente) deve seguir "aguarela", aguarelista. N�o tenho o dicion�rio para ver. * "Tentando suprir a tua falta de dicion�rios e como tenho quatro � m�o, sou a informar-te que se pode escrever �guafortista, de acordo com o Morais (Editora Conflu�ncia em 10 vol., 1945) ou �gua-fortista, segundo os mais recentes Houaiss (2002, 6 vol., Circ. Leitores) ou Universal (Texto Editora). J� n�o tive paci�ncia para o da Academia (Verbo, 2001, 2 vol.) que no geral n�o tem vocabul�rio suficiente. Uma vez que, a cada um de n�s � dada a possibilidade de escolher, prefiro de longe a vers�o sem h�fen." (Henrique Monteiro)
13:02
(JPP)
Ao escrever a nota sobre Wul, reparei como fazia a refer�ncia � localiza��o da imagem: "aqui em cima", "aqui ao lado". Noutras alturas, para citar um texto que j� est� enterrado na parte n�o vis�vel do blogue, escrevi "l� em baixo", no s�tio do esquecimento. Uma das grandes diferen�as dos blogues face �s p�ginas pessoais est� nesta presen�a de uma geografia territorial na p�gina activa e de uma geografia temporal nos arquivos e p�ginas "em baixo". O olhar do leitor � o �nico que est� sempre no presente, ou come�a sempre do presente. Interessante, a desenvolver.
12:47
(JPP)
![]() Morreu Stefan Wul, escritor desconhecido fora dos c�rculos da fic��o cient�fica (ver necrologia no Le Monde). Autor franc�s, dentista, profiss�o que exerceu toda a vida, destacava-se num mundo predominantemente anglo-sax�nico, retratado nos primeiros e m�ticos cem n�meros iniciais da Colec��o Argonauta. A� publicou v�rios livros que li nos anos sessenta e de que n�o me recordo nada. Ou melhor, recordo-me do conjunto da Colec��o Argonauta, como se as hist�rias se sucedessem umas �s outras, num cont�nuo de aventura e fasc�nio pelo desconhecido. S� me recordo de distinguir Ray Bradbury, Asimov, Simak e o livro de Rosny A�n�, A Morte da Terra, talvez o primeiro que li na Argonauta e de que me ficou uma mem�ria quase integral e intacta. Mas o nome de Stefan Wul, e a imagem das capas, ficou individualizado, talvez porque o nome, neste caso um pseud�nimo, na sua estranheza, tamb�m me parecesse de fic��o. A Argonauta, depois dos primeiros cem n�meros, acompanhou a tend�ncia psicologista da fic��o cientifica americana e tornou-se menos interessante, menos imprevis�vel, menos fant�stica. Pouco a pouco, fui deixando de a ler com a mesma intensidade e, quando os livros a azul e prateado se tornaram regra, at� as capas, magn�ficas na primeira s�rie, deixaram de ter interesse. Sic transit gloria mundi. O Mundo dos Draags, aqui em cima, tem capa de Lima de Freitas e tradu��o de M�rio Henrique Leiria.
11:50
(JPP)
Em vez de �Nec spe, Nec metu� , pede-me um leitor que fale do �Dum spiro, spero�, �enquanto respiro, espero�, mais agrad�vel � sensibilidade contempor�nea. Falarei, mais tarde. (Continua) 5.12.03
10:06
(JPP)
Ainda, pela manh�, o vento negro da noite. No Abrupto, aberta a porta do �Nec spe, nec metu�, alguns poemas sobre aquela que � talvez a mais importante li��o dos cl�ssicos que n�o se transmitiu aos dias de hoje: a ideia da aurea mediocritas, a for�a da ataraxia. E n�o se transmitiu porque a barreira poderosa do romantismo a impediu de passar. Vamos pois para o grande cl�ssico moderno destas coisas do tempo, da dura��o, da finitude, da perman�ncia, do modo de viver, da esperan�a, da conten��o na felicidade poss�vel, Ricardo Reis (cortesia de Manuel Matos): "Antes de n�s nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas n�o falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. N�o fazemos mais ru�do no que existe Do que as folhas das �rvores Ou os passos do vento. Tentemos pois com abandono ass�duo Entregar nosso esfor�o � Natureza E n�o querer mais vida Que a das �rvores verdes. Inutilmente parecemos grandes. Salvo n�s nada pelo mundo fora Nos sa�da a grandeza Nem sem querer nos serve. Se aqui, � beira-mar, o meu ind�cio Na areia o mar com ondas tr�s o apaga Que far� na alta praia Em que o mar � o Tempo?" (Ricardo Reis) * Boa noite, eternidade! Bom dia, finitude! 4.12.03
09:00
(JPP)
![]() Isabella d'Este, a mulher que prescindia da esperan�a, para al�m de Ticiano, foi tamb�m retratada por Leonardo. Merecia.
08:27
(JPP)
de escrever sobre isto e aquilo, feitas no Abrupto, n�o est�o esquecidas. Falta o jornalismo do Independente, o cinema franc�s, o Michael Moore, a TSF, etc. Falta continuar as notas camusianas e chekovianas, os escritos antigos em forma de blogue, as notas sobre a trai��o e sobre D. Juan. A seu tempo, se houver tempo, porque aqui segue-se a regra de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
08:21
(JPP)
"ungarettianos", presos nos meus dias italianos. Retirado de L'Allegria - Il Porto Sepolto este ATTRITO "Con la mia fame di lupo ammaino il mio corpo di pecorella Sono come la misera barca e come l'oceano libidinoso." (Giuseppe Ungaretti ) Bom dia! 3.12.03
13:11
(JPP)
![]()
09:09
(JPP)
![]() ![]() Qual � o equivalente moderno deste mundo? S� me lembrei de T�quio ou Nova Iorque � noite, da publicidade a n�on, brilhando. Tal intensidade de imagens, s� nas ruas com os cartazes, a publicidade, as luzes, o "c�u de cor de televis�o".
08:38
(JPP)
A manh� hoje � de Salvatore Quasimodo, o siciliano. Para os tempos "colore di pioggia e di ferro", que passa a p�tria. COLORE DI PIOGGIA E DI FERRO "Dicevi:morte, silenzio, solitudine; come amore, vita. Parole delle nostre provvisorie immagini. E il vento s'� levato leggero ogni mattina e il tempo colore di pioggia e di ferro � passato sulle pietre, sul nostro chiuso ronzio di maledetti. Ancora la verit� � lontana. E dimmi, uomo spaccato sulla croce, e tu dalle mani grosse di sangue, come risponder� a quelli che domandano? Ora, ora: prima che altro silenzio entri negli occhi, prima che altro vento salga e altra ruggine fiorisca. " (Salvatore Quasimodo) De longe, por onde passa o pequeno vapor, bom dia ! 2.12.03
22:21
(JPP)
�Curiosamente, a primeira vez que abri o seu ABRUPTO (23/11/03), encontrei uma refer�ncia a meu pai, o professor e escritor Cruz Malpique! Com efeito desde Luanda(onde foi professor,por ex.de Agostinho Neto entre tantos outros) ate ao Porto, passando por Macau,sempre encontrei pessoas que recordavam o prof. Malpique com a maior simpatia, com saudade desse tempo do liceu em que ficara gravada a memoria desse professor bem disposto,indulgente,ironico,com frases carismaticas,que lan�ava duvidas mais do que debitava certezas,que estimulava o debate de ideias,que nos exames deixava sempre que o aluno escolhesse o tema sobre o qual queria falar. Nos seus livros e na educa��o das suas duas filhas,estimulou o dialogo e a curiosidade intelectual.Criticava azedamente o ensino que se fazia do Portugu�s e da Historia.Contra a Gramatica entendia que se aprendia a escrever, escrevendoEstimulou sempre a leitura e a escrita, a s�ntese oral do que se acabara de ler.Recordo~me das suas palavras: "se a leitura alimenta o pensamento, a escrita e um verdadeiro catalisador do pensar!" Foi um apaixonado dos livros!E foi com desejo de continuidade desse amor pela leitura que legou ao Liceu Alexandre Herculano grande parte da sua biblioteca, numa sala que tem o seu nome. Prop�s uma pequena colecta entre os alunos para aquisi��o de novos livros, e pediu que aquele fosse um espa�o de leitura e dialogo mais personalizado entre professor/aluno. N�o sei que foi feito daquele espa�o, mas doi-me que tenha sido abandonado�que nunca chegasse a ser utilizado como o professor Malpique pretendia! aquele espa�o "faz falta"para meter mais e mais alunos,para nele transitarem professores "que dificilmente ser�o recordados"porque mudam de 50 em 50 minutos e porque mudam de liceu quase todos os anos.Como diz Pacheco Pereira n�o deixam marca,n�o ficam como "personae". A biblioteca que Cruz Malpique deixou ao Liceu Alexandre Herculano transformou-se num espa�o morto,porque nunca se alimentou o espirito que lhe presidiu_ a leitura,o debate sobre a leitura,ou mesmo sobre o cinema, a TV ,a pesquisa na Internet, com ou na presen�a de um professor dialogante, sem programa obrigat�rio a cumprir.Um espa�o/tempo dentro da escola, para alem das aulas e dos recreios,onde o contacto mais personalizado professor/aluno fosse poss�vel.� (Celeste Malpique)
19:43
(JPP)
![]() N�s, a gente, os comuns, os que vagueiam, os que transitam, os que passam ao de leve, os diletantes, olhamos para a B�blia de Borso d�Este e percebemos que h� dois mundos e que n�o pertencemos ao do livro em frente. As p�ginas brilham, o azul ultramarino e o ouro, estipulados com rigor nos contratos com os copistas e os caligrafistas porque eram caros, t�o vivos como se fosse ontem, quando, mil�metro a mil�metro, foram aplicados nas p�ginas de um dos livros mais belos do mundo.
16:07
(JPP)
![]() Ferrara, corte dos Este, condottieri e amantes das artes, tradicionalmente uma boa combina��o. Sigismundo, Ercole, Leonello, retratado por Pisanello, Francesco, algumas mulheres de outras guerras, deixaram atr�s de si uma floresta de s�mbolos como se quisessem conquistar o futuro atrav�s dos enigmas. Que faz ali aquele livro aberto? Aquela ave � um grifo? O le�ozinho � Leonello? Porqu� fazer um busto alla romana coberto de s�mbolos da paci�ncia? H�rcules transportando o mundo esculpido na coura�a � Ercole? Por que raz�o a cidade ideal, nas propor��es da perfeita perspectiva, n�o tem ningu�m? Semeadores de enigmas, os Este. Na pintura, na escultura, no teatro, na poesia, que pagavam com os lucros da sua m�o firme nas batalhas. Voltaremos a Ferrara. 1.12.03
23:38
(JPP)
Recebi um convite para uma realiza��o conjunta dos Institutos Francisco S� Carneiro e Adelino Amaro da Costa, ligados respectivamente ao PSD e ao PP, intitulada �O legado pol�tico de Francisco S� Carneiro e de Adelino Amaro da Costa�, que me parece traduzir uma am�lgama perigosa no plano pol�tico e ideol�gico. A tend�ncia para estender a coliga��o governamental � ideologia � n�o s� descaracterizadora de ambos os partidos, em particular do PSD, como � uma falsifica��o do significado das posi��es daqueles cujo �legado pol�tico� se pretende discutir. S� Carneiro tinha um pensamento muito estruturado, com ra�z na doutrina social da Igreja e na social-democracia moderada, e Adelino Amaro da Costa partilhava a primeira fonte ideol�gica, o pensamento social da Igreja, mas n�o a segunda. Tudo � uma floresta de equ�vocos neste col�quio. A am�lgama faz-se a todos os n�veis, a come�ar na oportunidade da iniciativa, amb�gua transposi��o da coliga��o governamental para o dom�nio da ideologia, onde � suposto haver identidades e tradi��es muito distintas. Nem � sequer a jun��o de S� Carneiro e Amaro da Costa, em si, e noutras circunst�ncias, poss�vel, � a oculta��o de que h� pouco de comum entre o pensamento de Amaro da Costa e o do PP de Paulo Portas. Depois, os participantes, ou s�o pessoas sem qualquer obra pol�tica ou ideol�gica conhecida (Jo�o Almeida e Pedro Duarte) e cuja escolha n�o se compreende, a n�o ser de novo pela l�gica governamental, ou tem pouco a ver com o legado que pretendem discutir. N�o conhe�o o pensamento de Telmo Correia, para al�m da sua ac��o pol�tica pragm�tica, e o de Santana Lopes tem muito pouco a ver com o de S� Carneiro, apesar da habitual invoca��o que faz do seu nome. O legado pol�tico de S� Carneiro n�o est� nos actos de risco e de ruptura que personificou (e que, retirados do contexto, ficam apenas coreografia pol�tica), mas nas raz�es que os motivaram. E a� encontramos um pensamento consistente e preciso, ancorando o PSD numa vis�o da sua necessidade para Portugal, num lugar ent�o desocupado no espectro pol�tico: entre o centro-esquerda e o centro-direita, mas nunca na direita. Uma iniciativa deste tipo s� teria sentido se fosse o caminho de uma fus�o, a prazo, dos dois partidos, que h� quem deseje, mas n�o queira enunciar.
22:38
(JPP)
Sentimento del tempo (1931) "E per la luce giusta, Cadendo solo un'ombra viola Sopra il giogo meno alto, La lontananza aperta alla misura, Ogni mio palpito, come usa il cuore, Ma ora l'ascolto, T'affretta, tempo, a pormi sulle labbra Le tue labbra ultime. " Giuseppe Ungaretti
11:16
(JPP)
Como n�o houve manh�, n�o h� blogues pela fresca manh�. Volto mais tarde com a chuva na laguna e as nuvens sobre Il Redentore. Bom dia , de qualquer modo.
� Jos� Pacheco Pereira
In�cio |