ABRUPTO

30.9.03
 


IMAGEM

de h� dois dias, de Robert Filliou, � um fragmento de "S�mantique gen�rale" e data de 1962. Est� no museu de M�nchengladbach.
 


HORA DUODECIMA

 


RAVEL RECORDADO POR MANUEL ROSENTHAL

Um canal franc�s passa, a altas horas da noite, uma longa entrevista com Manuel Rosenthal, m�sico, maestro e compositor franc�s, que morreu h� pouco tempo, quase com 99 anos. A entrevista foi realizada quando Rosenthal estava na casa dos oitenta e era uma conversa fascinante, sem um segundo de aborrecimento, hist�ria sobre hist�ria, com recorda��es viv�ssimas de Ravel, dos m�sicos franceses do s�culo passado, da Resist�ncia aos nazis, das mem�rias de gente como Rubinstein, ou o muito jovem Baremboim, ou da experi�ncia que Rosenthal tivera, pouco antes da entrevista, de, com 82 anos, dirigir a Tetralogia em Seattle.

Rosenthal contou que Ravel quis que, no seu funeral, se tocasse L' Apr�s Midi d'un Faune, que considerava a "m�sica perfeita" , n�o uma m�sica perfeita, mas a m�sica perfeita. E Rosenthal explicou (mais do que explicar, numa forma suprema de explicar), porqu�.
 


JUDEU ERRANTE

Por raz�es que (me) entram pelos olhos dentro, interessam-me as maldi��es de err�ncia, quando algu�m � condenado a andar permanentemente � procura de um lugar que n�o existe e por isso n�o pode nunca parar. Eis uma verdadeira maldi��o.

Uma das mais conhecidas � a do "judeu errante" , o judeu que se teria negado a ajudar Cristo no sua passagem com a cruz por Jerusal�m, e a quem este teria condenado a perpetuamente viajar pelo mundo , sem casa, nem abrigo, de terra em terra, numa procura sem sentido nem fim. O que eu n�o sabia � que v�rios homens se convenceram de que eram o "judeu errante", e que apari��es do maldito pontuam a Europa desde a Idade M�dia, de Toledo � Ucr�nia. Um mapa muito interessante da err�ncia do judeu vem em Martin Gilbert, The Routledge Atlas of Jewish History, Routledge, 2003.

Entretanto, parece que o judeu errante foi para Nova Iorque, o que � natural porque � a cidade onde mais judeus h� no mundo. Uma das �ltimas apari��es ter-se-ia dado a�, em 1940, quando um agente de seguros se convenceu de que incarnava o judeu pouco hospitaleiro, que negou um lugar de descanso a Cristo. Visitava com frequ�ncia a Biblioteca, onde lia biografias de si pr�prio, e mandou imprimir um cart�o de visita onde se lia "The Wandering Jew".

Talvez um dia o encontre num aeroporto, voando sem descanso, e troquemos cart�es de visita, de errante a errante.

29.9.03
 


UM IMENSO E AMB�GUO CONSENSO

No momento em que as quest�es europeias s�o mais complexas e delicadas (Constitui��o, implementa��o do Tratado de Nice, reforma da PAC, alargamento, direct�rio, etc.), no momento em que Portugal tem mais a perder na sua posi��o relativa no contexto europeu (menos votos, menos deputados, menos poder nos esquemas de vota��o maiorit�ria, acabado que est� o direito impl�cito de veto, fim dos prazos especiais que protegiam o nosso atraso, amea�as sobre a pol�tica de coes�o, competitividade acrescida dos pa�ses do alargamento, etc.), no momento em tudo est� a mudar qualitativamente n�o se sabe bem para onde, est�o criadas todas as condi��es para que n�o haja qualquer debate s�rio sobre a Europa, abafado por um imenso e amb�guo consenso.

PS, PSD e PP est�o presos nesse consenso; o PCP estar� fora, como sempre esteve, e n�o � nos seus termos que a discuss�o tem sentido. Vai estar tudo de acordo, v�o ficar apenas meia d�zia de nuances. � por isso tamb�m que j� se percebeu que o referendo, prometido pelo Primeiro Ministro, prometido j� h� v�rios anos pelo PSD e pelo PS, que juraram que nunca mais haveria mudan�as significativas na posi��o europeia de Portugal sem consulta popular, vai ser metido na gaveta. O PS n�o o quer porque teria que estar ao lado do PSD, o PP n�o o quer de todo, porque lhe seria muito inc�modo, dadas as suas posi��es ainda recentes, e o PSD hesita para n�o p�r o PP em dificuldades.

Isto significa que as pr�ximas elei��es europeias pouco ter�o de europeu e muito de portugu�s: ser�o sobre o governo e a oposi��o, ou se calhar nem isso, se o PS continuar como est�. A ser assim, a absten��o crescer� e a anomia pol�tica tamb�m.
 


O QUE � ABSOLUTAMENTE OBRIGAT�RIO SABER

sobre armas de destrui��o massiva, vem num livro, acabado de publicar, de Frank Barnaby, How to Build a Nuclear Bomb and Other Weapons of Mass Destruction , Londres, Granta Books, 2003. Barnaby � um f�sico nuclear, que trabalhou na ind�stria de armamento e que foi director de um prestigiado think tank sobre a paz, sediado em Estocolmo. Devia ser leitura obrigat�ria para todas as pessoas, para l� de ideologias e pol�ticas, que devem saber o futuro que se prepara, o futuro que � poss�vel temer. A quest�o, verdadeiramente, n�o � apenas pol�tica, porque o acesso a determinadas tecnologias est� j� ao alcance de um terrorista individual, obcecado com qualquer causa ex�tica, do tipo do Unabomber.
 


PROZAC

Voando da "euro-acalmia" para a "euro-excita��o", ou ser� o contr�rio?
L� em baixo, os europeus, invis�veis. Est�o muitas nuvens, mas s�o euro-nuvens.

28.9.03
 


CHOQUE DE CIVILIZA��ES

Um texto fabuloso aqui, o cap�tulo XXX do livro I dos Ensaios de Montaigne, sobre os "canibais" , sobre eles e sobre n�s.
 


HORA QUARTA

 


IMAGEM

de ontem era de Katharina Fritsch, data de 1988, e est� no Museu de Arte Moderna de Frankfurt.
 


ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

CASA DA M�SICA :

Sei que e do Porto e que gosta do Porto. E quer se goste da Casa da Musica, quer n�o, quer se gostasse mais da velha Central de El�ctricos quer n�o, construir um edif�cio de 7 andares atras dela e uma aberra��o. Se Ginestal Machado (arquitecto responsavel pelo projecto do edif�cio o BPI) efectivamente respondeu a Koolhaas como noticiou o Publico, recusa a discuss�o do seu projecto com o arquitecto da Casa da Musica. Com "janel�o" ou sem "janel�o" (ideia que so de nos!), o edificio vai ser um desastre.
A quest�o e, basicamente, pode-se fazer alguma coisa contra a constru��o do edif�cio? Ou vai-se construir mais uma coisa que se acha uma aberra��o, mas "j� n�o se pode parar" (como tantas aberra��es pelo pais fora)? Como n�o sei a quem perguntar...


(Ana Aguiar)

ENCERRAMENTO DOS CHATS DA MICROSOFT:

"Acho que este � um assunto importante e interessante. Estou indignado como a not�cia foi debitada nos telejornais e nos jornais sem qualquer reflex�o. Fechar chat rooms n�o � a solu��o para a criminalidade online. As empresas t�m que ser respons�veis e investir em formas de proteger os seus utilizadores. "

(Nuno Figueiredo)

FALARES GALEGOS:

Artigo de Carlos Dur�o no Seman�rio Transmontano , 23/09/2003

Acostuma dizer-se que, a norte da raia, �fala-se galego�. De facto, �o galego� (�el gallego�) � hoje reconhecido pelas autoridades espanholas, que o consideram l�ngua �pr�pria� da Galiza (para elas �Galicia�), ao mesmo tempo que �lengua tambi�n espa�ola�, como p.ex. na Constitui��o espanhola ou no Estatuto de Autonomia da Galiza. E as �autoridades� lingu�sticas espanholas t�m feito os m�ximos esfor�os por �provar� que essa l�ngua falada a Norte da raia, que � cooficial com o castelhano, n�o tem nada a ver com a que se fala a Sul da raia, que � oficial no Estado portugu�s. Ora, a realidade � que a verdadeira l�ngua oficial da Galiza � a espanhola, que � a l�ngua que abrange todo o Reino de Espanha. E �o galego� s�o de facto �os galegos�, os falares, falas ou dialetos galegos da Galiza oficial (as quatro prov�ncias da Corunha, Lugo, Ourense e Ponte Vedra) e mais da Galiza chamada �exterior� (N�via, Berzo e Seabra, comarcas ocidentais das Ast�rias e de Le�o), ou seja os dialetos portugueses do Norte da raia, em geral tanto mais castelhanizados quanto mais distantes dela. Para esses dialetos, as autoridades espanholas inventaram uma �ortografia� espanhola, que reflite uma �ortofonia� tamb�m quase espanhola (quer dizer adatada � fon�tica dos hispan�fonos galegos), e tornaram-na obrigat�ria nos centros de ensino e nas edi��es subsidiadas, banindo a ortografia e ortofonia realmente pr�prias da l�ngua, ou seja portuguesas: esta � a posi��o dita isolacionista, obediente �s diretrizes dum partido pol�tico de �mbito estatal.

Existem, claro, dissid�ncias, grupos minorit�rios e independentes do oficialismo, que n�o est�o dispostos a aceitar este �facto consumado� e que procuram falar e escrever bem o portugu�s, considerando que une e d� coes�o a todos esses falares, e nos relaciona cabalmente com o resto da Lusofonia, quer dizer que � a norma culta da nossa l�ngua. Naturalmente esses grupos s�o sanhudamente perseguidos e banidos do ensino e dos subs�dios oficiais (como, ali�s, nos melhores tempos da ditadura franquista). Mesmo assim, conseguem manter uma presen�a social muito superior ao seu n�mero, publicando livros e revistas, celebrando congressos, semin�rios, etc., que nos derradeiros vinte anos t�m alertado a sociedade galega para o perigo da espanholiza��o e exercido certa press�o nas op��es filol�gicas at� dos pr�prios isolacionistas. H� ainda uma posi��o interm�dia, digamos quase lus�grafa mas n�o lus�fona, ainda muito dependente do espanhol na grafia, na fon�tica e na morfologia e sintaxe, que parece ter certas esperan�as de ser aceite ou pelo menos tolerada pelo oficialismo. Os seus utentes, embora digam que a sua posi��o � tempor�ria e que est� a caminho do alvo final portugu�s, de facto cada vez mais ficam estacados num imobilismo c�modo ou docilmente submetidos � pol�tica lingu�stica dum partido, e ainda pretendem �exportar� os seus produtos ao mundo lus�fono, sem reparar que est�o a criar confus�o entre as pessoas lus�fonas de boa vontade que realmente querem ajudar a Galiza na recupera��o da sua l�ngua.

O que fazer? Certamente n�s, a Norte da raia, temos muito que fazer para ampliar essas minorias cr�ticas e continuar consciencializando as pessoas. Mas a Sul da raia tamb�m os nossos irm�os transmontanos e minhotos muito poderiam fazer para alentar a l�ngua portuguesa na Galiza e recusar tanto o isolacionismo oficial como essas meias-tintas gr�ficas e fon�ticas, que afinal s�o mau portugu�s, e insistir num padr�o correto para a nossa l�ngua, seja ele o que se continua a empregar em Portugal ou o do ainda n�o ratificado Acordo da Ortografia Unificada de 1990, no que est� explicitamente reconhecida a participa��o da Galiza
.�

MEM�RIA DA ESCOLA:

A primeira tem uma liga��o com a escassa produ��o de materiais de arquivo que permitam fazer a arqueologia dos processos de decis�o dos partidos pol�ticos. Falo dos processos de decis�o em muitas escolas. Quem for consultar e ler as actas de muitas reuni�es (sobretudo nos conselhos de turma) encontrar� uma outra realidade. Aqui temos documentos, materiais de arquivo. No entanto, muitas vezes n�o nos dizem o que realmente se passou. Tudo porque a legisla��o obriga a que se fa�am coisas imposs�veis. Eis dois bons exemplos:
- planos curriculares de turma que "articulem" os conte�dos de todas as disciplinas e sejam adequados � especificidade de cada turma;
- planos individuais de recupera��o dos alunos, com estrat�gias que n�o se colocar�o em pr�tica porque todos sabem que o aluno s� se recupera se estudar e isso ele dificilmente come�ar� a fazer.
Unicamente, a realidade das escolas, das turmas, dos professores, torna estas ac��es imposs�veis. E como n�o � poss�vel fazer, n�o se faz, mas como a lei manda que se fa�a, ent�o que se registe em acta. N�o se fez, mas se est� na acta, est� bem
.�

(Paulo Agostinho)

ESTADO PROVID�NCIA VISTO PELOS DE BAIXO:

Volto de novo � escola. Dei aulas nos �ltimos seis anos (este ano est� mais complicado obter coloca��o, infelizmente) e foi sempre elevada a percentagem de alunos subsidiados, com excep��o da turma do ano de est�gio, que era de um centro urbano (Coimbra). Assim, estes alunos recebem livros, refei��es gr�tis ou a pre�os mais reduzidos e materiais escolares.
Muitos materiais s�o fornecidos de forma arbitr�ria, pois a meio de um ano lectivo vi serem entregues cadernos novos e meia d�zia de canetas de v�rias cores que rapidamente davam origem a um estranho mercado paralelo de venda desse material escolar entre os alunos, pelo que se depreende que n�o lhes fazia falta. E vi alunos deitarem fora o caderno que usaram at� a� (com as li��es nele registadas) porque receberam um novo. Mas h� duas coisas que mais chocam. A primeira � a impunidade com que alguns alunos destroem material e desperdi�am a comida que lhes � dada. Partir as r�guas, vender as canetas, rasgar as folhas dos cadernos, perder os livros, utilizar o p�o para batalhas nas cantinas e ma��s e laranjas para jogos de futebol s�o alguns exemplos. Creio que s� na Madeira estas atitudes d�o origem ao corte do subs�dio. Por c� o acto fica, geralmente, impune. E assim n�o se transmitem os valores que as escolas tanto apregoam. A segunda situa��o chocante � o n�mero esmagador de alunos subsidiados que t�m telem�vel. E falo de alunos de 12 a 14 anos (os �ltimos anos da escolaridade obrigat�ria), n�o de adolescentes quase na maioridade. Ser� uma necessidade? Se mesmo nos adultos muitas vezes n�o o �, muitos menos ser� no caso das crian�as. Mas eles l� est�o, em cima das secret�rias, a tocar nos corredores e nas salas, a anunciar mensagens ou "toques".
Estes exemplos s�o sintomas de erros e injusti�as na atribui��o dos subs�dios escolares. E uma m� li��o de vida para as crian�as. "


(Paulo Agostinho)

SOBRE PEDREIRAS:

Uma cr�tica bastante fundamentada � minha nota no Abrupto em Portugal Profundo.
 


EARLY MORNING BLOGS / SONGS / HOURS 51

J� come�aram a chegar os portugueses a este olhar matinal. Ant�nio Afonso fala das manh�s � que os lisboetas n�o aproveitam� e recorda os anos 60� , que foram tamb�m os que eu andei por a�, espantado transmontano, embevecido com o Tejo e com as aulas de Teoria da Literatura do David Mour�o-Ferreira ,que escreveu o ROMANCE DA BEIRA-TEJO, de que transcrevo as duas �ltimas estrofes (??):
...

Certa manh� na ribeira
do Tejo, com maresia,
fragatas, e o que trazia
do mar a brisa ligeira...
- essa gra�a, enfim, senti-a,
� beira do Tejo, � beira,
com fragatas, maresia...

Bela! a cidade, serena...
Longe o tempo, desolado...!
Perto, s� tu, a meu lado,
l�rica barca pequena
que a Vida enfim h� deixado
junto de mim, na serena
cidade bela do fado!

in A Secreta Viagem

Provavelmente o cheiro a maresia j� n�o � o mesmo, as fragatas n�o est�o l�, a cidade ser� menos bela e menos serena, mas cada um poder�, ainda assim, sentir, todas as manh�s, a �gra�a� que entender.


Jos� Carlos Santos mant�m-nos nos anos sessenta com este �Morning has broken� de autoria de Eleanor Farjeon (1881-1965) �e tornou-se famosa por ter sido a letra de uma can��o de Cat Stevens, inclu�da no seu �lbum Teaser and the Firecat (1971)�.

Morning Has Broken

"Morning has broken like the first morning
Blackbird has spoken like the first bird
Praise for the singing praise for the mornin
Praise for the springing fresh from the world.

Sweet the rains new fall sunlit from heaven
Like the first dewfall on the first grass
Praise for the sweetness on the wet garden
Sprung in completeness where his feet pass.

Mine is the sunlight mine is the morning
Born of the one light eden saw play
Praise with elation praise every morning
God's recreation of the new day."



Lu�s Parreira acrescenta �na lista de can��es sobre manh�s, h� uma que penso n�o pode faltar, falo de �morning Song� da bel�ssima Jewel.

Let the phone ring, let's go back to sleep
Let the world spin outside our door, you're the only one that I wanna see
Tell your boss you're sick, hurry, get back in I'm getting cold
Get over here and warm my hands up, boy, it's you they love to hold
And stop thinking about what your sister said
Stop worrying about it, the cat's already been fed
Come on darlin', let's go back to bed

Put the phone machine on hold
Leave the dishes in the sink
Do not answer the door
It's you that I adore -
I'm gonna give you some more

We'll sit on the front porch, the sun can warm my feet
You can drink your coffee with sugar and cream
I'll drink my decaf herbal tea
Pretend we're perfect strangers and that we never met...
My how you remind me of a man I used to sleep with
that's a face I'd never forget
You can be Henry Miller and I'll be Anais Nin
Except this time it'll be even better,
We'll stay together in the end
Come on darlin', let's go back to bed

Put the phone machine on hold
Leave the dishes in the sink
Do not answer the door
It's you that I adore -
I'm gonna give you some more



EARLY MORNING HOURS : Agora , de um lado mais sinistro, mas completamente humano, o nosso m�dico lembra-nos que a manh� � uma altura em que se morre mais. Numa nota de grande sensibilidade, leva-nos para o mundo experior, para o mundo real, onde um oper�rio �com a boca ao lado� permanecia fiel ao seu lugar, ao seu posto de trabalho a fazer um AVC, perdendo a vida ou parte dela. De leitura obrigat�ria.

Bom dia.

27.9.03
 


SOBRE A �MARCHA BRANCA�: O POVO CONTRA MONTESQUIEU

Em princ�pios de 1998, assisti a uma �marcha branca� na B�lgica, no apogeu do processo Dutroux e escrevi um artigo no Di�rio de Not�cias, intitulado �O povo contra Montesquieu", que aqui reproduzo parcialmente por me parecer oportuno.

�Era uma manifesta��o popular, o que � pouco comum. Desde que a f�rmula do cortejo de protesto pac�fico se estabilizou como um h�bito democr�tico - e isso aconteceu s� no nosso s�culo com as primeiras manifesta��es ordeiras dos social-democratas alem�es em Berlim, que n�o degeneraram em batalhas campais com a pol�cia - que as manifesta��es s�o um instrumento de ac��o pol�tica, dependentes de l�gicas partid�rias ou inerentes ao processo pol�tico. � verdade que tamb�m havia organiza��es que circulavam � volta do cortejo - os restos do P. C. Belga, um grupo trotsquista, uns ecologistas - mas eram marginais. Tinham pouco a ver com o que se estava a passar, eram apenas parasit�rias.

N�o � sequer o n�mero de pessoas que conta, mas a forma, o car�cter, o conte�do. Aquela longa fila de homens, mulheres e crian�as, muitas fam�lias inteiras, dessas novas fam�lias europeias muito pequenas, n�o tinha nenhum padr�o especial que a desviasse de uma representa��o equilibrada da sociedade belga. Havia belgas, franc�fonos e flamengos, havia emigrantes, velhos e jovens, crian�as e adolescentes. S� havia um tra�o de identidade - n�o parecia haver pessoas abastadas. Eram trabalhadores, funcion�rios, empregadas, donas de casa, vestidos casualmente de blus�es e camisolas, poucos fatos e gravatas. Naquela enorme multid�o estava uma B�lgica um pouco mais pobre do que a fauna eurocrata e dos neg�cios que se encontra habitualmente no centro de Bruxelas, misturada com os turistas. Havia muita gente que viera de comboio e autocarro dos sub�rbios da cidade, e os pontos de reuni�o da manifesta��o estavam associados aos transportes p�blicos. Aquelas pessoas andam de metro, de autocarro, de comboio.

Depois, quase que n�o havia cartazes e os poucos que havia tinham sido feitos por aqueles que os traziam. Raramente tinham o tamanho de um vulgar cartaz de an�ncio de um concerto de rock e estavam perdidos no meio de manifestantes de m�os nuas, sem autocolantes, sem s�mbolos, sem nada. N�o havia palavras de ordem, ningu�m gritava nada - o sil�ncio "contra o sil�ncio".
Os organizadores desta marcha s�o os comit�s ad hoc que se criaram � volta das fam�lias das crian�as assassinadas. Quase que n�o tiveram meios de divulgar a manifesta��o e consideravam-na um sucesso se aparecessem 10.000 pessoas. Apareceu o triplo. H� um ano, o n�mero de manifestantes era muito maior mas isso podia compreender-se pela emo��o da trag�dia dos assassinatos. Hoje h� menos pessoas, mas s�o as mesmas e ainda s�o muitas, e n�o h� raz�o nenhuma para n�o se perceber que elas comunicam invisivelmente com as muitas centenas de milhares que n�o sa�ram � rua. Longe da emo��o causada pelas revela��es criminosas, a mesmo revolta continua. Popular. Silenciosa. Forte.

O que querem os manifestantes? N�o o dizem com clareza, mas percebe-se: querem que algu�m mande - porque � suposto ter a obriga��o de mandar -, mande nos ju�zes e nas pol�cias para acabar com os crimes. Que algu�m fa�a n�o s� justi�a, mas tamb�m garanta repara��o, repara��o para as fam�lias, repara��o para todos os que ali est�o. Que todos, a come�ar pelas fam�lias, sejam "parte" nesse processo de justi�a, tenham "voz", a �nica que se considera leg�tima e pura, porque vem da perda e do sofrimento. Que haja justi�a vinda de quem sofre e n�o de quem julga, porque se suspeita que quem julga est� mais pr�ximo do criminoso do que da v�tima.

O pretexto s�o os crimes da rede ped�fila de Dutroux , mas o alvo � a percep��o de que eles s� foram poss�veis por uma rede de cumplicidades que envolve pol�ticos, pol�cias, e ... ju�zes. � contra uma conspira��o pressentida que se revoltam os manifestantes, uma conspira��o dos poderosos contra o povo comum, que oculta crimes t�o terr�veis como a viola��o e o assassinato de crian�as, atrav�s de uma "lei do sil�ncio", que funciona como uma lei do poder, a favor do poder.

Sendo assim a manifesta��o � tanto popular como subversiva, no verdadeiro sentido da palavra. O que est� em causa � a ordem, a ordem democr�tica assente na divis�o dos poderes. Os manifestantes querem que algu�m - e esse algu�m s� pode ser um governante, um pol�tico ou o "povo" nas ruas - interfira no processo judicial, d� ordens a um juiz. Ora isto viola claramente a separa��o cl�ssica entre os poderes, do mesmo modo como h� alguns anos os apelos aos juizes italianos para "governarem" a It�lia, contra a mafia e a corrup��o.

(�) Os manifestantes belgas traduzem um mal-estar profundo que tamb�m � nosso. Na B�lgica � contra os ju�zes, que s�o percebidos como "pol�ticos" como outros quaisquer. Mas a verdadeira revolta � contra o poder e os poderosos, feita por um povo comum que n�o acredita nos partidos ou nos sindicatos para exprimir e canalizar essa revolta. N�o � um problema novo, mas conhece hoje novas formas.�
 


PAPEL HIGI�NICO E LARANJAS PODRES, O MESMO COMBATE!

O que disse sobre as perip�cias dos acad�micos conimbricenses, que se sentem representados pelo papel higi�nico, repito sobre os lisboetas que tamb�m andaram pelo mesmo papel e acrescentaram laranjas podres � lista, demonstrando uma imagina��o poderosa.

Agora a surpresa lisboeta � ver estudantes do T�cnico de �traje acad�mico�, ou seja, como uma esp�cie de seminaristas retardados no tempo. Que os de Coimbra andem de farda, j� estamos habituados, agora em Lisboa, onde nunca houve tal �tradi��o�, o que � que se passa? H� algum v�rus no ar? A polui��o j� � assim t�o grave? Ser� dos shots? A culpa � do absinto?

N�o sei porqu�, mas h� alguma coisa que me diz ao ouvido, algum grilo transviado, que deve haver um tra�o esquisito num engenheiro de sistemas, num f�sico nuclear, num bioqu�mico, que n�o se importa de andar na rua, em p�blico (que horror!), vestido de �estudante� oitocentista, na altura do varapau, das rixas, das esperas, dos bord�is canalhas, da cont�nua bebedeira, e, ainda pior horror, da poesia ultra-rom�ntica . Mas deve ser de mim, que so�obro sentimentalmente � ideia positivista do progresso, mesmo apesar das minhas resist�ncias filos�ficas.
 


MARCHA �BRANCA�

N�o vou, n�o concordo. Cada um � livre de se manifestar como entende, mas este tipo de iniciativas unanimistas s�o um poderoso caldo de cultura para o populismo. � um caminho perigoso.
 


EARLY MORNING BLOGS 50

Micro-causas: enfileiro-me, disciplinado, no apelo do Almocreve das Petas a prop�sito dos livros-cat�logos:

Saiu o nov�ssimo Boletim Bibliogr�fico do Livreiro-Antiqu�rio Lu�s Burnay - Setembro 2003 -, com 508 pe�as estimadas, h� muito esgotadas ou raras. Como curiosidade o livreiro-antiqu�rio acrescenta � listagem bibliogr�fica um "desabafo" aos clientes e amigos, bem pertinente, e que n�o � normal aparecer em Cat�logos. Trata-se de uma refer�ncia � pol�tica de franquia existente, onde o livro-cat�logo � penalizado face ao livro tout court. Essa estranha hermen�utica dos CTT em torno do conceito de livro, considerando um livro-cat�logo um n�o-livro, desvela n�o s� uma incomensur�vel blague cultural mas aponta, tamb�m, para o anedot�rio nacional onde o desnorte da politica cultural legislativa � total. Refere, ainda, e neste assunto n�o est� s�, o atraso constante e sistem�tico da distribui��o dos correios, que impede uma pr�tica gestion�ria cont�nua e eficaz. N�s compreendemos tudo isso. Ou n�o estiv�ssemos em Portugal. �

Early morning songs:

Nuno Lima envia uma grande can��o de Billie Holiday e cita o Edu Lobo sobre o canto de Billie "n�o tem t�cnica, n�o tem truque nenhum, � emo��o pura". Que poder� ser mais bluesy?�

Good Morning Heartache

"Good morning heartache
you old lonely sight
Good morning heartache
thought we said goodbye last night

I've turned and tossed until it seems you have gone
But here you are with the dawn
Wish I'd forget you
but you're here to stay
It seems I met you
when my love went away
My every day I start by saying to you
Good morning heartache
What's new?

Stop haunting me now
Can't shake you nohow
Just leave me alone
I 've got those Monday blues
straight through Sunday blues
Good morning heartache
here we go again
Good morning heartache
you're the one who knew me when
Might as well get used to you
hangin' round
Good Morning heartache
Sit down

Stop haunting me now
can't shake you nohow
just leave me alone
I've got those Monday blues
straight through Sunday blues
Good morning heartache
here we go again
Good Morning Heartache
you're
the one who knew me when
Might as well get used to you
hangin' round
Good Morning Heartache
Sit down."



Andr� Carvalho manda-me a primeira letra em portugu�s de can��es matinais: a Letra da me Tempo Perdido, do grupo brasileiro Legi�o Urbana:

Tempo Perdido

"Todos os dias quando acordo,
N�o tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.


Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esque�o como foi o dia:
"Sempre em frente,
N�o temos tempo a perder".


Nosso suor sagrado
� bem mais belo que esse sangue amargo
E t�o s�rio
E selvagem.


Veja o sol dessa manh� t�o cinza:
A tempestade que chega � da cor dos teus olhos castanhos.
Ent�o me abra�a forte e me diz mais uma vez
Que j� estamos distantes de tudo:
Temos nosso pr�prio tempo.


N�o tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido � o que se escondeu
E o que foi prometido, ningu�m prometeu.


Nem foi tempo perdido;
Somos t�o jovens.�


Pedro Gaspar chama a aten��o para a Christopher Tower Poetry Competition da Universidade de Oxford, cujo tema �, nem mais nem menos, do que �early morning�!

Amanh� h� mais. Bom dia.
 


IMAGENS

de ontem inclu�am um �guerra e paz� , um �leo de Lawrence Ferlinghetti, cuja reprodu��o comprei numa memor�vel (para mim) visita � City Light Books em S. Francisco. A outra imagem, que parece um Matisse e que est� mesmo aqui em baixo, � de uma pintura de Helen Frankenthaler de 1971, chama-se �Captain�s Paradise� e est� num museu de Columbus, Ohio. Hoje estamos em plena Americana.

26.9.03
 


CONTICINIUM

 


EXAGEROS

A hist�ria do helic�ptero � t�pica dos h�bitos nacionais. Quantas hist�rias id�nticas se passam por todo o lado, nas empresas, nas reparti��es, nas escolas, nos hospitais, etc, etc.., t�picas de um � vontade no uso dos bens p�blicos ou colectivos, s� que sem o novo riquismo do helic�ptero?

O acto � em si reprov�vel, mas pouco mais mereceria que um inqu�rito circunscrito e assun��o de responsabilidades, em particular, com a reposi��o dos gastos indevidos. N�o justifica certamente a histeria que est� a ser feita pela comunica��o social e muito menos o rolar indiscriminado de cabe�as, apenas por excesso de zelo face � press�o medi�tica. Mas como � tudo povo pequeno, gente desconhecida, carne para canh�o, pode-se encher o peito �

Uma das raz�es porque a comunica��o social (neste caso acompanhei a SIC e a RTP) , apesar do seu moralismo arrogante, tem pequeno papel na luta contra os abusos e a corrup��o � que � incapaz de manter a propor��o, o equilibro. Os verdadeiros abusadores agradecem.
 


MISS�O IMPOSS�VEL *

(Carta aberta a Ant�nio Lobo Xavier sobre a �coer�ncia�)

Meu caro Ant�nio

1. Se h� artigo que eu sabia ia ser escrito, como uma esp�cie de pre-emptive strike, era este.....N�o me enganei, nem quanto ao autor, nem quanto ao conte�do, nem quanto ao papel pol�tico que o artigo pretende ter. S� uma nota sobre o autor: Ant�nio Lobo Xavier (ALX) � o �nico dirigente do PP que manteve a sua posi��o coerente quanto � Europa, nestes �ltimos dez anos. ALX presta um servi�o ao PP chegando-se � frente, querendo que o debate seja com ele, porque � o �nico que o pode travar.

2. Eu aceito o repto, mas n�o � com o ALX que discuto, � com o PP, com o PP de Paulo Portas, que querer�, sob o manto di�fano da "eurocalmice", (uma completa e absoluta inexist�ncia conceptual, destinada a encobrir o mais incomodado dos sil�ncios), escapar ao escrut�nio da viragem a 180�, e ao seu significado pol�tico. Tamb�m sei que este artigo tem muito a ver com as nossas discuss�es e com o que o Ant�nio sabia que eu iria dizer ou escrever. "Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes" � daquelas coisas que, na pol�tica portuguesa, s�o inescap�veis, tanto mais que o pa�s � pequeno e n�s, como discutimos h� muitos anos no Flashback e somos amigos, "sabemos".

3. Vamos � "coer�ncia". Tudo estaria bem se fosse assim, mas n�o �. Bem pelo contr�rio. De facto, a alian�a eleitoral que se anuncia entre PP e PSD nas europeias s� tem uma l�gica pol�tica : a manuten��o da coliga��o governamental. Nada tem a ver com a Europa , nem com as posi��es de cada partido. Mais valia que o PP dissesse claramente que � assim e admitisse que, para permanecer na coliga��o e no governo e para n�o contar os votos, abandonou as posi��es "euro-excitadas". O PP n�o evoluiu - n�o existem quaisquer tra�os s�rios dessa evolu��o - mudou. E mudou de forma escondida e envergonhada, n�o querendo admitir que errou antes ou erra agora.

4. O problema � que as pr�ximas elei��es europeias v�o travar-se num terreno de op��es pol�ticas decisivas, sem ambiguidades e que exigem posi��es claras sobre mat�rias t�o controversas como a Constitui��o europeia. Seria inconceb�vel que o PSD e, em particular, o PP, pudessem travar uma campanha eleitoral sem, por exemplo, dizerem se s�o a favor ou contra o projecto de Constitui��o, e isso significa pronunciar-se sobre mil e uma mat�rias mais que espinhosas... para o PP. Para al�m disso, as pr�ximas elei��es dar-se-�o num contexto, ou de simultaneidade, ou de proximidade, com um eventual referendo sobre a Constitui��o e poder�o acompanhar um processo de revis�o constitucional por ela motivado.

5. Para o PSD, tamb�m existem dificuldades, porque no interior do partido h� quem pense de modo muito diferente sobre estas mat�rias e n�o s� de agora. Mas, seja qual for a defini��o a haver no PSD, ela n�o ser� traum�tica, at� porque o partido sempre foi europe�sta e acompanhou o processo de integra��o europeia sobre o qual h� um certo consenso. Mas ALX n�o se iluda quanto �s posi��es do PSD, reflexo das op��es do governo, porque estas est�o cada vez mais alinhadas com as do Partido Popular Europeu (PPE) . O PP, para acompanhar o PSD, ter� que mudar do preto para o branco. E n�o ter� que deitar fora velhas posi��es, como ALX sugere, do "princ�pio dos anos noventa", mas de 1999 e 2000. Veja-se a �ltima campanha eleitoral para as europeias, completamente "euro-excitada", para se perceber o que mudou.

6. Nalgumas entrevistas recentes, dirigentes do PP t�m apresentado a minha posi��o como sendo caracter�stica de uma evolu��o pol�tica semelhante � que estariam a ter eles pr�prios. O PSD, representado por mim, teria evolu�do para um �euro-realismo� e para longe do federalismo do passado, e, movendo-se em sentido contr�rio, encontrar-se-iam com o PSD a meio desse caminho. Isto � obviamente uma fic��o pol�tica, embora eu veja, com ironia, o meu papel de �unificador�. As minhas posi��es (ainda esta semana votei contra a mo��o do PE sobre a Constitui��o europeia) n�o s�o significativas da evolu��o que se est� a dar no PSD, tanto quanto se pode perceber no plano governativo, embora sejam, no meu entender, fi�is ao programa de candidatura de 1999 com que fui eleito. Em 1999, Paulo Portas achava esse programa federalista. Se esse era federalista, ent�o agora o PP vai-se aliar a um PSD ultra-federalista.

7. Na verdade, nunca as posi��es oficiais do PSD estiveram t�o pr�ximas do federalismo do que est�o hoje. Dur�o Barroso, honra lhe seja feita, nunca escondeu um pendor federalista em mat�rias europeias e, com excep��o da parte sobre o poder institucional, v�rias vezes se pronunciou favoravelmente ao processo constitucional da Conven��o, alinhando ali�s as suas posi��es com as do PPE. Este foi longe no projecto europeu (Constitui��o, refor�o dos poderes do Parlamento Europeu, modelo federal, unifica��o das pol�ticas europeias em �reas tradicionais de reserva da soberania dos estados, etc.) e considera-se, a justo t�tulo, como um dos inspiradores da Constitui��o europeia e como parte do n�cleo mais duro de um processo de integra��o pol�tica, a caminho de uma UE entendida como uma pa�s suis generis. Se, como diz ALX, o PP se aproxima hoje das suas �posi��es fundacionais�, ent�o os verdadeiros her�is s�o Freitas do Amaral e Lucas Pires, que sempre representaram esse legado do federalismo do PPE. Ambos tratados como quase traidores a Portugal, e Lucas Pires insultado soezmente na televis�o em directo por Paulo Portas.

8. Meu caro Ant�nio, as coisas s�o como s�o e cada um faz o seu caminho. O meu � cada vez mais dif�cil, e, provavelmente, custar� o meu lugar no PE. Acho a coisa mais normal do mundo deixar de exercer fun��es pol�ticas quando n�o se concorda com a pol�tica. Mas preocupa-me o caminho que se est� a seguir. A "Europa" que vamos discutir em 2004 n�o � soft, � hard , as op��es demasiado graves para haver confus�es. Se h� altura em que n�o se pode ficar �calmo� com a Europa � agora. Uma das muitas objec��es que se podem ter a uma alian�a PSD-PP, � que ela poder� gerar, num momento decisivo, um espa�o de ambiguidade mau para os interesses de Portugal e para o projecto europeu.

Um abra�o do

Jos� Pacheco Pereira

* Este texto ser� publicado amanh� no P�blico. Depois dessa publica��o, substituirei o texto por uma liga��o, dado que ele � muito extenso para o Abrupto.

 


MISS�O IMPOSS�VEL

estar� em linha daqui a uma ou duas horas, se entretanto n�o se agravarem os problemas de comunica��o que tenho tido. O correio electr�nico da Telepac est� um caos, n�o sei se � local ou global. Vamos ver.
 


HORA UNDECIMA

 


DE REGRESSO

ap�s algumas desventuras com as linhas telef�nicas de prov�ncia.

25.9.03
 


MISS�O IMPOSS�VEL

ser� o t�tulo de uma carta aberta ao Ant�nio Lobo Xavier, comentando o seu artigo no P�blico de ontem, intitulado " A prop�sito de coer�ncia", sobre a evolu��o das posi��es europeias do PP. O texto ser� colocado no Abrupto, talvez amanh�.
 


IMAGEM

de ontem � de John Singer Sargent, um dos meus pintores de estima��o. Foi para uma "nota chekoviana", porque nela passam as damas pelo Jardim do Luxemburgo, mais sofisticadas que as raparigas e as jovens senhoras dos contos de Chekov, mas feitas da mesma massa de eleg�ncia e de trivialidade. Mil romances foram sobre elas escritos, n�o � verdade, madame Bovary, n�o � verdade, Lu�sa, n�o � verdade, Anna Sergeyevna, a "senhora com o c�o de rega�o"?
 


EARLY MORNING BLOGS 49

Como o pensamento, as can��es e os poemas matinais v�o dar uns aos outros. � o que faz a dificuldade do software do MyLifeBits, � programar esta err�ncia.

A Rita Maltez lembrou-se de uma noite em Shakespeare que n�o queria acabar, e de uma manh� que se anuncia por p�ssaros (n�o � verdade que tudo se anuncia por p�ssaros?).

"JULIET
Wilt thou be gone? it is not yet near day:
It was the nightingale, and not the lark,
That pierced the fearful hollow of thine ear;
Nightly she sings on yon pomegranate-tree:
Believe me, love, it was the nightingale.
ROMEO
It was the lark, the herald of the morn,
No nightingale: look, love, what envious streaks
Do lace the severing clouds in yonder east:
Night's candles are burnt out, and jocund day
Stands tiptoe on the misty mountain tops.
I must be gone and live, or stay and die.
"

Bom dia.

 


O ESTADO PROVID�NCIA VISTO PELOS "DE BAIXO"

Um momento cr�tico em pequenas comunidades deprimidas, onde h� um elevado n�mero de pessoas a receberem o RMG, e outros subs�dios sociais, � quando se conhecem nas escolas as listas dos subs�dios escolares - livros , refei��es, etc - e a respectiva classifica��o do agregado familiar, para poder ser considerado para atribui��o desses apoios. Como todos se conhecem uns aos outros e sabem quem trabalha, quem tem dificuldades e quem as n�o tem, quem "declara" e quem n�o "declara", quem tem casa com piscina e recebe subs�dio, quem trabalha por fora (canalizadores , pintores, etc.) e n�o paga impostos, quem est� desempregado e quem � um falso desempregado, um vento de revolta passa pelos "de baixo". O Estado Provid�ncia � muito mais agitado em baixo do que se pensa em cima.

24.9.03
 


NOTAS CHEKOVIANAS 7

 


IMAGEM

das nuvens, de ontem, tirada de um "estudo" de Adalbert Stifter feito em 1840.
 


COMPETI��ES, TACO A TACO, VIT�RIAS E DERROTAS, SOBE E DESCE, PINGUE-PONGUE, PARADA E RESPOSTA, E O MAIS QUE A F�RTIL IMAGINA��O DESPORTIV0-JORNAL�STICA INVENTAR�

n�o contam comigo. Ficam a falar sozinhos.
 


EARLY MORNING BLOGS / SONGS 48

Os leitores do Abrupto t�m passado dos Early Morning Blues para outras m�sicas sobre a manh�, sobre acordar de manh�, sobre o mundo visto pelos primeiros olhares da manh�. N�o � brilhante a manh� vista assim, ou � o que se perde dia a dia , ou � o que nos espera, ou � o que nos falta. Mas, daqui a pouco, temos uma verdadeira antologia da manh�. Existe? J� algu�m fez uma antologia sobre textos matinais? � o que os leitores do Abrupto est�o a fazer.

Jorge Cam�es refere , atrav�s da letra dos Doors, "Summer's almost gone", o fim das manh�s de de Ver�o :

"Summer's almost gone
Almost gone
Yeah, it's almost gone
Where will we be
When the summer's gone?
Morning found us calmly unaware
Noon burn gold into our hair
At night, we swim the laughin' sea
When summer's gone
Where will we be
Where will we be
Where will we be
Morning found us calmly unaware
Noon burn gold into our hair
At night, we swim the laughin' sea
When summer's gone
Where will we be
Summer's almost gone
Summer's almost gone
We had some good times
But they're gone
The winter's comin' on
Summer's almost gone "


E acrescenta "um pequeno apontamento depressivo" . tamb�m dos Doors, dos Roadhouse blues,

"Well, I woke up this morning,
I got myself a beer Well,
I woke up this morning, and I got myself a beer
The future's uncertain, and the end is always near
"

Nobre Grenho envia a letra "me or him" do album Radio KAOS de Roger Waters.:

"You wake up in the morning, get something for the pot
Wonder why the sun makes the rocks feel hot
Draw on the walls, eat, get laid
Back in the good old days

Then some damn fool invents the wheel
Listen to the whitewalls squeal
You spend all day looking for a parking spot
Nothing for the heart, nothing for the pot

Benny turned the dial on his Short Wave radio
Oh how he wanted to talk to the people,
he wanted his own show
Tune in Moscow. Tune in New York
Listen tot the Welsh kid talk
Communicating like in the good old days

Forgive me father for I have sinned
It was either me or him
And a voice said Benny
You fucked the whole thing up
Benny your time is up
Your time is up

Benny turned the dial on his Short Wave radio
He wanted to talk to the people
He wanted his own show
Tune in Moscow. Tune in New York
Listen to the Welsh kid talk communicating
Like in the good old days

Forgive me Father

Welsh Policeman: Mobile One Two to Central.
For I have sinned

Welsh Policeman: We have a multiple on the A465 between Cwmbran and Cylgoch.
Father it was either me or him.
Father can we turn back the clock?

Welsh Policeman: Ambulance, over.
I never meant to drop the concrete block.

Welsh Policeman: Roger central, over and out.
Benny turned the dial on his Short Wave radio
He wanted to talk to the people
He wanted his own show
Tune in Moscow. Tune in New York
Listen to the Welsh kid talk
Just like in the good old days
The good old days
".

*

CORREIO : Recebido em condi��es, atrasado como de costume, a ser respondido parcialmente mais para o fim de semana.

23.9.03
 


HIST�RIA NATURAL DAS NUVENS



Qualquer voador qualificado sabe tudo sobre nuvens. A maioria das vezes olha-as de cima, o que � bastante tranquilizador, outras vezes, quando sobe e quando desce, passa-lhes pelo meio, o que � sempre um pouco agitado. O pior de tudo � quando tem que lhes passar pelo meio estando em cima, a 32000 p�s, e ent�o os pilotos, que t�m aquele h�bito tecnocr�tico de classificar rigorosamente as coisas, l� pedem para apertar os cintos devido � `"light turbulence", nenhum problema, "some turbulence", ou qualquer variante sem o "light", que j� � um pouco mais complicada. Estudar as nuvens tem imensas vantagens para o voador, para evitar levar com a explos�o do almo�o ou do l�quido do copo em cima.

A hist�ria da "ci�ncia" das nuvens � recente e est� descrita num artigo, com um t�tulo apetec�vel, de Graeme L. Stephens , "The Useful Pursuit of Shadows" no American Scientist de Setembro-Outubro. Li-o, enquanto passavam debaixo de mim os amea�adores cumulo-nimbus que inundaram o Languedoc em meia d�zia de minutos. Quem os v� erguerem-se amea�adoramente na vertical tem poucas d�vidas sobre o seu poder . Podem ser "sombras", mas s�o sombras t�o compactas como o bet�o.
 


"O ARM�RIO DA SABEDORIA"

Talvez, de todos estes livros, o que mais curiosidade me suscitou foi um de Houari Touati, L'Armoire � Sagesse. Biblioth�ques et Collections en Islam, Paris, Aubier, 2003. Na contra-capa, que � o que serve para fazer recens�es quando ainda n�o se leu o livro, vem uma hist�ria exemplar do "entrela�ar de civiliza��es": S. Lu�s, prisioneiro no Egipto quando da s�tima cruzada, � convidado a consultar a biblioteca do sult�o, e o fasc�nio dos "livros", manuscritos, iluminuras, caligrafias, que viu nesse "arm�rio de sabedoria" levou-o, de regresso a Fran�a, a criar uma biblioteca.
 


EARLY MORNING BLOGS / BOOKS 47

Hoje, antes dos blogues, livros. Comprei v�rios livros bem interessantes, que s� permitem elogios � edi��o francesa. Um, que seria bom traduzir de imediato para portugu�s, � uma s�rie de entrevistas de Jacques Le Goff, Le Dieu du Moyen �ge , Paris , Bayard, 2003. Embora seja sobre Deus, explica porque � que esse Deus eram "deuses", compreendendo a Trindade e a Virgem Maria. Depois, a tradu��o do segundo volume da obra monumental de Alexandre Solj�nitsyne, Deux Si�cles Ensemble 1917-1972 - Juifs et Russes pendant la P�riode Sovi�tique, Paris , Fayard, 2003. N�o foram s� os alem�es que tiveram um s�rio "problema judeu", foram tamb�m os russos, que matavam os seus judeus de forma mais primitiva e sem a efic�cia das tecnologias e da burocracia alem�. S� que uma parte dos judeus russos respondeu tornando-se revolucion�ria, tendo um papel decisivo no comunismo sovi�tico, dando bons revolucion�rios, bons intelectuais, bons pol�cias e bons torcion�rios, uma combina��o mais comum do que se pensa, para depois ca�rem na m�quina trituradora de Estaline.

22.9.03
 


IMAGEM

de ontem era um pobre e inadequado "ca�ador de domingo", em 1848, um dos anos das revolu��es , de Carl Spitzweg.
 


EARLY MORNING BLOGS 46

Sobre as nuvens. Ontem, de uma maneira, hoje, de outra. Eu sei que voar � uma actividade contra natura para os humanos.

21.9.03
 


OBJECTOS EM EXTIN��O (Depois numero)

A SIC passa uns document�rios sobre a natureza da BBC, que tem o sabor dos antigos filmes que passavam nos cinemas. Eram projectados na primeira parte, antes do intervalo, que precedia o filme principal. As vozes portuguesas eram magn�ficas e esse som prendia-se de tal modo �s imagens que n�o as distingo. Hoje, n�o sei quem era a voz que acompanhava as imagens (�Sem o salm�o, poucas seriam as �guias pousadas nestas �rvores�� ) , mas era a mesma, o mesmo som sem tempo.
 


ANATOMIA DE UM SARILHO

Meto-me hoje no que pode ser um sarilho monumental. Desde fins de Junho que estava combinado com a SIC (primeiro com a SIC Not�cias e depois com a SIC) um pequeno espa�o sobre �produtos�. �Produtos� dos media, da comunica��o, da pol�tica, da cultura. etc. Como � meu h�bito, n�o divulguei o que se passava e a SIC tamb�m n�o o fez, pelo que s� agora se soube. Assisti, em seguida, a algumas not�cias sobre as perip�cias dos comentadores da televis�o, com alguma �ntima ironia.

Ao aceitar faz�-lo no notici�rio de domingo, por sugest�o da SIC , � inevit�vel que tal pare�a um confronto com Marcelo Rebelo de Sousa na TVI , que domina indiscutivelmente esse espa�o da programa��o. A sua f�rmula, sejam quais forem as reservas que se tenham, tem sucesso por m�rito pr�prio e definiu um certo standard do coment�rio pol�tico. Para tudo o que se pare�a com coment�rio pol�tico, este � o espa�o mais armadilhado da televis�o portuguesa.

N�o tenho qualquer inten��o competitiva, por dois motivos principais. Por um lado, porque, naquele esquema, dificilmente algu�m far� melhor, muito menos eu. Marcelo �, ao mesmo tempo, o criador e o melhor executor da sua cria��o. � um comunicador nato e usa os mecanismos apropriados. Pode discutir-se o conte�do, mas n�o o dom�nio da f�rmula que � total e tailor made.

O segundo motivo � que o que quero fazer � diferente. N�o � completamente diferente, mas aponta noutro sentido. � mais parecido com o que pretendi e pretendo fazer com o Abrupto. No entanto, n�o beneficio aqui da vantagem do Flashback e de Marcelo, que � o reconhecimento pelos ouvintes e telespectadores do modelo e da habitua��o, o que � uma enorme vantagem da continuidade e da repeti��o. Por isso, vai ser �rduo ao princ�pio, e pode ficar sempre assim.

N�o fa�o nenhuma verdadeira distin��o de fundo, embora as haja de m�todo e de tom, entre o que escrevo nos jornais, escrevo no blogue, digo na r�dio ou na televis�o. A mim o que me interessa � argumentar, persuadir e se poss�vel convencer, porque n�o sou indiferente ao que penso e �quilo sobre que tenho opini�es, n�o sou indiferente aos resultados das palavras na ac��o, considero que h� um sentido c�vico neste tipo de interven��es. Vamos ver se resulta.
 


EARLY MORNING BLOGS / BLUES 45

No Artista An�nimo , cita��es interessantes sobre o que os blogues est�o a fazer �s pesquisas do Google. Os efeitos perversos a mudar o mundo, como quase sempre acontece. N�o � o que n�s desejamos que se realiza, mas o ru�do que produzimos. Vem em Weber: a maioria dos nossos actos tem o efeito contr�rio da sua inten��o. Pensando bem, teria que ser assim, porque os nosos actos s�o simples na sua intencionalidade e o mundo demasiado complexo para a manter. Logo � noite vou provar desta medicina.

Numa nota j� antiga e esquecida, falei de uma esp�cie de sonho � Blade Runner, com uma plan�cie cheia de casas e, de cada casa, um fio de voz solit�rio, direito para o c�u como um fumo de lareira. � esse fumo que est� entupir o Google.

*

Nunca me esquecer , nunca � � o objectivo do MyLifeBits. A Isabel do monologo usa o blogue como uma esp�cie de MyLifeBits:

Domingo, Setembro 21, 2003
o que � que eu fiz no dia 20 de Setembro de 1990? j� n�o me lembro se tivesse um blog nessa altura, ia ver o que escrevi e tentava o recall a partir da� percebem para que � que eu fiz o blog? � uma estrat�gia de mem�ria a longo prazo...�


*

Mais �early morning� tudo. Blues, country, e �early morning� de todo o g�nero. Parece que ningu�m se sente muito bem pela manh� nas m�sicas.

De RR esta letra dos �Alabama 3, �lbum Exile on Coldharbour Lane, faixa Woke Up This Morning: (ouvi-la � compreend�-la. assim fica seca e vazia)� :

"You woke up this morning
The world turned upside down,
Things ain't been the same
Since the blues walked into town.
You've got that shotgun shine.
Born under a bad sign.
With a blue moon in your eyes."


Do Paulo Azevedo este 'Woke Up This Morning' (1971) muito animado dos Nazareth:

"Woke up this morning
My dog was dead
Someone disliked him
And shot him through the head
I woke up this morning
And my cat had died
I'm gonna miss her
Sat down and cried
Came home this evening
My hog was gone
The people here don't like me
I think I'll soon move on
And now somethin's happened
That would make a saint frown
I turned my back and
My house burned down
Woke up this morning
My dog was dead
Someone disliked him
And shot him through the head
I woke up this morning
And my cat had died
Don't you know I'm gonna miss her
Sat down and cried..."


Do Ant�nio que lembra �a n�o menos c�lebre can��o country (ou folk?) "Early Morning Rain" da autoria de um certo Gordon Lightfoot, igualmente autor do c�lebre standard "If I Could Read Your Mind". "Early Morning Rain" foi um grande �xito em 68 ou 69, se bem me lembro, pelos Peter,Paul & Mary. H� tamb�m uma vers�o do Dylan, no album "Self Portrait" editado em 1970.

"In the early morning rain, with a dollar in my hand.
With an aching in my heart, and my pockets full of sand.
I'm a long way from home; Lord, I miss my loved ones so.
In the early morning rain, with no place to go.
Out on runway number nine: big 707 set to go.
An' I'm stuck here in the grass, with a pain that ever grows.
Now the liquor tasted good, and the women all were fast.
Well now, there she goes my friend: she'll be rolling down at last.
Hear the mighty engines roar; see the silver wing on high.
She's away and westward bound; far above the clouds she'll fly,
Where the mornin' rain don't fall, and the sun always shines.
She'll be flying over my home in about three hours time.
This old airport's got me down; it's no earthly good to me.
An' I'm stuck here on the ground as cold and drunk as I can be.
You can't jump a jet plane like you can a freight train.
So I'd best be on my way, in the early mornin' rain.
You can't jump a jet plane like you can a freight train.
So I'd best be on my way, in the early mornin' rain."


*

Bom, j� s�o horas do brunch. Uma bruma outunal pousa sobre os campos. Bom dia.

 


IMAGENS

de ontem, um �pintor e um rapaz� (1834) de Thomas Fearnley, que est� em Cambridge, e a reconhec�vel �gruta azul� de Capri pintada por Heinrich Jakob Fried em 1835. Dois quadros quase feitos simultaneamente. Coincid�ncias.

20.9.03
 


CONCUBIUM

 


MEM�RIA DA POL�TICA

Estive em Alcoba�a, num debate sobre arquivos pol�ticos, organizado pela Funda��o M�rio Soares, a Universidade de Coimbra e a C�mara. Referi o facto, pouco conhecido, de cada vez menos os grandes partidos democr�ticos, PS e PSD, produzirem materiais de arquivo que permitam, no futuro, conhecer o processo de decis�o, ou sequer, os mecanismos de poder partid�rio interno.

Nas reuni�es dos �rg�os formais, Comiss�es Pol�ticas, Secretariados, Conselhos Nacionais, etc., n�o h� actas, nem ordens do dia registadas, e quase nenhuns documentos internos. O n�mero de participantes que toma notas � escasso e as notas perdem-se. Algumas reuni�es s�o filmadas ou gravadas, mas a norma � n�o haver qualquer tra�o documental do que se decidiu, das posi��es tomadas, do debate realizado. �s reuni�es chegam os documentos oficiais, praticamente em vers�o definitiva.

Isto � o resultado de muitos factores que v�o no mesmo sentido: a desvaloriza��o das reuni�es dos �rg�os formais dos partidos, onde deixou de haver qualquer segredo, a favor de �rg�os informais baseados na confian�a pessoal e na discri��o; a perda de import�ncia da mem�ria institucional acompanhando a desvaloriza��o social da mem�ria, e a mudan�a do car�cter da actividade pol�tica, cada vez mais centrada numa gest�o � vista dos eventos e que n�o necessita de ser reflexiva e por isso n�o usa o papel.

Uma parte das informa��es, que anteriormente eram internas, est� hoje na imprensa, mas o historiador do futuro vai depender cada vez mais dos depoimentos orais, dos testemunhos, com todos os riscos que isso implica. A �nica excep��o a esta regra de rarefac��o documental � o correio electr�nico.
 


MAT�RIA INFECTA

A atitude correcta face ao Muito Mentiroso (MM) seria desde in�cio n�o lhe ligar, deit�-lo ao lixo, como uma carta an�nima. Eu fiz essa compara��o logo de in�cio, mas j� n�o tem sentido. O MM est� hoje publicado para milh�es e � visto por muitos milhares. Seria ali�s praticamente imposs�vel que fosse doutra maneira, por raz�es que t�m a ver com o tipo de populismo e demagogia que se vai tornando dominante em, todos os aspectos da vida p�blica. Por isso, mais vale discuti-lo que ignor�-lo.

Primeiro, a boa regra � que o que � crime l� fora (no mundo real), � crime c� dentro (na rede).

Segundo, o MM n�o � um blogue e n�o deve ser tratado como tal. Usa a forma do blogue, como podia ser uma p�gina da rede, um e-mail an�nimo. Trat�-lo como um dos nossos, transviado que seja, n�o tem sentido nenhum.

Terceiro, n�o contem informa��o, por isso n�o tem sentido falar de censura.

Quarto, uma Internet em que este tipo de opera��es ficassem impunes � no meio de um processo com a delicadeza e os interesses em jogo do da pedofilia � tornar-se-ia um meio mais selvagem do que o mundo comunicacional cl�ssico. N�o podemos queixar-nos da falta de deontologia dos media e depois aceitar o vale tudo somente por que se passa na Internet

Quinto, apliquem sempre a v�s mesmos a receita do MM. Gostavam de ver os vizinhos a salivar com todo o tipo de insinua��es, a vossa m�e ou mulher ou namorada ou filha (ou o exacto oposto masculino), a vossa fam�lia, os vossos amigos, a serem envolvidas numa teia destas? A irem na rua e ouvirem o murm�rio por detr�s? A chegarem a um s�tio e a serem olhados com a ironia de quem pensa que sabe algum segredo perverso, porque leu ou lhe contaram?

S� acontece a figuras p�blicas? A maioria das pessoas citadas pelo MM n�o s�o figuras p�blicas, mas gente cujo nome se tornou p�blico por causa do processo da pedofilia, sejam culpados ou inocentes ou coisa nenhuma. A indiferen�a face aos danos provocados nessas pessoas, apenas em nome da nossa curiosidade m�rbida, � uma atitude socialmente irrespons�vel.
 


PEDREIRAS

Entre a Benedita e Alcoba�a, olhando para a direita, a serra est� rasgada, metro a metro, pela mancha amarela das pedreiras. No intervalo, as �rvores s�o in�teis, o verde perde-se esmagado pelos rasg�es amarelos. N�o se v� uma �nica pedreira recuperada. A serra era bonita com a sua longa cumeada baixa e ondulante, mais uma sucess�o de colinas no sentido Norte-Sul do que uma montanha a s�rio. Como se pode olhar e n�o ver? Eu bem sei que nesta parte do distrito de Leiria estamos no reino da constru��o civil, mas os estragos s�o a longo prazo numa paisagem que devia ser protegida. Portugal est� a ficar demasiado feio, um pouco por todo o lado.
 


COMO UM CANH�O

Bem lembrado, pelo Critico, o Barbeiro de Sevilha a prop�sito do Mentiroso:

"Como no Barbeiro de Sevilha se diz t�o bem: a Cal�nia come�a por um vento muito ligeiro (brisa) e acaba ribombando como um canh�o."

Em breve, voltarei ao assunto infecto, porque � mais importante para o futuro do que aqui fazemos do que parece. N�o � que me agrade, mas, na actual situa��o, mais vale discuti-lo do que ignor�-lo.
 


HORA SEXTA

 


EARLY MORNING BLOGS 44

Ontem enganei-me no t�tulo e coloquei l� �Early morning blues 43� . Corrigi s� quando, ao gravar o texto, dei pelo erro. H� uma esp�cie de cegueira do autor, que quem escreve, e tem que rever o que escreve, conhece bem. Est� o erro evidente � outro dia era Bernard Williams em vez de Bernard Lewis � e no entanto, mil vezes que me leia, nunca vejo nada. O que me vale s�o os meus editores reais e invis�veis, que olham por mim, no preciso sentido do termo, e me corrigem as gralhas e os erros.

N�o h�, penso eu, quarenta e tr�s �Early morning blues�, mas h� bastantes. J� recebi v�rios, embora ainda falte o de Nat �King� Cole. Os meus gentis leitores ajudam-me a procurar. A Eduarda Maria escreve-me propondo-se �ir � loja de discos daqueles rapazes do High Fidelity do Nick Hornby. Aposto que teriam l� um vinil do Nat King Cole com os lyrics que, pelos vistos, andamos muitos � procura. Pensando melhor, talvez corressem comigo por perguntar pelo Nat King Cole.�. �Apetecia-me poder� diz a Eduarda. � , �s vezes tamb�m me apetecia estar na Strand da Broadway e n�o na "velha Europa".

O Eduardo Silva manda outra letra, na tradi��o do �early morning�.

Woke up this mornin'
What a strange thing to do
Woke up this mornin'
Got them early mornin' blues
I think I've had enough bad news

I hear that ringin'
Piercing through my head
I hear that ringin'
Piercing through my head
I think I'll turn it off now
And stay in bed

It's eight o'clock now
And I should be on my feet
It's eight o'clock now
And I should be on my feet
But there's too many people
I don't want to meet

Try to make my breakfast
But I can't find a bowl
Try to make my breakfast
But I can't find a bowl
My stomach feels
Like an empty hole

I'm on my way now
But I don't know where to go
I'm on my way now
But I don't know where to go
I've been late so many times
It's starting to show


J� repararam que, nos blues em que as pessoas trabalham, tudo se levanta muito cedo? N�o passaram a noite a escrever blogues nictalopes, nem a esperar pelo matutinum , a hora da mudan�a, como escreve o velho mestre de Sevilha : �Matutinum est inter abscessum tenebrarum et aurorae adventum; et dictum matutinum quod hoc tempus inchoante mane sit.� Um dia destes, vem o texto, completo e traduzido, sobre as horas e as vig�lias romanas. Mas nestes tempos , o Abrupto guia-se pela noite antiga, �antiqu�ssima e lustral� (cito de cor), como dizia Pessoa.

Ontem, o Abrupto teve o seu dia mais visitado, mais de 6000 "pageviews". Andam dem�nios � solta, algures.

 


IMAGEM

de ontem � um fragmento de uma natureza morta de Henri-Horace Roland de la Porte, um pintor do s�culo XVIII, e o quadro est� em Roterd�o. Despe�o-me dela a caminho do gallicinium, quando galo canta, partindo a noite em duas.

19.9.03
 


TWILIGHT ZONE (Actualizado)

Quando passou, em Portugal, a primeira s�rie da Twilight Zone, ainda os aparelhos de televis�o eram raros e ver televis�o era uma actividade colectiva e reverencial, que tinha lugar numa sala especial, onde muitas vezes os vizinhos vinham a seguir ao jantar, sentando-se calados diante do ecr� a preto e branco. Eu fiquei imediatamente preso pela s�rie, t�o diferente era do habitual, t�o interessantes as suas hist�rias para um entusiasta de fic��o cient�fica, que lia todos os livros da Argonauta em que punha a m�o em cima.

Ent�o, ou se via um programa, ou nunca mais se voltava a ver. Nessa altura, nada era repet�vel e ningu�m imaginava que o fosse, antes de haver gravadores de v�deo. �Faltar� a um epis�dio, ou a um programa, era perd�-lo para sempre; da� o meu receio de ter alguma coisa que me impedisse de ver a Twilight Zone. Foi a primeira s�rie que me prendeu � televis�o. At� hoje.

Um epis�dio que nunca mais esqueci e de que me recordo como de uma hist�ria trist�ssima, foi �Time enough at last�, filmado em 1959. Conta a hist�ria de um apaixonado por livros, a quem ningu�m permitia ter tempo para ler, nem a mulher, nem o patr�o, ningu�m. Um dia, por acaso, escapa solit�rio a um holocausto nuclear, e encontra-se com todo o tempo e todos os livros para ler. Num contentamento infinito dobra-se para apanhar um monte de livros, para abra�ar todos os livros do mundo � e deixa cair e partir os �culos, sem os quais n�o consegue ler. Pior que o supl�cio de T�ntalo.

*

Coment�rios dos leitores:

"Estamos no mesmo escal�o et�rio e as minhas reminisc�ncias do mesm�ssimo episodio do Twilight Zone s�o t�o absolutamente pr�ximas das suas (�) �Sacor Moligrafite apresenta...� costumava dizer o Pedro Moutinho, todo satisfeito, antes de come�ar a ler as cartas de protesto de in�meros telespectadores indignados pelo episodio precedente..." ( ASMarques)

"Quando a s�rie passou em Portugal ainda era muito novo. No entanto, fruto das repeti��es, tamb�m eu tomei contacto com a s�rie. E o facto curioso, que me levou a escrever este email foi ser precisamente esse um dos epis�dios que nunca mais esquecerei. Recentemente tive a oportunidade de rever o epis�dio na SIC Radical fruto de mera sorte. Nas duas vezes em que vi o epis�dio fiquei com a mesma sensa��o que � bastante dif�cil de descrever. Diria que me deixou bastante triste e angustiado, o que � bastante estranho pois trata-se apenas de um programa de televis�o. Mas naquele momento final eu era o protagonista da s�rie e tinham acabado de me tirar tudo o que havia no mundo. Era arrepiante." (Bruno Costa)

 


ESTUDANTES DE COIMBRA E PAPEL HIGI�NICO

Fardados de estudantes, meia d�zia de dirigentes acad�micos de Coimbra foram entregar uma pilha de papel higi�nico, equivalente ao valor das propinas que recusam pagar, em frente ao Minist�rio do Ensino Superior. � um bom retrato de como est� a Universidade de Coimbra � os estudantes rev�em-se elegantemente no papel higi�nico como met�fora. N�o lhes passa pela cabe�a levar uma pilha de livros e dizer �estes s�o os livros que n�o posso comprar�. Mas n�o. Eles acham que s�o irreverentes e engra�adinhos sendo ordin�rios, e esquecem-se que, no que deixam, se retratam a si pr�prios.

Para al�m disso, o tamanho da pilha mostra o valor rid�culo do que teriam que pagar.
 


HORA QUINTA

 


IMAGENS

de ontem. Um copo com flores tirado de um canto de uma natureza morta (1883) de Paul Signac, uns barcos a sair do porto, um desenho, tamb�m de Signac, de 1910. As �rvores poderosas s�o de um quadro intitulado �A Manh� �, de Karl Friedrich Schinkel, feito em 1813, que est� em Berlim.
 


EARLY MORNING BLOGS 43

Escrito entre a vig�lia do diluculum e a aurora, usando as divis�es da noite romana. Como explica o nosso S. Isidoro: �Diluculum quasi iam incipiens parva diei lux. Haec et aurora, quae solem praecedit.�. N�o h� nada como as palavras antigas para come�ar o dia.

A minha dificuldade em encontrar a letra do �Early Morning Blues�, de Nat �King� Cole, deu origem a v�rias procuras dos leitores do Abrupto, nenhuma resultando na letra pretendida, mas acrescentando outros blues matinais.

A Isabel Salbany enviou-me este, com letra de A. Fritzsch, entre as �bad news� e as �better news�:

early morning
you're so bad to me
early morning
I believe to see

you wake me and you take me
you bring me bad news
you shake me and you brake me
so I got the blues

I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues

early morning
you're so good to me
early morning
I believe to see

you peace me and you please me
you bring me better news
you tease me and you squeeze me
and I got the blues

I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues
I got the blues, I got the blues


A Maria acrescentou outros �Early Morning Blues� do album Black Angel de Savage Rose, letra de um (ou uma) Annisette:

Waking up one early morning
The spring sun`s reaching in
No more dripping from the ceiling
I kiss your tender skin
I snuggle close to you
How lucky one can be
Lying in your arms baby
With the night of love
Still singing within
Maybe the world out there
Has the same dreams as you and me
I look into your eyes baby
Share all I have with you
The ice flowers on our window pane
So quietly they melt away
I`m lying in your arms baby
With the night of love
Still singing within


*

Infelizmente as minhas itiner�ncias impediram-me de estar no Encontro de Braga, mas desejo que tudo tenha estado, e esteja ainda, a correr da melhor maneira. Eu sou, como se lembram os que j� c� estavam h� tr�s s�culos (nos blogues um m�s � um s�culo), favor�vel ao metabloguismo.

*

Algum blogue relatou, ou comentou, a interven��o do Pedro Mexia sobre Pessoa, na Casa do dito?

18.9.03
 


PARA OS QUE ME VISITAM PELA PRIMEIRA VEZ

Nesta altura da noite, o Abrupto j� foi visitado mais de 5700 vezes, um recorde absoluto desde que existe. Isto significa que muita gente veio hoje aqui pela primeira vez. Sejam bem vindos.

O Abrupto de hoje n�o � t�pico. Faltam livros, faltam impress�es, falta algum �milk of human kindness�, que modere os temas mais duros que aqui foram tratados. Mas vivemos tempos des�rticos e selvagens, com uma vida p�blica inquinada pela suspeita e pelo vale tudo. Precisamos de sair rapidamente deste ciclo e reconquistar alguma luz, algum ar, algum fresco. O tempo, este calor que se vive na p�tria, miasm�tico, como se dizia antigamente, parece ter-nos paralisado numa doen�a de car�cter, amolecendo-nos num ambiente mals�o.

Amanh�, caminharei para outros lados.
 


FANTASIAS

Escreve o Barnab� :

Socorro, a esquerda vem a�! : Pacheco Pereira na SIC. Santana Lopes na SIC. Marcelo na TVI. E, v� l�, Carrilho na SIC. Tem raz�o JPP, a comunica��o social est� tomada pela esquerda. �

Est� bem. Eu troco o meu coment�rio na SIC (que n�o tem o mesmo esquema dos outros, mas isso fica para depois) , pela possibilidade de escolher os temas do F�rum da TSF, a agenda dos notici�rios, os t�tulos das not�cias de v�rios jornais, o que vai ou n�o vai para a primeira p�gina, as encomendas das investiga��es que se fazem e a escolha de quem � "investigado" , os coment�rios opinativos dos jornalistas, inseridos, como quem n�o quer a coisa, nas not�cias sobre o Iraque, a Palestina, Israel, a cimeira de Cancun, a globaliza��o, etc. , etc..

Troco? N�o, n�o troco porque n�o sou jornalista. Mas n�o me venham agora com essa fantasia absurda de que a nossa comunica��o social � dominada pela direita. Para al�m disso, eu n�o sou de direita.
 


HORA NONA

 


AR FRESCO, J�!

Uma imagem, j�! Isto est� cheio de coisas s�rias, e eu j� estou um pouco farto destas peregrinatio ad loca infecta.

 


COMO � QUE FUNCIONA O MUITO MENTIROSO

Querem ver como � que funciona o Muito Mentiroso? Vou fazer de cobaia e experimentar em mim pr�prio para poupar os outros:

Pergunta 234 - �Porque ser� que o Pacheco Pereira ataca tanto o Muito Mentiroso? Ser� porque n�o quer se conhe�am as verdades? O que � que ele tem a esconder?�

Querem ver outra f�rmula ainda mais sofisticada:

Pergunta 456 � �Porque � que o Pacheco Pereira colocou no Abrupto a pergunta que sabia que n�s �amos fazer? Para tentar antecipar-se? O que � que ele tem a esconder?�

Podia continuar at� ao infinito. Metade de verdade � ataquei o Mentiroso, que considero uma actividade criminosa -, seguida de insinua��o � �se o fez � porque tem alguma coisa a ver com o assunto� � ,seguida de uma conclus�o resultante da insinua��o � �se tem alguma coisa a ver com o assunto e critica tanto , � porque quer fazer um qualquer ataque preventivo, antes de ser atacado�.

E deixem-se de coisas, que isto � altamente eficaz para quem n�o conhece estes mecanismos e vem ao Mentiroso com a suspeita populista contra os poderosos, etc. , etc. Isto cola-se � cabe�a como pastilha el�stica. Isto � eficaz.

Isto � t�o eficaz, que, mesmo ao escrever esta nota, eu corro o risco de ser mal citado por alguns jornais especializados neste lixo, e as perguntas ganharem vida pr�pria como se n�o fossem uma fic��o minha, mas um produto do Mentiroso.
 


A ARMA DA DESINFORMA��O

Ao irem ao Muito Mentiroso (MM) procurar �informa��o�, as pessoas caem num logro. O MM n�o tem informa��o, tem desinforma��o, o que � uma coisa completamente diferente. Desinforma��o, uma arma muito usada pelos servi�os secretos sovi�ticos que eram especialistas na mat�ria, e que pol�cias e agentes secretos conhecem bem, consiste numa mistura cuidadosamente doseada de factos verdadeiros e falsos, de insinua��es e meias-verdades com verdades inteiras, tendo como objectivo determinados resultados. Ou atingir determinadas pessoas, ou condicionar as investiga��es, ou descredibilizar a justi�a, ou facilitar a defesa, ou dificultar a acusa��o. O MM vem do interior do processo ou das suas adjac�ncias e � uma actividade interessada, e torna os que o visitam e o publicitam em partes no processo de pedofilia. N�o h� um �tomo de inoc�ncia em tal actividade, que joga com instintos populistas e voyeuristas e a ingenuidade de muitos, para obter resultados. Quer p�r-se a milhas dos jogos sujos do processo de pedofilia? N�o v� l�, n�o h� nenhuma informa��o para si, s� manipula��o.

Quem pensa que consegue separar dali as verdades da ganga da mentira, � um ing�nuo. N�o tem a prepara��o, a qualifica��o e as informa��es que s�o necess�rias para essa opera��o. Tamb�m aqui os especialistas est�o nas pol�cias e nos servi�os secretos que t�m a capacidade para analisar a �nica verdadeira informa��o que este tipo de produtos cont�m: a da sua intencionalidade. Quem o fez e porque o fez.

As pessoas tornam-se colaboradoras do autor (ou autores) do Muito Mentiroso porque inevitavelmente v�o acabar por interiorizar o que l� est� e lhes parece verdadeiro, ou porque o suspeitassem, ou porque lhes parece plaus�vel. E v�o acabar por repeti-lo, infectando mais gente com boatos e cal�nias, realizando o �nico objectivo do autor do MM que n�o � �informar� os portugueses de algo que lhes escondem, mas manipular a sua opini�o a favor de uma tese sobre o processo da pedofilia. As pessoas tornam-se parte de uma arma e essa arma dispara.
 


HORA QUARTA

 


NOVA EUROPA, VELHA EUROPA 2

Um bom exemplo da confus�o sobre quest�es europeias, uma no cravo e outra na ferradura, � o artigo de Lou�� intitulado pomposamente �Carta Aberta ao Presidente da Rep�blica e ao Primeiro-ministro Contra o Medo da Europa�. Nele quer-se estar com Deus e com o Diabo, o que � um pouco o que esta corrente pol�tica faz na Europa. Os �verdes� e os trotsquistas, em muitos pa�ses europeus, s�o ultra-ortodoxos a favor da Constitui��o Europeia ( como no PE ), mas na Su�cia foram contra o euro. Em Portugal , onde nunca tinham ligado muito � Europa, a que eram mais hostis do que amigos, descobriram-se agora europe�stas por anti-americanismo durante o conflito do Iraque.

No meio destas flutua��es t�cticas, a proposta de Lou�� � irrespons�vel e meramente tribun�cia. Ele prop�e, num tom majest�tico, nem mais nem menos que um referendo imediato sobre estas �pequenas� mat�rias:

Por isso vos proponho, senhor Presidente e senhor primeiro-ministro, que o referendo se realize o mais cedo poss�vel para escolher sobre quest�es fundamentais, como a condi��o de um processo constituinte democr�tico, a primazia da Constitui��o portuguesa ou europeia, o modelo presidencial do Conselho Europeu, os princ�pios da pol�tica or�amental europeia, os objectivos de protec��o social ou as op��es militares da Uni�o.�

Se um referendo se realizasse nestes termos seria uma fraude democr�tica total, porque os eleitores seriam chamados a pronunciar-se sobre tudo� ou seja, sobre nada. A n�o ser que o objectivo de Lou�� seja desde j� garantir o sim � Constitui��o Europeia e o �medo� que ele tem � que se crie uma conjuntura favor�vel ao n�o. E l� se vai a �velha Europa��
 


NOVA EUROPA, VELHA EUROPA

Uma das raz�es para se ser inteiramente a favor do alargamento � que de facto a �nova Europa� (a classifica��o de Rumsfeld veio mesmo para ficar) trouxe uma outra for�a � pol�tica europeia. A for�a da mem�ria recente da opress�o comunista introduz um vigor moral, que os governantes da �terceira via�, e alguns dos seus parceiros mais � direita, tinham deixado apagar-se por comodismo e excesso de marketing.

Ningu�m imaginava Chirac ou Schroeder a descerem do seu patamar ol�mpico para apoiar essa causa t�o insignificante e ideol�gica, como � a da liberdade em Cuba . E nunca teriam tido a iniciativa de escrever como Vaclav Havel (R�publica Checa), Lech Walesa (Pol�nia) e �rp�d G�ncz (Hungria) este manifesto com palavras t�o claras:

Hoje, o mundo democr�tico tem a obriga��o de apoiar os representantes da oposi��o cubana independentemente do tempo que os estalinistas cubanos se mantiverem no poder. A oposi��o cubana deve sentir o mesmo apoio que sentiam os representantes da dissid�ncia pol�tica na Europa, dividida at� h� pouco tempo. Respostas de condena��o devem ser acompanhadas de medidas diplom�ticas concretas procedentes da Europa, Am�rica Latina e EUA e podem ser uma forma id�nea de press�o contra o regime repressivo de Havana.�
 


EARLY MORNING BLOGS 42

O melhor Early Morning Blues que conhe�o � o de Nat �King� Cole, gravado em 1944. N�o consegui ainda arranjar a letra, para aqui colocar, mas n�o � nada de especial, uma hist�ria ir�nica de procura e solid�o em palavras coloquiais e breves. � a voz e o piano, duma clareza total, que enchem tudo sem ocupar quase espa�o em lado nenhum.
 


A NOITE ANTIGA, INTEMPESTUM

Era assim a noite antiga e hoje passamos essa noite, nas suas sete partes: "Noctis partes septem sunt, id est vesper, crepusculum, conticinium, intempestum, gallicinium, matutinum, diluculum. "

Pass�mos j� o crepusculum, essa dubia lux. Pass�mos j� o conticinium, quando tudo est� silencioso. Estamos no intempestum. . Na pureza das palavras antigas: "Intempestum est medium et inactuosum noctis tempus, quando agi nihil potest et omnia sopore quieta sunt. Nam tempus per se non intellegitur, nisi per actus humanos. "

17.9.03
 


N�O POSSO ESTAR MAIS DE ACORDO

com o que diz o Paulo Querido e que cito aqui:

"As manobras de contra-informa��o, propaganda e despistagem no caso Casa Pia est�o ao rubro e encontraram um meio espectacular para se propagarem: a Internet e, agora, os blogs.

Idem para as teorias da conspira��o (alvo de um programa de humor na SIC Radical, btw).

Acredite se ler num blog� -- parece ser o lema do momento, seguido indiscriminadamente pelos tontos em geral (no surprise), jornalistas ansiosos (idem) e fazedores-de-opini�o avulsos (surprise!).

O blog Muito Mentiroso (n�o contribuo com o link) continua a sua campanha e come�a a ter uma legi�o de leitores, �vidos de tricas, confus�es e teorias. Pior: surgem p�ginas do g�nero, aumentando ainda mais o ru�do. P�ginas, blogs, sites, canais de IRC, mailing-lists. Uma torrente de lixo s� compar�vel ao spam e aos programas de entretenimento prime-time dos canais generalistas. Tanto bit mal gasto, jasus!

Sei que, discretamente, h� quem ande � procura do(s) autor(es). N�o sei se alguem anda "oficial" ou oficiosamente... nem isso me interessa. Encolho os ombros. Nada posso fazer (excepto n�o fornecer links) perante a avidez humana pelo conspirat�rio."


Depois de ter escrito a nota inicial sobre o "mentiroso" nunca mais l� voltei, nem nenhuma curiosidade me move perante o que l� est� escrito. N�o tinha, no entanto, d�vidas de que uma opini�o p�blica m�rbida, retrato do nosso atraso cultural, iria correr para l� a toda a velocidade, babar-se de uma curiosidade infecta, pr�xima do ressentimento social que � t�o poderoso em Portugal, e � motivo profundo de tanta coisa. Nem sequer tem consci�ncia de que, ao faz�-lo, d� sentido ao crime, torna o crime eficaz. E ainda estou por perceber por que raz�o as autoridades, que t�m a obriga��o de combater o crime, permanecem olimpicamente indiferentes.
 


HORA PRIMA

 


SENSACIONALISMO

J� que no Di�rio de Not�cias se l� o Abrupto, convinha registar que nada justifica a not�cia que hoje se publica a prop�sito da pol�mica suscitada pelas declara��es do porta-voz do PP.

Nunca aqui se insultou pessoalmente ningu�m, exprimem-se opini�es pol�ticas. Como, pelos vistos, para o jornal, o debate � menos interessante do que a permanente descri��o da actividade pol�tica como um conflito pessoal e dos pol�ticos como uns energ�menos que se insultam uns aos outros, o Di�rio de Not�cias fez uma am�lgama conveniente ao sensacionalismo do t�tulo. � um risco que, no Abrupto, mais do que em qualquer outro blogue, se corre, mas n�o me impedir� de escrever o que quero, da forma que quero.
 


ABRUPTO FEITO PELOS SEUS

leitores. Excertos de correio dos leitores, com que nem sempre concordo, mas que traduzem experi�ncias, pontos de vista, informa��es que t�m a ver com o que aqui se escreve

CONDI��O DE CULPADO IDEAL: �S� OS HOMENS DE DIREITA BATEM NAS MULHERES��

Raul Reis fala de duplicidades:

�Sigo bastante a actualidade francesa e alem�. Mas, em Fran�a, estou farto de ouvir falar da morte de Marie Trintignant. Era uma actriz que sempre achei simp�tica, mas nunca a coloquei em nenhuma galeria especial de actores franceses. As tr�gicas circunst�ncias da sua morte permitiram-lhe uma projec��o medi�tica p�stuma in�dita. Bertrand Cantat, o vocalista e l�der do grupo Noir D�sir, preso num c�rcere de Vilnius, � objecto de todas as an�lises na pra�a p�blica. Amigos, jornalistas, colegas de of�cio, todos s�o chamados a testemunhar sobre Cantat, sobre Trintignant e sobre a (curta) rela��o que o cantor e a actriz mantiveram.

O que me irrita n�o � que se fale deste caso. A viol�ncia dom�stica - parece-me que � disso que se trata - � um flagelo que come�a a conhecer as p�ginas dos jornais e a despoletar reac��es dos pol�ticos que buscam (dif�ceis) solu��es. O que me preocupa - e, porque n�o diz�-lo, irrita - � o ar surpreendido, "abassourdido", dos comentadores que se espantam com o facto de um homem moderno, rebelde, "que sempre integrou os ideais de Maio de 68", seja capaz de espancar a namorada... at� � morte. "Bertrand Cantat lutou pela causa palestiniana e bateu-se no mar alto com os activistas do Greenpeace", disse uma jornalista do Le Monde. "Cantat era um homem de esquerda, que desempenhou um papel important�ssimo na luta contra Le Pen, o que surpreende ainda mais que tenha feito isto", disse um outro comentador. Fiquei assim a saber que s� os homens de direita batem nas mulheres. A am�lgama entre a ideologia e a conduta social, ou a participa��o neste ou naquele movimento, atinge pontos altos no caso Cantat-Trintignant. E isso aflige-me, preocupa-me, a mim, que nunca me considerei de esquerda. Eu, sou, s� por isso, suspeito � partida de todas as maldades do mundo, da viol�ncia dom�stica � polui��o dos mares e florestas. Eu que at� separo o vidro, o papel e o pl�stico sou um culpado ideal para acusar de transgress�es diversas; menos da droga porque essa ilegalidade imposta est� reservada a uma esquerda sapiente. "


CONDI��O DE EMIGRANTE

Ant�nio Jo�o Correia escreve:

Vivendo actualmente em Vancouver, British Columbia, Canad�, vejo de perto a forma miser�vel como o governo portugu�s trata � continua a tratar � os respectivos cidad�os que residem no exterior. Da presta��o de servi�os consulares med�ocres, mal preparados, arrogantes, dispendiosos, temos de tudo um pouco. Pior, a quest�o sendo pol�tica estabiliza-se numa esp�cie de pacto de regime, mudando-se os governos e os servi�os consulares continuando sempre sob o dom�nio de Kafka, do absurdo, da pior burocracia produzida por Portugal. Um bilhete de identidade leva meses (em m�dia seis ou at� mais se for preciso uma certid�o de nascimento actualizada). Conhe�o um caso de um passaporte que levou nove anos. Como em redor da British Columbia n�o existe mais nenhum posto consular, quem viva no Norte da British Columbia ou em Alberta (s�o dezenas de milhar de portugueses) tem de perder v�rios dias para tratar de assuntos (�)banais.
Vejamos outro exemplo: em Vancouver existem 87 alunos na escola portuguesa. Bem, o governo portugu�s n�o s� n�o paga aos professores, como ignora qualquer pedido de ajuda (�). S�os os pais dos alunos � os �ltimos her�is que conhe�o do portugu�s � que pagam aos professores, pagando ainda as rendas das salas de aulas. De livros nem valer� a pena falar.
E, como estes assuntos n�o passam na �nossa� comunica��o social, aqui fica o meu contributo
.�

CONDI��O DE DESEMPREGADO

Miguel Mendes comentando a frase do Abrupto: "Os trabalhadores da Marinha Grande ou as oper�rias da Clark's n�o v�o trabalhar para a constru��o civil ou como empregadas dom�sticas."

Li esta afirma��o no seu blog e (�) coloco uma quest�o: Porque n�o?

O desemprego aumentou (e vai aumentar mais) - situa��o que talvez esteja a alertar para a necessidade de trabalhar. Tinha necessidade de uma empregada dom�stica e sempre foi dif�cil conseguir uma - na minha zona o subs�dio de desemprego � uma forma de vida para muitas pessoas (tem uma dura��o de 2 anos).
Tendo sido encerradas algumas empresas deveria existir algu�m dispon�vel para trabalhar.... quase n�o consegui ningu�m. As oper�rias, que n�o eram da Clark's mas de empresas similares, n�o queriam trabalhar como empregadas dom�sticas. Porque n�o? Simplesmente porque n�o precisavam. Agora come�am a precisar e algumas j� est�o a trabalhar como empregadas dom�sticas.
Tenho o prazer de conversar com a minha funcion�ria entre a chegada dela e a minha sa�da para o trabalho e percebi que o medo dela era "servir" algu�m. Agora que chegou � conclus�o que ganha um sal�rio honesto, ningu�m a perturba no trabalho e conhece a arte (que pratica tamb�m em sua casa) j� considera normal o trabalho dom�stico.

Nos �ltimos tempos este � um exemplo que se tem repetido � minha volta. Os portugueses, infelizmente, n�o possuem conhecimentos nem bases de forma��o que nos permitam ser todos oper�rios do conhecimento. Ainda podemos realizar trabalhos indiferenciados e ser respeitados como bons trabalhadores.
Sinceramente n�o me importo com a nacionalidade ou origem das pessoas. Pensei em contratar uma funcion�ria estrangeira mas algu�m sabia que eu procurava uma funcion�ria e sugeriu a pessoa que trabalha em minha casa actualmente (estava � procura de trabalho).

N�o acredito que sejam necess�rias tantas pessoas estrangeiras para realizar trabalhos que pessoas que j� c� est�o podem fazer. Teria alguma empregada da Clark's problema em ser minha funcion�ria dom�stica j� que pago um sal�rio (que n�o o m�nimo), fa�o os descontos (inscrevo no regime geral se preferirem), trato bem as pessoas e almo�am, obviamente, o mesmo que eu? Creio que n�o... ou pelo menos n�o deveriam. Muitas pessoas come�am a ver que existem trabalhos onde s�o necess�rias e nenhum trabalho � menos digno desde que seja honesto e exercido com dignidade.�


F�tima Rebelo comenta a mesma afirma��o, discordando:

Apesar de concordar consigo no que respeita ao nosso Ministro da Defesa, no post afirma que os imigrantes n�o concorrem nos empregos na clarks e outras, pois os homens trabalham apenas na constru��o civil e as mulheres s�o invariavelmente empregadas dom�sticas.
Acontece que isso n�o � verdade de todo. Tenho ra�zes e uma liga��o grande a uma regi�o muito industrial (ind�stria do cal�ado e cutelaria) onde, nos �ltimos anos se tem assistido a um fen�meno em que mais de 50% dos trabalhadores desta ind�stria s�o trabalhadores vindos de leste.

Quero chamar a aten��o para o facto de eu n�o ser de todo xen�foba nem ser contra a imigra��o. Mas olhando para os factos, eles s�o ineg�veis.E � perfeitamente compreens�vel: os empres�rios (que n�o s�o os exploradores que por vezes se retrata e lutam diariamente para manter de p� a sua pequena ind�stria) deixaram de lutar com falta de pessoas dispon�veis para este tipo de trabalho e de pagar horas extraordin�rias infind�veis para passarem a ter um leque de trabalhadores dispon�veis, qualificados, produtivos e, eventualmente n�o t�o reivindicativos.

Em conclus�o, os imigrantes (principalmente os de Leste) concorrem de facto com os portugueses noutras �reas que n�o a dom�stica e constru��o civil. E � melhor come�armos todos a encarar esse facto em vez de enterrarmos a cabe�a na areia e fingir que n�o se passa nada. Porque passa!

A solu��o n�o � o que defende o Dr. Portas e cong�neres. Quanto a mim � necess�rio evitar que se criem anticorpos relativamente a estes trabalhadores pelas pessoas que s�o preteridas nos seus empregos, que � uma situa��o a que tenho assistido nos �ltimos tempos. E n�o � com discursos anti-imigrantes nem com a nega��o dos factos que se chega l�.�


CONDI��O DE MAIS UMA VEZ ENGANADO

M�rio Cordeiro mostra mais uma vez um exemplo de "rigor" nos jornais:

"� o Expresso de ontem, que nos diz, em letras "gordas e encarnadas", que, cito, "Grande Lisboa concentra quase metade da popula��o em 2015". Ficamos aterrados - como � que vamos meter este "rossio" nesta "betesga"? Metade dos portugueses a viverem aqui, a estacionarem aqui, a fazerem compras aqui... por outro lado, que invers�o s�bita, numa cidade que se dizia "em estado de desertifica��o"...
Apanhado o primeiro "susto", l�-se a not�cia que, afinal, reza o seguinte: "segundo as estimativas do estudo "Perspectivas da Urbaniza��o do Mundo", da ONU, a Regi�o de Lisboa e Vale do Tejo ter� cerca de 45% da popula��o portuguesa. Ah!
O "Lisboa", do t�tulo, absorveu a totalidade dos distritos de Lisboa, Santar�m e Set�bal. Ah!. "Lisboa", afinal, segundo o Expresso, quer dizer Lourinh� ou Gr�ndola, Coruche ou Santar�m, Abrantes ou Cadaval, Chamusca ou Barreiro, Almada e Set�bal, Loures e Vila Franca de Xira, Cascais e Sintra. Torres Vedras e Torres Novas. Etc, etc, etc.

Sugiro ao Expresso um novo t�tulo: "No ano 2015, Portugal concentrar� 100% da popula��o residente em Portugal" - pode n�o ser muito informativo, mas pelo menos � mais rigoroso..."



16.9.03
 


POMPEIA

Dos livros que comprei e referi numa nota do dia 9 de Setembro, acabei de ler o de Robert Harris, Pompeii. � um livro de f�brica, feito ao mesmo tempo para se ler e para dar origem a um filme. L�-se bem, mas est� muito abaixo dos outros dois do autor , Fatherland e Archangel. Estes dois livros tinham um ambiente de grande densidade, retratando uma Alemanha nazi ficcional, e uma URSS dos anos finais de Staline, menos inventada, mas igualmente pesada e sinistra. Archangel j� falhava no fim, construindo uma hist�ria muito bem arquitectada e com uma reconstru��o do ambiente claustrof�bico dos �ltimos dias de Staline e de Beria, mas terminava de uma forma pouco forte.

Este livro passa-se nos dias da erup��o do Ves�vio que destruiu Pompeia e, como � costume em Harris, a ideia que d� corpo � hist�ria � imaginativa. A personagem principal � o aquarius, o respons�vel pela Aqua Augusta, um dos grandes aquedutos romanos. Harris faz bem o seu trabalho de investiga��o e os detalhes t�cnicos e hist�ricos �envolvem� a hist�ria de forma correcta, mas esta � demasiado previs�vel. Depois, tenho uma certa avers�o a ler em ingl�s que o centuri�o atravessou a rua para ir ao �snack bar�...
 


RESPOSTAS SOLTAS A PERGUNTAS SOLTAS (Actualizado)

O Flashback voltar�, exactamente com a mesma equipa, em Outubro de 2003. Poder� ter outro nome, poder� ser noutro meio (ou meios), mas � mais do mesmo.

Agrade�o a Rui Branco, Eug�nio Gaspar, Rui Silva, Maria Loureiro, F�tima Rebelo, Rui Pacheco, Rita Cepeda, F. Pereira, M�rio Monteiro de S�, Vitor Pita Dias, Jo�o Gata, Andr� Granado, Rodrigo Reis, Manuel Cal�ada, Lu�s Reino, Paulo Louren�o, Jos� Almeida Ribeiro, �onipessoal�, Aquiles Pinto, Tiago Pinto, Maria Jo�o Oliveira, e a muitos autores de blogues, da �direita� e da �esquerda�, as palavras am�veis que me dirigiram a prop�sito dos meus neur�nios e da nota �Voz solta, voz presa�. No correio que recebi, incluindo alguns destes meus leitores, e outros ainda n�o referidos, s�o colocadas quest�es sobre imigra��o, direita e extrema-direita, emprego, etc., que merecem um desenvolvimento posterior.

O dr. Ant�nio Pires de Lima escreveu-me uma carta pessoal, expondo a sua posi��o e explicando as suas palavras num tom cordial e �sem melindre�, a que respondi particularmente. Por mim, a quest�o dos neur�nios est� encerrada.
 


NAVIO FANTASMA

�s vezes, entre uma e outra nota do Abrupto, h� milhares de quilometros de dist�ncia. Quando, como agora, percorro, qual holand�s maldito, mares e terras sem parar em nenhuma.
 


HORA DUODECIMA

 


EARLY MORNING BLOGS 41

Hoje de manh� acordei com metade dos meus neur�nios a funcionar. Para quem n�o saiba , o porta voz do PP anunciou oficialmente, na sua qualidade de "portador da voz alheia", que eu s� tinha metade dos neur�nios a funcionar, por causa de umas coisas que escrevi no Abrupto. Tanto quanto eu sei, � a primeira vez que em Portugal um partido pol�tico faz uma proclama��o deste tipo sobre um cidad�o portugu�s. Ele h� a classe A, os que t�m os neur�nios todos; a classe B, os que, como eu, s� t�m metade; e os de classe C, sem neur�nios nenhuns, para eliminar. Muito obrigado pela benevol�ncia de me colocarem na classe B.

Felizmente que o computador onde escrevo tamb�m � da classe B. Cada tecla demora um s�culo a ter efeito no ecr�. Obrigado, computador, por te adaptares � minha metade disfuncional.

Agora mais a s�rio, e aquecendo os meus neur�nios at� ao limite: o estilo, em pol�tica, tem conte�do e o conte�do do recado do porta-voz � tamb�m t�pico da linguagem da extrema-direita. Malcriado, agressivo, n�o falando da subst�ncia das cr�ticas que fiz, mas atacando-me pessoalmente. Os historiadores e os polit�logos conhecem a trademark, a assinatura deste estilo, quer � esquerda, quer � direita.

O Abrupto, devido a esta revela��o sobre o estado dos meus neur�nios, bateu ontem o recorde absoluto com mais de 4200 "hits".

Agora j� chega. Espero, logo, muito � noite, voltar ao mundo dos computadores da classe A, das imagens para dissolver a secura das palavras e falar de livros, astronomia, perturba��es invis�veis do ar, vulc�es, tudo. Pap�is velhos e gente viva, n�o h� melhor combina��o.

15.9.03
 


PARA ESCLARECER 2

Como n�o tenho grandes condi��es nem para escrever, nem para responder a algumas d�vidas e perguntas que me chegam pelo correio, acrescento aqui alguns esclarecimentos suplementares que exigem alguma imediaticidade.

Referendo na Su�cia - A esmagadora maioria dos suecos entrevistados nos org�os de comunca��o social e alguns com quem falei hoje e fizeram campanha pelo "sim", atribuem o "n�o" ao receio do excessivo centralismo e burocracia de Bruxelas. � por isso que a Constitui��o, que refor�a e consolida de forma exponencial este pendor burocr�tico, est� em risco. Basta um pa�s n�o a ratificar e n�o existe. O que os "convencionais" e Giscard insistem em n�o compreender � que est�o a for�ar a cria��o de um super-estado europeu face a povos e na��es que n�o o desejam.

Notici�rios da RTP - A raz�o porque referi a RTP e o modo como dava informa��es erradas sobre o referendo sueco tem a ver com o facto de apenas ter, nessa altura, acesso � RTP Internacional. N�o sei o que fizeram as outras esta��es.
H� outra raz�o suplementar, que n�o inclui o caso de ontem, pelo qual destaco a RTP: � paga pelos contribuintes e � suposto prestar uma coisa amb�gua que se chama "servi�o p�blico" . Ontem , por exemplo, atrasou mais uma vez o notici�rio principal da noite para passar aquilo a que chama "futebol de interesse p�blico". � uma ideia de Portugal.

Voz presa, voz solta - Sempre que falo do dr. Portas recebo uma quantidade consider�vel de "hate mail" e algumas amea�as. N�o vale a pena o esfor�o.
 


PARA ESCLARECER

Se estivesse na Su�cia, teria votado "sim" ao euro.

Se estivesse na Est�nia, teria votado "sim" � ades�o � UE.

Em qualquer s�tio em que estiver na Europa, votarei "n�o" � Constitui��o Europeia.
 


EARLY MORNING BLOGS 40

Escrevo este texto num cibercaf�, sem acentos, nem tempo, sentindo-me, como muitas vezes me acontece, contraditoriamente contente por ser "cosmopolita" e com heimatlos. � minha volta est� um grupo de trabalhadores do leste, ucranianos, se � que ainda consigo distinguir as diferen�as, de Lvov. A Internet faz de telefone e escrevem, escrevem , escrevem. T�m saudades, cuidam da casa, da mulher, dos filhos, da m�e, pela rede. Ao lado deles, os blogues parecem in�teis, moinhos de palavras. Prossigamos.

14.9.03
 


RTP: AS MENTIRAS A QUE TEMOS DIREITO

Em todos os notici�rios europeus de hoje, a abertura foi o resultado do referendo sueco sobre o euro. Na RTP, a not�cia foi atirada para o fim, porque a RTP preferiu repetir pe�as sobre os fogos, n�o s� j� anteriormente passadas, como carecidas de qualquer actualidade, e falar sobre uma s�rie de minud�ncias da vida nacional.

Como n�o bastava a pouca import�ncia dada a um referendo decisivo para o futuro da Uni�o Europeia, uma vez que pode prenunciar um "N�o" � Constitui��o europeia, a not�cia sobre o seu resultado foi dada de forma errada. Quase duas horas depois de se saber que o "N�o" tinha ganho com grande vantagem ("N�o": 56,5% ,"Sim": 41,4% - � hora do telejornal), com os comentadores das grandes televis�es europeias a sublinharem a surpresa do resultado, em especial dado o peso assumido pelo voto negativo apesar do assassinato da Ministra dos Neg�cios Estrangeiros, a RTP apresentou como not�cia que os resultados do "Sim" e do "N�o" tinham sido muito pr�ximos, face � escassa vit�ria do "N�o". Isto � falta de rigor e manipula��o da informa��o.

Quando, no mesmo notici�rio, se repete uma pe�a do correspondente da RTP em Bruxelas, em que este apenas recolhe opini�es favor�veis ao "Sim", percebe-se por que raz�o uma televis�o que assim "informa" os seus telespectadores tem evidente relut�ncia em noticiar o que verdadeiramente aconteceu.
Este � um dos exemplos de como a informa��o sobre quest�es europeias na RTP � oficiosa (em rela��o a Bruxelas) e enganosa.
 


PARAB�NS

� autarquia da Vila da Feira, por permitir e facilitar que Spencer Tunick pudesse a� tirar uma das suas fotografias colectivas de nus. A Vila da Feira, em vez de olhar para os preconceitos de muitas terras portuguesas mais importantes, olhou para Barcelona.
 


VOZ PRESA, VOZ SOLTA

Ver um notici�rio da RTP Internacional, longe, d�-nos sempre uma vis�o mais depurada de Portugal. E coisas a que estamos habituados em Portugal surgem aqui mais estranhas. O dr. Portas j� � estranho na p�tria, e ent�o longe surge completamente bizarro. Vi-o ontem num com�cio, a fazer de conta que tem a voz solta, quando todos sabemos que a tem h� muito tempo presa. Falou de imigra��o, porque de facto quase n�o podia falar de nada. E o que disse � puramente ideol�gico, uma receita pol�tica sem sentido, ou melhor, com um outro e mais perigoso sentido do que aquele que ele lhe deu.

Primeiro, falou contra quem? Contra o governo de que faz parte. Os jornalistas, que na sua simplicidade andaram a repetir o dia todo o que o PP lhes disse, que o discurso "seria pela positiva", n�o perceberam que um ministro n�o pode dizer aquelas coisas sem estar a falar contra o Minist�rio da Administra��o Interna do governo a que pertence. Aquela parte do discurso foi "pela negativa" (acho estas classifica��es uma treta, mas t�m uso corrente porque s�o enganadoramente simples...).

E depois, o mais grave: convinha que algu�m no PP, que saiba alguma coisa sobre imigra��o e emprego, dissesse ao dr. Portas que em Portugal, em 2003, essa correla��o n�o tem qualquer sentido. Os trabalhadores da Marinha Grande ou as oper�rias da Clark's n�o v�o trabalhar para a constru��o civil ou como empregadas dom�sticas. Os ucranianos e as cabo-verdianas, os moldavos e as s�o-tomenses n�o competem com os portugueses e as portuguesas nos empregos que t�m, a n�o ser residualmente. Mas a catilin�ria contra a imigra��o do dr. Portas nada tem a ver com o emprego. Tem a ver com um Portugal limpo de imigrantes, e por isso acaba por resultar num discurso contra os imigrantes, t�o pouco portugu�s que carece de sentido. � copiado da vulgata de Le Pen, do pior que h� , e escolhido, n�o porque constitua qualquer preocupa��o dos portugueses, mesmo dos da direita, mas apenas porque o dr. Portas n�o pode falar de quase coisa nenhuma e ele n�o quer ficar calado.

 


VOANDO

sobre um ninho de cucos.
Europeus.

13.9.03
 


EARLY MORNING BLUES 39

Foram os �Early Morning Blues� que deram o nome aos �Early Morning Blogs�. H� v�rios e em v�rias vers�es. Aqui est� uma dos The Monkees:


A distant night bird mocks the sun.
I wake as I have always done,
To freshly scented sycamore
And cold bare feet on hardwood floor.

My steaming coffee warms my face
I'm disappointed in the taste.
But there's a peace the early brings
The morning world of growing things.

I feel the moments hurry on
It was today, it's died away,
And now it is forever gone.

And I will drink my coffee slow
And I will watch my shadow grow
And disappear in firelight
And sleep alone again tonight.


*

Ontem, o Abrupto teve o seu recorde absoluto de visitas. Obrigado.

12.9.03
 


ONDE POUSAR?

 


V�RIA

Blogues em que aprendo, indica��es, grafismos, not�cias: o Sopa de Pedra, arejado e limpo. e o Retorta. S�o blogues que experimentam para n�s e experimentam por n�s.

*

Jo�o Carlos Costa escreve-me revelando o �segredo de Marcelo Rebelo de Sousa...�, para ler sessenta livros por m�s, um m�todo de leitura r�pida. Nem assim, nem assim. Experimente ler um dicion�rio.

*

Alexandre Monteiro enviou-me uma esp�cie de teoria das efem�rides:

"JPP escreveu: "(..) a equival�ncia do 11 de Setembro de 1973, o golpe de Pinochet, e o 11 de Setembro de 2001, os ataques da Al Qaeda aos EUA. A mera coloca��o, no mesmo plano de uma capa, das duas datas, ligando acontecimentos de natureza muito diversa, que nada une (..)"

Nada as une? Aconteceram na mesmo dia, do mesmo m�s. Ou ser� que tal liga��o n�o pode ser considerada factor unificador?

Ou ser� que se fecham os olhos a estes pormenores comezinhos, contudo evidentes, em nome de um manique�smo subjectivo? Por outro lado, o golpe de Estado de 1973 ocorreu at� h� um n�mero redondo de anos (30), o que o torna mais evocativo de acordo com as nossas apet�ncias por efem�rides, comemora��es e outras celebra��es quejandas... ou ser� que seria mais conveniente que se deixasse este acontecimento nas curvas da hist�ria? Ou duvida que, a n�o ter acontecido o ataque terrorista ao WTC, o golpe de Estado no Chile seria ainda mais recordado e enfatizado do que foi ontem - tendo sido, sen�o relegado para notas de rodap�, at� esquecido?

E porque n�o relembrar outros acontecimentos desse dia? Como o 11 de Setembro de 1814 em que os americanos ganharam a batalha naval do Lago Champlain? (Pode n�o ser muito relevante agora, mas foi-o para os Estados Unidos e para mim, que andei h� uns anos, a mergulhar no lago e a recuperar parte das barca�as afundadas ent�o num projecti do Lake Champlain Maritime Museum...) E porque n�o relembrar, on a lighter side, o nascimento do Moby e do Brian de Palma e, on a darker side, de Ferdinando Marcos? Ou o 11 de Setembro de 1297, em que William Wallace derrotou os ingleses na batalha Stirling Bridge (at� se fez um blockbuster sobre o tema e tudo..)? Ou falemos ent�o do massacre dos 3000 realistas, feito �s m�os de Oliver Cromwell em Drogheda, na Irlanda, no dia 11 de Setembro de 1649... ou evoquemos a invas�o das Honduras pelos Marines norte-americanos, em 1919.. ou o 11 de Setembro de 1939, em que o Iraque e a Ar�bia Saudita declararam guerra � Alemanha Nazi...

Afinal, porque h�-de ser este dia o dia em que S� se pode evocar o ataque ao WTC, e nada mais, como se o mundo tivesse parado de acontecer h� 2 anos atr�s?�


*

Filipe Gomes de Pina lembra, a prop�sito dos EUA , �a teoria de Maquievel segundo a qual um Principe temido � mais respeitado que um Principe amado."

"Naturalmente a ideia base � que n�o existe inconveniente algum em ser amado (situa��o que alguma Europa tenta arduamente e que os EUA deveriam sinceramente realizar um maior esfor�o por ser). Simplesmente sem ser temido (o que essa alguma Europa n�o quer perceber e os EUA pelos vistos percebem) � imposs�vel o respeito de grupos e organiza��es que neste novo mundo globalizado facilmente s�o tentados a tirar da� vantagem em preju�zo do mundo civilizado. � tamb�m um dos maiores desafios, seja em que dom�nio nos encontremos: conseguir ser simultaneamente temido e amado (s� Deus talvez o v� conseguindo, embora cada vez menos). Este pode ser tamb�m outro sub-tema: como ser amado e temido no mundo de hoje.�

*

E agora , apesar da irrita��o de alguns com os contadores de visitas, o Abrupto j� ultrapassou h� v�rios dias as 200000 consultas . No fim do m�s de Setembro , analisaremos estes n�meros.
 


EARLY MORNING BLOGS 38

A discuss�o sobre os �onze de Setembro� dominou os blogues ontem, o que � natural e mostrou as fracturas ideol�gicas, que s�o tamb�m fracturas da mem�ria, o que tamb�m � natural. O problema tem a ver com o �contexto� , como dizia o Satyricon, porque o �contexto� � do dom�nio da interpreta��o.

A blogosfera deve ser um dos �ltimos s�tios em que a discuss�o ainda se centra num forte pendor classificativo esquerda-direita, sobreviv�ncia da sua g�nese e de uma afirma��o forte de perten�a � direita ( que a Coluna Infame fazia) e do acantonamento da esquerda � volta do Blog de Esquerda. Hoje, a blogosfera pol�tica traduz uma realidade diferente desses primeiros tempos, com um n�mero mais significativo de blogues � esquerda. Seja como for, a heran�a da g�nese permanece num centramento excessivo nas classifica��es.

Os termos de direita-esquerda s� tem sentido se utilizados numa de duas perspectivas: ou filos�fico-antropol�gica (uma posi��o sobre a bondade ou a maldade original do homem) ou tradicional, envolvendo a mem�ria afectiva, colocando-se a bandeira em fun��o de uma tradi��o de actos e gestos do passado. No primeiro caso, a distin��o � filosoficamente sustent�vel, no segundo j� as ambiguidades da formula��o acabam por se revelar mais tarde ou mais cedo na discuss�o, em particular se forem cruzadas com outros conceitos como o de conservadorismo, tradi��o, revolu��o, etc.

(A classifica��o pela mem�ria, pela escolha de uma tradi��o, � que explica, por exemplo, que um blogue de esquerda como o Barnab� se chame �Barnab�. Ao principio, perguntei-me: que raio de nome, onde � que eles foram busc�-lo? A uma can��o de S�rgio Godinho. Est� escolhida a tradi��o.
As ambiguidades come�am quando Ivan Nunes escolhe A Praia, ou Paulo Varela Gomes, o Crist�v�o de Moura e nunca mais acabam. A tradi��o j� n�o � o que era. Nem a deles, nem a nossa, nem a nossa que foi deles, nem a deles que foi nossa. Nem a que nos faz dizer "eles" e "n�s".)



OS DOIS 11 DE SETEMBRO

No caso dos �onze de Setembro� o que me parece falsificar tudo � partida ( ou se se quiser ter logo � partida a resposta e n�o a pergunta) � a compara��o dos dois eventos. Ela remete de imediato para uma culpabilidade americana, directa no Chile e indirecta no terrorismo da Al Qaeda. Juntem-se os eventos e n�o pode dar outra coisa sen�o isto. Sendo que �isto� � exclusivamente uma interpreta��o do 11 de Setembro de 2001: a capa do P�blico n�o � sobre o golpe do Chile e (mais) sobre os atentados de Nova Iorque e Washington, � s� sobre os atentados e nada mais. Juntando-se, interpreta-se o 11 de Setembro de 2001 e n�o o 11 de Setembro de 1973.

Se se quer fazer o processo inverso, ou seja interpretar, trinta anos depois, o golpe de Pinochet, � luz do 11 de Setembro de 2001, ent�o a �nica compara��o que tem sentido �, como nalguns blogues de fazia, com a Cuba de Fidel. Saber porqu� a ditadura chilena acabou e a de Cuba continua. Se seguirmos este caminho, insisto, o inverso do que se nos prop�e quanto ao 11 de Setembro de 2001, ent�o o golpe de Pinochet � minimizado na sua import�ncia. � um caminho que n�o pretendo trilhar, mas que � necessariamente induzido pela compara��o, � um efeito perverso da compara��o entre 1973 e 2001.

11.9.03
 


11 DE SETEMBRO II

 


MORTE DE Z� LU�S NUNES

J� n�o o via h� algum tempo, o Z� Lu�s Nunes, que conhecera em Direito em 1967. Era aquilo que os ingleses chamam um �character� , uma personalidade, um homem feito por si pr�prio e n�o pela imita��o dos outros. O Z� Lu�s Nunes vinha de outros tempos. Sabia muita coisa, de Napole�o � gastronomia, e vivia naturalmente a bizarra combina��o de ser portuense, mon�rquico, ma��o e hedonista. A seu tempo, o PS correu-o das listas de deputados.

Manuel Alegre descreveu os dois aspectos sobre os quais toda a gente falaria primeiro porque identificavam o Z� Lu�s Nunes sem hesita��o. Um, o tique complicado com o nariz e que desafiava qualquer l�gica da economia dos gestos, mesmo obsessivos. O outro, a sua id�ntica obsess�o com as quest�es militares, que o faziam mais militar do que qualquer militar. Lembro-me de ter com ele uma discuss�o sobre qual era o equivalente civil da contin�ncia, e o que � que se devia fazer quando passava a bandeira. Ele seguia a pr�tica americana de colocar a m�o no peito.

.Antes do 25 de Abril, ele era socialista e eu maoista e, na altura, isso era uma diferen�a abissal. Mas foi ao Z� Lu�s Nunes que deixei, nos tempos da clandestinidade, uma procura��o para ser meu advogado, caso fosse preso. Nunca foi precisa, mas era uma prova de grande confian�a e amizade, de um para o outro.
 


PRESENTES

Um presente para a Formiga, que ela provavelmente j� conhece, o artigo de Brian Hayes, � In Search of the Optimal Scumsucking Bottomfeeder�, no �ltimo American Scientist.
 


CORREIO, MAIS UMA VEZ

Desta vez, com a caixa entupida por �your details� , �thank you�, e �wicked screensaver�, n�o entrou o correio enviado em parte do dia 9 e todo o de 10 de Setembro. Quem tiver mandado alguma coisa nesses dias e achar que se justifica repetir, � bem-vindo o reenvio.
 


11 DE SETEMBRO

Algu�m do P�blico anda a ler os blogues e encontrou aqui a inspira��o para fazer uma capa do jornal com uma mensagem pol�tica inadmiss�vel: a equival�ncia do 11 de Setembro de 1973, o golpe de Pinochet, e o 11 de Setembro de 2001, os ataques da Al Qaeda aos EUA. A mera coloca��o, no mesmo plano de uma capa, das duas datas, ligando acontecimentos de natureza muito diversa, que nada une, cujo significado pol�tico actual n�o � confund�vel, que remetem para realidades pol�ticas estruturalmente distintas, � todo um programa.

Na TSF, Jos� Manuel Pureza explicou aquilo que a capa do P�blico diz: tinha sentido associar os dois onze de Setembro pois estes estavam unidos pelo �expansionismo americano�. Est� tudo esclarecido. � uma forma de pensar pr�xima do negacionismo do holocausto. E campos de concentra��o ser� que houve?

10.9.03
 


EM BREVE

continua, como nas hist�rias aos quadradinhos, quando pousar outra vez. Vida de p�ssaro.

9.9.03
 


DESTINO

 


LIVROS: N�O H� FOME QUE N�O D� FARTURA

Depois de dois meses sem livros bruxelenses, l� se foi uma pequena fortuna na Waterstone's e na Tropismes, gasta com alegria. Entre os livros que comprei, dois t�m como objectivo a curto prazo o Abrupto. Um , uma hist�ria ilustrada da firma Delhaize, a grande cadeia de supermercados belgas, para escrever uma nota sobre o �meu� Delhaize, no bairro belga onde habito, um supermercado muito especial como v�o ver (ler). Outro que n�o � propriamente para ler, mas folhear, o Stupid Whitemen de Michael Moore, para escrever uma nota sobre o personagem, um clown moderno de que os radicais gostam muito.

Previno desde j� que n�o li nenhum dos livros que aqui nomeio, mas apenas refiro as raz�es porque os comprei. Este aviso tem algum sentido, porque, com alguma surpresa, vi Marcelo Rebelo de Sousa insistir na �ltima revista Os Meus Livros na fic��o de que l� sessenta livros por m�s, incluindo dicion�rios, monografias locais, livros de gest�o, hist�rias infantis. Diz ele na revista, acusando o toque dos c�pticos como eu, que sabem o que � ler livros e o tempo que demora, que n�o tem culpa dos outros lerem pouco porque dormem mais. Ele ler� as listas imensas de livros, que enumera no �li e gostei�, porque dorme pouco. Ser� que Marcelo acha que � o �nico que l� e que convence algu�m de que, mesmo sem dormir um minuto, se pode ler dois livros por dia? Estamos no dom�nio das lendas urbanas.

Comprei livros muito diferentes, por raz�es muito diferentes. Eis alguns deles: na fic��o o �ltimo livro de Coetzee, intitulado Elizabeth Costello. Desde que li Disgrace , passei a ler tudo de Coetzee, porque Disgrace � uma das grandes novelas contempor�neas. Depois, on the light side, o �ltimo livro de Robert Harris, Pompeii. De novo, porque gostei dos anteriores, do Fatherland, do Enigma e do Archangel. Nunca li nada de Harris, e acho que li quase tudo, sem ter a sensa��o, que costuma ser descrita nos elogios da contracapa, de n�o conseguir parar.

Na n�o-fic��o, comprei uma tradu��o francesa de Peter Handke, intitulada Autour du Grand Tribunal sobre os julgamentos do TPI em Haia, e um livro de Haruki Murakami intitulado Underground sobre os ataques com sarin no metro de T�quio. N�o sei se este livro � bom ou mau, mas o subt�tulo �The Tokyo gas attack and the Japanese psyche� interessou-me, porque dificilmente tenho mais a impress�o da alteridade cultural do que quando vejo qualquer coisa japonesa. Filmes, banda desenhada, anime, desenhos animados. Aquilo � outro mundo com um tra�o de sado-masoquismo e de viol�ncia muito alheio � cultura ocidental. Como n�o os percebo, interessam-me.
 


FESTA DO AVANTE (Actualizado)

Compras e vendas. Na primeira Festa do Avante! o grande must era o "bon� � Lenine". "Olha a Festa do bon� � Lenine", "camaradas comprai o bon� � Lenine".

*

Joao A. recorda: "numa festa do Avante, l� para os idos de 80, numa daquelas bancas exteriores ao recinto, vendiam reprodu��es do "�ngelus" do pintor Jeran-Fran�ois Milet (um casal de camponeses em ora��o) com o preg�o: "Olha a Reforma Agr�ria!"

 


GALILEO (Actualizado)

No dia 21 deste m�s, morre de morte natural, embora violenta, um dos mais eficazes objectos jamais constru�dos pelo homem: a sonda Galileo. Lan�ada em 1989, chegou a J�piter em 1995, e o que viu, �sentiu�, fotografou, revolucionou o nosso conhecimento do sistema solar. Mesmo antes de morrer, derretida na atmosfera, observar� Amaltea, um pouco conhecido sat�lite de J�piter. H� um artigo muito interessante na �ltima Astronomy intitulado �The long goodbye� sobre os seus feitos.

A minha grande nostalgia do futuro � esta, a conquista do espa�o. N�o chego a tempo.

*

Maradona chama aten��o para " este artigo da New Yorker sobre a maravilhosa odisseia da Galileo Orbiter tem o m�rito adicional de dar uma ideia absolutamente impag�vel daquilo que � o trabalho das pessoas que lidam com esses maravilhosos objectos."

8.9.03
 


UMA TRAG�DIA



N�o pude ler muito do que aqui se tem escrito, mas pareceram-me escassas as refer�ncias � crise do chamado �roteiro para a paz� no M�dio Oriente, uma verdadeira trag�dia se se confirmar. O plano n�o era apenas um �plano americano�, mas sim da UE e da R�ssia. Os EUA n�o estavam s�s, embora, como de costume, s� a influ�ncia dos americanos contasse nos dois lados do conflito.

Sem o �roteiro para a paz� n�o h� qualquer outro plano alternativo, nem se imagina de onde possa vir qualquer outra iniciativa a favor da paz a curto prazo. Sem �roteiro� s� h� dois desenvolvimentos poss�veis: ou uma cont�nua degenera��o da situa��o com ac��es militares punitivas israelitas e atentados suicidas pontuais dos v�rios grupos terroristas, ou Israel resolve tentar a extermina��o completa do Hamas, invade a faixa de Gaza, avan�a com o muro, anexa ilegalmente os territ�rios ocupados onde h� colonatos e acaba com a relativa autonomia dos palestinianos. N�o � brilhante.

Por isso, o sil�ncio � ensurdecedor, em particular dos opositores e cr�ticos portugueses do plano, que sempre desejaram o seu fracasso e que seria interessante dizerem-nos se agora se est� melhor e como � que se sai desta situa��o .

7.9.03
 


FLASHBACK

Embora falando em causa pr�pria, e antes da eventual migra��o do Flashback para fora da TSF, h� um aspecto em que penso o programa ter sido �nico � o facto de n�o ter sido renovado, a n�o ser por motivos de for�a maior, o de ter permanecido igual durante tanto tempo, o facto de n�o ter novidades, de ser previs�vel, de toda a gente que o ouvia conhecer bem o estilo de cada um dos intervenientes e as suas posi��es.

� significativo que nos blogues de jornalistas (como o Gl�ria F�cil) o programa tenha sido criticado exactamente com os mesmos argumentos que a actual direc��o da TSF usou: a necessidade de �renova��o�. Ora � isso que penso constituir um dos seus aspectos mais originais e um elemento do seu sucesso num hor�rio muito dif�cil, domingo ao fim da manh�. Sim, porque o Flashback tinha uma audi�ncia acima da TSF (vejam-se os n�meros publicados na �ltima Focus, TSF 0,3 , Flashback 0,9) e nenhuma raz�o de audi�ncia justificava o seu fim .

Um dos aspectos dos mecanismos medi�ticos de hoje � a cont�nua produ��o de novidade. O Flashback contrariava essa l�gica com uma continuidade de mais de uma dezena de anos. Exactamente por isso funcionava de outra maneira, pela habitua��o, pelo �crescer com�, que tantas cartas que recebi referem como tendo marcado os seus ouvintes, pela identifica��o de sectores do p�blico com A ou B ou C dos seus intervenientes. Para al�m disso, � uma f�rmula dif�cil de repetir: leva pelo menos dez anos a ter um produto semelhante.
 


BIG BROTHER

Vi, pela primeira vez, uma parte desta s�rie do Big Brother. Tenho imenso pena de n�o ter oportunidade de ver tudo, porque isto dava um grande livro, � anglo-sax�nica, divertido de fazer, como uma esp�cie de di�rio da coisa, porque n�o h� imagem, nem palavras que n�o tenham interesse para analisar e discutir. H� ali todo um mundo. Devo dizer-vos que este programa est� muito bem feito, muito bem feito. � trash mas � bom.
 


EARLY MORNING BLOGS 37 II







O opiniondesmaker pergunta: "E j� agora caro Abrupto, com que bichito do Bosch � que voc� se identifica mais ?..."
Com este.

 


EARLY MORNING BLOGS 37

N�s pensamos que nos quadros de Bosch j� tinhamos visto tudo, figura estranha a figura bizarra a figura absolutamente inclassific�vel a figura n�o sei o que dizer dela. Longe disso. Comprei um livro sobre Bosch que recomendo a todos, antes de tudo pelas reprodu��es ampliadas de mil e um pormenores escondidos pela repeti��o obsessiva num canto qualquer. O livro intitula-se Bosch , � de Laurinda Dixon, e � editado pela Phaidon.
Para se ver at� que ponto Bosch era um vision�rio, l� encontrei, num canto do jardim das del�cias terrestres, este magn�fico retrato da blogosfera.


E como livros e blogues pela manh� combinam ("I love the smell of napalm in the morning", belo nome para um blogue) leiam uma pequena edi��o muito bem feita da Dom Quixote de Uma Antologia da Poesia Er�tica de Bocage. O melhor e imediato milagre de nos reconciliarmos instantaneamente com a p�tria � a poesia portuguesa. Se estiv�ssemos no tempo da Arc�dia a blogosfera seria em verso e parecida com a �Ribeirada� ou a �Empresa nocturna�. Em pior, mas parecida.

6.9.03
 


SILENTE

 


COM QUEM FALAMOS QUANDO FALAMOS DO BE

Na discuss�o, iniciada com a nota �N�o vi e continuo a n�o ver�, de 2 de Setembro, ficou adiada a �ltima parte que aqui reproduzo:

�Fica de fora desta controv�rsia a quest�o de fundo sobre se � compar�vel a extrema esquerda e a extrema direita, suscitada em perguntas como esta do Terras do Nunca - "se se podem fazer equivaler, por exemplo, as posi��es neo - nazis �s de partidos parlamentares como o BE"?.- porque a resposta implica todo um outro debate , a que voltarei noutra altura. Devo desde j� dizer que, formulada a quest�o doutra maneira, a minha resposta � sim.�

O adiamento da resposta suscitou algumas impaci�ncias, � na blogosfera h� muita impaci�ncia �, mas eu entendo este meio como sendo incremental, dada a sua natureza fragment�ria, e acrescento hoje mais alguns elementos sobre a raz�o porque dei aquele sim. A resposta � pergunta do Terras do Nunca implica, at� pelo seu car�cter pol�mico, uma s�rie de argumentos todos � volta de tr�s quest�es: ideologia ou �interpreta��o do mundo�, posi��o face � democracia e m�todos revolucion�rios (apologia da viol�ncia como meio de transforma��o pol�tica). � pela an�lise destes elementos, todos eles firmemente ancorados na hist�ria pol�tica do s�culo XX, que se pode chegar � an�lise e compara��o dos extremismos de direita e de esquerda.

O BLOCO DE ESQUERDA

O exemplo que o Terras do Nunca referiu foi o Bloco de Esquerda (BE), a mais importante coliga��o de grupos radicais da extrema-esquerda em Portugal Ora, uma das caracter�sticas dos grupos extremistas � exactamente estarem sempre a dizer-nos que n�o o s�o. A caracteriza��o do BE � um condi��o sine qua non para prosseguir a discuss�o � o que � que pensam os seus dirigentes, quais os seus programas

Mas para sanear a quest�o conv�m ver do que estamos a falar, porque o BE � uma frente eleitoral e parlamentar que re�ne v�rios partidos, que tem programas e estatutos definidos e, qualquer an�lise do BE assente apenas na sua imagem parlamentar e medi�tica, seria errada. O BE faz um enorme esfor�o para criar um ecr� interpretativo e para esconder todo um aspecto da actividade dos seus am�veis e simp�ticos l�deres, que � sistematicamente deixada fora da aten��o p�blica porque n�o d� jeito. Como muitas vezes acontece nas pol�ticas, o combate � pelas palavras que designam e o BE quer controlar o modo como � designado. �s vezes, nesse esfor�o toma os outros por parvos

O BE � uma alian�a pol�tica e eleitoral de v�rios partidos e grupos, com domina��o da UDP e PSR. Come�a porque n�o lhes convem muito nomear esta realidade. A tradi��o desses partidos � a do marxismo-leninismo pol�tico e organizacional, embora divirjam em duas correntes distintas uma maoista e outra trotsquista. Deixarei a an�lise da UDP para outra ocasi�o, fico-me agora com o PSR. O PSR � um partido fundamental do BE n�o s� pela figura medi�tica do seu dirigente Lou�a, como pela influ�ncia dos seus temas alternativos na conquista de influ�ncia junto dos intelectuais e dos jovens. A UDP tem uma composi��o mais oper�ria e popular, mas com o seu sisudo dogmatismo dificilmente seria a face do BE. A UDP � mais importante do que se pensa no BE pela sua implanta��o social nas antigas zonas de hegemonia comunista, mas � o PSR que d� ao BE o tom radical chic .

PSR

O que � que � o PSR hoje? Na resposta r�pida , porque n�o � dif�cil de dar, utilizo apenas documentos actuais, para que ningu�m pense que isto � hist�ria passada. O PSR � a sec��o portuguesa da IV Internacional, uma organiza��o comunista ao modelo da III Internacional criado por Lenine. As suas ideias, o seu pensamento organizacional, derivam da tradi��o marxista-leninista e do pensamento de Trotsky, uma das variantes mais radicais da hist�ria do comunismo no s�culo XIX. Enquanto c� o PSR usa como s�mbolo uma in�cua estrelinha com design moderno, na Internacional o seu s�mbolo � uma foice e um martelo com um quatro por cima e o retrato de Trotsky . � este o s�mbolo que o PSR usa nas realiza��es internacionais, como se pode ver aqui

Quais s�o as linhas gerais dos seus documentos program�ticos mais importantes, o Manifesto Pol�tico e os Estatutos?

1) O estalinismo � entendido apenas como uma �usurpa��o� do conte�do benigno da revolu��o russa e do leninismo:

O estalinismo � o nome dado � usurpa��o do poder revolucion�rio por uma clique burocr�tica no final dos anos 20 e � contra-revolu��o burocr�tica, na URSS dos anos 30, que se prolongou na cria��o de uma correia de obedi�ncia internacional que o novo regime instaurou.� (Manifesto)

2) O Manifesto tem uma vers�o a�ucarada da �revolu��o socialista� como �ruptura pol�tica� , sendo omisso quanto � quest�o da viol�ncia

O eixo deste partido � um programa alternativo para a sociedade: a revolu��o socialista como ruptura pol�tica - protagonizada pela participa��o activa da maioria da popula��o - que instaure uma democracia assente em mecanismos de participa��o e representatividades directa e indirecta, consagrando o princ�pio republicano contra a prepot�ncia e a burocracia e constituindo o poder dos trabalhadores. A auto-organiza��o e auto-gest�o dos produtores e a sua articula��o com a organiza��o democr�tica dos consumidores � a condi��o para a gest�o econ�mica e pol�tica assente na cidadania. Um novo contrato social entre os sexos, assente na partilha de todas as responsabilidades, � o pressuposto para o exerc�cio dessa cidadania.� (Manifesto)

mas os Estatutos s�o muito claros (num partido e numa internacional leninista s�o os Estatutos o documento fundamental para a ades�o, por isso os Estatutos do PSR tem que ser conformes com a IV Internacional )

O PSR � a sec��o portuguesa da IV Internacional. O seu objectivo � a revolu��o socialista que destrua o sistema capitalista e a explora��o do Homem pelo Homem, criando as bases para o desenvolvimento de uma sociedade socialista, iniciando a destrui��o do Estado pela instaura��o da mais ampla democracia social e pela associa��o livre dos produtores. A ades�o a IV Internacional baseia-se no acordo com os seus princ�pios program�ticos: os documentos fundacionais dos Congressos da Internacional Comunista, da oposi��o anti-estalinista e da funda��o e dos Congressos Mundiais da IV Internacional, nomeadamente a resolu��o "Democracia Socialista e Ditadura do Proletariado". (Estatutos)

3) Identidade pol�tica baseado no trotsquismo e na IV Internacional por ele criada

Foi o compromisso internacionalista que levou Trotsky, dirigente da revolu��o russa perseguido por Estaline, a fundar em 1938 a Quarta Internacional. A Quarta Internacional, de que o PSR � a sec��o portuguesa, � hoje o lugar de encontro de experi�ncias e an�lises dos momentos de luta, mantendo vivas as li��es essenciais da hist�ria do movimento dos trabalhadores. � (Manifesto)

Qualquer an�lise hist�rica e pol�tica do que escreveu e fez Trotsky encontra os elementos comuns com a tradi��o marxista-leninista ,incluindo os que estiveram na g�nese do estalinismo, a defesa do terror revolucion�rio como instrumento pol�tico, a afirma��o da viol�ncia como instrumento da revolu��o, a defesa da ditadura do proletariado, a repress�o das liberdades �burguesas�, etc. , etc. Para al�m disso, a descri��o da IV Internacional como "um lugar de encontro" � uma pura mistifica��o.

4) Afirma��o do centralismo democr�tico como mecanismo central do funcionamento do partido. Embora Trotsky se afastasse do modelo partid�rio dos partidos comunistas cl�ssicos, aceitando por exemplo a exist�ncia de frac��es, nem por isso no essencial o modelo das organiza��es da IV Internacional deixou de ter o centralismo democr�tico como base organizativa. Aqui tamb�m o Manifesto � soft e os Estatutos s�o hard

O PSR � portador de uma tradi��o revolucion�ria de oposi��o aos partidos-Estado, burocratizados e repressivos, do estalinismo. Essa tradi��o imp�e o rigor constitutivo do seu funcionamento democr�tico - o direito de livre-express�o de opini�o, a estrutura��o respons�vel e a decis�o colectiva para a ac��o unit�ria, que s�o princ�pios leninistas actuais e aplic�veis. �(Manifesto)

19.O funcionamento interno do PSR rege-se pelos princ�pios do centralismo democr�tico: liberdade absoluta na discuss�o, unidade absoluta na ac��o em tudo o que diz respeito a interven��o partid�ria fundamental. Estes princ�pios expressam-se pela exist�ncia de uma direc��o colectiva eleita, pela participa��o dos militantes na elabora��o da linha pol�tica do Partido, pela tomada de decis�es atrav�s do debate democr�tico e vota��o maiorit�ria e pelo controle dos organismos de direc��o pela base.
20.Os organismos do Partido aplicam as decis�es tomadas em organismos superiores
.� (Estatutos)

� com este grupo e com estas posi��es que se tem que ter em conta quando se fala do BE.
 


MUITO, MUITO EM BREVE

Continua��o da discuss�o sobre a extrema-esquerda e extrema-direita, com um texto sobre o BE e o PSR.

5.9.03
 


PROPAGANDA

A RTP 2 passa nesta altura um t�pico filme de propaganda pol�tica sobre os zapatistas, um movimento militar e para-militar mexicano, chefiado por um intelectual que se apresenta tradicionalmente com a cara coberta com um passa-montanha, com um cachimbo, armado e que se intitula �subcomandante Marcos�. O filme � completamente acr�tico, pura propaganda, mas, como se trata dos ��ltimos guevaristas�, est� tudo bem.
Uma das �ltimas cenas v�-se uma montagem em que Marcos come�a a tirar o passa-montanha e depois aparece uma cara de um menino e a seguir um velho e depois uma rapariga ind�a, ou seja, todo o povo � � o subcomandante. �s vezes fica-se com a impress�o de que ningu�m aprendeu nada nos �ltimos quarenta anos.
 


RESPIRA��O

 


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES

Durante uma semana n�o tive acesso ao correio electr�nico enviado para o Abrupto e por isso recebi-o por junto. Talvez pela acumula��o � mais n�tida a qualidade de muitos coment�rios e cr�ticas, a que se acrescentam outras notas em diferentes blogues. Agrade�o aos seus autores pela indica��o que me fazem chegar do que � publicado sobre o Abrupto noutros blogues, com a certeza que todos s�o lidos e o que dizem tido em conta.

Alguns dos coment�rios recebidos por carta s�o a seguir publicados. Por regra identifiquei os seus autores por inicias, pois nem sempre a assinatura do interior correspondia ao endere�o do correio. De qualquer modo, se algum dos autores destes coment�rios me assinalar em que nome os pretende assinar eu substituirei as iniciais.

As entradas est�o ordenadas da nota mais recente para a mais antiga.

LINHA EDITORIAL?

Durante o per�odo das inspec��es ao Iraque e posterior guerra, vivi em Madrid, onde tive oportunidade de ler os v�rios jornais l� editados (El Pa�s, La Raz�n, La Vanguardia, El Mundo, etc.). O que fundamentalmente reparei, al�m do conte�do, foi um claro posicionamento de cada jornal relativo ao conflito, mais especificamente nos editoriais e artigos de opini�o, uns mais � direita, outros mais � esquerda.(�) Mas estes posicionamentos n�o impedir�o um pouco o debate de ideias dentro dos meios de comunica��es sociais? Nos jornais at� veria a solu��o, ali�s existente, de o debate ser, por exemplo, entre linhas editoriais de dois jornais, fazendo refer�ncias m�tuas. Mas no caso das r�dios e das televis�es, j� n�o me parece que funcionasse t�o bem.�

(R. R.)

N�O VI E CONTINUO A N�O VER

Estive em G�nova como em muitos outros desses s�tios, n�o com o bloco nem com o pc nem com a attac, e alguns desses s�tios participei nesses motins, e sobre eles digo-lhe apenas que o seu cepticismo em rela��o aos media deveria abranger todas as descri��es do que se passou, se estiver eventualmente interessado posso-lhe fazer chegar a si outros relatos do que aconteceu. Em nenhuma dessas situa��es foi algu�m atacado ou espancado.
Nunca ouvi nem conheci nenhuma hist�ria ou relato de um ataque f�sico a alguma pessoa por ser "burguesa" ou capitalista. Nunca os encontros violentos com a pol�cia assumiram contornos de tortura ou de viol�ncia gratuita (a n�o ser por parte da policia). Poder� discordar totalmente com a destrui��o de (e da) propriedade privada enquanto m�todo para criar um mundo mais justo, mas creio que ser� bastante f�cil distinguir viol�ncia contra objectos, mercadorias e lojas de viol�ncia contra pessoas.�


(leitor identificado)

PARECERES

Tamb�m li uma not�cia sobre os 300 pareceres. No Expresso desta semana era uma �curta� da �ltima p�gina e o t�tulo era exactamente � Constitui��o Europeia � Parlamento pede 300 pareceres�. Desde logo me perguntei onde teriam arranjado em Portugal 300 constitucionalistas, ou mesmo 300 professores de direito aptos a dar pareceres. Depois preocupei-me vagamente com o or�amento da Assembleia que ia ficar muito mal tratado. O texto do artigo sossegou-me um pouco e tira alguma, mas s� alguma, raz�o ao seu coment�rio. Afinal foram pedidos Pareceres � tal sociedade civil � n�o sei se as cartas foram enviadas para o Canal 2...
Segundo o Expresso os destinat�rios das cartas s�o as Universidades, sindicatos, parceiros com assento na Concerta��o Social, associa��es de estudantes � ou n�o fosse o Ant�nio Jos� Seguro a tomar a iniciativa � associa��es ambientais, plataformas de mulheres e Conselho Nacional de Juventude, entre outros. Pode ser que afinal n�o seja assim t�o tecnicista e esteja totalmente entregue �s minud�ncias dos professores de direito.�


(T.B.)

RENTR�E LITT�RAIRE

N�o se pode em caso algum dizer mal de tudo o que � franc�s (com excep��o da obsess�o anti-americana dos franceses), e deve-se sobretudo apreciar a qualidade do ensino secund�rio franc�s. Neste aprende-se a pensar. No portugu�s aprende-se a memorizar. No primeiro adquirem-se conhecimentos essenciais. No segundo impingem-nos factos e dados absolutamente in�teis. Falo com conhecimento de causa. Frequentei o ensino secund�rio franc�s e estudei os programas de portugu�s do 12� ano de filosofia e hist�ria para poder fazer os exames de acesso � faculdade. A diferen�a era abismal. No ensino franc�s, em filosofia, por exemplo, estud�vamos temas sobre os quais t�nhamos de dissertar posteriormente. No ensino portugu�s obrigaram-me a estudar obras inteiras de autores, sendo-nos solicitado nos exames que despej�ssemos a opini�o de tal ou tal autor sobre este ou aquele tema. Num pens�vamos. No outro recit�vamos. Em hist�ria, no programa do 12� franc�s(1993) estudei as consequ�ncias da segunda guerra mundial, o per�odo da guerra fria, as descoloniza��es. Para os exames de acesso � Faculdade portuguesa estudei termos e m�todos de hist�ria. Seja l� o que isso for.

Escusado ser� dizer que a adapta��o ao ensino portugu�s foi verdadeiramente penosa. E isto de uma pessoa que nunca viveu noutro pa�s que n�o Portugal. � bom que n�o se diga mal de tudo o que � franc�s.�


(M. R.)

COSA MENTALE


N�o conhe�o [nunca estive junto a ele] o quadro que retrata o interior da igreja de S. Louren�o em Alkmaar. Nunca estive em Roterd�o e a reprodu��o que apresenta no seu blog � o �nico registo a que tive acesso.

Pieter Saenredam, contempor�neo de Jan Vermeer, Emmanuel de Witte e Gerard Houckgeest entre outros, fez parte da chamada Dutch Golden Age. Conjuntamente com os dois �ltimos P Saenredam foi considerado um especialista na arte da perspectiva sendo ami�de considerado o verdadeiro mestre.

N�o concordo com a sua vis�o persp�ctica deste quadro. Pior � o facto de ela p�r em causa uma parte do seu belo texto.

Taque 1 � Os homens, se colocados na zona da primeira porta, teriam um ter�o da altura desta. Parece-me razo�vel, at� para chegar ao ferrolho que se pode ver do lado direito (ferrolho que est� ainda mais para c� do plano vertical de refer�ncia da parede...).

Taque 2 � Os mesmos homens, se deslocados ao longo da horizontal de refer�ncia em que se encontram, fossem levados, por exemplo, para o Claustro, ficariam ali muito bem.

Taque 3 � A derradeira porta, no plano do fundo, � obviamente mais pequena do que aquela de que aqui falei. Mas, mesmo assim, n�o � demasiado pequena para que os nossos homens ali possam passar. S�o as leis da perspectiva.

Usei de alguns �truques� no Photo Shop, certo! Mas, penso que assim se torna mais f�cil explicar o que tinha para lhe dizer.�
(Comparar a imagem "tratada" com o original junto da nota "Cosa Mentale")

(F.)
 


EM BREVE

Cr�ticas e coment�rios a notas do Abrupto pelos seus leitores.

Nota sobre pol�ticos e reality shows , casos de Fran�a e Portugal.
 


� ESPERA


4.9.03
 


LIBRAIRIE DE L'AMATEUR

Devo a uma refer�ncia do Latinista Ilustre ter ido com o VGM � Librairie de l'Amateur em Estrasburgo. N�s j� t�nhamos corrido tudo o que era alfarrabista e passado v�rias vezes pela Rue des Orf�vres e nunca t�nhamos dado por ela, escondida no seu pequeno p�tio interior. O s�tio � do melhor estilo estrasburguense, um p�tio antigo , empedrado, para o qual d�o umas casas de tra�a medieval com as suas ripas de madeira cruzadas e a livraria � de amateur. N�o se pode querer mais. E tem um Aulio G�lio que eu procurava.

 


LINHA EDITORIAL?

(Na sequ�ncia da nota"N�o vi e continuo a n�o ver")

Sem querer avan�ar, para j�, muito mais na discuss�o , ela pr�pria um pouco viciada, sobre se os �rg�os de comunica��o social portugueses s�o de "direita" ou "esquerda" , duas das mais amb�guas palavras correntes no nosso vocabul�rio, acrescentaria um ponto que deveria ter colocado previamente e que talvez ajudasse a arrumar o debate. � quest�o de saber se os nosso �rg�os de comunica��o social tem uma orienta��o editorial que possa ser identificada?

Num ou noutro caso, t�m, ou pelo menos um embri�o de orienta��o, como se pode perceber no Independente. Mas a regra � n�o terem, o que explica uma certa esquizofrenia. Esta divide-se em duas variantes: uma, a de, num mesmo jornal, haver diversos editoriais, nalguns casos completamente contradit�rios, conforme os seus autores; outra, a de n�o existir consist�ncia entre a linha definida nos editoriais e o conte�do de diferentes sec��es, em particular as de pol�tica nacional e internacional.

Uma das raz�es porque me parece inaceit�vel, no caso portugu�s, julgar a "cor" pol�tica de um jornal pelos seus editoriais , � essa inconsist�ncia interior. No caso da guerra do Iraque, por exemplo, os editoriais do Di�rio de Not�cias eram �s vezes, pr�-coliga��o, mas o notici�rio di�rio era baseado nos artigos de Robert Fisk, not�rio opositor da interven��o, e cujos originais saiam num jornal ingl�s que tinha essa oposi��o como linha editorial.

� uma fragilidade da nossa comunica��o social essa aus�ncia de linhas editoriais claras e eu defendo a pr�tica anglo-sax�nica de os media tomarem posi��es p�blicas sobre mat�rias de pol�tica corrente. Contrariamente ao que se pensa , isso n�o prejudica em nada o pluralismo, e s� clarifica a rela��o com o leitor, ouvinte ou telespectador. A TSF, por exemplo, deveria t�-lo feito quando do conflito iraquiano, definindo editorialmente a sua posi��o contra a interven��o da coliga��o.
 


GNR

(Este � um complemento necess�rio do artigo que publiquei hoje no P�blico)

Como s� se l�em opini�es em contr�rio, e, da parte dos partidos que apoiam o governo, h� uma esp�cie de sil�ncio incomodado, fique bem claro que defendo o envio de for�as da GNR para o Iraque. A internacionaliza��o da presen�a de for�as armadas, militarizadas e de pol�cia � um elemento essencial no esfor�o de pacifica��o e estabiliza��o do Iraque, e � positivo que Portugal participe. O combate que l� se trava defende-nos a n�s aqui.

Essa participa��o deveria dar-se com um envio de um contingente das nossas for�as armadas, mas isso levantaria problemas com o Presidente da Republica que , discordando do governo , tem mantido uma posi��o equilibrada. No entanto, uma for�a militarizada como a GNR, com prepara��o especifica para a situa��o que vai encontrar, tamb�m contribui para ajudar a estabilizar a situa��o.

Digo isto sabendo que � uma miss�o com todos os riscos. Seria negativo se se tentasse esconder aos homens que para l� v�o, �s suas fam�lias e aos portugueses, de que � uma miss�o muito perigosa. Os homens que a GNR pode ter que defrontar no Iraque, preferir�o atingir os americanos, mas n�o hesitar�o em atingir seja quem for.

3.9.03
 


A VIOLA��O DO PACTO DE ESTABILIDADE PELA FRAN�A E ALEMANHA

� algo que deve ser seguido com muita aten��o, porque pode mostrar como s�o as rela��es de poder na UE nos dias de hoje, marcados por uma grande ret�rica europe�sta .

A Fran�a, que � um dos pa�ses que quer ir mais para a frente com a Constitui��o, de que se considera pai e m�e com a Alemanha, tem, a prop�sito da viola��o do Pacto de Estabilidade, com os seu d�ficit previsto e reincidente de 4% ,um discurso interno de absoluto desprezo pelo Pacto e de afirma��o unilateral dos interesses franceses. O Pacto foi proposto pela Alemanha e pela Fran�a com o objectivo de condicionar os pequenos pa�ses do Sul, Portugal inclusive, que tinham imagem de "gastadores", e podiam p�r em causa a estabilidade do euro. O Pacto prev� san��es e pesadas. Portugal foi amea�ado com elas ainda bem recentemente. Ora, n�o se v� que a Comiss�o mostre grande vontade de as aplicar � Fran�a e � Alemanha...
Isto � inadmiss�vel. Espera-se que Portugal tenha a m�xima firmeza, exigindo que, o que se aplica a Portugal, se aplica � Fran�a e � Alemanha. Se se admite a duplicidade numa mat�ria que n�o oferece qualquer ambiguidade, aceita-se a humilha��o.
 


CORREIO , DE NOVO

Devido �s �ltimas infec��es virais na rede, o servidor que utilizo fora de Portugal, ultra carregado de medidas de seguran�a, recusa-se a permitir-me ler seja o que for do correio da Telepac. L� para o fim da semana j� o poderei fazer. Por isso, se me enviaram alguma coisa de urgente, pe�o um pouco de paci�ncia.

2.9.03
 


N�O VI E CONTINUO A N�O VER

Seguem-se algumas breves notas a um coment�rio que o Terras do Nunca fez ao Early Morning Blogs de hoje . Infelizmente o tempo n�o d� para ir mais longe.

Terras do Nunca (TN) - "Por exemplo, no jornal em que JPP escreve (quase) todas as semanas, o respectivo director, Jos� Manuel Fernandes, comparou as manifesta��es anti-globaliza��o aos hooligans do futebol."

JPP - N�o � propriamente a mesma coisa , nem � a compara��o que eu disse que nunca vi: casseurs anti-globaliza��o, descritos amavelmente como "anarquistas", com os neo-nazis. Mas o Jos� Manuel Fernandes serve para justificar tudo, como se a sua mera exist�ncia e o que ele escreve, tivessem mudado num �pice o clima de esquerda que se vive na generalidade dos media portugueses. Jos� Manuel Fernandes � a excep��o que confirma a regra, n�o � a regra.. A pr�pria estranheza e hostilidade com que o Jos� Manuel Fernandes � tratado, mostra como o seu caso � isolado. Na realidade, as suas posi��es s�o claramente solit�rias , mesmo no P�blico, e a f�ria com que foi tornado um alvo, nos meses do conflito iraquiano, mostra at� que ponto muita gente n�o engole, passe o plebe�smo, que um director de um jornal possa quebrar o consenso, mais esquerdista do que de esquerda, dos media portugueses.

TN - "Na imprensa portuguesa, de resto, ao contr�rio do que se propagandeia, as teses da direita prevalecem actualmente sobre as da esquerda. Basta ler os editoriais. Eu sei que quanto aos extremos � um pouco diferente. "

JPP - Esta frase s� pode ser dita se se considerar que as posi��es de direita come�am imediatamente � esquerda de Manuel Alegre e se calhar incluindo-o. Se, em vez de direita, se nomeasse o bloco central, j� se podia discutir com alguma vantagem. Na verdade, as posi��es institucionais de alguns �rg�os de comunica��o social escrita, porque na televis�o j� � diferente, s�o pr�ximas do bloco central, quando o PSD est� no poder. Quando o PS est� no poder, s�o pr�ximas do PS. E, num caso e noutro, s�o pr�ximas do "soarismo" cl�ssico e n�o da sua actual vertente esquerdista. Insisto, posi��es institucionais, porque se se sair dos editoriais e se passar para tudo o resto, as background assumptions est�o todas na tradi��o esquerdista, mais at� do que da social-democracia de esquerda.

TN - "Mas se JPP quisesse usar da perspic�cia com que tantas vezes nos brinda, perceberia que os elogios � extrema-esquerda chique (leia-se Bloco) que surgem nesses jornais se destinam mais a achincalar a outra esquerda (leia-se PS) e a fazer o jogo da direita actualmente no poder."

JPP - De facto, a minha perspic�cia n�o chega para perceber que os elogios ao BE n�o s�o genuinos . A mim sempre me pareceram que s�o, se descontarmos os de Marcelo Rebelo de Sousa. Se se destinam "a achincalhar o PS" � natural , exactamente porque s�o genu�nos e quem os faz est� mais � esquerda do PS , ou ent�o gosta do radical chic do BE . Essas pessoas, mesmo quando votam no PS, tem a boa consci�ncia no BE. A tese de que os elogios ao BE se destinam " a fazer o jogo da direita actualmente no poder", n�o entra dentro da minha limitada perspic�cia, conhecendo-se quem os faz nas diferentes redac��es.

TN - "Ali�s, quanto a esta quest�o, convinha que JPP nos desse alguns esclarecimentos. Por exemplo, sobre se considera algumas posi��es do actual PP de direita ou de extrema-direita. "

JPP - O autor do Terras do Nunca sabe certamente o que tive ocasi�o de dizer, quando da constitui��o da coliga��o governamental e como votei solit�rio contra ela, exactamente por ter reservas de car�cter pol�tico e ideol�gico n�o quanto ao PP , mas ao partido unipessoal do Dr. Portas. Fi-lo quando a imprensa de esquerda dizia que era "excessivo" falar de extrema direita a prop�sito do dr. Portas. Evito repeti-lo agora, quando todos arrombam uma porta que j� est� aberta.

TN - "Tudo o que se tem escrito sobre as rela��es entre Paulo Portas e a religi�o � mais do dom�nio da direita ou da extrema-direita?"

JPP - A f� de cada um merece respeito e privacidade, sob condi��o de n�o ser usada como instrumento pol�tico. No caso da missa em mem�ria do militar morto em Timor, n�o estou certo se essa privacidade foi respeitada. J� noutros casos que conhe�o , como nos com�cios em Aveiro, em que o dr. Portas se persignava praticamente em p�blico, esta atitude j� me parece conden�vel. Mas n�o � a� que est� a extrema direita, a� existe apenas oportunismo pol�tico. Est� , por exemplo, em muitas outras coisas em que ningu�m reparou a tempo, como no apoio �s mil�cias populares de justiceiros , num outro Ver�o de imensos fogos, que a mem�ria curta de uma ou duas semanas ,em que vivemos na comunica��o social , j� esqueceu.

NOTA - Fica de fora desta controv�rsia a quest�o de fundo sobre se � compar�vel a extrema esquerda e a extrema direita, suscitada em perguntas como esta do Terras do Nunca - "se se podem fazer equivaler, por exemplo, as posi��es neo - nazis �s de partidos parlamentares como o BE"?.-, porque a resposta implica todo um outro debate , a que voltarei noutra altura. Devo desde j� dizer que, formulada a quest�o doutra maneira, a minha resposta � sim.
 


PARECERES?

Li, numa nota de Pedro Lomba no Di�rio de Not�cias, uma not�cia que me tinha passado despercebida, que a Assembleia da Rep�blica teria pedido cerca de 300 pareceres sobre a Constitui��o Europeia. A ser assim, estamos j� num caminho muito sinistro, isto para al�m da abund�ncia de pareceres... A ideia peregrina que a Constitui��o Europeia � uma quest�o de pareceres, supostamente t�cnicos, antes de ser uma quest�o pol�tica, mostra o modo como se pretende aborda-la: como um texto jur�dico in�cuo, para ser discutido nas suas minud�ncias pelos professores de direito. Como se, antes disso, depois disso e acima e abaixo disso, n�o estivessem em causa op��es pol�ticas de fundo, a come�ar pela pr�pria necessidade de haver uma Constitui��o e a sua legitimidade democr�tica, mat�ria que a Assembleia da Rep�blica nunca discutiu.

Isto j� deixando de lado a progressiva substitui��o de decis�es pol�ticas incomodas por pareceres de s�bios que n�o tem que responder perante o voto. Claro, conforme se escolhem os s�bios, conforme se tem os resultados pretendidos.
 


PORTO

 


RENTR�E LITT�RAIRE

Os franceses tem uma rentr�e litt�raire com pompa e circunst�ncia. Este ano, em Setembro, est�o previstas 700 obras de fic��o, originais e traduzidas, e 600 ensaios (n�meros da Lire ). � obra, isto � que � escrever! E no entanto... passeando os olhos por algumas destas novidades j� publicadas, nada me suscita um entusiasmo particular. Pode ser que esteja a ser injusto, porque h� aspectos da edi��o francesa muito interessantes, - por exemplo, na filosofia, nas ci�ncias sociais, em certas �reas de hist�ria, como na hist�ria antiga e medieval -, mas ao ver as estantes de novidades pejadas de romances e textos sobre a actualidade, t�o confrangedoramente superficiais, nada me anima �s compras. O anti - americanismo na n�o - fic��o � t�o obsessivo que todos os livros parecem iguais. E eu n�o preciso de um pretexto muito forte para comprar um livro...

Uma das raz�es deste meu desinteresse pela pr�pria literatura f�ccional, que , insisto, pode ser injusto num ou noutro caso, tem a ver com o car�cter claustrofobico da vida intelectual francesa, a sua falta de abertura ao exterior, o seu pequeno dinamismo , que n�o me d� indicadores de qualidade. A cr�tica liter�ria agressiva, a controv�rsia, � o que me aponta, no meio das centenas de livros, o que vale a pena ler. Em Fran�a , a n�o ser nos ocasionais esc�ndalos , como o de Catherine Millet, est�-se um pouco como em Portugal , � tudo bom. � uma diferen�a abissal com o corrosivo meio liter�rio anglo - sax�nico , como se v�, nestes dias, com as controv�rsias violentas � volta de Martin Amis e do Booker Prize.

S� PARA SE PERCEBER

a diferen�a, e para n�o parecer que digo mal de tudo o que � franc�s, veja-se a lista de livros que um aluno de franc�s do equivalente ao 11o. ano portugu�s, tem como leituras obrigat�rias este ano: de Shakespeare, Hamlet, Otelo, e Macbeth , a Metamorfose de Kafka, Andromaca de Racine, Escola das Mulheres de Moli�re, Pierre e Jean de Maupassant, o Estrangeiro de Camus, Huis Clos e As Moscas de Sartre.
 


EARLY MORNING BLOGS 36

Embora j� com algum atraso, n�o queria deixar de expressar a minha total concord�ncia com o que diz Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado sobre a duplicidade de tratamento da extrema - direita e da extrema - esquerda e das respectivas viol�ncias reais e simb�licas. Tenho sempre denunciado esse facto , t�o significativo da parcialidade de muito jornalismo contempor�neo. J� algu�m leu um editorial intitulado "o perigo do crescimento da viol�ncia anti - globalizadora"? J� algu�m viu tratar as destrui��es ocorridas, um pouco por todo o lado, sempre que h� uma confer�ncia do OMC, ou uma reuni�o do G8, com o mesmo excitado sentimento de perigo apocal�ptico com que uma arrua�a neo - nazi � tratada?

1.9.03
 


SEGUE DENTRO DE MOMENTOS

... o Abrupto. Quando pousar.

� Jos� Pacheco Pereira
In�cio
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